Com a chegada de março, Shoildon fervilhava com uma notícia bombástica após a outra.
Tudo começou com a informação de que Isaac Bennett - o primogênito da família mais rica e influente da cidade - havia sofrido um terrível acidente automobilístico que o deixou paralisado da cintura para baixo.
Não levou muito tempo para que outra notícia bombástica se espalhasse - a prestigiosa família Bennett havia decidido se unir à recém-ascendente família Willis através do casamento.
A maior comoção resultou do casal em si - o noivo, ninguém menos que o agora incapacitado Isaac, e a noiva, a filha mais velha da família Willis, uma jovem que havia sido criada num afastado vilarejo na zona rural, longe do refinamento da cidade.
A quilômetros de distância do horizonte cintilante de Shoildon, Verena Willis, o nome que agora circulava na boca de todos, permanecia em Trisas, o pequeno vilarejo onde vivia.
Ela estava sentada na modesta sala de estar quando o silêncio foi subitamente quebrado pela notificação de uma mensagem recebida no celular.
Um olhar de relance para a tela mostrou a mensagem da sua assistente. "Tenho um paciente com um caso extremamente raro, Evelyn. Já faz seis meses que ele está te esperando. Quando pode vir para dar uma olhada?"
A tela voltou a escurecer quando Verena pressionou o botão de desligar, seus dedos delicados pairando sobre o dispositivo. Nesse momento, uma profunda tristeza cintilou nos seus olhos claros.
Pelo mundo afora, as pessoas a conheciam como Evelyn Rowe - a milagrosa curandeira - mas para ela, a fama não significava nada quando não tinha sido capaz de salvar justamente a pessoa que mais amava neste mundo. Sua amada avó havia partido bem no momento em que ela pegou o bisturi, incapaz de esperar mais.
O som das vozes abafadas e tensas de um casal soou atrás dela, a discussão acalorada entre ambos vazando pelas paredes finas da casa.
"Onde está sua sensibilidade, Laura? Minha mãe mal foi enterrada e você já está falando em partir!"
"A empresa está atolada em trabalho acumulado, Alec, e a festa de dezoito anos da Kaia está se aproximando. Então, me diga o que é mais importante - trabalho acumulado e uma grande celebração familiar, ou uma pessoa morta? Além do mais, Verena precisa voltar imediatamente para a cidade para aprender boas maneiras. Imagine o quão desastroso será se ela entrar para a família Bennett agindo como uma caipira do interior. Será do nome Willis que todos irão zombar!"
"Para começo de conversa, pare de chamar Verena de caipira. Ela é sua filha!"
"Sim, acha que eu me daria ao trabalho de vir buscá-la se ela não fosse minha filha?"
De onde estava, Verena abafou uma risadinha enquanto a discussão continuava no outro cômodo.
As duas pessoas discutindo no quarto não eram estranhas para ela, mas seus próprios pais, Alec Willis e Laura Willis.
Um dia, eles tinham sido simples empregados, mas depois de galgarem seu caminho centímetro por centímetro, o sucesso finalmente veio.
Naqueles primeiros anos permeados de dificuldades, sem tempo para se dedicarem à criação da filha, eles a deixaram sob os cuidados da avó, Shawna Willis, quando ela tinha apenas um mês de vida.
A despeito das suas agendas atribuladas, eles ainda conseguiam pensar na filha às vezes, enviando notícias ou algum símbolo de afeto quando podiam.
A mudança nas prioridades do casal se iniciou no momento em que seus negócios decolaram e eles montaram sua própria empresa. Quando tinha sete anos, Verena ganhou uma irmã mais nova, Kaia Willis, e então, todo o interesse dos seus pais por ela começou a diminuir. Da mesma forma, à medida que a fortuna da família Willis aumentava, eles iam se inserindo sem esforço nos círculos da alta sociedade.
Laura ligava de vez em quando, mas o assunto das suas conversas nunca era a educação ou a saúde da filha mais velha. Em vez disso, ela falava sobre Kaia, a filha caçula, a quem chamava de amuleto da sorte da família, como se sua única missão como mãe fosse se gabar da criança que supostamente lhes trouxera prosperidade.
Quando Kaia completou três anos, seus pais voltaram a Trisas para uma visita.
Nessa ocasião, Alec comentou sobre levar a filha mais velha e Shawna para viverem em Shoildon, mas a rigidez no sorriso de Laura quando ele disse isso não passou despercebida por Verena. Mais tarde, o que quer que a esposa tivesse sussurrado para Alec foi o bastante para fazê-lo abandonar a ideia por completo.
Não muito tempo depois de eles regressarem a Shoildon, Laura voltou a engravidar e deu à luz um filho. A partir de então, toda a atenção do casal passou a ser dirigida exclusivamente para Kaia e o menino. E embora o dinheiro chegasse regularmente para Verena e sua avó, seus pais permaneciam distantes por quinze longos anos.
De fato, se não fosse pela morte de Shawna, Verena tinha certeza de que eles teriam continuado a ignorá-las completamente.
...
Somente depois que os ritos funerários foram concluídos, Verena concordou em viajar para Shoildon com eles.
Em meio a tudo isso, por mais que seus pais falassem calorosamente, como se estivessem ansiosos para tê-la por perto, ela sabia muito bem o que estava em jogo. Afinal, bastava uma rápida busca online para acessar as notícias de Shoildon.
Quando eles estavam chegando à sua residência em Shoildon, Laura finalmente quebrou o silêncio. "Não se esqueça, Verena - se alguém te perguntar sobre sua educação, diga que se formou na Faculdade de Medicina de Acorith com um mestrado e que está prestes a iniciar seu estágio..."
De fato, Laura nunca enxergou a filha como algo mais do que uma médica de clínica de interior. Afinal, Trisas não passava de uma cidadezinha montanhosa isolada demais aos seus olhos.
Como Verena nunca havia frequentado a faculdade - ou assim Laura acreditava - ela presumiu que a filha apenas havia aprendido algumas habilidades simples com os médicos locais.
Os poucos comentários que ela ouvira de Shawna sobre Verena estar estudando medicina foram suficientes para que tirasse essa conclusão.
O programa de medicina de Acorith era considerado o primeiro do país, e Laura não tinha qualquer escrúpulo em usar o nome da instituição para melhorar a própria imagem, apavorada com a mera possibilidade de alguém descobrir que a prática da sua filha mais velha vinha de um vilarejo onde Judas perdeu as botas. Para ela, isso seria profundamente humilhante.
Verena zombou intimamente da vaidade de Laura, ciente de que ela nunca havia de fato se esforçado em compreendê-la.
Ironicamente, mal sabia a mãe que a mesma Faculdade de Medicina de Acorith, tão admirada por ela, havia convidado a própria Verena para dar uma palestra para seus alunos no último mês.
Em todos os anos de vida de Verena, sua mãe jamais perguntou sobre sua educação.
Certa vez, Verena adoeceu e acabou perdendo as provas, o que resultou em notas baixas. Assim, quando Laura soube mais tarde do seu baixo desempenho nesse período, concluiu simplesmente que a filha não era apta para ingressar no ensino superior.
Até mesmo quando a entusiasmada Shawna tentou contar para eles a boa notícia sobre a admissão de Verena numa universidade de primeira linha, ambos os pais simplesmente ignoraram, alegando terem assuntos importantes de trabalho antes de encerrarem abruptamente a ligação.
A partir daquela vez, tanto Shawna quanto Verena pararam de tentar compartilhar algo significativo com eles sobre a vida da filha.
Olhando nos olhos de Laura, Verena disse calmamente: "Mas nunca estudei na Faculdade de Medicina de Acorith."
A franqueza da sua resposta fez com que os lábios de Laura se comprimissem numa linha fina. Para ela, a recusa de Verena em colaborar não era um sinal de força - era pura teimosia.
Claro que ela sabia que Verena nunca havia estudado lá e justamente por isso tinha pedido para que mentisse. Aos seus olhos, comparada a Kaia, embora Verena fosse mais bonita, não tinha conquistas para exibir e não passava de um motivo de constrangimento.
Antes que Laura pudesse repreendê-la severamente, a crise de tosse de Alec no banco dianteiro a forçou a engolir as palavras.
Ela então deixou o assunto de lado e mudou o rumo da conversa, usando um tom suave e permeado por uma evidente indulgência. "De qualquer forma, sua irmã está habituada a ser mimada. Então, tente não provocá-la, está bem? Ela se aborrece com muita facilidade e se recusa a comer quando está de mau humor."
Evidentemente, Verena não pôde deixar de achar isso tudo um tanto ridículo. Com quase dezoito anos, Kaia ainda se comportava como uma criança mimada, sendo a própria imagem do mimo.
A conversa terminou quando o carro estacionou diante de uma luxuosa mansão, que parecia ostentar deliberadamente a riqueza dos seus donos.
Verena foi a primeira a descer do carro, absorvendo a grandiosidade da fachada.
Da porta principal, uma garota usando uma linda camiseta e uma saia curta emergiu correndo na direção deles - era Kaia, em toda a sua ansiedade juvenil.
"Papai, mamãe, finalmente vocês voltaram!", ela exclamou com a voz vívida e um tanto afoita.
No entanto, o brilho no seu olhar diminuiu quando ela avistou Verena. Seus olhos então pairaram na irmã mais velha, medindo-a de cima a baixo.
Usando um moletom creme simples e uma calça amarelo-pálido, combinados com tênis brancos e impecavelmente limpos, Verena parecia bastante comum à primeira vista. Apesar disso, seus traços delicados e a pele impecável, aliados à sua aura calma e distante, conferiam a ela uma beleza que não podia ser ignorada. De fato, nada nela denunciava os anos passados numa cidadezinha remota nas montanhas.
Kaia, por sua vez, sabia exatamente quem estava à sua frente - sua irmã de sangue - mas as duas nunca tinham compartilhado um lar.
A vida em Shoildon havia feito de Kaia a princesinha intocável e mimada da família Willis, a joia aos olhos dos seus pais. Assim, o reaparecimento súbito de uma irmã mais velha provocou nela um sutil e desconfortável aperto no peito.
"Ah, Kaia, tenha dó. Como pode vir aqui fora vestindo tão pouca roupa? Não está congelando?"
Olhando com desaprovação o tecido fino das roupas de Kaia, Laura rapidamente tirou o próprio casaco e o colocou nos ombros dela.
Com uma risadinha, Kaia abraçou a mãe. "Ha-ha, nem está fazendo frio, mamãe."
Essa era uma cena calorosa o bastante para derreter qualquer corrente de ar frio - mas Verena nunca tinha feito parte de tais momentos.
Rindo juntas, Kaia e Laura seguiram para dentro de casa, deixando Verena ali, como se sua chegada já tivesse sido esquecida.
Enquanto caminhava, Kaia olhou para Verena por um breve momento, lançando um olhar demorado e indecifrável por cima do ombro.
Quando Alec viu a filha caçula, seu olhar suavizou e ele se virou para se aproximar de Verena. "Esta é Kaia, sua irmã. Ela tem se saído muito bem nos estudos. Conseguiu tirar notas altas no vestibular e já garantiu uma vaga na Faculdade de Medicina de Acorith..."
Alec estacou por um momento, parecendo se dar conta de algo. Ele se lembrou de uma conversa com sua mãe anos antes, quando ela mencionou casualmente que Verena nunca havia feito nenhum exame de admissão para a faculdade.
Então um suspiro longo e cansado escapou dos lábios dele. "Se você fosse mais parecida com Kaia, estaria numa situação muito melhor."
Verena nem se deu ao trabalho de responder. O comentário era absurdo o bastante para diverti-la. Eles eram capazes de se lembrar de cada pequena peculiaridade de Kaia, mas quando se tratava de algo tão importante quanto sua própria educação, ninguém nunca se preocupou em perguntar, simplesmente assumindo que, em comparação com a irmã mais nova, ela sempre seria diminuída.
...
A imponente residência da família Willis mais parecia território estrangeiro para Verena. De fato, era bastante estranho para ela pensar que estava entrando pela primeira vez nessa casa, que supostamente era para ser seu lar.
Laura a guiou pelo corredor em direção a um quarto, apresentando o local com a voz solícita e um sorriso reconfortante no rosto. "Se algo aqui não te agradar, basta me dizer, está bem?"
Verena, por sua vez, mantinha um tom neutro. "Está bem, mãe, obrigada."
"Querida, não precisa ser tão formal comigo. Sou sua mãe."
Vendo que Laura permanecia na porta sem dar sinais de sair, Verena perguntou: "Algo mais?"
A história de Laura e Alec no mundo dos negócios e sua ascensão a um lugar na alta sociedade era fruto de anos de batalha, aproveitando cada oportunidade surgida. Ainda assim, eles continuavam sendo considerados novos ricos no seleto grupo, e muitos os viam como meros forasteiros.
A família Bennett, por outro lado, era exatamente oposto - uma dinastia rica, bem conectada e profundamente enraizada num prestígio de longa data.
Evidentemente, quando a prestigiosa família Bennett sugeriu uma aliança matrimonial, Laura nem cogitou recusar. Ela já podia imaginar os benefícios que tal união lhes traria, visualizando todas as portas que isso abriria.
No entanto, com a fatalidade envolvendo o acidente de Isaac, que ficou incapacitado, Laura simplesmente não conseguia imaginar sua preciosa filha caçula como esposa dele. Foi então que ela decidiu trazer a filha mais velha para viver na mansão com eles.
Por um breve momento, ao encarar o olhar sereno e inabalável de Verena, Laura não pôde deixar de sentir uma ponta de culpa. Mas o fato era que ela não tinha acompanhado a criação da filha e, consequentemente, não havia um vínculo real entre elas. Então, embora sua culpa fosse genuína, o distanciamento entre ambas prevalecia.
Talvez como uma forma de amenizar a própria culpa, Laura dizia a si mesma que esta era uma oportunidade única para Verena. Levando-se em conta que era uma garota criada num lugarejo remoto e pouco desenvolvido, que não ia bem na escola e agora trabalhava como médica numa cidade pacata como Trisas, ela só poderia se beneficiar ao se casar com um membro da família Bennett. Incapacitado ou não, Isaac representava riqueza, conforto e segurança. Que jovem não iria querer isso?
"Bem, você precisa descansar um pouco agora, Verena. Há alguém que quero que conheça hoje à noite, então vou apresentar vocês."
Verena tampouco precisava perguntar, pois tinha certeza de que a tal pessoa era Isaac. Afinal, ela já tinha lido online sobre o acidente dele. Realmente, esperar algo diferente desses pais tinha sido uma grande tolice. Esse pensamento a fez querer rir e menear a cabeça ao mesmo tempo. Era verdade que filhos que cresciam se sentindo mais como um pensamento tardio aprendiam a carregar tanto a amargura quanto a resignação.
"Está bem", Verena assentiu simplesmente, embora sua concordância não tivesse nada a ver com as expectativas de Laura. Ela tinha vindo para Shoildon com apenas um propósito em mente - Isaac Bennett. Um pensamento silencioso cruzou sua mente, imaginando como ele poderia estar nesse momento.
Os lábios de Laura se curvaram ligeiramente diante da falta de resistência de Verena. "Ótimo. Procure descansar um pouco, então. Vou te deixar em paz."
Quando estava prestes a sair, ela se virou uma última vez para Verena e disse: "Quando você o vir esta noite, se alguém perguntar sobre sua escolaridade, diga que se formou na Faculdade de Medicina de Acorith com um mestrado. Não se preocupe com a possibilidade de eles descobrirem o contrário - eu cuidarei disso."
Tão logo a porta se fechou, Verena se esticou na cama. Erguendo a mão direita, ela notou o leve tremor dos seus dedos.
Seis dias haviam se passado desde o fatídico momento em que ela não foi capaz de salvar a vida de Shawna na mesa de cirurgia. O bisturi escorregou, e sua mão direita não parou de tremer desde então. Para um cirurgião, um tremor como esse era o caminho mais certo para a ruína.
A mente de Verena permanecia em turbilhão até que o sono finalmente veio, puxando-a para um sonho inquietante.
Em outro cômodo da casa, Kaia estava deitada relaxadamente no sofá, a tela do celular se iluminando com mensagens num grupo de bate-papo. Todos queriam saber - sua irmã era bonita?
A pergunta azedou instantaneamente o humor de Kaia. Chamar Verena de bonita parecia um eufemismo, pois sua beleza era tão impactante que tinha o poder de manter os olhares cativos, mesmo quando usava roupas simples. Sua pele era sedosa e sem máculas, quase refinada demais para alguém que havia passado anos num lugarejo remoto.
Na verdade, Kaia se sentia como uma mera coadjuvante ao seu lado - doce e inofensiva, mas absolutamente sem graça.
As perguntas repletas de curiosidade continuavam chegando, então Kaia finalmente digitou de volta. "Ela é normal, não é feia."
Claro que ela sabia que a resposta era uma mentira descarada, mas as palavras escaparam instintivamente.
Até o momento, todos em Shoildon vinham escutando rumores sobre o casamento iminente entre as famílias Bennett e Willis.
Os jovens ricos da cidade estavam curiosos sobre a futura mulher com quem Isaac - um homem que outrora tinha sido uma promessa incomparável - estava prestes a se casar.
Diante da resposta morna de Kaia, o grupo ficou em silêncio. Não era feia... Bem, esse era o tipo de resposta que insinuava que a mulher em questão era, no máximo, comum. Pobre Isaac...
Entre os que liam as mensagens trocadas estava Bobby Bennett, o irmão mais novo de Isaac.
Um xingamento afiado escapou dos seus lábios e ele se virou para sua mãe, Danica Bennett. "Entendo que as pernas do meu irmão não estão na melhor forma, mãe... mas você precisa arranjar uma mulher qualquer para ele? Kaia está dizendo que a irmã dela não é exatamente o que se pode chamar de atraente."
O comentário atingiu Danica com uma dor surda. Como qualquer mãe, era evidente que ela desejava que o filho tivesse um casamento digno.
Ainda assim, a condição de Isaac ia muito além das suas pernas inabilitadas. Certos aspectos da sua saúde relacionados à masculinidade tinham sido danificados. Como matriarca da família Bennett, ela não podia permitir que rumores sobre a vida privada do filho saíssem do controle. Assim, o caminho mais seguro era escolher uma noiva que não representasse uma ameaça - Verena Willis, a filha mais velha da emergente família Willis.
"Bem, esta é minha decisão, e você não tem nada que se intrometer nisso", ela retrucou, mascarando suas emoções com um tom frio.
A mandíbula de Bobby se contraiu de raiva, mas ele não disse mais nada.
Imperturbável, Danica se afastou e começou a subir a escada, desinteressada em acalmar o temperamento do filho.
Laura tinha acabado de enviar uma mensagem para ela, pedindo que organizasse um encontro entre Verena e Isaac para essa noite.
Ao entrar no quarto mal iluminado de Isaac, Danica caminhou decididamente até a janela e abriu as cortinas sem qualquer hesitação, permitindo que a intensa luz do dia inundasse o piso, afastando a penumbra.
Isaac estava deitado na cama, seus olhos sombreados e fixos num ponto, seus traços tão bem definidos como sempre.
Vendo que ele estava acordado, Danica falou num tom franco. "Você tem um encontro com uma jovem esta noite. E vai se casar com ela."
"Se esse é o plano desde o início, por que perder tempo com um encontro? Basta marcar o casamento e pronto", Isaac respondeu num tom indiferente.
Um misto de compaixão e silenciosa indignação obscureceu o olhar de Danica. Ninguém fora da família sabia que o acidente tinha tirado não apenas a saúde de Isaac, mas também a vida do marido dela. Com o filho nesse estado, ela não se atrevia a anunciar a morte do marido, temendo que isso pudesse abalar a estabilidade da empresa.
"Não dificulte as coisas para mim com isso. Acontece que a boa educação pede que você a conheça primeiro."
Quando ela deixou o quarto, as sombras pareciam se fechar ao redor de Isaac novamente. A dor e o desprezo por si mesmo obscureciam seus olhos. Na sua mente, a morte do seu pai era um farto que teria que carregar até o fim da vida.
Quando o crepúsculo se instalou, Verena foi despertada por algumas batidas leves na porta.
Entrando sem pedir licença, Kaia disse num tom que oscilava entre uma alegria forçada e uma condescendência quase transparente: "Você está prestes a se casar com um membro da família Bennett, Verena. Meus parabéns. Eles são a família mais proeminente de Shoildon."
Os anos passados no exterior estudando haviam aguçado os instintos de Verena.
Se tinha uma coisa que ela podia perceber nas palavras de Kaia, era a evidente falta de sinceridade, pois bastava um olhar para saber que sua irmã mais nova não gostava dela.
Sem dizer uma palavra, Verena continuou dobrando o cobertor, esperando pacientemente para ouvir o que mais Kaia tinha para lhe dizer.
Diante do silêncio de Verena, Kaia acrescentou: "A família Bennett pode até ter um bom nome, mas Isaac possui limitações físicas. Dizem que quando um homem tem as pernas paralisadas, sua função sexual costuma ser afetada também. Sinceramente, não quero que você se case com ele."
Embora Kaia tentasse fazer com que suas palavras soassem preocupadas, sua verdadeira esperança era que Verena não se tornasse um membro da família Bennett. Mesmo com os problemas de saúde, Isaac ainda era alguém que já havia estado no seu radar, e ela sabia muito bem que a irmã teria uma vida indubitavelmente melhor do que a sua se de fato se casasse com ele.
Compreendendo perfeitamente onde Kaia queria chegar, Verena falou sem rodeios. "Olhe, se você não gosta de mim, tudo bem. Não precisa fingir preocupação porque..."
Ela parou no meio da frase ao notar o lampejo de surpresa nos olhos de Kaia, então prosseguiu como se nada tivesse acontecido: "Porque o sentimento é mútuo. Também não gosto de você."
Essa verdade despejada de maneira tão direta deixou Kaia momentaneamente sem palavras. Ela jamais poderia imaginar que Verena fosse rechaçar seu fingimento e desmascará-la tão abertamente.
Foi somente quando Verena se moveu para deixar o quarto que Kaia voltou a encontrar sua voz. Batendo o pé de raiva, ela esbravejou: "Quem você pensa que é? Sua arrogante! Não passa de uma caipira vinda de um lugar esquecido."
Nesse momento, Verena tinha acabado de alcançar a porta. Ao ouvir o insulto, ela parou do lado de fora e se virou, encarando Kaia. "Acontece que seus pais vieram desse mesmo lugar esquecido. Devo contar para eles que você considera caipiras todos que vieram de lá?"
Essas palavras deixaram Kaia paralisada onde estava. O olhar aguçado e inflexível de Verena a fez sentir como se cada pensamento oculto seu tivesse sido revelado.
Evidentemente, isso serviu apenas para aprofundar sua antipatia pela irmã mais velha. Desta vez, no entanto, ela não retrucou e apenas saiu apressada.
Momentos depois que Kaia desceu a escada, Laura surgiu diante de Verena.
Só pela expressão sombria no olhar dela, Verena entendeu o que havia acontecido - Kaia certamente devia ter corrido até a mãe para contar que havia sido intimidada por ela.
"O que você disse para Kaia?", Laura perguntou num tom afiado e acusador, como se já tivesse tomado o lado da filha mais nova. Era evidente que ela não tinha sequer considerado a possibilidade de haver outro lado na história.
Esse julgamento às cegas era algo que Verena achava difícil de tolerar. Esboçando um sorriso irônico, ela perguntou: "E o que foi que ela te contou?"
A pergunta deixou Laura ainda mais irritada, e ela pensou que o fato de ter crescido numa área rural havia privado sua filha mais velha de boas maneiras. "Sou eu quem está perguntando para você!"
"Ela me chamou de caipira, então eu apenas lembrei que você e o papai também deviam ser caipiras, já que cresceram no mesmo lugar que eu."
"Isso é ridículo! Kaia jamais diria algo tão desrespeitoso. Como se não bastasse ter irritado sua irmã, você agora inventa mentiras? Você é muito cara de pau, Verena", Laura retrucou, sua fúria se aprofundando.
Tudo isso parecia um absurdo sem fim para Verena. Laura tinha vindo pressioná-la por uma resposta, mas simplesmente se recusava a acreditar quando ela lhe dava e só estava interessada em ouvir aquilo que combinasse com sua própria opinião?
Verena, por sua vez, não era o tipo de pessoa que costumava recuar e possuía uma maneira peculiar de provocar ainda mais as pessoas. A recusa de Laura em acreditar nas suas palavras a levou a dizer: "Bem, se você já decidiu que estou mentindo, então que seja. Não importa o que eu diga, é na Kaia que você vai acreditar. Mas fique sabendo que nunca conseguirá arrancar de mim um pedido de desculpas. Já que sou um problema tão grande, vou simplesmente voltar para o campo e deixar que a própria Kaia se case com Isaac."
Como sabia exatamente quais eram as intenções de Laura, ela usou isso para calá-la.
"Sua...!", Laura rosnou, se sentindo genuinamente atingida, mas então se conteve ao se lembrar do verdadeiro motivo pelo qual havia trazido a filha mais velha para Shoildon.
Ela não conseguia entender como suas filhas tinham se tornado tão diferentes - Kaia era articulada e possuía lábia, sempre conseguindo dela o que queria, enquanto Verena, ao contrário, era sem graça, teimosa e desonesta. Tantos anos de separação a faziam sentir como se estivesse diante de uma estranha.
"Vá se aprontar. Você vai comigo ao encontro. E trate de trocar de roupa. Vou pedir que uma das empregadas te traga algo decente para vestir."
A decisão de Verena de vir para Shoildon não tinha nada a ver com as intenções injustamente tendenciosas dos seus pais. No momento em que viu a notícia, ela reconheceu Isaac.
Ela não estava nem um pouco preocupada em se arrumar para vê-lo. Então, quando desceu os degraus, estava vestida exatamente como antes.
Esperando por ela ao pé da escada, Laura parecia visivelmente desgostosa. "Não falei para trocar de roupa?"
"Ah, não estou a fim", Verena respondeu displicentemente.
"Sua...", Laura começou, mas logo se conteve e apenas a encarou, sua paciência já no limite.
Nesse momento, ela se deu conta de que Verena não era tão submissa ou fácil de controlar quanto havia presumido. Ainda assim, sua prioridade no momento era garantir o arranjo do casamento dela com Isaac.
"Pois muito bem. Se não quer se trocar, então vamos logo..."
...
No grupo de bate-papo dos jovens ricos, Bobby continuava fazendo perguntas para Kaia.
"No que sua irmã trabalha, Kaia?"
Embora estivessem no mesmo grupo, Kaia raramente tinha algum assunto para conversar com Bobby. Então, sentiu os pensamentos acelerarem no momento em que o viu se dirigir diretamente a ela.
Receosa de que ele se sentisse ignorado, ela se apressou em responder: "Minha mãe me disse que ela trabalha como médica numa cidade pequena."
Bobby franziu ligeiramente as sobrancelhas. Uma médica? Se fosse verdade mesmo, então pelo menos ela poderia cuidar do seu irmão. Levando isso em consideração, ele tinha que aceitar relutantemente o fato de Verena não ser uma pessoa atraente.
Kaia estava a par da intenção da sua mãe de espalhar a informação de que Verena era graduada pela Faculdade de Medicina de Acorith.
Mas depois de ter dedicado anos de esforços para ingressar nessa mesma universidade e assim ganhar a admiração das pessoas, ela se sentia um tanto irritada por Verena colher tal reconhecimento sem trabalhar realmente por isso.
Assim, com um toque de perversidade permeando sua mente, Kaia acrescentou com um fingido ar de casualidade: "Mas ela nunca frequentou realmente a universidade. É bem provável que só tenha aprendido o pouco que sabe com os médicos locais."
"Como assim? Ela nem sequer ingressou na universidade?", Bobby perguntou, claramente perplexo.
O título de "médica" agora lhe parecia bastante suspeito e sua irritação aumentou. Afinal, Isaac tinha se formado numa das universidades mais prestigiadas do mundo. Já era ruim o bastante ser obrigado a se casar com alguém sem atrativos, mas ter alguém pouco instruído também...
Incapaz de se conter mais, Bobby enviou uma mensagem para Isaac. "Não se case com Verena Willis, por favor. Ela não é boa o bastante para você. A irmã dela disse que ela nem sequer frequentou a universidade. Pelo visto, além da aparência, ela não tem uma boa educação."
Nesse momento, Isaac já estava esperando numa sala privativa no Restaurante Spice.
O ambiente ali era elegante e tranquilo, mas nem ele nem Danica tinham ânimo para apreciar a vista além da janela.
Para Danica, este encontro não passava de uma arranjo de negócios.
Já para Isaac, era nada mais do que um lembrete das suas próprias deficiências.
Quando o celular de Isaac tocou, ele viu a mensagem de Bobby, seus traços marcantes permanecendo impassíveis.
Danica também viu a mensagem do filho mais novo. Então fechou os olhos por um breve momento e disse: "Por favor, Isaac, não fique ressentido comigo. Você sabe que não tenho outra opção."
Na mente dela, a única maneira de parar os rumores prejudiciais sobre Isaac era ele se casar e adotar discretamente uma criança, fazendo-a passar por sua.
Um sorriso leve e amargo brincou nos lábios de Isaac. Ressentimento era um luxo que ele não podia reivindicar. Aos seus olhos, ele era o motivo pelo qual sua mãe havia perdido o marido.
Apesar de tudo isso, Isaac enviou uma resposta para Bobby. "Meça suas palavras."
Bobby se irritou ainda mais ao ler a mensagem. Num momento crítico como esse, Isaac ainda estava dizendo para ele ser educado. Seu irmão realmente entendia o tamanho da encrenca em que estava se enfiando?
Foi então que Verena e Laura chegaram ao Restaurante Spice.
Usando sapatos baixos, a figura alta e esguia de Verena entrou com passos determinados enquanto Laura, se equilibrando nos saltos altos, teve que se apressar para acompanhar o ritmo da filha.