Roseli
Ele sempre estava lá.
No lugar onde eu costumava ter paz e sossego, que eu tinha certeza que poderia viver de maneira tranquila, porém não poderia ficar nessa terra por muito tempo, esse lugar eu entrava apenas quando tinha o gosto de me deitar para dormir. Sim, lá em meus sonhos.
Um dos únicos momentos que eu tinha um pouco de paz e sossego era quando eu estava a adormecer, e esse momento também era quando meu coração sentia um dos mais nobres sentimentos que eu pensava jamais existir entre nós seres humanos, o amor. Sim, o amor. sentimento que nunca acreditei existir pois sempre vi meninas mais novas que eu serem dadas a casamento por terras, gado, casas e terrenos. eu nunca fui assim, por minha sorte meu pai atendeu o pedido de minha mãe, não me entregou em casamento e muito menos me fez a corte. Porém, quando completei meus quinze anos ele disse que eu teria que trabalhar, afinal já que não queria ser sustentada por um marido eu tinha que ter meu dinheiro. Mesmo sendo herdeira, filha dele de um homem rico que tem tanto dinheiro na região, eu tinha que trabalhar. Embora isso não parecesse justo, era melhor do que ser entregue a um verme qualquer.
Mas, em meus momentos de descanso, mesmo com meus pés doendo e cheio de calos secos, mãos com curativos e pomadas para que as feridas de meu trabalho árduo lavando roupas pesadas de couro não piorasse. Ele estava lá, um homem cujo eu nunca havia visto a não ser em devaneios de minha mente. Ele tinha uma postura impecável, um ar de elegância pura, com uma bengala em mãos, e um andar tão perfeito que ele parecia ser feito a mão. a postura sempre de um rei, e ele com a cabeça erguida, seu queixo quadrado e maxilar marcado, olhos tão verdes quanto a grama verde de um belo campo na primavera, um olhar marcante levemente amendoado, traços fortes de um homem, Um rei, não. era como se fosse um guerreiro, e seu cabelo, como descrever? Ele tinha as cores escarlates, que me lembravam uma única coisa: O mais puro e vermelho sangue.
Cabelos com leves ondas, um pouco encaracolados atrás da nuca, mas na frente lisos, e isso combinava com a sua pele pálida como a neve. sua pele era tão perfeita com poucas marcas que ele mais parecia ser uma escultura de cera, era um homem magnífico, e em meu sonho era sempre a mesma coisa, aquele homem com perfume que me recordava sangue com uma combinação de rosas dizia ''Roseli, eu vim te buscar''
Me buscar daquele inferno, acreditava eu. Sim, eu sempre preferi sonhar que seria salva algum dia, que alguém me tiraria daquele tormento, alguém que me amasse, e que eu amasse de volta, porém depois de tanto tempo trabalhando, eu sabia que isso jamais iria acontecer afinal, eu já estava quase adulta, e conformada com destino, após ver tantas amigas casando. Mas, o meu medo de ficar sozinha era grande, por um motivo em particular: Um inquisidor em particular estava procurando bruxas, E, algumas pessoas que aparentemente não tinham o que fazer, diziam que realmente, eu era uma bruxa por não querer me casar.
Ora, uma mulher de cabelos longos, não tão lisos e sim encaracolados. uma pele branca e levemente rosada, não tinha bronze do sol afinal, onde eu morava era sempre nublado e o sol quase nunca dava o prazer de aparecer, era sempre coberto por nuvens. e as nuvens ficavam mais densas quando a neve caia. Mas, entre tantos relatos, tenho que relatar que exatamente naquela noite, entre o solstício de inverno, um de meus sonhos - ou delírios - se foi mais intenso.
Em meu sonho, Eu caminhava diante de uma floresta, onde pássaros pretos saiam dela, a floresta era escura, e eu continuava andando para dentro dela. era como se eu estivesse tentando fugir de alguma coisa, e nesse sonho pessoas. Em especial, as pessoas da vila estavam vindo atrás de mim com tochas, lanchas e pedras, jogando em mim, quando então estava a beira de uma ladeira, e a minha única saída foi me jogar, e quando meu corpo estava pairando ao ar, a voz dele. Estava tão viva e forte em mim que pude ouvir ''Eu estou indo te salvar'' que acordei.
Com a testa molhada de suor, passei as costas de minha mão sobre e senti o quanto estava molhada. logo pude perceber que não estava com febre. Mas esse foi um delírio forte que me deixou com a respiração bastante cansada a ponto de ofegar, parecia mesmo que havia corrido a uma longa distância a pouco tempo.
Levou alguns segundos até que eu me recuperasse. foi quando olhei para minhas mãos, estavam doloridas. mordi meu lábio inferior ao ver que as ataduras estavam encharcadas. eu tinha que mudá-las novamente. era por conta de tanto calo nas mãos, estavam se cortando e as feridas inflamadas de certo modo elas estavam sim se infeccionando. Bem eu esperava que ficasse melhor, me levantei e caminhei até a janela. já estava na hora de acordar, e eu tinha que ir trabalhar. afinal, eu queria poder descansar um pouco durante o solstício, pois acreditem: Lavar roupa na neve não é nada agradável, ainda mais em um lugar tão frio, as mãos poderiam simplesmente cair no gelo.
Dragomir
- Droga! que merda!
Grito jogando um vaso ao chão.
- Por que o estresse? É tão cedo. e o dia parece que será tão lindo.
Murmura minha querida sobrinha. a jovem de cabelos longos encaracolados, estava a me observar com tédio. de certo ela estava, viver sempre esperando meus caprichos, até mesmo eu estava ficando cansado de esperar.
- Eu sinto que ela corre perigo. Mas mesmo assim eu não tenho noção de onde ela esteja.
- Perigo? Você nem sabe se ela reencarnou, pare de sonhar.
A jovem se virou de bruços e ficou tocando o chão com a ponta dos dedos.
Era tedioso para ela, ter que viver minhas loucuras, afinal. Já fazia trinta anos desde que minha amada esposa se foi, e eu não consegui superar a perca dela, pois no final das contas aquelas fadas negras tinham me dito que sim, ela iria reencarnar. Eu só não sabia quando, e onde.
- É como se... ela me pedisse socorro, dentro de meu peito. sinto um vazio.
- Você está sonhando, titio. - Ela resmunga. - No que me entendo o senhor está sentindo falta dela, nada mais.
Para Mel o amor entre um homem e uma mulher era algo novo,além do mais ela não acreditava tanto, mesmo sabendo que ela tinha interesse em um certo humano. Mas, ela não tinha crença que minha esposa tinha reencarnado, e se havia, não tinha certeza que ela me amaria nessa vida.
- Meus sentimentos por ela são uma piada para você?
- É que, não tem como você saber. -A jovem se levantou e bateu ambos os pés no chão com força, suficiente para deixar marcado onde pisou - Já chega,eu vou pra vila aqui perto.
- Ei - Aquela menina estava em minha tutela, ainda não tinha total controle dos instintos - Mel! O que pensa que está fazendo?
- Eu? - A jovem se virou para mim e apenas disse - Vou ver um certo caçador. Mas, o senhor pode ficar aqui chorando por uma reencarnação. ou apenas me seguir.
Tudo isso antes de sair pela porta, me deixando sozinho naquele casarão.
O vilarejo perto dali era muito pobre, muito humilde. até de mais, eu não gostava de ir por aqueles lados. Era onde tinha caçadores. Embora ser um nobre facilitasse um pouco as coisas. Eu a compreendia de certa maneira, Como Gostaria de ficar a vigia-la sempre, preferi a acompanhar.
Roseli
Em minha pequena vila, que era do território do reino de Astrid, apesar de pobre, o povo não era nada humilde em termos de espirito. tínhamos uma grande casa de entretenimento para homens e viajantes se hospedarem, e também buscarem sua diversão. E, para as mulheres restavam uma igreja quase do mesmo luxo que o bordel. Embora a casa dos fiéis estivesse sempre suja e com ratos andando no meio das ruas, a igreja era sempre bem limpa. Afinal, a casa do senhor que tinha sempre ouro e uma reforma feita a cada dois meses e uma limpeza diária. Francamente, o lugar era até melhor que muita casa.
Eu, seguia com minha rotina após fazer uma breve ceia ao lado de meu pai que estava sozinho em casa, pois seus queridos filhos homens só vinham para saber de sua saúde pois queriam que ele no fim batesse logo as botas para pegar toda herança. E eu como sua filha mulher já estava satisfeita que não herdaria nada. Mas, isso seria um assunto para outro momento. O fato era que, coloquei meus cabelos para trás feito em uma trança mal feita, peguei uma grande cesta feita de palha seca e fui nas casas onde eu já havia sido chamada, sabia que tinha roupa para lavar. Pelo menos era esse meu objetivo. Tomando cuidado para não pisar em fezes de cavalo e de gente que derramam os dejetos no meio das ruas em meio a cadáveres de ratos e pequenos animais como gatos e ratos, fui passando em casa e casa pegando as pequenas trouxas. Havia uma casa em especial, que eu gostava de ir, de uma certa senhora que tinha cabelos grisalhos. ela era gentil, embora tivesse seus defeitos.
- Obrigada dona Margô.
A última casa era dela, uma senhora viúva, dona Margô. a velha mais fofoqueira que eu tive o desprazer em conhecer, embora sua má fama. ela havia sofrido muito. dizem que seu marido era um lobisomem, ela era muito sozinha,- todos os filhos que ela teve na juventude nasceram mortos, isso era muito triste -e também diziam que era um milagre ela continuar viva Mas, por um lado era bom ter amizade com ela, ter uma amiga fofoqueira era bom para saber tudo que estava acontecendo por aquele pequeno vilarejo.
- Ah ''Rosê''- Ela insistia em falar meu nome em tom errado - Já está sabendo? dizem que tem um homem muito bonito na casa do pecado.
- Dona Margô, todos os homens que andam lá são bonitos.
Mentira, nem todos, mas a quantidade de moedas de ouro em seus bolsos sim.
- Não, não, mas esse é diferente.
Ela puxou meu braço para mais perto dela e começou a falar baixinho.
- Diferente como? ele é rico?
Um duque talvez de viagem, seria bom tentar arrumar um emprego no palácio comesse tipo de homem.
- Isso também conta, mas estou falando dos cabelos dele. Ele tem uma pele branca como uma porcelana tão delicada, e os cabelos vermelhos na cor de sangue.
Cabelos vermelhos? Esse detalhe acabou de atiçar a minha curiosidade. Eu sabia que era praticamente impossível ser a mesma pessoa, mas nunca tinha visto alguém de cabelos vermelhos além dos meus sonhos.
- Dona Margô. eu vou deixar essa cesta aqui. e vou... ver um pouco
Me despedi dela por um breve instante, segurei na saia de meu vestido levantando um pouco para que eu não tropeçasse nela durante a minha caminhada, e fui seguindo caminho pelos becos até chegar na grande casa, a qual tão grande tinha dois andares. Havia uma carruagem estacionada em frente, com dois cavalos pretos, todos de uma boa raça - era visível pela sua pelagem brilhante que eram bem tratados - e essas pessoas de certo não eram daqui, talvez fossem nobres do reino. Os cavalos tinham até mesmo um cheiro agradável, e seus pelos pareciam macios, não resisti e ergui a mão até a cabeça do animal.
- Ele gosta de você.
A voz, tinha um tom calmo. que me tocou até a alma me causando arrepio em todo corpo. era como se tivesse ficado petrificada por breves segundos. aquela voz era a mesma de meus sonhos, me era familiar, me trazia conforto ouvir novamente e tão audível assim de perto. movi a cabeça bem devagar até conseguir vê-lo ao lado de meu ombro direito que estava se aproximando, pondo a mão sobre a cabeça do cavalo, Ele olhava para minha mão enquanto fazia carícias no animal.
- Pela sua aparência, cheiro de bosta e o estado de suas belas mãos, dá para ver que não trabalha neste estabelecimento.
''Sua aparência''? ele estava me chamando de feia?
Mas, espera...
Aquela aparência, aqueles olhos. Aquela voz, meu coração acelerou forte naquele instante em que eu o olhava. podia sentir um calor se espalhar em todo meu corpo. e um rubor de certo cobria as maçãs de minha face, recolhi ambas as mãos sobre meu peito. Aquele homem, aqueles lábios, cabelos, olhos verdes. Ele era real?
- O que foi?
Eu não conseguia parar de olha-lo., muito menos dizer alguma coisa. estava abismada em meus pensamentos. como podia ser? eu sonhar com aquele homem que nunca havia visto em toda minha vida. Mas, eu tinha que falar alguma coisa, ao menos cumprimenta-lo. O vi revirar os olhos e tocar mais uma vez na cabeça do cavalo.
- Foi uma boa conversa. Nos veremos em breve.
Ele simplesmente passou por minha pessoa, exalando aquela postura de poder, superioridade e sensualidade. Minha face corava ainda mais e nem sabia como reagir a aquilo. minha única vontade agora era de me enfiar em um buraco com tanta vergonha. Mas, eu tinha de ir para o rio lavar roupa, e pensar no que eu havia feito. Droga Roseli! pense.
Antes do meio-dia, era a hora perfeita para se lavar roupa em uma terra onde o sol mal aparecia, para poder estendê-las e assim secarem com mais facilidade e poderem ser utilizadas. Afinal, o inverno estava chegando, e precisavam de muita roupa seca para esse período. Eu não sabia se iria de fato conseguir ainda mais com minhas mãos tão doloridas. O rio ficava perto de uma vegetação densa, quase uma floresta, mas na verdade a floresta ficava bem mais a frente. E eu olhava o pequeno movimento de pássaros, borboletas e pequenos insetos e anfíbios que se locomoviam por ali.
Porém, por um instante o que se moveu não era nem inseto e nem anfíbio. Era ele, aquele homem, o homem literalmente de meus sonhos. A minha face se esquentou novamente e então vi, ele estava do outro lado do rio, entrando na vegetação. Não sabia como ele havia atravessado sem ter passado por mim, pois estava perto de uma pequena ponte que dava ao outro lado. Eu não parava de olhá-lo, só queria saber mais sobre ele, então, deixei as roupas dentro do cesto novamente e fui subindo sobre a ponte estreita e segui caminho até chegar ao outro lado.
Fui pisando cuidadosamente, seguindo a imagem dele, até que em certo momento eu havia o perdido de vista, era como se ele tivesse simplesmente virado fumaça. Comecei a pensar que eu estava ficando louca. havia ficado tão fascinada por ter visto de fato aquele homem tão similar ao de meus sonhos que agora estava o vendo em alucinações?
- ''Roseli''
A voz mais uma vez, e estava atrás de mim. não me movi, me questionava como ele sabia meu nome. Talvez tenha ouvido os aldeões conversando comigo, afinal eu era conhecida, todos na vila me conheciam, A filha do fazendeiro que não se casou, a que preferia trabalhar a se casar.
- Fiquei intrigado com a sua coragem em me seguir, não pensei que fosse tão fácil atraí-la até mim. Mas, também fiquei impressionado com seu olhar, e seus batimentos quando me viram. Eu já vi mulheres se encantarem por mim, não me considero um homem feio, mas você me olhou de uma maneira... parecia que estava feliz em me ver.
Ele começou a caminhar em minha volta com as mãos para trás do corpo, e eu ainda assim não sabia o que dizer.
- Além do fato que: a senhorita me seguiu nessa densa vegetação.
Me senti disposta em começar a falar a verdade, que sonhei com ele.
- Sim, eu o fiz por...
- És louca?
Ele me interrompia e continuava a andar em minha volta.
- O que? Não!
- A senhora não me conhece e mesmo assim me seguiu. E se eu fosse um estuprador? Não tem certeza que eu não seja um assassino.
.- E por acaso o senhor faz alguma dessas coisas?
- Não, eu nunca fiz tamanha violência, a de violar o corpo de alguém. Acho horrendo isso. esse crime não levo pro inferno.
Com aquelas palavras, cruzei os braços abaixo dos seios. deduzi então que ele já tenha matado, Mas agora que estávamos conversando e eu podia sentir que o conhecia de certa maneira, o confrontei.
- Então já matou?
- Matar para saciar a fome não deve ser considerado um crime.
- Mas eu não estou falando de matar cabrito e gado.
Ele veio bem devagar, tornando seu corpo mais próximo de mim. E eu não sabia como reagir, apenas senti sua presença e sua mão coberta com aquela luva tocando meu queixo e erguendo para cima, para que meu olhar ficasse direcionado ao seu.
- Nem eu, minha bela donzela de lábios carnudos.
O que era aquilo que eu sentia? Aquele seu olhar, me fazia sentir algo estranho em meu peito, meu coração acelerava. batimentos, respiração mais intensa e meu corpo todo ficava quente, era um tipo de febre?
- ''Roseli''
Novamente ele dizia meu nome, em seus lábios pareciam até um tipo de doce.e eu gostava quando ele repetia meu nome.
- S-sim?
- Qual a razão de seu olhar ser assim para mim?
Não, não tinha como eu simplesmente lhe dizer que sonhava com ele. aquele homem, era maior que eu, mais forte que eu. não sabia como poderia reagir, mas estava tão frágil a sua presença que nem sabia se sentia medo ou até mesmo um tipo de desejo.
- Eu... Bem.
- A senhorita é algum tipo de bruxa.
Aquela pergunta? Argh! Ainda estávamos tão perto um do outro, tanto que nossos narizes vinham se encostando quando eu lhe respondi com um tom de voz baixo.
- Eu não sou uma bruxa.
- Então, se é mesmo apenas uma humana, a senhorita não vai se incomodar caso eu tome um pouco de seu sangue, certo?
Ele soltou meu queixo e afastou seu nariz do meu, tomando distância de mim e juntou as mãos, estalando todos os dedos, sua boca se separava com um belo e largo sorriso, e eu via em seus dentes algo anormal, suas presas tinham um formato muito peculiar que me lembrava até mesmo presas felinas, como as de um gato, só que maiores como se fossem para perfurar uma carne, ou até mesmo para arrancar.
- Esses dentes são falsos, certo? - Questionei inocente. que seja um pesadelo.
- A senhorita me seguiu para o meio do nada. E eu confesso que estou com fome. A não ser que queira me dizer alguma coisa que me faça mudar de ideia, eu não vou te matar.
Mais uma vez me senti encurralada naquela situação, seu andar até mim dessa vez empurrava meu corpo contra uma árvore velha. a pressão era tanta que as palavras saiam tremidas de minha boca. Ele era mesmo um vampiro? Sério? Pensava que eram apenas histórias para crianças se comportarem. já havia escutado histórias que pequenas vilas haviam sido destruídas por alguns, mas ter um assim em minha frente. todo aquele meu desejo de fato estava prestes a sumir.
- Er, bem. Eu... Eu
Ele chegou mais perto e colocou a mão direita sobre meu pescoço, e inclinou minha cabeça para esquerda, exibindo melhor meu pescoço até o ombro.
- Então vai dizer ou vou ter um almoço?
Só podia ser uma peadinha.
- Você... não, isso é uma brincadeira. não tem como você ser um vampiro. já teria queimado no sol.
- Sou um vampiro. não vou fazer rodeios, afinal você vai morrer.
- Só pode ser brincadeira isso. - murmuro.
Ele soltou meu pescoço então, com a delicadeza de um coice de uma mula, foi pondo ambas mãos em meus quadris e me jogou para cima. Fui arremessada ao ar como um simples grão de areia, onde gritei até sentir a queda em seus braços. assim que estava deitada,ele me soltou onde senti a queda, fui rastejando ao chão. consequentemente sujando meu vestido.
- Quer ir novamente? Só não garanto evitar a sua queda na próxima vez.
Caramba, eu não sabia mais se aquilo era ou não real e sim que estava com medo daquele homem. meu corpo, minha cabeça estava em choque, então apenas disse o que eu havia de fato vivido.
- Eu sonhei com você.- murmurei enquanto tentava fugir.
- Hã? Isso é um flerte? - Ele se agaixou ao chão e apoiou a cabeça sobre as mãos, com os cotovelos apoiados aos joelhos - não vai te salvar agora.
- Não. Eu sonho com você, todas as noites. Por isso eu fiquei te encarando, não acreditei quando te vi.
- Oh.
Veio então se aproximando de minha pessoa, pegando-me pelos pulsos e pondo-me em pé. Em minha frente ele se curvou enquanto eu me encolhia com medo daquela criatura profana.
- Agora isso está ficando interessante, senhorita Roseli. queira perdoar minha falta de modos. prazer, eu me chamo Dragomir.
Então esse era o nome do então misterioso homem que vagava em meus sonhos, passeava em minha mente durante todas as noites e sempre me salvava. De fato, eu não sabia seu nome durante meus sonhos, eu sempre o via, sempre o enxergava e ouvia sua voz dizendo que estava do meu lado. Mas, era a primeira vez que ouvia ele dizer seu nome com todas as letras. Ele se curvava em minha frente em uma apresentação elegante, e ia se pondo na postura imperiosa anterior e cruzando os braços, ficando a me analisar com o olhar.
Apesar de temer o que ele dizia por ter afirmado que era uma criatura que se alimentava de sangue, tentei não demonstrar medo, ergui bem a cabeça e falei em um tom firme.
- Então, você é mesmo um vampiro?
- Princesa da neve que não sou.
Parecia debochar de mim.
- E o que te dá tanta segurança que eu não vou sair daqui gritando que você é um monstro pra todos?
- Duas coisas, minha cara Roseli - Ele inclinava o corpo para frente - Primeiro: A infelicidade de você ser mulher em um mundo governado por homens. Eu posso muito bem dizer que você está louca, que flertou comigo e eu recusei. E por isso inventou tal coisa. Ninguém vai acreditar em você, e sim em mim. E, segundo: Eu te mataria antes que você saísse daqui. Foi claro?
Aquelas palavras, vinda daquele homem com aqueles dentes afiados, me senti de certa forma intimidada, estava difícil manter aquela postura.
- Você é horrível.
- Não, eu sou um sobrevivente. Admito que fiquei intrigado com a sua pessoa,e quero agora saber mais sobre seus sonhos. Mas se você preferir, eu vou fazer apenas o que vim fazer aqui, e irei embora. E talvez um dia se for a vontade do destino nós dois nós encontraremos. Mas, se quiser ouvir a proposta que tenho a dizer... Será bem mais interessante.
- Proposta? Que proposta?
- Veja, não leve a um caminho diferente o que eu tenho a dizer.
- Apenas diga logo! - Estava prestes a correr de medo.
- Diante de você saber de meu segredo, e a senhorita sonhar comigo, isso me faz querer não a perder de vista, por tanto... Eu desejo que a senhorita se torne a minha concubina.
As palavras dele por um instante pensei que ele diria algo bom, mas ao ouvir o que ele dizia logo me veio a fúria em minha cabeça. Ser concubina era uma ofensa a mulheres direitas, além do mais significaria que não seria sua esposa e que ele não iria querer nada sério. aquele homem realmente era um sem vergonha, Como diziam as histórias que vampiros gostam de virgens para se satisfazer e depois tomar sangue delas.
- O que? O que pensa que eu sou pra aceitar isso?
- Não é nesse sentido, e você nem mesmo é tão bonita assim. Apenas relaxe. - Ele diz se aproximando com as mãos juntas - Quero que seja um tipo especial de concubina.
- Que tipo de concubina especial, seu tarado!
- Me permite falar?
Revirei os olhos e cruzei os braços abaixo dos seios. estava agora prestando atenção.
- Diga.
- Com a aumenta a caça às bruxas, a caça a vampiros também aumentou, e por conta disso eu quero alguém que fique ao meu lado. Para que eu possa sempre tomar sangue sem precisar deixar meu rastro. Entendeu?
- E quer que eu seja seu lanchinho?
- É só se você quiser. Não precisa vir comigo. Não vou te carregar a força.
- Você só vai querer meu sangue, certo?
- Certo.
- Não vai querer mais nada de mim?
- Você é virgem, certo?
Meu rosto ficou bastante quente, de certo eu estava vermelha. Mas logo retruquei. Era isso que ele queria? que eu fosse para que me seduzisse ou coisa a mais do tipo?- Me respeite, eu sou sim uma moça.
- Olha só. Interessante sua reação.
Ele veio até mim ficando bem mais perto do que eu gostaria
.- O que... está fazendo.
Era como se eu tivesse uma febre, a temperatura do meu corpo sobia.
- Eu nunca fui de tomar mulher à força, e você não será a primeira. E acredite, não me deito com humanas. Você não aguentaria, e acabaria a falecer em meus braços. Seria uma visão triste para mim já que preciso de você viva.
- Você me mataria?
- Não de propósito. Quando fico excitado às vezes me torno quase um animal, até mesmo um nobre como eu. Por isso quando quero prazer eu fico com alguém como eu.
- Talvez um dia eu descubra.
- Não terá capacidade para um nobre como eu. mesmo que eu queira te mostrar.
- "Nobre" ein. Você disse isso mais cedo, isso teria haver com o fato de poder andar livre ao sol?
Ele gargalhou e aproximou o rosto de meu ouvido, onde sussurrou.
- Não vou te dar mais detalhes, afinal você é uma humana. Mas quem sabe um dia eu te conte tudo caso se torne a minha concubina.
- Eu não consigo te entender. O que afinal de contas quer comigo? Pensei que os vampiros fossem atrás de meninas mais inocentes e totalmente delicadas.
Suas mãos foram recuando de perto de mim, ele virava o rosto para o lado, parecia observar algo enquanto eu falava, ao fim de minhas palavras ele ficou em silêncio.
- Ei, eu to falando com você.
- Eu só vim a essa vila, por conta de minha sobrinha. ela disse que tinha que fazer uma coisa. Daí senti seu olhar em mim. tudo que eu não quero é problema, pois eu já estou cheio de vários com a minha família. Não planejo fazer nenhum massacre ou coisa do tipo, mas caso a senhorita deseje recusar a minha oferta, peço que me dê a resposta até amanhã ao meio dia, pois planejo ir embora oq uanto antes.
Eu não precisava de tanto tempo para pensar, era claro que a minha resposta era única.
- Eu não preciso de tanto tempo para pensar, a minha resposta é não. Eu não vou servir de bolsa de sangue de vampiro.
- Pois eu sugiro que arrume um marido -Ele me interrompe e se vira de costas começando a andar - e não confia em ninguém.
Sua voz começa a se esvair, até que novamente ele desaparece no meio daquela densa vegetação.
- Ele sumiu? Ei!
Mais uma vez, levei as mãos sobre os olhos e cocei novamente procurando saber se aquilo era algum tipo de delírio por infecção nas mãos ou realmente real. Nas lendas daquela região, vampiros eram criaturas selvagens, agressivas. Alguns tinham postura como as dele, porém queimavam ao sol e andavam apenas na luz do luar, pois a luz do sol refletida na lua, era como um tipo de gerador de energia. Mas aquele homem, esse tal de Dragomir, era diferente, ao menos diferente das histórias, já que no final das contas eu nunca tinha visto um. Depois de ter voltado às margens do rio e terminado de lavar todas aquelas roupas à mão, eu as coloquei para secar ao sol. mais tarde no fim do dia, às passei em um ferro quente esquentado na lareira e coloquei dentro de cada trouxa a roupa de cada família. Havia secado bem, no final das contas, o ar estava seco apesar do tempo nublado.
- Rosê!
Aquela voz familiar, Dona Margô me chamava, enquanto eu estava fazendo algumas entregas de roupas, ela estava quase se arrastando. Era incrível como aquela velha ainda estava viva.
- Oi dona Margô. Eu já ia deixar a sua trouxa de lençóis.
- Minha querida venha aqui comigo, por favor.
Ela me arrastou pelas ruas, usando um tanto de força que não sabia que uma senhora daquela idade poderia ter. parecia aflita.
- O que foi? - Digo quase tropeçando em meus passos.
- Ouvi uma história que você estava se enroscando com o moço que está hospedado na casa da perdição. É verdade isso?
É o que? Essa história não era verdadeira. não tinha como ser, Só se ele tivesse inventado algo. minhas sobrancelhas se ergueram, senti uma raiva em meu coração. estava exausta de tanto lavar roupa e agora tinha que ouvir isso?
- O que? Não!
- Então por favor tome muito cuidado. eu só queria te avisar que não andam falando bem de você.- Ela estendeu seu braço enrugado com algumas moedas em mãos e colocou sobre as minhas - Agora tome, o pagamento pelas roupas.
Ela me entregou as três moedas de prata que sempre me dava por lavar seus lençóis, depois que lhe entreguei embrulhada em uma pequena trouxa. Francamente, Dona Margô era uma fofoqueira de mão cheia, mas eu não podia acusá-la de ter sido ela de ter inventado esse boato. e de fato, será que era verdade isso? Que estavam falando de mim? Pois bem, não me importava. Mas se aquele vampiro estivesse inventando boatos de minha pessoa, ele iria se ver comigo!
As tochas da vila foram acesas e eu só pensava agora em voltar para casa com meu velho cesto de palha. Com meus pés doendo e totalmente sujos, minha intenção era lava-los com água morna e me preparar para jantar. ao menos isso eu poderia fazer agora a noite.
- Ei, Roseli.
Aquela voz era do açougueiro, Hugo. Ele era um homem alto e forte, não era feio, era de boa aparência. abri um sorriso gentil para ele mostrando um mínimo de educação. Sinceramente eu estava aguardando que fosse aquele maldito vampiro,só para perguntar a ele se tinha inventado histórias sobre minha pessoa.
- Boa noite.
- Quanto cobra para lavar roupa?
Geralmente as pessoas me procuravam pela manhã, mas não custava nada responder.
- Cinco moedas de bronze. - Respondi de maneira gentil.
- Entendi. e pra chupar meu pau é quanto?
Mas que porcaria ele estava perguntando?
- Perdão, eu não entendi.
Ele dava alguns passos se aproximando de mim, vindo bem devagar, e aos poucos eu tomava distância pondo o cesto a frente de meu corpo.
- Eu quero saber se você ganha mais lavando roupa dos outros ou chupando o pinto de gente de fora. Afinal você nunca quis se casar pra isso não é? prefere ter dinheiro de estranhos do que ter um marido como qualquer mulher decente.
Suas mãos eram brutas, e postas sobre meus ombros, ele me empurrava naquele chão gosmento de lama e fezes, onde eu caia me lambuzando na lama.
- Que merda deu em você?!
- Não era você que estava no meio do mato com o forasteiro de cabeça vermelha?
- E o que tem? isso não é da sua conta! Eu e ele só estávamos conversando! Droga! - tento me levantar, pondo as mãos abertas ao chão como apoio mas era complicado pois sempre escorregava. Agora eu teria que tomar um banho, e não no sábado!
- Então confessa que estava se dando ao desfrute? Tinha que ser, a filha santinha do fazendeiro não é tão santa assim!
Com raiva de suas palavras ediondas, peguei em um monte de bosta com as mãos e joguei contra o rosto dele. haviam algumas pessoas que estavam olhando a confusão de dentro de suas casas. como sempre, não tinha ninguém por mim. nem mesmo dona Margô estava ali para me defender, embora eu soubesse que ela estava ali longe, com o coração por mim.
- Sua filha da...
Eu vi o açougueiro, um dos homens mais fortes da cidade ser jogado para longe, com um golpe e o vento. A minha frente tinha uma bela moça de cabelos cacheados, eles estavam presos dando a impressão que eram curtos, não conseguia ver seu rosto, mas seus trajes eram belos. cabelos escuros como a noite e pele pálida, igual a de Dragomir. Seu braço esquerdo estava esticado para frente, e como se fosse uma dança, ela o estava de volta para perto do corpo.
- Me perdoe, acho que fui agressiva demais em meu golpe.
Aquela menina... quem era?
- Roseli, não é?
A voz gentil se virava para frente a mim, e assim eu vi seu sorriso gentil. Nunca vi aquela mulher em toda minha vida, mas ela parecia saber meu nome.
- Sim?
- Prazer, eu me chamo...
''SÃO BRUXAS, QUEIMEM AS BRUXAS!''
Gritava o açougueiro em pleno pulmão.
- Isso não estava nos meus planos -Ela diz abrindo o leque novamente começando a se abanar. - Será que você pode ir correndo? Enquanto eu tento resolver isso aqui?
Correr? Claro. me parecia uma ótima ideia, os aldeões estavam furiosos, pegando tochas, alguns pegando em mãos lanças e garfos gigantes que se usavam nas plantações. deixei o cesto de lado e comecei a ir andando saindo daquela situação. meu rumo era ir para casa, tentar me salvar.