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ADRIANO - UM MAFIOSO IMPIEDOSO LIVRO 12

ADRIANO - UM MAFIOSO IMPIEDOSO LIVRO 12

Autor: A.Fagundes
Gênero: Máfia
SINOPSE Amor. Que ilusão patética e absurda. Um conto de fadas criado para os fracos, cegos demais para enxergar o mundo como ele realmente é. O mundo é um lugar corrompido, onde mentiras prosperam e todos escondem uma lâmina atrás de um sorriso. Não existem santos. Apenas diferentes tons de cinza. Acreditei nisso durante anos, até conhecê-la. Uma alma inocente em um mundo afundado no pecado. Um raio de luz em meio à escuridão. Uma flor delicada da qual eu deveria me manter distante. Mas não consigo. Vou roubar sua luz, mesmo sabendo que ela nunca pertenceu a mim. IRIS Amor. O sentimento mais poderoso do mundo. Capaz de levar alguém ao paraíso ou fazê-lo atravessar o inferno por quem ama. E é exatamente isso que eu faço. Eu me entrego a um homem que não se importa com nada além de riqueza e poder. Um homem que acredita que tudo pode ser comprado, até mesmo a vida de uma pessoa. Ele não tem piedade. Não tem alma. Apenas gelo em seu coração sombrio e impiedoso. Essa versão fica mais enxuta, mantendo o tom sombrio, intenso e romântico da história.
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Capítulo 1

SINOPSE

Amor.

Que ilusão patética e absurda. Um conto de fadas criado para os fracos, cegos demais para enxergar o mundo como ele realmente é.

O mundo é um lugar corrompido, onde mentiras prosperam e todos escondem uma lâmina atrás de um sorriso. Não existem santos. Apenas diferentes tons de cinza.

Acreditei nisso durante anos, até conhecê-la.

Uma alma inocente em um mundo afundado no pecado. Um raio de luz em meio à escuridão. Uma flor delicada da qual eu deveria me manter distante.

Mas não consigo.

Vou roubar sua luz, mesmo sabendo que ela nunca pertenceu a mim.

IRIS

Amor.

O sentimento mais poderoso do mundo. Capaz de levar alguém ao paraíso ou fazê-lo atravessar o inferno por quem ama.

E é exatamente isso que eu faço.

Eu me entrego a um homem que não se importa com nada além de riqueza e poder. Um homem que acredita que tudo pode ser comprado, até mesmo a vida de uma pessoa.

Ele não tem piedade.

Não tem alma.

Apenas gelo em seu coração sombrio e impiedoso.

Essa versão fica mais enxuta, mantendo o tom sombrio, intenso e romântico da história.

Ordem de Leitura e Tropes de Mafiosos Impiedosos

Disponíveis nas plataformas digitais NOVELY, VIART ROMANCES, LERA, DREAME E SEABELL

1. ROMAN (Nina e Roman)

Tropes: herói com deficiência, casamento de fachada, diferença de idade, opostos se atraem, herói possessivo/ ciumento

2. MIKHAEL (Bianca e Mikhail)

Tropes: herói com cicatrizes/deficiência, heroína muda, casamento arranjado, diferença de idade, A Bela e a

Fera, herói possessivo/ciumento demais

3. SERGEI (Angelina e Sergei)

Clichês: diferença de idade, herói atormentado, só ela consegue acalmá-lo, quem fez isso com você?

4. LUCA (Isabella e Luca)

Clichês: casamento arranjado, diferença de idade, herói possessivo/ciumento ao extremo, amnésia

5. SALVATORE (Milene e Salvatore)

Tropes: casamento arranjado, herói com deficiência, diferença de idade, herói sem emoções, herói extremamente possessivo/ciumento.

6. PEVEL (Asya e Pavel)

Tropes: ele a ajuda a se curar, diferença de idade, quem fez isso com você?, herói possessivo/ciumento, ele acha que não é bom o suficiente para ela.

7. ALESSANDRO (Ravenna e Alessandro)

Tropes: guarda-costas, amor proibido, vingança, de inimigos a amantes, diferença de idade, quem fez isso com você?, herói possessivo/ciumento

8. DRAGO (Sienna e Drago)

Tropes: herói surdo, casamento arranjado, diferença de idade, herói rabugento e alegre, opostos se atraem, herói extremamente possessivo/ciumento.

9. KAI (Nera e Kai)

Tropes: rabugento-sol, opostos se atraem, diferença de idade, herói stalker, só ela consegue acalmá-lo, ele odeia todo mundo menos ela, toque nela e morra

10. MASSIMO (Zahara & Massimo)

Clichês: diferença de idade, romance proibido, só ela consegue acalmá-lo, os opostos se atraem, ele odeia todo mundo menos ela, toque nela e morra, herói possessivo/ciumento ao extremo

11. ARTURO (Tara e Arturo)

Clichês: casamento arranjado, diferença de idade, de inimigos a amantes, rabugento/alegre, os opostos se atraem, toque nela e morra, herói possessivo/ciumento ao extremo

12. ADRIANO (Iris & Adriano)

Clichês: opostos se atraem, diferença de idade, herói perseguidor, casamento forçado/arranjado, só ela consegue acalmá-lo, opostos se atraem, toque nela e morra, herói possessivo/ciumento ao extremo.

DEDICATÓRIA:

A todos os leitores que embarcaram comigo nesta jornada intensa, perigosa e apaixonante da série Mafiosos Impiedosos.

Obrigada por acompanharem cada capítulo, cada reviravolta, cada batalha travada entre poder, vingança, lealdade e amor. Vocês deram vida a esses personagens com seu carinho, mensagens e apoio incondicional.

Este livro possui um significado especial, pois marca a história de Adriano o último mafioso impiedoso desta série. Um homem moldado pela escuridão, pela força e pelos desafios do seu destino, mas que também encontrou motivos para amar e lutar.

Que esta despedida seja tão memorável quanto o início dessa trajetória. Cada mafioso deixou sua marca, mas todos eles permanecerão vivos através das páginas, das emoções e das lembranças que compartilhamos juntos.

Com todo o meu carinho e gratidão,

Angelinna Fagundes!

"Toda história chega ao fim, mas os personagens que amamos permanecem para sempre em nossos corações."

Aviso de conteúdo

Este livro contém conteúdo que alguns leitores podem considerar perturbador ou chocante, como menções de morte, sequestro, além de descrições gráficas de violência e sangue.

Prólogo

Iris

Branco.

O símbolo da castidade me envolve, escorrendo pelos meus ombros e se espalhando pelo mármore cinza polido a cada passo que dou. Tão puro. Angélico, até. A cor da inocência. Da liberdade.

Perdi ambos.

Como ondas me assaltando pela proa e pela popa, sussurros me invadem de ambos os lados do corredor, uma avalanche de murmúrios baixos que quase me fazem tropeçar. Centenas de olhares julgadores dos fiéis da Cosa Nostra e seus seguidores me encaram fixamente. Suas palavras sussurradas são baixas demais para que eu consiga entender. Mas não há como confundir o tom.

Choque.

Espanto.

Desdém.

E mais do que uma dose de incredulidade por alguém tão inferior a eles ser agora acolhido em sua sociedade, considerado seu igual.

Absurdo, não é?

Ignoro tudo, continuando minha caminhada lenta em direção à entrada da catedral, sentindo o peso do meu vestido de noiva enquanto a barra se enrola nos meus pés. A mais fina seda italiana, bordada com delicados fios dourados, tenta me fazer tropeçar, sussurrando com desdém o que as pessoas ao meu redor devem estar pensando, mas jamais ousariam dizer em voz alta.

Você não pertence a este lugar.

Tenho vivido à margem da sociedade da Cosa Nostra praticamente desde que aprendi a andar. Alguns deles eu até considero meus amigos. Mas nunca fui um deles. Nunca quis ser, também. E tinha certeza de que jamais me tornaria como qualquer um deles. Até ele.

Mesmo no mundo sombrio e inescrupuloso da Cosa Nostra, eu sempre acreditei que havia bondade em todos. Mesmo que fosse apenas um pouco. Independentemente das decisões ou ações imorais que dominam suas vidas.

Até ele.

O homem com um olhar impiedoso em seus olhos azuis gélidos, que agora me espera no altar. Aquele que não hesitaria em aniquilar qualquer um que se colocasse em seu caminho e depois passar por cima de seus cadáveres para conseguir o que deseja.

Era uma vez, aqueles olhos me enfeitiçavam. Eu ficava completamente fascinada por aquele homem que parecia se destacar dos demais. Não por sua riqueza ou posição social, mas porque ele não era como os outros.

Ele era uma boa pessoa, de alguma forma presa em um covil de lobos. Tentando sobreviver. Como eu.

Era o que eu pensava.

Acreditava que, apesar das atrocidades que eram prática comum no mundo em que vivia, seu coração permanecia puro, suas mãos, limpas. Isso me tocou. E eu o admirava por isso. Cheguei até a ter uma quedinha por ele. Talvez até uma grande, mas nunca intencionalmente. Eu simplesmente não conseguia ignorar o frio na barriga ou a falta de ar que me atingia sempre que meus olhos o encontravam.

Ele era diferente.

E essa diferença me chamou a atenção. Ressonou em meu coração.

Meu Deus, como eu fui tolo.

Este homem é incapaz de empatia ou compaixão. Vive como se pudesse obter tudo o que deseja, não importa o custo. Independentemente das consequências. Estas são insignificantes. Suas mãos estão tão ensanguentadas quanto as de qualquer outro nesta igreja. Só que ele conseguiu esconder isso. Por anos. Nunca permitindo que ninguém visse o que havia por trás de seu disfarce. Não por vergonha de seus atos. Nem por medo. E não porque quisesse fingir ser melhor. Mais moral. Pelo contrário, na verdade. Ele permitiu que toda a Cosa Nostra acreditasse que era inofensivo. Quase nenhuma ameaça para ninguém. Uma ovelha mansa e bem-educada.

Ah, como eles estão enganados.

Ele é possivelmente o predador mais perigoso de todos.

Outro lobo, mas em pele de cordeiro.

E ninguém faz a mínima ideia.

Até que, por acaso, vi o homem atrás da cortina.

Caiu na armadilha dele.

Talvez este casamento com ele seja a minha penitência? A maneira que ele encontrou de me fazer pagar por ter descoberto os seus segredos. As suas mentiras.

Ou talvez ele simplesmente goste de brincar com a vida dos outros.

Simplesmente porque ele pode.

As últimas notas da marcha nupcial se dissipam enquanto subo meus últimos passos até o altar, parando ao lado do meu noivo. Seu olhar azul glacial me penetra com a mesma intensidade de quando nos vimos pela primeira vez. E meu coração traiçoeiro palpita tão descontroladamente agora quanto naquela época.

Na noite em que entrei logo depois que ele matou sua primeira esposa.

Capítulo 2

Vários meses antes (Iris, 24 anos; Adriano, 43 anos) A festa do Capo Brio Saccone

"Nossa, eu daria tudo para estar no lugar deles. E você?"

Ajusto as taças na bandeja que estou segurando, espaçando-as de forma que fiquem aproximadamente à mesma distância umas das outras, e então olho para o canto mais distante do salão de banquetes, onde o olhar de Rina está fixo.

Vestidas impecavelmente com magníficos vestidos longos de seda, um grupo de mulheres se reúne perto de uma estátua de mármore de um cavalo empinado. Todas as quatro sorriem e conversam enquanto saboreiam um champanhe extremamente caro servido em taças de cristal. O mesmo tipo de champanhe que estou tentando desesperadamente não derrubar agora. Cada detalhe nelas - dos cabelos perfeitamente penteados, presos em coques elaborados e adornados com acessórios brilhantes, às unhas dos pés impecavelmente feitas que aparecem por baixo dos saltos elegantes e reluzentes - exala extrema riqueza.

"O que você acha... Quanto vale o colar da Sra. Cruvello?" Rina continua, sem se dar ao trabalho de esperar minha resposta à pergunta anterior. Ela faz isso com frequência, mas não me importo. "Aposto que pelo menos duzentos mil."

"Sem dúvida." Dou de ombros. "É um colar lindo."

"Nossa, deve ser bom ganhar na loteria da vida e nascer em uma família assim." Os olhos de Rina praticamente brilham enquanto ela admira o colar de ouro vintage no pescoço da Sra. Cruvello. "Eu mataria para ter algo assim. Quer dizer... Alguém provavelmente morreu para que ela o tivesse agora." Ela leva a mão aos lábios para protegê-los e sussurra: "E não estou falando de causas naturais. Certo?"

"Talvez." Gesticulo em direção à bandeja dela, cheia de copos vazios. "Você deveria levá-los para a cozinha antes que o Capo Brio os veja. Ele está rondando a noite toda, observando tudo como um falcão para garantir que esteja perfeito." Tento imitar a voz do anfitrião do evento desta noite, mas falho miseravelmente em reproduzir seu sotaque anasalado.

"Você é realmente algo especial, Iris. Menina, como você consegue ser tão indiferente a tudo isso? Você trabalhou nas casas de três chefões diferentes por... o quê? Quase uma década? Depois de ver como eles vivem, você não sente pelo menos um pouco de inveja deles?"

Levanto os olhos, deixando-os percorrer a multidão. "Sentir inveja implicaria que eu trocaria de lugar com um deles sem hesitar. Não trocaria. Como você disse, convivo com eles há muito tempo. Tempo suficiente para perceber que o dinheiro só compra coisas, nunca felicidade."

"Hum. Bom, talvez vocês não se importem de esperar por essa turma pelo resto da vida, mas eu não." Ela se inclina para frente como se fosse compartilhar um segredo. "A Maggie finalmente conseguiu me colocar no programa dela. Começo no próximo sábado."

"O quê?" Eu sussurro, quase gritando, mas Rina já está se afastando, indo em direção à cozinha.

J esus. Rina sempre foi um pouco imprudente. Enquanto trabalhava para a Cosa Nostra, ela se encantou com a riqueza que via diariamente e com a vida glamorosa que ela proporcionava. Mesmo assim, eu nunca imaginei que ela chegaria a esse ponto para tentar abocanhar uma parte disso para si. Há meses, ela fala da prima, Maggie, que aparentemente trabalha em um clube de cavalheiros de luxo, ganhando rios de dinheiro a cada turno. Só consigo imaginar que tipo de serviços as mulheres prestam naquele lugar.

Espero sinceramente que Rina reconsidere, mas algo me diz que não. Ela sempre foi bastante clara sobre suas ambições. Ao longo dos anos que a conheço, ela também evitou contar às pessoas que trabalha como empregada doméstica. Como se ganhar um salário cuidando dos outros fosse algo vergonhoso. Em vez disso, Rina mentia, sempre inventando algo que a fizesse parecer... melhor, eu acho.

Ao contrário de Rina, eu não tenho problemas com meu trabalho. Ser um membro valioso da equipe doméstica de Don Spada e ganhar um salário decente, suficiente para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a minha cabeça e a da minha mãe, não é motivo de vergonha.

Balançando a cabeça em descrença, aventuro-me a entrar no salão de banquetes lotado.

As festas que a elite da Cosa Nostra organiza sempre foram extravagantes. Cada uma delas uma tentativa de superar a outra. Mas a de hoje à noite pode superar tudo o que já vi. Há até pequenos cartões espalhados pelas mesas, anunciando as bebidas premium do bar e o cardápio do jantar, composto por pratos que eu nem consigo pronunciar.

O Capo Brio Saccone definitivamente quer causar uma boa impressão. Ele até se certificou de que os uniformes da equipe combinassem com a decoração da noite. Todos nós recebemos vestidos de cetim azulmarinho acinturados com cintos largos azul-claros. Nossos trajes são idênticos às toalhas que adornam as mesas de jantar. De certa forma, o Capo Brio nos transformou em verdadeiras máquinas de servir tênis. E cada um de nós foi avisado de que precisa devolver o uniforme em perfeitas condições, sem uma única mancha. Ninguém me dá atenção enquanto continuo a circular entre os homens e mulheres impecavelmente vestidos. De vez em quando, alguém estende a mão e pega uma taça de champanhe da minha bandeja, deixando uma vazia em troca. Nem sequer olham para mim enquanto o fazem. Reconhecer a presença de funcionários contratados seria considerado uma grave gafe pela maioria dos membros da Famiglia.

"Cuidado!" rosna uma voz masculina irritada.

"Peço desculpas", murmurei e me afastei rapidamente do homem irritado, embora tivesse sido ele quem esbarrou em mim sem olhar.

Em momentos como este, tendo sido solicitado a ajudar a servir em um evento organizado por um dos chefões, sou verdadeiramente grato por trabalhar para a Sra. Zara. Na verdade, trabalho para Don Spada, mas é a Sra. Zara quem realmente administra a casa. Ela contratou todos os funcionários domésticos e está supervisionando as reformas em andamento em sua mansão. Além de garantir sua segurança, Don Spada delega a ela todas as decisões sobre sua casa. E, embora ele ainda seja rabugento e impaciente, trata todos os funcionários bem. Graças a ela.

Sorrio ao imaginar o grandalhão e durão Massimo Spada se derretendo todo pelos encantos de sua amada. Ele pensa que está escondendo seus sentimentos, mas eles são evidentes para qualquer um que tenha olhos para ver. Esse homem está perdido, assim como a Srta. Zara está perdidamente apaixonada por ele.

Sinto um aperto no coração por ter tido uma pequena participação em aproximá-los, ajudando na troca de cartas enquanto Don Spada ainda estava na prisão. Eu queria proteger a Sra. Zara e seu segredo, resguardá-la de todo mal como se fosse minha própria irmã. Como eu gostaria que a minha tivesse feito por mim. Talvez seja por isso que eu fiz isso. Foi um risco me envolver nos esquemas da Sra. Zara naquela época. Mas vendo-a com Don Spada agora, eu diria que tudo valeu a pena. A história deles ainda tem um longo caminho a percorrer até o final feliz, mas tenho esperança. E quero estar lá para ver, mesmo que tenha que esfregar manchas de sangue do chão enquanto espero. Assim é a vida quando se está envolvido com a Cosa Nostra. Além disso, ganhei uma amiga maravilhosa, a Sra. Zara.

Voltando a me concentrar no presente, continuo a circular entre os convidados, observando-os discretamente. Observar as pessoas sempre foi um dos meus passatempos favoritos. Adoro tentar descobrir o que as motiva. Que segredos elas podem estar escondendo. Quando eu era pequena, minha mãe e eu passávamos o único dia de folga dela no parque perto de casa. Passávamos horas observando as pessoas enquanto passavam, inventando histórias sobre quem eram, para onde iam e o que estavam fazendo. Era divertido, e sinto muita falta daqueles tempos. Agora, porém, observo as pessoas sabendo exatamente quem elas são.

Capo Primo, por exemplo. Dizem que ele é ótimo com dinheiro. Você pensaria que isso o tornaria...

organizado. Que nada. Ele está debruçado sobre uma mesa repleta de canapés, enchendo o prato com iguarias sofisticadas. A pilha está tão alta que corre o risco de cair no chão, mas ele continua adicionando mais e mais canapés. Sua esposa está ao lado dele, segurando um prato igualmente cheio. No entanto, em vez de estar na comida, sua atenção está voltada para o filho. Mais especificamente, para a meleca grudada na bochecha dele. Murmurando algo, ela leva a ponta de um lenço de papel dobrado à boca e umedece a língua. Em seguida, começa a esfregar a mancha indesejada. Eu me encolho, com nojo. Ruggero tem quase a minha idade, pelo amor de Deus.

Alguns outros convidados esbarram em mim enquanto eu contornava a borda da sala, mas consigo manter minha bandeja firme, sem derramar uma gota do champanhe que restava. Não é a primeira vez que faço isso.

"Que conquista incrível, Urzo!" exclama uma senhora mais velha enquanto pega uma flauta na minha bandeja. "Eu não fazia ideia de que você tinha interesse em expandir para o mundo da tecnologia."

O homem ao lado dela sorri enquanto pega sua própria taça de champanhe. "Eu não era. Pelo menos não até recentemente. Esta empresa em particular não passa de um peixinho entre os tubarões mundialmente famosos, mas desenvolveu um módulo de gerenciamento de transporte que vai revolucionar a otimização de rotas. Assim que soube que os proprietários queriam vender, não pude perder a oportunidade. Mas me custou uma fortuna. Outra empresa estava interessada e aumentou o preço com uma oferta exorbitante."

"Ah! Agora preciso saber quanto você pagou. Um milhão? Mais?"

Um lampejo de irritação surge nos olhos do homem. "Quase cinco, na verdade." Ele me dispensa com um gesto de mão.

Minhas sobrancelhas quase tocam a linha do meu cabelo. Não consigo nem imaginar essa quantia de dinheiro, quanto mais falar dela como se fosse troco. De alguma forma, esse cara não parece ser nenhum multimilionário. Seu terno bordô é certamente impecável, e o relógio em seu pulso parece ser um Rolex, mas há algo em sua postura que me faz pensar que ele não está tão à vontade com suas roupas elegantes quanto tenta aparentar. Não me lembro de tê-lo visto antes, então ele deve ser acompanhante de alguém.

Risos e o tilintar frequente de copos se misturam às notas de uma antiga canção italiana que ecoa de altofalantes escondidos. A melodia é lenta, mas nenhum casal está dançando. Todos parecem absortos demais na conversa que acontece ao redor.

A maioria dos figurões da família real está aqui esta noite, junto com suas esposas e filhos adultos. Há, no entanto, alguns membros da aristocracia de nível médio também. É um evento importante. O Capo Brio certamente não poupou esforços. Observo outro grupo de mulheres que parecem estar admirando os anéis umas das outras, mas, na realidade, provavelmente estão comparando para ver qual pedra é maior, e então me viro para as mesas no centro do salão.

Quando chego ao meu destino, todas as taças de champanhe já foram retiradas da minha bandeja. A família adora mesmo uma bebida espumante. Decido voltar para a cozinha, recolhendo os copos descartados pelo caminho, alguns ainda meio cheios. Vários deles estão manchados com vários tons de batom vermelho. Abandonados em busca de outra indulgência mais tentadora, suponho.

Assim que chego ao limiar arqueado que separa o salão de banquetes do grande hall de entrada, um casal num canto próximo chama minha atenção. Os Ruffos. Adriano e sua esposa. Ambos são tão marcantes, cada um à sua maneira, que é impossível não notá-los, apesar de nenhum dos dois dizer ou fazer nada que atraia o olhar. E parece que não sou o único a sentir essa atração magnética, pois vejo várias outras pessoas observando a dupla enigmática. Embora eu duvide que os motivos delas sejam os mesmos que os meus.

Mordendo o lábio inferior, lanço um olhar rápido ao redor e, em seguida, deslizo para trás da enorme planta monstera entre uma das janelas e a porta. O gigante verde tem quase dois metros de altura, e suas grandes folhas me proporcionam a cobertura perfeita para observar sem ser vista.

Se há uma coisa da qual sou culpada, é de ser fascinada por Adriano Ruffo. De ficar lançando olhares furtivos para ele ao longo dos anos, sempre que ele aparecia para conversar com o chefão. O homem é lindo! Mas eu jamais cogitaria tentar chamar sua atenção, mesmo que ele não fosse casado. Um cavalheiro de sua posição social jamais se interessaria por alguém como eu.

Então, recorro a stalkeá-lo levemente. Online. Mas de um jeito bom! Não que eu seja uma psicopata nem nada. Só... uma garota com uma... queda. Talvez... uma pequena obsessão? Mas duvido que alguém me culpe. Ele é tão enigmático. E, obviamente, lindo.

Na verdade, não é apenas a aparência dele que me intriga. O Sr. Ruffo é diferente de qualquer outro membro da Cosa Nostra que eu já tenha observado. Nunca nos encontramos pessoalmente. Nunca falei diretamente com ele. Mas há algo nele. O jeito como se porta. A aura que o cerca. Ele parece tão... gentil. Nunca levanta a voz. Nunca ostenta seu dinheiro ou poder. E eu sei, com certeza, que ele tem ambos.

Li todos os artigos sobre ele que consegui encontrar (e não foram muitos). Até mesmo aqueles que se aprofundavam em seus negócios, coisas que eu não conseguia entender completamente. Mas eles me deram uma ideia de quem ele é. Ele nunca responde a perguntas pessoais, nunca se coloca no centro das atenções. Mas fala abertamente sobre metas, estratégias e resultados. Certa vez, ele disse: "Se você não moldar o futuro que deseja, ele poderá moldá-lo de maneiras que você não vai gostar". Isso me marcou. Imprimi esse artigo quando estava na biblioteca e o escondi entre as páginas do meu livro favorito em casa. Também tirei prints de algumas fotos dele e as guardei em uma pasta especial no meu celular.

Há alguns meses, uma revista online publicou um artigo de quatro páginas sobre a Ruffo Enterprises, empresa que o Sr. Ruffo herdou com pouco mais de vinte anos, após a morte de seu pai em um acidente de avião. Na época, era uma pequena empresa, mas sob a direção do Sr. Ruffo, transformou-se rapidamente em um gigantesco conglomerado internacional. Tornar-se multimilionário obviamente não o tornou insensível aos outros, pois o artigo mencionou que a empresa faz doações regulares para acampamentos de verão para crianças órfãs. Isso me inspirou a apoiar a causa também. Em vez de comprar um casaco de inverno de que eu precisava muito, doei os setenta e quatro dólares que consegui economizar. As crianças merecem.

A única informação pessoal interessante que consegui descobrir é que o bisavô de Adriano Ruffo era um duque na Itália. Então, além de ser o homem mais rico da Cosa Nostra de Boston, ou pelo menos é o que dizem, ele também parece ser parente de algum tipo de membro da realeza. Se alguém deveria estar se exibindo por aqui, esse alguém deveria ser ele. Mas não é isso que ele está fazendo.

Não consigo me conter, aproveito este momento para observá-lo de perto. Nunca tive uma oportunidade assim antes, sempre o vi apenas de longe - um vislumbre pela janela quando ele saía, uma espiada pela porta quando entrava. Para mim, ele nunca pareceu se encaixar no mundo da máfia italiana. Ele deveria estar comandando salas de reuniões em algum lugar, não apertando as mãos de capos e do chefão.

Esta noite, ele está vestido com o que tenho certeza ser um terno sob medida de três peças, cinza-chumbo. Só pela aparência, ele certamente se encaixa neste grupo. Estando tão perto dele, também percebo que ele é muito mais alto do que eu imaginava. E muito mais bonito. Muito, muito mais.

A única vez que comentei sobre ele com a Rina, ela disse que ele ficaria muito mais bonito se perdesse uns quilinhos, mas eu discordo. Sempre tive uma queda por homens de aparência forte. Não é que eu não ache homens magros atraentes, é só que... gosto de homens que parecem capazes de demolir qualquer coisa que esteja em seu caminho com um simples sopro. Mas, apesar de sua compleição imponente, o Sr. Ruffo ainda não passa a impressão de ser um mafioso. Não que os homens do crime organizado andem por aí com a inscrição "mafioso" na testa, mas existe uma certa aura neles. Depois de trabalhar para a família mafiosa por tanto tempo, geralmente consigo identificar um, mesmo à distância.

Para começar, o Sr. Ruffo não usa nenhuma joia que eu consiga ver, algo que é praticamente padrão entre a maioria dos homens da Cosa Nostra. Nada de cruz dourada no pescoço, nenhum anel de sinete, nenhuma pulseira. A única coisa brilhante nele é uma fina aliança de casamento de ouro. E, pelo que pude perceber, ao contrário de outra afetação comum entre mafiosos, ele não tem nenhuma tatuagem visível. Além disso, ele usa óculos, o que já é meio estranho por si só. Homens neste meio preferem andar por aí semicerrando os olhos ou usando lentes de contato a demonstrar uma possível fraqueza. Não Adriano Ruffo. Suas lentes realçam seu charme, reforçando a imagem de um CEO inteligente. Mas sua característica mais notável, aquela que o diferencia de todos os outros mafiosos que conheço, é a completa ausência daquela arrogância - aquela que diz: "Vá embora ou eu te mato".

Os italianos são muito expressivos, e geralmente é possível perceber o humor deles pela expressão facial. Mas o Sr. Ruffo não demonstra nenhuma. Mesmo agora, ao lado da esposa em meio a uma festa animada, ele permanece imóvel e silencioso, observando os presentes sem qualquer indício de emoção em seu belo rosto. Será que ele está se divertindo? Será que está entediado? Não faço ideia! Ele simplesmente parece... simpático. Tão comum. Não exatamente no sentido de "plebeu", mas no sentido de... "pé no chão, porém rico". E tão completamente deslocado em meio a essa multidão arrogante. Definitivamente não é como alguém que sai por aí espancando pessoas ou atirando em seus rostos.

Quer dizer, o homem é sempre educado. Sempre fala bem. Ninguém nunca o ouviu sequer xingar. Há um bolão rolando entre os funcionários da Spada, uma aposta sobre quando o Sr. Ruffo vai soltar um palavrão. Até agora, nenhum vencedor. Não tenho certeza se algum dia haverá um.

"Eles formam uma dupla e tanto, não é?"

"J esus, Rina!" Eu me assustei e quase deixei cair a bandeja com as bebidas descartadas e os copos vazios.

"Quase tive um ataque cardíaco!"

Ela ri baixinho e se esgueira para debaixo das folhas da monstera para ficar ao meu lado. "Você reparou que ele não olhou para a esposa nem uma vez durante toda esta noite?"

"Hum... não exatamente." Forço meu olhar para a Sra. Ruffo, que está a um braço de distância do marido, mas em vez de falar com ele, ou com qualquer outra pessoa, está mexendo no celular.

Até agora, eu mal tinha prestado atenção nela, um feito considerando que o minivestido justo que ela está usando revela bastante pele. Seu cabelo loiro está penteado em um chanel reto, onde cada fio está alisado em uma linha reta, com as pontas roçando a borda de seu grosso colar dourado. E aquele colar... Uau! Várias fileiras de diamantes brilhantes ao redor de uma grande pedra vermelha. Um rubi, provavelmente. É incrível que seu pescoço suporte tanto peso.

Seu vestido justo realça ainda mais seu corpo perfeitamente tonificado, e seus saltos altíssimos fazem suas pernas, já longas, parecerem intermináveis. Mesmo ao lado do marido, ela parece alta. Sofisticada. Esplêndida. Os Ruffos realmente parecem ser um casal muito bem combinado. O que me faz pensar sobre os rumores que têm assolado seu casamento constantemente.

"Vejo que desta vez ela resolveu se proteger. É a primeira vez", continua Rina em voz baixa. "Sempre me perguntei como esses dois foram parar juntos. Estão casados há anos, mas nunca os vi demonstrar o mínimo de afeto. Pensando bem, acho que nunca os vi se tocarem."

"Talvez o Sr. Ruffo simplesmente não goste de demonstrações públicas? Tenho certeza de que ele está apaixonado por ela, já que eles ainda estão juntos."

"Pode ser. E, no entanto, ela o trai sempre que tem oportunidade, e o coitado não faz a mínima ideia."

Capítulo 3

Adriano

"Aconteceu alguma coisa, Filippa?"

Minha esposa paralisa, mas logo em seguida guarda o celular, enfiando-o na bolsa. "Claro que não."

"Tem certeza?" Levanto meu copo de uísque e tomo um longo gole. "Você parece um tanto... tenso esta noite."

"Estou bem."

Minha sobrancelha se ergueu em dúvida, mas permiti que minha esposa evasivasse por um momento, voltando minha atenção para os convidados do Brio. Nossa posição proporcionava uma vista desimpedida de todo o salão de banquetes e também ficava perto da janela aberta atrás de nós, que deixava entrar uma leve brisa noturna, bastante refrescante neste salão lotado. O cínico em mim, porém, não engoliu a desculpa esfarrapada de Filippa sobre querer evitar a multidão quando sugeriu aquele lugar. Mesmo assim, dei-lhe crédito. Então, observei com grande divertimento sua inquietação quando escolhi ficar um pouco de lado, em vez de bem em frente à janela, mantendo-me fora da vista de qualquer pessoa que estivesse rondando o estacionamento.

Um lampejo de cor bordô chama minha atenção. Urzo Bonacci. O pirralho que, de alguma forma, conseguiu me superar no leilão da Cobalt Inc. Esse miserável ficou rico recentemente e, desde então, vem tentando se infiltrar nos negócios da Família. Não me importo nem um pouco com suas aspirações ou com os benefícios que ele acha que pode trazer, mas me importo sim quando suas ações atrapalham meus planos. Preciso ficar de olho nesse imbecil.

Ao meu lado, Filippa pega o celular novamente. Suas longas unhas pintadas de vermelho digitam irritadas na tela enquanto ela digita o que deve ser a vigésima mensagem de texto na última meia hora.

"Pode parar por aqui", comento antes de dar outro gole na minha bebida. O barulho está aumentando a dor nas minhas têmporas. "Não vou responder."

O estalo cessa. Ouço-a inspirar profundamente. Depois, outra vez. "O que... o que você quer dizer?"

Coloquei o copo sobre a mesa a alguns passos de distância e me virei para minha esposa. "Vamos dar uma caminhada."

"Por quê?" O alarme está estampado em seu rosto enquanto ela pisca para mim, confusa. "Eu... eu estou gostando e quero ficar aqui. Além disso, o que você quis dizer com-" "Ora, Filippa", insisto, e atravesso o salão de banquetes.

Donatello, um investidor nos negócios da família, me vê e vem direto na minha direção. Eu o ignoro. Sei que ele quer discutir a recente fusão entre minha empresa e um de nossos parceiros estrangeiros, mas agora não é o momento para isso.

Meu caminho para a saída me leva até Massimo Spada e Salvo Canali. O novo chefão da La Famiglia e seu amigo de infância, agora seu fiel subchefe, parecem estar em uma profunda discussão sobre Endri Dushku, líder de um sindicato rival, e a possibilidade de o albanês estar por trás da mais recente tentativa de assassinato contra Massimo. Salvo parece determinado a culpar Dushku, listando apaixonadamente os motivos plausíveis para sustentar seu argumento. Mal posso esperar para ver o escândalo quando Massimo perceber que a força por trás de uma vingança de quase duas décadas para destruí-lo não é outra senão seu próprio melhor amigo. Descobri a verdade há alguns anos e, em certo momento, considerei esclarecer Spada, mas descartei a ideia ao perceber que não me traria nenhum benefício.

Do lado de fora do salão de banquetes, viro à esquerda em direção aos fundos da casa de Brio, sem me surpreender ao ouvir o tilintar dos saltos de Filippa enquanto ela tenta me acompanhar. Estou indo para a biblioteca, que fica em frente ao escritório de Brio, no final do corredor. O local é suficientemente afastado das festividades para permitir a conversa particular com minha esposa que tenho em mente. Além disso, o fato de Brio ter mandado isolar acusticamente a sala no ano passado também ajuda. Isso a torna ideal para as minhas necessidades.

"Você vai me contar o que está acontecendo?" Filippa dispara enquanto me segue para dentro da espaçosa biblioteca. "Deveríamos voltar para a festa. Lucrécia deve me procurar assim que chegar para que possamos discutir os planos para o aniversário dela. Não tenho tempo para-"

"Feche a porta", ordeno, e me acomodo na poltrona ao lado do carrinho de bebidas.

"Sério, Adriano? Isso é um absurdo. Qualquer assunto que você queira discutir pode esperar até chegarmos em casa. Agora, estamos sendo esperados... "

Ela não para de falar sem parar. Seu tagarelice estridente está intensificando minha enxaqueca. De todas as coisas que mais me irritam na minha esposa - e a lista é bem longa - o som da voz dela está no topo. Mas, infelizmente, nos negócios, até os negócios mais vantajosos têm um porém. Ou dois, como no caso da minha aquisição da empresa de logística endividada que pertencia ao pai da Filippa.

Há dez anos, eu estava ansioso para assumir o controle das rotas de transporte internacional préaprovadas que acompanhavam os contratos existentes da empresa dele. Para isso, tive que pagar uma longa lista de credores, num montante de setenta e cinco milhões de dólares. Troco de bolso em comparação com o que se vê por aí. A outra condição insignificante, porém, era que eu me casasse com Filippa. Não sei ao certo quem teve essa ideia, meu sogro ou sua filha interesseira, mas aposto que foi minha esposa. Eu não me importava nem um pouco em me casar, mas queria um filho. Um filho. Uma filha. Tanto fazia, contanto que fosse meu. A próxima geração da família Ruffo. Com essa possibilidade em mente, considerei o acordo com o pai de Filippa aceitável. Com uma condição. Concordei com um casamento de no máximo dez anos e, se a união não gerasse herdeiros, eu poderia pedir o divórcio ao término do prazo, e Filippa não receberia um centavo.

Filippa ainda tagarelava sobre nosso retorno ao salão de banquetes quando peguei meu celular e abri a conversa com Brahms, meu chefe de segurança. Com um clique, encaminhei o link que ele me enviou pouco antes de chegarmos à Saccone Villa. Um único sinal do celular de Filippa me alertou sobre a chegada da mensagem. Ela parou de falar imediatamente e arrancou o celular da bolsa com um movimento rápido.

"Não se esqueça de aumentar o volume", insisto enquanto me sirvo de uma taça de Macallan de dezoito anos da Brio. "A qualidade do áudio é excepcional."

Um instante depois, gritos roucos ecoam pela sala. Observo o rosto da minha esposa perder toda a cor enquanto tomo meu uísque, apreciando a forma como o choque e o pânico se espalham por suas feições enquanto sons de lamentos fluem do vídeo em sua tela.

"Você deveria ter pedido uma mesada maior, minha querida", eu digo. "Com meros cem mil, você teria conseguido contratar um assassino de aluguel medíocre que talvez desse conta do recado. Aceitar um desses em troca da morte do seu marido é uma atitude bem míope da sua parte."

O telefone escorrega da mão de Filippa e cai no chão, mas o vídeo continua a ser reproduzido, os gritos do homem ecoando pela biblioteca. Pelo som, é a parte em que Brahms corta o baço do aspirante a assassino.

"Seu desgraçado!", minha esposa dispara.

"Por favor, poupe-me de suas falsas preocupações com seu infeliz amante. Nós dois sabemos que você estava simplesmente o usando." "Vai se foder!"

Reviro os olhos e me recosto na cadeira. "Ah, Filippa. Será que eu não te dei tudo o que seu coração desejava? Como minha esposa, o crédito ilimitado para suas compras intermináveis e viagens de luxo pelo mundo todo para você e suas amigas interesseiras era garantido, mas você se superou nos últimos anos em termos de gastos extravagantes. Era mesmo necessário voar para Paris no meu jato particular para arrumar o cabelo? Nenhum dos salões exclusivos de Boston ou Nova York te agradou? Ou que tal alugar o Museu de Belas Artes inteiro para a sua festa de aniversário? E nem me fale do vinhedo na Espanha que você comprou só para provar que não entende tanto de vinho quanto alguém disse."

"Era meu direito!", ela retruca. "De que adianta ter o dinheiro se não posso gastá-lo como quero? Não deveria ter que ouvir você me dar sermão sobre isso."

"Alguma vez tentei limitar seus gastos excessivos? Não. Além disso, isso lhe dava total liberdade para fazer o que bem entendesse. Cheguei a fingir que não via você transando com metade dos homens desta cidade. A única coisa que eu esperava em troca era que você me deixasse em paz."

"Seu filho da puta. O que mais eu deveria fazer? Viver minha vida sem sexo? Como marido, você não me toca há anos. ANOS! Então, é, não me admira que eu tenha buscado afeto em outros homens."

"Não vamos nos enganar. Sua infidelidade começou muito antes de eu me retirar do nosso leito conjugal. Tolerei nosso relacionamento durante os dois primeiros anos na esperança de gerar um filho para nós, mas assim que ficou claro que isso era impossível, não vi mais sentido em continuar", digo, fazendo um grande esforço para esconder qualquer traço de emoção do meu rosto.

Garantir um legado através de um herdeiro é a única lição valiosa que meus pais me transmitiram. Na verdade, ter um filho sempre foi o meu sonho mais profundo. Ter alguém puro para cuidar, alguém não contaminado por este mundo corrompido. Amá-lo de uma forma que eu mesma nunca experimentei. Meus pais nunca me amaram, mas estou convencida de que a capacidade de amar é inerente a mim. Amar uma criança é provavelmente o único amor que sou capaz de sentir.

Depois de alguns anos tentando, Filippa e eu fizemos o teste. O problema era comigo. Meu esperma era inútil e as chances de minha esposa engravidar eram praticamente nulas. Seria isso um castigo de Deus? Uma retribuição por todas as coisas terríveis que fiz para construir meu império? Talvez. Mas uma coisa eu sei com certeza: as merdas que fiz antes não se comparam às coisas desprezíveis de que sou culpado hoje em dia. A tudo que sujou minhas mãos desde então. Talvez, antes, eu ainda tivesse um resquício de decência. Mas não depois. Não desde que me disseram que eu nunca poderia ter um filho.

"Tudo o que você sempre quis de mim foi um filho", grita Filippa. "Nada mais. Só uma criaturinha barulhenta, fedorenta e carente que faria meus peitos caírem e arruinaria meu corpo! Um herdeiro para dar continuidade à sua poderosa linhagem Ruffo. Eu devia ter pedido para um dos meus amantes me engravidar e simplesmente dito que o pirralho era seu."

Soltei um longo suspiro. Que inesperado. "Existem testes de paternidade, Filippa. Eu teria insistido em fazer um."

"Tenho certeza que sim, com essa sua atitude arrogante, presunçosa e pomposa. Deus me livre que seu dinheiro acabe nas mãos de uma criança fruto de um relacionamento ilegítimo." Ela cospe enquanto me xinga. "Como se não bastasse ter estipulado uma data de validade para o nosso casamento logo no início, você nem sequer fingiu me amar na frente de todos que conhecemos."

"Por que eu faria isso? Nosso casamento não passa de um acordo comercial. Você sabia disso desde o início. Eu nunca lhe prometi nada diferente. Nunca lhe dei a entender o contrário. Se você estava tão infeliz com esse acordo, poderia ter pedido o divórcio a qualquer momento." Ela estreita os olhos para mim e depois desvia o olhar.

"Não é algo que você possa se permitir. Não se isso significar ficar sem um tostão e perder todos os benefícios que ser minha esposa lhe proporcionou. O que seus queridos amigos pensariam de você então?"

"Eu te odeio pra caralho!" ela grita. "Te odiei desde o momento em que nos conhecemos. Detesto esse seu ar aristocrático, esse jeito excessivamente cortês. Como se essa sua estúpida civilidade te fizesse melhor do que todo mundo." Seus lábios se curvam num sorriso de escárnio. "Pois bem, deixe-me dizer uma coisa: não faz! Você me dá nojo. A única coisa boa em você é o seu dinheiro! Eu devia ter contratado um assassino para te matar logo depois do casamento, em vez de passar uma década miserável com você!"

"Talvez você devesse ter tentado. Se tivesse conseguido, seria uma mulher muito rica agora." Em vez disso, ela se viu reduzida a se prostituir para um imbecil, cujo plano era que ela me posicionasse em frente a uma janela da qual ele teria uma visão clara do estacionamento.

"Ainda tenho tempo antes do prazo expirar." Ela sorri, levando a mão à bolsa. "Vou ter que fazer isso sozinha." Ela tira um pequeno revólver e a expressão em seu rosto enquanto aponta a arma para a minha cabeça é de puro triunfo.

Ergo uma sobrancelha. "Sério? Como exatamente você vai explicar meu cadáver na biblioteca do Brio?"

"Não se preocupe. O jardineiro do Brio vai me ajudar a me livrar disso. Ele faria qualquer coisa por mim depois que eu transasse com ele."

O jardineiro também? Por que não estou surpreso?

"Guarde a arma, Filippa. Vá para casa. Faça as malas e vá embora."

"E por que diabos eu faria isso?"

"Porque, se você puxar esse gatilho, terei que te matar."

"Você?" Ela ri. "Como? Mesmo que eu erre a essa distância, o que é improvável, o que você vai fazer? Tomar a arma de mim e atirar? Você nem sabe manusear uma arma! Nossa, mal posso esperar para ser a viúva chorando no seu funeral." A alegria transborda de seus olhos. "Adeus, querido marido." Clique.

Filippa pisca, depois aperta o gatilho novamente. E de novo. E de novo. Nada além de cliques ocos se seguem.

"Que porra é essa?"

Clique. Clique. Clique.

Suspiro novamente. Ela realmente não deveria ter usado meu cartão de crédito para comprar a arma. Levando a mão às costas, pego minha Beretta e rosqueio lentamente o silenciador. "Você deveria ter ido para casa, minha querida esposa." Levanto a arma e atiro na cabeça dela.

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