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A médica da matilha

A médica da matilha

Autor:: Cooper
Gênero: Lobisomem
Yara Ellis era uma estudante de medicina que se escondia em uma universidade humana, dedicando-se aos estudos para se tornar médica. Diferentemente da maioria dos médicos, ela estava se especializando tanto em medicina humana quanto em medicina veterinária, com uma especialização em zoologia. Como as matilhas estavam constantemente em guerra, ela sabia que nunca haveria médicos suficientes para cuidar dos lobos feridos. Ela estava por conta própria há vários anos, tendo escapado de sua antiga matilha e seguido seu próprio caminho no mundo, com a esperança de um dia retornar às suas raízes e se tornar a médica mais renomada. Warren Hill era um Alfa, envolvido nas intermináveis guerras e batalhas entre as matilhas. Ele era jovem, forte e poderoso, mas por causa dos conflitos incessantes, nunca conseguiu encontrar sua companheira. Um dia, enquanto Yara dava liberdade à sua loba, se deparou com o Alfa Warren, preso em uma armadilha para ursos. Ela já ouviu falar disso: armadilhas deixadas para que membros de outras matilhas fossem capturados e morressem lentamente ou fossem facilmente eliminados. Warren estava em sua forma de lobo, incapaz de se transformar sem ferir a própria perna. Yara cuidadosamente desarmou a armadilha, libertando-o do metal cruel. Porém, Warren a reconheceu como sua companheira, e quando sua matilha chegou, ele não aceitou a ideia de deixá-la para trás. Yara não queria voltar para a matilha de Warren, mas não conseguia lutar contra um Alfa. Ao descobrir que aquele que a desejava desesperadamente agora era o Alfa de sua antiga matilha, Yara percebeu que o lugar mais seguro para ela podia ser ao lado do Alfa Warren, que era seu companheiro e estava determinado a nunca deixá-la ir embora.

Capítulo 1 Cheiro

Yara

Já fazia tempo demais que eu não deixava Annika sair para correr. Com tantas matérias que estava fazendo e minha agenda lotada, eu mal tinha tempo para comer, muito menos para deixar Annika correr. Porém, precisava deixá-la sair, pois ela estava ficando cada vez mais inquieta.

"A escola é chata. Os humanos são chatos. Quero fazer algo divertido", resmungou ela dentro da minha cabeça.

"Vamos correr, Annika. Fique calma."

"Da próxima vez, não demore tanto."

Fazia alguns meses que eu não a levava para correr. Ela tinha razão, pois já fazia tempo demais. No entanto, sabendo como as matilhas lutavam, eu não queria arriscar acabar no meio de uma batalha ou, pior ainda, ser pega por Simon.

"Sou inteligente demais para ele nos pegar. Além disso, ele não faz ideia de que ainda estamos tão perto da matilha."

Quando ela disse "tão perto", queria dizer duas horas de distância, mas isso era perto demais. Afinal, um lobo conseguia correr quase tão rápido quanto um carro, e se quando esse lobo estivesse caçando...

No passado, quando eu levava Annika para correr, sempre íamos na direção oposta à matilha de Simon. Bem, tecnicamente, a matilha não era dele, e sim do seu pai. O Alfa Solomon liderava a minha antiga matilha desde que me entendia por gente. Seu filho, Simon, era um cara bem desagradável que adorava lutar e matar. Não poderíamos ser mais diferentes, já que eu gostava de curar e salvar.

Por algum motivo, Simon me escolheu como alvo. Eu não sabia por quê, pois eu era órfã e não estava classificada. Meus pais foram guerreiros e, embora eu soubesse lutar, preferia usar minha maior força, a minha mente. Já Simon, preferia usar sua força, a força de Alfa. Ele não precisava se esforçar para isso, já que nasceu com a predisposição de ser maior e mais forte do que a maioria dos lobos da matilha, então, na minha opinião, ele não valorizava o que tinha. Já eu, tive que lutar por tudo o que conquistei, com a ajuda do Alfa Solomon.

Meus pais foram mortos numa guerra de matilhas quando eu era criança. O Alfa Solomon se tornou meu guardião e garantiu que eu tivesse tudo o que precisava. Talvez fosse porque ele nunca teve uma filha, ou talvez porque eu me parecia mais com ele do que seu próprio filho, mas ele sempre cuidou de mim, a ponto de me mandar para longe da matilha quando percebeu que seu filho havia se interessado por mim. Ele sabia que Simon não era uma boa pessoa e não queria que eu sofresse com a obsessão do seu filho.

Quando chegamos ao local onde costumávamos correr, parei e farejei o ar para me certificar de que não havia outros lobos por perto.

"Annika?", perguntei, para saber se ela estava sentindo algo que eu não estava.

"Nenhum outro lobo", ela disse num tom melancólico, sentindo falta da companhia de estar numa matilha.

Olhei em volta mais uma vez e entrei na floresta para depois tirar minhas roupas e pendurá-las num galho de árvore, alto o suficiente para que alguém tivesse que olhar para cima para vê-las. Eu tinha roupas extras no carro, caso alguém roubasse essas. Isso não acontecia com frequência, mas acontecia. Ao invés de presumir que alguém estava sendo mal-intencionado, optei por acreditar que eles precisavam das roupas mais do que eu. Afinal, eram só roupas.

Deixei Annika assumir a transformação, sentindo meus ossos estalarem e se remodelarem depois de tanto tempo sem me transformar. Foi mais doloroso do que o normal, mas logo depois Annika estava sacudindo seu pelo marrom-avermelhado e correndo pela floresta.

Embora Annika estivesse no controle enquanto corria, eu conseguia sentir como era bom esticar as pernas e sentir seus músculos se contraindo. Felizmente, a noite estava tranquila, e as patas de Annika no chão eram quase silenciosas enquanto ela corria, o que nos deu a chance de apreciar os sons da floresta ao nosso redor.

Eu não sabia ao certo quanto tempo ela havia corrido quando sentimos o cheiro de... sangue. Ela desacelerou, levantando o focinho para o ar.

"Houve uma luta por perto", ela disse na nossa mente compartilhada.

"Está ouvindo alguém?", perguntei.

"Não tenho certeza. Estou ouvindo um barulho, que parece ser de um lobo aflito. Consegue ouvir?", ela perguntou, inclinando a cabeça de um lado para o outro.

Sim, eu conseguia ouvir. Parecia um animal grande se debatendo.

"Annika..."

"Vou tomar cuidado", ela disse, ciente de que, se eu pudesse, eu iria ajudar esse animal, mesmo que fosse um lobisomem. Talvez isso não fosse possível, já que ele poderia não me deixar chegar perto o suficiente para ajudar, mas eu estava fazendo faculdade para me tornar médica por um motivo: poder ajudar os lobos em situações como essa.

Annika avançou lentamente e com cuidado em direção ao som do animal aflito. À medida que nos aproximávamos, consegui identificar que era um lobo pelos gemidos suaves que ele estava fazendo. No entanto, não consegui descobrir o que ele estava fazendo ali. Talvez estivesse preso em alguma armadilha e tentando descobrir uma forma de sair. Ou talvez tivesse caído num buraco que uma das matilhas cavou para capturar outros membros da matilha para interrogá-los para obter informações.

"Por favor, tome muito cuidado, Annika. Não podemos nos arriscar a sermos pegas."

"Vou tomar cuidado, Yara."

Então, ela começou a se arrastar. Quando o vento mudou, todo o seu corpo ficou rígido, e o cheiro de madeira de teca invadiu meu nariz, fazendo meu corpo se arrepiar com um desejo indesejado.

"Companheiro", ela disse suavemente.

"O QUÊ?"

"Esse é nosso companheiro, Yara. Nosso companheiro está ferido."

Isso era péssimo. Não era apenas um animal ferido, e sim nosso companheiro! Eu não podia deixá-lo morrer ali, mas também não podia deixar que ele tentasse me levar de volta para sua matilha, porque eu tinha aulas na faculdade e ainda estava me escondendo de Simon.

Levei um tempo para perceber que o lobo, meu companheiro, havia parado de se mover.

Annika quase não respirava, esperando para ver o que ele faria.

Ele bufou para nós, nos informando que sabia que estávamos ali. Eu sabia que ele não iria nos machucar, já que algo no seu bufo parecia mais um pedido de ajuda do que uma ameaça de ataque.

Annika atravessou lentamente e com cuidado por alguns arbustos até que pudéssemos vê-lo. MERDA! Ele estava preso numa armadilha de urso. Não era de se admirar que ele ainda estivesse na forma de lobo. Se ele se transformasse, acabaria arrancando a perna.

"É inacreditável que ele não está uivando de dor", disse Annika.

A perna dele estava presa na armadilha e destroçada, sem dúvida.

"Você tem que ajudá-lo, Yara. Ele é nosso companheiro. Você tem que ajudá-lo", implorou Annika.

"Eu sei. Vou ajudá-lo se ele deixar."

Por mais que eu detestasse a ideia de ficar nua na frente desse homem desconhecido, mesmo ele sendo meu companheiro, eu não tinha escolha já que eu precisava falar com ele e tentar ajudá-lo.

Assim, me transformei, parada diante do lobo preto como a noite, que me observava com seus belos e inteligentes olhos verdes.

"Certo, grandão. Pelo visto você está preso numa armadilha. Quero te ajudar. Sei que você não pode se transformar, senão vai acabar arrancando essa perna, e isso deve ser bem doloroso. Seus ossos provavelmente estão estilhaçados, mas quero te ajudar se você me deixar", disse eu num tom gentil.

Enquanto falava, me aproximei lentamente do lobo. Companheiro ou não, esse lobo devia estar sentindo uma dor terrível e vulnerável, incapaz de escapar. Estendi minha mão, para que ele pudesse me cheirar e ver que eu não queria lhe fazer mal.

"Sou médica. Quero dizer, estou estudando para ser médica de humanos e lobos. Não quero te machucar. Me deixaria ver se consigo te ajudar?"

O lobo cheirou minha mão e depois se esfregou em mim. Passei a mão suavemente pelo seu pelo, parando quando cheguei numa parte rígida que cheirava a sangue. Eu preferia nem saber o que mais havia no pelo desse lobo, mas podia imaginar que vísceras e ossos também estavam presos ali. Ele obviamente havia lutado e, quer tivesse se separado da sua matilha ou fizesse parte de um grupo que se separou tentando impedir a fuga da outra matilha, agora estava sozinho, sem ninguém por perto para ajudá-lo. Sem ninguém, exceto eu.

Olhei para cima, procurando onde estava a luz da lua para conseguir enxergar melhor a armadilha.

"Certo, grandão, você consegue se mover um pouco para a direita? Preciso da luz da lua para me ajudar a ver como posso desarmar essa armadilha e te libertar."

Ele se moveu para a direita, sem tirar os olhos de mim enquanto eu examinava a armadilha cuidadosamente e murmurava: "Que coisa horrível. Como esses idiotas podem fazer isso uns com os outros."

Olhei para ele novamente. Eu já sabia que sua perna estava destroçada, pois podia ver os estilhaços de ossos saindo da sua pele acima da armadilha. "Certo, acho que já descobri como fazer. Antes de eu desarmar essa armadilha, você precisa saber que, quando eu a soltar, vai doer muito. Mas depois você estará livre, e poderei ver o quão gravemente sua perna está."

"Tente não me morder e, se puder, tente não uivar. Não sei se há mais alguém por perto que possa te ouvir", eu disse a ele, que bufou para mim, indicando que havia entendido.

"No três, pronto? Um... dois... três!", gritei e puxei a armadilha com toda a minha força, Annika com a dela também, então senti a mola se soltar e a armadilha se abriu.

O lobo soltou um uivo e logo se afastou da armadilha, mantendo a perna ferida erguida. Ele se virou, me encarando por um momento antes de seus ossos começarem a estalar enquanto ele se transformava de volta na sua forma humana - sua forma incrivelmente linda, alta e musculosa.

Capítulo 2 Minha companheira

Warren

Arric e eu caímos numa armadilha de urso. Maldito Brady! Eu tinha certeza de que foi ele quem armou isso. Sabíamos que ele e sua matilha recuariam por esse caminho, então corri para tentar impedir sua fuga, mas acabei caindo na armadilha.

Minha matilha voltaria para me buscar, mas eles estavam numa batalha, e eu já estava esperando há horas. Como não consegui impedir Brady, eles continuaram seguindo sua matilha, os caçando como os malditos cachorros que eram.

Assim que caí, percebi que não poderia me transformar. Apesar de eu poder usar minhas mãos para abrir a armadilha, era arriscado demais. Não estava disposto a perder minha perna e, com isso, meu posto de Alfa. A dor era intensa, mas Arric e eu éramos Alfas fortes, e eu sabia que era só uma questão de tempo até que a matilha me encontrasse e me tirasse daqui.

Estávamos lutando para tirar a maldita armadilha quando sentimos o cheiro da minha companheira. Há mais de dez anos eu a procurava, e agora, aqui, no meio da floresta, numa área coberta de sangue de uma batalha recente, eu a senti. Seu cheiro de canela e noz-moscada acalmou Arric instantaneamente.

Sua loba era de um lindo tom marrom-avermelhado, e era evidente que ela era uma criaturinha bem tímida. Durante sua conversa com Arric, ela não nos disse seu nome. Então, assim que ela soltou a armadilha, dei um passo para trás e comecei a me transformar para falar com ela.

A transformação doía enquanto meus ossos tentavam se remodelar, mas falhei na minha perna, que estava gravemente ferida. Ao ver isso, seus olhos se arregalaram e ela recuou, se afastando de mim.

"Calma aí. Você acabou de me tirar de uma armadilha. Posso ser um Alfa cruel quando estou caçando os inimigos da minha matilha, mas não sou o tipo de homem que mata alguém que acabou de me ajudar." Como ela não me disse seu nome, hesitei em dizer o meu até saber de qual matilha ela era.

"Você disse que é médica?"

"Estou estudando para ser", ela respondeu.

"Para humanos e lobos?", perguntei. Isso era raro, e eu precisava desesperadamente de um bom médico na minha matilha. Meu médico precisava se aposentar, então eu precisava de alguém jovem, inteligente, alguém como minha pequena companheira aqui, para assumir o hospital da minha matilha.

"De qual matilha você é?", perguntei, sem saber se eu me importava. Eu estava em guerra com tantas matilhas que as chances de ela ser de uma delas eram grandes. No entanto, ela estava sozinha, não lutando com uma matilha, o que também era incomum.

"Não sou de uma matilha. Sou uma loba solitária. Quer que eu dê uma olhada na sua perna?", ela respondeu, e percebi que ela estava desviando o assunto. Interessante, ou talvez não. Lobos solitários eram solitários por um motivo. Isso me fez pensar no que aconteceu para que minha companheira se tornasse uma loba solitária.

"Sim. Agradeceria se pudesse dar uma olhada", eu disse, querendo que ela se aproximasse de mim. Eu sabia que seu toque ajudaria a aliviar a dor.

Quando ela se aproximou, seu cheiro inebriante preencheu minhas narinas enquanto eu observava seu belo corpo. Ela parecia tímida, mas determinada. Seu corpo esguio não era tão musculoso quanto o dos membros da minha matilha, o que me fez pensar que ela não participava das guerras de matilhas há algum tempo. No entanto, sua delicadeza só aumentava seu fascínio, e meus dedos se contraíam com o desejo de tocá-la.

"O que uma loba solitária está fazendo aqui sozinha?", perguntei.

"Deixando minha loba correr. Não é fácil quando você vai para uma universidade humana", ela disse, sem olhar para mim, mas eu não conseguia desviar o olhar dela, que era linda. O pelo marrom-avermelhado da sua loba se transformou num longo cabelo marrom-avermelhado na mulher. O cabelo caía sobre seu ombro enquanto ela olhava para minha perna, e eu a observei jogá-lo para trás do ombro distraidamente, como se isso fosse algo comum no seu dia a dia.

"Você sabe que há guerras de matilhas acontecendo por aqui", eu disse. Ela ainda não era minha, mas eu queria que ela estivesse segura.

"Guerras de matilhas estão acontecendo por toda parte. Se eu tentasse encontrar um lugar onde não houvesse guerra, teria que ir para as áreas humanas e arriscar que caçadores atirassem em Annika. Você vai precisar de cirurgia nessa perna. Você tem várias fraturas, sendo algumas expostas", ela disse, desviando mais uma vez o assunto.

Eu já sabia que precisaria de cirurgia, pois pude ver os ossos de Arric saindo da minha perna.

"Annika? O nome da sua loba significa misericordiosa? Que apropriado para uma futura médica", eu disse, ainda a observando. Seus dedos eram suaves ao tocarem minha perna, e ela parecia saber instintivamente onde tocar, o que causava apenas um leve desconforto.

"Graciosa ou misericordiosa, sim. E Annika é uma loba maravilhosa", ela disse com orgulho, ainda sem olhar para mim.

Eu estava prestes a dizer a ela que Arric concordava, ouvi o uivo do meu Beta.

A cabeça da minha companheira se ergueu num sobressalto e senti o cheiro do seu medo enquanto seu coração disparava. No entanto, ela não fugiu, parecendo que iria assumir uma postura protetora na minha frente. Uma Luna perfeita, deixando seu medo de lado para ajudar alguém em necessidade... ela era perfeita para mim! Ao pensar nisso, abri um sorriso.

"Relaxe, é minha matilha voltando para me buscar", eu disse a ela.

"Ah, bom, então. Você precisa ir para um lugar seguro. Espero que eles não me ataquem por ter te ajudado."

"Vou te proteger", eu disse, sorrindo com seu constrangimento.

Meus guerreiros chegaram correndo, nos cercando enquanto meu Beta, Charlie, se transformava e rosnava para minha companheira. "Quem é você?"

"Se acalme! Foi ela quem me tirou da armadilha de urso", rosnei para ele, o assustando. Eu não permitiria que ninguém desrespeitasse minha companheira.

Após olhar para ela, ele se virou para mim, se agachando para olhar minha perna.

"Está muito ruim?"

"Ruim."

"Está bem, vamos te levar de volta para a matilha", ele disse, pedindo para alguns guerreiros me ajudarem a me levantar. Passei meus braços pelos ombros deles e levantei minha perna machucada, cerrando os dentes contra a dor.

"Pronto, Alfa?", Charlie perguntou.

"Sim, vamos."

Charlie se transformou, assumindo a liderança como guarda, e os guerreiros que me seguravam começaram a andar rapidamente.

"Esperem!", eu disse, fazendo com que todos parassem. "Tragam a médica."

"A médica?", perguntou um dos meus guerreiros.

"Aquela garota! Tragam a garota", gritei, me virando para olhar para ela, que estava prestes a fugir. Observei ela se virar e olhar para trás, como se estivesse avaliando se conseguiria ou não fugir.

"Nem pense nisso", eu disse a ela. O lobo de Charlie, Gregor, se aproximou rapidamente dela, a empurrando com a cabeça. Não gostei de ver ele tão perto da minha companheira nua, e Arric rosnou baixinho.

Os olhos dela se encontraram com os meus. "Acho melhor eu ir. Como você disse, há muitas guerras de matilhas acontecendo por aqui. Acho que devo ir para casa."

"Casa?", perguntei. Eu sabia que pareci arrogante. A mulher era uma loba solitária que estava indo para a faculdade. Onde exatamente era a casa dela? Eu não a deixaria voltar para onde quer que ela quisesse ir, pois nunca mais a veria. Pelo pouco que aprendi sobre ela, eu sabia que ela nunca mais deixaria sua loba correr nessas florestas. E, quando eu me recuperasse e fosse procurá-la na universidade, eu tinha certeza de que ela já teria se transferido. Ela era assustada demais para ficar onde poderia ser pega.

"Universidade", ela disse, esclarecendo seu destino.

"Hum, como você acabou de dizer, não é seguro aqui fora, principalmente para uma loba solitária. Que tipo de Alfa eu seria se deixasse você se virar sozinha? Não, acho que você deveria vir com a gente", eu disse, num tom que não deixava espaço para discussão.

Com os lábios cerrados, ela assentiu e se levantou, me seguindo.

Capítulo 3 A médica

Warren

Charlie ordenou que dois lobos a escoltassem, a mantendo segura e também garantindo que ela seguisse minha ordem.

"Alfa?", Charlie me perguntou pelo vínculo mental.

"Ela é minha companheira."

"Puta merda."

"Pois é."

"Ela sabe? Mas parece que ela não te reconhece como seu companheiro."

"Não tenho certeza, mas ela é uma loba solitária e está cursando medicina e veterinária."

Ele se virou e olhou para ela. "Nossa. Ela é bem inteligente."

"Pelo visto."

"O que ela disse sobre sua perna?"

"Que preciso de uma cirurgia."

"Bem, sem querer ofender, mas isso eu já poderia ter te dito."

"Vamos ver o que ela diz quando chegarmos à matilha, mas antes arranje uma camisa para ela. Não quero que ela fique andando sem camisa perto dos nossos guerreiros."

Então, ele saiu correndo em direção ao nosso território da matilha. Quando ele voltou, seu lobo trouxe uma camisa para ela na boca.

"Estamos prestes a chegar na minha matilha. Você é uma jovem loba não marcada e que não conhecemos. Achei que você gostaria de uma camisa para se cobrir", eu disse, a observando olhar para mim. Se ela recusasse, eu insistiria, mas esperava que ela a vestisse sem que eu precisasse exigir. Felizmente, ela a vestiu, parecendo até aliviada. Que bom que ela não era o tipo de mulher que exibia seu belo corpo para todos...

Quando chegamos, fui levado direto para o hospital da matilha, perguntando a Charlie sobre outras lesões e o que aconteceu com a matilha de Brady. Enquanto entrávamos, ele me entregou a lista de ferimentos se transformou e continuou a falar comigo em voz alta.

"Alfa, vamos levá-lo para uma sala para que possamos examinar sua perna. Você precisará de raio-x."

"Sim, precisarei mesmo", respondi. "A garota virá também."

"A garota tem um nome", ela murmurou. Me virei para olhá-la, fazendo com que seus olhos se arregalassem. Claramente, ela não conviveu com muitos Alfas, ou fazia muito tempo que não convivia. Ela continuou murmurando para si, como se eu não pudesse ouvi-la, o que eu achava até fofo.

"Se você me disser seu nome, ficarei feliz em usá-lo", eu disse.

"Yara."

"Yara. Sou o Alfa Warren. Venha comigo." Me virei e deixei os guerreiros me ajudarem a entrar na sala de raio-x.

"Quem é você? Saia!", o doutor Stevens gritou para ela quando entramos na sala.

"Ela está comigo", eu disse, ignorando sua atitude arrogante pelo fato de uma jovem estar na sala conosco.

Ela olhou para ele, e fiquei feliz quando ela se aproximou de mim por instinto.

Após me acomodar na mesa, o doutor Stevens preparou a máquina de raio-x. Enquanto ele fazia isso, fiquei observando Yara, Agora que eu podia vê-la sob a luz, percebi que ela era uma coisinha linda e tinha um rosto muito expressivo. Eu tinha certeza de que pensaria isso mesmo se ela não fosse minha companheira, afinal, pelos olhares que meus guerreiros lançavam para ela, ela era uma beleza natural. Ainda bem que ela estava com aquela camisa, ou eu teria que arrancar os olhos deles.

Por estar a observando, a vi franzir a testa, inclinar a cabeça para o lado e olhar para o doutor Stevens. Quando o doutor Stevens saiu da sala, fiz um sinal com o dedo para ela se aproximar.

"Que olhar foi esse?", perguntei, notando que os olhos da minha companheira eram de um verde-acinzentado, quase da cor de sálvia. Meus olhos também eram verdes, mas não tão escuros quanto os dela.

"Que olhar?"

Apenas ergui uma sobrancelha para ela. Talvez a dor na minha perna estivesse me deixando menos disposto a conversas banais. Eu estava tentando ignorar a dor, mas não era fácil, e Arric não podia me curar até que os ossos fossem colocados no lugar corretamente. Sendo assim, eu não estava tão paciente quanto normalmente estaria nessa situação.

Olhando para trás para ver se o médico estava lá, ela se inclinou, fazendo com que seu cheiro invadisse meu nariz.

"Por que ele não está tirando radiografias das laterais? Ele só tirou uma de cima", sussurrou ela quando o doutor Stevens voltou, a encarou e colocou o raio-x no negatoscópio.

"Bem, Alfa, sua perna não pode ser salva. Acho que teremos que amputá-la", disse ele com indiferença, como se não tivesse acabado de me dizer que meu mundo inteiro estava prestes a desmoronar. Senti meu estômago se contrair e meu coração disparar e, no mesmo instante, ouvi Yara sugar o ar.

"Doutora Yara, o que você acha?", perguntei a ela. Se ela tivesse alguma ideia para eu salvar essa perna, eu a acataria. Não me importava com a dor que isso me causaria ou com o tempo que levaria para me recuperar. Eu era um Alfa há doze anos. Antes disso, eu havia sido um Alfa em formação. Sem meu cargo, sem uma matilha para liderar e proteger, eu não fazia ideia de quem seria.

Ela olhou para mim, depois para o doutor Stevens, que a encarava novamente.

"Doutora?", ele perguntou num tom condescendente. Ele tinha uma mentalidade retrógrada, onde as mulheres eram enfermeiras, destinadas a ficar à disposição de um médico do sexo masculino. Esse era outra razão pela qual ele tinha que ir embora. Minhas enfermeiras viviam reclamando e ameaçando sair.

"Estou estudando para isso, mas sugiro que tire radiografias laterais da perna antes de determinar se ela precisa ser amputada", disse ela, com mais confiança do que eu esperava. Ela poderia não estar à vontade perto de mim ou até mesmo na matilha, mas ali, na sala do hospital, sua confiança era clara.

"Você a ouviu, doutor Stevens. Tire radiografias das laterais", eu disse, vendo ela me olhar com gratidão por tê-la apoiado. Sendo sincero, eu estava grato por ela estar me dando uma opção, qualquer que fosse.

"Senhorita, quais são suas qualificações?", o doutor Stevens perguntou.

"As qualificações dela não são o que está em questão, doutor. Já te dei uma ordem. Tire radiografias das laterais! AGORA!"

Yara deu um pulo quando gritei, mas, sério mesmo, esse idiota ia me dizer que minha perna precisava ser amputada e achava que eu não iria contestá-lo?

Enquanto fazia as radiografias, ele não parou de encarar Yara e, quando voltou, as colocou no negatoscópio e se virou para ela com um sorriso de desdém no rosto. Eu estava prestes a me levantar dessa mesa e arrancar aquele sorriso arrogante do seu rosto.

"O que você acha agora, doutora?", ele perguntou, como se estivesse questionando a competência dela.

Yara foi até o negatoscópio, observando com atenção primeiro uma, depois a outra radiografia, então, se virando em direção ao doutor Stevens, perguntou: "Você tem a original?"

Ele resmungou, mas a entregou, que a colocou no negatoscópio e deu um passo para trás, inclinando a cabeça de um lado para o outro.

"Yara", a chamei, incapaz de conter a esperança que se agitava no meu peito.

"Podemos salvar a perna", disse ela, se virando na minha direção e me fazendo soltar um suspiro de alívio.

"Você só pode estar brincando! A perna dele está estilhaçada!", o doutor Stevens exclamou.

"Sim, está. E exigirá muito tempo e paciência. Mas o Alfa Warren tem tempo, e eu tenho paciência", disse ela, olhando para mim.

"Então faça", eu disse a ela, colocando meu futuro nas mãos dessa mulher e esperando não me arrepender disso.

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