O dia começou bem difícil. Dormi tarde porque estava empolgada criando um software, portanto meme atrasei nesta manhã, não tomei café e perdi o metrô. Fiquei vinte minutos esperando o próximo e, quando ele chegou, não tinha lugar parame sentar.
Apesar de ter acordado quase agora, meu corpo ainda está cansado.E, depois do trabalho, ainda tenho que correr com Bia, que está me forçando a fazer essa atividade todos os dias depois do trabalho.
Agora estou quase correndo para chegar a tempo para o meu turno no emprego. Meu chefe não é tão ruim, mas odeia atrasos.E, mesmo sabendo que Victor não dirá nada a ele sobre isso, não posso me arriscar.
Estou quase na porta giratória que dá acesso ao prédio, quando uma parede bate em mim e eu caio de quatro no chão. Olho para cima e vejo que o filho da puta, que nem olha para trás, corre para entrar no prédio.
Não dápara ver direito quem é.O que me deixa ainda mais furiosa. Ainda no chão, vejo um aparelho celular caído. Ele deve ter deixado cair.
Levanto-me,pensando que se o dia começou assim, nem posso imaginar o que mais pode acontecer. Pego o celular e volto a andar. O homem deve ser um daqueles idiotas que trabalham no topo da empresa e se acham os donos do mundo. Não é porque fico em uma sala fria e sem graça, que mereço ser tratada dessa forma.
Passo pela porta e, como de rotina, mostro meu crachá à Molly, que já me conhece e sabe do meu ódio por esse ritual desnecessário. Ela sorri e libera a minha entrada, mas antes de eu seguir para o meu setor, resolvo perguntá-la sobre o brutamonte que passou na minha frente.
- Molly, você sabe quem é o cara que entrou como um furacão antes de mim?
- Nunca o vi aqui antes, mas parece que um executivo chegou e todos estão pisando em ovos.
- Claro. Eles se acham os donos do pedaço. - falei irritada. - Obrigada, Molly!Agora, tenho que ir, ou me atrasarei ainda mais.
Ando até o meu setor, o de engenharia, e dou de cara com o responsável por ele, meu chefe querido.Passo ao lado dele com uma cara de culpada, entretanto ele não fala nada, e dou graças a Deus por isso.
Ocupo minha cadeira em frente aos computadores e olho para Victor, que está concentrado em algo.No entanto, sei que notou a minha presença.
- Você tem sorte de ser a melhor no que faz, Emma. Se não fosse assim, o senhor Milton te colocaria na rua. - Dá um sorrisinho de lado.
- Nem me atrasei tanto. -tentei me defender.
- Mas ele é paranóico com isso e eu já te cobri duas vezes. - Estica-se para me olhar.
Dou um sorriso e começo o meu trabalho.
Minha atenção hoje está no celular que peguei. Irei devolvê-lo, mas é claro que tenho que descobrir primeiro quem é aquele homem que mais parecia um prédio quando passou por mim. Foi um grosso por ter me derrubado e não me pedido desculpa. Entregarei seu telefone de volta, porém também vou irritá-lo e ele nem saberá quem foi.
Deixo minha investigação sobre o senhor arrogante para o meu horário de almoço, pois já cheguei atrasada enão quero o senhor Milton me dando uma bronca por mexer no celular.
***
Pego o aparelho e vou almoçar.Sento-me na cantina do prédio, peço o meu prato,recosto minhas costas na cadeira e começo a vasculhá-lo.Sempre fui boa com equipamentos de softwares. Já me coloquei em situações horriveis, todavia hoje sou boa no que faço. É por isso que trabalho nesta empresa e sou pioneira em proteção de dados aqui, nos Estados Unidos.
Minha curiosidade fala mais alto do que a moral de não mexer no que não é meu.
É facil invadir o celular e, logo de cara, vejo um papel de parede fofo: um cachorrinho branco bem pequeno que está olhando diretamente para a câmera. Fico pensando em como um cara tão bruto como aquele pode ter um animal de estimação.Deveria ser proibido.Esse cachorro deve estar precisando de ajuda.
Meu pedido chega e eu almoço enquanto olho a galeria dele. Espero não ter nada tão comprometedor aqui. Deus me livre ver um nude de um desconhecido! Abro as fotos e vou passando uma por uma, vendo pessoas em festas,duas senhoras que podem ser sua mãe é avó, e um senhor que acho que já vi em algum lugar. Nada de muito importante.Até que chegoem uma selfie.
Puta merda!É ele!
Até me engasgo com a bebida. O cara é lindo. Não!Lindo é pouco. A foto édele depois da academia. Nossa! Suado fica um pecado. Seus cabelos pretos estão caídos sobre o seu rosto quase pálido e seusolhos azuisparecem penetrar a minha alma.
Arrasto o dedo para o lado, a fim de ver se há outras fotos dele. Constato que, Graças a Deus, têm muitas. O senhor arrogante tem músculos incríveis e fica perfeito de terno.
Vejoo horário e noto que meu tempo de refeição está acabando. Vou deixar para vasculhar mais coisas depois que eu sair do trabalho.Talvez enquanto eu estiver no banho.
Por Deus, Emma! Não seja tão pervertida!
Guardo o celular no bolso e volto para o meu setor.
Minha mente não sai do homem que vi nas fotos. Sei que ele foi um idiota, contudo não posso deixar de apreciar sua beleza. Será que é tão arrogante e imbecil relmente?Podia estar tão atrasado e distraído, que nem tenha me vistoem sua frente.
Não!Não posso arranjar desculpas para ele. Não sou tão pequena e insignificante assim.E apesar de ser um pouco estranha e me vestir como uma adolescente problemática, tenho o meu valor. Não vai ser um menino riquinho com um corpo de deus grego que vai me derrubar.
Deixarei isso para lá, descobrirei quem ele é e lhedevolvereiotelefone, porém não como o deixou quando derrubou.
Chego em casa e coloco minha roupa de corrida. Não sou de fazer muitos exercícios, mas Bia pretende ficar com o corpo definido e não quer fazer isso sozinha. Só corro para relaxar, já quenão tenho ninguém para ver o resultado de tanto esforço.Mesmo sabendo que não deveria penssar dessa forma, penso.
Não demora muito para que ela chegue batendo na porta do apartamento.
- Vamos logo! Temos que correr o dobro hoje. Não resisti e comi duas fatias de torta. - avisou desanimada.
- O quê? - Ela só pode estar alucinando. - Você quer me matar?
- Deixe de ser sedentária! - Puxa o meu braço até me fazer passar pela porta.
Mesmo não querendo correr tanto, saio de casa. Como estou com muita coisa na cabeça, usarei esse tempo para pensar em uma forma de fazer o gato arrogante pagar por ter me deixado no chão.
Logo começamos a andar e, depois,a correr. Passamos por muitos lugares durante a corrida.
- Então...O que fez hoje além de se sentar na frente de um computador para olhar números e coisas bizarras que não entendo? - Bia perguntou ofegante.
- Você não vai acreditar. - Mostro-mebem empolgada com a novidade. - Eu me atrasei de novo, mas o pior é que quando eu estava entrando no prédio, um cara esbarrou em mim e foi embora como se nada tivesse acontecido.
- Não estou entendendo. A notícia é ruim e você está com um sorriso no rosto.É meio masoquista. - Mantémo cenho franzido.
- O cara deixou o celularcair.-ignorei sua ironia.- E agora ele está sob o meu poder. - Tento não ficar empolgada demais.
- Sabe, Emma?Quando digo a você para arranjar um namorado, é exatamente por isso. -Lá veio mais uma ironia.- Alguém esbarra em você e, como uma maluca, rouba essa pessoa e sorri como uma psicopata?Estou ficando preocupada.
- Não encha, Bia!Vou devolver o celular dele.Mas também vou me vingar do idiota.-Reviro os olhos.
- Podemos ver um filme se acha que sua noite está tão ruim.
- Será que dá para me apoiar nisso? - reclamei. - É a primeira vez que faço algo assim, e nem sei quem é o homem.Posso ser demitida, já que ele é, provavlmente, um dos executivos.
- Eu curto sexo selvagem e você é fora da lei.Facinante!Ainda não sei porque somos amigas. - brincou.
Bato de leve em seu ombro e continuamos a corrida.
Bia, como uma tagarela, prossegue brincando com ahistória, deixando-me um pouco irritada.Quando começa a falar algo sobre o seu trabalho, agradeço.
***
Estou na banheira, quando pego novamente o celular para o vasculhar e descobrir mais sobre o homem. Quero achar seu nome, porém não consigo ser tão fora da lei e ir direto à sua caixa de mensagens ou e-mail.
Bia sempre fala que sofro da "síndrome" de ser certinha demais.E é verdade. Apesar de poder e conseguir entrar em muitos computadores e redes de dados, nunca faria isso. Já me ferrei uma vez ao ser culpada por algo que não fiz, e hoje tenho esse trauma.
Decido ligar para alguém e rezo para que essa pessoa fale pelo menos o nome dele. A quantidade de contatos femininos é enorme.E não é para menos, já que ele é lindo. É lógico que pega todas que quer. Aposto que com uma ou duas chamadas,alguma delas atenderá,desesperada para sair com ele novamente.
Resolvendo colocar minha teoria em prática,clico em um número com o nome de"Ariana". A ligação começa a chamaruma, duas vezes...
- Ian! - falou a voz feminina muito empolgada,no outro lado da linha.
Um sorriso de satisfação toma o meu rosto.
- Desculpe!Não é oIan. - tentei disfaçar a minha voz para o caso de, futuramente,isso ser usado contra mim.
- Quem é e porque está me ligando do celular do Ian? - perguntou furiosa.
Eu penso um pouco na resposta e minha mente diabólica organiza um roteiro fora do comum para a Emma sem graça.
- É que eu queria ouvir a voz da vadia que está atrás do meu namorado. Quero lhe avisar para ficar longe dele se não quiser perder seus peitos falsos e todas as plásticas mal feitas do seu rosto. - faleiem um tom de irritalção e bem mais alto do que normalmente falo.
Não seide onde isso está vindo, mas se demorar muito, acabarei rindo e pondo tudo a perder.
- Olhe aqui, querida!Se o seu namorado fica atrás de mim, a culpa não é minha. - rebateu alterada.
- Meu Ian não fica atrás de mulheres;são as vadias que ficam atrás dele. Espero que esse recado sirva de lição para que não chegue perto do meu homem! E pode dizer a todas as suas amigas que farei o mesmo com elas caso as veja a cem metros dele. - Desligo a chamada.
Deus! O que deu em mim e porque fiz isso?Meu coração bate a mil por hora, como se estivesse prestes a sair pela boca.
Agora sei como se chama o dito cujo. Mas, Ian do quê?Fuço ainda mais o telefone e não acho nada que ligue esse nome aoseu sobrenome. Talvez amanhã eu lhe investigue na empresa.
Por enquanto, botarei meu plano em ação. Entro novamente na galeria e começo a editar as fotos. É claro que algumas só edito as cópias, já que não sou tão cruel. Depois volto aos contatos e mudo os nomes das piranhas por coisas engraçadas. Acho que ele ficará puto com a bagunça que estou fazendo.
Não ouso ir às suas conversas particulares, porqueisso é muito pessoal e não quero invadir sua privacidade. Já basta o quanto estou invadindo. Sei que para alguém que pode fazer o que faço, invadir é o objetivo, entretanto tenho os meus limites.
***
Acordo cedo e nem tomo café. Depois do banho, coloco roupas que não são muito chamativas, poisnunca gostei de chamar a atenção para o meu corpo. Saio na rua e ando até o metrô com uma pequena caixa na mão. Dentro dela, está o celular. Descobrirei quem é o Ian antes do almoço e lhe entregarei o aparelho depois.
A única pessoa naquela empresa que sabe até os segredos mais sujos dos chefões, éÁgatha. Ela é uma das secretárias dos executivos que ficam no topo do prédio. Se háalguém que sabe quem é o bonitão arrogante, é ela.
Após sair do metrô,ando algumas quadras até o trabalho. Hoje ele não veio me derrubar. Que pena! Eu poderia xingá-lo pessoalmente. Terei apenas que imaginar sua reação ao ver o que fiz no seu celular. Além da capa de glitter rosa com enfeites que coloquei nele, baguncei os contatos e editei as fotos.
Poxa! Será uma boa cena.
Passo pela recepção, vou para o meu armário e coloco a caixa no fundo do espaço, com medo de que alguém me veja e me denuncie quando o telefone estiver nas mãos dele. Em seguida, sigo para a cantina e peço um café expresso.
Logo avisto Ágatha,que está sentada com outras duas secretárias, tendo uma conversa bem animada.Não sou amiga delas. Na verdade, a quantidade de amigos que tenho, posso contar nos dedos. Para todas essas pessoas, sou a garota estranha, igual era no ensino médio.
Embora esteja em boa forma, não tenho roupas chamativas ou sexies e opto por não usar brincos ou colares.Contudo, faço algumas tatuagens quando sinto vontade.
Ágatha, por outro lado, é uma mulher linda, de trinta e dois anos, que veste roupas chiques e está sempre de saltos. Ela mexe no seu cabelo liso de cor escura como se estivesse em um comercial e eu fico só adimirando sua beleza enquanto ando até elas.
- Emma, como vai? - perguntou de forma simpática.
Ainda por cima, a mulher tem simpatia.
- Estou muito bem,Ágatha.Obrigada!-Dou um sorriso tímido. - Como vocês estão? - falei com as outras só para não parecer rude ou fofoqueira.
Elas sorriem e falam, juntas, que estão ótimas.
- Meninas, eu queria perguntar se vocês já viram um homem por aí. Sei que seu primeiro nome é Ian, que ele tem pelo menos 1,90 de altura, cabelos negros, olhos azuis...
- Tem pinta de arrogante? - Ágathaacrescentou.
- Sim. - confirmei feliz. - Você já o viu por aí?
- Se eu já vi? Menina, quem não viu esse homem? E, que homem lindo!É um deus grego, mas muito estressado e mal-humorado. Está sempre dando ordens e sendo arrogante.
Eu já sabia que ele não era uma boa pessoa,no entanto queria que alguém, pelo menos, dissesse algo de bom dele, para que eu não me sentisse tão mal por desejá-lo.
- Quem é ele,Ágatha? - questionei, bastante curiosa, sentando-me no meio delas.
- É o mais novo chefe, querida. Ian Novack. É o filho de Robert Novack eassumiua empresa depois que o pai sofreu o acidente e ficou em coma.
Estou paralisada. Ele é o chefe? O dono de tudo aqui? Porra!
- Você está bem? - perguntou ao ver minha pele mais pálida do que o normal. - Ele te fez algo?
- Não. Eu só o vi por aí.Parecia que tinha comido algo estragado. - Ainda estou tentando me recuperar.
- Ele está assim desde que assumiu os negócios. - Revira os olhos. - O que tem de lindo, tem que mal-educado.
- Ok, meninas. Tenho que trabalhar agora. Obrigada pela informação! - Levanto-mee saio de perto delas.
Meu Deus! Ian é o CEO da TEC Corporation?!A minha ansiedade está fazendo com que minhas mãos soem e meu coração acelere. Acho que não posso entregar o celular do meu chefe, poisnão quero irritá-lo.Mas, ao mesmo tempo, ele é um grosso com todo mundo. Seu pai está em coma, porém isso não justifica seu modo de tratar as pessoas.
O conflito em meu peito pode até me causar um infarto se eu continuar pensando nisso.
Não posso desistir agora. Afinal, ele não saberá quem sou e não sabe nem que existo.
Vou trabalhar e, após o almoço, levarei o pacote para a recepção. Depois, ele que se vire!Oque irá deixá-lo ainda mais irritado.
Não sei se isso me deixa feliz ou com mais medo.
Volto do restaurante com o pacote, levando-o na bolsa para que ninguém perceba nada,entro no prédio com ele na mão e vou até a recepção, onde vejo Molly.
Minha língua parece presa, mas não posso desistir agora.Seria errado ficar com o aparelho.
- Molly, uma moça me entregou este pacote agora a pouco e disse que é para o entregar ao Ian Novack. Ela parecia muito irritada enem quis entrar. - Entrego-lhe.
Odeio mentir, e não faço isso com frequência; só quando preciso muito.
- Quem é Ian Novack?- questionei.
- Lembra do homem por quem você me perguntou ontem e eu também não sabia quem era? - Afirmo comum aceno de cabeça. - É ele, o novo chefe. Dizem que é muito arrogante.
Ian é muito famoso por essa atitude,no entanto não parecia ser um brutamonte quando falei com a piranha no telefone.
- Entendi. Então, você pode entregá-lo?
- Pedirei para que Mila entregue. Ela é secretária dele.
- Coitada! - Rimos.
Sigo para o meu posto.
Não quero ver o homem pessoalmente. Provavelmente, ele vai querer me matar quando souber o que fiz.
Meu dia foi cheio para amerda e minha cabeça está doendo.Tive duas reuniões demoradas e ainda tenho papéis para ler e assinar.
Olho para o relógio e constato que são sete e meia.Está na hora de eu ir embora e nem está perto determinar o que tenho para fazer. Sendo assim, acabo optando por deixaro restante dos afazeres para amanhã.
Esse trabalho está me matando e ainda tem a preocupação com meu pai,que está em coma há dois meses.Os médicos não têm uma previsão de quando - e se - ele acordará. Não quero perdê-lo.É um bom pai e sempre esteve ao meu lado, mesmo quando eu cometia algum erro.Agora, a minha obrigação é cuidar dos negócios da família.Algo que está me estressando muito. Vivo com dor de cabeça e com as preocupações invadindo minha mente,fazendo-me perder a razão.
Notei que aqui, na empresa, todos estão correndo de mim. Também...Estou sempre dando ordens e de mauhumor. Com toda a certeza, eles me odeiam. E, olha que só estou aqui há uma semana.
Ontem mesmo esbarrei em alguém e nem parei para ajudar a pessoa. Estava tão cheio e atrasado para uma reunião, que isso não tinha passado pela minha cabeça.Até agora.
Escuto batidas leves na porta e vejo minha secretária entrar. Ainda não decorei seu nome. Na verdade, não decoro nomes de mulheres, porquecostumo sair com tantas, que todos se misturam. Ela está com um pacote na mão e eu tento, a todo custo, não apreciar as curvas do seu corpo no vestido azul-escuro.
- Senhor Novack, alguém pediu para que lhe entregassem isto. - Coloca a caixa sobre a mesa.
- Quem pediu? - Estou pensativo.
O pacoteé estranho e eu não sabia que receberia algo hoje.
- Não sei, senhor.Foi entregue na recepção. A pessoa nem quis entrar para entregar edemonstrava estar chateada. - Exibe preocupação no rosto.
Olho paraa caixa com curiosidade. Quem me entregaria isso? A mulher sai da sala, fecha a porta e eu aabro.Fico surpreso ao ver um celular. É igual ao que perdi depois de esbarrar naquela pessoa. A capa rosa cheia de glitter chama a minha atenção e me leva a pensar que alguém está pregando uma peça em mim.
É tudo muito estranho. Quem me entregaria um pacote tão desleixado contendo dentro um aparelho cheio de purpurina?Pego-o, ligo-o eme surpreendo quando vejo meu papel de parede. É o meu próprio celular, o qualdeixei cair, sendo devolvido para mim.
Está cada vez mais esquisita a situação.
Curioso, desbloqueio a tela e vejo se tudo está como deixei, porém me surpreendo ao descobrir que a talpessoa bagunçou tudo nele, trocando os nomes dos contatos e editando fotos com frases irônicas.Quem fezisso?
A minha preocupação passa a ser de que tenham roubado alguma informação minha, prejudicado alguns dos meus projetos ou até mesmo pegado dados importantes.
Mais surpreendente do que receber meu celular de volta com um possível roubo de dados, é ler a mensagem que acabou de chegar.
"Então, bundão... Gostou do que fiz no seu celular? Talvez, na próxima vez, preste mais atenção e não esbarre em pessoas aleatórias na rua, deixando-as com a bunda no chão."
Não sei se épela ironia ou pelo cansaço em meu corpo, mas rio do que leio. Seja lá quem for, tem bom humor.Contudo, logo noto que podese tratarde alguém perigoso que me hackeou para conseguir informaçõesminhas.
"Você, estranho, está tentando me chantagear para me roubar mais coisas?"
O mais irônico de tudo é que comando uma empresa que tenta evitar esse tipo de situação. Se o dono foi uma vítima, imagine os clientes.Talvez a pessoa esteja querendo me derrubar ou provar que não fazemos um bom trabalho. O que não posso permitir.
O engraçado é que não sou respondido.O meu tom de rispidez deve ter assustado o provável hacker.
Decido deixar essa história um pouco de lado. Estou cansado e não penso muito bem quando minha cabeça está cheia.
Coloco o celular no bolso e entro no elevador, segurando os papéis que eu deveria deixar para lá, mas decidi levar para casa. Quero concluir alguns trabalhos antes que cheguem maisna manhã seguinte.
Como um idiota curioso, pego o telefone às pressas assim que o sinto vibrando.
"Senhor bundão, se eu quisesse prejudicar você ou roubar seus dados, não precisaria me esforçar tanto. Além do mais, devolvi seu aparelho. Deveria me agradecer por ser mais gentil que o senhor."
Não sei se isso me tranquiliza. Apesar de louca, essa pessoa pode estar certa. Dentro deste aparelho tem contatos de gente importante na minha agenda.O que seria o bastante para me dar uma bela dor de cabeça.
"Não posso agradecer a uma pessoa que não conheço e que, principalmente, mudou tudo no meu celular."
Não obtenho resposta.
Assim que chego no térreo, meu motorista já estáà minha espera. Entro no carro, ainda pensando no acontecido. Minhas roupas estão cheias de glitter. E, pensando bem nos detalhes, quem está fazendo esse jogo comigo deve ser uma mulher. Glitter, capa rosa...Sem falarda pequena estatura da vítima que foi ao chão no dia anterior.
Como se esse acontecimento fora do comum já não fosse preocupante, ainda tenho a preocupaçãocom o meu pai, que está em uma cama de hospital.Não se vai ou não acordar.Desde o seu acidente, martirizo-me por não ter lhe ajudado da forma como queria e por não ter sido mais presente.Algo que, provavelmente, teria evitado todo esse problema. É por isso queestoutão dedicado agora.
"Posso até sentir sua arrogância de onde estou. Entendo que é um homem ocupado, mas deveria ser mais gentil às vezes. Assim, talvez, fosse procurado por afeição, e não por interesse de piranhas siliconadas."
Sinceramente, estou com alguma coisa errada na cabeça, pois rio do seu sarcasmo. Não foi nada demais, apenas uma provocação descabida, porém é algo que me alegrou.
"Quem é você e qual é o seu nome? Estou achando que é uma adolescente rebelde que acha que pode brincar com um estranho."
"Alguns diriam que, de acordo com minha estatura e tipos de roupas que uso, poderia ser realmente uma adolescente. Mas, não se preocupe! Não será processado por abuso de menores. E, quanto ao meu nome, nunca saberá. Não quero nem que sua boca suja o pronuncie. Para meios de comunicação, pode me chamar de Birdpink."
"Que raio de nome é esse? Aposto que não é muito criativa."
"Não sou. Por isso falei algo que estou vendo em um pôster, no metrô."
"Acha que conversar de forma irônica comigo vai me punir pelo que fiz? Porque não estou exatamente irritado. Achei que fosse alguém perigoso, mas vejo que é apenas uma mulher que deseja um pouco de atenção. E, para falar a verdade, estou me divertindo."
"Está me chamando de egocêntrica? É você quem está se aproveitando do meu tempo."
"Foi você quem começou a mandar mensagens, passarinho."
"Foi uma péssima ideia."
A conversa que começou estranha estáme distraindo do dia tedioso que tive. Acho que o passarinho está mais irritado do que eu.
"Desculpe-me por ter a derrubado ontem. Foi uma grosseria não ter a ajudado. Na verdade, isso teria acabado com o mistério, passarinho. Você me deixou curioso para saber qual é o seu rosto."
Ela não me responde imediatamente e eu me surpreendo pela minha espera ansiosa. Nem tinha notado que o carro já estacionou na garagem do prédio e devo confessar que quero continuar a troca de mensagens.
No elevador, fico tentando imaginar a mulher com quem me esbarrei. Se eu não tivesse sido tão desatento e, como ela mesma disse, um bundão, poderia saber sua identidade. Talvez seja uma estranha que,ocasionalmente, estava passando pela TEC Corporation ou uma funcionária. Mas não acho que algum funcionário teria coragem de fazer tal coisa.Eles parecem me odiar.Mas se for, seria interessante conhecê-la.
Assim que abro a porta, Hunter vem muito felizao meu encontro. EssePoodle foi um presente da minha mãe para mim.Ela disse que eu era muito solitário.Claro...Não sabia sobre as visitas femininas frequentes a este apartamento.
Como um idiota, pego o aparelho telefônico assim que ele vibra. Apesar de não gostar do que a mulher fez com ele, surpreendentemente, ela está me cativando.
"Está, mesmo, pedindo desculpa?"
"Nem sempre sou um bundão. E admito que errei. Se nos encontrarmos novamente, posso até te pagar um café como um pedido de desculpa."
"Não vai rolar. Mas, talvez, se chamar algumas das muitas mulheres de sua agenda, elas poderão te fazer companhia."
"Não se preocupe! Meu interesse é puramente investigativo. Não quero que me interprete mal."
Minha curiosidade, de fato, está ficando aguçada. Essa mulher conseguiu me prender em uma conversa enquanto as outrassó falam em roupas e bolsas caras.
"Fico feliz. Eu nunca iria querer ser mais uma em sua lista. Uma longa lista. E não pensei nisso, mas devo continuar no anonimato."
Eu rio, sento-me no sofá e encaro o celular como se, em meses,estivesse fazendo a coisa mais empolgante.
Esse passarinho acha que conseguirá resistir a mim?
"É impressão minha ou está com medo?"
"Não conte piadas, bundão! Não tenho medo de você. Acontece que prefiro me manter a uma distância segura."
"Claro. Porque tem medo de não resistir."
"O seu egocentrismo chega na atmosfera, bundão."
O mais interessante de tudo é que não desejo parar de falar com ela. Ainda nem tirei os sapatos ou afrouxei a gravata; só consigo olhar para a tela e esperar pela sua resposta.
"Torço para me esbarrar em você outra vez, somente para te ouvir falar essas coisas olhando em meu rosto."
"Espero que isso nunca mais volte a acontecer. Não sou alguém confiante o bastante para dizer na cara tudo que penso."
Essa mensagem me faz rir.
"Tenho que ir, senhor bundão. Amanhã acordarei cedo, e ainda tenho que terminar um trabalho."
"Logo agora, que estava ficando animado."
"Boa noite, senhor bundão!"
"Gostou mesmo da minha bunda. Não para de falar dela."
"Já vi melhores."
"Vou acreditar em você."
A falta de resposta me deixa frustrado, no entanto acabo me lembrando do quanto isso é ridículo. Nem faço ideia de quem é a mulher e já quero ser amigo dela?
Deixo o celular de lado e vou para o banho a fim de esfriar meu corpo e buscar relaxamento. Em nenhum momento a minha cabeça deixa de pensar na estranha com quem me esbarrei.
Comecei o dia pensando que ele seria mais um estressante e chato, mas até que a surpresa me deixou feliz.
***
Assim que acordo, lembro-me do celular e, como um tolo, verifico se tem mais alguma mensagem da mulher misteriosa.Não tem nenhuma. É decepcionante, e me irrito comigo mesmo por pensar assim.
Resolvo cuidar de tudo para começar o trabalho. Tomo banho, coloco um terno cinza e arrumo os cabelos em frente ao espelho.
Meu pai sempre se orgulhou de ser pioneiro no ramo de proteção de dados. Era um leigo no assunto, mas um mestre em administrar.
Com o crescimento da internet, também cresceram novas oportunidades de roubar. É por isso que a TEC Corporation se especializou nessa área e hoje trabalha com diversas empresas, bancos e pessoas que fazem parte desse meio digital.
Depois de pegar os papéis que trouxe ontem para casa, enfio-me no elevador, que desce até o estacionamento. Meu motorista já está à minha espera.Quando entro no carro, resolvo dar atenção aos documentos. Ontem não consegui resolver nada, pois só pensava na estranha, mas hoje resolvi esquecê-la e focar em trabalhar.
Chegorápido àsede de Nova York, já que estavame mantendo ocupado, lendo os diversos formulários e novos contratos.
Saio do veículo e paro antes de passar pela porta da frente. Apesar de poder entrar pelo subterrâneo, gosto de chegar por aqui para passar pela recepção e conferir as coisas.Contudo, meu objetivo de hoje éencontrar uma pessoa específica, mesmo sabendo que é tolice.
Assim que noto quão ridículo é o que estou fazendo, passo pela porta giratória e vou direto ao meu escritório. É claro que o passarinho irritante não faz parte do meu quadro de funcionários.
- Bom dia, senhor Novack! - minha secretária me cumprimentou com um belo sorriso no rosto.
Talvez seu nome seja Mia.Ela sempre me deseja um bomdia, mas nunca lhe retribuo.
- Bom dia, senhorita! - Passo por ela, lendo o papel que está em minhas mãos.- Você poderia me trazer um café, por favor? - Coloco minhas coisas sobre a mesa.
- Claro, senhor. - Dá um sorriso assustado que me faz franzir o cenho. - Aqui estão os papéis para a análise.- avisou-me antes de sair.
"Ótimo!"Mais papéis!
Alguma força maior que toma o meu corpo me faz pegar o celular do bolso.Eu tentei, a todo custo, tirar todo o glitter delena noite passada.
Busco as mensagens de ontem.
"Ser simpático não faz o meu tipo. As pessoas me olham como se eu fosse um estranho."
A falta de resposta me irrita eme faz guardar o aparelho novamente. Concentro-me somente nos papéis agora.
"É isso que dá ser mal-educado com todo mundo. Se continuar assim, bundão, pode ser o chefe do ano."
Apesar da demora, ela finalmente respondeu, e, como um idiota, olhoa mensagem no mesmo instante.
"Senhor bundão".Estou começando a me acostumar com esse apelido.Não somos amigos, tampoucoquero que sejamos, apesar de estar curioso para saber quem ela é.
"O que a senhorita Birdpink está fazendo agora?"
Ela me manda uma foto e eu vejo queestá no metrô.Não me enviouumadela, e sim de uma senhora dormindo, sentada no banco da frente.
"A senhora parece simpática, mas quero uma foto sua."
"Está ficando obsessivo com esse assunto. Não terá uma foto minha. Contente-se com a senhora simpática!"
Ela tem razão:estoucomeçando a insistir demais nessaquestão. Deveria me concentrar no trabalho.Entretanto, agora, que estamos conversando de novo, é difícil apenas ignorá-la.
"Tem razão. Vou começar a ignorá-la, passarinho."
"Não seria o primeiro. Então, tudo bem."
"Claramente, não vou fazer isso até que me mostre algo com o qual eu me contente."
Surpreendentemente, minha tela é invadida por uma foto do seu dedo do meio. É pouco, mas consigo ver que sua pele é pálida, comuma tatuagem,e quesua unha está pintada de azul, combinando com sua cor. Isso me agrada.
"Gostei da tatuagem. É muito sexy. Gostaria de saber se outras partes do seu corpo também são."
"Vai ficar só com a mão, senhor bundão."
"Você é a mulher mais difícil que conheço. Geralmente, não preciso fazer nada para que as mulheres tirem as calcinhas."
"Isso, na verdade, é uma honra. Eu nunca faria tal coisa com um pervertido como você."
"Só está dizendo isso porque está longe, e não na minha frente. Acredite: eu lhe agradaria muito, passarinho. Tanto que desejaria repetir."
"Nunca vai acontecer."
"Agora é você que está me subestimando. Tome cuidado ao me provocar!"
"Vai ter que ficar com a ideia de que nunca vai me encontrar, de que jamais vou ser uma das idiotas que ficam no seu pé e de que nunca me faria perder cabeça a ponto de ficar com você."
Toda essa provocação está me deixando louco. Ninguém nunca falou assim comigo antes ou me recusou. Essa mulher pode ser uma lunática, porém está me motivando a provar o contrário.
"Espero ter a oportunidade de provar o contrário, passarinho."