Às sete da noite, cada canto da mansão brilhava sob luzes deslumbrantes.
Cheryl Pearson surgiu na entrada - seu traje simples, parecendo totalmente deslocada nesse ambiente luxuoso.
Duas horas antes, seu marido, Jeremy Barrett, ligara para ela. "Tenho uma reunião importante esta noite, não voltarei para casa. Não precisa me esperar."
No entanto, em vez de estar numa reunião, ele estava ali, sendo o noivo ao lado de outra mulher.
Os pais de Cheryl e seu irmão estavam sentados na mesa principal e, ao redor deles, havia parentes e amigos que conheciam bem Cheryl e Jeremy.
Mesmo com todos esses rostos familiares, ninguém sequer a avisou sobre o casamento.
A brisa carregava a fragrância de rosas frescas misturada com um profundo aroma amadeirado.
O perfume que enchia o ar se chamava Rendição, que Cheryl havia criado e pretendia dá-lo como presente de casamento para Jeremy.
Agora, essa mesma fragrância, que antes representava devoção e pertencimento, enchia o local do casamento dele com outra mulher.
No final do tapete vermelho, estava Jeremy - num terno branco feito sob medida, os olhos fixos em Danica Pearson, a mulher que ocupou o lugar de Cheryl na família Pearson por mais de duas décadas.
Cheryl era a filha biológica da família Pearson, reencontrada somente três anos atrás.
Anos atrás, os avôs de ambos lutaram lado a lado na guerra e selaram um acordo: seus netos se casariam.
Foi por isso que Cheryl se tornou esposa de Jeremy ao retornar à família Pearson.
O que ninguém sabia era que Cheryl amava Jeremy fazia sete longos anos, acreditando que o destino finalmente lhe havia sorrido e que passaria o resto da vida como a mulher mais feliz do mundo.
No entanto, a realidade destruiu esse sonho sem qualquer piedade.
Vestida de noiva, Danica segurava firmemente o braço de Jeremy, tão frágil que até uma brisa suave parecia capaz de derrubá-la.
As notas suaves da Marcha Nupcial foram interrompidas antes de se transformarem num estrondo estridente quando Cheryl entrou no local.
Um por um, todos os olhares se voltaram para ela, e os sorrisos nos rostos da família Pearson desapareceram.
"Como ela veio parar aqui?"
"Garantimos que ninguém contasse a ela."
"Quem deixou isso acontecer? Isso vai arruinar tudo."
Os murmúrios se espalhavam pela multidão.
Embora Cheryl fosse a esposa legítima de Jeremy, era tratada como uma intrusa no próprio casamento.
Por um breve momento, Jeremy pareceu surpreso ao vê-la, mas logo recuperou a habitual compostura.
Após sussurrar algumas palavras reconfortantes para Danica, ele colocou a mão dela na da madrinha e foi em direção a Cheryl.
Quando Jeremy se aproximou, o familiar cheiro de pinho envolveu Cheryl, trazendo de volta uma fragrância que, por anos, foi a sua preferida.
"O que está fazendo aqui?", ele perguntou, preferindo questioná-la ao invés de se explicar.
Os olhos de Cheryl se fixaram no homem que amava há sete anos, mas suas feições marcantes, o olhar profundo e os lábios frios de repente lhe pareceram estranhos.
Que irônico!
"Por que eu não deveria estar aqui?", disse Cheryl calmamente, como se estivessem falando sobre algo comum. "Meu marido está se casando com outra pessoa hoje. Não tenho todos os motivos para vir e dar meus parabéns?"
Uma carranca profunda se formou entre as sobrancelhas de Jeremy, revelando a impaciência que ele tentava esconder. Sem dizer mais nada, ele segurou o pulso dela e a levou para um corredor tranquilo, longe da multidão.
Após se certificar de que estavam fora da vista de todos, ele soltou a mão dela. "Cheryl, não complique as coisas."
Jeremy pegou um cigarro do estojo no bolso do terno. Ao invés de acendê-lo, o enrolou entre os dedos. "Danica não tem muito tempo de vida. Os médicos a diagnosticaram com câncer de fígado terminal. Disseram que ela não tem mais do que meio mês para viver."
Diante dessas palavras, a expressão de Cheryl permanecia inalterada. "E o que isso tem a ver comigo?"
"Tudo o que ela quer antes de morrer é vestir um vestido de noiva e se tornar minha esposa", disse Jeremy, a olhando com total convicção. "Este casamento não tem validade legal. É apenas uma encenação para realizar o último desejo dela, para que ela possa partir sem arrependimentos. Com certeza você entende isso."
Um momento depois, ele falou novamente num tom mais suave, que soava mais condescendente do que reconfortante: "Cheryl, isso não passa de uma cerimônia. Você realmente precisa guardar rancor de alguém que já está morrendo?"
Cheryl desviou sua atenção para o gramado atrás do ombro dele, onde os convidados riam e conversavam como se nada estivesse acontecendo.
Perto dali, sua mãe, Laura Pearson, segurava a mão de Danica enquanto enxugava suas lágrimas suavemente.
Não muito longe, seu pai, Walter Pearson, observava Danica com uma preocupação inconfundível.
Já seu irmão, Nicholas Pearson, estava perto de Danica e lhe oferecendo palavras de conforto.
Mesmo sendo do mesmo sangue de Cheryl, seus pais uniram-se secretamente à filha adotiva para consumar esse casamento absurdo com seu próprio marido, deixando Cheryl como a única excluída de toda essa situação.
Que hilário.
Embora seus olhos começassem a arder, ela segurou as lágrimas com teimosia.
Após um momento para se recompor, ela engoliu a dor no peito.
Então, ergueu os olhos para encontrar os de Jeremy e falou com uma compostura relutante: "Jeremy, se este casamento não passa de uma encenação, então por que escondeu isso de mim?"
Um traço de impaciência surgiu no rosto de Jeremy, seus lábios se contraindo. "Você teria aceitado se eu tivesse sido honesto com você? Não te contei porque não queria que você fizesse suposições desnecessárias. Além disso, Danica está muito frágil para lidar com qualquer abalo emocional. Eu não poderia deixar que nada a aborrecesse."
Ele se desdobrava para poupar Danica de qualquer aborrecimento, sem enxergar a menor contradição em enganar a própria esposa.
Na mente de Jeremy, casar-se com Danica em plena cerimônia era perfeitamente aceitável, mas Cheryl não era sequer digna de ouvir a verdade. Pelo contrário, ele via a própria esposa como uma bomba-relógio prestes a perder o controle e arruinar tudo.
Um sorriso frio surgiu nos lábios de Cheryl. "Jeremy, se eu não tivesse aparecido esta noite, quando pretendia me contar?"
"Depois que Danica se fosse", respondeu Jeremy sem a menor hesitação.
"E quanto a tudo isso? O que acontecerá depois do casamento?"
Sem mudar sua expressão, ele respondeu: "Ficarei ao lado dela como marido até o fim. Esse é o papel que prometi desempenhar. Mas não se preocupe. Sei onde estão os limites e não os ultrapassarei."
Por um longo momento, Cheryl apenas olhou para o belo homem diante dela. Então, uma risada silenciosa escapou, cheia de escárnio.
Ele estava disposto a desempenhar o papel de marido de outra mulher.
Então onde isso a deixava?
Que lugar restava para a mulher que era legalmente sua esposa?
"Quando ela se for, tudo voltará ao normal. Você continuará sendo a senhora Barrett, e seu lugar ao meu lado não mudará", disse Jeremy.
Essas palavras soaram ainda mais absurdas aos ouvidos de Cheryl.
Em silêncio, ela ergueu os olhos para o belo homem diante de si.
Nos últimos três anos, havia se desdobrado em sacrifícios, movida apenas pelo desejo de ser uma boa esposa.
Preocupada com o estômago sensível dele, passava os dias estudando receitas leves e nutritivas. E, ao saber de suas noites mal dormidas, vasculhou cada canto em busca de aromaterapias que lhe trouxessem descanso.
Sempre acreditou que sua sinceridade acabaria por alcançá-lo, e que mesmo diante de um coração frio como um iceberg, sua devoção inabalável seria capaz de derreter ao menos uma pequena parte dele.
Só agora Cheryl percebia que cada gesto de bondade e ternura que ele demonstrava sempre fora destinado a outra pessoa.
Para realizar o último desejo de uma mulher, ele havia descartado o orgulho da própria esposa como se não significasse absolutamente nada.
"Jeremy, você é mais egoísta do que eu jamais imaginei."
Um profundo cansaço tomou conta de Cheryl, deixando um vazio tão avassalador que até o simples ato de respirar pesava no peito.
Ao invés de chorar ou perder o controle, ela o encarou com uma compostura tranquila. "Quero o divórcio."
Os dedos de Jeremy pararam de se mover no instante em que essas palavras o atingiram, o cigarro permanecendo imóvel em sua mão.
Jeremy encarou a mulher que já o amou com todo o seu ser.
Cheryl não derramou uma lágrima sequer ao pedir o divórcio, não o questionando nem demonstrando qualquer sinal de raiva.
O fato de ela ter aceitado tudo isso tão tranquilamente o deixou bastante inquieto, como se ela estivesse escapando das suas mãos.
Em questão de segundos, essa inquietação se transformou em raiva intensa. "Cheryl, você ficou louca?"
Após a pergunta, ele esmagou o cigarro com os dedos e o jogou no chão, rosnando ameaçadoramente: "Já te expliquei que esse casamento é só de fachada. Danica está morrendo e talvez nem sobreviva mais um mês. E é agora que você decide ameaçar com o divórcio?"
"Ameaçar?" Cheryl soltou uma risada sarcástica. "Jeremy, você me conhece há sete anos e estamos casados há três. Me diga, quando foi que te forcei a fazer algo que eu queria?"
Durante todo esse tempo, ela sempre foi a que sempre cedia.
Sempre que a mãe dele a maltratava, ela nunca respondia. Sempre que ele chegava tarde da noite, ela deixava a luz acesa e o esperava.
Como Jeremy a havia salvado num dos momentos mais sombrios da sua vida, Cheryl suportou todas as decepções e guardou cada mágoa para si.
No fim, o que lhe renderam tantos sacrifícios?
Apenas a ilusão de que ela estaria ao seu lado para sempre. Foi essa falsa segurança que o encorajou a reunir as duas famílias e os amigos para celebrar um casamento grandioso com outra mulher, sem sequer dar-lhe o mínimo aviso.
"Estou falando sério", disse Cheryl, se afastando silenciosamente dele.
À medida que a distância entre eles aumentava, o familiar aroma de pinho se dissipava lentamente, e a brisa fresca que lhe acariciava o rosto parecia trazer uma clareza que ela nunca antes havia sentido.
"Você mesmo não disse que esse casamento não tem validade nenhuma?" Cheryl olhou nos olhos dele com uma expressão indiferente, como se estivesse olhando para um estranho. "Quando nosso divórcio for finalizado, você poderá se casar com ela de verdade. Ela não terá apenas a cerimônia, mas se tornará a verdadeira senhora Barrett. Não é exatamente isso que você quer?"
"Cheryl!", Jeremy gritou, com uma veia saltando na sua têmpora. "Se você acha que te tratei injustamente, vou te compensar. Você pode ficar com as ações da empresa, imóveis ou qualquer outra coisa que quiser. Quanto ao divórcio, pode esquecer!"
"Jeremy..." Uma voz frágil ecoou do outro lado do corredor.
Sem que ninguém percebesse, Danica surgiu ali, segurando as camadas do elaborado vestido de noiva, o rosto completamente pálido.
Apoiando-se na parede com uma das mãos, ela olhou para eles com seus olhos lacrimejados e vulneráveis.
"Cheryl, por favor, não culpe Jeremy por isso", disse Danica com a voz trêmula. "Tudo aconteceu por minha causa. Nunca quis tirá-lo de você. Eu só... só queria poder usar um vestido de noiva antes de morrer. Sei que não deveria pedir algo assim, mas não tenho muito tempo de vida."
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, um violento ataque de tosse a dominou.
Vendo o estado dela, a expressão de Jeremy se transformou completamente.
Ele se aproximou com passos rápidos e a abraçou imediatamente. "Danica, por que veio aqui? Está frio e o vento está forte. O médico te avisou para não se expor a um clima assim."
Nos olhos dele, havia uma preocupação e uma ternura que Cheryl nunca teve a sorte de receber em sete anos de amor.
Recostada nos braços de Jeremy, Danica ergueu os olhos para Cheryl. Por trás das lágrimas, não havia remorso algum, apenas um triunfo silencioso.
"Você deveria ir consolar Cheryl, Jeremy. Vou ficar bem. Posso voltar sozinha", disse Danica com uma generosidade forçada.
Mesmo assim, sua mão não soltou a manga da camisa dele.
Jeremy olhou para Cheryl friamente. "Não me faça pensar que você é uma pessoa sem compaixão."
Cada palavra atingiu Cheryl mais forte do que qualquer faca poderia.
Mantendo Danica nos seus braços, Jeremy correu em direção ao salão sem olhar para trás.
Enquanto isso, parentes e amigos reunidos perto do tapete vermelho se aproximaram do casal, cercando-o com gestos de solidariedade.
Em meio à multidão, os pais e o irmão de Cheryl a olhavam com uma desaprovação evidente, como se ela fosse a responsável por estragar o momento mais feliz de Danica.
Enquanto todos se voltavam para Danica, cercando-a de carinho ao se retirarem, nem um único olhar se demorou em Cheryl.
O corredor se esvaziou, deixando-a sozinha, paralisada sob o peso de tudo o que acabara de acontecer.
Uma brisa mais forte passou e jogou alguns fios de cabelo soltos no seu rosto.
Nesse momento, seu celular vibrou no bolso, com uma mensagem de Laura: "Cheryl, Danica sempre foi uma pobre garota. Ela não tem ninguém neste mundo além de nós. Agora que ela está tão doente, por favor, trate isso como um último ato de bondade para com ela. Ajude-a a realizar seu último desejo. O coração de Jeremy ainda pertence a você."
Um ato de bondade?
Cheryl ficou olhando para a mensagem, sem conseguir acreditar no que acabara de ler.
Esperavam que ela fingisse normalidade e assistisse em silêncio ao próprio marido se casando com a mulher que todos chamavam de irmã. E que, depois de tudo, permanecesse ao lado dele como se nada tivesse acontecido.
Durante mais de vinte anos, Danica já ocupara o lugar de filha querida dos Pearson. Agora, esperavam que ela também lhes entregasse o marido com a mesma naturalidade.
No momento em que ela se recusasse, todos a veriam como uma pessoa cruel e sem coração.
Uma risada silenciosa e zombeteira escapou de Cheryl enquanto ela abria outra conversa.
Danica havia lhe enviado algumas mensagens mais cedo de um número desconhecido.
"Cheryl, Jeremy deveria estar comigo desde o início. Foi você quem o tirou de mim. Vou te mostrar que Jeremy e a família Pearson só se importam comigo. Para eles, você não significa nada."
Logo depois, veio uma foto de Jeremy agachado diante de Danica, ajudando-a cuidadosamente a calçar um par de saltos de cristal feitos sob medida.
Mais duas mensagens apareceram abaixo.
"Está vendo agora, Cheryl? Ele só está disposto a fazer algo assim por mim."
"Esta noite, Jeremy e eu vamos nos casar na propriedade privada da família Barrett. Por que não vem ver com seus próprios olhos?"
Uma após a outra, Cheryl leu todas as mensagens na tela antes de soltar uma risada de escárnio.
Jeremy sempre insistiu que Danica não passava de uma amiga, mas o homem que durante três anos manteve Cheryl à distância agora lhe negava até o mínimo de carinho, enquanto despejava sobre Danica toda a ternura que ela tanto desejava.
E não satisfeito, ainda uniu as duas famílias e os amigos para organizar um casamento grandioso às costas da própria esposa.
Embora as lágrimas ameaçassem cair, Cheryl as conteve teimosamente.
Ela já havia aceitado a derrota. Não adiantava chorar por alguém que já havia partido seu coração.
Após colocar o celular na bolsa, ela se virou e foi embora, deixando para trás todos os sentimentos que já teve por Jeremy naquele corredor silencioso.
Antes, ele havia sido a pessoa que a salvou, mas agora, ela estava optando por deixá-lo ir.
A partir de hoje, Jeremy nunca mais teria o amor dela.
A noite já havia caído quando Cheryl voltou à mansão que dividia com Jeremy.
Um silêncio denso dominava a casa espaçosa, e sem se dar ao trabalho de acender as luzes, ela foi direto ao quarto, abriu uma gaveta e pegou o acordo de divórcio que havia preparado no instante em que soube do casamento naquela propriedade.
Naquele momento, uma pequena parte dela ainda nutria a esperança de que tudo não passasse de um mal-entendido, mas o que presenciou esta noite foi o suficiente para destruir até o último resquício dessa ilusão.
Sob a luz suave da lua que entrava pela janela, Cheryl pegou a caneta e assinou cuidadosamente seu nome no local indicado.
Enquanto arrumava suas coisas, uma caixa com uma gravata nova lhe chamou a atenção dentro do closet.
Ela havia desenhado essa peça e visitado três oficinas diferentes para encontrar o tecido perfeito, preparando-a como presente de aniversário de vinte e oito anos de Jeremy.
Sem hesitar, porém, pegou a caixa e a jogou no lixo.
Cada mentira e traição haviam contaminado as lembranças que ela tanto prezava, transformando-as em algo que ela só queria esquecer.
Assim que ligou o celular, uma nova mensagem surgiu. Era do seu ex-sócio: "Cheryl, o projeto médico que você me pediu para acompanhar finalmente teve um avanço. Você decidiu voltar mesmo?"
Enquanto seus olhos permaneciam fixos na tela, a determinação que havia desaparecido há muito tempo retornava lentamente.
Depois que se casou com Jeremy, a família dele deixou claro que não queria que ela construísse uma carreira pública, esperando que se dedicasse totalmente a ele. Por isso, ela ocultou sua identidade no mundo dos negócios, afastou-se da empresa que havia fundado com as próprias mãos e decidiu se tornar uma dona de casa, abandonando tudo pelo que tanto trabalhou por causa dele.
Agora, era a vez dela recuperar tudo.
"Sim. Estarei no escritório amanhã às dez."
Logo após terminar de responder ao seu parceiro, Cheryl bloqueou Jeremy e excluiu o número dele dos seus contatos. Em seguida, depois de arrumar sua mala, ligou para o assistente de Jeremy.
Após ter resolvido tudo o que precisava, Cheryl parou e deu uma última olhada no lar onde ela e Jeremy viveram juntos nos últimos três anos.
Sem olhar para trás, pegou sua mala, abriu a porta da frente e saiu.
...
Na manhã seguinte, Cheryl chegou ao cartório. Vestia um terno justo, fugindo de suas roupas habituais, com os longos cabelos presos num coque e a maquiagem impecável lhe conferindo um ar de elegância distante e composta.
Pontualmente às nove, um Maybach preto estacionou lentamente na calçada, e um instante depois a porta traseira se abriu, deixando Jeremy sair. Seu terno estava impecável como sempre, mas os olhos vermelhos denunciavam uma noite em claro.
Ao avistar Cheryl, a surpresa estampou-lhe o rosto, seguida por um breve instante de admiração.
Para ele, ela sempre fora nada mais do que uma dona de casa tranquila e dedicada, e jamais a vira se comportar com tamanha confiança e profissionalismo. Além disso, nunca esperara que um terno lhe caísse tão bem.
No entanto, no instante seguinte, sua expressão gelou.
Sem diminuir o passo, Jeremy foi direto até ela e disparou, com raiva contida: "Cheryl, até quando vai prolongar isso? Passei a noite inteira no hospital com Danica. Ela esteve à beira da morte duas vezes. Você tem ideia de como estou exausto? Não pode parar de dificultar as coisas para mim?"
Na noite anterior, o assistente de Jeremy o informara de que Cheryl queria encontrá-lo no cartório às nove da manhã seguinte.
No momento em que ouviu a mensagem, tentou ligar para ela, mas percebeu que fora bloqueado e que todas as suas tentativas de contato haviam sido rejeitadas.
Essa, inclusive, foi a única razão pela qual apareceu.
Na verdade, Jeremy estava convencido de que Cheryl só estava agindo por raiva. Afinal, ela o amava há anos, e durante os três anos de casamento sempre seguira seus desejos, construíra sua vida em torno dele e jamais o contrariara.
Por isso, para ele, era impossível que ela realmente quisesse terminar o casamento - todo esse escândalo não passava de uma tentativa de chamar sua atenção e fazê-lo escolhê-la em vez de Danica.
"Senhor Barrett", disse Cheryl friamente, deixando claro que até a forma como se dirigia a ele havia se tornado distante.
Jeremy parou e franziu a testa. "Como você me chamou?"
Sem responder, Cheryl tirou da bolsa o acordo de divórcio já assinado e o estendeu na direção dele. "São os documentos do divórcio. Saio deste casamento sem nada e não pedirei um único centavo à família Barrett."
Depois, ela o encarou sem hesitar e continuou: "Se não tiver objeções, senhor Barrett, assine."
Pela primeira vez, a expressão calma de Jeremy se desfez, dando lugar a uma descrença genuína.
Um leve sorriso de escárnio surgiu em seu rosto enquanto observava a pele levemente pálida dela. "Cheryl, você acha mesmo que esse truquezinho vai me enganar? Não está sendo infantil?"
Afinal, ao longo dos anos, ele se acostumara totalmente à obediência inquestionável dela. Cheryl sempre se moldava para agradá-lo, jamais se opunha a nada que ele quisesse, e até nos momentos íntimos seguia os desejos dele como prioridade absoluta. Diante de tudo isso, era-lhe impossível acreditar que ela realmente pretendia deixá-lo.
Em resposta, Cheryl permaneceu em silêncio, apenas o encarando. O carinho que antes lhe preenchia os olhos havia desaparecido, substituído por uma frieza distante.
E, em vez de tentar se defender como sempre fizera, respondeu apenas com um sorriso leve e frio: "Se você realmente acha que isso é um truque, senhor Barrett, então prove. Assine os documentos e desmascare meu blefe. Ou será que é você que não está disposto a fazer isso?"
No mesmo instante, a expressão de Jeremy se enrijeceu e a atmosfera ao redor ficou mais tensa.
Encarando-a nos olhos, ele disse num tom lento e grave: "Cheryl, espero que você não se arrependa disso."
Pegou os documentos da mão dela e tirou uma caneta do bolso do terno.
A caneta já descia em direção ao papel quando o celular tocou. Jeremy atendeu, e a expressão perplexa que lhe tomou o rosto disse a Cheryl tudo o que ela precisava saber antes mesmo de ouvir uma única palavra.
Ao desligar, a arrogância habitual já havia retomado seu lugar. "Há um assunto urgente na empresa. Vamos discutir o divórcio em outro momento."
Então, sem dar a Cheryl a chance de responder, ele se virou e entrou no Maybach e partiu.
Cheryl observou o carro desaparecer, e aquela dor familiar voltou a apertar-lhe o peito.
Para Jeremy, ela nunca fora prioridade - nem mesmo o divórcio merecia preceder o resto da vida dele.
Mas isso já não importava. Ela já havia decidido deixá-lo, e esperar mais um pouco não faria diferença.
Chamou um táxi e seguiu para o lugar que havia abandonado três anos atrás.