Por sete longos anos, fui a "bolsa de sangue" pessoal de Larissa Mendes, a amante do meu noivo, Ricardo Almeida. Eu, Isabella Santos, o amava desde a adolescência, cega pela esperança de que ele me veria algum dia além do meu sangue raro.
Na minha 999ª transfusão, com a vida esvaindo-se, ouvi a sua voz fria e inconfundível: "Deixe-a morrer. Só quero que Larissa sobreviva." A dor me dilacerou... e então, a luz. Eu estava de volta, sete anos antes, ao dia da primeira transfusão.
As sete humilhantes e dolorosas transfusões que viriam, as manipulações de Larissa, a arrogância de Ricardo, que me jogava cheques e me via como um mero serviço - tudo se desenrolou diante dos meus olhos. Meus "acidentes" causados por Larissa, as agressões ordenadas por ele, a transfusão quase fatal após ser atropelada... Ele só queria meu sangue, e me descartava como lixo.
Como pude ser tão tola? O arrependimento por cada gota de sangue doada e cada migalha de afeto implorada era esmagador. Não havia mais amor, apenas uma dor gélida, um desejo ardente de liberdade e justiça.
Desta vez, a história seria diferente. Com um sorriso glacial, dei a Ricardo o que ele mais queria: o casamento com Larissa. Eu mesma forjei a certidão, plantando a semente da vingança. Em Lisboa, enquanto meu avião decolava, sabia que o "presente de casamento" que enviei os faria pagar caro por cada humilhação. Eu estava livre e pronta para recomeçar.
O cheiro de desinfetante e o frio da agulha no braço eram terrivelmente familiares.
Isabella Santos, Isa, sentiu seu sangue fluir, mais uma vez.
Sete anos. Sete longos anos sendo a "bolsa de sangue" para Larissa Mendes.
Larissa, a namorada, o "amor intocável" de Ricardo Almeida.
Ricardo, o marido de Isa.
Um casamento de fachada, uma exigência dela para continuar salvando Larissa.
Isa amava Ricardo desde a adolescência, um amor tolo e cego.
Ele precisava do sangue raríssimo dela, Ouro Rhnull, para manter Larissa viva.
Larissa, a atriz em ascensão, supostamente sofrendo de uma rara doença sanguínea.
Cada transfusão era uma negociação silenciosa, uma esperança vã de Isa por um pouco do afeto de Ricardo.
Ele nunca deu.
Esta era a 999ª transfusão.
Isa estava fraca, quase transparente.
Seu corpo não aguentava mais.
Ouviu a voz de Ricardo, distante, mas clara, do outro lado da cortina.
"Doutor, como ela está?"
A voz do médico era grave.
"Senhor Almeida, a condição da sua esposa é crítica. A nonagésima nona transfusão foi demais. Ela precisa de cuidados intensivos imediatos."
Silêncio.
Depois, a voz de Ricardo, fria, cortante.
"Deixe-a morrer. Só quero que Larissa sobreviva."
O mundo de Isa escureceu.
A dor da traição foi a última coisa que sentiu.
Então, luz.
Confusão.
Isa piscou, a cabeça latejando.
O mesmo cheiro de hospital, a mesma sensação da agulha.
Mas algo estava diferente.
Ela olhou para o próprio braço. Estava mais cheio, menos pálido.
Olhou ao redor.
Ricardo estava ali, a expressão tensa, olhando para a porta onde os médicos cuidavam de Larissa.
Era o dia da primeira transfusão.
Sete anos atrás.
O dia em que, desesperada para salvar Larissa e agarrar-se a Ricardo, ela exigiu o casamento.
Ele concordou, com frieza, os olhos fixos em Larissa.
Isa sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Ela renasceu.
Voltou ao ponto de partida de seu inferno pessoal.
Lembrou-se da sua obsessão por Ricardo, da sua devoção cega a ele, de como se humilhou por migalhas de atenção.
Lembrou-se de como Larissa, com sua doçura fingida, a manipulava, fazendo-a sentir-se culpada.
Sete anos de sofrimento reviveram em sua mente em segundos.
A dor, a esperança vã, a humilhação.
Tudo por um homem que, no final, a descartou como lixo.
"Isa, você está bem?"
A voz de Ricardo a trouxe de volta. Ele mal a olhava.
"Larissa precisa de você. O médico disse que só o seu sangue pode salvá-la."
Isa o encarou. Aquele rosto que ela tanto amou, agora lhe causava náuseas.
"Eu sei," ela disse, a voz surpreendentemente firme.
Na sua vida passada, neste momento, ela teria dito: "Eu dou meu sangue, mas você tem que casar comigo."
Ricardo a olhou, surpreso pela calma dela.
"Então você vai doar?"
"Vou," Isa confirmou. "Mas com uma condição."
Ele franziu a testa, impaciente. "Qual?"
"Quero que você se case com Larissa."
Ricardo arregalou os olhos, chocado. "O quê? Você enlouqueceu?"
"Não," Isa sorriu, um sorriso gelado. "Percebi que vocês se amam. Quero a felicidade de vocês."
Ele a estudou, desconfiado. "Você sempre me quis. O que você está tramando?"
Isa encolheu os ombros. "Nada. Apenas cansei."
Ela viu os documentos de Larissa sobre uma mesinha ao lado. Ricardo, em seu desespero, os havia esquecido ali. A identidade, o CPF.
Uma ideia brilhou em sua mente.
"Preciso ir ao banheiro," ela disse, levantando-se.
Ricardo não deu atenção, já voltado para a sala onde Larissa estava.
Isa pegou discretamente os documentos de Larissa e os seus próprios que estavam na sua bolsa.
No cartório, horas depois, com o sangue ainda latejando fracamente em suas veias pela transfusão recém-feita, Isa sorriu para o escrivão.
"Sim, queremos registrar o casamento. Ricardo Almeida e Larissa Mendes."
Ela usou uma procuração falsa, habilmente forjada com base em modelos que encontrou online, e os documentos de ambos.
O escrivão não questionou.
Isa saiu do cartório com a certidão de casamento em mãos.
Ricardo e Larissa estavam casados. E nem sonhavam com isso.
"Ricardo," ela pensou, "eu te dei o que você mais queria. Agora, me deixe em paz."
Seu sonho de ser estilista, de estudar em Paris, enterrado por sete anos, ressurgiu.
Desta vez, seria diferente.
Isa tentou ligar para Ricardo no dia seguinte.
Queria informá-lo, de forma casual, sobre o "pequeno favor" que fizera.
Ele não atendeu.
Claro que não. Estava ocupado demais cuidando de Larissa.
Isa sentia o corpo ainda fraco da transfusão.
Mas uma nova determinação a aquecia por dentro.
Ela viu as fotos nas redes sociais.
Ricardo segurando a mão de Larissa no hospital, o olhar devoto.
"Meu amor, você vai ficar bem," ele legendou.
Uma pontada familiar de dor a atingiu, mas ela a afastou.
Aquela não era mais a sua vida.
Finalmente, conseguiu falar com Ricardo por telefone.
"Preciso falar com você sobre o casamento," ela disse.
"Casamento?" A voz dele era puro desprezo. "Ainda com essa história, Isabella? Pensei que você tinha desistido."
"Não, Ricardo, você não entendeu..."
"Entendi perfeitamente," ele a cortou. "Você quer usar essa transfusão para me prender. Não vai funcionar. E nem pense em contar a ninguém sobre a condição de Larissa ou sobre o seu sangue. Se uma palavra vazar, você vai se arrepender."
Isa suspirou. Ele era inacreditavelmente egocêntrico.
"Tudo bem, Ricardo. Você descobrirá sozinho."
Ela desligou.
Não valia a pena.
Paris. Moda. Esse era o foco.
Ouviu comentários na fazenda dos avós, para onde voltou para se recuperar.
"O Dr. Ricardo é tão dedicado àquela atriz, não é?"
"Um amor de novela!"
Isa sorria e concordava.
Decidiu que iria para Lisboa primeiro. Era mais fácil conseguir o visto, e de lá, Paris seria o próximo passo.
Começou os trâmites para o passaporte e o visto de estudante.
Haveria um período de espera.
Enquanto isso, começou a faxina.
Tirou todas as fotos de Ricardo do seu quarto.
Jogou fora os poucos presentes que ele lhe dera por obrigação.
Apagou o número dele do seu celular.
Uma vizinha da fazenda, fofoqueira, viu a pequena fogueira que Isa fez com as cartas antigas.
"Isabella, o que está fazendo? Brigou com o Dr. Ricardo?"
Isa sorriu. "Apenas limpando o passado."
A vizinha, claro, correu para contar a quem quisesse ouvir.
A notícia, distorcida, chegou aos ouvidos de Ricardo.
"Ela está queimando as coisas dela para se livrar de qualquer ligação comigo? Ou está tentando chamar minha atenção, fazendo cena?" ele pensou, irritado.
Ele ainda acreditava que Isa era obcecada por ele.
Dias depois, ele ligou.
"Isabella, teremos um evento da empresa na próxima semana. É importante que você esteja lá."
"Eu? Por quê?"
"Porque," ele disse, a voz dura, "as pessoas ainda acham que temos algo. Precisamos manter as aparências até que a poeira baixe. E você é, tecnicamente, minha noiva, não se esqueça do seu teatrinho."
Isa quase riu. Mal sabia ele.
"Como quiser, Ricardo."