Eram as férias de julho de 2018. Meu voo sairia às 12h5min. do aeroporto de Brasília com destino a Belém do Pará, mas cheguei duas horas com antecedência. Ao chegar, fui colocado em um voo que sairia logo mais as 10h20min. fui nesse! Fazia uns cinco anos que não visitava a minha família no interior do Pará. A viagem foi tranquila e rápida. Deixei um céu límpido, azul, sem nenhuma nuvem em Brasília e me deparei com um céu carregado de nuvens ameaçadoras em Belém. Mas, pior que o céu carregado, estava meu coração carregado de saudades.
Era uma viagem para estudo, além é claro do intuito de visitar minha família. Estava à procura de inspiração para escrever um novo livro e queria descobrir histórias, fatos, realizar uma pesquisa de campo para este novo projeto literário.
Era uma sexta-feira 13, fiquei o fim de semana em Belém e somente na segunda-feira é que me dirigi à casa dos meus pais em Capitão Poço. Cheguei por volta do meio-dia, almocei e procurei descansar pela parte de tarde. A noite fui visitar meu irmão Gregório, que é casado. De todos, talvez este fosse o irmão que mais tivesse admiração pela sua loucura, ou sei lá, amor; ou as duas coisas; como dizia Nietzsche: "Há sempre alguma loucura no amor". As vezes não conhecemos aqueles com os quais convivemos, nem sempre por desinteresse de nossa parte, mas por que o outro nem sempre se sente preparado para desnudar o ser diante de nós. O fato é que durante esta visita, fui surpreendido com um pedido. Escrever um livro contando a história de minha cunhada.
Voltei para casa demasiadamente curioso para saber do porquê alguém se interessaria em querer saber de sua história. Ela apenas me disse: "Por muito tempo me calei, fui submissa, mas agora quero contar a minha história". Pensei que pudesse ser algum problema com meu irmão, mas não podia ser, ela sempre confessara que era feliz e agradecia a Deus pelo marido que tinha, mas enfim, seja lá o que fosse, iria descobrir.
Dois dias se passaram, era após o almoço. Ela apareceu lá em casa, foi de súbito, pois tinha poucos dias para estar junto com os meus, não podia perder tempo se quisesse algo para meu livro. Então a chamei para que se quisesse contar logo a sua história, ela aceitou de prontidão. Fiquei com o coração acelerado e aquecido, tão quanto estava o tempo naquele momento, quente e úmido. Fosse o que fosse, seria difícil ouvir qualquer coisa penosa sobre meu irmão.
Dirigimo-nos para o quintal da casa deles, era um lugar bonito, com vários pés de açaí. Sentamo-nos em duas cadeiras, uma de frente para a outra. Liguei meu celular e pedi que começasse a contar o que quisesse. Ela começou:
Por muito tempo me calei, fui submissa, mas agora quero contar a minha história. Quero contá-la para que outras não cometam o mesmo erro que o meu: de silêncio e submissão. Meu nome é Rose, nunca tive uma vida fácil, meu pai era alcoólatra, violento e por diversas vezes fui vítima de sua truculência, deixava muitas vezes faltar comida em casa. Eu tinha doze irmãos, e uma vida com muitas privações por causa da pobreza. Minha família vivia em uma vila no município de Ourém, conhecida como Riacho. Morávamos em uma casa de barro.
Meu pesadelo começou quando eu tinha doze anos, por volta de 1992. Havia uma fazenda onde sempre ia pedir comida ou algum trabalho para que pudesse comprar comida. Algumas vezes conseguia trabalho e como paga me davam comida. A fazenda era Manoel Domingos, como todos chamavam. Mas não era a família dona da fazenda que lá me acolhia e sim a família do vaqueiro. O que mais queria vida era poder fugir da truculência de meu pai, da pobreza amarga, ter liberdade, sentir e ser de fato uma mulher. Tinha vontade de poder me maquiar, me vestir melhor. Em momentos de fragilidade somos presas fáceis.
Ao dizer esta parte do relato, parou um pouco, seu olhar transmitia tristeza, vez ou outra parava para dar um pigarro. Continuou: Até que a mulher do vaqueiro tentou me convencer que para sair dessa situação só havia uma alternativa: me casando com o filho dela. E de fato me convenceu. Encontrava-me desesperada com a situação de minha família tanto da miséria, quanto do alcoolismo e da violência do meu pai. Vivia triste, abatida, queria ter coisas de mulher. As vezes desejava ter uma roupa nova, um calçado novo, maquiagem. Mas, na prática usava roupa já usada de minha mãe, de minhas irmãs. Casando, talvez pudesse ter tudo isso, pois meu marido me daria. E por isso, aos poucos, deixei-me levar pelas investidas acobertadas pela mãe do rapaz. Ele era mais velho que eu, mas não muito, em torno de cinco anos. Por eu ainda ser muito nova, dificilmente meus pais aceitariam. A única solução foi nos relacionarmos às escondidas. E foi o que aconteceu. A mãe dele vivia me dizendo que eu iria me sentir melhor, mas acolhida se tivesse um homem; no caso, um marido!
Eu estava entrando na adolescência; ele, já era quase adulto com seus dezessete anos. Tinha altura mediana, era moreno, nariz meio achatado, cabelo crespo. Vestia-se de forma simples. Certa vez teve uma festa lá na vila do Riacho. A noite já ia adiantada, os galos começaram a cantar. Então resolvemos fugir naquela madrugada. Saímos à pé cambaleando aqui e ali, feitos dois loucos pela madrugada na iminência do dia. Naqueles tempos fazer isso era o mesmo que se casar. A partir daquele dia fomos morar nas dependências da fazenda, em uma casinha simples.
Em menos de um mês ele mudou completamente, chegava violento com raiva de tudo e descontava toda raiva em cima de mim. Começou com puxões no cabelo, depois começou a me dar tapas e as coisas foram só piorando. Muitas vezes apanhava gratuitamente. Sem abrir a boca para nada, ele chegava e me esbofeteava. Batia-me com qualquer coisa que tivesse na mão: Chinelo, com o lado do facão, corda, cipó, etc. Meu mundo desabou, mas acreditava que ele poderia mudar, que esta situação era passageira. Procurei me culpar, mas não achava culpa. A maquiagem que sonhara, deu lugar as marcas roxas de tapas e socos.
Pedi para dar uma pausa para respiração. Parei de gravar. O dia estava lindo, todavia, era a hora das trevas, depois do almoço. O ambiente era debaixo de uma plantação de açaí. Durante esta pausa, fiquei pensando no dia em que a vi pela primeira vez. Eu estava jantando quando meu irmão chegou segurando-lhe pela mão para apresentá-la, já como esposa, para a nossa família. Ela chegou tímida e desconfiada. Dias depois foram morar em uma casinha de barro batido em uma rua atrás de casa na vila de Igarapé Grande no município de Capitão Poço. A referida vila do Riacho de onde provinha ficava no município vizinho, Ourém. A casa em que foram morar era de apenas um cômodo e um pequeno quintal. A renda consistia em um benefício pago pelo governo (o bolsa família) e o trabalho do meu irmão na roça. Aos poucos ia acontecendo o seu desvelamento. Descobrimos que ela tivera sete filhos, mas que apenas cinco haviam sobrevivido, mas como haviam morrido, ninguém sabia. Apenas que morreram ainda crianças.
Diante do desconhecido, é comum surgir especulações. Foi trazendo, aos poucos, seus filhos - Todos homens (ainda meninos). Muitos comentavam sobre a loucura do meu irmão, de unir-se com uma mulher já velha e cheia de filhos. Pioraram as coisas quando um homem surgiu e começou a ameaçar e perseguir meu irmão. Era o ex-marido, famoso por ser um homem demasiadamente violento. A vila inteira ficou revoltada com tal situação. Que meu irmão havia enlouquecido por suportar tal situação de calamidade. Após a pausa, retornamos à gravação, ela continuou, mas logo tivemos uma nova interrupção, pois a memória do celular encheu. Mudei o modo de armazenamento do celular do cartão SD para a memória interna e assim continuamos.
Faz-se misto dizer que o tal marido no qual ela falara era o mesmo que ameaçava meu irmão, pois ela só teve dois maridos: este e o meu irmão. Tratava-se de um tal de Bragança. Sujeito pequeno, moreno, cara de poucos amigos. No pequeno vídeo pausado, ela apenas relatou que: "ele sai para jogar futebol e chegava doido, parecia outro, dizia que tinha conhecido uma menina e que ia ficar com ela, e me espancava, cuspia na cara. Eu não sabia como lidar com aquela situação. Depois descobri que ele usava drogas".
Após mudar o armazenamento demos continuidade, agora de forma bem mais longa e sem pausa. Pedi para que relatasse umas das cenas mais dramáticas, deu uma longa respirada, disse que ia andar muito a história, mas relatou:
Apanhar sem motivo, muitas vezes...muitas - Continuou com voz embargada - Todas as vezes em que ele me batia ou que tínhamos alguma briga muito grave, eu ia embora para a casa da minha mãe. Mas não sei, parece uma sina, queria fugir daquele inferno, mas ele sempre me convencia a voltar com ele. E eu, besta com era, acreditando que ia ser diferente, cedia. Tivemos sete filhos, e só Deus sabe como cinco dos sete sobreviveram. Nenhum dos filhos ele queria, dizia que o filho não era dele e pedia para abortar, mas nunca abortei.
Certa vez, grávida de oito meses do segundo filho, ele levou um casal para morar conosco na casa paupérrima. Era de manhã, ele e a mulher que morava conosco saíram para fazer uma caieira na mata, todavia esqueceram o isqueiro para acendê-la quanto estivesse pronta. Com dificuldades consegui ir até eles, mas ao chegar me deparei com uma cena lamentável. Dentro do buraco onde a lenha seria queimada, estavam os dois sem roupa fazendo sexo. Fiquei desesperada, saí, mas, antes, eles me notaram. Estava cega de raiva, chorava. A única coisa que pensava era contar para o marido a tamanha falta de pudor e respeito que tiveram conosco. E foi o que fiz. Contei para o marido a cena que tinha visto. Na hora em que estava contando eles chegaram. Disseram que eu estava louca e que era tudo mentira.
Pouco tempo depois o casal viajou para a cidade de Primavera e ficamos sozinhos. Ele estava furioso, seus olhos estavam vermelhos, e se cuspisse, cuspiria brasas. Pegou-me com força, arrastou-me até o cavalo, amarrou uma corda nos meus pés. Eu chorava desesperada pedindo clemência. Pensava no meu filho que dentro de poucos dias nasceria. A barriga estava enorme. Montou no cavalo e saiu me arrastando pela fazenda. A grama quente ardia nas minhas costas, procurava proteger a barriga para proteger também o bebê. Mais uma vez apanhei gratuitamente, fui castigada pela falta de respeito dele. Já quase sem forças, consegui me soltar da corda.
Desesperada me embrenhei na mata e fiquei lá escondida por um tempo. Escurecera, era por volta das sete horas quando escutara ele me chamar. A voz ecoava na mata, deixando-me angustiada.
- Vem, não vou fazer mais nada com você não...vem meu amor. Me perdoa.
Trêmula, fechei os olhos, percebi que estava cercada de cobra, não havia me dado conta, mas estava dentro de um poço com muitas cobras. Tenho...tinha pavor de cobra. Comecei a chorar. Abria os olhos semicerrados e via aquele monte de cobra. As cobras me tocavam. Fiquei inerte com uns minutos, fui despertada mais uma vez pelo seu grito na escuridão da mata:
- Vem, sai daí!
Abri os olhos completamente e fiz movimento para fugir das cobras, mas não haviam cobras, era tudo imaginação pelo pavor que tinha e que imaginava que poderia ser atacada a qualquer momento pelo bicho. A cobra mesmo, estava fora do mato me chamando.
Por volta das oito horas, depois de tanta insistência através dos gritos, resolvi saí. Imaginei deveras que estava arrependido. Ao sair, nunca havia apanhado tanto, quanto apanhei naquela noite. Ele foi até o mato, retirou um cipó de fogo. Bateu tanto, mas tanto que fiquei com as costas sagrando. Sangrava não só as costas, meu coração principalmente. Ao chegar na casa paupérrima ele entrou e eu fiquei do lado de fora derramando lágrimas amargas. A escuridão sendo minha única companhia que guardava a minha dor.
Do lado de fora, passei a noite acocada. Imaginei que poderia morrer a qualquer momento. Estava sem forças. O sol veio revelar meu estado deplorável e me mostrar que precisava salvar a minha vida e a vida do meu bebê. Com dificuldade consegui ir para a casa dos meus pais. Cheguei, os olhos estavam vermelhos, minhas costas estavam inchadas. Meus pais nada perguntaram, mas sabiam o que se passava vendo meu estado.
Eu tinha certeza que ele não me amava, mas eu o amava e achava que tudo mudaria. Passou-se um mês, ele ia lá na casa dos meus pais, e ficava insistindo que ia mudar, que não ia mais fazer aquilo. Eu cedi. Meus pais ficavam meses sem falar comigo com raiva da minha decisão. Aquilo tinha se tronado um círculo vicioso.
Veio a quarta gravidez. Desejei comer manga. Fui ao quintal onde havia um pé. Procurei e avistei lá no alto uma única manga. Com sacrifício consegui apanhar. Era início da noite. Sentei na cozinha e comecei a comer a manga com sal. Ele chegou, entrou, olhou-me com fúria, bateu na manga e começou a me bater também sem dizer uma palavra. Eu disse com voz embargando e esboçando um choro:
- Essa a única manga.
Não disse mais nada, apenas senti sua mãe quente soar no meu pé do ouvido. Eram tapas e chutes como se chuta uma coisa qualquer. O mais triste da surra foi o bebê que não resistiu.
Os moradores da vila onde meus pais moravam construíram uma casinha de barro batido e doaram para morar. Por insistência, ele não quis morar na vila e por isso construiu a casa cerca de um quilômetro afastada da vila. Sai para as festas. Toda vez que ia para as festas, voltava com a camisa com marcas de batom e eu apanhava. Fazia de tudo para deixar meu filho mais velho acordado para que percebesse e o inibisse. De nada adiantava, batia do mesmo jeito. Meu filho, ao ver a cena, muitas vezes se escondia dentro do guarda-louça com medo. Cinco filhos vivos e dois mortos. Dentre os mortos, uma menina. Já eram os dias para dar à luz. Ele chegou, como sempre sem dizer uma palavra, começou a me chutar. Chutou tanto... mas tanto... sempre no ventre. Largou-me, um vizinho me socorreu e me levou para o hospital de bicicleta, sentia muita dor. Imaginava que ia ter a criança no caminho.
A criança nasceu com a moleira afundada devido um dos chutes que pegou em sua cabeça. Depois de três meses veio a óbito. Meu sonho era ter uma menina. A única, sofreu violência antes de ver a luz do sol, o sabor da vida.
A casa que nos deram era modesta e bem pobre. Não tínhamos quase nada. Para fazer comida tinha que catar gravetos e preparar a refeição em um fogão improvisado com tijolos. Todos as manhãs, bem cedo, passava o ônibus escolar. Estava ainda deitado. O menino estava sentado no batente querendo ver a passagem do ônibus. Da rede, disse:
- Manda esse menino entrar - disse num tom grosseiro como sempre.
Eu estava na cozinha.
- Deixa o menino, está apenas querendo ver o ônibus, não está fazendo nada demais.
- Você fala demais!
Ele pegou uma garrafa de 51 fazia que se encontrava próximo a rede e jogou na parede perto de mim. Vi como um vulto e só deu tempo de desviar o rosto. A garrafa quebrou na parede.
- Era para atingir seu rosto, para deformar e você nunca mais ser uma mulher.
Minutos de silêncio, pensei comigo: "Se ficar aqui eu vou morrer, e ainda vai matar meus filhos". Disse:
- Quer saber? acabou, vou embora, não quero mais essa vida.
Falou num tom de ironia:
- Duvido você ir embora. Você gosta de apanhar, sua puta.
Fui à casa da minha mãe. Perguntei de supetão:
-Mãe, tem lugar para mim e meus filhos. Se tiver lugar só para mim não basta, tem também que ter eles.
Minha mãe me lançou um olhar piedoso e acolhedor.
- Claro, minha filha, pode vir.
Dessa vez foi diferente, estava decidida a sair daquela vida de sofrimento, por mim e por meus filhos. Fui embora para Belém a procura de trabalho e deixei meus filhos com minha mãe. Estava trabalhando em uma casa de família. Já fazia mais de um mês que tinha ido embora. Mandava um pouco de dinheiro que conseguia para minha mãe. Mas, mais um golpe em meu semblante. Ele vendeu os dois filhos mais novos. Fiquei desesperada. Apenas soube que a venda havia sido em Capanema. Mudei para Capanema afim de encontrá-los.