O Grande Salão do Forte Lunar não foi projetado para o conforto; ele foi construído para a intimidação. Tudo era mármore negro e pilares de obsidiana, coroado por um teto abobadado tão alto que parecia imitar a própria abóbada celeste. A luz da lua cheia, que se infiltrava pelas janelas góticas, caía sobre o estrado central, onde o poder se concentrava em uma única figura: Kael Blackwood, o Alfa Supremo.
Lyra se encolheu na borda da imensa multidão, sentindo-se tão insignificante quanto o pó entre os ladrilhos. Ela não era ninguém. Uma loba ômega sem posição real, filha da cozinheira do forte, e só estava ali porque a presença de cada membro registrado da Alcateia Suprema era exigida para o anúncio do futuro Conselho de Guerra. O ar era pesado, carregado com o cheiro de pinho, ozônio de tempestade e, o mais importante, o aroma dominante e inconfundível do poder. O aroma do Alfa Kael.
Ela havia passado a última hora evitando sequer olhá-lo. Não por medo, ou não só por isso. A mera presença de Kael era uma âncora que a puxava, uma força gravitacional inexplicável que a fazia tremer. Ele era um homem de lenda; o líder mais jovem e brutal que o continente já havia conhecido. Seus olhos eram uma tempestade cinza, seu cabelo escuro caía sobre um pescoço marcado por cicatrizes de batalha, e sua aura era tão densa que os outros Alfas, guerreiros experientes, se inclinavam levemente à sua passagem.
- Com a ameaça iminente da Legião do Norte - a voz de Kael era um trovão grave que silenciava o salão -, o Conselho determinou que qualquer distração, qualquer fraqueza na estrutura de comando, será expurgada sem piedade. Isso inclui aqueles que não podem ou não querem contribuir para a força de nossa Alcateia.
Lyra engoliu em seco. A ansiedade não era pela ameaça do Norte, mas pela possibilidade de ser reatribuída ou, pior ainda, expulsa. Sem sua Alcateia, ela não era nada.
Nesse momento, um murmúrio desconfortável percorreu as fileiras da frente. Um jovem beta, nervoso pela pressão, tropeçou em uma mesa lateral, fazendo um cálice de prata deslizar e cair com um estrondo metálico.
Todo o salão prendeu a respiração. Quebrar o silêncio durante um discurso do Alfa Supremo era um erro imperdoável.
Os olhos de Kael se moveram. Não com pressa, mas com a lentidão letal de um predador que identifica sua presa. Seu olhar de tempestade deslizou sobre as cabeças, procurando o culpado do barulho.
E então, o olhar dele caiu sobre Lyra.
Não foi procurando por ela. Foi puramente acidental. Ela estava a uns vinte metros, junto a um pilar. Seus nervos estavam à flor da pele, e por uma fração de segundo, ela se endireitou para ver a reação de Kael.
O impacto não foi uma flecha. Foi um meteoro.
Foi como se o mundo tivesse se dividido em um milhão de fragmentos e depois tivesse se remontado em um instante, tendo Lyra e Kael como seu único centro.
O coração de Lyra não apenas batia; ele rugia. O ar que ela respirava se tornou de repente o perfume mais inebriante do universo: almíscar, couro, e o cheiro limpo e cortante da neve fresca. Um calor dourado, abrasador e doce, acendeu-se em seu peito, irradiando para cada célula de seu corpo, curando cicatrizes invisíveis, preenchendo um vazio que ela nem sabia que existia. Era a sensação de lar, de destino, de completude.
Ela não ouviu ninguém. Não viu o salão. Só existia Kael.
A expressão dele se transformou. A frieza letal foi estilhaçada, substituída por um assombro puro. As bordas de sua aura ondularam violentamente. Ele era a âncora e ela era sua maré. Ele também sentia. O laço inevitável, a prova da Deusa Lunar.
Ele era seu companheiro destinado. E ela era a Luna dele.
Lyra sentiu lágrimas de êxtase irracional arderem em seus olhos. Depois de uma vida de invisibilidade, ela era a escolhida do homem mais poderoso do mundo. Uma risada nervosa e febril borbulhou em seus lábios, quase uma súplica.
Mas o momento de assombro de Kael durou menos que um bater de coração.
O Alfa Supremo não era um adolescente apaixonado. Era um estrategista implacável. Seu olhar vasculhou Lyra, seu corpo pequeno e trêmulo, suas roupas simples, sua falta de status, e comparou-a com a imensa carga que pesava sobre seus ombros: o império, a guerra, o legado de sangue.
Uma loba ômega. Uma fraqueza. Uma vergonha pública.
O assombro congelou-se em um desgosto gélido e calculista. Seus olhos cinzentos tornaram-se obsidiana. O calor que havia inundado o peito de Lyra foi cortado tão bruscamente que ela sentiu náuseas.
Kael deu um passo à frente no estrado. O eco de sua bota ressoou no silêncio absoluto do salão. Seus lábios se curvaram com uma crueldade que ele nunca precisou fingir.
- Permitam-me concluir meu anúncio - disse Kael, sua voz agora baixa e perigosamente calma, mas cada palavra perfurou a distância como estilhaços de gelo. Seu olhar retornou a Lyra, aprisionando-a.
Ele não estava olhando para sua companheira. Estava olhando para um inseto.
- A Deusa da Lua - continuou Kael, com um desprezo audível -, às vezes comete erros lamentáveis. Às vezes, mancha o laço dos líderes com indignidade.
Lyra sentiu o sangue escoar de seu rosto. O êxtase havia sumido. Só restava o terror e uma compreensão brutal: ele ia fazer isso.
O Alfa Supremo, o homem que o destino lhe havia dado, elevou sua voz, não ao nível de um trovão, mas ao nível de um juramento sagrado, certificando-se de que cada lobo no salão, e cada um no território que compartilhavam, ouvisse o comando de seu Alfa.
- Eu, Kael Blackwood, Alfa Supremo da Alcateia da Sombra, te rejeito.
O mundo de Lyra desmoronou.
A frase não era apenas palavras. Estava imbuída com a autoridade e a magia do Alfa. Era uma arma de destruição em massa. Lyra não sentiu a dor como um ferimento, mas como uma explosão interna. Sua mente ficou turva, sua visão escureceu nas bordas. O laço dourado que acabara de nascer se retorceu e foi arrancado pela raiz de sua alma com uma violência que a fez ofegar.
Ela caiu de joelhos.
O Grande Salão reagiu com um coro de suspiros abafados. Ninguém jamais havia presenciado um rejeição pública da companheira destinada de um Alfa Supremo. A brutalidade era inédita.
Kael manteve sua postura fria, observando-a tremer.
- Eu te rejeito como minha companheira, como minha Luna, e como qualquer coisa que a Deusa Lunar tenha tentado unir à minha pessoa. A partir deste momento, você está livre para ir. Nunca mais ouse cruzar os limites do meu território - declarou.
A dor de Lyra não era apenas emocional; era física. Seus ossos ardiam, sua forma humana não conseguia conter o rasgo. Uma lágrima quente rolou por sua face, mas não foi uma lágrima de tristeza.
Foi uma lágrima de fogo.
De repente, uma força que ela nunca soube que possuía se rebelou contra a aniquilação. Um grito lancinante escapou de sua garganta, não humano, mas o uivo cru de um lobo ferido de morte.
E então, aconteceu.
O ar no Grande Salão foi estilhaçado. A luz da lua cheia que entrava pelas janelas se concentrou, não no estrado de Kael, mas na figura ajoelhada e destruída de Lyra. Uma torrente de energia azul e prateada, como a geada violenta, irrompeu de Lyra. Os ladrilhos de mármore negro ao seu redor racharam radialmente. O cálice de prata que havia caído perto levitou, tremendo, e se retorceu sobre si mesmo.
Os lobos ao redor gritaram e recuaram. Não era um poder Alfa. Era algo antigo, algo que queimava com a fúria da Deusa.
Kael, o invencível Alfa Supremo, deu um passo instintivo para trás, seus olhos cinzentos finalmente mostrando um rastro de choque, de medo verdadeiro.
Lyra se levantou com um esforço tremendo, seu corpo ainda tremendo, mas seus olhos agora brilhavam com a aterrorizante luz prateada que a havia envolvido. Ela não tentou se transformar, não atacou. Simplesmente canalizou a dor.
Ela olhou para Kael. Não havia súplica, nem amor. Apenas a promessa congelada na agonia.
- A-aceito - sussurrou Lyra, cada sílaba rasgando sua garganta. Com aquela única palavra de aceitação, o laço foi cortado definitivamente.
A explosão de energia cessou tão rápido quanto começou. A luz a abandonou, deixando-a sozinha com a escuridão. Lyra ignorou os gritos dos guardas que se aproximavam e, com a força que lhe restava, se lançou em direção às portas.
Correu. Correu pelos corredores de mármore, ouvindo os comandos de Kael, os gritos confusos. Correu para a fria noite, para além dos portões do forte, sentindo que seu coração já não batia, mas que havia se tornado um pedaço de pedra gelada em seu peito.
O Alfa Supremo havia se livrado de uma ômega fraca. Mas, sem saber, acabara de libertar algo muito mais perigoso: uma mulher com o poder da tempestade, alimentada pelo juramento silencioso de que, no dia em que ela retornasse, não seria por amor, mas para fazê-lo se arrepender de ter rompido o que o destino havia unido.
O exílio havia começado.
O rejeição não era apenas uma palavra, era uma sentença de morte. O Alfa Supremo Kael não só havia rompido o laço de companheirismo, como usara o poder primordial de sua linhagem para tentar varrer Lyra da face da terra. Sua magia latente, aquela explosão prateada que havia assustado Kael, era agora a única coisa que a mantinha viva, lutando desesperadamente contra a aniquilação imposta pelo Alfa.
Ela corria. Não em sua forma de loba; a fera interior estava mutilada demais pela dor da rejeição para se manifestar. Lyra corria em sua forma humana, sem fôlego e com o coração transformado em uma massa pulsante de gelo e fogo. Cada passo para fora do Forte Lunar era uma facada. O laço rompido gritava através de seus nervos como um arame farpado invisível que se retirava lentamente.
A floresta, que sempre fora seu refúgio, agora era um labirinto hostil. As árvores pareciam se inclinar, julgando-a. Ela sentia a presença dos lobos da Alcateia da Sombra, rastreadores silenciosos que não ousavam se aproximar por causa do poder residual que ainda a cercava, mas que observavam a mancha ômega fugir. Não a perseguiam para matá-la; perseguiam-na para garantir que ela cumprisse a ordem: ir embora e não voltar.
Lyra caiu. O joelho raspou contra uma rocha, mas ela não sentiu a dor do ferimento superficial, apenas a tortura em seu interior. Teve que se arrastar. Arrastou-se para debaixo de um carvalho centenário que marcava, ela sabia, o limite ocidental da Alcateia da Sombra. Se cruzasse aquela fronteira, a magia de Kael não conseguiria rastreá-la tão facilmente.
- Não. Não vou parar - sibilou Lyra, falando pela primeira vez desde que proferiu aquele fatídico "Aceito". A voz estava rouca, quase irreconhecível.
A rejeição vinha com uma maldição implícita: a perda total da força vital do rejeitado. Sem o laço, a magia interna de um lobo se deteriorava até a morte. Mas Kael não havia contado com a força da fúria de Lyra. A lágrima de fogo que ela havia sentido não era uma metáfora; era a ativação de um poder ancestral, selvagem e não regulado, que agora estava em guerra com o veneno da rejeição.
Ela deslizou para além do carvalho. Caiu no chão, tremendo incontrolavelmente. O ar parecia denso e o cheiro de pinho dava lugar a um aroma salgado e metálico, de sangue velho e terra úmida. Ela sentia que estava morrendo, e a parte mais racional de sua mente gritava para que ela se rendesse ao sono eterno.
Então, ela notou que a terra debaixo dela não era como a da Alcateia. Estava fria, mais fria do que o normal, e vibrava com uma energia distinta, uma que não era o calor da Deusa Lunar, mas algo mais primordial, mais antigo.
Lyra tentou se levantar, mas seu corpo a traiu. Caiu em uma poça de terra, e apenas a luz prateada de seus olhos, que acendia e apagava a cada batida errática de seu coração, demonstrava que ainda havia vida.
Foi então que ela o viu.
Não era um lobo, nem um humano.
Uma silhueta alta se destacava contra a pouca luz das estrelas. Não caminhava, mas parecia fluir sobre o chão. Não tinha o aroma de pinho da Alcateia; seu cheiro era de pedra molhada, ferro forjado e algo indefinidamente antigo, como o interior de uma caverna. Ele usava uma capa de peles escuras e um bastão nodoso, mais parecido com um galho de osso.
- Uma Luna Quebrada - a voz do estranho era um sussurro gutural, como o estalo da neve sob as botas. Não demonstrava surpresa, apenas uma profunda e sombria satisfação.
Lyra tentou uivar, tentou se transformar, tentou qualquer coisa, mas apenas conseguiu um arquejo.
O estranho se aproximou, sem medo da aura instável de Lyra. Seus olhos não eram os de um lobo; eram de uma profunda cor âmbar, antigos e penetrantes, com um conhecimento que parecia abranger séculos.
- A rejeição de um Alfa Supremo é um veneno lento. Vai te matar em menos de três dias.
- Quem... quem é você? - Lyra conseguiu arrastar.
O homem se inclinou, seu rosto sombrio e enrugado revelando cicatrizes geométricas. Ele tocou a testa de Lyra e ela sentiu a dor se intensificar, concentrando-se como ácido fervente. Lyra gritou, mas o som foi absorvido pela floresta.
- Eu me chamo Fenrir. Sou uma ponte entre os mundos, aquele que recolhe os que caem do laço e os que se rebelam contra a Deusa. E você, menina, você não é uma queda. Você é uma rebelião.
Fenrir retirou a mão e olhou para ela, avaliando-a.
- A fúria pela rejeição despertou seu sangue, um poder que a Deusa não esperava. É por isso que você ainda vive. Mas esse poder é uma arma de dois gumes. Vai te consumir se não for forjado. Você tem um dom que Kael Blackwood teme, mas lhe falta a vontade para usá-lo.
- Ele... ele me humilhou - disse Lyra, e a raiva tornou mais fácil falar do que a dor.
- O orgulho de um Alfa é a maior fraqueza. E Kael é o mais orgulhoso de todos. Ele te considerou inferior. Ele a despojou do seu destino. O que você fará a respeito? Vai morrer miseravelmente aqui, na poeira? Ou usará a cinza do seu laço rompido para incendiar o reino dele?
Lyra tossia, mas as palavras de Fenrir eram um salva-vidas, embora fosse feito de arame farpado. Morrer era fácil. Sobreviver e ver o arrependimento nos olhos de Kael... isso era vingança.
- Eu vou sobreviver - prometeu Lyra.
Fenrir sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos.
- Sobreviver é para os ômegas. Você não vai sobreviver, Lyra. Você será forjada. Você será o fio da minha vingança, a tempestade que Kael conjurou sem saber. Eu te ofereço o caminho, a agonia para te converter no que o destino não te permitiu ser.
- O que... o que eu tenho que fazer?
- Esqueça a lua, a alcateia, a misericórdia - disse Fenrir. Sua voz ficou mais forte, quase um comando ritualístico. - Você renunciará a tudo o que você foi. Usaremos o veneno da rejeição como o combustível da sua nova magia. Mas será um tormento que fará a dor de Kael parecer o arranhão de um filhote. Se você falhar, se você se render à dor, você morrerá e sua alma será consumida pela própria alcateia. Você aceita o preço?
Lyra pensou em Kael, na frieza em seus olhos cinzentos, na humilhação diante do Conselho. A dor interna era uma promessa: se ela voltasse a ver aquele homem sem poder, morreria na hora.
- Eu aceito o tormento.
Fenrir assentiu com uma satisfação quase macabra. Ergueu seu bastão de osso e o cravou na terra ao lado de Lyra.
- Então, Luna Quebrada. Que comece a forja.
Fenrir começou a cantar. Não era uma melodia, mas uma série de estalidos, assobios e rosnados em uma língua que Lyra nunca tinha ouvido. O ar esfriou drasticamente. O cheiro de ferro tornou-se esmagador.
Da terra, onde o bastão havia sido cravado, brotaram raízes negras e retorcidas, envoltas em uma geada violenta. Essas raízes rastejaram, buscando o corpo de Lyra. Fenrir não a ajudou; apenas observou com os olhos âmbar fixos.
As raízes se enrolaram ao redor dos pulsos e tornozelos de Lyra, e depois ao redor de seu torso. Não a seguraram com força bruta, mas com uma magia de confinamento. Seu corpo se levantou levemente do chão.
- O veneno deve ser extraído - explicou Fenrir sem parar de cantar. - Sua alma está contaminada com a maldição do Alfa. Mas sua nova magia é forte, Lyra. Nós a usaremos para queimar essa maldição.
Uma das raízes, mais fina e afiada, deslizou em direção ao seu peito. Lyra sentiu um terror instintivo.
- Isso vai doer mais do que a rejeição - prometeu Fenrir.
A raiz se cravou bem onde o laço de companheirismo havia sido arrancado, em seu coração.
Um grito silencioso de agonia escapou de Lyra. Ela não conseguiu emitir som; a dor era tão absoluta que engoliu o ar e a voz. O frio prateado de sua própria magia se acendeu, e ela se viu lutando não só contra a dor, mas contra a força primordial das raízes de Fenrir.
Fenrir sorriu novamente, enquanto a luz prateada e a escuridão das raízes se confrontavam sobre o corpo de Lyra, em uma batalha por sua alma.
- É assim que a fraqueza se transforma em força. Lembre-se desta dor, Luna Quebrada. Faça-a sua. Converta a rejeição no fogo que consumirá o mundo de Kael. Se você sobreviver a esta noite, você será a Tempestade que ele não viu chegar.
A noite se fechou sobre Lyra, afogada no tormento e no primeiro juramento de vingança que fez o chão tremer sob a Alcateia da Sombra, a quilômetros de distância. Lyra já não era a ômega rejeitada. Era a forja.
A Luna Quebrada havia encontrado seu ferreiro.
O tempo, sob o domínio de Fenrir, deixou de ser uma medida e se tornou uma tortura cíclica. Lyra não soube se passaram meses ou anos. Só sabia que o ciclo de agonia se repetia: a dor da extração, a manifestação da raiva, e a lenta e gélida canalização de seu novo poder.
O local da forja era uma caverna nas profundezas das Montanhas do Lamento, um território neutro que cheirava a minerais e morte. A escuridão era quase absoluta, e a única luz vinha da estranha geada prateada que emanava de Lyra durante suas sessões de treinamento.
- A rejeição de Kael - sibilava Fenrir certa noite, enquanto Lyra se contorcia, atada pelas raízes negras - não foi apenas um rompimento do laço. Foi uma tentativa do seu Alfa de sufocar sua verdadeira forma. Ele sentiu a antiguidade no seu sangue.
- Antiguidade? - Lyra ofegou. Toda vez que tentava falar, a dor a consumia.
- O sangue Blackwood, o de Kael, é poderoso, mas sua linhagem se diluiu com o dever e a política. Seu sangue, Luna Quebrada, é diferente. É a semente dos Lobos do Crepúsculo, aqueles que canalizavam a energia lunar sem a bênção da Deusa. Um poder que não morre, mas se transforma. A rejeição o despertou, mas está te matando porque você não sabe como contê-lo.
Fenrir se movia como uma sombra. Nunca a tocava, exceto para infligir mais dor mágica. Seu bastão era a ferramenta de seu ofício, golpeando a terra para convocar as raízes ou canalizando o ar gelado da caverna.
- O fogo da sua raiva deve se tornar gelo. O caos deve ser estrutura. Lyra, concentre-se. Não na dor, mas na crueldade daquele homem. Você vê o desprezo nos olhos dele? Você sente o vazio no seu peito? Converta isso em uma barreira.
Lyra se concentrou. Visualizou o Grande Salão, o eco da palavra "rejeição", a frieza na voz de Kael. A dor era uma faca. Lyra a tomou.
O grito de agonia que havia sido absorvido no Capítulo 2, agora se convertia em uma ressonância interna. O suor frio encharcava seu corpo. As raízes apertavam.
- Falhe! E a maldição vai te consumir! - rugiu Fenrir.
Lyra sentiu sua forma interna de lobo, que estava latente, se revolver. Não era mais um lobo. Era uma criatura feita de estilhaços de gelo, furiosa e letal. O frio que Lyra havia convocado se manifestou no exterior, fazendo com que a geada prateada de sua magia congelasse em cristais afiados ao redor das raízes.
Fenrir interrompeu seu canto. Seus olhos âmbar se abriram pela primeira vez com um assombro genuíno.
- Você conseguiu - sussurrou, com um tom quase reverente.
Lyra caiu no chão, liberta das raízes. Sua pele ardia, mas seu peito, onde o laço havia sido arrancado, se sentia estranhamente vazio e... forte. A geada prateada desapareceu.
- Este é o início da sua nova força. Nós a chamaremos de Marca da Tempestade. É a prova de que o laço se foi, substituído pela sua própria vontade. Agora você tem magia, Lyra, mas é apenas uma novata. Você tem que aprender a usá-la sem que ela te mate.
Os anos que se seguiram foram uma espiral ascendente de dor física, mental e mágica.
Fenrir a treinou como uma assassina. Lyra aprendeu a se transformar em um lobo silencioso, completamente negro, com a pelagem tão densa que absorvia a luz, mas com olhos que brilhavam com aquele prateado gelado. Seu lobo não era grande, mas era rápido, preciso e se movia com uma graça que desafiava os Alfas maiores.
Ela aprendeu combate corpo a corpo, não apenas com lobos, mas com caçadores, bruxas errantes e outras bestas míticas que Fenrir trazia ou que encontravam em suas viagens. Lyra não tinha força bruta; tinha eficiência. Cada golpe, cada chute, cada mordida era dirigida a um ponto vital, sem desperdiçar energia.
- Um lobo que luta com a força se cansa. Um lobo que luta com a raiva se torna previsível - ensinou Fenrir, golpeando-a com o bastão por qualquer erro. - Uma Tempestade luta com o frio. Congela o medo do inimigo e, depois, o destrói.
Mas o mais importante foi o treinamento mental. Lyra aprendeu a proteger sua mente da intrusão de outros lobos, a construir uma muralha de gelo tão perfeita que nem mesmo Kael, com sua autoridade de Alfa Supremo, conseguiria penetrá-la.
- A dor é sua arma, Lyra. A humilhação é seu escudo. Se Kael te olhar novamente e vir qualquer rastro da ômega que ele rejeitou, teremos falhado - Fenrir a lembrava constantemente.
Um Salto Temporal: Três Anos Depois
Três anos de inferno haviam deixado suas cicatrizes. Lyra era agora uma mulher esguia, com músculos tensos e definidos. Seu cabelo escuro caía sobre suas costas, e seus olhos, em seu estado normal, já não eram suaves e castanhos, mas um inquietante tom verde-acinzentado, sempre alertas.
Eles estavam na beira do Território do Norte, observando a cidade humana de Vesperia. Lyra vestia armadura de couro escuro e uma capa com capuz que ocultava quase todo o seu rosto. Seu aroma não era mais detectável como lobo; Fenrir a havia ensinado a mascará-lo com essências naturais. Ela era uma sombra.
- Chegou o momento - disse Fenrir, sua voz ecoando no ar da noite.
- A Legião do Norte? - perguntou Lyra. Sua voz era baixa e forte, sem rastro da ômega trêmula de três anos atrás.
- A Legião é um problema, mas não é a crise. A crise é o Sangue Negro. Uma praga que drena a vitalidade e a força dos lobos. Nos últimos seis meses, ela atingiu o Coração Negro. Os lobos de Kael estão adoecendo. O Forte Lunar está de joelhos.
Lyra sentiu uma pontada, uma satisfação fria. Não era prazer, mas a calma da vingança planejada.
- E o que isso tem a ver com Kael?
Fenrir se aproximou de Lyra, seus olhos âmbar brilhando com malícia.
- O Sangue Negro é imune à magia Alfa. É um veneno que ataca o laço da alcateia. Kael perdeu quase metade do seu exército. Sua aura de Alfa Supremo está se esvaindo. Ele está desesperado. Enviou emissários por todo o continente. Está buscando o único tipo de poder que pode curar o que ele desprezou.
- A magia dos Lobos do Crepúsculo - concluiu Lyra, sua voz um sussurro de gelo.
- Exato. A magia do Crepúsculo, que você forjou com a rejeição. É a cura, Lyra. Mas tem um preço. Kael terá que se humilhar perante você. Terá que implorar por sua ajuda.
Lyra apertou a mandíbula. A lembrança de sua humilhação pública era um combustível perfeito.
- Ele não vai implorar. Não é o estilo dele.
- Ele o fará, ou seu império cairá. Eu já lhe enviei uma mensagem anônima, Lyra. Dei-lhe a localização. Eu disse que a única pessoa que pode curar sua alcateia é uma guerreira misteriosa conhecida como Tempestade, e que ela só negocia em um terreno neutro, sem laços nem lealdades.
Lyra se virou para Fenrir, com uma pergunta que guardara por três anos.
- Por que você me ajuda? Qual é o seu interesse na queda de Kael?
Fenrir encolheu os ombros, sua expressão sombria e antiga.
- Os Alfas Supremos são uma praga. Mataram minha linhagem séculos atrás, Lyra. Kael é apenas o último de uma longa linha de arrogantes. Ao humilhá-lo, ao fazer com que a Tempestade o desmantele peça por peça, equilibramos a balança. Além disso... - Fenrir lhe deu um sorriso fugaz e cruel -... seu poder é lindo de se observar.
- E se ele me reconhecer?
- Ele não o fará. A ômega Lyra está morta, consumida pelo veneno da rejeição. Só resta a Tempestade. Quando ele te vir, só verá a salvação dele. E o que é mais importante, ele sentirá que o laço desapareceu. Era isso que ele queria, não era?
Lyra assentiu. Fenrir havia usado a própria magia da rejeição para ocultar completamente o Laço de Companheiros. Para Kael, Lyra não significaria nada; seria apenas uma poderosa desconhecida.
- Iremos para a Cidade dos Pactos. Um lugar onde a magia neutra prevalece e nenhum Alfa pode invocar seu direito de território. Kael virá. E você colocará as regras - disse Fenrir.
Lyra olhou para o sul, para onde ficava o Forte Lunar, envolto na escuridão do seu desespero. Três anos de dor se condensaram em uma frieza glacial.
- Então, que ele se prepare. A Tempestade voltou para casa.
Lyra colocou o capuz. O plano estava em curso. Ela não ia destruir o império de Kael com espadas, mas com a humilhação, a mesma arma que ele havia usado contra ela. Iria obrigá-lo a se arrepender de ter rompido o laço da única maneira que um Alfa Supremo podia entender: destruindo seu orgulho.
O jogo da Tempestade havia começado.