Prólogo.
Rhuan narrando
Eu já deveria ter aprendido que me deixar guiar pela tentação sempre causa problemas, mas quando acordo com o som de um choro de bebê, simplesmente me levanto no meio da madrugada e, sem me dar ao trabalho de colocar uma roupa mais comportada, deixo o meu quarto.
Com o coração um pouco acelerado por razões que prefiro não me aprofundar, desde que não posso fazer nada com a possível resposta, caminho sem fazer qualquer barulho em direção à ala dos empregados do palácio.
Eu só posso ter tido um tipo estranho de sonho.
Bebês?
Não há bebês no palácio. Ainda não, mas haverá quando eu me casar, algo que está muito perto de acontecer. Dessa vez, a cobrança será muito maior.
No nosso mundo, casamento é quase uma promessa de bebês, crianças que serão criadas como fomos criados: sem liberdade e sem poderem fazer escolhas próprias.
E queira Deus que essas crianças tenham sangue quente correndo nas veias e, assim como eu, pelo menos tentem respirar por conta própria, porque viver desse jeito e não ter um pingo de rebeldia, não é viver.
Embora a minha rebeldia, e tenho idade o suficiente para não negar a pessoa que eu era, tenha causado alguns problemas no decorrer da minha vida, foi ela que me fez chegar até aqui com a mente sã e ter pelo menos experimentado o gosto da liberdade por um tempo.
Eu pensei que estava completamente acostumado a essa altura da minha vida, e deveria estar acostumado, já que nasci em uma prisão, mas, no momento em que uma das escolhas mais importantes da minha vida está sendo feita por terceiros, uma escolha que me prenderá a alguém para sempre, começo a sentir que é impossível não me ressentir do sangue que corre nas minhas veias.
Não é como se eu pudesse fazer além do que já fiz, mas todos têm seus limites e sinto que o limite da paciência do rei foi superado.
Eu preciso fazer o que é certo.
Não pode ser de outra maneira.
É por não haver uma escolha que estou andando como um zumbi pelo palácio no meio da madrugada. Por não haver escolha que estou ouvindo algo que não existe.
Porque o bebê continua chorando e, se eu fosse um pouco mais jovem, estaria com medo de que fosse uma assombração assolando um palácio.
Embora a outra opção seja assumir que de fato há um bebê no palácio, algo pouco provável, porque eu saberia se tivesse, é a única opção válida.
Significa que não estou tão a par de tudo que acontece a minha volta como deveria estar.
A cada passo que me leva ao lugar onde ela dormia há dois anos, mais o meu coração acelera. Apesar de haver a desculpa dos sons que estão incomodando, sei que não é apenas por isso que estou vindo até aqui.
Por alguma razão, o palácio foi construído de uma forma que não há como uma pessoa esperar por privacidade. Na verdade, acho que foi de propósito, porque pessoas como nós não devem ter privacidade, nem dentro da própria casa.
Não dizem que somos do povo?
Acho que esse conceito é levado mais a sério do que deveria.
Por causa disso, meu quarto fica no andar de cima e embaixo está a ala dos empregados.
Não foram poucas as vezes em que dormi com o som dos passos dos empregados, enquanto cuidavam dos seus afazeres e andavam de um lado para o outro.
Se na adolescência ficava puto e tentava mudar de quarto, há alguns anos passei a prestar atenção nos sons e até mesmo a apreciá-los.
Tudo porque, no fundo, tinha a esperança de que conseguiria diferenciar os seus passos entre tantos. A ilusão de que ela era uma das pessoas indo e vindo. Uma ilusão tola, porque a mulher que fodeu com a minha cabeça sumiu há anos.
Ou, pelo menos, é o que digo para a minha consciência.
Claro que eu poderia a encontrar facilmente se colocasse esforços nesse sentido. Senti muita vontade de a perseguir no último momento, quando me questionei o que qualquer um de nós ganharia com isso.
Encontrá-la apenas me faria sofrer pelo que não posso ter, o que não pode ser. Encontrá-la faria com que eu me ressentisse ainda mais de quem sou e do que não posso ser.
Quando finalmente paro na frente da porta do quarto que a garota ocupava há alguns anos, percebo que não estou ficando louco, que não foi um pesadelo, e que na verdade realmente há uma criança chorando dentro do quarto.
Fico parado durante alguns segundos, apenas escutando os sons, que aos poucos começam a diminuir, sem qualquer tipo de reação.
A minha mente fica quase vazia e, no fundo, uma voz bem distante pede para que eu dê meia volta e me afaste. Essa voz sensata implora para que eu não faça o que estou pensando quando ergo o braço e seguro a fechadura da porta.
Seguro com força, como se a minha vida dependesse disso.
Então abro a porta e entro no cômodo que é três vezes menor do que o meu. Pequeno e simples, mas o que realmente chama a minha atenção é o berço no lado esquerdo.
Um berço branco e mais simples do que os poucos que vi na vida. Quase prendendo a respiração e suando por alguma razão, me aproximo do berço e quase caio para trás quando vejo o que sabia que veria: uma bebê chorando copiosamente.
Ela chora tanto que o seu rosto está vermelho. Suas mãos estão estendidas, parece que está implorando para que eu o pegue.
Com medo de a machucar ou deixar cair, a seguro contra o meu peito e o seu calor aquece o meu coração. Não demora mais do que alguns segundos para que o choro alto e copioso se torne um ruído baixo e com pequenos soluços.
- Isso aí, campeã. Não precisa chorar, porque você não está sozinha - falo baixo, quando meus lábios encontram a sua cabecinha de cabelos lisos e castanhos claros, quase loiros.
Durante um tempo, não faço ideia de onde vem a necessidade, fico apenas segurando a bebê nos meus braços e sentindo o seu coraçãozinho batendo contra o meu.
Quando a criança fica quieta demais, levanto a sua cabeça para checar se não está dormindo.
No momento em que o seu olhar encontra o meu, o baque que sofro é tão grande que sinto medo de a deixar cair no chão.
Eu estou completamente surpreso, porque, diante dos meus olhos, estou vendo olhos idênticos aos meus. É impossível que exista algo assim sem que haja uma explicação lógica.
- Você...
- Papa! - Olhando para mim, a menina que deve ter no máximo dois anos balbucia.
- Você quis dizer, papai?
- Papa - ela repete, agora com um sorrisinho no rosto, muito parecido com o meu.
Isso não pode ser possível, pode?
Antes que eu tenha tempo de deixar minha mente trabalhar com ideias e suposições que trariam sentido ao fato de eu estar segurando nos braços uma bebê que é uma cópia em miniatura de mim mesmo, escuto a voz que sempre ouço nos meus sonhos.
Sempre implorando.
Mais rápido.
Mais forte.
Me faça gozar.
Uma voz que eu reconheceria, mesmo se passasse um milhão de anos.
- Trouxe a sua mamadeira, amor. A mamãe não disse que não iria demorar?
Mamãe?
Agarrada a menina, como se ela fosse o próprio ar que respiro, olho para traz em direção à porta e a vejo.
Elena.
Minha linda, jovem e doce Elena.
A mulher que eu não deveria ter tocado.
A filha da empregada.
E, se eu não estiver ficando maluco, a mãe da minha filha bastarda.
A filha que eu não deveria ter.
Fale-me sobre escolhas equivocadas e eu poderia te dar uma lição de como fazer, pois, apesar de todos os obstáculos intransponíveis, a minha mente e o meu coração gritam:
Essa é a minha mulher.
Essa é a minha bebê.
Um grito que precisa ser ouvido, mesmo quando sei que não pode ser assim.
Porque eu sou o futuro rei e não posso ser pai da filha da empregada.
Eu não posso querer que ela seja a minha mulher.
Capítulo 1.
Elena narrando.
Eu vivo dentro de um conto de fadas desde os meus três anos de idade, mas não se engane, porque não é da forma que você está pensando.
Moro em um palácio medieval e gigantesco? Moro.
Estou sendo rodeada por um rei bondoso e por príncipes belíssimos? Estou.
Mas, nesse conto de fada, eu sou a gata borralheira.
Na verdade, a filha da empregada, uma das muitas empregadas que fazem parte do quadro de funcionários do castelo, tudo porque o próprio rei Otávio foi benevolente quando permitiu que uma das suas funcionárias trouxesse a filha de três anos para morar aqui quinze anos atrás.
Ele não quer que ninguém saiba, mas, por baixo dos seus sorrisos condescendentes e ensaiados, existe um coração que não é de gelo, não cem por cento.
E não é apenas por ter permitido que mamãe me trouxesse com ela, mas pude ver pequenos atos de bondade do monarca de perto e não posso deixar de admirar a forma como governa o reino de Solari.
Nada disso significa que não tem pulso firme e não sabe se impor. Acredito que são os seus dois lados que o tornam um ótimo governante.
É uma pena que algum dia ele terá que passar o legado adiante e, assim como eu, os seus súditos preferem não pensar no dia em que Rhuan assumirá o trono no lugar do pai.
Rhuan Vargas...
Lindo como um anjo, mas com a personalidade do demônio.
Ele é rebelde quando não deveria ser.
Durante anos a fio, ele tem feito tudo ao contrário do que é esperado.
Devo dar crédito ao príncipe, porque realmente acredito que tenta fazer o que é certo, mas nunca consegue ser discreto o suficiente para encobrir suas escapadas e escândalos com mulheres e bebidas.
Rhuan é um homem de trinta e seis anos. Todos esperam um pouco de responsabilidade e seriedade do futuro rei, mas o príncipe passa longe de alcançar as expectativas.
E, apesar de tudo isso, não consigo não ser completamente apaixonada por ele. Eu não tinha tido nem mesmo a minha primeira menstruação quando, aos onze anos de idade, comecei a dar um rosto para o príncipe das minhas ilusões tolas de que era uma princesa dos contos de fadas.
Eu poderia ter dado o rosto de um dos seus irmãos, os príncipes Ignácio e Javier, que são mais jovens e menos selvagens, mas eu era mesmo uma criança tola e fui colocar os olhos no mais perigoso e selvagem.
Conforme o tempo passou, mais minha mente criou fantasias e mais eu tive certeza de que ele seria o amor da minha vida para sempre.
Que grande bobagem!
Você deveria ter sido menos tola, garota! A voz da minha razão briga com minha versão mais jovem e mais burra.
Fantasiei tanto com o impossível que hoje estou aqui: no baile à fantasia que o rei está dando para buscar uma esposa para o príncipe Rhuan.
Antiquado? Com certeza, mas é algo mais do que comum quando se vive em um palácio de verdade. Eu não conheço outra realidade além dessa, embora minhas amigas do colégio não entendam como vivem os monarcas, para elas, o rei e sua família são quase de outro mundo.
Quando tinha dez anos, fui estudar em um colégio fora das terras do palácio, em um vilarejo cuja realidade é bem diferente dessa, mas nunca senti que de fato havia saído daqui, tanto que criei uma obsessão bizarra pelo príncipe mais velho e sempre procurei por notícias a respeito dele nos tabloides.
Mesmo criança, morria de ciúme das mulheres que eram fotografadas ao seu lado e eram apontadas como amantes, nunca namorada, porque todos sabem que príncipes se casam com propósitos, e entre eles não consta a opção de escolher a própria esposa.
O resultado de ter alimentado ilusões por um homem que jamais olhará para mim é o fato de ter chegado aos dezoito anos sem ao menos ter dado mais do que alguns beijinhos sem graça e sem sentimentos, porque nenhum dos garotos que me tocaram me fizeram sentir que eram a pessoa certa.
A pessoa certa para o meu tolo coração é errada para todo o resto.
Agora Rhuan está no centro do grande salão de bailes oficial, dançando com uma das garotas que possivelmente poderá ser sua noiva, caso seja a escolhida hoje.
Isso lembra o conto da Cinderela? Então... realmente é algo meio Cinderela, a diferença é que não há nada romântico na vida real, na verdade, chega mais perto de deprimente.
Aquela que está nos seus braços é tudo o que eu não sou: alta, magérrima e loira.
Acima de tudo, ela é filha de um barão, perfeitamente adequada para ocupar o cargo de esposa do futuro rei de Solari, caso seja escolhida. Na fila da qual ela faz parte, ainda existem pelo menos mais cinquenta mulheres.
Apesar do sorriso perfeito no rosto moreno, Rhuan Vargas parece tenso e nada feliz. Sei que a maioria das pessoas não está enxergando, mas comigo é diferente, porque sou aquela que passou metade da vida observando cada passo do príncipe como uma lunática.
- Não acha que está na hora de começar a circular pelo salão? - Ouço a voz da minha mãe, que não poderia deixar de vir até a ala lateral para me cutucar.
Apesar de ter preferido não encher os meus ouvidos por causa da obsessão maluca que tenho pelo Rhuan, sei que a mamãe está ciente de que ela existe e que no fundo se preocupa comigo.
Na maior parte do tempo, sou a filha que qualquer mãe gostaria de ter, mas aposto que nenhuma mãe gostaria de lidar com a filha apaixonada pelo príncipe herdeiro, não quando essa filha é apenas mais uma plebeia no palácio.
Ela não quer me ver sofrendo por causa de uma paixão sem sentido e impossível. A boa notícia é que, apesar de não conseguir evitar, estou ciente de que nunca ficarei com o príncipe.
Nesse conto de fadas da vida real, não sou aquela que viveu feliz para sempre com o mocinho.
Sempre que me perco em pensamentos por causa dele, mamãe encontra uma forma de me cutucar e me fazer acordar.
Ela não precisa de palavras para que eu entenda que está apenas tentando me resgatar das garras da ilusão.
Por isso e por muito mais, a amo.
Juana foi mãe e pai quando o meu progenitor a engravidou em uma noite qualquer e depois desapareceu da sua vida.
Minha mãe poderia ter exigido que o homem cumprisse com as suas responsabilidades, mas nunca pôde fazer o que era certo, porque ela nunca soube algo além do nome do homem.
Mesmo depois de anos, mamãe não gosta que eu fale sobre Victor. Esse era o seu nome, e toda a informação que sei a seu respeito.
- Mamãe, por que a senhora não faz isso por mim?
Hoje estou por perto apenas para dar suporte para a minha mãe, pois, apesar de ser a filha da governanta, ela nunca quis que eu fosse resumida a esse fato.
Na verdade, mamãe me colocou para estudar em um colégio fora do Reino, para que eu pudesse sentir como era a vida do outro lado e poder escolher simplesmente partir quando me tornasse adulta.
O problema é que, diferentemente do que ela acredita, nunca me ressenti do fato de ser apenas a filha da empregada dentro de um palácio cheio de riquezas. Eu nunca me senti a pior de todas as garotas da minha idade, apenas por ser pobre.
Na verdade, gosto do que sou e sei que a vida na monarquia está longe de ser apenas glamour e belos bailes como esse.
Fora a impossibilidade de ficar com o príncipe Rhuan, a menos que ele enlouqueça um dia e queira passar um tempo com uma plebeia, gosto da minha vida e da pessoa que sou.
- Não estou pedindo para você pegar uma bandeja e servir bebidas para eles, estou dizendo que não pode ficar desse jeito, olhando para o príncipe sem piscar, como uma mulher obcecada.
- Eu não estou fazendo isso, mãe - nego a verdade, mas mamãe sabe que é isso que estou fazendo.
- Então saia e vá para o seu quarto. Não quero que seja confundida com uma dessas moças que estão quase saindo no tapa pelo príncipe Rhuan - sussurra.
- Não se preocupe, mamãe. Não há nenhum risco de isso acontecer - aviso, porque, se minhas roupas simples não forem um indicativo, então o sol é quadrado.
Quando ela me deixa sozinha, fico o observando durante mais um tempo e me permito imaginar que sou eu no lugar de cada uma das moças que está valsando com Rhuan.
Mas não sou uma delas, é por isso que viro as costas e vou embora, apesar da sensação de que há olhos queimando as minhas costas.
Durante as próximas duas horas, fico trancada no meu quarto, o mesmo em que eu dormia antes de ir estudar fora, mas que foi dado para mim novamente desde que retornei há duas semanas.
Apesar da intenção da minha mãe de que eu volte para o vilarejo e encontre um trabalho fora do palácio, pretendo que minhas férias não acabem tão rápido. Mas, se alguém me perguntar, eu posso morrer negando que tomei a decisão por causa do príncipe herdeiro.
Em vez de poupar o meu coração no pior momento de todos, para não o ver se casando por conveniência, porque na minha cabeça não existe a possibilidade de que se apaixone por uma dessas mulheres, estou escolhendo ficar por perto.
Preciso ver com os meus próprios olhos e quem sabe assim matar dentro de mim a ilusão tola e romântica.
Felizmente, guardo apenas para mim essa fixação, e nem mesmo a minha mãe tem certeza dos meus sentimentos, ela apenas desconfia. Qualquer pessoa riria da petulância de uma garota pobre de dezoito anos por sequer cogitar que um príncipe poderia olhar para ela.
Sou dezoito anos mais jovem do que o príncipe Rhuan, e o fator idade é apenas mais um obstáculo que torna minha paixão risível.
Quando eu era criança e raramente surgia no seu caminho, ele mal me enxergava. Quando seu olhar encontrava o meu, Rhuan sorria e piscava, como faria com qualquer pirralha que fosse a filha de um súdito.
Eu era mais velha quando fui estudar no povoado, mas lembro perfeitamente de como estava começando a encontrar formas de entrar mais vezes no seu caminho, com a desculpa de que tinha que realizar tarefas que eram da minha mãe.
Rhuan continuava rindo e acenando para mim, mas tenho certeza de que ele começou a perceber meu interesse patético de criança naquela época.
Talvez até achasse divertida a inocente atenção, mas aposto que não pensaria o mesmo hoje.
Aposto que ficaria constrangido e daria um jeito de deixar bem claro para mim que não passo de uma pirralha, que não tenho o direito de sentir qualquer coisa que seja por alguém como ele.
****
A filha da empregada. Que piada seria para o poderoso e belo Rhuan Vargas.
No meu quarto, há uma grande janela na lateral. Uma janela colocada nas paredes de pedras antigas, que me permite sentar no peitoril e observar o lado de fora do palácio.
Há um pátio com um jardim perfeitamente cuidado e que é cenário para grandes festas e às vezes bailes formais.
Apesar de hoje estar acontecendo um baile, esse é menos formal, porque todos sabem que não é de bom tom falar em voz alta que a intenção é encontrar a noiva do futuro rei, que tem trinta e seis anos e ainda não tem namorada.
Estou na minha cama, mas meus pés me levam para a janela e, com meu livro de romance de época nas mãos, sento-me no peitoril.
Em vez de continuar lendo, agora mais confortável por causa da brisa da noite, fico observando o jardim e ouvindo a música do baile de longe.
Estou no meu quarto, mas gostaria de estar no salão. Gostaria de estar valsando nos braços do príncipe, como se o amanhã não fosse chegar. Gostaria de ser outra pessoa, apenas por um momento.
Em algum momento, meus olhos pregam uma peça em mim, porque posso jurar que estou vendo Rhuan caminhando em direção ao labirinto, que fica no lado sul do imenso jardim.
Ele está andando e olhando de um lado para o outro, provavelmente para ter certeza de que não tem ninguém o observando enquanto foge.
Quando Rhuan some das minhas vistas, e agora tenho certeza de que não é uma miragem, sinto como se meu coração tivesse parado por um momento, mas, quando volto para a normalidade, uma péssima ideia passa pela minha cabeça.
Eu balanço a cabeça de um lado para o outro, tentando de todas as formas me convencer de que não devo ir até o príncipe e deixar que ele me veja depois de tantos anos, depois de eu ter me tornado mulher, considerando que parece que ficou cego para mim desde que voltei há duas semanas.
Mas nem todas as doses de convencimento são capazes de me parar quando coloco algo na cabeça, principalmente quando se trata de um passo imprudente.
Então, não vestindo mais do que uma camisola curta de seda branca, deixo o quarto.
Descalça e com os cabelos ao vento, caminho discretamente e passo pela cozinha até chegar do lado de fora da propriedade.
Não sei o que farei, o que direi ou como me comportarei quando estiver na sua frente, mas sei que preciso ficar perto do homem por quem sou obcecada pelo menos mais uma vez.
Quem sabe não acontece um milagre?
Não é assim nos contos de fadas?
Ignorando a brisa da noite e o arrepio gostoso na minha pele, caminho discretamente para o labirinto. O meu coração está saltando no peito e não consigo mais pensar em todos os motivos que tornam a minha caminhada direto para o precipício uma péssima ideia.
Quando chego ao centro do jardim, porque passei toda minha infância aqui e conheço esse labirinto de arbustos melhor do que ninguém, vejo o príncipe virado de costas para construção medieval.
O príncipe está perdido em pensamentos, e eu realmente gostaria de poder estar dentro da sua cabeça, para saber em que está pensando.
Embora tenha tentado ser discreta, porque realmente não sei o que direi quando seus olhos encontrarem os meus, Rhuan sente a minha presença no instante em que paro atrás dele.
Primeiro seu corpo tenciona, depois ele se volta em minha direção e me encara. Da minha parte, sou atingida por sua beleza incomparável, seus traços aristocráticos, a pele levemente bronzeada, os cabelos loiros, cujos fios caem sobre sua testa e o olhar sempre intenso e dominante.
Seus olhos são azuis da cor do oceano e, desde que comecei a entender sobre atração física, passei a sentir que um único olhar seu poderia alcançar e tocar a minha alma.
O problema é que esse príncipe nunca me olhou por tempo suficiente. Pego de surpresa e completamente confuso por um momento, parece que essa é a primeira vez que está me vendo, ou enxergando de verdade.
De maneira pouco discreta, o seu olhar varre o meu corpo de cima a baixo. O arrepio, que antes era de frio, me toma por outro motivo dessa vez.
Eu não sei praticamente nada sobre quão profundamente um homem e uma mulher podem se conectar, mas, aqui e agora, o sangue nas minhas veias está correndo quente.
O meu coração está ainda mais disparado e a ciência de que estou vestida de maneira indecente na sua frente me deixa tão encabulada de vergonha quanto lisonjeada, porque Rhuan não pode esconder o interesse quando o seu olhar se fixa nos meus mamilos.
Eu não quero olhar para ter certeza, mas posso apostar que meus mamilos estão duros por duas razões diferentes.
- Sei que bebi demais para sair vivo dessa noite entediante e sufocante, mas nem de longe foi suficiente para me fazer criar fantasias.
- Eu... - começo, mas não sei o que dizer a seguir.
Realmente não deveria estar parada, vestindo apenas uma camisola curta e transparente na frente do futuro rei de Solari.
Nós dois teríamos tantos problemas se fôssemos pegos em uma situação como essa, que não consigo nem imaginar até que ponto iriam as consequências.
Obviamente, eu seria a mais prejudicada, pois, embora o rei seja bom para minha mãe, ele não fecharia os olhos para um escândalo envolvendo o seu herdeiro e a filha da empregada.
- Se você está falando, é porque é real.
- Eu sou real - finalmente digo. - Vossa Alteza não se lembra de mim?
- Não. Eu deveria? - A pergunta não deveria machucar o meu coração, afinal, não sou ninguém para Rhuan Vargas.
O problema de ter um coração tolo é que você quer ser lembrada, mesmo que seja como a insignificante filha da empregada.
- Eu não sou ninguém. Desculpa... - digo, viro as costas para voltar para o meu quarto, mas não consigo dar um passo sequer para o lugar de onde não deveria ter saído, porque o príncipe segura minha mão e me faz parar de caminhar.
Por um momento, fico parada e sem coragem de me voltar em sua direção. É quase como se eu não fosse digna de olhar nos seus olhos.
Eu, que nunca fui uma pessoa com complexo de inferioridade, estou me sentindo dessa forma, provavelmente porque a paixão insana me faz sentir assim.
Posso ser segura e superior em qualquer lugar ou situação, mas, quando se trata do príncipe e do sangue nobre que corre nas suas veias, não passo de uma plebeia que jamais deveria ousar sequer ter algum sentimento além de respeito por ele.
- É melhor você me deixar ir.
- Não antes de você me dizer o seu nome. Tenho a sensação de que te conheço de algum lugar, mas não estou conseguindo lembrar de onde. Você poderia esclarecer? - pede, ainda sem soltar a minha mão.
Tenho a sensação de que o seu toque está queimando a minha pele.
Ainda assim, não quero que me solte. Eu poderia ficar assim para sempre.
É um calor mais do que bem-vindo.
- Você deve estar me confundindo com outra pessoa - falo, mas a verdade é que estou surpresa por perceber que, pelo menos uma pequena parte da sua memória se lembra que eu fui aquela garotinha, que ficava o tempo todo encontrando formas de entrar no seu caminho, apenas para ser vista.
- Talvez eu esteja, mas gosto do cheiro do seu perfume e queria que ficasse um pouco mais comigo.
- Não deveria estar no baile? Achei que essa fosse a noite em que vossa alteza encontraria a futura rainha.
- Quer dizer que os boatos estão correndo por aí? - indaga, como se não soubesse. - Me trate por você - pede.
Ele não parece bravo pelos boatos, na verdade, tem um sorriso de canto na boca quando pede para não ser tratado de maneira formal. Um sorriso que deixa as minhas pernas bambas.
- Todos falam sobre você o tempo todo. - Dou de ombro, o príncipe abre um sorriso ainda maior.
Ele nem imagina que vivo dentro desse palácio e que, por essa razão, sei do que se trata o baile de hoje.
- Gostei de você, menina. - A forma como está me olhando agora é completamente diferente de como me olhou no momento em que virou as costas e me viu.
Agora, depois de ter me chamado de menina, Rhuan me encara como se estivesse vendo uma adolescente na sua frente. Sou o pequeno momento de diversão na noite que não pôde evitar.
Porque não é segredo para ninguém que o príncipe se esforçou para permanecer solteiro até os trinta e seis anos.
- Não sou uma menina - as palavras escapam da minha boca, antes que eu possa frear a língua. - Agora, realmente preciso ir.
- Vai mesmo deixar o seu príncipe sozinho e solitário... Qual é o seu nome?
- Elena - digo, quando finalmente solta a minha mão.
- Elena - repete. - Você tem nome de rainha - comenta.
Sinto vontade de sorrir, porque talvez o meu nome seja a única coisa nobre sobre mim.
- Foi um prazer, Vossa Alteza - digo, faço uma reverência, e depois começo a me afastar.
- Fica, e essa é uma ordem do seu príncipe. - Ouço, o meu corpo tensiona quando paro novamente de caminhar.
Ele acabou mesmo de me dar uma ordem?
Capítulo 2.
Rhuan narrando.
Embora eu seja o futuro rei de Solari, foram raras as vezes em que usei de qualquer autoridade para dar ordens. Mas aqui estou eu: tentando obrigar uma garota a ficar mais um pouco comigo.
Apesar de ser muito linda, com o seus cabelos castanhos e olhos castanhos esverdeados, ela provavelmente não passa de uma jovem que não deve ter mais do que vinte anos de idade. Eu poderia a confundir com uma adolescente, mas os seus seios, dos quais não consigo tirar os olhos, deixam claro que se trata de uma mulher feita.
Eu estava me sentindo sufocado no salão de baile e então, em determinado momento, um dos poucos minutos em que não estava dançando com uma das minhas pretendentes, encontrei uma maneira de fugir discretamente para fora das paredes que estavam se fechando a minha volta.
Pelo menos, era a sensação que eu tinha.
Então ela veio até mim e não faço ideia de onde surgiu. Apesar disso, não quero mais ficar sozinho com os meus pensamentos e a minha insatisfação com a minha vida, com o fato de que não posso escolher por mim mesmo a minha futura esposa.
Ou melhor, não posso não escolher uma esposa.
Eu cresci sabendo que teria que casar e ter herdeiros de um jeito ou de outro, porque nunca houve um rei sem a sua rainha ou um herdeiro para fins de sucessão.
Ainda assim, uma pequena parte do meu cérebro, provavelmente a que veio com defeito, não consegue se conformar com essa verdade absoluta sobre quem sou.
Eu vim até aqui para ficar sozinho, mas desde que senti o cheiro floral do seu perfume e os meus olhos encontraram os seus, que me lembram o oceano, não consigo parar de olhar e não posso desejar que vá embora, para ficar mais uma vez sozinho com a minha mente confusa.
Então, dei uma ordem, mesmo sabendo que não tem o menor cabimento.
No interior do palácio, há muitas mulheres belíssimas e loucas para se casarem comigo. Todas elas praticamente implorando com o olhar durante valsas intermináveis para que sejam escolhidas. O problema é que não consegui sentir nenhuma vontade de pedir qualquer uma delas em casamento.
Na verdade, por mais belas e refinadas que sejam, as mulheres representam tudo aquilo do qual desejo fugir.
É contraditório me sentir tão desesperado pela ideia de que estou praticamente sendo obrigado a me casar em nome das tradições e do meu desejo de um dia ser rei, afinal, nunca fui particularmente romântico e jamais sonhei com o dia em que encontraria a mulher da minha vida.
Prático e criado para ser um homem frio, nunca fui tolo o suficiente para sonhar com uma princesa amada por mim, mas também nunca fui contra a ideia do amor. Só não o experimentei.
Talvez no fundo, embora não tenha parado para analisar até agora, sempre tenha carregado a sensação de que, no final das contas, eu acabaria me casando com uma mulher por quem sentisse profundo apreço. Até com uma mulher por quem estaria apaixonado.
Mas o amor, ou a paixão, nunca fez parte do jogo nos meus trinta e seis anos de vida. Provavelmente é tarde demais para procurar por algo que nunca tive e que nunca terei.
Todos os devaneios são apenas bobagens, porque, quando deitar a cabeça no travesseiro e acordar amanhã cedo, a realidade continuará sendo a mesma, e talvez até mesmo já esteja comprometido com uma daquelas mulheres.
- Você está bem?
Não sei quanto tempo fiquei perdido em pensamentos, mas, quando volto a prestar atenção na garota parada na minha frente, fico contente por perceber que a minha ordem foi atendida, mesmo quando não deveria ter dado.
- Desculpa... Eu não queria ter dito aquilo.
- Não precisa se desculpar, afinal, você é o príncipe herdeiro. Eu sou apenas...
- Quem é você? - questiono.
De repente, percebo quão diferente essa cena é. Para começar, não deveria estar aqui. Essa garota, que está com os pés descalços e não vestindo nada além de uma camisola fina e virginal, também não deveria estar na minha frente.
Uma garota descalça.
Uma garota com camisola branca.
Uma garota que provavelmente não é nada parecida com todas as mulheres que estão loucas pela minha atenção na noite de hoje.
É por isso que não quero que ela se afaste agora.
É por ela não ser como as outras que estou desesperado para manter a sua atenção em mim, apenas um pouco mais.
Como eu poderia me sentir de outra forma, se é a primeira vez que vejo uma mulher que não está caindo aos meus pés?
- Elena.
- Eu sei que o seu nome é Elena. Mas preciso que me diga de onde você veio, e porque está fugindo de mim dessa forma.
- Vai ter que descobrir, Vossa Alteza - o seu tom é provocativo, e eu sinto uma fisgada gostosa no meu pau, porque não é todos os dias que lido com uma mulher como ela.
A garota é despreocupada, jovem e linda.
Há certo mistério sobre a sua identidade, e não me refiro ao nome, que me faz querer ficar um pouco mais e descobri tudo a seu respeito.
- Eu posso tentar fazer isso, desde que não fuja mais de mim.
- Eu não quero atrapalhar a noite do seu baile. Você realmente deveria estar no salão, tentando escolher a sua princesa. Não sou ninguém para merecer o seu tempo e muito menos sua atenção - diz.
No tom da sua voz, não sinto traços de sentimento de inferioridade, é apenas como se ela estivesse expondo um fato, o que me deixa ainda mais curioso para descobrir tudo a seu respeito.
- O que eu mais quero agora é um pouco da sua atenção. Você não negaria um pedido do seu príncipe, negaria?
- Uma ordem?
- Apenas um pedido.
Quando ela abre o sorriso, sinto como se estivesse levando um soco no estômago e não sei explicar a razão de isso estar acontecendo.
Jamais senti algo parecido com o frio na barriga e o nervosismo de agora.
Mas o seu sorriso morre quando nós dois ouvimos sons, sons de passos, como se alguém estivesse fazendo um passeio no jardim em formato de labirinto.
Ágil, seguro o seu pulso e a puxo para o meu corpo. Quando os nossos peitos colidem, o calor da sua pele me faz sentir arrepios de prazer e não entendo como posso estar tão sensível a uma desconhecida, quando dancei com diversas mulheres mais cedo.
Na verdade, eu estive com tantas mulheres sexualmente que não poderia contar nos dedos das mãos e nem dos pés. Diversão discreta, embora nunca tenha realmente conseguido ser discreto o suficiente, era o meu nome.
Mas agora estou reagindo fisicamente a uma pequena garota, como se eu fosse o maldito virgem e não um homem experiente de trinta e seis anos.
- A gente precisa sair daqui... - Segurando-a pela cintura agora, abaixo a cabeça, porque a garota é muito mais baixa do que eu, e sussurro no seu ouvido.
Não sei se está com frio, ou se o arrepio na sua pele é por causa da mesma reação que estou tendo à sua presença.
Tesão.
Desejo físico inexplicável e incomparável.
- É melhor você voltar...
Elena quer fugir, mas ainda desejo ficar um pouco com ela. Será apenas uma fuga da realidade em um momento de desespero. Simplesmente não consigo me conter.
Há algo nessa garota que me enfeitiça e, em vez de fugir e me agarrar ao controle que sempre tive sobre as minhas palavras e ações, me agarro a chance de ficar um pouco mais ao seu lado. Mesmo que seja apenas mais alguns minutos, porque ela conseguiu afrouxar o nó em volta da minha garganta, apenas com a sua presença doce.
- Vem comigo. Quero te levar a um lugar. - Abraçado a sua cintura, começo a caminhar em direção ao salão de esgrima. Elena vem comigo sem fazer nenhuma resistência.
Apesar das suas palavras, vejo no seu olhar que quer estar comigo tanto quanto eu quero estar com ela.
Estou levando-a para um lugar onde nós não seremos interrompidos por ninguém e não sei qual é a finalidade de tudo isso, mas vou descobrir quando chegarmos.
Estou me agarrando a qualquer chance de passar por essa noite sem ter um colapso. Ou sem fazer algo que desagradará o rei.
Incapaz de me afastar da garota, abro a porta do salão de esgrima e ligo as luzes.
A baixinha não esconde a surpresa quando seus olhos se arregalam enquanto varrem o lugar. É um simples salão, que é grande o suficiente para chamar atenção, mas imagino que a sua surpresa seja por causa da decoração sofisticada.
Decorado com tons de azul e branco, o ambiente é agradável para que os meus irmãos e eu possamos fazer os nossos treinamentos com espadas. Mesmo quando éramos crianças, gostávamos de brincar de nos escondermos aqui.
Às vezes, quando quero realmente ficar sozinho, ainda venho a esse lugar, sento-me em uma das cadeiras acolchoadas e tenho o meu tempo de paz, nem que seja só por um minuto.
Quem está de fora, deve supor que a vida de um príncipe é como nos contos de fadas, mas a verdade é que não é nada tão doce e romântico como nas histórias de ficção.
O rei tem vários deveres para cumprir com o seu povo, faz o trabalho que vai desde ir até a casa dos seus súditos, quando acontece algo que necessita da sua interferência, passa pela parte prazerosa de dar grandes eventos e termina com afazeres tediosos que dizem respeito à administração de todo o reino.
Como futuro rei, cabe a mim ser o braço direito do meu pai, enquanto os meus irmãos mais novos, embora também tenham códigos de condutas para cumprirem, têm mais liberdade para determinar como preencher as horas dos seus dias.
- Por que nós estamos aqui?
- Eu não queria que fôssemos pegos sozinhos. Seria um escândalo muito grande, não acha?
- Sim, seria. Imagina o que diria a imprensa se o príncipe herdeiro fosse flagrado com uma plebeia na noite em que deveria estar escolhendo a sua futura esposa?
A informação de que é uma plebeia não me surpreende, afinal, se fosse da nobreza, ela seria uma das mulheres no salão de festa, tentando chamar a minha atenção.
Ainda assim, tenho a impressão de que há algo a mais e que Elena não é apenas uma plebeia entre tantas.
- Nós dois não queremos um escândalo, não é?
- Jamais. - Elena dá uma risadinha, e eu sinto vontade de beijar sua boca e nunca mais parar.
A garota é linda de uma forma que me deixa tonto, mas vi e estive com muitas mulheres bonitas, então não faço ideia do que essa garota tem que me deixa tão mexido com ela.
- Vamos sentar? - Aponto para a fileira de cadeiras, Elena apenas balança a cabeça em concordância.
Apesar de todas as aulas que tive sobre como ser um cavalheiro, não posso deixar de secar a bunda da garota linda, uma bunda redondinha e que faz as minhas mãos coçarem pela vontade de apertar.
Nós dois nos sentamos lado a lado e, por um instante, ficamos nos encarando sem dizermos nada um para o outro.
- Quantos anos você tem? - Acho importante perguntar.
- Dezoito - fala. Por alguma razão, a resposta deixa as suas bochechas mais rosadas.
- Você ainda é muito jovem... - começo, mas me impeço de continuar a frase, porque Elena deve saber que tenho o dobro da sua idade.
Não que isso realmente importe, pois, ao sairmos daqui, há o risco de nunca mais nos vermos.
Antes que eu tenha a chance de começar uma conversa para a conhecer um pouco mais, sinto meu aparelho celular vibrando no meu bolso. Penso em ignorar, mas o meu senso de dever fala mais alto e o pego em minhas mãos.
Alteza, o senhor não deveria estar fugindo hoje. a sua ausência está sendo notada e não tenho mais desculpas para dar em seu nome.
Leio a mensagem do Nicolas, o secretário do papai.
Ele é o braço direito do rei e não sai do seu lado, mas também é aquele que está sempre atrás de mim, cobrindo os rastros de destruição que deixo pelo caminho sempre que saio da linha.
Não me orgulho disso, mas não conseguiria agir de outra forma, quando são esses momentos de escapadas que fazem com que eu me sinta minimamente vivo. Não poderia ser diferente, quando na maior parte do tempo sou todo sobre protocolos e cumprir meus deveres.
Em mim, há um vazio que não sei como explicar, mas sinto que saberei quando encontrar o que estou inconscientemente buscando.
Diga para todos que tive um contratempo, que fui até a casa de um súdito em um vilarejo mais distante. Insinue que não sabe se conseguirei voltar antes do final do baile.
Eu poderia ter encontrado uma desculpa melhor? Poderia. O meu pai acreditará nas minhas palavras ou desistirá da sua missão? A resposta é não para as duas perguntas.
Mas hoje realmente não sou capaz de fazer o que ele quer e ainda assim ter certeza de que fiz a escolha certa.
Talvez eu só precise de mais uns dias.
Príncipe Rhuan, esse não é o momento para fugas.
Eu preciso disso, Nicolas. Nós dois sabemos que não posso fugir, mas ainda posso adiar por mais alguns dias. Você poderia trazer uma garrafa de vinho para mim no salão de esgrima?
O que o senhor faz aí?
Leio
Apenas pensando.
Envio.
Sozinho?
Em qualquer outra situação, um simples secretário não teria o direito de fazer perguntas tão pessoais, mas Nicolas, que tem idade para ser o meu pai, é uma espécie de amigo para mim.
A verdade é que ele já cobriu as minhas costas mais vezes do que eu poderia contar nos dedos. Mesmo quando não peço, está sempre tentando consertar as minhas burradas.
Não quer dizer que essa amizade é apenas benefícios, pois, da mesma forma como me protege, o homem se sente no direito de me dar conselhos e fazer perguntas que as vezes não quero responder.
Você não gostaria de saber a resposta.
Envio, com um sorriso no rosto.
- Eu estou atrapalhando? - Elena questiona, olhando de mim para o aparelho na minha mão.
- Era o meu secretário. Ele mandou uma mensagem para avisar que estão sentindo a minha falta no baile.
- É melhor você ir... - Quando a garota se levanta, para mais uma vez tentar fugir, sei que quer estar aqui, mas tem medo demais para admitir, seguro o seu pulso e a puxo com mais força do que deveria, fazendo com que caia sentada diretamente no meu colo.
Quando Elena olha para o meu rosto com seus enormes olhos castanhos esverdeados arregalados, o seu corpo também fica tenso junto ao meu.
Então, quando o calor do seu corpo e o cheiro de morango no seu cabelo me atingem com a força de um soco, passo lentamente o braço em volta da sua cintura e seguro-a firme, para que não saia de cima de mim.
Eu me sinto bem dessa forma. Também quero que se sinta.
- Não permitirei que você fuja por medo. Sei que quer ficar comigo.
- Você não me conhece... - sussurra quando o seu corpo começa a relaxar, e posso apostar que é contra sua vontade.
- Mas você me conhece, e sabe que eu seria incapaz de te machucar.
- Por que é o príncipe?
- Porque não faço mal para garotinhas com sorrisos perfeitos e olhos cor de floresta. Acima de tudo, não faço mal para garotas cuja boca quero muito beijar.
- Você está... me fazendo perder o controle. Sei que é completamente errado estar aqui, mas não tenho mais forças para tentar fugir. É tudo o que eu sempre quis, Rhuan.
Eu não sei lidar com a forma sexy, e ao mesmo tempo doce, como o meu nome sai da sua boca.
Sinto vontade de morder seus lábios, a ponto de tirar sangue e em seguida acariciar.
Essa menina faz isso comigo e mal a conheço.
Sinto tudo o que não pude sentir por aquelas mulheres no baile.
Também não sei o que quis dizer com a última frase sobre eu ser tudo o que sempre quis, e não tentarei a desvendar agora, porque, no momento, tudo o que quero fazer é sentir intensamente.
Preciso esquecer de quem sou, e algo me diz que essa garota é a única pessoa capaz de fazer isso por mim.
- Me dê apenas essa noite - peço.
Apesar do meu tom de voz ser calmo, o meu olhar está implorando para que diga sim.
- Apenas essa noite - ela fala, e eu aceno.
Agora, o meu coração está disparado de contentamento e expectativa.
É como se eu fosse um adolescente experimentando sentimentos pela primeira vez.
Quando enfio o nariz no seu pescoço cheiroso, Elena se acomoda melhor sobre as minhas pernas e meu pau protesta dentro da calça, louco para ficar livre para a sua buceta.
- Não se sinta pressionada a fazer nada que não queira. Aprecio o que está me dando essa noite, mas não significa que tem que haver sexo. Eu só... basta ter você aqui para conversar, para me ouvir e me deixar te ouvir. Tenho que me obrigar a ser certeiro com as palavras, porque realmente não quero que sinta que me deve alguma coisa somente por estar aqui.
Óbvio que eu adoraria comer a sua bucetinha doce, mas a respeito de uma forma que não saberia como explicar, considerando que acabei de conhece-la.
É apenas uma desconhecida, mas algo me diz que essa garota é especial e que existem poucas como ela.
- Tudo bem... - Elena fala somente.
Lutando contra a atração, começamos a conversar de maneira confortável, como se fôssemos amigos há muitos anos.
Em nenhum momento, Elena menciona algo mais relevante sobre a sua vida, mas gosta de ouvir os meus impasses e também as alegrias de ser quem sou.
Conto sobre os meus medos e a garota ouve sem sentir a necessidade de fazer comentários vazios.
Mas não se trata apenas dos meus dramas, porque também aprecio ouvir suas histórias, que condizem com as vivências de uma garota de dezoito anos de idade, que tem uma vida inteira pela frente.
Elena tem objetivos. Ela quer se formar na universidade e se tornar professora de crianças no futuro. Não fico surpreso quando revela a vontade de se casar e ter filhos com o homem que ama.
Quando a garota menciona o tal homem, sinto uma pontada de ciúme, mas, no fim, se trata apenas de uma possibilidade. A própria diz que ainda não encontrou a tal pessoa.
Tudo isso é uma grande hipocrisia da minha parte. Não posso me sentir dessa forma, porque, de qualquer forma, não há qualquer chance para nós dois em plena luz do dia, mesmo se for o que queremos.
É a realidade de quem nós somos, e não há nada que possa mudar isso.
Depois de mais ou menos trinta minutos, Nicolas finalmente bate na porta do salão de maneira discreta. Tiro Elena com cuidado das minhas pernas e vou pegar a garrafa de vinho que pedi.
Ao entregar a garrafa nas minhas mãos, o homem não perde a chance de me dar um breve sermão. Eu apenas abro um sorriso para ele e aceno, antes de voltar para a garota, que está sentada em uma das cadeiras com o olhar perdido.
Quando percebe que estou me aproximando novamente, volta o seu lindo rosto em minha direção e sorri de uma forma que faz o meu coração apertar no peito.
Essa garota é perfeita e tudo sobre ela me deixa curioso e tentado a desvendá-la, mas prefiro ignorar esses sentimentos para aproveitar os nossos momentos juntos.
Talvez o atrativo dela seja basicamente o mistério e o fato de conseguir fazer com que eu esqueça de quem sou.
Amanhã, toda essa cena terá sido apenas um sonho, então nós dois seguiremos em frente, apenas com as lembranças que talvez não possamos apagar jamais.
Tem que ser assim.
Eu preciso que seja assim.
- Você aceita uma taça? - questiono, ao sentar-me ao seu lado. Ela hesita por um momento, mas acaba acenando positivamente.
Realmente a fim de cometer loucuras, abro a garrafa de vinho e bebo direto do gargalo, em vez de servir uma taça. Então, sendo observado atentamente pela mulher mais linda de todas, e que está me atraindo de uma forma inédita, levo a garrafa até a sua boca e ela bebe um pequeno gole.
Elena faz uma pequena careta, mas termina de beber com um sorriso no rosto. Pergunto-me se é a primeira vez que está ingerindo bebida alcoólica, mas descarto a possibilidade imediatamente, porque acredito que teria me dito se fosse o caso.
Acabei de conhecer Elena, mas ela não parece ser o tipo de garota que faz coisas contra a própria vontade, apenas para agradar a terceiros.
Para a minha própria condenação, não posso deixar de olhar quando a garota passa lentamente a língua pelos lábios, em uma tentativa de limpar a umidade que o gargalo da garrafa deixou.
Acompanho o movimento da sua língua, e quando o seu olhar encontra o meu, um olhar esfomeado, e que talvez nem ela sabe que pode ser tão sexy na forma de me devorar com os olhos, não posso controlar a reação do meu corpo.
O meu pau endurece dolorosamente, e termino dizendo as palavras que vinha guardando para mim desde o momento em que coloquei os meus olhos em cima da mulher perfeita.
- Eu posso te beijar, Elena? Diga que sim e me tire desse tormento. Preciso sentir o gosto da sua boca.