"Tio Tiago, queria que você fosse meu pai."
A voz do meu filho Léo, de sete anos, me atingiu como um raio.
Eu estava parado do lado de fora da sala, com os ingressos do show de rock que ele tanto queria no bolso, imaginando sua felicidade.
Mas então, vi Léo abraçado à perna de Tiago, meu cunhado e ex-namorado da minha esposa Isabela. Tiago sorria, vitorioso, enquanto meu filho expressava seu desejo mais profundo: que ele fosse seu pai.
"O papai só sabe daquela música de velho" , Léo completou, me esfaqueando com cada palavra.
Abri a porta e entrei em casa, invisível. Ninguém me notou. A mesa de jantar estava posta para três: Isabela, Tiago e Léo. Não havia lugar para mim.
Isabela me viu, o sorriso sumindo, substituído por aborrecimento. "Ah, você chegou, Lucas. Por que não avisou?"
E meu próprio filho, ao me ver, apontou para meus sapatos: "Pai, você está sujando o chão. A mamãe acabou de limpar."
"Lucas, coma alguma coisa na cozinha. A mesa está posta para nós" , ela ordenou.
Naquela noite, a humilhação me queimou a alma. Eles foram para um passeio de iate luxuoso para celebrar o aniversário de Léo, e Isabela me enviou um vídeo de Tiago a pedindo em casamento, com meu filho como pajem. A festa que eu preparei para Léo ficou intocada.
Quando voltaram, Léo, incentivado por Tiago, me jogou um saco de lixo em cima, gritando: "Lixo! Você é um lixo!"
Naquele momento, enquanto o cheiro do lixo impregnava minha roupa, e o desprezo de meu filho era evidente, algo se estilhaçou dentro de mim. O amor, a esperança, a dor... tudo desapareceu.
Restou apenas um vazio gelado. E uma nova e gélida determinação.
Peguei meu celular e liguei para meu advogado. "Mudei de ideia. Eu não quero mais sair de mãos abanando. Eu quero o que é meu por direito. Eu quero justiça."
"Tio Tiago, queria que você fosse meu pai."
A voz do meu filho Léo, de sete anos, chegou aos meus ouvidos.
Eu estava parado do lado de fora da sala, segurando os ingressos para o show de rock que ele tanto queria. Os ingressos eram caros, mas eu não me importava, só queria ver meu filho feliz.
Mas a frase dele me paralisou.
O coração pareceu parar por um segundo.
Espiei pela porta entreaberta. Léo estava abraçado à perna de Tiago, meu cunhado, o ex-namorado da minha esposa Isabela. Tiago sorria, um sorriso de superioridade, enquanto passava a mão no cabelo do meu filho.
"Ah, é? E por que você queria isso, campeão?", Tiago perguntou, com a voz cheia de um falso carinho que me dava nojo.
"Porque você é legal, você tem carros rápidos e sua música é a melhor. O papai só sabe daquela música de velho."
Senti um frio percorrer meu corpo. Aquele era meu filho, meu sangue.
Entrei em casa em silêncio, guardando os ingressos no bolso. Ninguém notou minha chegada. A cena na sala era a de uma família feliz, mas eu não fazia parte dela.
Fui para a cozinha e o cheiro de moqueca capixaba encheu o ar. Era o prato favorito de Tiago. Em oito anos de casamento, Isabela nunca, nem uma única vez, cozinhou para mim.
Ela estava de costas, concentrada no fogão. Tiago se aproximou dela, abraçando-a por trás. Ela não se afastou, pelo contrário, inclinou a cabeça para trás, descansando no ombro dele.
"O cheiro está incrível, Bela", disse ele, a voz baixa.
"Fiz para você", ela respondeu, sorrindo.
Senti-me um fantasma na minha própria casa.
A mesa de jantar estava posta. Para três pessoas. Isabela, Tiago e Léo. Não havia lugar para mim.
Isabela finalmente me viu, parado ali. Seu sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de aborrecimento.
"Ah, você chegou, Lucas. Por que não avisou?"
A pergunta era uma acusação. Como se eu precisasse de permissão para entrar na minha casa.
"Eu moro aqui", respondi, a voz mais firme do que eu esperava.
Tiago riu. "Calma, cara. A casa é grande, mas o clima está ficando pequeno."
Léo correu até mim, mas não para me abraçar. Ele apontou para os meus sapatos.
"Pai, você está sujando o chão. A mamãe acabou de limpar."
Olhei para baixo. Havia um pouco de poeira nos meus sapatos. Nada demais. Mas nos olhos do meu filho, era um crime.
"E essa sua música de samba é horrível. Música de velho. A do Tio Tiago é que é boa", ele continuou, repetindo o que eu já tinha ouvido.
Cada palavra era uma facada.
Isabela nem sequer me defendeu. Ela apenas disse: "Léo, não fale assim com seu pai. Vá lavar as mãos para o jantar."
Ela se virou para mim. "Lucas, coma alguma coisa na cozinha. A mesa está posta para nós."
"Nós?", perguntei, sentindo a raiva subir.
"Sim, nós. Tiago veio nos visitar. Não seja inconveniente."
Olhei para a mesa, para a moqueca, para o sorriso vitorioso de Tiago. Olhei para o meu filho, que me olhava com vergonha.
E então olhei para os ingressos no meu bolso. O presente que eu tinha comprado com tanto esforço. Um presente que agora parecia uma piada.
Dei meia-volta e saí de casa.
Não disse para onde ia. Ninguém perguntou.
Enquanto caminhava pela rua, sentindo a humilhação queimar no peito, uma decisão se formou na minha mente, fria e clara como gelo.
Eu ia pedir o divórcio.
No dia seguinte, procurei minha sogra, a Sra. Almeida.
Ela era a única naquela família que ainda me tratava com um mínimo de respeito. Uma mulher pragmática, que desaprovava minha origem humilde, mas reconhecia que eu era um bom homem.
Encontrei-a no jardim de sua mansão, cuidando das rosas.
"Sra. Almeida", comecei, a voz calma. "Eu vim comunicar uma decisão. Eu e Isabela vamos nos divorciar."
Ela parou o que estava fazendo e me olhou, seus olhos não mostravam surpresa, apenas uma certa tristeza.
"Eu imaginei que este dia chegaria, Lucas. Sinto muito."
"Não precisa sentir. Foi uma decisão minha. Eu só quero que seja rápido e sem brigas. Eu não quero nada. Sem pensão, sem divisão de bens. Eu abro mão de tudo."
Ela me olhou, incrédula. "Lucas, você tem direitos. Vocês estão casados há oito anos."
"Os únicos direitos que eu quero são os de ver o meu filho. E de levar uma única coisa daquela casa: meu antigo violão."
Era um violão simples, um presente do meu falecido pai. O único bem material que realmente tinha valor para mim.
"Eu renuncio à guarda do Léo também", continuei, e a dor em dizer aquilo era quase física.
"Por quê, Lucas? Você ama aquele menino."
Engoli em seco. "Porque ele terá uma vida melhor com a mãe. Com o dinheiro dela. Ele já tem vergonha de mim, do meu samba, da minha origem. Se eu lutar por ele, só vou fazê-lo sofrer, dividido entre dois mundos. Eu não posso fazer isso com ele."
Era a verdade mais dolorosa que eu já tinha admitido. Eu estava desistindo do meu filho para poupá-lo de mim mesmo.
Sra. Almeida suspirou, parecendo genuinamente triste por mim. "Eu vou conversar com a Isabela. Vou garantir que você possa levar seu violão."
Nesse momento, o celular dela tocou. Era Isabela. Sra. Almeida atendeu no viva-voz.
A voz de Isabela soou histérica e furiosa do outro lado.
"Mãe! Onde está aquele inútil do Lucas? Mande ele vir para o hospital agora! O Léo está passando mal, com uma intoxicação alimentar!"
Meu sangue gelou.
"O que aconteceu?", perguntei, me aproximando do telefone.
"Cale a boca!", Isabela gritou. "Isso é culpa sua! Você não cuida de nada direito! Venha para o Hospital São Lucas agora! E venha rápido!"
Ela desligou.
Eu sabia exatamente o que tinha acontecido. Tiago. Ele sempre dava açaí para o Léo, cheio de coberturas e porcarias, mesmo sabendo que o estômago do menino era sensível. Ele fazia isso para agradar o Léo, para ser o "tio legal", sem se importar com as consequências.
E a culpa, como sempre, caía sobre mim.
Sra. Almeida me olhou com pena. "Vá, Lucas. Seu filho precisa de você."
Corri para o meu carro. O amor de pai falou mais alto que a humilhação.
Enquanto dirigia, uma ironia amarga me atingiu. Eu estava correndo para cuidar do meu filho, o mesmo filho que tinha vergonha de mim. O mesmo filho cuja doença provavelmente foi causada pelo homem que ele idolatrava.
E eu, o pai "fracassado", era quem ia resolver o problema. Como sempre.