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A noviça e o Conde Viúvo

A noviça e o Conde Viúvo

Autor:: Mazane
Gênero: Romance
Apesar do título de nobreza não ter valor legal no Brasil, algumas famílias ainda mantém suas tradições e costumes. É o caso da família Alencastro. Neste cenário, Maria Clara, uma jovem professora e aspirante a freira, órfã, criada entre as irmãs do Instituto Santa Bárbara, é enviada pela madre superiora para trabalhar como babá e educadora no Solar Alencastro, uma propriedade imponente pertencente ao reservado Conde Álvaro Alencastro, um homem cuja frieza só não supera a frieza que reina em sua própria casa. Após a morte misteriosa de sua esposa, um caso envolto em mistério, Álvaro passou a ignorar quase completamente os filhos pequenos. As crianças, carentes e indisciplinadas, já haviam expulsado diversas babás. Ao chegar ao Solar, Maria Clara encontra uma casa cheia de sombras, mistério, regras rígidas e crianças que só querem carinho e atenção. Com sua alegria, sensibilidade, ela vai conquistando cada um deles e desperta algo inesperado no próprio conde, sentimentos que ele jamais experimentou, sobretudo porque seu casamento anterior foi um arranjo de conveniências familiares. Enquanto Maria Clara transforma a vida da família Alencastro, um segredo começa a emergir: A morte da antiga condessa não foi tão simples quanto as aparências sugerem.

Capítulo 1 001

O sol ainda nem havia tocado as janelas altas do Instituto Santa Bárbara quando a música começou a preencher os corredores antigos. Era sempre assim, antes mesmo de as irmãs terminarem as orações da madrugada, Maria Clara já estava sentada ao velho piano da capela, deixando que os primeiros acordes despertassem o dia.

A melodia era suave, quase uma prece. Sua voz cristalina e suave ecoava como se pertencesse a alguém que não era deste mundo.

O som atraía as irmãs que atravessavam o claustro para suas orações e rotina.

- Nossa menina canta como um anjo - murmurou Irmã Rosália. - Deus colocou música nessa menina, sinto tanta paz quando ela canta.

Era ali, entre aquelas paredes de pedra, que ela cresceu.

Órfã desde bebê, nunca soube quem eram seus pais. Mas sabia que tinha sido amada por aquelas mulheres que dedicaram a vida ao cuidado de outras vidas. E, mesmo agora, com seus vinte e cinco anos, formada professora e responsável pelas aulas das jovens internas e também pelo orfanato mantido pelas freiras, ela ainda se sentia parte daquela grande família silenciosa, regida por orações, disciplina e afeto.

Quando a última nota se dissolveu no ar, Maria Clara fechou o piano e respirou fundo. Um novo dia começava. Ela se levantou para preparar as atividades das meninas, mas antes que pudesse sair da capela, ouviu passos apressados.

Era a Madre Superiora, trazendo em mãos uma carta lacrada com um brasão dourado.

- Filha - disse a madre Constância. - Precisamos conversar.

- Claro, Madre. Aconteceu algo?

A madre respirou fundo, observando-a por um instante.

- Recebi um pedido... muito especial. E acredito que Deus escolheu você para essa missão.

Ela estendeu a carta. O selo era imponente, antigo, carregado de história. Um "A", entrelaçado com folhas de acanto. O brasão da família "Alencastro".

Maria Clara franziu o cenho.

- A família Alencastro... a casa nobre da Serra das Hortênsias?

A madre assentiu.

- O Conde Álvaro Alencastro perdeu a esposa há dois anos. Desde então, tem se afastado de tudo: da sociedade, de Deus... e, infelizmente, dos próprios filhos. A governanta escreveu relatando a situação. As crianças estão indisciplinadas, emocionalmente instáveis, e já fizeram várias preceptoras desistirem. Ele precisa de alguém competente... mas também alguém com luz, paciência e fé.

Maria Clara se encolheu levemente.

- Madre... não sou babá. Talvez eles queiram uma...

- Eles querem mais que uma babá. Uma professora educada e culta que ensine os primeiros anos de escola em casa. A família Alencastro tem muita tradição na região e gostam de manter a discrição. - A madre sorriu. - Além do mais, o conde tem nos ajudado com o orfanato.

Maria Clara sentiu as mãos tremerem.

- Eu... não sei se sou capaz.

- Deus sabe. - A madre a tocou no ombro. - E eu também.

- E quanto aos meus votos? - Maria Clara tinha o desejo de se tornar uma freira. Ela amava Deus e a vida do convento.

Silêncio.

Do lado de fora, o sino da primeira oração matinal soou. Maria Clara olhou para o brasão mais uma vez e percebeu que algo dentro dela se movia: medo, curiosidade, talvez um chamado.

- Querida, cumpra essa missão e depois veremos.

O olhar da madre era de como uma mãe que olha para a filha e dizia "Eu sei o que estou fazendo".

- Quando devo ir? - ela perguntou por fim.

- Hoje mesmo - respondeu a madre. - O carro chegará ao meio-dia.

O coração de Maria Clara disparou.

Tudo... tão rápido.

- Prepare-se, filha. - A madre segurou suas mãos. - Tenho certeza que Deus tem algo reservado para você naquela casa.

Apesar de morar com as freiras, a madre nunca a aceitou além do noviciado. Segundo ela, a vocação de Maria Clara não estava nos votos e sim em algo mais além daqueles grandes muros altos.

Quando Maria Clara completou seus estudos, ela conseguiu uma bolsa para estudar línguas e música no exterior. Fez amizades, até mesmo chegou a ter um namoro rápido e inocente, mas a saudade do único lugar que conhecia como lar a fez voltar para o convento onde passou dar aulas no internato para moças de família rica, mas também como professora no orfanato onde ela cresceu.

Maria Clara era muito educada, culta e com coração puro. Com um semblante calmo em um rosto angelical com grandes olhos verdes cor de esmeralda, a pele clara e aveludada como pêssego, tinha cabelos castanhos claros longos e ondulados com mechas que emolduravam seu belo rosto.

Apesar de usar roupas modestas para uma jovem de sua idade, ela era alta e tinha um corpo esguio e elegante.

*****

O resto da manhã passou como num sopro: despedidas calorosas e as meninas protestando por perder sua professora favorita e as irmãs deixando pequenos presentes.

Ao meio-dia, quando o portão do convento se abriu, revelando um carro preto reluzente enviado pelo conde, Maria Clara sentiu o peso do desconhecido.

- Deus abençoe, filha - disse a madre, segurando-lhe o rosto.

Maria Clara sorriu, ainda que com os olhos cheios de lágrimas.

O motorista que não deveria ter mais de quarenta anos se aproximou polidamente e pegou a única mala que ela levava e colocou no porta malas.

Ao entrar no carro, respirou fundo quando o motor ligou.

A estrada que levava à Serra das Hortênsias serpenteava entre campos abertos, bosques e pequenas propriedades rurais. Maria Clara observava, silenciosa, a paisagem que ficava cada vez mais densa e fria, típica da região sul do Brasil.

Quando atravessaram um portão de ferro ornamentado, ladeado por colunas antigas, ela prendeu a respiração. O motorista, que não falou uma única palavra durante todo o trajeto, apenas murmurou:

- Bem-vinda à propriedade Alencastro, senhorita.

A estrada interna era ladeada por hortênsias azuis e lilases e um vasto gramado formava uma visão arrebatadora, quase melancólica.

E então, depois de uma curva suave, o solar surgiu. Imponente. Silencioso.

O Solar Alencastro era uma construção centenária, mistura de arquitetura europeia com toques colonial. Era belo, mas havia algo nela que causava um arrepio.

Uma bandeira da família tremulando no topo da fachada exibe o brasão herdado pelos Alencastro desde a época do Império. Afinal, apesar de o título não ter validade legal, a tradição permanecia viva no sobrenome e no sangue.

Ao descer do carro, o motorista fez um leve aceno e colocou a bagagem na entrada, depois se afastou tão silencioso quanto discreto.

Maria Clara ficou parada diante da imponência do lugar e sentiu um frio percorrer-lhe, como se ao entrar naquele palácio algo iria mudar para sempre e ela nunca mais seria a mesma.

Capítulo 2 002

As grandes portas de madeira se abriram antes mesmo que ela pudesse bater. Uma mulher de meia-idade, postura ereta e expressão séria, mas agradável e um senhor usando um fraque preto impecável, aproximaram-se.

- Senhorita Maria Clara Duarte? - perguntou a governanta, inclinando a cabeça.

- Sim. - Ela sorriu, tentando disfarçar o nervosismo.

- Sou Doralice, governanta da casa e este é Olavo o mordomo - Seu tom era firme, mas os olhos demonstravam alívio. - Estávamos esperando por você. Entre, por favor.

- Seja bem vinda ao Solar Alencastro, senhorita. - Olavo inclinou levemente a cabeça.

Ele se aproximou para pegar a mala de Maria Clara.

- Irei providenciar que seja entregue a seus aposentos.

Olavo se afastou, deixando Maria Clara com a senhora Doralice.

A jovem atravessou o limiar da mansão e sentiu a temperatura cair ainda mais. O interior era majestoso, mas apesar de toda a riqueza, o ambiente parecia... vazio. Silencioso demais.

- O conde não está em casa - disse a governanta, caminhando à frente. - Ele passa a maior parte do tempo no escritório da empresa, na cidade. Deve retornar mais tarde, ou talvez amanhã. Nunca sabemos ao certo.

- Entendo. E as crianças?

Dona Doralice hesitou.

- São crianças boas, apenas... marcadas por tudo o que aconteceu.

Maria Clara não perguntou o que era esse "tudo". Ainda não.

- Como já deve ter sido informada, Helena tem sete anos. É uma menina muito ativa, inteligente, sensível e extremamente carente. Por isso é um pouco rebelde. - Doralice deu um suspiro. - Já Thomas tem quatro anos é um menino muito tímido, silencioso e faz tudo que a irmã manda.

Seguiram por um corredor amplo até uma sala iluminada por janelas grandes que davam para o jardim.

- Aqui é a sala das crianças - explicou a governanta. - Elas costumam passar a tarde aqui.

Assim que Maria Clara entrou, ouviu passos e cochichos. Um objeto rolou debaixo de uma mesa: um pequeno carrinho de madeira com um horrendo rato de borracha amarrado em cima, deslizou velozmente e passou a poucos centímetros de seus pés.

- Meu Deus! - exclamou ela, dando um pulo para o lado.

Uma gargalhada infantil e malandra ecoou pelos cantos da sala.

Doralice fechou os olhos.

- Crianças... por favor - pediu ela.

Maria Clara ergueu o rosto e encontrou dois pares de olhos fixos nela: curiosos, desconfiados... e provocadores.

Thomas e Helena.

Thomas tinha os cabelos louros escuros caindo de forma desalinhada sobre o rostinho redondo. As bochechas rosadas contrastavam com o olhar apagado demais para uma criança tão pequena.

Helena era formosa, com longos cachos dourados que caíam pelas costas. Mantinha o queixo erguido, a postura altiva, e os olhos escuros carregados de desafio.

- Oi - disse Maria Clara, acenando.

Helena virou-se para o irmão e falou alto o suficiente para garantir que Maria Clara escutasse:

- Aposto que essa não dura uma semana.

Thomas apenas concordou com um aceno pequeno. Os dois então dispararam, suas gargalhadas ecoando pelos corredores.

- Eles... têm sido muito difíceis desde que a condessa faleceu. - Sua voz suavizou. - Nada prende a atenção deles. E já perdemos três preceptoras só este ano.

- Eu entendo - disse com serenidade. - São apenas crianças... e crianças feridas costumam chorar de jeitos diferentes.

O olhar de Doralice suavizou.

- Venha. Ainda há muito o que mostrar.

As duas caminharam pelos corredores, as paredes eram adornadas com quadros antigos de ancestrais de expressão severa, homens de rostos soturnos, uniformes militares e mulheres rígidas como mármore.

- Esta ala é toda das crianças - explicou Doralice. - Aqui é a sala de estudos.

A sala era ampla, clara mas fria. Nada ali tinha cor infantil. As mesas grandes e sóbrias pareciam enormes demais para crianças pequenas. A única marca de modernidade destoante eram dois computadores.

- Eles fazem as aulas aqui - disse Doralice.

- Parece uma sala feita para oprimir e não aprender - murmurou para si mesma.

Mas Doralice ouviu.

- O conde... prefere as coisas assim. Ordem. Silêncio. Disciplina. Estes são os horários das crianças. - Doralice estendeu entregou uma pasta para Maria Clara.

Ela abriu e viu que as crianças tinham horário para tudo, desde o momento de acordar até dormir. Ela deixou de lado. Rígido demais, mas não comentou.

Depois as duas seguiram para outra sala.

- Aqui é a sala de música das crianças.

A sala era espaçosa com pé direito alto e grandes janelas que davam para o jardim. A mobília era escura e fria, mas no centro havia um belo piano de cauda preto.

- A senhorita veio recomendada porque também é professora de música.

- As crianças tocam?

Doralice deu um suspiro.

- Helena tem talento. A mãe dela tocava muito bem e a iniciou no piano, mas depois da morte da mãe ela perdeu o interesse.

- Entendo. - Murmurou Maria Clara.

- Mas, senhorita, preciso alertá-la. - Doralice a olhou nervosa. - Evite dar as aulas quando o conde estiver em casa, ele não gosta de ouvir o piano. Há outro salão de música, mas está lacrado, ninguém entra lá sem a permissão do conde.

- Parece que o conde é um homem muito severo.

- Ele é um bom homem, mas infelizmente a tragédia se abateu sobre ele. Venha, tenho algo para mostrar para a senhorita que tenho certeza que irá gostar.

Maria Clara seguiu Doralice até uma porta de folha dupla ricamente ornamentada com entalhes florais e símbolos sacros.

Assim que abriram, os olhos de Maria Clara brilharam.

A pequena capela do Solar Alencastro parecia um relicário preservado no tempo. Toda em madeira nobre com entalhes de colunas retorcidas, arabescos e frisos de ouro.

No altar elevado, um grande crucifixo. Ao lado, uma bela e antiga imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, nichos abrigavam imagens de santos. A luz entrava por dois vitrais e bancos de madeira maciça.

O lugar era um convite imediato à oração.

- Quando a mãe do conde morava aqui - disse Doralice em voz baixa - essas portas ficavam sempre abertas. Mas acredito que o conde não se importe que a senhorita faça suas orações aqui, desde que as mantenha assim, fechadas.

Doralice fechou as portas com cuidado.

- Ainda há muito para lhe mostrar, mas a senhorita deve estar cansada. Talvez queira tomar um banho e se trocar.

Fez um gesto para que Maria Clara a acompanhasse.

- Venha, vou levá-la aos seus aposentos.

Apesar da beleza tudo era frio demais.

Elas retornaram ao saguão principal, Doralice a guiou até o andar superior pela escada de madeira de lei majestosa.

- Os aposentos do conde ficam do lado oposto aos das crianças.

No final do corredor, uma grande porta de madeira de folha dupla com o brasão da família. Provavelmente o quarto do conde.

Elas seguiram pelo grande corredor repleto de móveis que deveriam ser de séculos e quadros antigos.

- Aqui é o quarto das crianças.

Doralice entrou e deu espaço para Maria Clara que não ficou surpresa ao ver a mobília escura e as duas camas em dossel, a única coisa que poderia dizer que aquele quarto era de duas crianças era a cor da roupa de cama e das almofadas. Uma cama era toda em rosa e a outra em azul.

Doralice caminhou pelo grande quarto acarpetado até uma porta de madeira trabalhada.

- Está porta dá acesso ao seu quarto.

Ao porta, Maria Clara se viu em um belo quarto decorado com luxo e no mesmo estilo aristocrático.

- Sugiro que a senhorita mantenha a porta de comunicação fechada durante a noite.

- Entendi.

Maria Clara suspeitava que tinha a ver com a recepção que tivera.

- Bom, vou deixá-la para se acomodar. O jantar é servido às vinte horas. - Prosseguiu Doralice. - A senhorita irá fazer as refeições na sala de jantar dos empregados. As crianças fazem as refeições no salão junto com o conde, mas o conde é muito ocupado e nem sempre está presente, então as crianças fazem as refeições na pequena sala de jantar e a senhorita que os acompanhará.

Maria clara ouvia tudo e imaginava que aquelas crianças não precisavam de disciplina e sim de atenção e afeto.

- Obrigada. - Disse apenas sem externar seus pensamentos.

Assim que Doralice saiu, Maria Clara não viu sua mala, abriu o grande guarda roupas de madeira de lei e alguém já havia arrumado cuidadosamente seus pertences.

Ela caminhou até a varanda e olhou em volta.

O solar ficava num lugar mais elevado e o grande jardim convidava para um passeio. Foi quando viu um homem alto indo em direção à entrada principal do solar. Ela só viu suas costas, e não pode deixar de notar seu porte altivo e elegante.

Imaginou que seria o conde chegando e aguardou que alguém iria chamá-la, esperou algum tempo, mas ninguém apareceu.

Capítulo 3 003

Maria Clara olhou para o relógio. Ainda faltava muito para o jantar e ninguém havia lhe dito que não poderia explorar o solar ou o jardim.

Saiu do quarto devagar, o corredor estava silencioso e imaginou onde estariam as crianças... talvez escondidas aprontando alguma travessura.

Quando desceu a majestosa escadaria, e então, como numa coincidência, o homem que ela tinha visto da varanda surgiu no hall.

Ele parou imediatamente, com expressão surpresa e agradavelmente intrigada.

- Você deve ser a nova babá?

A suavidade da voz o tornava ainda mais simpático.

Maria Clara piscou, igualmente surpresa. Seu rosto esquentou um pouco. O homem era bonito, tinha porte atlético, cabelos levemente bagunçados, olhos castanhos acolhedores e um sorriso espontâneo.

Com tudo que haviam dito sobre o conde como um homem severo, reservado e de modos rígidos, ela esperava encontrar alguém totalmente diferente e também mais velho, o conde devia ter trinta e cinco anos. Mas aquele ali parecia não ter mais de trinta anos e ar tão descontraído que não parecia carregar um título de nobreza.

- Sim, senhor - confirmou.

Ele riu levemente, como se a resposta dela o divertisse.

- Sinceramente, não esperava que fosse tão jovem... e bonita.

Antes que ela pudesse reagir, ele estendeu a mão. Quando ela tocou na dele, ele inclinou-se e beijou delicadamente como um cavalheiro à moda antiga.

- É um prazer conhecê-la, senhorita. Seja muito bem-vinda ao Solar Alencastro.

Maria Clara sentiu as faces queimarem. Não sabia se pelo gesto, pelo tom gentil ou pelo olhar que ele mantinha sobre ela.

- Muito obrigada, senhor. A casa é... magnífica.

- Já conheceu as crianças? - perguntou ele, com um brilho divertido nos olhos.

- Sim. E... bem, elas são adoráveis. Só precisam de atenção.

Ele ergueu as sobrancelhas, divertido.

- Adoráveis! Espero que permaneça aqui, então. As anteriores eram senhoras rabugentas... e muito chatas. - Sorriu, abrindo o gesto com as mãos. - As crianças merecem alguém como você.

Maria Clara sentiu o coração acelerar.

- Já que tocamos no assunto das crianças - começou ela, reunindo coragem - gostaria de conversar sobre meu método de ensino.

O sorriso dele se desfez num instante, mas não de forma grosseira, apenas surpresa.

- Senhorita... eu não entendo nada de crianças. - Ele riu, sincero. - Esse assunto deve ser discutido com meu primo.

Maria Clara piscou, confusa.

- Seu primo?

Ele pareceu achar graça.

- Acho que a senhorita está me confundindo com Álvaro. - E, com uma leve reverência, apresentou-se: - Eu sou Roberto Alencastro.

O coração dela afundou. O homem gentil, belo e simpático não era o conde.

Antes que pudesse reagir, a porta principal se abriu e um homem entrou e o ar do saguão mudou completamente.

Álvaro Alencastro surgiu com a imponência de alguém acostumado a comandar. Alto, de postura impecavelmente ereta, vestindo um terno preto que parecia feito sob medida para ressaltar a força dos ombros e a elegância fria de sua presença.

Não tinha a leveza de Roberto. Sua beleza era austera. Aristocrática. Máscula. Marcada por linhas firmes no rosto, sobrancelhas espessas, olhos escuros como a noite e uma forma de olhar que fez Maria Clara sentir como se estivesse sendo atravessada.

Sim... Aquele era o conde.

- Chegou cedo hoje, Álvaro - disse Roberto com naturalidade. - Acabei de conhecer a senhorita Duarte. Ela disse que as crianças são adoráveis e espero que fique conosco por muito tempo.

Álvaro lançou um olhar rápido para o primo e depois para Maria Clara, estudando-a com uma certa frieza.

Roberto se virou para ela mais uma vez, inclinando ligeiramente a cabeça, mas dessa vez sem esconder a admiração em seu olhar.

- Vejo que você fez o favor de lhe dar as boas-vindas - disse o conde, com uma expressão perceptivelmente reprovadora.

- Na sua ausência, considerei meu dever. - Roberto sorriu. - E foi um grande prazer. Com licença, senhorita.

Com mais um olhar de admiração para Maria Clara, Roberto deixou o saguão.

Álvaro então voltou-se totalmente para ela. Sua presença parecia ocupar todo o espaço.

- Espero que meu primo não tenha sido inconveniente, senhorita Duarte.

Maria Clara engoliu em seco.

- O senhor Roberto... foi muito gentil.

- Naturalmente. - O conde ajeitou o paletó, sem desviar os olhos dela. - Eu deveria tê-la recebido, mas assuntos urgentes me prenderam na empresa.

- Compreendo, senhor.

Ele não estendeu a mão. Não sorriu. Apenas a observava, como se tentasse decifrá-la.

Maria Clara sentiu que estava sendo avaliada, mas algo nela fez encarar os olhos escuros dele, não como desafio, mas como alguém que não se deixava intimidar, mas com olhos gentis e sinceros.

- Acompanhe-me, senhorita - disse finalmente - É melhor conversarmos no meu escritório.

E, sem esperar resposta, virou-se e começou a andar.

Maria Clara respirou fundo e o seguiu, os passos dele firmes e silenciosos, os dela um pouco hesitantes. Sentia mais forte o peso daquele encontro e do homem que caminhava à sua frente, tão imponente quanto o solar inteiro.

Eles pararam diante de uma porta de madeira maciça, entalhada com o brasão da família Alencastro. Álvaro abriu a porta e segurou-a para que ela entrasse primeiro.

Ao entrar, Maria Clara prendeu a respiração. O escritório não era apenas um cômodo: era uma declaração.

Móveis clássicos de madeira escura, poltronas de couro, uma estante imensa ocupando toda a parede lateral. Atrás da imponente mesa ricamente trabalhada a mão, havia um enorme quadro a óleo representando uma batalha naval do período imperial: caravelas em confronto, ondas revoltas, céu tempestuoso. Era tão grandioso quanto perturbador e de certa forma parecia ser o próprio conde.

A luz que entrava pelas janelas com vitrais coloridos. Tudo ali exalava poder, disciplina e tradição.

Tudo ali exalava Álvaro Alencastro.

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