Ela não derramou uma lágrima. Quando recebeu a notícia ficou parada nos degraus da mansão, a mão apertando o corrimão, o coração batendo forte no peito, o sangue sumindo de seu rosto. Mas ela não sentiu seus olhos marejarem. Ela voltou ao quarto com a ajuda de sua fiel governanta, que a sentou na cama, segurando sua mão e pedindo para uma das ajudantes trazer uma xícara de chá.
- Senhora, está bem? - disse em um tom baixo, como se falar alto fizesse com que ela finalmente despertasse do torpor. Mas Clementine, ou a Viscondessa de Lohan tinha ouvido muito bem.
- Leia a carta outra vez, por favor - ela pediu com a voz doce.
A governanta assentiu, abrindo o envelope que tinha guardado no bolso do avental - "Honrada Viscondessa de Lohan, lamentamos informar que o Visconde de Lohan, Antonio Siqueira, faleceu essa manhã de uma peste que acometeu toda a comunidade onde estávamos. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance para o salvar, mas sua piora só foi agravando dia após dia, até que não era possível nem chegarmos perto sem sermos contaminados. Infelizmente ele partiu inconsciente, felizmente sem dor alguma. Lamentamos sua perda." Sinto muito senhora. - Clementine assentiu - Vou tirar os vestidos pretos dos armários, já estão começando a preparar o memorial...
- Memorial? - ela levantou a cabeça.
- Para as pessoas virem lhe dar as condolências.
- Isso é realmente necessário?
- Temo que sim, senhora. - Clementine fechou os olhos - Venha senhora, sente-se aqui.
Em automático, ela se levantou, indo sentar em sua penteadeira, a mesma que tinha acabado de sair quando foi chamada para a sala porque tinha chegado uma carta endereçada a ela. Pouco a pouco a governanta foi tirando todos os grampos de cabelo de sua cabeça, desfazendo seu meio coque, que caia em camadas de sua cabeça ate o meio de suas costas em um castanho mel que brilhava no sol, virando um coque sem graça no alto de sua cabeça. Os brincos de pérola pendurados em suas orelhas também foram tirados, assim como seu colar que tinha um ponto de luz.
A governanta molhou um pano e passou em seu rosto, tirando o leve rubor de tinta que ela tinha passado aquela manhã para dar um toque de saúde em seu rosto. E então seu vestido azul claro tinha sido tirado de si, substituído por um preto pesado, que ia ate os pulsos, com gola alta, acompanhado com um adorno de cabeça. Ela se viu no espelho e não se reconheceu.
Aos 20 anos, viúva.
Ela estava esperando o momento que desabaria. Seu então marido, Antônio, não tinha sido um marido ruim. Os dois anos de casamento tinham mostrado isso. Ele não era muito presente, vivia viajando, mas dava a ela além do que ela achou que um dia teria, uma vida de luxo e riquezas dignas de uma viscondessa de classe. Ela era respeitada por onde passava, invejada, e ainda cortejada. Clementine tinha uma beleza que hipnotizava, a pele rosada misturada com mel, olhos escuros e grandes, lábios proeminentes e nariz pequeno. Era cobiçada por todos em sua estreia na temporada, e claro, conseguiu o melhor partido. Ela já sabia, estava em seu destino.
Ela nunca fora muito ambiciosa a respeito de desejos próprios, não quando já sabia de toda sua vida antes mesmo de vivê-la. Mas se vendo assim, no espelho, toda de preto, viúva, ela soube, pela primeira vez ela soube que ela não sabia de nada. Ela não sabia um passo a sua frente. Ela não sabia o dia de amanhã. Ela não sabia nem o que aconteceria com ela quando descesse as escadas.
Ela nem teve tempo de respirar quando a levaram pra baixo e sua casa já estava cheia de gente. Gente que ela nunca tinha visto. Golpistas querendo o dinheiro. Invejosas vindo rir de sua derrota. Ela ainda estava catatônica sentada no sofá. E ainda não chorara. Era sorte dela que o véu preto cobria seu rosto e não mostrava a falta de emoção em seu rosto.
Ela sabia que não amava Antônio mas... ela sentia algo, certo? Era uma pena ele morrer tão cedo, era bonito, o sorriso era bonito, tinha um abraço gostoso, e merecia uma vida mais longa, então, porque não conseguia chorar?
Depois que todos foram embora, Clementine estava sentada a beira da janela do escritorio do marido, bebendo uma taça de vinho quando seu pai entrou.
- Nunca pensei que isso fosse acontecer - ele disse indo se sentar a frente dela, pegando uma taça também.
Ela deu uma risada, a primeira emoção do dia - Nem eu.
- Você não esta desamparada Clementine, você sabe disso não sabe? - ela olhou o pai - Você continua viscondessa, e o parente mais próximo do visconde já foi avisado da situação e esta vindo para resolve-la.
- O que quer dizer com isso? - Ela se sentou mais ereta na cadeira.
- Ele esta vindo da Inglaterra, pra resolver sua situação.
- Minha... situação? - ela perguntou e se levantou - que situação?
- Você não pode continuar viuva, não pode continuar um titulo sozinha, tem que ter filhos...
- Sou uma situação agora? Eu vou ser jogada na mão de outro homem pra... procriar? Por causa de um título?
- Você nunca foi contra isso Clementine, porque esta sendo agora? - seu pai ainda falava calmamente sentado.
- Porque não achei que teria que passar por isso duas vezes... por acaso o que sinto não importa para o senhor? Eu acabei de ficar viuva, hoje... e o senhor já esta falando em me dar em casamento a outro pra ter filhos...
- O título...
- O título que se exploda! - ela disse exasperada.
- Clementine! - Seu pai a repreendeu.
- Saia da minha casa - ela ordenou.
- Vou respeitar seus acessos hoje pois imagino o que esteja passando, mas não pode fugir disso Clementine, é o seu destino. - ele se levantou e saiu do escritório fechando a porta.
Clementine respirou fundo e soltou um grito, jogando a taça na porta e caindo no chão, sentindo um aperto no peito, sufocante. sua governanta entrou logo depois a abraçando, e então, pela primeira vez no dia, por ela, ela chorou.
- Você já esta há três meses aqui, quando vai embora? - Gabriel olhou pra cima, para sua irmã de 12 anos, Sofia, com uma mão na cintura, o olhando com completo desprazer.
- Eu fiquei três anos fora irmãzinha, achei que estava com saudade de mim. - ele disse abaixando a cabeça com um sorriso de lado, voltando a ler o jornal. Estavam no jardim da casa que moravam na cidade, e Gabriel desfrutava do sol da manhã, gostava daquelas horas do dia, onde podia ficar sem o paletó, tomar um suco, sentar na cadeira de área da casa e ler o jornal.
- Eu estava, mas já não estou mais, passou em dois dias. - ela bufou, sentando em outra cadeira - Quando você vai ir se casar?
Gabriel abaixou o jornal - Como você sabe sobre isso?
- Meus ouvidos são pequenos mas eu escuto muito bem. O primo Antônio morreu, e você voltou, e toda aquela conversa de casamento, só pode ser pra você porque eu não tenho idade pra isso.
Ele a olhou, quando tinha ficado tão esperta? Deu de ombros - Bom, eu não vou me casar, posso até pegar o título, e a propriedade, mas a esposa não.
- Porque não? Dizem que ela é bonita.
- Você não viu nenhuma dama da Inglaterra...
- Você tem que casar, esta ficando velho. - ela soltou.
- Não vou me casar, e não estou ficando velho.
- Esta sim, ou esta fazendo aquilo que a Mariana disse, sobre os homens terem que ter sido forçados a casar, por causa de algum escândalo ou algo assim. Ela disse que os homens são inaptos a sentir amor. Mas você me ama, não me ama?
- Sim, eu amo - ele respondeu voltando a atenção ao jornal.
- Então você não esta inapto ao amor, pode se casar.
- Casamento não é só por amor Sofia. - ele largou o jornal outra vez - E acho que você e Lady Mariana estão tendo conversas muito inapropriadas pra idade de vocês...
- Eu não acho, se vou me casar um dia, prefiro saber de tudo agora, e não seria ruim sabe, você se casar, talvez tirasse essa sua acidez da cara.
- O que?
- Sua cara azeda! Você tem cara de que chupou um limão, o teeeeeeeeeempo todo - ela falou rolando os olhos.
- Não tenho não! - retrucou a irmã. Tinham mais de dez anos de diferença e brigavam como duas crianças. Se levantou, jogando o jornal na cadeira e entrando na casa, parou em um espelho e olhando seu rosto.
Passou a mão na linha mandibular marcada, os lábios finos, o nariz pontudo mas dentro do normal, os olhos verdes, iguais os da mãe, os cabelos escuros, pretos, iguais os do pais, os ombros largos, a barba por fazer, dando um charme a mais em seu rosto. Ele não tinha uma cara azeda. - Argh - ele disse a si mesmo e foi andando ate o quarto.
- Gabriel - ouviu o pai dizer quando subia os primeiros degraus da escada, ele virou, com um sorriso no rosto - seu prazo já acabou.
- Não sabia que era tão apegado a datas assim meu pai - ele disse descendo de novo a escada e indo em direção ao pai.
- Você precisa ir a Mansão Lohan, já faz três meses.
- Pai... - ele fez uma careta.
- Sabe-se lá como estão as contas de lá Gabriel, você foi a Inglaterra para estudar, para administrar, infelizmente essa fatalidade aconteceu, mas te deu a oportunidade de ter um titulo maior, você vai dispensar isso?
- Quando tem uma esposa no meio, sim, eu dispenso - ele disse virando de costas e indo em direção as escadas novamente.
- Gabriel, a viscondessa é uma Lady incomparável...
- Ah mas eu tenho certeza que é.
- Qual o problema então?
- Eu não a escolhi, me recuso a casar pra substituir meu primo, me recuso a ocupar um lugar que não era pra ser meu, tanto em uma casa, em um titulo, e principalmente em um coração. - disse mais forte.
Seu se endireitou - Sinto muito Gabriel, mas seu prazo acabou, precisa ir.
Ele riu - Ou o que? Vai me expulsar de casa?
- Sim.
Gabriel ficou sem reação - Não teria coragem...
- Você tem uma família para honrar, sabe quantas oportunidades Sofia teria com você se tornando Visconde? Sabe as portas que se abririam pra você? Você ainda pode continuar vivendo a vida de libertinagem que quiser, só precisa ter um filho, só isso!
Gabriel riu novamente - Parece bem simples pro senhor não é? Só um filho... tudo bem meu pai, não precisa me expulsar, eu mesmo saio, eu não preciso ficar aqui, afinal, tenho uma profissão, posso me sustentar, não preciso ser visconde, não preciso do dinheiro e definitivamente não preciso ser substituto de ninguém.
Ele subiu as escadas, refazendo as malas que fez quando veio da Inglaterra, enfiando tudo sem nenhuma noção de etiqueta. Depois saiu como um raio de dentro da casa, pedindo um coche de aluguel, que o levou ate uma pousada onde alugou um quarto com algum dinheiro que tinha juntado.
Tinha 25 anos, passado os últimos 5 na Inglaterra estudando, porque queria fugir do pai, fugir da imposição de ser obrigado a fazer o que ele queria. A mãe morreu no parto da irmã, ele sabia que devia muito a ela, pela educação dela, pelo futuro dela. E ele conhecera Antônio, o primo falecido, tinham sido amigos antes dele ir estudar.
Porque ele não poderia simplesmente herdar o titulo e organizar as finanças e deixar a esposa do falecido primo em paz? Tinha certeza de que a mulher devia estar em sofrimento...
Naquela tarde ele alugou um cavalo. Não era uma cavalgada muito longa até a propriedade do visconde, talvez quarenta minutos. E era linda, ate de longe, quando ele começara a ver, era linda... mesmo com o tempo fechado, as nuvens carregadas, dando um sentimento mórbido a propriedade, era linda.
Deu algumas voltas por ali, apenas por curiosidade, iria embora antes que começasse a chover, mas não conseguiu fugir da chuva. E antes que pudesse continuar encontrou outro cavalo, e uma mulher caída no chão, ensopada e desacordada.
Gabriel desceu do cavalo, olhando desconfiado a cena. A chuva atrapalhava seus olhos, seu cavalo relinchava, protestando, assim como o cavalo da mulher, que mesmo inquieto, não saia do lado da dona. Gabriel chegou mais perto, tentando sentir ver se estava viva, se abaixou, virando o corpo molhado pra cima, tirando as folhas que estavam grudadas em seu rosto e as mexas do cabelo. Era linda. E mesmo com o cheiro da chuva seu perfume o inundou, um cheiro doce de tangerina. Gabriel amava tangerina. - Ei... - ele tentou acordar a mulher - Ei...
- a chacoalhou levemente, tentou ver se tinha algum corte na cabeça, mas não tinha nada, como ela tinha parado ali desacordada?
- O que aconteceu? - ele ouviu um murmurado baixinho e a mulher se remexer em seus braços.
- Te encontrei desmaiada, você ta bem? - perguntou tentando protege-la da chuva com seu corpo.
- To meio tonta... - disse ainda sem abrir os olhos. Gabriel olhou em volta, vendo uma árvore mais fechada ali perto, pegou a mulher no colo e atravessou ate ela, a colocando no chão. As folhas impediam que a chuva atravessasse de maneira forte, deixando só que algumas gotas chegassem até eles.
- Você ta meio pálida... vai ficar doente... - Gabriel disse indo ate o cavalo que tinha o seguido e pegando o cantil com água que tinha levado, o abriu e levou até os lábios dela, que apenas movimentou a boca devagar - Beba, por favor... - ele pediu de forma mansa e a mulher obedeceu, abrindo os olhos.
Ela engoliu a água em dois goles e então respirou fundo - Você é um nobre... - disse colocando a mão no pescoço onde a renda preta chegava ate seu queixo. Era uma roupa de luto, ela devia servir na casa do primo.
- Sim, eu sou. - disse vendo o medo surgir no rosto da moça. Sim, ela parecia apenas um moça, nova. - Calma, não vou te machucar. Só quero ajudar... você desmaiou? Bateu a cabeça? Quando foi a última vez que comeu?
- Eu... não me lembro... - ela respondeu ainda mexendo na renda do pescoço, respirando rápido, ainda com seu cheiro de tangerina. Se ela queria se proteger não estava ajudando.
Gabriel se levantou de novo e foi ate o cavalo, tirando da bolsa de couro uma outra bolsinha com um pedaço de pão - Aqui... - disse se abaixando e entregando a ela - Come - ele tentava dizer sem ser autoritário, sem usar sua voz de comando, até porque não era isso que queria, mas havia algo naquela moça que fazia seu instinto querer falar mais alto, que queria a proteger, que queria gritar com ela sobre o porque não estar se alimentando, do porque sair cavalgando sem comer, sendo que qualquer um poderia ter a encontrado caída ali, sozinha, desacordada.
A moça pegou timidamente o pão da mão dele e o levou a boca, comendo um pedaço, tomando a água logo depois, ficaram alguns minutos em silêncio enquanto ela comia e Gabriel olhava para o nada. A chuva abrandava e os cavalos estavam mais tranquilos. - O que esta fazendo nas terras do Visconde de Lohan? - ele ouviu a moça dizer.
- Eu estava cavalgando, devo ter perdido a fronteira por causa da chuva. O que foi sorte sua, te encontrei desacordada no meio da floresta, sabe o quanto isso é perigoso para uma moça? - ele falou.
- Porque? Só porque sou uma mulher? Só porque sou uma mulher acha que não posso cuidar de mim mesma sozinha? - ela se levantou.
- Você tava desmaiada no meio da chuva, sozinha, já prova que não.
- Você não sabe nada sobre mim.
- Não eu não sei - Gabriel se levantou - Mas você estava desacordada na chuva, consegue entender isso? Me desculpe se fiz pensar que não sabe cuidar de você mesma, mas foi o que pareceu!
A moça engoliu em seco - Eu só queria... só queria um pouco... um pouco de paz... nem vi que sai sem comer ou que fazia tempo que não tinha comido... os dias tem sido difíceis...
- Eu imagino... fiquei sabendo da morte do Visconde...
- Quem é você? - ela perguntou o olhando.
Gabriel poderia dizer quem era, mas assim que dissesse ela voltaria correndo com a informação de que o novo visconde, o substituto estava nas terras, e não queria isso - Sou Gabriel - disse apenas.
- Gabriel... só Gabriel? - perguntou confusa.
- Sim, e você?
Ela olhou para as terras, para longe - Clementine.
- Clementine, só Clementine? - perguntou com um meio sorriso.
- Sim - ela respondeu no mesmo tom.
Gabriel soltou uma risada baixa e se aproximou, passando um dedo no canto da boca de Clemeentine - Tinha farelo de pão - disse de forma simples.
Clementine ficou vermelha - Eu... preciso voltar, já devem ter sentido minha falta, não sei quanto tempo passei...desmaiada como você disse - falou indo ate seu cavalo e pegando a rédea.
- Espero que não muito tempo, troque de roupa, tome um banho quente e uma sopa quente, espero que não fique doente. - disse enquanto o via subir no cavalo.
- Também espero - disse virando o cavalo - e ah - se virou novamente - obrigado só Gabriel, quem sabe nos esbarramos de novo quando você perder a fronteira.
Gabriel sorriu de forma travessa - Esperarei por isso só Clementine.
A sorriu de volta e então partiu com o cavalo, indo em direção ao casarão do Visconde, deixando o rastro de seu cheiro de tangerina pra trás, fazendo o coração daquele pobre homem bater mais forte e se perguntar quando poderia arrumar a desculpa de que tinha se perdido na fronteira novamente. Porque sim, já tinha conhecido tantas mulheres lindas com cheiros hipnotizantes, mas nenhuma tinha mexido tanto consigo do que aquela.
Só Clementine. Ele riu. Parecia que, assim como ele próprio, a tal Clementine também tinha segredos a esconder. E foi com um sorriso no rosto que ele montou seu cavalo e voltou para a estrada, rumo a cidade.
Sua família ia ter que o perdoar, mas ele não ia se casar com a viúva do primo. Não quando ele descobriu que seu coração podia bater de forma frenética como estava batendo naquele momento.