Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Outras > A mulher que perdeu o sorriso
A mulher que perdeu o sorriso

A mulher que perdeu o sorriso

Autor: Assis Silva
Gênero: Outras
Um escritor, ao viajar de férias para visitar a família e em busca de uma nova história para escrever seu próximo livro, foi surpreendido com um convite de sua cunhada para que escrevesse sua história. Muitos segredos são revelados. Uma história surpreendente de uma mulher que muito sofreu na vida, foi abusada, sofria de violência doméstica e fez de tudo para proteger seus filhos.
Ler Agora

Capítulo 1 Prefácio

Durante as férias de julho, ao visitar sua família no interior do Pará e em busca de uma nova história para transformar em livro, um escritor recebe um convite inesperado: contar a história de sua própria cunhada.

Intrigado, aceita o desafio. Afinal, apesar dos anos de convivência, pouco sabia sobre o passado daquela mulher. À medida que a entrevista avança, segredos dolorosos começam a vir à tona, revelando uma trajetória marcada por sofrimento, medo e sobrevivência.

Estupro, violência doméstica, abusos, pobreza e humilhações fizeram parte da vida de Helizabeth desde muito cedo. Casada ainda na adolescência, acreditava que seu destino seria suportar a dor até que a morte a libertasse. Mãe de cinco filhos e sem perspectivas de mudança, passou anos presa a um relacionamento abusivo que parecia não ter fim.

Mas uma manhã, após mais um episódio de violência, compreendeu que, se permanecesse naquela vida, correria o risco de perder não apenas a própria existência, mas também a de seus filhos. Foi então que decidiu romper com o sofrimento.

Antes, porém, de encontrar um novo caminho, enfrentaria desafios ainda maiores. Esta é a história de uma mulher que perdeu o sorriso, mas encontrou forças para recuperá-lo, caso quisesse preservar sua vida.

O autor

Capítulo 2 Agora quero contar a minha história

Eram as férias de julho de 2013. Meu voo sairia às 12h5 do aeroporto de Guarulhos com destino a Belém do Pará, mas cheguei com duas horas de antecedência. Ao fazer o check-in, fui informado de que poderia embarcar em um voo que sairia às 10h20. Aceitei.

Fazia uns cinco anos que não visitava minha família no interior do Pará. A viagem foi tranquila e rápida. Abandonei um céu límpido, azul, sem nenhuma nuvem sobre São Paulo, e me deparei com um céu carregado de nuvens ameaçadoras em Belém. Mas pior que aquele céu carregado estava meu coração, tomado pela saudade.

Quando as portas do aeroporto se abriram para as ruas de Belém, senti o cheiro do Pará. Belém entrou pelas minhas narinas e aqueceu meu coração. Que alívio pisar novamente em terras paraenses. Logo pensei em açaí sem xarope, sem granola e sem leite condensado. Apenas com farinha de mandioca, daquela bem baguda, como se diz no Pará, e, de acompanhamento, um peixe-serra ou uma gó frita, bem sequinha.

Era uma viagem para visitar minha família e com um propósito de estudo: descobrir uma nova história. Estava à procura de inspiração para escrever um novo livro. Queria encontrar histórias, fatos e realizar uma pesquisa de campo para esse novo projeto literário.

Era sexta-feira, dia 12. Passei o fim de semana em Belém e somente na segunda-feira segui para a casa dos meus pais, no interior. Cheguei por volta do meio-dia, almocei e procurei descansar durante a tarde.

À noite, fui visitar meu irmão Gregório, que é casado. De todos os meus irmãos, talvez fosse por ele que eu tivesse mais admiração. Pela sua loucura, ou talvez pelo seu amor. Ou pelas duas coisas. Como dizia Nietzsche: "Há sempre alguma loucura no amor".

Às vezes não conhecemos verdadeiramente aqueles com quem convivemos. Nem sempre por desinteresse de nossa parte, mas porque o outro nem sempre se sente preparado para desnudar o próprio ser diante de nós.

O fato é que, durante aquela visita, fui surpreendido por um pedido: escrever um livro contando a história de minha cunhada.

Voltei para casa extremamente curioso. Não conseguia entender por que alguém desejaria transformar a própria vida em livro. Ela apenas me disse:

- Por muito tempo me calei. Fui submissa, mas agora quero contar a minha história.

Pensei que pudesse haver algum problema envolvendo meu irmão. Mas não parecia ser isso, pois sempre dizia que era feliz e agradecia a Deus pelo marido que tinha.

Enfim, fosse o que fosse, eu acabaria descobrindo.

Capítulo 3 Em momentos de fragilidade, somos presas fáceis

Dois dias se passaram. Era após o almoço quando apareceu lá em casa. Foi de súbito. Como tinha poucos dias para estar junto aos meus familiares, não podia perder tempo se quisesse conseguir material para o livro. Então a convidei para contar sua história. Aceitou de prontidão.

Fiquei com o coração acelerado e aquecido, tanto quanto estava o tempo naquele momento: quente e úmido. Fosse o que fosse, seria difícil ouvir qualquer coisa penosa sobre meu irmão. Dirigimo-nos para o quintal da casa deles. Era um lugar bonito, com vários pés de açaí. Sentamo-nos em duas cadeiras, uma de frente para a outra. Liguei o celular e pedi que começasse a contar o que quisesse. Não confiei em minha memória, pois lembrar dos pormenores seria uma tarefa árdua. Ao registar em vídeo, seria mais fácil escrever.

Ela começou:

- Por muito tempo me calei. Fui submissa, mas agora quero contar a minha história. Quero contá-la para que outras mulheres não cometam o mesmo erro que eu cometi: o erro do silêncio e da submissão.

Pensei: "como é difícil uma pessoa viver calada, seja por medo ou vergonha. Meu coração acelerou, ainda bem que eu não precisava falar, pois, certamente, tremeria a voz".

Prosseguiu:

- Meu nome é Helizabeth. Nunca tive uma vida fácil. Meu pai era alcoólatra, violento e, por diversas vezes, fui vítima de sua truculência. Muitas vezes deixava faltar comida em casa. Eu tinha doze irmãos e uma vida cheia de privações por causa da pobreza.

Minha família vivia em uma vila distante da cidade de Ourém. Morávamos em uma casa de barro, pequena e apertada para tanta gente.

Quando eu tinha doze anos, lá pelo ano de 1992, já queria ter coisas de mulher: maquiagem, roupa nova, sapatos. As roupas que usava eram da minha mãe ou doações de outras pessoas. Passávamos muita fome, muita fome...

Aqui, ela respirou fundo como que algo da infância viesse à memória. Imaginei uma menina de 12 anos. Não há como chamar de mulher alguém com tão pouca idade. As bonecas ainda ontem faziam parte da sua vida, tal como o pai que ainda tem lampejos de herói e porto seguro.

Recordei da vez que fui à casa de seus pais: uma casa simples, de barro batido, atrás passava um igarapé (um riacho), como era conhecida a vila: Riacho. Achei bastante curioso, a vila tinha uma leve inclinação para onde passava o pequeno rio. E a casa, como ficava à beira do riozinho, tinha uma vala bem no meio dos cômodos, pois a água da chuva não pede licença, e não aceita que a interrompam.

- A cerca de dois quilômetros da vila, continuou contando, havia uma fazenda onde sempre ia pedir comida ou algum trabalho para conseguir comprar algo para comer. Algumas vezes conseguia serviço e, como pagamento, recebia comida.

A fazenda pertencia ao João Matogrosso, como todos o chamavam. Mas não era a família do dono que me acolhia, e sim a família do vaqueiro.

O que mais queria na vida era fugir da truculência do meu pai e da pobreza amarga. Queria ter liberdade, sentir-me e ser, de fato, uma mulher. Tinha vontade de me maquiar, de me vestir melhor. Me imaginava bonita igual essas mulheres que vemos nessas revistas.

Mas não eram apenas essas as vontades que tinha. Antes, já havia me contado sobre o grande desejo de poder ler um texto. E, apesar dessa vontade, não se sentia acolhida para encarar uma sala de aula e aprender as primeiras letras.

Pensei comigo: "E depois que eu escrever a história, alguém terá que lê-la para ela. Não terei um retorno fiel; não saberei se, em algum relato, não fui fiel - como gostaria, talvez, de ter sido".

Em momentos de fragilidade, somos presas fáceis", disse ela, em certo ponto do relato. Ao pronunciar essas palavras, fez uma pausa breve. O olhar, carregado de tristeza, parecia se perder por um instante. Vez ou outra, limpava a garganta com um pigarro, como se precisasse reorganizar a própria voz. Eu a interrompia, às vezes, apenas para esclarecer alguns pontos. Então continuou:

- Até que a mulher do vaqueiro tentou me convencer de que, para sair daquela situação, só havia uma alternativa: me casar com o filho dela.

Tanto insistiu que acabou me convencendo.

Eu estava desesperada com a situação da minha família. Com a miséria, o alcoolismo e a violência do meu pai. Vivia triste, abatida. Queria ter coisas de mulher. Desejava uma roupa nova, um calçado novo, maquiagem; e a realidade era usar roupas já usadas por minha mãe ou por minhas irmãs.

Fiz uma longa viagem ao ouvir isso. Já ouvira os mais velhos da vila contarem que, antigamente - não mais que cem anos atrás -, as meninas buscavam o casamento justamente para conquistar liberdade.

Embora isso hoje cause estranhamento, já que a realidade é completamente outra, conheci muitas mulheres - inclusive jovens - com mais de dois cursos superiores que se recusam a casar e a ter filhos, tudo para preservar a própria liberdade.

É curioso como cem anos são capazes de separar gerações tão completamente distintas.

- Casando, talvez - ela continuou -, pudesse ter tudo isso, pois imaginava que meu marido me daria. Foi por isso que, aos poucos, deixei-me levar pelas investidas do rapaz, sempre incentivadas pela mãe dele. Era mais velho, mas não muito - cerca de cinco anos.

Por ainda ser muito nova, dificilmente meus pais aceitariam aquele relacionamento. A única solução foi nos encontrarmos às escondidas. E foi o que aconteceu.

A mãe dele vivia me dizendo que me sentiria melhor, mais acolhida, se tivesse um homem ao meu lado: um marido.

A família do vaqueiro gozava do respeito do meu pai e de todos da vila. Aos olhos das pessoas, era uma família exemplar. De vez em quando, ajudavam lá em casa. O vaqueiro era o velho Seixas, um homem de pele morena, de passos firmes e meio desajeitados. Empunhava respeito.

Já a mulher tinha a pele mais clara, cabelos encaracolados e uma expressão de poucos amigos. Mesmo sorrindo, parecia estar zangada. Sua voz era grossa, mais grossa que a de muitos homens. E tinha bigodes. Como me enojava aqueles bigodes.

Lembrei-me, sem querer, de um episódio envolvendo a senhora em questão. Na vila de Igarapé Grande, no interior de Capitão Poço - onde este relato me é contado -, havia um costume curioso: ao se aproximar do igarapé (ou "balneário"), a pessoa gritava: - Lá vai homem! E aguardava a resposta, que podia ser: - Tem mulher! ou - Tem homem! Era a senha improvisada para evitar constrangimentos... ou, pelo menos, tentar.

Pois bem, lá estava a senhora, em seu banho. Naquele tempo, chuveiro era "artigo de ficção científica", e poço no quintal, privilégio de poucos. Ao ouvir o aviso, respondeu prontamente, com sua voz grossa e inconfundível: - Tem mulher!

Acontece que a firmeza da resposta, somada ao timbre nada delicado, deixou quem estava chegando em dúvida por alguns segundos - o suficiente para transformar a tal "senha de segurança" em um pequeno teste de coragem.

Os igarapés eram protegidos pela mata, não ficavam expostos; a vegetação densa dificultava a visão de quem estava dentro. Tratava-se de um grupo de adolescentes, curiosos como manda a idade.

- Você ouviu homem ou mulher? - perguntou um deles.

- Eu ouvi mulher..., mas, pela voz, está querendo fazer sacanagem.

E insistiram no protocolo:

- Lá vai homem!

- Tem mulher! - veio a resposta, firme outra vez.

- Vamos! - decidiram, reunindo coragem mais na conversa do que no peito.

Ao chegarem à beira do pequeno rio, a curiosidade foi rapidamente substituída por surpresa: peitos caídos - e não viram mais nada, só ouviram.

- Seus moleques safados! Não ouviram que eu gritei que era mulher?

A debandada foi imediata. A zorra se espalhou pela mata, cada um correndo mais do que o outro, como se o próprio igarapé tivesse resolvido expulsá-los dali.

Continuo o relato: - Eu estava entrando na adolescência; ele já era quase um adulto, com seus dezessete anos. Tinha altura mediana, era moreno, de nariz meio achatado e cabelo crespo. Vestia-se de forma simples. Trazia no rosto a mesma expressão fechada da mãe e o jeito desajeitado de andar do pai.

Nossos encontros pelos "cantos escondidos" da fazenda tinham sempre a proteção da mãe dele. Certa vez, houve uma festa na vila. A noite já ia avançada e os galos começavam a cantar quando resolvemos fugir.

Recordei a vila do Riacho: fica aproximadamente entre 10 e 20 km do centro da cidade de Ourém. É uma comunidade rural, com ruas de barro batido e ruas de terra. Há um campo de futebol, e as casas foram construídas em volta do campo.

Continuou:

Saímos a pé, cambaleando aqui e ali, feito dois loucos atravessando a madrugada rumo ao amanhecer. Naqueles tempos, fazer aquilo equivalia a um casamento. Então, a partir daquele dia passamos a morar nas dependências da fazenda, em uma casinha simples. Não tínhamos quase nada, mas acreditei que as coisas mudariam com o tempo. Sentia-me aliviada e, ao mesmo tempo, com medo do futuro. E se nada fosse como eu imaginava? Mas, os primeiros dias, apesar da pobreza, eu estava feliz.

Meu conto de fadas não durou nem um mês. Não tenho nem o que contar algo bom que aconteceu nesse curto tempo, pois estava apaixonada. Passou a não me tratar mais com respeito. Chegava violento, com raiva de tudo, e descontava toda aquela raiva em mim.

Você não lembra de nada, absolutamente nada de bom? Perguntei! - se a coisa boa for ilusória, talvez! Ela retrucou e acrescentou. Uma adolescente não mais é uma criança, mas também não é ainda adulta.

Começou com puxões de cabelo. Depois vieram os tapas. E as coisas só foram piorando. Muitas vezes eu apanhava sem motivo algum. Sem abrir a boca para nada, chegava e me esbofeteava. Batia com qualquer coisa que tivesse na mão: chinelo, corda, cipó ou até mesmo o lado sem corte do facão.

Aquilo foi como uma chuva seguida de tempestade que acaba com tudo. Primeiro caem alguns pingos; quando percebemos, já estamos no meio de uma tempestade, vem os trovões, os relâmpagos, não sabemos onde procurar proteção. Meu mundo desabou. Mesmo assim, acreditava que poderia mudar. Pensava que aquela situação era passageira. Procurei culpa em mim mesma, mas não encontrava.

A maquiagem com que eu sonhara deu lugar às marcas roxas dos tapas e socos. Ele nunca me deu nada. Continuei usando as roupas já surradas da minha mãe. E, apesar de tudo aquilo, achava que precisava continuar. Não podia voltar atrás. Afinal, era apenas o começo.

Pedi uma pausa para respirar e parei a gravação. "Era apenas o começo", isso me tocou. Pois se esse era o começo, o fim seria oque? Um assassinato? O dela não era, pois estava ali, viva e bem no novo casamento. O dia estava lindo. Todavia, era a hora das trevas - depois do almoço. Estávamos debaixo de uma plantação de açaí. Olhei os pés de açaí e me deu vontade de tomar uma cuia bem grande do ouro negro da Amazônia - o vinho de açaí, como dizia meu pai.

Durante aquela pausa, fiquei pensando também no dia em que vi Helizabeth pela primeira vez. Eu estava jantando quando meu irmão chegou, segurando-a pela mão, para apresentá-la à família já como esposa. Veio tímida, desconfiada.

Dias depois, foram morar em uma casinha de barro batido, numa rua atrás da nossa casa. Pouco sabíamos sobre ela - apenas que vinha de outra vila. A casa onde passaram a viver tinha um único cômodo e um pequeno quintal. A renda da família vinha do Bolsa Família e do trabalho do meu irmão na roça.

Aos poucos, foi acontecendo seu desvelamento. Descobrimos que tivera sete filhos, mas apenas cinco haviam sobrevivido. Como os outros dois morreram, ninguém sabia - apenas que haviam partido ainda crianças.

Diante do desconhecido, é comum surgirem especulações. Aos poucos, ela foi trazendo os filhos - todos meninos. Muitos comentavam sobre a loucura do meu irmão por unir-se a uma mulher considerada velha e já com tantos filhos.

As coisas pioraram quando surgiu um homem que passou a ameaçar e perseguir meu irmão. Era o ex-marido dela, conhecido por ser extremamente violento. A vila inteira se revoltou com a situação. Diziam que meu irmão havia enlouquecido ao aceitar tamanho problema.

Após a pausa, retomamos a gravação. Ela continuou o relato, mas logo fomos interrompidos novamente: a memória do celular havia acabado. Fiz o ajuste necessário e pedi que continuasse.

Ela respirou fundo antes de falar - e, naquele instante, entendi que o pior ainda não tinha sido dito.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022