A todos e todas que um dia souberam fazer de suas dores, aprendizado. É sempre tempo de aprender a ser melhor.
A Maria Flor, minha bobinha e meu melhor acontecimento.
Ao Hop, meu gato siamês bagunceirinho, e aos doces roubados da geladeira, meus grandes companheiros de escrita nas madrugadas.
A Deus.
Aos meus pais, Ananias e Tânia; irmão, Ananias Junior (meu leitor-beta mais sincero), e toda minha família, por me incentivarem à leitura e escrita desde a primeira infância. Os primeiros "culpados"!
Aos meus professores (todos e todas!), do jardim de infância à faculdade.
Aos amigos e colegas de trabalho, que sempre deram força, com palavras positivas e broncas. "Escreve sim, termina logo, sua procrastinadora, ansiosa(o) pra ler!" rs Em especial, Matheus Merlim e sua mãe, tia Andrea; Elena Wesley, Thuany Dossares e Aretha Dossares (obrigada pelo laboratório em direito médico e civil haha); e Lia Oliveira, prima, irmã e ser humano inspirador.
A todas as Cleópatras do século 21, que vencem diariamente o grande desafio que é ser mulher.
Violência contra a mulher é crime. Denuncie 180.
Prólogo
Sexta-feira à noite, 35 graus, Lapa. Uma rotina de pelo menos oito anos. Naquela noite, o Braga tinha decidido parar de beber pela quadragésima nona vez, e a Claudinha, fingindo que acreditava, também jurou que dali em diante não fumaria mais. Faltavam alguns minutos para meia-noite e o bar já estava abarrotado. Comecei a pensar que em breve teríamos que achar outro lugar para jogar conversa fora. Além do tumulto, a mesmice de tantos anos começava a me entediar.
- E aí, Cleo, faz dupla comigo hoje? - Murilo chamou, enquanto afiava com giz um dos tacos.
- Não tô pra sinuca hoje. Deixa pra próxima. - respondi e pisquei.
Assim como com aquele bar, fazia tempo que meu encanto pela sinuca tinha se perdido também. Talvez eu estivesse ali muito mais por conveniência do que por prazer. Encontrar os colegas, debater coisas inúteis como trânsito, salários, clima. Falar mal do chefe. Resumindo, era o ponto de refúgio depois de uma semana estressante. Mas o que deveria ser uma fuga da rotina estava tão previsível que nem eu sabia mais o que fazia ali. Decidi ir pra casa mais cedo, não deixaram.
- Que isso, nem completou sua cota da noite! - Braga falou, com a voz já embargada pelo chopp – Sua garrafa de vinho por uma torre de chopp, esqueceu? Olha aí, não tomou nem uma caneca!
- Cleo e sua mania de vinho. Se bebesse cerveja, já tinha descido umas cinco latinhas. Fica de frescura.
Murilo não queria perder o posto de mais implicante do grupo, principalmente se a implicância era comigo. Se meu humor estivesse em cem por cento, talvez eu discursasse mais uma vez sobre o porque preferia vinho à cerveja. Mas todos os presentes já sabiam a minha história de cor, e ser repetitiva nunca foi a minha praia.
- Cleo está precisando é que o namorado a ponha nos eixos. - instigou Claudia, sorrisinho de lado, fazendo aspas com as mãos.
Explodi. Ou melhor, fingi que explodi para poder ir embora.
- Que é? Vocês não têm suas vidas pra cuidar não? Tsc. - Levantei da cadeira, larguei o dinheiro na mesa e meti a mochila nas costas. - Tô com dor de cabeça, vou pra casa dormir.
Todo mundo estranhou. Eu não era de explodir. Quando agia assim, era na brincadeira e logo voltava ao normal, me entregando às risadas. Mas dessa vez o tédio e a sensação de que algo ruim estava para acontecer estavam tão insuportáveis, que eu preferi desmentir a brincadeira só no dia seguinte. Queria ir pra cama mais cedo, queria ver o Bingo. Queria sumir.
Capítulo 01
O dia mais esperado da semana por todos os assalariados. O dia do lixo, da paz interior, exterior, multilateral. O dia do descanso divino. Sábado. Infelizmente todas essas denotações universais sobre o sábado nunca se aplicaram à minha realidade. Quando o dia resolve dar o ar da graça antes do meio-dia, então...Sei que o resto do fim de semana será um inferno. E mais uma vez não me enganei. Lucas tinha se levantado para trabalhar no meio da madrugada como de costume. E como de costume, tinha esquecido a chave e estava feito louco tocando seguidamente a campainha para me acordar. Ou foi o que pensei.
- Porra, Lucas, outra vez ess.. Você não é o Lucas. - digo, atordoada com a imagem inesperada do homem à minha frente.
- Não, não sou.
Fico sem ter o que dizer. Toda a revolta por ter sido acordada em plena manhã de um sábado sagrado é substituída por uma onda de ansiedade. Merda, esqueci completamente que ele viria hoje.
- Tá muito ocupada? - ele tenta interromper o silêncio mortal entre nós.
Bom, é sábado de manhã, o apartamento está revirado, minha cara amassada e estou vestindo um micropijama. Dá pra sobreviver.
- Não. Ocupada, não. Na verdade, não sei. Acabei de acordar, não costumo raciocinar bem antes de meio-dia. - respondo, sincera.
- Desculpe.
- Tá. Tudo bem.
- ...
Um longo minuto se passa enquanto nos encaramos. Apesar de achar impossível que ele queira entrar depois de me ver neste estado, e torcer mentalmente para que suas desculpas se estendam a um "Acho melhor vir outra hora" ou ainda "Acho melhor não vir nunca mais", ele parece irredutível, com uma das mãos apoiada no batente da porta. Ao passo que tento disfarçar o nervosismo, segurando firme a porta entreaberta, ele permanece na posição inicial, aparentemente confortável. Para completar, solta um risinho, prolongando o clima martirizante entre nós. O que pode ele querer agora, depois de tantos anos? Que o convide para entrar e tomar um cafezinho? Poupe-me.
- Então? - questiono, sem me atrever a soltar a porta.
- Posso entrar? - ele indaga, com firmeza na voz.
Pronto, a pergunta que eu mais temia. Como esquecer do seu atrevimento sem limites? Como esquecer de como ele sempre acabava dominando o território e o diálogo sem que eu sequer percebesse? Foi há tanto tempo, mas bastava meio segundo daquele olhar sobre mim que é como se não tivesse passado uma semana. Uma avalanche de momentos ótimos e péssimos vêm à tona para me confundir.
- A pergunta é: eu deveria? - jogo, tentando manter a postura.
- Não, não. A pergunta é: você quer? Prometo não demorar mais que vinte minutos.
- Parece pouco, depois de doze anos. - afirmo, oferecendo o melhor do meu tom ácido.
E então ele ri mais uma vez. De fato, irredutível. Sempre foi. Um dos poucos, talvez o único, que sempre soube me tirar do estado de convicção, fazendo pouco caso do meu jeito irônico.
- Eu avisei que viria. Não pode alegar que está surpresa. - ele joga na minha cara, sem piedade.
Prevendo que não posso fazê-lo desistir, dou-lhe as costas, deixando a porta aberta. Nem perco meu tempo em dizer "Não repare a bagunça", porque realmente não me importo. Como se ele já não me conhecesse o bastante para saber dos meus hábitos de desorganização, seja em casa ou na vida.
- Pode ligar a tevê, vou só trocar de roupa. - falo em tom de tédio, torcendo falsamente para que a "visita" dure o tempo prometido de vinte minutos.
Ao ir para o quarto, tento manter meus neurônios no lugar. É muita informação para as nove da manhã de um sábado. Ainda mais para um sábado de ressaca. Logo eu, a "rainha da memória", fui esquecer dessa visita inconveniente. E para quem é, ele foi ridiculamente pontual, o que me dá mais raiva.
- Vamos lá, repassando. Ele é um babaca do passado que provavelmente está na pior e veio pedir uma ajuda. Ou ainda, ele é um babaca do passado que passou por um acesso de insana curiosidade em saber por onde a vítima dele andava. E acabou encontrando, ao que parece. Pronto, melhor encarar do que fugir. - sorrio satisfeita para o espelho após ter trocado de roupa, escovado os dentes e improvisado um rabo de cavalo. Um short de tecido preto, uma blusa simples e chinelos estão mais do que ótimo para a visita que é.
Volto para a sala e lá está ele sentado no sofá, apoiado nos joelhos, cabisbaixo, com o meu cachorro, o Bingo, rodeando suas pernas. Ao sentir a minha volta, ele levanta de súbito. Atitudes de alguém apreensivo, ou posso estar enganada?
- Não quis ligar a tevê? - escolho uma pergunta aleatória para iniciar o inevitável.
- Nada de bom passando nesse horário. - ele diz, em tom presunçoso. - E realmente não quero demorar.
- Ótimo. E então? - repito minha pergunta já tão conhecida em abertura de diálogos.
- Bom, você me conhece. Eu costumo ir direto ao ponto, então...
- É o que eu espero. - exclamo, decidida, e dou-lhe um sorriso amarelo.
- Precisava te ver - ele soltou.
Confesso que fico surpreendida. Uma frase simples, superficial, mas com certeza direta, e que eu jamais poderia prever. Precisava me ver? Por que? Para que? Desde quando?
- Sei lá, não me pergunte porque ainda. Só precisava te ver - ele me surpreende mais uma vez ao responder ao meu questionário mental. - Sei que pode parecer tarde, mas acho que você merece uma explicação - ele segue, escolhendo bem as palavras.
- Jura? Humm.
- É sério, não banca a irônica, vai. É como dizem, antes tarde do que nunca. - ele mantém a voz serena, como se temesse alguma reação explosiva da minha parte.
Se eu já não tinha assimilado sua aparição repentina no meu apartamento, agora mesmo que não conseguia entender. O predador nato de anos atrás está diante de mim, dizendo que mereço uma explicação, numa completa postura passiva. Qual foi a parte que eu perdi?
- Vem cá, é uma piada? - pergunto, não conseguindo me segurar.
Ele arregala os olhos, como se a minha pergunta fosse a mais descabida de todas.
- Eu viria aqui, a essa hora, se não fosse sério? Raciocina. - ele retoma o tom presunçoso, enquanto arqueia uma sobrancelha, oferecendo aquele olhar.
- Ah, de você eu espero tudo - desabafo, evitando olhar diretamente em seus olhos - só quero entender, por que agora? Todas as mulheres do país resolveram te dar um gelo? Tá entediado, ou o que?
Então, ele volta a sentar-se, enquanto eu permaneço de pé, os braços cruzados, completamente tensa.
- Olha, não é nada disso. Você pode chamar de crise de consciência, de vergonha na cara, o que você quiser. Mas eu só saio daqui hoje se você me desculpar pelo que eu fiz e aceitar...é... - ele gagueja até ter coragem de finalizar o pedido - jantar comigo!
Fico me perguntando onde será que as câmeras estariam escondidas. A grande maioria das pessoas pode achar que não tem nada demais um "velho conhecido" ressurgir das cinzas do esquecimento e chamar para sair, numa boa. Realmente, eu até concordaria que não há nada demais, exceto pelo fato de que esse velho conhecido chame-se Victorio e tenha sido responsável pelas marcas da dor de um passado não tão distante.
Solto todo o ar dos meus pulmões, numa tentativa de me equilibrar emocionalmente e não voar em cima dele. Sou acometida por um misto de desprezo e compaixão que me deixa ainda mais confusa, se é que isso seja possível. Em nome de todas as vezes que o amaldiçoei, xinguei verbal e mentalmente, em nome de todo choro reprimido e suprimido durante exatos doze anos, porque não entrar mais uma vez em seu jogo e ver até onde isso vai parar?
- Ok - digo, apenas.
Seus olhos arregalados de surpresa quase me fazem rir, a não ser pelo resquício de ódio que ainda faço questão de guardar em algum canto. Ele se levanta e de um jeito bem autêntico se aproxima de mim, aparentemente sem intenções extras.
- Só...ok? Por me perdoar ou por aceitar sair comigo?
- Pelo jantar. Essa história de perdão, francamente, é ridícula. - cuspo.
Ele pigarreia e coça de leve o topo da cabeça, um gesto típico de um Victorio que mede as palavras antes de soltá-las.
- Tudo bem. Não sou ansioso. - ele titubeia ao receber meu olhar de reprovação - Não mais, acredite.
- Ótimo. Às oito, hoje, no The Carpa. Agora você pode ir.
É claro que ele não esperava que eu dissesse onde seria o tal jantar. Acostumado a ter o controle, no mínimo já tinha em mente o dia, hora e local, mas eu não poderia perder a chance de aproveitar a minha posição daquela "que perdoa". Enquanto a minha sanidade estiver resguardada, quem dá as cartas sou eu, penso. É isso ou ele volta para o pretérito buraco das lembranças de onde ele nunca deveria ter saído.
- Tudo bem. - Victorio repete, em seu estranho modo resignado.
Quando ele sai e a porta é trancada, meu cérebro parece estar fora de órbita. O que foi isso? O vilão do meu passado infernal esteve na minha sala de estar pedindo perdão e me chamando para sair. Nem em dezenas de séculos uma cena como essa poderia ser imaginada pela minha mente. Nem se uma cartomante do Paraguai dissesse que isso poderia acontecer, eu acreditaria. A surpresa e a incredulidade foram tamanhas que eu mal tive tempo de pensar na consequência de ter esse homem ao meu convívio outra vez. "Por pior que a pessoa seja ou aparente ser, ela tem o benefício da dúvida", a agente Diana repetia incansavelmente na sala de operações na delegacia. Mas isso não era tão aplicável em crimes em flagrante, por exemplo. Minha situação com Victorio poderia ser considerada um crime em flagrante, com total isenção de benefício da dúvida. Enganar, abandonar e brincar com os sentimentos de alguém pode não ser crime, mas na minha concepção sempre foi tão desprezível quanto.
Procurando afastar tantos devaneios confusos, me atiro de volta à cama, na tentativa de recuperar o sono interrompido. Afinal, ainda era 10h15, e não fosse por essa visita incidental, meu descanso se estenderia até uma da tarde, no mínimo. "Eu viria aqui, a essa hora, se não fosse sério? Raciocina." Tudo que consigo pensar é por que, por que, por que? Logo agora que meu relacionamento com o Lucas estava entrando nos eixos e cogitávamos até morar juntos em definitivo. Por que? Enrolo-me nos lençois na busca por uma resposta, mas tudo que recebo em troca é insônia e silêncio. E aquele olhar...
Não sei onde minha mãe estava com a cabeça quando me deu esse nome, se é que foi ela quem deu. Cleópatra. Segundo uma rápida pesquisa no oráculo Google, a tal Cleópatra original foi a última rainha do Egito Antigo e aos 17 anos já era admirada por suas qualidades de estadista, sua inteligência, energia, além de paciência e tenacidade. O que temos em comum além do nome? Definitivamente nada. Ou talvez o detalhe da idade possa ser considerado.
Se aos 17 anos, a superpoderosa Cleópatra já tinha um reino em seu poder, no meu décimo sétimo aniversário eu também fui marcada por uma lição: a felicidade plena não existe.
Catorze anos antes...
- Cleo! Aonde você vai? - Linda me gritou, esbaforida.
- Hoje eu tenho prova na faculdade.
- Tem certeza que você não quer ir a essa entrevista comigo? O relógio tá correndo contra nós. - Linda se referia ao tempo que nos restava no orfanato. Ambas faríamos dezoito dali a pouco mais de um ano e precisávamos de qualquer emprego para ter onde ficar.
- Você vai e veja se é coisa boa. Dependendo, eu vou depois. Não posso perder essa prova. - eu disse, sem parar de andar na direção do ponto de ônibus. A viagem era demorada de Petrópolis ao centro do Rio e um ônibus perdido era uma aula perdida. Ouvi Linda resmungando nas minhas costas, provavelmente reclamando por eu nunca acompanhá-la nas entrevistas de emprego.
Somente aquele mês, era a quinta entrevista. E sempre a mesma coisa: padaria, lanchonete, caixa de mercado, garçonete. Eu coloquei na cabeça desde os 12 anos que correria até o fim atrás do meu sonho de ser delegada e não seria agora que eu mudaria de ideia. Falassem o que quisessem, ao menos foi essa a ideologia que me ajudou a ingressar na universidade de Direito e me tornar a única estudante universitária de todo orfanato. Ao contrário do que isso deveria significar, ser a única interna universitária não foi fácil. Descrédito e inveja eram os sentimentos de lei tanto das outras internas quanto das irmãs. Pois é, o orfanato onde passei toda minha infância e adolescência além de tudo era católico. Desses bem católicos mesmo, onde esculturas grotescas e mulheres vestindo hábitos são peças-padrão do cenário. Não preciso nem dizer que não fui influenciada pela religião. Uma oração diária ou duas para deixar as freiras satisfeitas, nada mais.
Mas voltando à Linda e a entrevista de emprego, daquela realidade eu queria estar o mais distante possível. Se era pra ser invejada por estar cursando Direito em outra cidade, que eu fizesse um trabalho bem feito.
E foi o que fiz. Naquela prova e nas várias outras que se seguiram, eu fiz questão de ser a melhor. Meu afinco era tanto que enquanto os outros alunos postergavam as matérias para que tivessem mais tempo livre, eu seguia na direção inversa, acrescentando cada vez mais disciplinas para que me formasse o quanto antes. A minha rotina se resumia a tomar café, ir para aula, passar a tarde na biblioteca, pegar condução de volta à Petrópolis no início da noite, dormir no orfanato e repetir todo o processo no dia seguinte. Toda dedicação era pensando apenas em mim mesma. Cresci acostumada a não esperar incentivo ou adulações. Por mais carinhosa que uma freira pudesse ser, nunca consegui associá-las à uma imagem materna.
E por falar em mãe, minhas lembranças sobre ela sempre foram vazias e impalpáveis quanto um fantasma. Afinal, eu mal completara cinco anos quando ela faleceu. Só me recordo que em poucos dias após o fato, vim parar neste orfanato, ironicamente intitulado de Lar da Esperança, de onde não sairia mais até completar a maioridade.
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A primeira vez que o vi foi numa praça em São Cristóvão, zona central do Rio de Janeiro. Um casal de amigos tinha me convencido a mudar o percurso diário que eu cumpria religiosamente. Em vez de passar a tarde inteira estudando na biblioteca da faculdade, carreguei o exemplar do Código Penal – pesado como um tijolo – para a praça e fiz companhia a Claudia e Caio, duas chaminés ambulantes. Preciso registrar que a frequência com que eles fumavam maconha me fazia duvidar de suas capacidades de serem profissionais decentes ou qualquer outra coisa no futuro.
Até aquele momento eu vinha mantendo com eles nada mais do que um "coleguismo" superficial, mas aceitar um convite de desvio de trajeto uma vez na vida não pareceu tão errado.
O clima estava agradável e mal percebíamos a tarde passar, considerando que era uma época em que ainda podíamos ficar despreocupados numa praça no Rio de Janeiro, seja estudando ou fumando ou fazendo qualquer outra coisa. Claudia tinha acabado de entrar novamente em uma discussão sobre as brechas da constituição federal. Ela adorava discussões, principalmente a partir do terceiro ou quarto cigarro da erva. Apesar de uma palavra ou outra mal pronunciada seus argumentos às vezes até que faziam sentido.
- Os advogados existem para tornar as brechas na Legislação úteis - filosofou Claudia.
- Dê um exemplo de brecha então - desafiava Caio, alongando a palavra "breecha", deixando em evidência seu estado alterado.
Claudia bateu a ponta do último beck na mesa de cimento, antes de arrumar um modo de ganhar a discussão elegantemente.
- Ainda estou estudando. Quando me formar saberei todas. Todas as brechas - disse.
Mal ela terminou a frase, nós três fomos sobressaltados por um barulho estrondoso de carro velho. Desviei meus olhos do livro na direção do som e deparei com o rapaz no seu estado de nervos mais elevado.
- Que cacete! Lata velha inútil! Vai se foder! - ele chutava a porta do veículo de um modo realmente assustador.
Claudia e Caio já tinham voltado ao estado de transe. Ou seja, o estado normal deles, completamente alheios e indiferentes a qualquer situação. Mas eu não conseguia parar de olhar aquela cena. Um cara tão jovem e tão estressado. E de boca tão suja. Por mais que eu não fosse das mais beatas, não estava acostumada a um linguajar tão tosco e vulgar. Nem mesmo o casal ao meu lado tinha esse hábito. Aquilo me fascinou de imediato. Fechei o livro e debrucei sobre a mesa da praça para absorver melhor a cena. Agora ele levantava o capô enquanto bufava freneticamente.
- Era só o que faltava! Puta que pariu. - ele passava as mãos nos cabelos, completamente transtornado.
Não precisei de muito para saber que ele nada entendia de carro, talvez o grande motivo de estar tão nervoso por nada. O velho gol branco de duas portas permanecia indiferente às suas reclamações, com maior cara de inocente. Depois do estrondo, a "lata velha" parecia não querer ligar e ele tinha parado bem no meio da rua, por sorte, nada movimentada.
O rapaz olhou para os lados, colocou a mão nos bolsos, bufou. Não sabia o que fazer. Até que em mais uma busca desesperada em qualquer direção, ele encontrou o meu olhar. É claro que eu desviei na hora. Estava ali, estática, testemunhando a cena há o que, três minutos? Seu olhar sobre mim não durou mais que dois segundos, mas foi o suficiente para me queimar. O que eu esperava? Que na presente situação ele acenasse com a cabeça ou desse tchauzinho? É possível que ele tenha me xingado mentalmente já que verbalmente não deu para notar. Eu precisava me retratar do constrangimento de alguma forma.
- Aonde vai? - Caio perguntou, demonstrando um interesse que não convenceu muito.
Não respondi, apenas continuei caminhando lentamente na direção do nervosinho. Quando cheguei próximo o bastante, ele se apoiava no capô aberto, dando a entender que procurava por alguma coisa, alguma peça que talvez estivesse mal encaixada. Seu semblante confuso constatou o que eu já previa: ele não entende nada mesmo de carros.
- E aí, quer uma ajuda? - perguntei, com as mãos alocadas nos bolsos traseiros da calça jeans.
Ele nem sequer olhou pra mim, mas deixou de brinde um sorriso de lado. Puro escárnio.
- Achou alguma coisa de errado no motor? - insisti, disposta a fazê-lo engolir aquele maldito sorrisinho.
Para a sorte dele, a rua na qual o carro tinha brecado e todas as outras que rodeavam a praça estavam praticamente desertas. Um pouco mais para o centro do bairro e toda a situação teria se tornado uma dor de cabeça real, com direito a buzinas e engarrafamento. E também para a sorte dele, eu estava ali, modéstia à parte. Uma pena que ele demorou um pouco para entender.
- Nada demais, essa porcaria só não quer pegar - ele soltou, enquanto fechava o capô e revirava os olhos.
- Depois daquele estouro, se não bateu o motor, pode ter sido só o cano de descarga que furou - eu disse, cruzando os braços.
Ele me olhou literalmente dos pés à cabeça. Mas não aquele olhar de admiração, paquera, desejo. Não que eu soubesse discernir tão bem os olhares. E não que eu já tivesse sentido admiração, paquera ou mesmo desejo por alguém. Mas aquele olhar foi fácil de traduzir. Era de desprezo. Desprezo por eu surgir sem ser chamada – mesmo que fosse para oferecer ajuda – desprezo por eu ser uma figura feminina que muito certamente entendia mais de carros do que ele.
- É mesmo? Descobriu tudo sozinha? Parabéns - ele disse, ratificando a minha opinião sobre ele ser um completo idiota.
- Na verdade, eu praticamente cresci dentro de uma oficina. Costumo identificar barulhos de longe. E o estrondo foi do cano.
Ele me olhou novamente, desta vez, bem lá no fundo dos meus olhos, ao ponto de enrugar um pouco a testa. Antes que o desprezo passasse a nojo, decidi recuar para a minha leitura e deixá-lo sozinho com sua lata velha e sua arrogância. A tarde já caía e eu tinha pouco menos de uma hora para pegar o ônibus de volta para o orfanato. Claudia e Caio sussurravam quando eu me sentei de volta à mesa de cimento.
- O que você disse pro bonitão? - Claudia implicou.
- Bonitão? Onde? Só enxergo um jegue com sua carroça empacada - cuspi, reabrindo o Código Penal na página onde tinha parado.
- Levou um fora, entendi. Essa sua roupa também não ajuda muito, amada - Claudia disse, enquanto enrolava mais um beck.
Dei uma olhada em mim. Não vi nada de tão mau nas minhas roupas, exceto que elas não estavam nada atraentes, claro. Uma calça jeans um pouco larga, uma camisa branca surrada e um tênis mais surrado ainda compunham meu traje diário. Com o dinheiro da ajuda na oficina não dava pra fazer muito. Os longos cabelos pretos e lisos sempre amarrados num rabo de cavalo no topo da cabeça me davam um ar de colegial. E só. Sem maquiagem, brincos, pulseiras. Apenas um anel de prata muito velho deixado de herança pela minha falecida mãe.
Como resposta a Claudia, dei meu silêncio. Ela e Caio voltaram aos seus momentos de viagem seguidos de filosofias incabíveis enquanto eu tentava me concentrar na leitura, mediante a curiosidade com a forma com que o sabichão arrogante iria solucionar o problema do carro. Cinco, dez, quinze minutos se passaram e nada. Apenas sons de portas, capô e mala traseira abrindo e fechando. Resignado, cansado e suado da cabeça aos pés, o nervosinho parecia ter mudado de ideia e caminhou na minha direção. Resisti até o último momento de erguer os olhos do livro para ele, até que ele o tomou das minhas mãos. Ofegante e com aspecto bastante abatido, ele perguntou:
- Então, o cano de descarga furou. E quanto ao carro não dar a partida?
- Imagino que em São Cristóvão exista um serviço chamado reboque. Me devolve o livro - eu falei, impaciente.
- Não posso pedir pra rebocar, o carro nem é meu.
Acho que arregalei os olhos o bastante para ele se explicar tão rápido.
- É do meu pai. Preciso pelo menos conseguir estacionar em um lugar decente - comentou, alheio ao olhar de admiração de Claudia e de tédio de Caio.
- Me devolve o livro.
- Ué, você não "praticamente cresceu dentro de uma oficina?" - ele falou, fazendo as aspas com as mãos, bancando o sarcástico.
Se tem uma coisa que eu posso dizer que não me arrependi, foi de ter ido ao encontro dele oferecer minha ajuda. Não, não sou masoquista, nem mesmo curto caras arrogantes. Aliás, nessa época eu não curtia tipo nenhum de cara. Eu só queria estudar e arrumar um jeito de sair do melhor modo possível do orfanato. Pensar em homens atrapalharia esse meu projeto quanto mais me relacionar com eles. Mas sabe aquela velha história de que algo te leva a fazer alguma coisa, ainda que você não queira ou não saiba que quer? É clichê, mas é a única explicação para eu ter caminhado aqueles malditos oito passos em direção a ele naquela tarde, depois da cena de revolta com o carro.
- Já ouviu falar em ligação direta? - falei, tomando o livro da mão dele.
Hoje
- Cleo, você não me contou nada sobre jantar fora hoje à noite.
- Estou contando agora. - respondo, friamente, enquanto procuro a chave do carro pela sala. Lucas tinha toda razão de ficar encanado. Eu nunca saía sábado à noite. Pelo menos nunca sem planejar ou avisar.
Era 19h20, Lucas tinha acabado de chegar de mais um plantão cansativo no Hospital das Clínicas e não entendeu nada ao me ver pronta para sair. Por um momento me senti culpada de não tê-lo avisado antes, nem que fosse via mensagem de celular. Mas as explicações ficariam para depois. Precisava achar as chaves e sair o quanto antes. Sempre odiei andar atrasada.
- Só falta o Bingo ter engolido as chaves agora. Bingo! - grito, andando apressada pelos cômodos do apartamento. O barulho que meus saltos fazem enquanto ando ajuda a deixar mais evidente toda minha euforia por estar atrasada.
- Vai voltar a tempo da maratona? - Lucas se referia ao nosso hábito sabático de assistir dezenas de episódios seguidos de séries policiais na TV.
- Não sei, não precisa me esperar. - respondo novamente sem olhar para ele, numa vã tentativa de amenizar minha culpa. É claro que esse clima não se manteria por muito tempo.
- Na segunda gaveta. Como sempre. - meu namorado me entrega as chaves, sem conseguir disfarçar seu aborrecimento.
Nosso lema sempre foi "relacionamento sem amarras". Não do tipo amizade colorida ou relação aberta, com direito a envolvimento com terceiros. Apenas um namoro sem cobranças. Vidas compartilhadas buscando o prazer, o engrandecimento. Bem filosófico, utópico até. Mas foi o que combinamos e estava dando certo por quase oito anos. Pelo menos até agora.
- Obrigada. - digo, desta vez olhando em seus olhos, e lhe entrego a expressão mais empática que consigo, antes de sair e fechar a porta atrás de mim.
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O The Carpa estava lotado, como eu já esperava. Era um dos motivos de eu ter escolhido esse lugar. Os outros motivos eram que o estabelecimento tinha um perfil na medida: não era um boteco desleixado mas também estava longe de ser um restaurante refinado. Um lugar ideal para um jantar e uma conversa, não um encontro.
Avistei Victorio assim que encontrei uma vaga para estacionar. De pé, na porta do bar, ele fingia mexer no celular para passar o tempo, e às vezes olhava para os lados, um pouco apreensivo. Ainda faltavam cinco minutos para as oito, o que também me fez estranhar seu excesso de pontualidade. Ele estava levando esse retorno repentino a sério mesmo.
Oi.
Ah, oi. Pensei que fosse chegar do outro lado, por isso não te vi. - ele começou se explicando e abriu um sorriso largo demais para o meu gosto. Ao beijar meu rosto, pensei por alguns milésimos de segundo em não retribuir. Eu ainda me sentia ressentida demais com ele até mesmo para fingir qualquer gentileza.
Hum. Então, vamos entrar?
Sem responder, ele apenas se virou e abriu a porta de vidro, me dando espaço para passar primeiro. Ok, confesso que minha postura de quem estava por cima na situação era uma farsa total. Eu estava muito nervosa e principalmente curiosa para saber o que ele tinha a me dizer. Foram muitos anos no limbo. Muitos anos sem trocar uma palavra sequer, um telefonema, uma mensagem, nada. Muito tempo sem saber o que ele estaria fazendo ou com quem estava vivendo. E do nada, como uma fênix, ele reaparecia para pedir perdão? Certamente se fosse a Claudia, teria o mandado para os infernos, no mínimo. E nunca teria aberto a porta da casa para ele. Mas eu não era a Claudia. Eu era a pessoa que tinha conhecido, ou pelo menos achava que tinha conhecido, a melhor e a pior versão daquele homem. E não, não era um resgate do passado, era só curiosidade. Fiz disso meu mantra do momento em que nos vimos em meu apartamento até aquela hora, no restaurante. Estava ali por curiosidade e só.
- Você costuma pedir o que quando vem aqui? - ele pergunta, enquanto folheia o cardápio e claro, tenta tornar o clima mais razoável.
- Batatas. E suco de laranja. - respondi.
Antes de, instintivamente, rebater com um "Sério?", ele parece ter pensado duas vezes e apenas anuiu, fechando o cardápio. Comecei a me incomodar com o Victorio bonzinho e queria que fosse direto ao assunto. Mas para minha surpresa, depois que fez o pedido ao garçom, não precisei tomar iniciativa. Ele também parecia ansioso.
- Cleo, - senti um arrepio incômodo ao ouvi-lo falar meu nome - como te falei lá no seu apartamento, não estaríamos aqui se o que tenho para te falar não fosse sério. E... - ele pausava, procurando as melhores palavras - não é só um simples pedido de desculpas. Tem mais coisa.
Era o que eu suspeitava. E temia. Especialmente porque ele não fazia o tipo do cara que pesa a consciência. Não o Victorio que eu tinha conhecido. Mas depois de tanto tempo, não saberia mais dizer de que tipo ele era agora. O tipo que começa a amadurecer aos 30, talvez?
- Certo, isso eu já sabia. E que mais coisa seria essa?
- Calma. É que é difícil depois de tanto tempo. Depois de tudo. Tá na cara que você não confia nenhum pouco em mim, então dependendo do que eu disser...
- Não confio mesmo. A culpa é toda sua e você sabe muito bem disso - interrompi. Ao mesmo tempo que estava ali para ouvi-lo, todas as palavras engasgadas também estavam dispostas a sair. Se possível, tudo de uma vez. Mas eu me segurei. Afinal, a mania de interromper e falar mais alto sempre foi dele.
- Sim, eu sei. E é por isso que, dependendo do que eu disser e como eu disser, você não vai mesmo acreditar em mim, ainda que seja verdade.
- Você tem bastante chance de me fazer acreditar em você se parar de enrolar e falar logo o que quer. A verdade é que eu não deveria nem estar aqui. Deveria estar em casa, com meu namorado. Então, o que aconteceu? - pressionei. Minha voz altiva o fez recuar ainda mais na sua postura resignada. Ele entendeu o recado. Se demorasse um pouco mais, eu iria embora e o deixaria ali sozinho.
- Eu estou com um problema grave. Um caso de saúde, risco de morte. - ele despejou a frase entrecortada de uma só vez.
Antes que eu esboçasse qualquer reação, tivemos o clima interrompido pelo garçom que trouxe nosso pedido. Com cara de que estavam apetitosas, as batatas eram apenas um pretexto para continuarmos usando aquele espaço. A verdade é que nenhum dos dois estava com fome. Ou pelo menos, não mais.
- Você não brincaria com isso, né, Victorio? - perguntei, e ele se sentiu ofendido.
- Tá vendo porque eu estava tentando um melhor jeito de dizer? Não, Cleo, não brincaria, como não estou brincando. E principalmente porque a situação não é bem comigo. - ele deu uma pausa, pensativo - mas é como se fosse. É complicado.
- Olha... - inspirei o máximo de ar que pude enquanto escolhia as melhores palavras - complicado é pouco. O que eu preciso entender é, bom, sem parecer insensível, mas - agora eu quem estava enrolando para falar - o que exatamente isso tem a ver comigo? - questionei antes de pegar uma batata do prato.
Victorio não dava nenhum sinal de que estivesse blefando, ou pregando alguma peça de péssimo gosto como já o vi fazer outras vezes. Eu não gostava de admitir mas desta vez ele falava sério. Nem seu típico sorriso sacana, aquele de lado, ele estava deixando escapar. A situação deveria mesmo ser grave. Aliás, grave o suficiente para ele recorrer logo a mim. E dessa forma tão urgente. Foi a partir daí que minha irritação com ele passou a dar lugar a uma preocupação verdadeira que, sinceramente, era a última coisa que eu precisava no atual momento da minha vida.
- Não tem nada a ver com você. - ele respondeu - Mas...
- Mas?
- Mas você foi a única pessoa em quem pensei que poderia me ajudar.