Um vestido rasgado e uma camisa amassada estavam jogados no chão, ao lado da cama do hotel.
Hanna Wheeler se viu presa por uma mão enorme e possessiva. Seus sentidos estavam completamente entorpecidos pelo efeito devastador de uma droga poderosa que se misturava à respiração quente e ofegante de um homem desconhecido.
Ela suportava a investida brutal dos beijos dele, sua voz rouca e seu corpo inteiro em chamas.
Uma mistura avassaladora de dor e prazer arrepiou toda a sua pele, e um desconforto intenso a atingiu entre as pernas.
Ainda assim, no meio daquela névoa mental, uma lembrança cruel veio à tona: seu noivo, Ryland Quinn, entregando-lhe uma taça de vinho, incentivado por sua irmã, Emerie Wheeler.
Se Ryland, aquele desgraçado, não a tivesse dopado, como ela teria invadido o quarto desse homem? Como estaria submetida a esse tormento absoluto?
O noivo gentil e atencioso que ela achava conhecer a havia traído da pior forma possível, e ele estava de caso com Emerie, a filha adotiva dos seus pais - algo além dos seus piores pesadelos.
Ele a havia drogado com um único objetivo: destruir a sua reputação para sempre. Se ela não tivesse conseguido fugir, teria sido jogada nas mãos de uma gangue de marginais nojentos.
Em estado de semiconsciência, ela trincou os dentes de ódio e sussurrou: "Ryland Quinn..."
O homem parou de repente, sua voz grave e gélida. "Hanna?"
Ele a conhecia?
Ela lutou com todas as forças para abrir os olhos, mas só conseguiu enxergar o olhar frio e avermelhado dele. Totalmente sem fôlego, se perdeu no ápice do êxtase e apoiou a cabeça no ombro do homem.
Tudo isso parecia um pesadelo terrível e sufocante.
Hanna não fazia ideia de quando perdera a consciência por completo após aquela intimidade intensa. Apenas sentia o corpo inteiro dolorido e um desconforto humilhante entre as pernas quando finalmente acordou.
Ela olhou para os lençóis bagunçados e para as marcas vermelhas e sugestivas em sua pele, as memórias da noite anterior inundando sua mente com violência.
Como pôde ter se entregado daquele jeito a um completo estranho?
Mas ele a havia chamado pelo nome. Ele sabia quem ela era!
O rosto de Hanna se fechou em uma expressão sombria.
Ela era a verdadeira filha da família Wheeler. No entanto, logo após o nascimento, foi levada por engano por outra família. Foi apenas aos dezoito anos que finalmente retornou para os Wheeler.
Porém, a família Wheeler a tratava com uma indiferença cruel. Em vez de acolhê-la, eles mimavam Emerie, a filha falsa. Seus cinco irmãos mais velhos sempre a tratavam como lixo e tomavam o partido de Emerie.
Apesar de tudo isso, Hanna nunca guardou rancor dos irmãos ou de Emerie. Mas agora que eles haviam conspirado para destruí-la, ela jurou para si mesma que não deixaria nenhum deles sair impune.
Será que aquele homem fazia parte desse plano doentio?
A luz do banheiro piscou de leve, acompanhada pelo som suave da água caindo que indicava que o homem continuava no banho.
Hanna vestiu roupas limpas que encontrou no quarto e apertou os lábios com força. Estava apavorada demais para perder tempo tentando descobrir a identidade dele. Tudo o que mais queria era fugir o mais rápido possível.
Ela caminhou na ponta dos pés em direção à saída, mas assim que alcançou a maçaneta, a porta do banheiro se abriu de supetão.
Uma voz grave e autoritária questionou: "Já vai embora? Eu disse que você podia sair?"
O rosto de Hanna perdeu toda a cor quando reconheceu as feições dele.
Como era possível? Ele era o tio de Ryland, Chris Willis, o líder implacável da poderosa família Willis!
Hanna recuou por puro instinto, mas ele agarrou seu pulso com brutalidade.
Ela arregalou os olhos em choque absoluto e encarou Chris. O corpo dele estava coberto apenas por uma toalha de banho, e seus cabelos escuros continuavam molhados. Gotas de água escorriam dos fios úmidos, passando pelo queixo marcado, pelos ombros largos, pelos músculos do peito até chegarem ao abdômen definido e poderoso. Era uma visão de tirar o fôlego.
Ele exibiu um sorriso de canto, mas com o olhar ainda congelante, e se inclinou, seu corpo enorme a prensando contra a parede. "Então, senhorita Wheeler, você me reconhece?"
Por mais que Hanna quisesse fingir que não o conhecia, era impossível mentir.
Ontem tinha sido o aniversário de Ryland, no qual ela foi apresentada a Chris. Ele era uma figura constante nos noticiários financeiros, um homem temido e conhecido em todo o país.
Como o grande chefe da família Willis, Chris tinha a reputação de ser um monstro cruel e sem coração. Inúmeras mulheres tentaram rastejar para sua cama ao longo dos anos, sonhando em se tornar sua esposa, mas nenhuma delas teve um final feliz.
Ah, não! Como ela foi provocar logo a fúria de Chris?
Em seus pensamentos, Hanna amaldiçoou Ryland com todos os palavrões possíveis. Ela jamais teria invadido o quarto de Chris para escapar daqueles bandidos se o ex-noivo não a tivesse dopado.
Agora que ele a havia capturado, o que ela faria para sobreviver?
"Senhor Willis... Há um pequeno mal-entendido aqui." Hanna lutou para manter a compostura, suas mãos tensas, e desviou o olhar de Chris, tentando ao máximo ficar calma. "Armaram para mim, e isso acabou envolvendo você sem querer. Podemos, talvez, deixar isso para lá como um mal-entendido?"
Armaram para ela?
Chris jogou-a no sofá com um ar de indiferença, seus olhos escurecendo. "O que é isso? Você foi vítima de uma armação logo na festa de aniversário de Ryland? Ryland, aquele inútil, não conseguiu nem proteger a própria noiva?"
Hanna cerrou os punhos novamente, cravando as unhas nas palmas das mãos.
Ele achava que ela o estava seduzindo deliberadamente?
Mas ele falou sobre Ryland em um tom desdenhoso. Parecia que ele e Ryland não se davam bem.
Chris, frio como sempre, raramente se importava com reuniões sociais. No dia anterior, ela havia presumido que ele se importava com Ryland porque compareceu à festa de aniversário do sobrinho.
Após uma pausa pensativa, Hanna disse cautelosamente: "Foi Ryland quem armou para mim. Ele pretendia me drogar e orquestrar um estupro para poder se livrar do nosso noivado e se aproximar da minha irmã..."
Antes que ela pudesse terminar, os olhos de Chris ficaram frios, e uma súbita aura de hostilidade o envolveu.
Hanna paralisou.
Ele estava irritado, suspeitando que ela estivesse difamando Ryland intencionalmente?
Dando um passo para trás, ela disse ansiosamente: "Se você duvida de mim, posso mostrar as provas!"
O homem a encarou, seus olhos suavizando-se um pouco. Após uma pausa carregada, perguntou, secamente: "Que provas?"
Aliviada, Hanna pegou seu celular e o conectou ao Wi-Fi do hotel. Tocando na tela, reproduziu o vídeo de vigilância.
Enquanto entregava o celular para Chris, ela falou com cuidado: "Fui de fato perseguida antes de invadir o quarto. Você pode investigar as identidades daquelas pessoas. Eu não tive a coragem de armar para você. Não vou trazer problemas para você. Você e eu ainda seremos estranhos assim que sairmos deste quarto. O que acha? No fim das contas, não é benéfico para nenhum de nós que isso venha a público."
Após um momento, Chris olhou para ela com um sorriso fraco. "Você invadiu o firewall do hotel?"
Hanna piscou, confusa com a pergunta, mas acenou com a cabeça. "Sim, o hotel não me daria o vídeo de vigilância. Como este hotel parece pertencer à família Quinn, tive que..."
"Senhorita Wheeler, você entendeu errado", ele interrompeu, com um leve sorriso nos lábios. "Este hotel é meu!"
Hanna foi pega de surpresa.
Ela havia hackeado o hotel de Chris bem na frente dele!
Oh Deus, as coisas acabaram de piorar!
Respirando fundo, ela se desculpou: "Desculpe, senhor Willis... Se você estiver disposto a deixar isso passar, compensarei você por quaisquer perdas. Apenas diga suas condições."
Hanna não queria ofendê-lo, então faria tudo ao seu alcance para consertar as coisas.
Ela achou que estava sendo sincera o suficiente, mas para sua surpresa, Chris estreitou os olhos, e um sorriso perigoso se formou. "Senhorita Wheeler, você está sugerindo que varramos a noite passada para debaixo do tapete?"
Hanna assentiu, pronta para resolver a situação, mas ele inesperadamente segurou o queixo dela com força.
"Por quem você me toma? Você acredita que podemos agir como se nada tivesse acontecido depois de um incidente desses?"
Ele deslizou o polegar pelos lábios dela, causando uma sensação de formigamento. "Hackear meu hotel é uma coisa, mas já que fomos íntimos, você me deve uma explicação!"
Uma explicação? O que estava passando pela cabeça dele?
Será que ele não estava satisfeito apenas com compensação material e tinha vontade de quebrar as mãos ou os pés dela?
Hanna estremeceu, rangendo os dentes enquanto murmurava: "Senhor Willis, você é bem cruel quando quer!"
Chris abaixou a cabeça, lançando-lhe um olhar hostil.
Seu aperto de repente se intensificou, causando uma dor aguda na mandíbula dela e forçando-a a encarar seu olhar frio.
Pronta para lutar até o fim, independentemente do resultado, Hanna foi totalmente pega de surpresa quando Chris soltou uma bomba que a deixou atônita por um bom tempo, sem conseguir sequer se mexer.
"E então? Qual é o grande problema em se casar comigo? Que cara é essa? Parece que você viu um fantasma!"
O sorriso de Chris deu calafrios na espinha dela. "Quando você estava noiva do meu sobrinho imprestável, não resistiu desse jeito."
Ele a puxou para perto, apertando o queixo dela. Com o nariz quase tocando o dela, perguntou: "Aos seus olhos, eu não sou tão bom quanto aquele moleque?"
Hanna congelou.
Um casamento?!
Ele enlouqueceu?
"Senhor Willis, não vamos fazer uma brincadeira dessas." Hanna tentou recuar. "Estou noiva do seu sobrinho agora..."
O olhar de Chris se tornou penetrante. "Ele armou para você, e você ainda quer se casar com ele?"
"Não. Eu não sou burra, pelo amor de Deus!" Hanna rebateu rapidamente. "Mas também não posso me casar com você!"
A expressão de Chris suavizou, mas logo se fechou ao ouvir as últimas palavras dela. "Por quê? Você tem algum problema comigo?"
Hanna balançou a cabeça. "Não. É apenas um pouco assustador estar perto de você."
Chris mordeu o lábio. "Você tem medo de mim? O que foi que eu te fiz?"
Hanna lutou para encontrar as palavras, surpresa por ele estar fazendo esse tipo de pergunta.
Sem saber o que responder, finalmente disse: "Bem... Todo mundo fica nervoso perto de você. Você não sabe?"
Na festa da noite passada, os figurões estavam pisando em ovos perto de Chris.
Chris cerrou os punhos e disse friamente: "Outras mulheres se casariam comigo de bom grado. Por que essa frieza da sua parte?"
Hanna ficou sem palavras novamente.
Ela estava à beira de um colapso e queria agarrá-lo pelo colarinho e perguntar: "Qual é a sua jogada?"
Mas o medo a conteve.
Olhando fundo nos olhos dele, ela respirou fundo e disse: "Senhor Willis, casamento... não é pouca coisa. Posso pensar sobre isso e dar minha resposta mais tarde?"
Chris olhou para a marca de nascença no ombro dela, assentiu levemente e tirou um cartão de visitas dourado. "Meu número está aí. Me ligue quando tiver se decidido."
Depois, se vestiu e saiu silenciosamente.
Hanna suspirou aliviada, guardou o cartão e se vestiu.
Assim que chegou chegou em casa, viu Emerie saindo do carro.
Ao ver Hanna, um lampejo de surpresa passou pelos olhos de Emerie.
Rapidamente, ela recuperou a compostura e fingiu estar preocupada. "Hanna, onde você estava ontem à noite? Por que desapareceu da festa de aniversário de Ryland? Todos nós ficamos preocupados com você..."
'Emerie ainda está fazendo teatro na minha frente? Acha que não sei que foi ideia dela Ryland me drogar?' Hanna pensou com desdém.
Vendo as marcas claras no pescoço de Emerie, Hanna se lembrou de que os arruaceiros mencionaram que Ryland estava se agarrando com sua amada. Agora, não sentia nada além de nojo por esse casal sem vergonha.
Antes que Emerie pudesse dizer mais alguma coisa, Hanna deu um tapa estrondoso no rosto dela.
"Eu sou uma Wheeler. Que direito você tem, como irmã adotiva, de meter o nariz nos meus assuntos?"
Sua palma vermelha mostrava que ela havia esbofeteado Emerie com muita força.
O rosto de Emerie estava inchado e seu cabelo desgrenhado, deixando-a com uma aparência completamente bagunçada.
Um toque de descrença apareceu nos olhos de Emerie, logo substituído por malícia e ferocidade.
Como essa caipira ousava esbofeteá-la?! Ela achava que podia mandar na família Wheeler depois de ficar com eles por tanto tempo?
Por que simplesmente não morreu lá fora? Por que tinha retornado para roubar sua identidade?
Emerie rangeu os dentes, prestes a falar, quando avistou uma figura nas escadas da mansão.
Sua expressão maliciosa desapareceu em um instante e ela fez papel de vítima. "Hanna, não tive a intenção. Você desapareceu a noite toda, e eu estava preocupada. Você é nova na cidade. Fiquei com medo de que fosse enganada. Afinal, você e Ryland estão prestes a se casar. Se algo acontecer com você, ambas as famílias serão afetadas."
Ela mordeu o lábio e acrescentou: "E correu o boato de que você saiu com um bando de caras. Eu... estava preocupada..."
Obviamente, estava insinuando que Hanna havia feito algo desagradável.
Hanna zombou, puxou o cabelo de Emerie e limpou a base no pescoço dela, revelando aquelas marcas de beijo.
"Por que se preocupar comigo? Você achou que eu iria me esfregar com aqueles caras a noite toda como você, jogando a decência para o alto?"
Aproximando-se do ouvido de Emerie, Hanna perguntou friamente: "Te deu um frio na barriga dormir com o seu futuro cunhado? Poupe-me do teatro. Não suporto aquele cara inútil, e estou encantada que você esteja feliz com ele!"
As pupilas de Emerie se dilataram de choque, e seu corpo tremeu involuntariamente.
Como diabos ela sabia?!