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A prostitua

A prostitua

Autor:: Nicotina
Gênero: Romance
Um homem jovem, que aparentava ter uns quarenta anos, um desempregado, que depois de vagar dias e dias atrás de um emprego e daquela que era a sua real razão de viver, a prostituta, resolve abreviar o descanso eterno. O homem tinha alucinações, era epiléptico, desde criança dizia que via e ouvia os mortos. O suicida era cozinheiro, trabalhava em restaurantes, era muito talentoso, mas quando tinha crise era logo mandado embora, não conseguia trabalhar mais que três meses no mesmo local. No último emprego conhecera uma mulher, por quem se apaixonara perdidamente, uma bela prostituta, que fazia ponto em frente ao seu trabalho, que ficava em uma praia famosa da Zona Sul. Sempre ao final da noite, quando ela estava livre, depois de uma maratona de programas, com turistas estrangeiros em sua maioria ingleses, então saiam os dois para se divertir até o amanhecer, em alguma espelunca em que o seu dinheiro dava conta de pagar. Um dia, enquanto esperavam um ônibus para irem a um motel, foram surpreendidos por policiais, que os confundiram com bandidos e os levaram para uma região inóspita, para um matagal nos arredores da cidade, espancaram o homem e estupraram a mulher. Largaram os dois em lugares diferentes, foi a conclusão que chegou o suicida, quando deu queixa do crime ao delegado, sobretudo pelo fato de não a ter visto mais. Por que não fizeram mal também ao homem, e apenas estupraram a mulher? Diria o lato sensu, por ser bela mulher a prostituta. Claro, ser muito bonita pode ser um bom argumento, embora não usasse óculos escuros, a mulher era bela sobremaneira. Talvez tenha sido isso um dos motivos que a fez escolher este tão invejado ofício, o de ser prostituta. Como assim invejado? Pergunta a senhora que me escuta, todavia há quem concorde comigo, que ser puta ou prostituta, fato que aqui não altera a etimologia da palavra, pode ser um ato de extrema liberdade sexual, liberdade essa que poucas mulheres, mesmo no ocidente ainda não usufruem. O homem teve uma crise e baixou ao hospital, levado é claro por desconhecidos, quando vagava pela cidade, e lá ficou internado por mais de um mês. Todavia, quando se recuperou da surra e da crise, tinha perdido o emprego e o seu grande amor, não sabia nada sobre a vida, origem ou endereço da bela prostituta, a prostituta sumira sem deixar nenhuma pista. Caso este, não tão raro, o de amores avassaladores, costumam os amantes combinarem entre si, como num pacto de silêncio, que nenhum deva saber sobre a vida pregressa de ambos. É claro que isso só ocorre nos romances, pois nos dá um ar de mistério, assim como misterioso é sempre o amor, sobretudo quando é recíproco. O homem que já era problemático chegou ao clímax de sua desilusão com este acontecimento fortuito. Quando resolveu subir no prédio e dar baixa em sua vida, já não tinha nenhum resquício de lucidez. As vozes que ouvia, que segundo ele eram dos mortos, se intensificaram, ouvia também a prostituta gritar seu nome, às vezes lhe pedindo socorro, outras vezes chamando-o para vir ao seu encontro no além. A dúvida, se sua amada havia mesmo morrido, no início deixava-o ainda com alguma esperança, mas essa esperança logo se dissipava, quando se via sozinho no meio da multidão, longe da mãe, sem amigos e meios de vida, a soma de todas essas carências lhe conduzia a um abismo de insignificância e inutilidade social. Além de só, estava louco, não valia a pena mais buscar um emprego, até porque não poderia mais viver sem sua bela prostituta Características

Capítulo 1 A postituta

O Suicídio

Um homem pula do alto de um prédio comercial. Lá em baixo há um grande alvoroço, pessoas correndo para verificar se o homem morto ainda respira. Essa curiosidade mórbida dos seres humanos em si já é um tipo de insanidade, tudo isso acontece inconscientemente, as pessoas não se dão conta da lógica nem da razão, antes de serem como que empurradas, no meio da multidão para constatar o que já sabem. Como se fosse possível alguém sobreviver a uma queda de tamanha altura.

Ao constatar a morte do desconhecido, digo constatar, pois ao se depararem com a cena dantesca, diante de um corpo estraçalhado, logo em seguida, quando lhes volta a razão e algum sentido de lógica, em seguida os observadores anônimos comentam entre si. Que loucura! Esse homem deve ser um desses loucos que andam por aí sem rumo na vida. Ninguém em seu estado normal comete suicídio, pelo menos é esse o parecer nada científico do senso comum. Pensa uma senhora de idade mediana, que também tem filhos. Outro homem, esse moreno claro, que não tem filhos nem filhas, pois é eunuco por opção, faz somar sua voz ao coro trágico do absurdo e diz. É loucura, o que mais poderia ser? - Alguém ser capaz de tirar a própria vida. O mundo está mesmo louco.

Não é lugar-comum todo esse espanto das pessoas que aqui são observadas pelo narrador, mas diante da tragédia pública com a qual lidamos, com pessoas comuns em cena, pois se são comuns, são porque se encontram a esta hora a passar por um centro comercial, pessoas que não raro se deslocam em busca de garantir seu pão diário. Portanto, essas pessoas, sendo humanas e comuns não poderiam descrever o que sentem e enxergam, a não ser com palavras simples como estas: Loucura... Tragédia... Absurdo!

O mundo é o mesmo de sempre, meus caros amigos, esse absurdo de contradições humanas. Esse comentário, um tanto desconexo e de cunho filosófico, poderia muito bem ser do narrador, que também nos parece pessoa humana e comum como os demais. Contudo, quem o faz é um senhor bem vestido, que pelo traje e vocabulário podia ser um advogado, um professor, ou mesmo um doutor da área médica. No entanto ele silencia. Cala diante do que vê, e mesmo sendo culto não tem cabedal retórico para continuar com seu argumento em defesa do trágico acaso, e para nós não importa saber seu nome ou sua origem, nem tampouco seu ofício.

São as pessoas que estão loucas, sem objetivo. Diz outro senhor de barbas longas, que olhava o morto sem demonstrar nenhuma confusão mental ou interesse especial. A vida perdeu o sentido. Diz outra voz um pouco fora da multidão.

Todavia, não podemos nos esquecer de um fato estranhíssimo, que ocorrera neste nosso cenário fúnebre. Ao lado do corpo, entre tanta confusão e alvoroço, há um cão, que depois de um uivo alucinante e assustador silencia e baixa a cabeça, como quem lamenta a perda de um ente querido, enquanto tudo se encaminha para o desfecho da nossa história trágico-urbana. Esse cão, que mesmo sendo incomum nas suas atitudes e gestos, além de uivar podia chorar, levando em conta que o contexto nos daria razão para supor ser normal, um cão que chora, todavia não é esse cão o cão das lágrimas de outros tantos romances famosos e incomuns, como se apresenta este nosso Ensaio Sobre a Loucura. Esse cão preferiu uivar, depois silenciosamente se comportou como um ser humano em profunda contrição, mas não podemos negar que a sua melhor e mais atraente proeza seria o riso. Pois bem, esse é o cão do riso, não o cão das lágrimas. Contudo, devemos também aventar que aquele que é capaz de rir também pode ser capaz de chorar.

É preciso coragem para seguir um caminho incerto como o suicídio, por exemplo, talvez só mesmo os loucos sejam capazes de trilhá-lo. Ser humano e normal deveria ser temer a morte, só se pode temer o desconhecido, e neste contexto fúnebre quem não respeita esse gigante invisível não respira no mundo da razão. Embora existam aqueles que apregoam que a razão deve nos conduzir a um estado natural de aceitação, e que a decadência física deve ser encarada como algo normal - a morte sendo um fim para dar à luz a outra realidade menos dolorosa. Contudo, isso pode ser uma bestial ideia, mas cada um crê no que lhe convém. Viver é sofrer, e é sofrendo que se aprende a dar valor ao gozo. Lógica simples, meu caro leitor, sem escuridão não haveria luz. Todavia, mesmo esse conceito de escuridão e luz, de bem e de mal, de dor e de prazer não suportaria o crivo da relatividade.

Os humanos, perdidos em seus labirintos, buscando entender e explicar o caos, inventaram nomes, vocábulos para explicar tudo em sua volta. Nomes que são apenas símbolos daquilo que antes desconheciam. Mesmo depois da evolução da linguagem, ainda continuamos a viver como que em uma espécie de Torre de Babel, continuamos, portanto, sem entender as mesmas coisas, coisas às quais damos nomes, por isso temos quase sempre na ponta da língua uma resposta para tudo ou quase tudo.

Portanto, nomes como compaixão, amor, loucura, medo, salvação, condenação, justiça, perdão, bondade, luxúria, desejo, maldade, sorte, felicidade. Enfim, é uma profusão de confusões produzida por sentimentos que não dominamos - isso é o ser humano, um universo desgovernado em expansão.

Deixemos este divagar filosófico inútil para outro momento, pois não é justo desviar a atenção do leitor para este universo que é ainda mais caótico do que o estado físico e mental por onde perambulam as almas encarnadas deste Ensaio Sobre a Loucura.

Do outro lado da rua em que pessoas procuram razões para um suicídio inesperado, a menos de duzentos metros dali, enquanto uma multidão de transeuntes se ajunta para ver o corpo que caíra de uma altura de trinta andares, um carro desgovernado sobe a calçada e atropela uma família que esperava o ônibus para voltar para casa.

A família vinha de um passeio no parque da cidade, lugar para onde ia uma vez por mês. Os filhos, pobrezinhos, esperavam ansiosos o fim do mês para irem ao centro da cidade, onde também passeavam no zoológico de mãos dadas. As crianças adoravam jogar pipoca aos macacos. O pai das crianças, um senhor de 35 anos, tinha a pele escura, não era negro, mas queimado pelo sol. O homem era pedreiro, a mãe dona de casa, e os filhos eram crianças pobres que não sabiam ainda dos perigos das ruas, nem conheciam a tragédia de perto, só sabiam da pobreza honesta que viviam com os seus pais, num subúrbio qualquer de uma grande cidade, de algum lugar sem importância geográfica para nossa história, onde as pessoas não terão nomes nem rostos, nem endereço, com alguma exceção, é claro, quando for imprescindível descrever a beleza abstrata de algumas imagens que só a loucura é capaz de reproduzir, então é que veremos o rosto e algumas características de pessoas comuns, que nos subjugarão e, de algumas não tão comuns nos tornaremos cúmplices ou prisioneiros.

O fato é que há um corpo estirado sobre o asfalto, ninguém reconhece a vítima em grau de parentesco, pessoa anônima como são todos os excluídos. É um homem, é só o que sabem os curiosos, assim como sabe o leitor que me escuta.

O suicida é relativamente jovem, pelo estado em que se encontram as suas roupas, sujas e esfarrapadas, dá para imaginar que se trata de algum moribundo andarilho, pessoa sem lar, sem amor nem pátria, que se despedaça ao cair no chão de uma rua larga, no centro de uma grande cidade, palco de muitas tragédias como esta, coisa natural para nossa época em que a loucura se tornou fato comum, banal, corriqueiro.

Já era costume de suicidas subirem no prédio e pularem do último andar, mesmo assim ainda causavam certo frenesi nas pessoas que passavam no momento da queda, e que aparentemente chocadas corriam para ver se era alguém conhecido, mas logo se dissipava a multidão de curiosos. Contudo, os jornais não davam conta do que ocorria no prédio mais alto da cidade grande, pessoas comuns não sabem o porquê, mas os jornais são proibidos de noticiar fatos dessa natureza. Há quem diga, portanto, que sendo noticiados os suicídios aumentariam vertiginosamente e que logo chegaria a uma demanda tão alta que o Estado não daria conta de fazer gratuitamente todos os funerais dos indigentes ou loucos anônimos como nosso suicida. Seria similar ao que ocorre com os crimes comuns no terceiro mundo, especialmente na América Latina, como estupros, assassinatos, furtos e crimes de colarinho branco. Por isso se tornaram tão comuns e atrativos aos espíritos errantes e moralmente decaídos.

Por ser um centro comercial, coração financeiro de uma importante capital, talvez por isso logo chegassem os bombeiros para limpar a rua. A vida devia seguir seu curso, e os mortos seu incurso.

E nesse percurso a loucura dos homens será sempre vencedora diante das reflexões dos que se acham seres normais. Paramédicos não foram chamados, pois não atendem a esse tipo de ocorrência factual, eles não socorrem suicidas, e os bombeiros, assim como os santos, também nunca chegam a tempo de impedir as fatalidades, nunca se ouviu falar a não ser em livros, que eles tenham evitado algum suicídio.

Ninguém nunca falou ou escreveu sobre o tema, nem mesmo se pergunta sobre esse fato, então por que não organizar um tipo de profissional na área de humanas, que faça um trabalho preventivo com o fim de proteger pessoas que revelem tendências ao suicídio? Poderia se chamar OPHD, organização protetora dos humanos doentes. Esses indivíduos, que fossem diagnosticados como futuros suicidas poderiam, por foça de lei serem internados para tratamento regenerativo da razão. O perigo seria incorrer em equívocos como os registrados no "* Alienista", talvez não ficasse ninguém à solta para contar a história e suas consequências. Esse fracasso revela algo intrigante, deve ser pelo fato de que mesmo nas ditas organizações humanas existam sobremodo reflexos do caos. Aprendemos a fechar a porta só depois de roubados, a razão não se revela, neste respeito, superior ao instinto animal. Todavia socorrer mortos seria um disparate medonho, mesmo em um Ensaio Sobre a Loucura.

Não existe nenhum parecer formulado, nenhuma tese testada e aprovada cientificamente, sobre as causas do * suicídio, mas ouvindo pessoas depressivas, que revelam fortes tendências para esse fim, podemos inferir que uma das causas mais reveladoras desse fenômeno natural de seleção das espécies é a falta de importância para seus pares. Quando esses percebem que não são mais tão importantes para seus entes queridos, então resolvem dar fim à sua própria vida. É comum um alto número de suicídios por abandono amoroso, também não é menor a incidência dos casos de atentados contra a própria vida por pessoas fracassadas profissionalmente. Algumas linhas conceituais da psicologia contemporânea afirmam que as pessoas se matam, não raro como forma de protesto, para chamar a atenção do mundo em sua volta. Todavia, se nos aprofundarmos neste tema árido, encontraremos outras respostas, talvez menos dogmáticas. Contudo, o mundo das ideias nos permite averiguar os subterrâneos da alma. Todavia, pensamos, não raro, sobre muitos eventos aos quais nunca poderemos experimentar. Esta viagem sem volta nem objetivo, que é a morte involuntária, permanece há incontáveis eras sem elucidação. Loucos dizem que morrer é bom, ao passo que outros, talvez mais loucos, digam que a vida tem algum objetivo. No entanto, nem sempre conseguem explicar. O que sabemos de concreto é que ninguém jamais voltou do hades* , do mundo dos mortos, sepultura, para contar como se relacionam as almas desencarnadas, como vivem e do que vivem, pois se há vida, podemos inferir que também deve haver algum meio pelo qual se alimentam seus corpos espirituais. Alguns devaneios nos foram revelados por Dante, em seu absurdo livro A Divina Comédia, livro esse que virou a base de quase todas as crenças cristãs ocidentais, sobretudo das igrejas católica e protestante. O que sabemos de certo é que os viventes, plagiando bem o livro de Eclesiastes, são cônscios que morrerão, e que os mortos não vivem mais, apenas se desintegraram da sua materialidade e pensamento, não têm mais função alguma neste maravilhoso mundo absurdo.

A desgraça alheia atrai facilmente muitos espectadores, isso ocorre porque, quando nos deparamos com tragédias e calamidades, sejam elas provocadas pelo homem ou por fenômenos naturais, onde humanos se desnudam como pobres-diabos, não nos custa muito tirar do nosso precioso tempo alguns minutos para desviar a atenção das nossas próprias dores, para lamentar as dores dos outros. Há uma explicação para esse fenômeno psicossocial, que pode ser até certo ponto relativa. Os homens são solidários, geralmente na dor, já no prazer são supra egoístas, ao passo que não há hipocrisia em seus desejos, pois não se convida, por exemplo, desconhecidos para um banquete íntimo. Por isso chamaram o Cristo de louco, quando ele aconselhou o contrário. Ele dizia: quando fores dar uma festa, convida aqueles que não podem te retribuir, vai às ruas e convoca os mendigos, os doentes e pessoas miseráveis que não têm como te pagar de volta a gentileza.

Compaixão, qual sentido exato dessa palavra nas relações humanas? Uma palavra que traz sob seus lombos um peso desmedido, uma força descomunal que a etimologia lhe impôs. Devíamos pensar um pouco mais sobre nós, e como reagíamos em algumas ocasiões. Por exemplo, como nos esforçamos para avisar que a porta de um automóvel se encontra aberta, portanto, oferecendo perigo a um passageiro desconhecido. Também o fato de sermos capazes de pular na água ou de entrar no fogo para salvar alguém que não conhecemos. Por que isso se dá praticamente com todos os homens. Responde o inocente, sem fazer antes uma reflexão sincera. Talvez pelo amor ao próximo, por compaixão. Na verdade, pensamos em nós próprios, diriam que isso acontece de forma inconsciente. Eu, porém, digo que pensamos mesmo de forma muito consciente. A dor alheia é, sobremodo, o prelúdio de nossas próprias dores, sinais naturais de que também trilharemos o mesmo caminho, logo esta memória coletiva, de que a dor é o fim ou a ausência do prazer nos assusta, e, a aparente preocupação altruísta com nosso próximo nos permite esquecer ou mesmo dividir a nossa dívida, a culpa de uma consciência agonizante. O que observamos no sofrimento alheio é um tipo de aviso de que a fragilidade humana poderá em breve nos trazer efeitos penosos, a lembrança da nossa própria tragédia natural, a dor, o sofrimento e, impreterivelmente a morte. Saber das desgraças dos outros nos faz, não raro, sentir impotente, também pode revelar nossa covardia, e o orgulho ferido nos acusaria se não o acudíssemos. Primeiro agimos por nós mesmos, depois pelo arrepio moral de sermos condenados pelos que nos observam. Mas quando há um corpo esmagado, ensanguentado na rua, nossa curiosidade se disfarça muito bem de empatia.

Capítulo 2 Volta ao enredo

Volta ao enredo.

Do meio da multidão de curiosos surge uma mulher idosa, que se aproxima e se ajoelha junto ao corpo do desconhecido, lamentando como quem perdera o seu próprio filho. Diz: Meu Deus, um homem tão jovem, o que terá acontecido para abrir mão da própria vida? A vida é tão boa, meus filhos, é uma imensa dádiva de Deus. Que loucura é esta que tomou conta deste mundo! Oh! Meu Deus. Oh! Meu Deus, o que será da mãe desse pobre homem? De onde viria essa senhora, que se nos apresenta ao narrador, que personagem mais imprevisto nos surge em tão contraditório contexto. Essa é mulher idosa, por isso nos tem tanto a dizer sobre a vida e sobre o mundo, mas, no entanto, surge apenas num instante de descuido do narrador, que ao escrever essa cena veio a calhar que, como todos os homens deve ter suas mães, essa mulher bem poderia representar, de forma inconsciente e delirante, a própria mãe do nosso suicida famoso. Quem sabe essa voz não nos visitará logo mais, em outro cenário um tanto mais complexo e importante para o desfecho da história e origem do nosso protagonista.

Outro observador, um pouco mais bem vestido que os demais, todavia mais contristado que os outros, chega mais perto e, antes que removam o corpo, pede aos bombeiros, que já embalavam o defunto para viagem, que lhe permitam fazer uma pequena oração pelo defunto desconhecido. Diz. É preciso recomendar a alma desse homem infeliz, para que ele encontre um bom caminho de volta ao paraíso. Este cuidado de recomendar ou de encomendar os mortos pode ser útil apenas para que eles não se percam no * Inferno de Dante, senhor dos mundos subterrâneos. Continua o homem com a sua oração. Oh! Senhor, tende piedade de nós. Este irmão, que agora enviamos a ti, foi vítima de nossa maldade inconsciente. Fomos nós mesmos que o matamos, com a nossa maneira egoísta de viver. Talvez tenha decidido se matar por falta de amor e de compreensão dos seus pares. Oh! Senhor, quantas vezes batemos a nossa porta em sua cara, quantas vezes passamos por ele sem o cumprimentar! Agora, meus irmãos, oremos por essa alma em desespero, para que ela encontre o descanso eterno junto a Deus, o Pai - que aceita todos os seus filhos de volta, sejam eles pobres ou ricos - loucos ou normais... Amém!

Este homem, que parecia um pastor, pois padre não era, porém ficou fácil deslindar sua ideologia cristã, pois é inconcebível que padres andem por aí sem batina ou que façam extrema-unção ou outro ato religioso qualquer sem que lhes paguem uma boa quantia de dinheiro e de bajulação. Antes de abrir a boca também parecia uma pessoa normal, carregava consigo uma bíblia muito grande e velha, ele já era conhecido na região, fazia pregação em meio às confusões urbanas, mas ninguém tinha tempo para lhe dar muita atenção, a não ser em caso extremo como este. O homem não abriu o livro sagrado, falou tudo de improviso, talvez já tivesse decorado seus discursos fúnebres, parecia que fora convocado para aquela ocasião especial antecipadamente. Esse homem, porém, não aparentava loucura explícita. Fez esta oração em voz alta, dizendo para Deus que tivesse piedade daquele cristão, não o conhecia pessoalmente, não sabia que relação tinha o morto com Deus ou com santos associados, todavia, pelas palavras convictas, demonstrava saber que Deus era capaz de conduzi-lo ao paraíso, como fizera o Cristo com o bom ladrão.

Dissemos que esse pastor, pois agora já podemos identificar sua patente no exército divino, pelo traje e postura diante da morte. Todavia, afirmamos que esse homem não parecia louco. Por que caímos nesse equivoco, uma vez que se trata de um Ensaio Sobre a Loucura? Se formos aqui seguir a lógica de outro ensaio, este sobre a cegueira, portanto devíamos conceber a factível ideia de que todo ser vivo, que por estas páginas respirar, terá de ser, impreterivelmente também louco.

Não importa quantos erros cometa um homem, ao morrer terá pago sua culpa, ou será que pode haver castigo maior que o da morte? Sobre o bom ladrão. Será que é possível classificar de bom um ladrão só por que amarelou na hora da morte, e pediu a outro agonizante que se lembrasse dele quando chegasse ao seu reino metafísico? Pode ser. Digamos que esse bom ladrão fosse uma espécie primitiva de Robin Hood.

Depois da prece em voz alta, o pastor começou um resmungar sem fim, outra oração, agora em voz quase sussurrada, infinitamente longa, pois o pastor não conseguia terminar seu monólogo, ou aquilo que ele acreditava ser um diálogo em particular com o Todo-Poderoso.

Os loucos diferem apenas em periculosidade, cada um expressa uma forma de loucura distinta. Crentes que dizem ver Deus, mas que ignoram os homens. Médicos que receitam o não uso do tabaco, mas que são usuários inveterados de fumo e de álcool. Juízes que defendem a justiça de punhos fechados, mas aceitam suborno de mãos bem abertas, delegados que torturam para colher provas de crimes sem solução, políticos que desviam a grana da merenda escolar, filhos que escondem o que são dos seus pais, mulheres que fingem prazer com seus maridos, mas com os seus amantes se desmancham em volúpias. São todos loucos. E quem discordar desse argumento é louco também, apenas por discordar.

Os paramédicos, do outro lado da rua, socorrem as vítimas do acidente automobilístico e as levam para uma emergência de um hospital público. Como havia crianças envolvidas no acidente, mesmo parecendo já mortos foram levados e, durante a viagem, submetidos a uma tentativa de ressuscitação, porém foi em vão, chegaram todos mortos ao hospital. Médicos e enfermeiros lamentavam a perda irreparável, a morte trágica de uma família inteira, quatro vítimas ao todo. Também lamentavam o fato de não poderem fazer nada para salvar aquela família. Médicos são apenas pessoas normais diante da fatalidade da vida e da morte. Entre os presentes havia um médico velho muito experiente, um professor, que tentava consolar seus colegas e alunos, dizia: é evidente que tudo isso é uma espécie de loucura, estamos todos loucos, em um só dia, tantas e quantas desgraças? Duas tragédias sem explicação! Coisa de um mundo absurdo. O Médico tinha conhecimento literário, falava da teoria do absurdo de Albert Camus. Não devemos nos surpreender se ainda hoje cair um avião sobre este hospital e nos matar a todos. Continua o médico seu discurso pessimista. Cruz credo, diz uma médica católica, que ficava apavorada com os pensamentos trágicos do velho doutor. Falo sério, outro dia ouvi de um amigo, que viaja muito de avião, que muitos pilotos voam embriagados. Não se lembram dos americanos malucos e irresponsáveis, daquele avião que voava com o aparelho sonar desligado que causou aquele grande acidente que matou mais de cem pessoas? Seus colegas ficavam mais apavorados quando ele começava a falar da loucura humana, se mostrando grande conhecedor do tema, mas sempre com histórias ou relatos com final terrivelmente trágico. Era outro louco que fingia compreender a loucura dos outros.

O jovem que subira com o carro na calçada, estava bêbado, voltava de uma festa, onde havia bebido e consumido drogas, fora pego pelos policiais que faziam ronda na região, o lugar era bem guardado pelo Estado, policiais o levaram sem constrangimento, afinal se tratava de gente rica, o rapaz era branco e conduzia um carro importado, também dissera para os policiais que tinha pai rico e importante. Coisa pouco relevante, as aparências, nesses casos é o que realmente conta. Logo o jovem estava diante do delegado de plantão, para explicar o que acontecera. Então, meu rapaz, como é que você foi cometer um crime desses, matar uma família inteira de inocentes?

Quem é o seu pai? Não deve ter família, para andar por aí em alta velocidade matando inocentes. Se tiver mesmo um pai eu quero falar com ele, para dar-lhe os parabéns, diz o delegado, revoltado com a injustiça da fatalidade com a qual devia tratar. Atordoado, porém sem nenhum ferimento visível, o jovem pede para ligar para o pai, pedido que logo é atendido pelo delegado, que parecia ser um bom cumpridor da lei. Embora o delegado insista em perguntar por que andava em alta velocidade em uma área que não permitia mais que sessenta quilômetros por hora, o jovem se recusa a responder, diz que não tem nada a declarar sobre o ocorrido, e que só falaria depois que o pai chegasse com seu advogado. Digno de nota é a maturidade emocional do jovem, que aqui dissemos ser delinquente, todavia essa aparente maturidade só lhe veio a lume depois da fatalidade sofrida, pois se a tivesse de fato antes do ocorrido, não teria pegado ao volante em tão deplorável estado.

No hospital, depois de confirmada a morte da família, os corpos são conduzidos para o IML, para detectar e confirmar a causa morte. O corpo do suicida anônimo já estava por lá, chegara primeiro, fato normal, não tendo quem lhe reclamasse o parentesco, também por ter sido morte instantânea, seria um bom laboratório para os avanços da medicina. Talvez aqui se compreenda melhor este fato, o de médicos fazerem estudos em corpos de pessoas indigentes. Tudo nesta vida tem um fim, quando não se serve mais vivo, há de se achar algum objetivo depois de morto.

Há uma espécie de loucura no ar, por que era necessário cortar os corpos dos pobres infelizes, expor assim as crianças e os seus pais a mais esse tipo de humilhação? Seus corpos já haviam sido destroçados pelo carro e pela parada de ônibus contra a qual eles haviam batido.

Os corpos da família e do suicida que pulara do prédio se juntam à mesma mesa gelada dos corta-defuntos, na morte todos são iguais, não há nenhuma diferença de tratamento. Mas com os vivos a coisa é bem diferente. Na delegacia, o pai rico chega com o advogado, para defender o jovem delinquente e, agora também assassino. Meu filho, o que foi que aconteceu? Diz o pai abraçando o filho, demonstrando carinho e preocupação paternal. Nada, pai. Responde o filho. Eu bebi um pouco com meus amigos e, na volta para casa, aconteceu um acidente, mas não foi culpa minha, o carro quebrou alguma peça, eu perdi o controle, merda, pai, merda. Não tive culpa, meu pai, acredite em mim. Diz o jovem, com bastante desequilíbrio emocional, tentando conquistar a confiança que perdera junto ao pai, desde que abandonou os estudos, para viver de festança em festança. Fora tão inconsistente, que até o delegado, que já o havia condenado intimamente, muda de semblante e de opinião, passa a ter pena do pai e, se colocando em seu lugar, pergunta: Então, é o senhor o pai desse jovem desafortunado? Sim, claro, ele é meu filho, meu único filho e nunca soube que usava drogas ou que bebia tanto. Como é que foi acontecer essa fatalidade? Senhor delegado, como é que um pai administra uma infelicidade desse porte? Silenciou o pai o seu lamento justo, silêncio que logo foi quebrado pelo delegado de plantão. Ele matou quatro pessoas, meu senhor, não foi uma nem duas vidas que ele tirou, por isso não há outro caminho, seu filho é maior e vai responder pelo crime doloso que cometeu. Tudo bem delegado, ele não pode ficar preso, providencie sua fiança e, a partir de agora eu vou defendê-lo perante a justiça, meu cliente é primário, tem residência fixa, portanto o senhor sabe muito bem que não pode mantê-lo preso. Diz o advogado, que ouvia em silêncio toda conversa no mesmo recinto, demonstrando bastante conhecimento de causa, fazendo jus aos honorários que devia receber do homem rico, é claro, ossos do ofício. Além do mais, crime de trânsito não é considerado em nosso país como crime comum, passível de prisão, o senhor sabe mais do que eu, e deve estar acostumado a soltar, todos os dias, pessoas que, por infelicidade ou por imprudência, atropelam e matam inocentes. Isto é coisa comum. Reforça o advogado, o seu argumento de que o jovem por ser de família rica e possível réu primário não poderá ficar preso. Dizemos provável réu primário, pois não vamos aqui investigar sua vida pregressa, todavia, pela condição financeira e moral em que vive, não seria impossível já ter cometido outros crimes dessa mesma natureza.

Há aqui uma semelhança com esta insanidade capitalista, a de que para ser aceito em uma empresa, por exemplo, o cidadão precisa de referências e de experiências comprovadas em carteira.

Terminado os procedimentos legais, o pai saca de um talão de cheques e paga a fiança, quase uma fortuna, para os padrões dos que morreram no asfalto, e não tiveram quem os pagassem fiança para não serem reféns eternos da morte trágica. O jovem é liberado, com as recomendações de praxe, não devia sair do país, devia comparecer na presença do juiz, provavelmente para responder ao processo em liberdade, isso se fosse convocado. Mesmo depois de matar quatro pessoas, o pai leva o filho para casa, sem remorso, para o seio da família, para o aconchego do lar, onde o esperava a mãe aflita por notícias suas.

Ninguém aparecera ainda para reclamar os quatro corpos, a família era sozinha na grande cidade, tinha parentes muito distante, pobres assim como eles, que mesmo se quisessem não poderiam vir para os funerais, não havia, portanto, quem os procurasse para providenciar um enterro digno. Talvez pudesse usar as palavras "enterro justo", mas o ponto em questão não é julgar as ações dos envolvidos, apenas observar os limites do que conhecemos como ser racional.

Por outro lado, o suicida não tinha esposa nem filhos, apenas uma mãe velha e doente, morando num asilo, que também não fora avisada ainda sobre a tragédia. Como poderia ser avisada se seu filho era um anônimo, alguém que perambulava nas ruas como um lunático, longe de onde morava, de onde tinha alguém conhecido? Talvez leia nos jornais as notícias que jamais poderá inferir se tratar do seu único filho, depois as notícias de jornal são sempre incompletas, ainda mais se tratando de suicídios, é sabido agora pelo leitor que não são noticiados. A mãe, mesmo que fosse avisada não teria os meios para se deslocar ao encontro do filho, apenas mais um indigente, que morria sem ninguém para lhe reclamar a alma, nem mesmo para lhe conceder o seu último direito, um enterro cristão. Mas a realidade é sempre pior que a ficção, ficaria apenas com a oração do pastor lunático, como passaporte para a região dos mortos. Um homem jovem, que aparentava ter uns quarenta anos, um desempregado, que depois de vagar dias e dias atrás de um emprego e daquela que era a sua real razão de viver, a prostituta, resolve abreviar o descanso eterno. O homem tinha alucinações, era epiléptico, desde criança dizia que via e ouvia os mortos. O suicida era cozinheiro, trabalhava em restaurantes, era muito talentoso, mas quando tinha crise era logo mandado embora, não conseguia trabalhar mais que três meses no mesmo local. No último emprego conhecera uma mulher, por quem se apaixonara perdidamente, uma bela prostituta, que fazia ponto em frente ao seu trabalho, que ficava em uma praia famosa da Zona Sul. Sempre ao final da noite, quando ela estava livre, depois de uma maratona de programas, com turistas estrangeiros em sua maioria ingleses, então saiam os dois para se divertir até o amanhecer, em alguma espelunca em que o seu dinheiro dava conta de pagar. Um dia, enquanto esperavam um ônibus para irem a um motel, foram surpreendidos por policiais, que os confundiram com bandidos e os levaram para uma região inóspita, para um matagal nos arredores da cidade, espancaram o homem e estupraram a mulher. Largaram os dois em lugares diferentes, foi a conclusão que chegou o suicida, quando deu queixa do crime ao delegado, sobretudo pelo fato de não a ter visto mais. Por que não fizeram mal também ao homem, e apenas estupraram a mulher? Diria o lato sensu, por ser bela mulher a prostituta. Claro, ser muito bonita pode ser um bom argumento, embora não usasse óculos escuros, a mulher era bela sobremaneira. Talvez tenha sido isso um dos motivos que a fez escolher este tão invejado ofício, o de ser prostituta. Como assim invejado? Pergunta a senhora que me escuta, todavia há quem concorde comigo, que ser puta ou prostituta, fato que aqui não altera a etimologia da palavra, pode ser um ato de extrema liberdade sexual, liberdade essa que poucas mulheres, mesmo no ocidente ainda não usufruem.

O homem teve uma crise e baixou ao hospital, levado é claro por desconhecidos, quando vagava pela cidade, e lá ficou internado por mais de um mês. Todavia, quando se recuperou da surra e da crise, tinha perdido o emprego e o seu grande amor, não sabia nada sobre a vida, origem ou endereço da bela prostituta, a prostituta sumira sem deixar nenhuma pista. Caso este, não tão raro, o de amores avassaladores, costumam os amantes combinarem entre si, como num pacto de silêncio, que nenhum deva saber sobre a vida pregressa de ambos. É claro que isso só ocorre nos romances, pois nos dá um ar de mistério, assim como misterioso é sempre o amor, sobretudo quando é recíproco.

O homem que já era problemático chegou ao clímax de sua desilusão com este acontecimento fortuito. Quando resolveu subir no prédio e dar baixa em sua vida, já não tinha nenhum resquício de lucidez. As vozes que ouvia, que segundo ele eram dos mortos, se intensificaram, ouvia também a prostituta gritar seu nome, às vezes lhe pedindo socorro, outras vezes chamando-o para vir ao seu encontro no além. A dúvida, se sua amada havia mesmo morrido, no início deixava-o ainda com alguma esperança, mas essa esperança logo se dissipava, quando se via sozinho no meio da multidão, longe da mãe, sem amigos e meios de vida, a soma de todas essas carências lhe conduzia a um abismo de insignificância e inutilidade social. Além de só, estava louco, não valia a pena mais buscar um emprego, até porque não poderia mais viver sem sua bela prostituta. Mas a bela mulher, que aqui reconhecemos como prostituta, e que insistimos em construir sua bela imagem estética, uma vez que ainda não sabemos nada sobre seu espírito, nem das nuances da sua psicologia, não era uma mulher qualquer, era uma jovem de uns vinte e cinco anos, embora inculta era apaixonadamente inteligente, para as aspirações românticas de um homem simples, que tinha como profissão o ofício de cozinheiro, e, que além de pobre era muito doente. A moça, profana e divinamente bela, fora realmente capaz de deixá-lo alucinado, tanto na sua presença, como ainda mais na sua ausência. Há dois tipos de paixão no terreno amoroso, a paixão que alucina pela satisfação do amor recíproco, como a alucinante paixão que desvirtua o julgamento da razão, a falta do objeto amado. Descrever a prostituta, para este narrador não é nenhum incômodo, aliás, é algo muito prazeroso, diferentemente da prostituta de óculos escuros, de outro ensaio famoso pela relevância da sua cegueira, lá o narrador não podia se aprofundar de mais nos dotes e atributos físicos, daquela que viria a ser sua melhor personagem, afinal se tratava de um mundo onde todos eram deficientes visuais. Digo quase todos, pois a Mulher do Médico, aqui adjetivada pela sua importância literária e humana, enxergava e foi graças ao seu generoso espírito que Saramago recebeu o Nobel de Literatura. A Mulher do Médico, segundo tese nem tanto implícita, representa o espírito humano, que para preservar sua espécie procura sempre, em primeiro lugar o bem coletivo. Todavia devo aqui ressaltar que esse espírito não é comum entre os homens de carne e ossos. Ainda sobre a generosidade da Mulher do Médico, que além de conduzir e proteger todos os outros prisioneiros cegos de um manicômio fétido, ela, talvez por se encontrar em outro estágio evolutivo, consegue entender e perdoar a traição do marido, que como todos os outros homens desta fascinante história também se apaixona perdidamente pela prostituta de óculos escuros. Contudo, para os curiosos, o suicida era mais um louco, que subira nas alturas com a intenção de sair de lá voando, era o que diziam os normais observadores. Mas não devemos esquecer que é na loucura que reside a sinceridade da alma.

Capítulo 3 Outra fatalidade

Ao chegar em casa, aparentando estar bem, depois de abraçar a mãe e contar-lhe em detalhes o ocorrido, o jovem que atropelara a família, sente dores no tórax, a mãe desespera-se e pede pelo telefone uma ambulância para levá-lo a um hospital particular das proximidades. O rapaz teve hemorragia interna - não conseguiu chegar ao hospital com vida. O pai, desesperado por não compreender o tamanho da tragédia em que se envolvera, como quem busca resposta para o incompreensível, resolve procurar as vítimas do seu filho, agora morto.

Vai ao hospital público em busca de alguma informação sobre os atropelados indigentes, lá chegando toma ciência de que todos estão mortos e cortados no IML, em outro prédio anexo ao hospital, e que não há nenhum parente para fazer seus enterros. Com sua influência de rico empresário, consegue a liberação dos corpos e providencia o enterro de todos. Junto da cova do filho, o pai enterra também suas vítimas.

O homem rico e insensível de outrora, agora vira cristão generoso, a loucura se apoderou da sua mente presunçosa, a dor de perder o filho único que fora criado com exacerbado mimo o fez mudar radicalmente de atitude, ninguém mais o conhecia, andava pelos hospitais e asilos em busca dos necessitados para ajudar. Passou o comando da empresa para seu sócio-gerente que lhe devia ser de confiança, dizia que doravante não se esquivaria de ajudar quem quer que fosse, fazia isso com intuito de reparar os danos que seu filho causara àquela família, e também como punição por não ter dado orientação correta ao filho, que por falta de atenção e cuidados adequados, havia se tornado um delinquente juvenil e assassino de pessoas inocentes. A mãe do jovem também adoecera, logo em seguida ao enterro do filho, só que fora do juízo, então começou a ter sonhos acordada, via a família que o seu filho matara, a nova vida do marido lhe deixava numa solidão profunda, dentro de uma mansão sombria, vivia agora sozinha. Tudo isso contribuíra para que ela também perdesse o interesse pela vida. Começou a falar sozinha, andava à beira da loucura, contudo, para amigos e vizinhos já se encontrava desesperadamente louca. Logo em seguida passou a ter crises de histeria e a passar noites em claro, seu estado piorara a cada dia. Em uma consulta rotineira a uma psicóloga, que era amiga de longa data da família, foi lhe indicada a sua internação, de fato havia despencado da linha tênue que separa a lucidez da loucura, era loucura, só que era uma loucura um pouco branda, uma vez que não oferecia perigo a ela própria nem aos seus familiares. Mesmo assim, por consentimento mútuo da família e do marido, fora internada numa clínica especializada para tratamento, por um breve período, pelo menos era o que intencionava a médica amiga, todavia, só o tempo seria capaz de esclarecer este fato, se de fato a mulher recobraria a lucidez ou se pioraria ao desfecho trágico da morte, do suicídio, como é comum entre os loucos, não só deste romance, mas de toda história literária e natural da humanidade. Não queremos com essa afirmação determinar, erroneamente, que só os loucos cometem suicídio, há caso de suicídio entre grandes espíritos, grandes intelectuais que desistiram da vida, por vários motivos, seja vítima de depressão ou por conta da angústia que carregam da sua insignificância dentro deste caos que é o mundo. Muitos poetas abreviaram sua eternidade, e não devemos também nos esquecer daqueles suicidas, que por motivos amorosos, por paixão avassaladora e não correspondida ou talvez por solidão atroz, deram adeus ao mundo das lamentações.

O Professor, médico velho experiente, entre tantos outros aparentemente normais, era o que mais respirava lucidez, mas não escaparia de ser acometido pela loucura dos cães violentos. Ao chegar em casa, depois de um plantão agitado, ao tentar abrir a garagem, foi surpreendido por bandidos fortemente armados, que o sequestraram e o colocaram dentro do porta-malas do seu próprio carro, levaram-no para um cativeiro, nos arredores da cidade. Um crime sem claras intenções, mas não há nem deve haver explicações para o improvável, e para morrer, como dizem os entendidos do assunto, basta-se estar vivo. Um médico de vida aparentemente pacata, sem inimigos declarados, ser subitamente vítima de um bem elaborado sequestro, seria realmente uma coisa surpreendente, sobretudo para quem o conhecia intimamente. Quando a esposa percebe a falta do marido, que até aquela hora não chegara em casa, liga para o hospital e fica sabendo que ele havia voltado para casa cedo, no mesmo horário, como fazia todos os dias. O próximo telefonema que deu foi para a polícia. Depois de expor, em detalhes o fato ocorrido e descrever o perfil do marido sumido, como era fisicamente, onde e com quem trabalhava, diz a esposa angustiada: Mas delegado, como esperar vinte e quatro horas, eu estou lhe dizendo que o meu marido sumiu, desapareceu, não voltou para casa, acho que foi sequestrado, assaltado ou mesmo, quem sabe assassinado, o senhor precisa tomar as providências cabíveis. Por favor! Eu sou uma cidadã cumpridora das leis, pagos meus impostos em dia, portanto exijo meus direitos. Calma, minha senhora, existem leis que nesses casos determinam qual deve ser meu procedimento correto, não posso fazer nada por enquanto, espere até amanhã, se amanhã, a esta mesma hora ele não tiver aparecido ainda, então autorizo as diligências, acalme-se, por favor, manter a calma nessas horas é sempre o melhor remédio, conclui o delegado, o mesmo que cuidara do atropelamento que vitimara a família pobre, também o mesmo que recebera a notificação do suicídio do centro da cidade. Além de outras ocorrências menores e sem importância para nosso contexto.

Mas que plantão, hein, delegado! Diz o agente de polícia, assistente imediato do delegado. Parece que a bruxa anda mesmo solta nesta cidade de malucos. Não tenha dúvida meu caro, estamos vivenciando tempos muito esquisitos, eu nunca vi tantas ocorrências, ainda mais desses tipos. A pior de todas foi aquela do início da noite, a do velho safado, molestador de menores. Como é que um cidadão de sessenta e cinco anos pode ser tão descarado como aquele, molestar crianças, se eu pudesse e se não existissem os tais direitos humanos, eu mesmo executaria sumariamente o desgraçado. Você viu delegado, o que disse o pai da menina molestada, que o vagabundo oferecia doces para conquistar os filhos dos vizinhos, quando eles iam a seu estabelecimento comercial comprar mantimentos? Sim, ouvi, o que mais me chocou foi o fato de ele negar todas as acusações, apesar das provas, e das testemunhas, mas não tem nada não, lá na penitenciária ele vai pagar tudo, vai receber em dobro o mal que causou para aquela criança. Além do mais, quando saírem os exames médicos que mandei proceder na criança ele não terá como negar, então receberá da justiça, aquilo que de fato merece. Pena que o desgraçado seja velho, não terá tempo para apodrecer na prisão. Pode deixar delegado, enquanto isso eu vou cuidar muito bem dele, durante sua estada nesta delegacia. Reforça o agente sua cumplicidade junto ao delegado, mostrando-se também indignado com o velho pedófilo.

Sobre a expressão, na prisão ele vai receber em dobro o mal que fez às crianças, é sabido que esse fato ocorre no mundo inteiro, detentos, que de alguma forma molestam sexualmente crianças e mulheres indefesas, são tratados com o mesmo grau de empatia, são eles usados na prisão como mulheres para satisfazer os homens que se embrutecem pela abstinência sexual.

Parece-me que há uma loucura coletiva no ar, as pessoas não têm mais limites. Eu até queria poder ajudar a esta senhora que deu queixa do desaparecimento do marido, mas sinceramente, não acredito que esse médico foi sequestrado. Deve estar por aí, em algum motel, com uma médica ou enfermeira, colega de trabalho, talvez com alguma aluna do curso de medicina. A esposa me contou que ele é, além de médico, professor no hospital onde trabalha. Forneceu-me algumas informações sobre o perfil dos seus colegas de trabalho. Então, pode ser mesmo, acrescenta o agente maria-vai-com-as-outras. Deve ter umas alunas médicas gostosinhas e bem bonitinhas. Conclui sua tese, o agente besta-quadrada. Depois é a lei, eu não posso infringi-la só porque se trata de pessoas de posses, você o que acha? Está certo, muito certo, chefe. Responde o agente bajulador, demostrando a baixeza de uma alma servil.

No cativeiro, amarrado sobre uma cama fétida, entre quatro paredes sujas e esburacadas, em um quarto de três metros quadrados, o médico sequestrado tenta entabular um diálogo com seus algozes, que se encontravam do outro lado da porta, para diminuir a pressão que sofria pela incerteza da sua integridade mental. Um silêncio quase mortal é quebrado por estas palavras. Meus caros, por que vieram sequestrar-me? Logo a mim que não tenho dinheiro nem bens para lhes dar. Sou médico da rede pública de saúde, e professor de universidade, de um estado falido, o pouco que ganho, meus amigos, mal dá para os meus vícios de café e leitura, e de um uísque de vez em quando. Os senhores devem ter se equivocado quanto à minha casa, consequentemente sobre a minha pessoa. Cala a boca doutor, se não quiser que o façamos dormir um longo sono. Diz uma voz rouca, do outro lado da porta que estava fechada, mostrando pouco equilíbrio emocional. Fica quieto doutor, só estamos cumprindo ordens de cima. Retruca uma segunda voz, que demonstrava ainda menos calma, do que a outra voz rouca que falara antes. Como ordens de cima? Indaga o doutor aflito, mas logo cai sobre todos o mesmo silêncio de antes. Vivendo um conflito interior, o médico tenta encontrar, nos atos passados, alguma explicação lógica capaz de elucidar toda aquela loucura que o atingira. Do pressuposto incomum, de que todo homem é culpado pelas mazelas do mundo, sobretudo daquelas que lhe sobrevêm, provavelmente haveria razões suficientes para que esse médico, aparentemente gente muito nobre, fosse alcançado por algum tipo de justiça, que não deixa impunes os atos mais secretos dos homens. Há um ditado, idiota por ser popular, que diz que quem apanha nunca se esquece, ao passo que os que batem se esquecem rápido, porque continuam a bater em outros. A prática do mal, por ser muitas vezes repetida, passa despercebida do próprio autor. Muitas cenas foram revisitadas na mente do velho médico, e a cada imagem relembrada, que hoje, no seu ponto de vista, não parecia lá tão nobres, sobrevinham-lhe calafrios e dores de consciência. Será por isso ou por aquilo que fiz ou deixei de fazer, que estou sendo agora castigado por Deus, pelos homens? Pensou o médico, um homem culto não devia consentir este tipo de pensamento de remorso. O Médico sabia da expressão de Tiago, meio irmão do Cristo, que diz: Deus não prova nem condena ninguém, são as ações e pensamentos dos homens que os condenam ou os absorvem. Não podemos nunca nos esquecer de uma verdade não relativa. Toda sabedoria que se acumula por anos afio de estudo e experiência nos foge pela janela, quando nos sobrevém o improvável.

O médico tentou se lembrar, especialmente em seu imaginário, nas suas memórias literárias, se por ventura existia algum caso, que fosse conto ou romance, algum ato semelhante ao que lhe ocorrera, visitou os clássicos russos, os francês, os romances épicos, os poemas malditos, mas não lhe elucidava o enigma, havia algo de singular em seu martírio, contudo, de tanto investigar pôde encontrar apenas um caso parecido com seu, em Kafka, no livro O Processo, onde um homem é conduzido numa prisão imaginária, para um julgamento no qual não conhece o teor de sua acusação, todavia não poderia servir como modelo para deslindar seu caso intrigante e desesperador.

O imprevisto sobrevém a todos, a tolos e a sábios, a corrida não é dos ligeiros, porque há para todo destino um atalho. Mas o que é que se pode classificar de improvável? Improvável é aquilo que não esperamos e que não admitimos que ocorra conosco nem em sonhos ou em delírios. Criamos uma lógica distinta das demais para reger nossas ações, aí quando fatos reais contradizem essa lógica, achamo-nos perdidos, embora saibamos que só existe uma lógica universal, a do caos e a do eterno retorno, portanto surge para nós, vez por outra, o que chamamos de improvável.

Há uma hipótese plausível, com relação aos bandidos silenciosos, poderemos inferir algo muito subterrâneo sobre suas condutas, seriam ou não capazes de abusar sexualmente do sequestrado? Do pressuposto de que a loucura se apresenta de várias maneiras, alguns loucos desenvolvem apetite sexual exacerbado, aquilo que o lato sensu classificaria de instinto animal, pode ser apenas um tipo de insanidade moral, uma variação natural de lascívia. A natureza dotou alguns animais de desejos e necessidades distintas, aquilo que pode ser absurdo para alguns homens, para outros parece natural. O narrador aqui presente não tem a pretensão de ser onipresente, embora pudesse sê-lo, sendo onisciente, porém, se o quisesse, conduziria o leitor para alguns nichos que permanecerão sobre trevas, para deslindar outros segredos, sobre a vida pregressa das nossas personagens sem rostos. Como Kafka, o criador do absurdo e de histórias inacabadas, abismos serão abertos sobre as vistas e mentes dos leitores, ficará a critério, decidir se os explorarão ou não. Não devemos cair no lugar comum de afirmar que o bom leitor é aquele que, ao pegar na leitura de um livro, escreve outro livro paralelo ao que está lendo, preferimos dizer, que o bom leitor é sempre aquele que nos confere a honra da leitura, daquilo que produzimos, muitas vezes em dores de parto, outras vezes por insana vaidade, outras vezes até por necessidade econômica, como meio de sobrevivência, pois embora se reclame tanto de que ninguém possa viver de literatura, não raro encontramos escritores que se dedicam apenas à escrita e que dessa escrita como ofício fazem o seu ganha-pão. Já quanto ao resultado será sempre distinto, cada um absorve para seu universo aquilo que lhe aprouver.

Diz um dito nada popular, retirado do esplendoroso Dom Quixote, com louco não se discute, a menos é claro, se formos mais loucos do que ele. Darei uma ilustração, para mensurarmos a loucura vigente neste contexto. Sodoma e Gomorra, duas cidades da antiguidade que, segundo o texto bíblico, foram destruídas por Deus, pelo fato de atingirem a crassa loucura, sobretudo no campo da moral e dos bons costumes. Quando dois anjos chegaram à cidade para resgatar Ló e sua família, os homens da cidade, como era de costume, avançaram para molestar sexualmente os enviados de Deus. Ló, em desespero ou sob algum tipo de loucura, que até Freud desconhecia, ralhou com seus contemporâneos dizendo que não causassem mal aos homens, pois eles eram seus convidados, e, em nome da boa e velha hospitalidade, oferecia suas filhas em troca da honra dos visitantes desconhecidos. O texto sagrado não diz se a turba violenta e sexualmente depravada aceitou ou não aceitou as filhas de Ló como recompensa, aliás, diz que eles não apreciaram a oferta, todavia subtende-se que os anjos não foram molestados sexualmente, talvez para não chocar os homens crédulos, só diz que logo em seguida levaram Ló pela mão, para escapar da destruição iminente, apenas a esposa de Ló pereceu sob a mão da suprema justiça, virou uma coluna de sal, também quem lhe mandou olhar para onde não devia. Por olhar para trás, para as coisas materiais, para os bens que acumulara durante uma vida inteira, por esse pecado incomum sofreu a pena capital. A recomendação dos anjos fora muito clara, na verdade era um decreto divino, ninguém devia olhar para trás nem lamentar o bem deixado. Esse evento enigmático pode ser a chave para entendermos algumas das formas de loucura nos homens atuais, especialmente nos que professam alguma forma de religiosidade.

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