Safira Angelique Peréz, 25 anos. Estava finalmente de volta a seu país, finalmente de volta ao seu lar. Ela caminhava anestesiada pelo aeroporto, admirando tudo a sua volta. Tudo estava tão diferente e ao mesmo tempo tão igual. As pessoas falando em seu idioma, os rostos familiares de seu país. Como sentira falta dessa bagunça, desse colorido, que só os mexicanos tinham. Respirou fundo, sorrindo, apreciando o cheiro de lar.
Os anos que passara fora não tinham sido fáceis, tinha sido obrigada a muitas coisas, entre elas obedecer e abaixar a cabeça para muitos homens, ou poderia lhe custar a vida. Mas hoje voltando para sua terra, voltando para o lugar de onde nunca devia ter saído, sentia uma força vibrando em seu peito. Estava finalmente livre, não tinha mais porque temer. Estava viva, era jovem, iria se refazer! Ninguém poderia lhe parar, nunca mais!
O dia estava quente, o sol brilhava no céu limpo, as ruas estavam movimentadas como uma sexta-feira pedia. Um trio tocava uma música típica, com suas gaitas e chapélões, sorriu instintivamente ao passar por eles.
Apressou o passo ao avistar os táxis amarelos mais a frente. Tinha pressa de reencontrar sua família, com a qual tinha perdido totalmente o contato, e esperava que morassem no mesmo lugar. Correu animada em direção aos táxis, imaginando abraçar sua mãe, mal podia esperar para esmagar seus irmãos e ouvir os sermões de seu pai. Seus pensamentos foram interrompidos por alguém se chocando contra ela, fazendo-a ser jogada para trás e quase cair. Piscou algumas vezes para entender o que tinha acontecido. Um homem alto, vestido de terno a segurara pelo braço a impedindo de cair.
- Oh garota! Não olha por onde anda, não? - O homem falou em um péssimo espanhol. Tinha a voz áspera e séria, demonstrando sua insatisfação.
- Você que se chocou contra mim! - Safira respondeu se recompondo e tirando o braço da mão dele.
- Maluca! - O homem fala enquanto junta sua mala do chão e sai em direção ao interior do aeroporto.
Safira franze o cenho, junta sua mala que havia caído na hora do esbarrão, e segue olhando para atrás, falando sozinha. - Mal educado! - Volta sua atenção para os táxis e chama por um. - Táxi, por favor...
Henrique Leonardo Rodrigues, um importante empresário, dono de uma das maiores empresas de publicidade da América Latina. Construiu seu império através de muito esforço e trabalho, e hoje era considerado um dos mais jovens milionários, com seus 30 anos. Criado no interior de Minas Gerais, no Brasil, não teve uma vida fácil, mas nunca desistiu e com força de vontade e trabalho duro, mudara a vida de sua família. Não tinha tempo para relacionamentos amorosos e nem queria, vez ou outra saía com alguma mulher, afinal todas se jogavam a seus pés. Ele sabia que era bonito e sexy, mas o que mais atraía as mulheres em sua vida, era sua fortuna, e isso o fazia tomar sempre muito cuidado. E nunca manter mais de uma semana a mesma garota. Na verdade nem costumava sair mais de uma vez com a mesma, evitava confusões e cobranças desnecessárias.
Estava no México já fazia duas semanas, fechara um bom negócio, mas demorara mais que o previsto. Agora corria de volta para o Brasil com uma semana de trabalho acumulado. Apressado para não perder o voo, não se deu conta que esbarrava em uma mulher, até vê-la caindo para trás. Mas foi rápido o suficiente para segurar-lhe o braço e impedir a queda. Mas nisso derrubou sua bagagem. Droga! Esse país era uma bagunça! Gente pra todo lado, músicas e danças, chegava a ficar atordoado.
- Maluca! - Esbravejou, vendo-a fazer uma cara feia para ele. Não tinha tempo para discutir, pegou sua mala e saiu apressado para o ponto de embarque.
Finalmente sentado no avião, mais tranquilo por estar voltando para casa, resolveu abrir a mala, e rever uns documentos que precisavam ser assinados. Mas para sua surpresa e desespero não era seu notebook, nem seus documentos que estavam na mala.
Safira desembarcou do taxi na frente de onde era sua casa. Olhou para o local a sua frente, onde parecia ser agora uma floricultura. Entrou olhando ao redor, tentando encontrar alguém para lhe dar uma informação. Então uma moça jovem veio em sua direção.
- Olá, posso ajudá-la?
- Olá, eu gostaria de saber... - O que diria? Estava em pânico, onde estava sua velha casa? Como os encontraria se não morassem mais ali?
- Saber...? - A moça chamou sua atenção.
- Há uns anos atrás tinha uma família que morava aqui, os Pérez. Você sabe se eles ainda moram aqui por perto?
A moça sorriu e estava prestes a responder, quando empalideceu e abriu a boca, levando a mão ao peito.
Safira arregalou os olhos. - Tudo bem com você moça?
- S-Safira? - A moça tinha os olhos marejados, e sua expressão era como a de quem via um fantasma.
- Sim. - Safira sorriu. - Eu conheço você?
- Mãe! Mãe! - A moça saiu correndo em direção ao balcão enquanto gritava, e virava o rosto para olhar Safira. - Meu Deus! Mãe.
- O que foi garota? - Sua mãe saiu de uma porta que tinha atrás do balcão. - Quer me matar do coraç... - A mulher foi parando de falar ao parar os olhos na jovem mulher parada no meio da floricultura.
Mercedes nunca perdeu as esperanças de reencontrar sua filha, Safira. Foram anos seguidos indo a polícia, e eles sem notícias. Soube que foram vítimas de um golpe, quando passou na televisão dias depois de levarem Safira, para tomarem cuidado com uma falsa agência de modelos. Mas já era tarde de mais para eles. Tinham levado sua menina, sua joia mais preciosa, sua Safira. Seu marido tinha entrado em depressão profunda e começara a beber, eles pensaram que não se recuperariam jamais. Mas com o passar dos anos, aprenderam a conviver com a dor, e já imaginavam o pior.
Ao botar os olhos naquela bela mulher teve certeza que era sua menina, estava mudada, afinal já tinham se passado mais de 7 anos, mas ninguém tinha olhos azuis como ela.
- Safi?
Safira se assustou com a reação da garota, mas ao ver sua mãe saindo da porta de trás do balcão, entendeu que aquela moça, era sua irmã caçula, Melinda. Abriu a boca ao ouvir sua mãe a chamando pelo apelido de criança, sentiu que seu peito explodiria a qualquer momento.
- Mãe... - Sussurrou baixinho.
Sua mãe caminha devagar em sua direção como se visse uma miragem, parou a poucos centímetros dela. - É você mesmo, Safi?
- Mãe... - Safira se atirou nos braços da mãe, enquanto ambas gritavam pelo choro preso na garganta, a saudade ardida no peito e incredulidade do que estava acontecendo. Caíram de joelhos, enquanto Melinda chorava escorada no balcão, nem acreditando que sua irmã tinha voltado, que a Safira, luz da sua casa estava de volta. Correu para os fundos, iria chamar seu pai e seus dois irmãos. Eles iriam ter um treco quando a vissem.
Safira teve pouco tempo com sua mãe, logo ouviu os gritos de seu pai, e recebeu um caloroso abraço grupal de seus irmãos. Eles choravam, falavam coisas misturadas, e riam ao mesmo tempo. Ela estava extasiada com a recepção, ela amava tanto aquelas pessoas, nunca poderia agradecer o suficiente a aquele homem que a ajudou a sair daquela vida na boate.
Acompanhou-os pela porta por onde sua mãe saiu. Os fundos da floricultura dava para um terreno maior, onde tinha uma casa de material, bem diferente da que ela lembrava. Eles contaram que a dor, os fez trabalhar sem parar para melhorar de vida e tentar encontrá-la. Fazia pouco mais de um ano que a casa tinha sido construída, ainda estava sem pintura, mas já estava perfeita para morar.
- A polícia local procurou por tudo, eles não deixaram rastros Safi... - Seu irmão mais velho falava com a voz esganiçada.
- Me levaram para o Brasil. - Safira podia ouvir os soluços de seu pai, enquanto ela falava algumas coisas. - Mas o importante é que estou aqui agora, não é? - Ela tentava mudar o assunto. Não valia a pena voltar àqueles dias de horror. Ela precisava era de paz.
- Só nos conte como conseguiu fugir? - Melinda perguntava sentada em sua frente, com os joelhos grudados aos seus.
Safira sorri para a irmã. - Você já está com 17 anos, não é? - Seca uma lágrima que insiste em cair. - Como você cresceu meu bebê.
Melinda ri e abraça as pernas da irmã. - Senti tanto a sua falta...
Depois de muita loucura, e ataques de choro e riso, Safira foi encaminhada para um dos quartos. Ela se assustou ao entrar. Eram todas as suas coisas, era o mesmo roupeiro, a mesma cama de solteiro, os posters de bandas famosas na época na parede.
- Mas...
- Nunca tiramos nada, e montamos igual nessa nova casa. - Safira encara a mãe com olhos marejados. - Nós nunca desistimos.
Safira mais uma vez sentiu-se grata por ter tido a oportunidade de voltar para sua casa. Não apenas por ela, mas por sua família, que obviamente havia sofrido muito com sua ausência.
Sentou-se na cama, pegou sua mala e a abriu, pronta para pegar as poucas roupas que levou e o presente de Jonathan, a bela pulseira de brilhantes. Pensara em dar a sua mãe, como um gesto de carinho do homem que a salvou. Mas ao dar de cara com um notebook e várias pastas com papéis, tomou um susto. Onde estavam as suas coisas?
Henrique entrou feito um furacão na empresa matriz. Todos ao seu redor corriam para fazer alguma coisa, viam no rosto do chefe que ele estava de péssimo humor.
Henrique se jogou na cadeira de seu escritório massageando as têmporas.
- Mas que inferno! - Esmurrou a mesa, enquanto olhava para aquela mala preta idêntica a sua. Pegou-a novamente e abriu. O pouco que revirou, só mostrava umas poucas roupas femininas, de péssima qualidade por sinal. Segurou uma calcinha fio dental vermelha e maneou a cabeça. Nada naquela mala fazia sentido. Abriu um zíper lateral, onde encontrou uma pasta de papelão, de um amarelo queimado, parou na escrita: CONFIDENCIAL. Jogou a pasta em cima da mesa e bufou.
Alguns minutos pensando que tinha sido vítima de um golpe e tinham lhe roubado, o telefone do escritório toca. Atende bravo. - O que é?
- S-senhor Rodrigues, tem uma ligação para o sen...
- Não quero falar com ninguém Rita! E vê se consegue cancelar a próxima reunião, não estou com humor. - E desligou na cara da secretária.
Rita sentia a voz do chefe bradar e estremecia de medo, seu salário era muito bom, ela não podia correr o risco de perder esse emprego.
Henrique jogara a cabeça para trás tentando lembra-se onde poderia ter sido roubado, não largara sua mala para nada... O telefone recomeça a tocar. - Mas que merda! - Pega o telefone. - Eu já não lhe disse...
- Senhor me desculpe, mas a moça insiste em falar com o senhor, ela disse que esta com uma coisa que é sua e o senhor está com algo que é dela, e que não vai parar de ligar até atendê-la. - Henrique ouve o silêncio por um momento. Claro, o esbarrão com aquela desastrada.
- Pode passar. - Ele fala se endireitando na cadeira.
Safira revirara a maleta até encontrar algo que lhe dissesse de quem era. Era óbvio que era daquele homem que a atropelou no aeroporto, foi uma troca acidental, uma pequena confusão. Devido ao notebook de última geração, imaginava que o homem precisasse para trabalho, daquelas coisas. Encontrou o logo da empresa em umas pastas com documentos, pesquisou rapidamente no google e encontrou uma foto do homem. Henrique Leonardo Rodrigues. Bonito nome, pensou Safira, enquanto tentava encontrar um telefone que pudesse entrar em contato e falar com ele. Ele era o CEO da mais bem conceituada empresa de Publicidade da América Latina. Safira ficou preocupada, ele era realmente importante, devia entrar em contato logo. Mas por um momento perdeu-se na pesquisa, avaliando o belo rosto, as feições sérias, a barba bem feita, o cabelo sem um fio fora do lugar. Com certeza era um belo homem, ela mal tinha o notado quando esbarraram, estava tão ansiosa com sua volta para casa.
Depois de muita insistência conseguiu que a secretária passasse a ligação para o tal Henrique, o qual ela já estava achando antipático.
- Alô? - Ouviu a voz áspera e aparentemente zangada.
- Olá, Henrique Rodrigues?
Henrique fechou os olhos, já imaginando que o golpe não era roubar sua mala, mas conseguir sua atenção. As mulheres estavam ficando cada vez mais ousadas. Ele não conseguia um minuto de paz, que tinha alguma querendo seu telefone.
- Sim! - Respondeu seco.
- Então, acho que nos esbarramos no aeroporto, lembra-se? - Safira aguardou o que pareceu uma eternidade até ouvir o homem responder.
- Esbarramos, aham...
Safira não entendeu o tom de voz dele, mas não questionou, só queria suas coisas, e se livrar das coisas dele. - Então, acho que trocamos as malas, estou com suas coisas aqui...
- E o que você quer? - Henrique estreitava os olhos enquanto focalizava na mala da mulher em cima de sua mesa.
- Oras! Quero minha mala de volta! - Que homem louco, pensou franzindo o cenho. - Podemos nos encontrar no aeroporto, para fazemos a troca?
- Olha só garota, eu não pretendo voltar ao México tão cedo. - Henrique ainda sentia o estômago ardendo devido a comida apimentada.
- Ok, então mande alguém para buscar a sua e trazer a minha! Afinal, você que me atropelou no aeroporto! - Safira estava perdendo a paciência com esse cara.
- Eu não posso confiar qualquer pessoa para buscar minhas coisas, tem documentos confidenciais aí? Peraí... você mexeu nas minhas coisas? - Henrique se levantara de sua mesa, caminhando de um lado para o outro.
- Eu abri pensando que eram as minhas coisas, e graças ao mexer na sua mala descobri quem é você e quero devolver as coisas. Você é maluco por acaso?
Henrique sentia que iria explodir a qualquer momento. - Eu estou com reuniões em todos os horários, por pelo menos duas semanas. - Ele travou os maxilares. - Mas preciso do meu notebook urgente! - Passou as mãos nos cabelos desajeitando-os. - Vou pagar sua passagem e você vem para o Brasil para fazermos a troca. - Ele disse categórico, sem deixar margem para questionamentos. Ele imaginou que ela ficaria contente, afinal era sua intenção, conseguir sua atenção, não é mesmo?
- Mas de jeito nenhum que eu vou pro Brasil! - Safira bradou no telefone, fazendo Henrique franzir o cenho.
- Como assim? Eu vou pagar sua passagem...
- Não tô nem aí, eu poderia pagar minha passagem, não preciso que pague para mim, mas não gosto do Brasil. - Safira estava exasperada com aquele homem, grosseiro e mandão.
- Não gosta do Brasil? - Henrique falava com ela em português, então ela não devia ser mexicana, como podia não gostar do Brasil? - Mas do México você gosta? - Ele fala sarcástico.
- Oras! Eu amo meu país senhor. E isso não é da sua conta!
Henrique já não aguentava mais a discussão, só queria acabar logo com a confusão. - Seguinte, eu preciso muito desse notebook e desses documentos. Não tenho como ir ao México, se pudesse vir aqui ficaria muito agradecido e posso lhe dar uma gratificação... - Henrique realmente precisava de suas coisas, e não estava entendendo qual era a daquela mulher.
Safira não o respondeu de imediato, estava respirando fundo para não desligar na cara do abusado, ou mandar ele longe e vender aquele notebook e fingir que nunca viu. Mas se continha pois queria suas coisas de volta também.
Ele revirou mais um pouco a mala enquanto ela falava, encontrou um pequeno estojo e abriu. Tinha uma pequena e delicada pulseira de brilhantes, ele olhou de perto, eram verdadeiros... mas o restante das coisas pareciam de uma pessoa que não poderia ter uma pulseira daquelas. Virou a cabeça para a pasta a qual não tinha aberto e abriu.
Na primeira página tinha uma foto e um nome. Safira. Era a foto do rosto de uma mulher. E por Deus, Henrique chegou a sentar-se. Era um rosto perfeito, uma pele branca, olhos azuis turquesa, tão profundos como uma pedra de ... Safira.
- Qual o seu nome? - Henrique questionou ainda preso por aquela imagem.
- Safira Angeliqué Pérez. - Ela respondeu com a voz séria e controlada, era palpável a irritação dela.
Uau... era ela mesmo. Henrique ficou em silêncio por um momento, esquecendo-se do que realmente falavam. Hesitou em folhar as próximas páginas, a pasta dizia confidencial e parecia ser de um processo policial. Além do mais, a moça da foto apesar de linda parecia abatida. Talvez ela não estivesse atrás dele, e fora só uma troca acidental. Recompôs-se e falou um pouco mais calmo.
- Ok, Safira, que tal nos encontrarmos no aeroporto aqui do Brasil e realizarmos a troca? - Ele esperou por um momento, mas não obtendo resposta continuou. - Fazemos a troca rapidamente, eu não perco tempo, e você nem entra no Brasil. - Ele aguardou sentindo uma certa ansiedade, de repente sentiu-se interessado em vê-la pessoalmente. Se ela não estava atrás dele, já era um bom sinal.
Safira suspirou, pensando em como explicar para sua família que iria ao Brasil, mesmo que rapidamente. - Ok. Amanhã pela manhã pego um avião. - Ela respondeu sentindo-se exausta, mas não pelo telefonema, mas por ter de voltar ao país que tanto a machucara.
Henrique assentiu. - Me avise quando sair daí, para eu lhe esperar.
- Tchau. - Safira encerra a ligação sem mais delongas, e olha para seu aparelho celular. Ela só se metia em confusão, mal botara o pé em casa e já tinha que resolver pepino.
Henrique teve de ir para a próxima reunião, mas já não estava mais tão irritado, estava mais tranquilo por encontrar suas coisas, claro. Mas era a sua curiosidade sobre a mulher que o fez melhorar o humor.
Safira estava sentada há mais de uma hora no aeroporto aguardando o embarque. Sua mãe a fizera prometer que avisaria quando chegasse lá e quando fosse voltar, e fez uma oração antes de ela sair de casa. Tinha esquecido de quão calorosos eram seus familiares. Suspirou e foi até o guichê perguntar se o voo atrasaria mais, pois era para ter saído a mais de meia hora atrás.
- Desculpe senhora, mas o avião teve de fazer um retorno, mas em breve estará chegando.
- Ok, obrigada. - Voltou a sentar-se e discou o número do escritório de Henrique e aguardou.
Henrique, esperara cerca de duas horas por Safira no aeroporto, mas nada da mulher chegar e nem por telefone conseguia contato com ela. Precisava voltar para a empresa, ou perderia mais uma reunião.
Era próximo das 16 horas quando o telefone celular de Henrique começa a vibrar. Ele atende em uma pausa da reunião. - Diga, Rita!
- Senhor, a moça...
- Safira?
- Isso. Está aqui no seu escritório.
- Mande aguardar, estou em reunião. Assim que der vou para aí.
- Ok.
Henrique sentiu uma leve irritação, a faria esperar o tempo que teve de esperar por ela. Onde já se viu? A mulher diz que está saindo do México, se atrasa mais de duas horas e não avisa! Era o cúmulo!
Safira já estava sentindo sua cabeça latejar. Não era mesmo seu dia, hoje. O avião demorara para chegar, tiveram de fazer um pouso extra, e ainda teve de ir até o escritório de Henrique, porque se atrasara muito e ele não pode esperar! Agora já passavam das 18 horas e o homem ainda não tinha aparecido. Por conta disso perdera o último voo do dia, e teria de esperar para pegar no dia seguinte. Bufou, olhando pela enésima vez o relógio.
- Olá, Safira? - Ouviu a voz penetrante e já soube de quem era. Ergueu os olhos e encarou o homem. Levantou-se e estendeu a mão para cumprimentá-lo. Ele era alto, os cabelos escuros e bem penteados, os olhos castanhos, sobrancelhas grossas, pele morena. Usava traje social, mas mesmo assim era possível perceber que tinha um porte atlético. Sentiu a mão grande cobrir a sua e apertar com firmeza. Seus olhos encontraram os dele e por um momento a hipnotizaram, até que ele falou, tirando-os do transe.
- Venha comigo ao meu escritório. - Henrique falou tentando disfarçar seu encantamento. Percebeu sua voz mais rouca, o breve aperto de mãos e o olhar intenso foram suficientes para o excitar.
Safira o seguiu em silêncio, estava exausta do dia e sem vontade de conversar.
- Aqui está sua mala, senhor Fernandes. - Ela fala estendendo a mala em sua direção.
Henrique a encarou estreitando os olhos. Ela era ainda mais bonita pessoalmente. Os olhos de um azul profundo, sobrancelhas expressivas, uma boca rosada e bem desenhada, os cabelos pretos ondulados caindo sobre os ombros. Ela vestia uma calça jeans azul escuro, sandálias baixas e uma blusa regata verde escuro, com um pequeno decote, mas que delineava os fartos seios dela. Era com certeza uma das mulheres mais lindas que já tinha visto.
- Porque demorou tanto? Eu fiquei mais de duas horas no aeroporto...
Safira o interrompeu, chegando ao seu limite. O homem era bonito, sexy, milionário, mas era um arrogante também. - Bom, pelo visto se vingou não é mesmo?
Henrique podia ver o fogo nos olhos dela.
- Eu saí de casa antes das 9 horas da manhã! - Ela falava gesticulando as mãos. - O avião atrasou, depois deu problema, teve que fazer um pouso sei lá onde, e por fim quando cheguei, tive que vir aqui!
Henrique pensou em falar, mas ela não lhe deu tempo. - O senhor me fez esperar por quase duas horas! Então tenha-se por satisfeito e vingado. Pegue sua mala e me dê a minha! - Safira não estava para conversas e o homem ainda queria questioná-la? Era o fim dos tempos mesmo!
Henrique pegou a mala, esforçando-se para não rir. Era divertido ter uma mulher não abaixando a cabeça para ele. Qualquer outra no lugar dela, pediria perdão... - Está ali a sua. - Ele falou apontado para um pequeno sofá ao lado.
Safira se dirigiu para o sofá e apanhou sua mala. Estava pronta para sair pela porta quando ouviu-o dizer. - Espere, deixe-me conferir se todas as minhas coisas estão aqui!
Henrique observou de soslaio ela ficando vermelha, ele podia jurar que ela pularia em cima dele, mas não como ele estava acostumado, isso podia apostar.
- Tudo aí? - Safira falou por entre os dentes odiando aquele homem.
- Tudo certo. - Ele disse a encarando de maneira séria.
Safira virou as costas e seguiu em direção ao elevador. Não se lembrava mais nem da fome que a consumia, só conseguia pensar em quão mesquinho um homem podia ser.
- Eu vou te levar até a saída! - Ouviu a voz de Henrique atrás de si e sentiu um arrepio na espinha.
- Tem medo que eu vá roubar algo de sua magnífica empresa? - Disse sarcástica revirando os olhos.
- De forma alguma, só cortesia mesmo.
Safira o encarou séria e viu um certo divertimento no rosto dele, isso a deixou mais irritada. Então quer dizer que agora sou uma palhaça! Pensou indignada. Entrou no elevador em silêncio, enquanto o homem se parou a seu lado. Apertou o botão do térreo e aguardou.
Estavam no oitavo andar, de dez, era bastante coisa, visto que não suportava mais a presença dele. Respirou fundo, buscando acalmar-se, afinal, estava tão irritada pelo dia estressante, não era culpa exclusivamente dele. Sentiu o perfume intenso dele e apreciou. Há tempos que não gostava de um perfume masculino, tinha pego nojo, através disso ela sabia que um homem se aproximava, e isso era motivo de medo. Mas devido a liberdade que obteve, começou a voltar a sentir os prazeres da vida. Deu um meio sorriso, pensando nisso.
- Posso saber o motivo do sorriso? - Henrique observava a mulher em silêncio. Ela parecia estar em outro mundo, os olhos parados vivendo outro momento. O perfume dela se espalhava pelo elevador, o deixando levemente tonto, se ela tentasse o seduzir, ele não reclamaria. Pensava em como puxar um assunto quando a viu sorrir levemente.
Safira bufou e apertou o botão do térreo novamente.
- O elevador não anda mais rápido pela quantidade de vezes que apertamos os botões. - Henrique fala, no momento em que sente um socalão, e o elevador para. - O que você fez? - Ele pergunta a encarando.
- Eu só apertei o botão, isso não faz o elevador parar. - Safira respondeu se segurando nas paredes laterais do elevador, enquanto desciam mais um pouco e por fim paravam novamente.
- Mas que droga! - Henrique pega seu celular do bolso.
Safira fica o encarando enquanto o ouve falar com alguém no telefone.
- E aí? O que aconteceu? - Ela pergunta de cenho franzido.
- Não sei. - Ele escora-se na parede.
- Como assim não sabe? - Safira fala alto demais, não acreditando na calma de Henrique.
- Vão chamar os técnicos, deve ser algum cabo com mal contato ou sei lá o que.
Safira choraminga enquanto se escora na parede e escorrega até sentar-se no chão. - Era só o que me faltava. Presa no elevador.
Henrique não disse nada. Quis dar uma de Don Juan e acabara preso no elevador com uma azarada. - Você só se mete em confusão né? - Ele fala se sentando no chão ao lado dela.
- Ah cala a boca! - Safira tirou seu celular da bolsa lateral que carregava. Não tinha mais paciência para olhar na cara dele.
Depois de cerca de meia hora Safira não aguentava mais ficar presa ali dentro. - Não te falaram mais nada? Estão arrumando essa porcaria?
Henrique estava apreciando o silêncio ao lado de Safira. Ela suspira ou bufava vez ou outra, mas seu perfume e presença compensavam. Mas vê-la reclamando o deixava mais indignado. Afinal estavam presos no elevador não era por culpa dele! Ela que apertara aquele botão desesperada. E ele nem a tinha culpado, para não gerar mais discussão!
- Vou ligar novamente. - Disse seco, enquanto via a mulher começar a caminhar de um lado para o outro.
O calor no elevador estava ficando cada vez pior, Safira, sentia uma leve tontura. Já não sabia mais se era pela falta de ar, pelo calor, ou pela fome que a estava matando.
Henrique tirou o casaco que usava, o calor no elevador estava aumentando, o ar condicionado tinha sido desligado e as luzes também, mantendo apenas as luzes de emergência. Sentia o suor escorrer pelas costas, mas estava mais preocupado com Safira. Ela parara de resmungar, e se abanava sem parar, enquanto o suor escorria por sua testa.
- Você está bem? - Perguntou se aproximando dela, se arrastando para sentar a seu lado.
- Estamos aqui há mais de uma hora...
- Eu sei. - Disse averiguando mais uma vez o celular.
- Eu estou sem comer desde que saí de casa... - Nesse momento, ouviram um barulho da abertura de cima do elevador. - Ai meu Deus. - Safira se levanta meio tonta e olha em direção ao alçapão do elevador se abrindo.
- Olá, tudo bem? - Um bombeiro fala de cima.
Henrique franze o cenho. - O que houve? Porque precisaram chamar os bombeiros?
- Foi uma falha elétrica, vai demorar um pouco mais para arrumar, por isso nos chamaram para salvar vocês. - O bombeiro riu de sua brincadeira.
- Ah, ta ok... - Henrique averiguaria isso. Como é possível um erro desse? E se desse um acidente pior? Teria de conversar com o pessoal técnico. Ajudou Safira a se prender na corda do bombeiro para ser retirada pela abertura do teto primeiro.
Safira, sentiu as mãos do bombeiro em sua cintura e seu corpo se encolheu. Ele tinha um cheiro forte de perfume misturado ao suor, que a fez sentir uma náusea. Respirou fundo e cambaleou para fora do buraco escuro do elevador.
Henrique saiu logo atrás de Safira, viu quando ela se escorou na parede e se sentou no chão. Um bombeiro a abanava, ela estava pálida e suava, correu em direção a ela.
- O que houve? - Virou para uns funcionários na volta. - Tragam água para ela! - Ordenou severamente, enquanto corriam para atendê-lo.
Safira estava tonta, com calor, seu estômago se revirava, e sentia uns tremores devido ao suor frio.
- Beba... - Ouviu a voz de Henrique, enquanto colocavam água em sua boca. Ela bebeu alguns goles e conseguiu ir se acalmando.
- Eu estou há muito tempo sem comer, acho que baixou minha glicose ou minha pressão, não sei...
- Então vamos comer, venha... - Henrique ajudou-a a se levantar.
- Obrigada, mas vou pro aeroporto e como por lá. - Disse retirando o braço da mão dele, ainda meio tonta.
- De jeito nenhum! Me sinto responsável por essa situação. - Henrique se preocupara com ela, estava muito pálida e trêmula. Não fazia bem ficar tantas horas sem comer, além do mais, ainda estava curioso para saber mais sobre a mulher com nome de pedra preciosa.
Safira não discutiu, não tinha mais forças, apenas assentiu enquanto ele a encaminhava para o estacionamento.