EU FUI ABANDONADA pelos meus pais neste
internato quando ainda era bebê. Pelo menos foi isso que a
madame sempre me contou. Sei que todos têm uma
história e suas origens, e apesar da minha ser
desconhecida, isso não me impede de sonhar com algo
maravilhoso que ainda pode estar por vir. Fui crescendo
neste lugar, acostumando-me com a vida aqui, e conforme
me tornava uma garota mais madura, passei, finalmente, a
entender a verdade: vivo em um prostíbulo.
No começo, eu não entendia o porquê de tratarem a
gente como mercadoria, mas hoje sei que valemos muitos
dólares e que há algumas transações milionárias
envolvidas e gente grande, como multimilionários, políticos
corruptos e até mesmo chefes de máfias.
Nós somos preparadas desde cedo para ser esposas
perfeitas em tudo, como o próprio nome da academia diz.
Até a nossa alimentação é regrada para não engordarmos
muito. Além disso, somos divididas por idade e cor da pele.
Eu faço parte das loiras com 18 anos, olhos azuis e um
metro e meio de altura. Costumo dizer que meu
comprimento é bastante desproporcional à minha idade.
Enquanto isso, a Chelsea, de apenas 15 anos, tem quase o
dobro do meu tamanho. Bem... Exagero é uma das minhas
características principais.
Chelsea é a minha melhor amiga de todas, e é como
uma irmã para mim. Somos inseparáveis.
Eu sei que irei deixar este lugar um dia, e o motivo
mais óbvio é: serei vendida para algum milionário que
deseje ter uma mulher submissa para saciar todos os seus
desejos. Faço parte da categoria de garotas inocentes e
virgens que valem milhões de dólares para os desgraçados
fúteis que só gastam com sapatos caros e roupas de grifes.
É desumano a maneira como eles olham para nós, e a pior
parte de tudo isso são os leilões que organizam uma vez
por mês.
Sinceramente, a minha vida nunca foi fácil, mas,
mesmo assim, jamais perdi a esperança de que algo
diferente possa acontecer. Quem sabe um príncipe
encantado venha em seu cavalo branco me salvar?
Eu não conheço o mundo lá fora, as pessoas de lá ou o
amor; apenas a dor.
A dor da rejeição.
A dor do abandono.
A dor da discriminação
A dor da minha infelicidade.
Por que nunca fugi? Porque é praticamente impossível
fazer isso. O local é rodeado por seguranças armados que
não têm receio de atirar contra qualquer uma de nós que
tente escapar. Isso aconteceu com uma garota há dois
dias. Foi lamentável a maneira como ela foi brutalmente
assassinada.
Essa é a nossa realidade. E na minha realidade, a fase
de lamentações já passou, porque aprendi que não tenho
como fugir do meu destino, por mais que ele seja horrível e
completamente abominável.
Essa sou eu: Laiza Nayara; Iza para os mais íntimos.
Chelsea me deu esse apelido. Sou uma menina totalmente
diferente das demais da minha idade, pois fui criada para
obedecer fielmente àqueles que são superiores a mim. O
direito de escolha nunca fez parte da minha vida, e nunca
fará.
Como destinos são incertos, a única coisa que tenho
certeza é de que serei feliz algum dia, mesmo que leve
anos para que isso aconteça.
Capítulo Um
CAMINHO O MAIS rápido que minhas pernas podem ir,
sentindo minha respiração ofegante ecoar por todo o
corredor. O sinal está tocando, fazendo um barulho imenso,
e isso significa uma única coisa: reunião de última hora.
Meus livros quase caíram no chão quando eu estava
andando tranquilamente e o som começou a ecoar.
Passo pelos corredores vazios, imaginando que serei a
última a chegar no local. Com certeza levarei uma bronca
daquelas na frente de todo mundo.
Aqui, no "orfanato" sempre estamos estudando, pelo
fato de haver homens que gostam de mulheres inteligentes
aos seus lados. Ridículos! Nunca me acostumei com a
ideia de que, algum dia, serei vendida para um verme
maldito.
Aos meus 18 anos de vida, a única coisa que aprendi,
foi a me comportar diante de um homem e a obedecê-lo
fielmente. Quanto a isso, já estou conformada. Prefiro ser
de um só do que de vários diferentes a cada noite, como
acontece com algumas meninas daqui.
No meu caso, a senhora Cloe, a diretora-chefe,
afeiçoou-se por mim. Tenho a sorte de ter o seu apoio.
Segundo ela, eu terei um bom casamento e, um dia, serei
feliz. Eu confesso que a madame alimentou essa
esperança em mim ao longo dos anos, por estar sempre
me dizendo o quanto tem algo grande à minha espera.
Finalmente, chego no salão de reuniões com meu
uniforme um pouco amassado. Isso deve ter acontecido na
hora que eu quase caí no chão enquanto corria até aqui.
Um dos instrutores está falando o quanto não tolera
atrasos da nossa parte, e eu preciso ficar bem quietinha
atrás de Chelsea, que me olha preocupada. Logo desvia
sua atenção para a frente, para não levar bronca. Ela é a
pessoa mais importante para mim, pois é como uma irmã.
Lembro-me da sua chegada aqui, ainda bebê. A madame
não gostava quando eu ficava perto dela, mas logo desistiu
dessa ideia absurda. Ninguém nunca irá destruir o amor
que sentimos uma pela outra; um sentimento puro, ingênuo
e um dos mais verdadeiros que existe em todo o mundo.
Percebo que a diretora mantém um olhar sério sobre
mim, por não tolerar atrasos, mas a cobrança comigo
parece maior em comparação às outras garotas. O meu
cabelo deve estar sempre bem penteado, sem nenhum fio
fora do lugar, meu uniforme impecável e meus sapatos
brilhando o tempo todo. Posso ver a face dela. A madame
é rígida, não demonstra muitos sentimentos na maior parte
do tempo e se chateia até se uma de minhas meias não
estiver igual à outra. Sem contar que ela sempre me tratou
como uma bonequinha de porcelana, como se sentisse
medo de que eu quebrasse ou algo do tipo. Na sua opinião,
minha beleza me levará a um lugar muito alto na vida.
Tudo o que sei é que todos os seus cuidados só fazem
eu me sentir muito protegida contra qualquer homem que
vive aqui. Já ouvi relatos de garotas que são abusadas por
seguranças e até mesmo por Rodolfo. Se eu continuo
intocada, devo isso a ela.
Rodolfo é o vice-diretor, um homem cruel. O seu cargo
está bem abaixo do da madame, mas, ainda sim, ele se
sente o dono desse lugar, pois está sempre impondo suas
vontades quando ela não está. Ele é frio, perigoso, alto,
com cabelos negros e uma barriga grande de tanto beber
cerveja. Todos o temem, inclusive eu, porque os olhares
que ele me lança, deixa-me preocupada. O homem não
tem escrúpulos, muito menos respeito por nenhuma de
nós. Somos suas "vadias", como o próprio repete todos os
dias.
- Nesta semana iremos receber visitas de diversos
homens. Devo instruí-las a se comportarem bem, da
maneira como foram ensinadas. Não preciso dizer que se
algo der errado ou se alguém resolver bancar a heroína, as
consequências serão as mais severas possíveis. Nenhum
homem jamais irá acreditar na palavra de vadias como
vocês, pois nenhuma tem valor moral, muito menos caráter.
- Rodolfo, sempre que pode, lembra-nos do quanto não
somos valorizadas perante à sociedade. - Não pensem
que porque algumas têm rostinhos bonitos e são intocadas,
que merecem algum tipo de compaixão! Todas não passam
de vadias.
Fecho os olhos, com raiva. Esse cara me causa
repúdio e nojo.
Chelsea me olha de lado e resmunga baixinho:
- Odeio ele!
- Eu também. - Reviro os olhos.
Eles nos passam as instruções finais e nos entregam
algumas regras digitadas em uma folha de ofício. Regras
essas que já decoramos.
Depois, Chelsea e eu vamos para o nosso quarto, que
é um ambiente decorado em cores brancas e possui alguns
desenhos nossos pregados na parede, destacados. Minha
amiga ruiva de olhos azuis adora pintar desde sempre e
consegue enxergar um mundo mágico, mesmo em meio a
toda escuridão em que vivemos.
Nós conversamos sobre o quanto odiamos Rodolfo e
todo seu jeito sarcástico. Ele é o rei do sarcasmo, sem
dúvida alguma. Um ser desprezível como esse é capaz de
fazer mal até mesmo a um bebê.
- Odeio o Rodolfo! - ela disse, jogando uma
almofada contra a porta.
- Não mais do que eu odeio. - Bufo irritada.
- Sério! Aquele homem fala como se todas nós
estivéssemos aqui porque queremos. Na real, Iza, quem
garante que fomos realmente abandonadas pelos nossos
pais? E se eles tiverem matado toda a nossa família e nos
sequestrado?
Pensando bem, isso pode ser verdade. Chelsea tem
uma imaginação muito forte, mas não parece estar
viajando tanto como nas outras vezes e pode ter razão. O
pessoal daqui é barra pesada, então não duvido de nada
vindo deles. Se isso for mesmo verdade, estamos correndo
perigo em dobro.
- Chelsea, fale baixo! Se alguém ouvir a gente falando
mal do Rodolfo, estaremos perdidas.
- Sim. Tem razão. É melhor lermos isso. - Olha para
o papel e logo demonstra sua insatisfação. - Fala sério!
Nunca revelar que somos obrigadas a ficar aqui? Qualquer
um em sã consciência consegue ver que isso é um lixo de
vida. Até parece que estamos na Disney! - Revira os
olhos.
- Fique em silêncio, menina! - falei séria, mas
morrendo de rir por dentro.
Não gosto de ser dura, mas isso é necessário às
vezes, para sua formação. Eu, como sua irmã mais velha,
devo ser severa de vez em quando, já que ela fala demais.
Neste momento, Mag entra no quarto com um
semblante preocupado. Eu dou um salto da cama,
preocupada, imaginando que ela ouviu alguma coisa da
conversa. Se não é nossa amiga, o que faz aqui? Seu
maior problema é ser mau-caráter e estar sempre disposta
a fazer o mal. Prejudicar os outros é o seu hobby. Uma vez
armou para mim e me fez ficar de castigo, por colocar um
documento da sala da madame em minha gaveta do
armário. Ela acreditou em mim, mas o Rodolfo não me
perdoou por isso.
- Preciso da ajuda de vocês.
Chelsea e eu nos olhamos, sabendo que nada de bom
poderá vir dessa garota.
- Não queremos confusão, menina. Saia daqui! - a
ruiva, como sempre, foi "educada". Mag merece isso e
muito mais.
- Por favor, preciso de ajuda! - pediu aflita.
Se esse é mais um de seus truques, ela está atuando
muito bem. Tão bem, que parece ser uma grande atriz
interpretando seu papel dramatúrgico.
- Em que podemos ajudar? - perguntei.
- Iza, não faça isso...
- Tudo bem, Che. Eu sei me proteger dela.
- Preciso que faça xixi aqui, para mim.
Olho para o potinho em sua mão.
- Para que isso?
- Eu fui selecionada para o próximo leilão e não quero
ficar de fora, mas estou com infecção urinária. Quero que
me ajude.
- Por mim, você pode se ferrar. - Chelsea deixou
bem clara a sua opinião.
- Eu faço.
Ela me entrega o potinho, animada, e eu posso ver um
certo alívio em seu rosto. Acho que está escondendo algo
muito sério, só que por meio das dúvidas, resolvo ajudá-la.
Urino dentro do recipiente e a entrego. Afinal de contas,
todas merecemos uma segunda chance. E se esse leilão
for mesmo acontecer, só de pensar na possibilidade de ela
ser escolhida e me deixar em paz de uma vez por todas,
fico contente.
- Sobre o leilão...? - perguntei com receio.
- Como eu sou a mais bonita de todas, fui avisada
antes de vocês. Não se preocupem, vadias! Não serão
escolhidas. - falou com maldade e deboche, como
sempre. - Obrigada, trouxas! - Sai do quarto, batendo a
porta com força.
- Por que você ajudou essa ingrata? Eu falei para não
fazer isso.
- Todas merecemos ser felizes, inclusive ela.
- Por mim, ela vai para o inferno. - resmungou. - É
boa demais, irmã. Não deixe as pessoas pisarem em você
assim!
(...)
Estou com minha aptidão em mãos, pois fui
selecionada para uma grande avaliação que acontecerá
amanhã à noite. Estou triste e abalada por isso, não
conseguindo acreditar que fui escolhida. Não quero ir, mas
não tenho escolha alguma e precisarei dar o meu melhor.
Já ouvi falar que essas festas com leilões atraem um
enorme público da alta sociedade nova iorquina. Somos
expostas apenas de lingeries e, em alguns casos, ficamos
até sem roupas. É uma situação humilhante.
Não posso chamar isso de vida, porque, de fato, não é.
A única coisa que me faz relaxar é ler um bom livro quando
consigo roubar algum da biblioteca da madame Cloe. Se
não temos autorização nem para ir lá, imagina para pegar
um livro para ler. "Prostitutas" como nós, temos coisas mais
importantes a fazer, segundo eles. São ridículos. Um dia,
ainda verei todos presos.
- Consegui minha aptidão. - Chelsea disse sem a
menor empolgação.
Eu lhe mostro a minha, insatisfeita.
- Vejo que você também não está nada feliz. -
comentou.
- A Mag fica feliz com isso, mas eu não consigo ficar
contente com algo tão ridículo. Não somos mercadorias.
Como mal toquei no café da manhã, estou me sentindo
um pouco fraca, com uma pequena fraqueza nas pernas.
- Você parece muito mais pálida do que o normal.
- Não me alimentei bem.
- Conheço você. Está com medo de ser escolhida por
algum homem. - Não consigo esconder minha
insatisfação em meu olhar. - Vamos para o nosso quarto!
Eu consegui algo delicioso para comermos: uma barra de
chocolate.
Nós parecemos duas crianças correndo felizes pelos
corredores, como se ninguém pudesse reclamar conosco.
Por sorte, não está muito lotado por onde passamos. Eu e
ela rimos alto enquanto corremos, pois chocolate move
nossas vidas. Quando conseguimos roubar alguma coisa
doce, é como uma festa para nós.
Estamos passando próximas à sala da diretoria,
quando ouço a voz da senhora Cloe me chamar. Paro
imediatamente. Com certeza tomarei bronca porque estava
correndo. Além disso, meu cabelo deve estar muito
bagunçado.
- Laiza Nayara! - seu tom de voz foi sério.
Ouvindo passos atrás de mim e o barulho dos seus
saltos altos, sinto calafrios. Chelsea também está
assustada, com uma expressão horrível, como se tivesse
visto um fantasma. Ela é covarde, e só não me abandonou
porque eu a segurei pelo braço.
- Laiza e Chelsea! - esbravejou.
- Olá, senhora Cloe. Como vai? - minha amiga
perguntou sem jeito.
Ela continua séria, sem esboçar nenhuma reação
diante da situação.
- O que fazem pelos corredores feito duas loucas sem
educação alguma? Não viram que estamos com visita?
Não havia prestado muita atenção na face do homem
de terno preto e postura alta que está na minha frente.
- Perdão! Prometo que isso não irá se repetir. - falei.
- Acredito que sim, Laiza.
- Madame, quem é o homem que não tira os olhos da
Iza? - Se tem algo que Chelsea sabe fazer como
ninguém, é ser inconveniente.
Mas ela tem razão: o homem não tira os olhos de mim.
É muito bonito, atraente, e algo nele me causa calafrios de
um jeito que nunca havia sentido antes.
Dou uma cotovelada na ruiva, que sorri, disfarçando a
dor.
- Aquele senhor é um grande empresário. Não
conheço seus motivos para ter vindo aqui, mas não devo
satisfação a vocês, meninas. Vão para o quarto e se
comportem!
- Sim, madame! - Chelsea e eu respondemos ao
mesmo tempo.
Como ela parece bastante chateada, não iremos
desobedecê-la. Não queremos sofrer nenhuma punição. A
mulher ainda olha para o papel em nossas mãos, feliz por
nós e um pouco... Não sei descrever seus sentimentos, por
sempre tentar não demonstrar muitas emoções.
- Vejo que as duas estão aptas para amanhã à noite.
Quero que estejam lindas e perfumadas! Principalmente
você, Laiza. - Quase sorri. Nunca havia lhe visto assim
antes.
Saímos caminhando em passos lentos e calmos, sem
fazer barulho algum. Ao fechar a porta do nosso quarto,
deparo-me com uma Chelsea divertida e, ao mesmo
tempo, chateada.
- "Principalmente você, Laiza". - imitou a madame.
- Ela nem sabe disfarçar que você é a preferida dela.
- Não tem essa de preferida. Isso é coisa da sua
imaginação.
- Você sabe que ela sempre está te protegendo e
nunca te deixa faltar nada. Além disso, é a única que tem
permissão para ir até a sala dela sem ser chamada. É
bonito ver que a diretora nutre sentimentos por você. -
Sorri. - Tem sorte por ter a proteção dela. - Coloca uma
mão sobre meu ombro.
- E você tem a minha proteção. Sei que isso não é lá
essas coisas todas, mas nunca irei permitir que alguém te
faça mal.
- Promete para mim que nunca iremos nos separar?
- Seremos amigas e irmãs para sempre.
Nós dividimos a barra de chocolate que ela conseguiu
roubar da cozinha hoje mais cedo. Definitivamente, essa é
a melhor coisa que o homem já inventou. É saboroso e dá
aquela sensação de prazer inexplicável. Não me importo se
ficarei com dor de barriga ou se ganharei algumas gramas,
pois só penso em comer a barra inteira.
- Tenho até medo da madame resolver vim ao nosso
quarto para ter certeza de que não estamos correndo por
aí. - confessei.
- Ela não virá agora. Está falando com o bonitão que
não tirava os olhos de você.
- Tem certeza que ele estava olhando para mim, em
vez de ser para você ou para a senhora Cloe?
- Claro que sim. Olhava para você assim. - Faz uma
imitação.
Ela é tão ótima nisso. Eu rolo de rir quando imita a
madame e o Rodolfo. Além de fazer umas caretas
engracadas, suas sarnas são o efeito especial de tudo.
Agora, está fazendo uma expressão boba, com os
olhos arregalados e a boca aberta de uma maneira
exagerada. Tenho certeza que aquele homem não estava
me olhando dessa forma.
- Sua boba! - Sorrio sem jeito.
- Iza, será que ele veio aqui atrás de você?
- De mim?
- Isso se você não for escolhida no leilão de amanhã.
E se ele estiver lá?
- Provavelmente, não. - Dou de ombros. Faço isso
quando estou nervosa. - Não se preocupe! Ninguém vai
olhar para mim.
- Como não? Você é linda! Tudo bem que eu sou
desprovida de beleza, mas você é a garota mais bonita
daqui. É por isso que a Mag morre de inveja de você.
- Chelsea!
- Se o bonitão te comprar... Ai, meu Deus! E se ele te
comprar, Iza? Ele é lindo! - Está empolgada.
- Falando assim, até parece que deseja que eu vá
embora.
- Claro que não. Você não pode me abandonar,
nunca.
- Eu preciso tomar um pouco de ar.
Costumo ficar ansiosa quando minha menstruação está
perto de chegar e me sinto mais sensível. Às vezes sinto
cólicas leves.
(...)
À noite, durante o jantar, Rodolfo sobe ao palco para
fazer um comunicado.
- Boa noite, vadias! - Não perde uma oportunidade
de falar isso. - Quero aproveitar para dizer que todas
devem dormir cedo para estarem descansadas amanhã à
noite. Durante o dia, irão provar lingeries sexies e essas
coisas básicas de mulheres. Eu tenho aqui, em mãos, o
nome de cinco garotas que serão selecionadas para uma
avaliação especial. Um comprador anônimo analisou todas
vocês virtualmente, por fotos, e escolheram as cinco. Irão
fazer mais algumas fotos amanhã, para ele poder escolher
uma para ser dele. - Começa a chamar o nome das
garotas. Elas se levantam da mesa e caminham até ele.
- Aposto que foi o bonitão de hoje cedo. - Chelsea
opinou baixinho.
- Por último e não menos importante, Laiza Nayara.
Meu corpo congelou quando ele falou o meu nome.
Estou completamente estática e sem reação alguma.
- Iza! Vá lá, antes que o Rodolfo venha buscar você!
- Eu...
- Você vai voltar. Somos inseparáveis.
Caminho até onde ele está com as demais garotas.
Encontro-me em estado de choque. O que será de mim?
A vista daqui de cima é fora do comum e parece que
todas olham para mim neste momento.
Rodolfo dá mais alguns avisos e, por fim, diz que
devemos segui-los. As meninas estão atentas e algumas
parecem felizes por terem sido escolhidas.
Respiro fundo para não acabar desmaiando e sinto
medo do que pode acontecer.
Não sei dizer o que é pior: ter que ir ao leilão ou
precisar fazer as fotos para um cliente as analisar. Tudo
que eu sei é que não quero me separar de Chelsea.
Capítulo Dois
A PORTA DE madeira se abre, fazendo um barulho um
pouco desagradável. Fones de ouvidos seriam bem-vindos
nesse exato momento.
Nós entramos em uma sala, encontrando um lugar
amplo e elegante. Eu nunca tinha vindo aqui antes, porque,
pelo que me lembro, repetiram para nós inúmeras vezes
que essa área era proibida.
Rodolfo nos manda sentar. Aqui tem um sofá, algumas
poltronas de couro no centro e uma grande mesa de
escritório no canto, além dos muitos quadros, dos vasos
sofisticados e do tapete que cobre quase todo o chão.
Não demora muito e a senhora Cloe entra na sala,
elegante como sempre. Ela caminha até a cadeira de
escritório e se senta.
- Bem-vindas, meninas, à ala proibida! Creio que
estejam bastante curiosas para saberem o porquê de terem
sido chamadas aqui.
- Muito, senhora Cloe. Eu fiquei um tanto surpresa
com essa convocação. Espero ser últil para alguma coisa.
- uma das garotas disse, muito empolgada.
- Não se preocupe! Logo irei revelar o motivo. Mas
antes, quero dizer que vocês cinco foram selecionadas por
serem as mais bonitas, segundo um cliente muito
importante para nós.
- E quem seria esse tal cliente? - a mesma garota
perguntou, ainda mais empolgada.
- Isso é o de menos, menina. Vocês irão fazer uma
sessão de fotos que serão enviadas a ele, que irá escolher
uma de vocês para ser sua esposa.
Todas comemoram a possibilidade, menos eu. É claro
que eu sonho em me casar e poder formar uma família,
mas na situação em que vivo, casar com um desconhecido
após ele me comprar como se eu fosse uma mercadoria,
não me parece nada romântico. Porém, tenho certeza de
que não serei escolhida. As meninas que estão ao meu
lado são muito bonitas, então, se o tal homem tiver que
escolher alguém, será alguma delas. Para a minha sorte,
não serei eu.
- Todas são lindas e cada uma tem sua beleza. O
cliente gostou muito das cinco, então espero que se
comportem bem para que ele possa analisá-las e perceber
o quanto são ainda mais bonitas do que aparentam.
- Ouviram bem, vadias? Essa é uma ótima
oportunidade de vazarem daqui. - Rodolfo disse sério. -
Agora, prestem atenção: se alguém abrir a boca para falar
qualquer coisa que seja, sofrerá as consequências. E não
pensem que teremos pena de vocês! Porque não teremos.
- Ele me olha de uma maneira estranha, como se seu
olhar gritasse algo muito ruim para mim. Até sinto um
calafrio com sua aproximação. - Pode até parecer sorte,
mas não será. - Sorri diabolicamente.
Se isso foi alguma espécie de aviso, não entendi bem o
que ele falou. Na maioria das vezes, gosta de nos causar
medo.
- E, sobre o leilão de amanhã? Eu fui apta a ir. - a
garota questionou.
- Nenhuma de vocês irá participar e ficarão em seus
quartos. - a madame avisou séria. - Agora, saiam daqui
e relaxem bem para as fotos de amanhã!
- Só mais uma pergunta, madame: o tal cliente virá
conversar conosco?
- Provavelmente, não. Ele é um homem muito
ocupado. As fotos serão enviadas para ele as analisar e
escolher uma de vocês para ser sua esposa.
Nós começamos a sair da sala, quando ouço a voz
dela novamente.
- Laiza! - Viro-me. - Fique! Quero conversar com
você.
- Sim, senhora Cloe.
- Sente-se! O Rodolfo já está de saída. - Olha para
ele, que sorri de um jeito maldoso e se retira, fechando a
porta.
Eu me sento, como ela pediu, e fico a esperando se
pronunciar. Ela termina de organizar alguns papéis em
cima da mesa e vem até o sofá, caminhando lentamente,
senta-se e cruza as pernas com elegância.
- Postura, Laiza Nayara! - ordenou.
Eu tenho estado meio desengonçada nos últimos dias,
mas ela jamais permite que eu perca a postura, já que não
admite que eu esteja feia ou algo do tipo. Devo estar
perfeita o tempo todo, diante de seus olhos.
- Diga-me: o que está achando de tudo isso? -
perguntou curiosa.
- Eu não sei o que dizer. - Ela me conhece muito
bem, portanto sabe que estou mentindo. Por isso, resolvo
lhe dizer a verdade sobre meus pensamentos. - Estou
assustada.
- Por que, minha querida?
- Eu tenho medo de sair daqui, pois não conheço o
mundo lá fora. E a Chelsea...
- Quanto a isso, querida, é apenas um detalhe. Se for
escolhida... E eu sei que será... Poderá ter uma família,
como sempre desejou. Por acaso, esse não é o seu maior
sonho?
- É sim, madame, mas ainda tenho bastante medo.
- Você é linda, Laiza Nayara, e uma menina
encantadora. Quando o cliente bateu os olhos em você,
não pensou duas vezes antes de escolhê-la.
Diferentemente das demais meninas, as quais ele precisou
olhar um pouco mais. Tenho certeza que será escolhida, e
farei o possível para que isso aconteça.
- Obrigada por se importar comigo!
- Sabe que tenho um carinho muito especial por você.
Se sair dessa academia, quero que tenha um futuro
brilhante e muito feliz.
- Obrigada, madame!
Em seguida, vou descansar em meu quarto.
Assim que Chelsea volta do jantar, eu lhe conto tudo
que aconteceu. Não sei descrever sua reação, porque ao
mesmo tempo que ela está demonstrando medo,
demonstra felicidade. É um misto de emoções em uma
única face.
Se a conheço bem, ela está com medo de que eu
possa ser escolhida. Assim, não restaria mais argumentos:
eu deixaria este lugar e ficaria longe dela de uma vez por
todas. E sua felicidade é por saber que poderei, finalmente,
ter a chance de realizar meu sonho de formar uma família e
ter filhos incríveis.
- Isso significa que irei perder você? - Uma lágrima
brota do seu rosto angelical. Ela é a imagem perfeita de um
anjo.
- Você não me perdeu. Eu ainda estou aqui e nem sei
se serei escolhida.
- Eu vi as demais meninas, Iza. Elas nem chegam aos
seus pés.
- Não vamos pensar em separação agora. Eu tenho
certeza que não serei escolhida. - Sinto uma grande
necessidade de abraçá-la.
Ela me retribui um abraço singelo e cheio de
sentimentos amorosos. Nós temos uma conexão
inexplicável e sempre sabemos o momento certo de nos
abraçar.
A noite se torna longa para mim. Viro-me de um lado a
outro da cama, sentindo-me nervosa. Não consigo
controlar minha ansiedade. O que esperar de amanhã?
(...)
Pela manhã, vou com as demais meninas para uma
sessão de fotos. Algo que faz eu me sentir horrível, já que
a maioria delas é feita conosco usando roupas íntimas.
Mesmo que o fotógrafo seja bastante profissional, fico
desconfortável.
- Que tal mais algumas fotos? - Rodolfo sugeriu
malicioso.
- Não precisa. - A madame, sempre que pode,
intervém por mim. - Pode ir se trocar, Laiza Nayara. - Os
dois ficam conversando.
Obedecendo sua ordem, troco-me em uma sala ao
lado. Já vesti meu uniforme e estou amarrando meu cabelo
com uma presilha. É quando ouço passos atrás de mim.
Virando-me rapidamente, deparo-me com Rodolfo.
- Algum problema?
- Sobre as fotos... - Aproxima-se cada vez mais de
mim.
- O que têm as fotos? Preciso refazê-las? - Imagino
que por eu ter me sentido um pouco desconfortável, elas
não ficaram boas.
- Acho que sim. - Olha para trás, para a porta
entreaberta. - Que tal se eu fechar a porta e atuar como
fotógrafo? Você pode pousar para mim?
- Creio que isso não será necessário, Rodolfo.
- Quem diz isso sou eu, menina. - afirmou raivoso.
- Você cresceu, Laiza, e ficou muito gostosa. Putz! Nem
parece mais aquela menina que vivia chorando por tudo.
Tornou-se uma bela mulher.
- Obrigada pelo elogio! Agora, preciso ir.
Tento passar por ele, mas sou segurada pelo braço.
Ele o aperta com muita força, como se desejasse arrancá-
lo. Encaro seus olhos, sabendo o que isso quer dizer. Seu
olhar é de luxúria sobre mim, devorando-me como se eu
fosse um pedaço de carne. Há alguns dias venho notando
esses olhares.
- Aonde você pensa que vai, menina? Mandei ficar.
- O que você quer comigo? - Sinto medo dele tentar
fazer alguma coisa contra mim.
- Calma, menina! Não precisa gaguejar. Eu só quero
fazer com você umas coisinhas que desejo há muito
tempo.
Meu Deus!
- Q-quais c-coisinhas?
- Não pense em gritar! Senão, não irei responder por
mim. - Mantém seu olhar malicioso sobre meu corpo.
Eu sempre convivi com tudo isso, então não é
nenhuma novidade para mim receber olhares como esse.
Contudo, homem nenhum jamais tentou tocar em mim,
como ele está tentando. Sua mão desce pela minha coxa,
fazendo-me querer gritar. Mas ele coloca a mão sobre
minha boca, impossibilitando-me de pedir ajuda.
- Eu falei para não gritar, vadia.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Quero sair daqui.
Seus toques me causam nojo e repugnância. Ele é um
homem de meia-idade, sua aparência não é uma das
melhores e seu mau hálito me deixa com uma enorme
vontade de vomitar todo o meu café da manhã.
Até perdi o movimento das pernas, pois o medo me
paralisou. É sempre assim.
- Rodolfo, por favor, deixe-me ir!
- Se você não fosse exclusivamente do senhor
Campbell, nós iríamos ter um longo dia juntos, docinho.
Agora, saia daqui, antes que eu mude de ideia!
Saio correndo o mais rápido que posso, sem saber
dizer se foi sorte eu ter conseguido sair ilesa dele. Sinto
calafrios ao fechar os olhos e o imaginar me tocando.
O que mais me assustou, foi ele ter afirmado que eu
pertenço a um homem. Como pode ter tanta certeza disso?
Essa dúvida me deixa completamente intrigada.
Capítulo Três
APÓS SAIR praticamente correndo da sala, onde
estava presa com o Rodolfo, sinto que meu coração está
prestes a sair pela boca. A minha pulsação acelerada me
dá uma vasta sensação de que vou desmaiar. Só de
imaginar que quase fui violentada por aquele ser medíocre
que não sabe respeitar nem a própria mãe... Se bem que
um ser repugnante como esse, não merece ter uma mãe.
Ele me dá nojo. Tudo aqui me causa nojo.
Pensando bem, até que não seria tão ruim ir embora
daqui para sempre. Se, pelo menos, eu pudesse levar a
Chelsea comigo, poderíamos reconstruir nossas vidas
longe desse lugar sufocante e aprisionante.
- Suas fotos devem ter ficado o máximo. Você fica
bonita em qualquer situação. Não é mesmo, Iza? -
Estamos sentados em um banco, no jardim. - Aconteceu
alguma coisa? - perguntou preocupada.
- Não. Estou bem.
Suas mãos tocam em minha face, erguendo meu olhar
até o seu. Seu semblante é o de alguém assustada. Ela é
só uma garotinha insegura.
- Estou com medo. - confessou o óbvio. - O leilão
de hoje à noite está me fazendo sentir calafrios.
- Pense comigo! Imagine se um bom homem comprar
você e estiver disposto a te dar uma vida boa! Em alguns
anos, poderemos nos encontrar em alguma festa.
- A madame falou que irei ajudar a servir.
- Ela está fazendo isso para te proteger.
- Sou grata a ela por isso, mas, ainda assim, não
gostei da sua ideia. Não quero me separar de você, nunca.
- Bufa irritada. - Se a gente conseguisse fugir daqui e ir
até a polícia pelo menos, poderíamos ter uma vida melhor.
Essa possibilidade é praticamente impossível. É por
isso que não penso em tentar fugir daqui. Isso significa
morrer.
- Eu ouvi bem, meninas? As princesas querem deixar
a torre para sempre? - Mag apareceu do nada, dando um
pequeno susto na gente.
Olho para minha amiga e lhe peço calma. Ela odeia
essa garota em todos os sentidos, mas não podemos
perder a calma com ela neste momento tão delicado.
Mag é uma adolescente quase comum e, assim como
a gente, foi criada presa, por trás das muralhas, sem
escolha. Não julgo seu comportamento rebelde e maldoso,
porque, talvez, se não estivéssemos nessa nossa
realidade, ela poderia ser boa.
- Vocês sabem que isso é impossível, suas idiotas.
Vejam o tamanho destes muros e toda a segurança! -
Tem razão. - Eu poderia contar ao Rodolfo ou à madame
tudo que vocês conversaram aqui, mas não estou a fim.
- O que você ganha com tudo isso, Mag? -
perguntei.
- Ver vocês preocupadas e tristes é a minha maior
satisfação.
- É bom ficar de boca fechada, menina. Não quero
discutir com você. - Chelsea já está chateada.
- Hoje pode ser a última vez que estou olhando para
as caras e roupas de vocês, porque há a chance de eu ser
a mais nova milionária do país. E vocês ainda vão
continuar aqui, mofando, pois ninguém vai querer comprar
as duas meninas mais feias de todo o "orfanato".
- Vaze daqui, garota! - a ruiva mandou.
Ela está prestes a se levantar para ir, mas eu a seguro.
- Mag, nós te ajudamos com o exame de urina. Será
que pode ficar e fingir que não nos ouviu conversando
besteiras?
- Vou pensar no caso de vocês. Beijos, vadias! - Sai
rebolando sua bela bunda. Ela adora falar sobre suas
qualidades.
Garota mais irritante do que essa, está para nascer.
Odeio a maneira como ela gosta de manipular as pessoas
à sua volta, sempre tentando ser superior, como se
humilhar o próximo fosse seu maior objetivo.
- Da próxima vez, eu juro que... - Chelsea começou
a falar.
- Não jure nada, amiga! Vamos para a nossa aula!
- Só você mesmo para chamar aquilo de aula. Odeio
ter que ver aquelas pessoas ensinando sobre sexo para
nós. Se eu pudesse, mataria todos eles.
- Você não vai matar ninguém. Agora, vamos!
- Você não sabe, Iza, mas eu sei que um belo
príncipe virá me salvar daqui um dia.
(...)
O vestido que Chelsea usará hoje à noite, no leilão,
está pendurado sobre o cabide. É um lindo em tom de
vinho, perfeito para ela. Não sei o motivo, mas estou
preocupada por saber que ela estará sozinha nessa festa,
sem mim. A minha amiga tem a cabeça quente, portanto
temo que faça alguma besteira. Mesmo que vá somente
servir algumas bebidas, tenho medo de que se envolva em
confusão.
- Prometa para mim que não vai perder a cabeça
hoje!
Ela cruza os braços e sorri.
- Se eu morrer, prometo proteger você para sempre.
Vou ser aquele tipo de fantasma que vai assustar todo
mundo que tentar te fazer algum mal.
- Você é maluca.
A noite logo cai e ela começa a se arrumar, assim
como a maioria das meninas. Ainda lhe ajudo com a
maquiagem, porque sei fazer umas das melhores daqui.
Algumas garotas me procuram para as maquiar quase
sempre. Como somos muitas, às vezes as maquiadoras
disponíveis não conseguem dar conta do serviço.
Um segurança vem buscar minha amiga. Quando a
levam, sinto a necessidade de abraçá-la e começo a
chorar. Tenho uma sensação horrível em meu peito de que
ela não vai voltar, nunca mais. Mas essa pode ser uma
reação normal da minha mente, por causa da pressão
envolvendo toda essa situação. É apenas nervosismo.
Espero que seja.
Deito em minha cama e, depois de chorar horrores,
finalmente adormeço.
(...)
Acordo, sentindo mãos quentes tocarem em mim. O
que está me machucando para dedéu.
O quarto está escuro, mas posso ver Rodolfo sentado
na beira da cama, com uma mão em minha coxa. Não faço
ideia de quanto tempo faz que ele já está aqui.
Tudo que quero fazer é gritar, mas quem irá me ouvir?
- Rodolfo? O que você está fazendo aqui? -
Levanto-me da cama em um pulo e ascendo a luz. É
mesmo ele.
- Estou fazendo a ronda, menina. - respondeu
cinicamente.
- Por que insiste em me tocar? Sabe que não pode
fazer isso. Estou sendo negociada para um cliente e...
- Calma, menina! Não vou tirar sua virgindade à força,
porque sei o tanto que ela vale para nossos bolsos. Mas
não me custa nada ficar observando você no meio das
noites. - Então, hoje não foi a primeira vez? Meu Deus!
Esse homem está obcecado por mim. - Não precisa ficar
nervosa. Já estou indo para o leilão. Espero que fique feliz
pela sua amiga, porque ela está valendo muito para o
nosso mercado. Mesmo sendo tão jovem, chamou a
atenção de um grande empresário. - informou, divertindo-
se.
Se ele queria me perturbar, conseguiu roubar todo o
meu sono.
Eu o vejo sair do quarto e, em seguida, arrasto uma
poltrona até a porta. Como se isso fosse impedir a entrada
dele caso queira vir aqui novamente! O cara é louco.
O que ele disse da minha amiga, é mesmo verdade?
Chelsea foi à festa para servir, não para ser vendida.
Certamente, falou isso para me deixar pensativa. Não
posso passar a noite inteira imaginando a possibilidade de
não a ter comigo amanhã de manhã. Como irei dormir
agora? Só quero chorar.
Não consigo pregar os olhos, literalmente, depois
daquele asqueroso ter falado aquelas besteiras. Seus
assédios estão ficando sérios, então penso que talvez seja
melhor comunicar sobre eles à senhora Cloe. Ele está
ficando incontrolável. Como pôde vir ao meu quarto no
meio da noite e me tocar daquela maneira? Isso não é
certo. Ninguém daqui tem autorização alguma para tocar
em alguma de nós.
Como não tenho noção da confusão que isso poderia
causar, fico com um pé atrás todas as vezes que penso em
ir até a sala da madame.
O dia logo amanhece, e nada de Chelsea voltar. Isso
está me deixando aflita. Não quero perder minha amiga
assim, sem ao menos ter uma chance de me despedir dela
e dizer o quanto a amo.
Encontro-me com algumas das selecionadas e
ninguém sabe me dizer como ela está. Aflição e
nervosismo me tomam neste momento. Como isso pode
estar acontecendo?
Estou prestes a ir até a sala da diretora para perguntar
pela minha amiga, quando a vejo chegar gritando e
correndo na minha direção, feito uma louca. Na verdade,
ela é muito maluquinha. Vou matá-la por ter me dado um
susto.
Retribuo seu abraço e tento lhe dizer algo, mas ela me
interrompe, falando de uma maneira ofegante.
- Não sabe dos babados que aconteceram ontem à
noite. - questionou de maneira divertida. - Venha
comigo! Vamos para o jardim!
- Não podemos. Tenho aula agora.
Eu amo o seu jeito maluquinho. Seu jeito Chelsea de
ser é único. A minha irmã é doidinha, porém não sei mais
viver sem suas travessuras.
Vou para a aula de Conhecimentos Gerais. Dessa vez,
não é uma sobre sexo. Durante a semana, ensinam para
nós essa matéria e Matemática, duas ou três vezes.
Precisamos ter conhecimento para alguma coisa nesta
vida.
Isso parece que nunca terá fim, só que conto cada
segundo para acabar. Estou curiosa para saber o que a
ruivinha descobriu de tão emocionante. Aposto que não é
nada demais, que ela apenas quer me dizer besteiras e
fofocas, mas me remexo de curiosidade para saber o que
é.
Quando a aula acaba, recolho meus cadernos e livros,
encontro-me com ela no corredor e corremos em direção
ao banheiro, entusiasmadas com a tal revelação.
Ela entra em uma cabine e a fecha. É muito
maluquinha.
Encaro minha face no espelho, notando que estou um
pouco abatida. Mas não é nada que um pouco de pó
compacto não resolva. Também estou com algumas
espinhas quase no ponto de espremer. Normal para uma
adolescente como eu.
De repente, ouço um barulho horrível de alguém
vomitando como se estivesse colocando as tripas para
fora. O som é tão feio, que chego a pensar que Chelsea
está morrendo.
Preocupada, bato na cabine em que ela está e a peço
para abrir a porta imediatamente.
- Chelsea! Está tudo bem?
Ela sai da cabine parecendo super bem, sem nenhuma
expressão de dor ou algo do tipo. Se não foi ela, quem foi?
Não imaginei nada disso, pois não sou louca e sei o que
ouvi
- Pensei que você estava passando mal. - dissemos
ao mesmo tempo, ficando surpresas uma com a outra.
Algo de errado está acontecendo neste banheiro.
Eu estranho e ela franze o cenho.
- Se não foi você, muito menos eu, quem foi? -
questionou.
- Não sei.
Ouvimos o barulho novamente, vindo da cabine ao lado
de onde Chelsea estava. Realmente, acho que alguém
está morrendo ali dentro. A pessoa parece estar passando
muito mal.
Olhamos uma para outra, preocupadas com o que
pode estar acontecendo.
- Calma! - falei baixo.
Bato na porta e posso notar que ela está aberta.
Depois de empurrá-la, tomo um susto ao ver a Mag. Ela
está sentada no chão, pálida como a neve. Há vômito seu
espalhado por todo chão e muito sangue. O odor é forte.
- Meu Deus! Ela está morrendo! - afirmei nervosa.
- Vou chamar alguém para ajudar. - Chelsea falou.
- Não! - a voz dela saiu por um fio. Está chorando
por causa da dor. - Pelo amor de Deus! Eles vão me
matar.
Vendo-a caída no chão, sangrando e vomitando, posso
perceber do que se trata. Não posso acreditar que ela foi
capaz de cometer tal ato, sabendo das consequências.
- Vou chamar alguém. - Chelsea insistiu.
Eu a seguro pelo braço e ela me olha sem entender.
Está tão preocupada quanto eu.
- Não! - pedi firmemente.
Sua inocência é algo lindo de ver. Ela não entendeu o
que está acontecendo.
Estou um pouco surpresa, porque não havia percebido
nenhuma alteração no corpo da Mag, nenhuma grama a
mais. Ela estava grávida e acabou de cometer o pior erro.
Ainda colocou sua vida em risco.
- Por que não?
- Ela está abortando. - Estou petrificada. - Mag
está abortando o filho.
Chelsea a olha horrorizada.
Não temos o que fazer, pois mesmo sentindo bastante
dor, ela não nos deixa chamar ninguém. E tem razão,
porque se alguém a ver, irá matá-la por ter engravidado.
Não penso em outra coisa além da dúvida: quem era o pai
dessa criança? Ela não tem juízo algum. Como pôde se
entregar a um homem sem se cuidar?
- Vá buscar água para ela tomar e não fale nada a
ninguém! - pedi.
Ela sai correndo e eu me aproximo mais da Mag,
encarando seu rosto pálido e suado.
- Não me denuncie, Laiza! - implorou.
Como ela é capaz de pensar algo assim de mim? Eu
jamais lhe faria algum mal. Sei dos riscos que estou
correndo por ajudá-la, mas, ainda assim, não irei deixá-la
morrer sozinha neste banheiro fedido.
- Eu nunca iria te prejudicar, Mag.
- Mas... deveria fazer isso. Eu te humilhei durante
anos e você está me ajudando. Essa é sua chance de
ferrar comigo.
- Não fale muito! De quanto tempo você estava
grávida?
- Quatro semanas, eu acho.
- Por que fez isso?
- Não foi minha culpa. Eu não queria. Fui violentada.
Fico em choque com sua revelação. Como assim? Aqui
dentro, alguém teve a audácia de violentar uma virgem?
Ela faz parte do grupo das virgens, das conservadas.
- Por que não comunicou à senhora Cloe?
- Nem todas têm proteção, como você. Acha que
iriam acreditar em mim?
- Quem te fez isso?
- Não importa. Só não me deixe morrer sozinha!
- Segure a minha mão, por favor!
E ela faz isso firmemente.
Eu nunca a vi assim, tão frágil e amedrontada. Ela
sempre foi alguém de personalidade forte, de postura
ereta, e rígida com todos; estava sempre me humilhando.
Veja como o mundo dá voltas! Agora me encontro a
ajudando.
Ela desfalece algumas vezes e demora a voltar. Em um
momento, até pensei que morreu, porque passou quase
uma hora desmaiada.
Chelsea também traz álcool e remédios para dor.
Damos bastante pílulas para ela beber.
Não me importo com todo o sangue, que já sujou boa
parte da minha saia, pois quero apenas ajudá-la. Até faço
uma oração para ela não morrer e peço para que tudo dê
certo.
Eu poderia abandoná-la aqui, entretanto não sou capaz
de deixar ninguém na mão, muito menos alguém que já foi
minha melhor amiga no passado.
- Tem certeza que ninguém te viu? - perguntei.
- Absoluta. Passe mais álcool no nariz dela!
Faço isso e vejo Mag despertar novamente. Parece
estar recuperando suas forças.
- Como se sente?
- Eu quero comer.
- Você é maluca. Onde conseguiu as drogas? -
Chelsea questionou irritada.
Eu olho feio para ela. Esse é um momento delicado,
não propício para brigas.
- Tenho meus contatos, sua burra.
- Veja só, Iza! Não vou ajudar mais.
- Calma! - pedi. - Meninas, não façam isso! Mag!
- repreendi.