NARRAÇÃO JANAÍNA
São 22h da noite e a gritaria já começou aqui em casa. Mesmo com os fones de ouvido ainda posso ouvir a Sophi gritando com o meu pai. Tem sido assim desde que ela completou dezoito anos e se acha a dona da própria vida. Terminou os estudos, mas se nega a fazer faculdade. Trabalha como vendedora em uma loja de roupas no centro da cidade e o pouco salário que recebe fica pra ela, sem ajudar nas despesas da casa. A verdade é que seu pouco salário é investido em roupas caras e baladas de gente rica.
Encaro meu caderno e não tenho condições alguma de continuar estudando com essa gritaria. Fecho o caderno e os livros, deixando tudo no canto da pequena escrivaninha. Sou mais velha que Sophi apenas dois anos. Dediquei um ano da minha vida após o colégio para estudar e entrar em uma faculdade pública. Acabei de entrar no segundo ano de medicina e minha vida está uma loucura. Trabalho em um pequeno consultório médico como recepcionista do Dr. Francisco, um chato cirurgião plástico com uma mulher plastificada. A porta do quarto se abre e Sophi surge furiosa. Entra e bate a porta com tudo.
- Nem pense em sair desse quarto hoje.
Escuto meu pai gritar da sala e ela revira os olhos.
- Velho chato.
Resmunga e arranca sua roupa de trabalho. Da cama apenas a observo pegar uma toalha e ir para o banheiro. Dividimos o mesmo quarto desde sempre. Assim que ela entra no banheiro, a porta do quarto abre e minha mãe aparece.
- Onde ela está?
- No banheiro.
Solta um longo suspiro.
- Não aguento mais esses dois.
- Bater de frente com ela não vai resolver.
- Eu sei... o problema é o seu pai. Eles são muito parecidos.
- Sim...
Aproxima-se da minha cama e me olha com carinho.
- O que Sophi nos dá de trabalho, você é o oposto.
- Só quero ser alguém na vida e seguir meu sonho.
- Um lindo sonho.
Senta-se na cama.
- Tenho tanto orgulho de você.
- Ela só esta em uma fase complicada, logo toma rumo na vida.
- Espero que sim.
Beija minha testa e sai do quarto, fechando a porta. Deito e me enterro no travesseiro, tentando dormir, já que acordo muito cedo amanhã. Um barulho estranho me acorda. Abro os olhos assustada e vejo minha irmã sentada na janela, está toda arrumada pra sair.
- Sophi...
Sussurro e ela me olha, sorri e me lança uma piscada.
- A vida é muito curta, Janaína!
Se joga da janela e sei que isso não vai prestar.
***************
TRÊS MESES DEPOIS
Chego em frente de casa e a gritaria começou cedo hoje. Respiro fundo e abro a porta.
- Você é uma vagabunda!
Meu pai grita para minha irmã que chora no canto da sala. No sofá minha mãe chora como ela, enquanto meu pai grita como louco.
- Quem é o pai dessa criança?
Oh merda! Olho para Sophi que abaixa a cabeça.
- Responde!
- Eu não sei...
Sua resposta é baixa e o vejo erguer a mão para bater em minha irmã.
- Não...
Me coloco entre os dois e meu pai me olha assustado.
- Não bata nela.
- Sua irmã merece apanhar.
- Nada justifica uma agressão.
- Mauro, já aconteceu!
Minha mãe diz se aproximando.
- Você não pode aceitar isso, Sandra! Sua filha é assim por sua culpa.
Sophi está encolhida atrás de mim, sem dizer nada.
- Saia da minha casa!
Meu pai diz com um olhar sombrio.
- Pegue suas coisas e saia dessa casa.
- Pai!
Sophi tenta argumentar, mas ele avança e consigo impedir que a toque.
- Saia...
Tenho medo de seu olhar agora.
- Vai expulsá-la grávida?
Pergunto completamente chocada com essa atitude. Ele se quer está pensando em como Sophi vai sobreviver com essa criança.
- Que procure o pai para ajuda-la. Não receberá nenhuma ajuda minha e de sua mãe.
Olho para a minha mãe e me decepciono ao ver que não se posiciona contra.
- Se ela for, também vou.
Digo firme e minha irmã segura meu braço.
- Não faça isso, Janaína!
- Se expulsá-la, estará me expulsando também.
- Se vai defender sua irmã, então presta menos do que ela. Quero-a fora de casa e se for com ela, ambas deixarão de existir pra mim.
- Então hoje o senhor perde duas filhas.
Viro e olho para Sophi.
- Vamos arrumar nossas coisas.
- Não temos pra onde ir. Não quero que sofra por um erro meu.
- Uma criança nunca é um erro. Se ela está em sua barriga é porque Deus tem um propósito. Meu sonho é ser pediatra, porque amo crianças e não posso aceitar que rejeitem uma.
Seguro suas mãos.
- Vai ficar tudo bem se confiar em mim e nos unirmos. Confia em mim?
- Sim...
- Então vamos...
***********
CINCO MESES DEPOIS
Ajudo Sophi a terminar de arrumar o berço da nossa garotinha.
- Logo ela estará aqui!
Diz cansada e vejo sua enorme barriga.
- Ainda não escolheu o nome da sua afilhada.
Acaricia sua barriga e senta na pequena poltrona. Sophi modificou seu quarto para receber minha afilhada. O pequeno apartamento que moramos mal nos cabe e um bebê ocupou ainda mais espaço. Mas estamos felizes e prontas para essa pequena. Me aproximo e ajoelho a sua frente, deitando minha cabeça em sua barriga. Recebo um chute e isso me faz rir.
- Quero escolher o nome dela ao olhar seu rostinho.
- Então será em breve. Amanhã vou na loja entregar meu afastamento e oficialmente esperar o nascimento da nossa princesa.
Nesses meses que estamos fora de casa, nunca recebemos uma ligação ou visita dos nossos pais. Realmente deixamos de existir pra eles. Tenho conciliado os estudos com o emprego, mas o dinheiro anda apertado e Sophi não ganha muito. Talvez seja a hora de procurar algo novo.
- Preciso de um banho e dormir, amanhã vai ser corrido.
Sophi diz e me levanto, ajudando-a se levantar da poltrona
- Amanhã saio cedo, então tome cuidado.
- Certo!
Responde rindo. Antes de sair do quarto, Sophi me chama e me viro pra ela.
- A vida é muita curta!
Pisca para mim e não tem como não rir. Sophi diz isso para mim desde que saímos da casa dos nossos pais. É uma forma de me dizer para viver mais e curtir a vida.
- Boa noite!
***********
O dia hoje está estranho e tenso. Não consegui me concentrar em nada e isso está me irritando. Meu celular toca com um número restrito.
- Alô!
- Janaína Kochhann?!
- Sim...
- Sou Richard, assistente social do Hospital de Santa Catarina.
Minhas mãos ficam frias e sinto um calafrio no corpo.
- O que houve?
- Poderia vir até o hospital?
- O que houve?
Pergunto gritando com os olhos cheios de lágrimas.
- Sua irmã sofreu um acidente. Poderia comparecer no hospital?
Sem responder, enfio o telefone na bolsa e saio correndo da clínica, sem avisar ninguém.
************
Entro no hospital correndo e vou até a recepção.
- Me ligaram...
Digo ofegante, buscando o ar.
- Richard... Preciso falar com Richard...
- Janaína...
Viro e vejo um homem alto e moreno.
- Sou eu...
- Me acompanhe...
Vira e vai andando, enquanto o sigo. Entramos em uma sala de espera.
- O que houve com Sophi?
- Sente-se!
- Estou bem assim.
Ele respira fundo e isso só piora meu nervosismo.
- Sua irmã atravessou a avenida principal sem olhar para os lados. Infelizmente um carro em uma velocidade alta não conseguiu frear ou desviar e acabou atingindo sua irmã.
Sento já sem forças e sem conseguir controlar o choro.
- Está em cirurgia agora e estão fazendo de tudo para salvar ela e o bebê.
Oh meu Deus! Os soluços ecoam na pequena sala e vejo meu mundo desmoronar. Passos pesados entrando na sala, me chamam atenção. Um médico com roupas do centro cirúrgico me olha e vejo dor em seus olhos.
- Não...
Sussurro e ele abaixa a cabeça.
- Sinto muito!
- Não...
Grito em desespero.
- Não... Não... Não...
Enfio meu rosto em minhas mãos e a dor me consome.
- Infelizmente não conseguimos salvar a mãe...
Olho para o médico.
- Mas o bebê sim. Uma linda garotinha muito saudável.
Solto um longo suspiro.
- Ela está bem?
Ele confirma com a cabeça.
- Quer conhecê-la?
- Sim... Por favor!
************
Seguimos para berçário. Ainda parece que estou vivendo um pesadelo. Minha irmã... Sophi se foi... Paramos em frente ao berçário.
- Deixe suas coisas naquele armário e lave bem as mãos.
Faço o que o médico orientou. Termino de lavar minha mão e a seco. Entramos no berçário e vejo vários bebês em berços hospitalares.
- Aqui...
Paramos em frente a um pequeno pacotinho lindo.
- Essa é a sua sobrinha.
Não consigo controlar o choro.
- Quer pegá-la?
Confirmo com a cabeça, sem condições de falar.
- Sente-se naquela cadeira.
Sento e ele vem com ela para os meus braços. Acomodo-a perto do meu peito e escuto seu resmungo.
- Oi!
Sussurro entre as lágrimas. Ela abre seus lindos olhinhos e me encara. Como dizer a ela que perdeu a mãe? Como dizer a ela que estamos sem Sophi?
- Vou cuidar de você...
Aliso suas bochechas rosadas.
- Sempre estarei aqui pra você e não deixarei nada te acontecer, Alice...
NARRAÇÃO JANAÍNA
CINCO ANOS DEPOIS
Termino de colocar a mesa para o jantar.
- Alice!
Grito e em segundos uma pequena descabelada entra na cozinha.
- O jantar está pronto!
- Espera só um pouquinho?
Pede fazendo olhinhos fofos pra mim. Sempre esses olhinhos quando quer algo de mim.
- Pra que?
- Achei um tesouro.
- Tesouro?
- Sim...
Sai correndo da cozinha e não tem como não rir. Alice é uma garotinha muito agitada e amorosa. Sua inteligência às vezes me assusta. Possui os olhos de Sophi e o dom de fazer arte dela também, mas o gênio forte imagino que seja do pai. Isso não parece em nada com a minha irmã. Se pelo menos soubesse quem é o pai dela, poderia entender mais a minha pequena. Coloco a comida no pratinho dela e espero. Espero tempo demais e nada de Alice. Saio da cozinha, passando com dificuldade pelas caixas de mudanças. Amanhã começaremos uma nova caminhada, juntas. Novo emprego, nova casa, uma nova vida. Começo a trabalhar na pediatria do hospital do centro de Santa Catarina. Conseguir essa vaga foi um sonho realizado. Mesmo com as dificuldades para criar Alice sozinha, consegui concluir meus estudos e minha residência. Não foram tempos fáceis, mas superamos. Entro no quarto e vejo a pequena no chão, mexendo na caixa com as coisas que guardei da Sophi. Tentei ao máximo deixar Sophi viva no coração da minha sobrinha. Sempre falo dela e das coisas boas. Mostrar a Alice que ela tem uma mãe que mesmo não estando aqui, ainda pode receber seu amor.
- O que está fazendo?
Ela me olha e sorri. Amo tanto esse sorriso dela.
- Olhando as coisas da mamãe.
Ando até ela e sento no chão, ao seu lado.
- Já viu tantas vezes essa caixa. Ainda existe algo novo pra ver?
Ela tira de dentro da caixa um livro.
- Sim...
Pego de sua pequena mãozinha o livro.
- Onde achou isso?
- O homem que veio desmontar o meu armário achou atrás.
Na verdade não é um livro. É um diário de gestante.
- É um livro de historinha? Pode ler pra mim?
Abro a primeira capa e vejo uma foto minha e da Sophi, no nosso primeiro dia nesse apartamento.
- Um livro seu e da mamãe?
Alice pergunta animada e senta no meu colo.
- É um diário. Sua mãe deve ter feito durante a gravidez.
- Ela escreveu coisas quando eu estava na barriga dela?
- Parece que sim.
Passo as primeiras paginas e vejo que está tudo preenchido. Nunca tinha visto Sophi com ele. Tudo que tinha dela, guardei nessa caixa. Menos as roupas que doei. As lembranças da despedida em seu enterro ainda me doem muito. Meus pais não apareceram e me vi perdida sem a minha irmã e com um bebê que precisava de mim.
- Lê pra mim mãedinda.
Ela sabe como me amolecer. Alice ainda era muito nova para entender que sua mãe estava no céu e não aqui com ela. Na escolinha foi a pior fase dela. Todos tinham a mamãe nas festinhas, menos ela. Foi quando começou a me chamar de mãe e não mais de dinda. Aquilo me quebrou por dentro. Não queria o lugar da Sophi. Ela sempre será a mãe. Então tivemos a ideia de unir as coisas. Mãedinda surgiu para fazer Alice arrancar de mim o que quisesse.
- Depois do jantar. A comida já deve estar fria.
Fecho o diário e levanto do chão com ela no colo.
- Quando for dormir leio pra você algumas coisas.
- Posso dormir na sua cama?
Seu sorriso e olhinhos juntos eram uma grande união contra minhas respostas negativas.
- Pode...
Recebo um forte abraço e vamos para a cozinha.
- Por que sempre tem coisas verdes no prato?
- Porque coisas verdes te deixam saudável.
- Então posso comer muitas balas verdes?
Olho pra ela com uma sobrancelha erguida e a safada ri.
- Doces só fim de semana, pintinha!
Fala me imitando e tento não rir.
- Faço essa cara?
Ela começa a comer e não responde.
- Fala pintinha!
Ando até ela erguendo minhas mãos.
- Cócegas não...
Pede de boca cheia.
- Come tudo logo.
Abraço-a e beijo seu pescoço.
- Amanhã vai ser um dia corrido.
Beijo sua cabeça e me uno a ela na mesa de jantar.
***************
Termino de lavar a louça e Alice ainda olha o diário.
- Vamos colocar o pijama e escovar os dentes.
Seco minha mão e ela pula em meu colo, segurando o diário.
- Acha que aqui a mamãe fala do meu papai?
Entramos na fase em que ela quer saber quem é o pai dela. Faz um mês que tenta achar alguma pista sobre isso. Desde que começamos a arrumar as nossas coisas, ela acha que Sophi deixou alguma pista em meio as suas coisas sobre o pai dela.
- Pintinha...
- Eu sei...
Diz desanimada e deita a cabeça em meu ombro.
- Eu só queria ter um pai.
- Infelizmente sua mamãe nunca me falou dele. Acho que a mãedinda vai ter que bastar pra você.
- Você serve pra tudo.
Tira a cabeça do meu ombro e beija meu rosto.
- É a melhor do mundo.
Isso enche meu coração e me deixa boba com ela. Apesar de seus questionamentos contínuos, Alice é maravilhosa.
- Vamos trocar de roupa e escovar os dentes.
Desço-a no chão, quando chegamos em seu quarto.
- Hoje vou dormir de Thor...
Corre para sua malinha e pega seu pijama do Thor. Não existe para ela princesas e coisas fofas. Ela ama o mundo dos heróis. Troco sua roupa e vamos para o banheiro.
- Poderia soltar seu martelo, poderoso Thor?
Alice ri, segurando seu martelo de pelúcia.
- Thor nunca solta seu martelo, sua mortal. Sou o Deus do Trovão.
Rindo da carinha dela, pego a escova e passo a pasta.
- Abre a boca que escovo seus dentes, todo poderoso.
Termino de escovar seus dentes e vamos para o meu quarto. Ela pula na minha cama e deita em um dos travesseiros.
- O diário!
Pego o diário e vou para a cama, sentando ao seu lado.
- Pronta?
Pergunto e ela puxa a coberta.
- Sim...
Abro o diário e começo a ler. Sophi inicia relatando sobre a descoberta da gravidez. Ela esconde o fato de sermos expulsas de casa. Alice nunca perguntou sobre avós. Apenas sobre a mãe e o pai e isso me alivia muito. Como dizer a pequena que seus avós a rejeitaram? Ela entende que o pai dela nunca soube que ela existiu. Mas como entender que os avós sabem dela e a rejeitam? Leio os primeiros meses da gestação e ela ouve atenta. Sophi descreveu com detalhes tudo que sentiu. Ainda me pergunto como nunca vi esse diário antes. Ela sempre colocou algo sobre mim e isso me faz bem. Foi o momento que mais nos unimos como irmãs. Perto do quinto mês, Alice já está dormindo, agarrada ao martelo de pelúcia. Saio da cama e dou um beijo em sua cabeça.
- Boa noite, pintinha!
Sussurro e deixo o quarto, ainda segurando o diário. Vou para a cozinha e deixo o diário na mesa. Faço um chá e sento em frente ao diário. Continuo lendo os meses seguintes. Quando chego ao oitavo mês, encontro uma carta. Não tem mais nada relatado e a carta é a última coisa. Deixo a caneca de chá na mesa e abro a carta. Meus olhos se enchem de lágrimas ao ver meu nome.
" Janaína...
Faz alguns dias que venho sentindo uma coisa estranha dentro de mim. Uma sensação de dor e vazio. Um medo da morte... Não quis te incomodar com mais uma besteira minha e portanto escrevi essa carta. Se a sensação sumir rasgo isso aqui, mas se alguma coisa acontecer...
Se alguma coisa me acontecer, quero que cuide do nosso bebê. Quero que ame como uma mãe. Peço que seja o que foi para mim. Seu porto seguro, seu lugar no mundo. Obrigada por não me deixar. Eu te amo muito... Sei que pode ser difícil criar sozinha esse bebê.
Se sentir perdida e precisar dividir a responsabilidade, deve pedir ajuda ao pai. Só que antes precisará descobrir quem é o pai. Infelizmente não tive uma história amorosa com um homem apenas. Não me orgulho do meu passado! Mas existem duas possibilidades. Apenas dois homens estiveram em minha vida e podem ser pai do meu bebê."
Leio os dois nomes, limpando minhas lágrimas. Ela sabia que iria morrer. Ela sentia... Encaro os nomes um pouco perdida. Alice não pode saber disso ainda. Não posso contar a ela que sua mãe dormiu com dois homens e não sabe quem é o pai. Respiro fundo encarando a carta. Melhor conversar com eles primeiro. Contar a história e ver se fazem o exame de DNA. Eles concordando e sabendo quem é o pai da Alice, deixo que entre na vida dela. Se assim ele quiser. Só espero que não seja difícil achar esses homens e que eles aceitem a ideia de fazer o exame. Acho que Alice finalmente pode conhecer seu pai.
NARRAÇÃO JANAÍNA
DUAS SEMANAS DEPOIS
Termino de esvaziar a última caixa da mudança. São 03h da manhã e estou exausta. Olho pela janela e vejo a lua iluminando a rua vazia. Estamos em um pequeno apartamento no Centro de Santa Catarina, próximo ao hospital onde começo a trabalhar amanhã. Alice começa na nova escolinha amanhã e também está animada demais. Foi um sufoco coloca-la pra dormir. Tive que reler o diário da gravidez de Sophi todo para a pequena ter sono. Tem sido assim nas últimas duas semanas. Escondi a carta que fala dos dois homens que podem ser o pai dela. Estou criando coragem para poder procura-los. A verdade é que não faço ideia onde procurar. Talvez nos sites de pesquisa na internet. Vejo meu computador instalado na mesinha, no canto da sala. Estou sem sono e não posso dormir, já que preciso me adaptar a rotina dos plantões noturnos. Foi uma escolha minha passar as noites no hospital. Assim posso cuidar da Alice durante o dia.
Uma amiga cuidará dela aqui em casa nas noites que estiver fora. Tudo devidamente planejado. Faço um chá e me sento em frente ao computador. Abro no site de pesquisa e pego a carta de Sophi na minha agenda. Respiro fundo, desejando do fundo do meu coração que consiga algo. Digito o primeiro nome e clico em pesquisar. A página abre com muitas reportagens sobre o homem. Rolo a página para baixo e vejo que é rico, dono de empresa. Não vejo nenhuma foto, somente coisas sobre a empresa. Clico em alguns links e vejo que a empresa faz grandes doações a instituições de caridade e possui projetos com meio ambiente.
Isso me agrada muito. Um pai com coração generoso seria perfeito para Alice. O dinheiro não me importa muito. Sempre cuidei da minha pintinha sozinha e não preciso do dinheiro dele. Só quero que a ame tanto quanto amo. Pesquiso o segundo nome. Novamente a pesquisa volta com muitas reportagens. Não deveria ficar chocada por também ser um homem rico. Sophi vivia enfiada nas festas poderosas dos riquinhos de Santa Catarina. Adorava o mundo luxuoso e poderoso deles. Parece que não foi difícil se envolver com o poder. Este homem não me parece tão correto assim. Muitas reportagens sobre festas, condutas erradas no trânsito e bebida em excesso. A última reportagem me chama atenção. Ele é noivo e se casa em algumas semanas. Isso pode ser um enorme problema. A noiva não iria gostar de saber de uma filha do noivo, fora do casamento. Talvez seja uma péssima ideia isso. Fecho a tela do computador um pouco decepcionada.
O primeiro seria o pai perfeito, aparentemente, mas o segundo seria uma péssima opção de pai. Do jeito que Sophi era terrível, não duvido nada que seja o irresponsável o pai de Alice. Isso explicaria o dom da pequena em arrancar as coisas da gente. Estou sorrindo, mas preocupada. A lábia da Alice às vezes me assusta e ela só tem cinco anos. Decido ir dormir e deixar para amanhã a decisão sobre isso. O sono não vem e já revirei a cama mil vezes. Tudo que vi na internet sobre os dois homens martelam na minha cabeça. Tenho que resolver isso logo. Encontrar o pai e depois ver se pode se aproximar da minha pintinha. Converso com os dois, fazemos o exame de DNA e com o resultado nos preparamos para ela. Isso se os dois concordarem em fazer o exame. E se um dos dois for realmente o pai. Saio da cama decidida. Corro para o computador e o abro. Procuro nos sites um telefone ou um e-mail para falar com eles. Provavelmente esses e-mails são monitorados por secretárias. Só espero que elas repassem a eles. Anoto os e-mails e abro o meu. Digito os endereços eletrônicos e clico em assunto.
Assunto: PASSADO IMPORTANTE
Boa noite! Me desculpem o horário, mas o assunto é de muita importância. Me chamo Janaína Kochhann e sou irmã de Sophi Kochhann. Talvez não se lembrem dela, mas fez parte do passado de vocês há seis anos atrás.
Devem estar se perguntando porque o passado resolveu dar as caras. Gostaria muito de lhes explicar o motivo de procura-los, mas isso teria que ocorrer pessoalmente. Hoje estarei no Café Paris, ao lado do Hospital de Santa Catarina ás 15h, para lhes contar algo importante e assim entenderem minha procura por vocês.
Entenderei perfeitamente caso não apareçam, já que sou uma estranha, marcando um encontro. Mas o assunto é muito importante e pode mudar a vida de um de vocês dois. Assim como a minha e de uma outra pessoa. Aguardarei no café até ás 15:30h.
Atenciosamente
Janaína Kochhann.
Leio a mensagens umas vinte vezes, tentando criar coragem para enviar. Levanto da cadeira e ando de um lado para o outro. Tenho medo de estar fazendo uma enorme besteira e acabar machucando Alice. Merda! Merda! Merda! Direciono a seta na tela para excluir. Meu coração acelera e me lembro de cada vez que Alice me perguntou porque não tinha um pai. Fecho meus olhos e mudo a seta para enviar e clico. Espero não estar fazendo uma enorme burrada. Abro os olhos e vejo que o e-mail foi enviado. Seja o que Deus quiser!
*************************
Encaro minha xícara de café, com a cabeça a mil.
- Mãedinda...
Olho para frente e vejo Alice me encarando.
- Você está com a cabeça nas nuvens, hoje.
Abro um enorme sorriso.
- Pensando na vida.
- Pensando em um menino?
Seu sorriso se amplia.
- Menino? De onde tirou isso?
- Vi na novela ontem. A menina ficava com essa mesma cara de boba, pensando no menino.
- Pintinha... quem deixou você assistir novela?
- Você nunca me disse que não podia assistir.
- Eu iria imaginar que você gosta de novela?
- No meu quarto só um canal pega. Assisto novelas estranhas, mas muito boas. Acho estranho como eles falam e a boca se mexe estranho.
Estou rindo da carinha dela.
- Deve estar assistindo novelas dubladas.
- Às vezes para de sair som da televisão, mas a boca deles ainda mexe.
- É assim mesmo.
- Mas gosto da menina, parece gostar do menino.
- Você pode parando de assistir isso. Ainda não tem idade pra entender de gostar e romances.
- Você devia arranjar um menino pra você. Um que te faça ficar com cara de boba.
- Vai escovar seus dentes. Saímos em cinco minutos pra escola.
- Coisa feia! Fugindo da conversa.
Fala rindo e levanta da cadeira.
- Vou arrumar um menino pra você.
- Não quero nenhum menino. Estou bem assim.
- Serei a pintinha cupido.
Sai da cozinha toda animada, me deixando chocada. Ela me surpreende cada vez mais.
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Após deixar Alice na escola e passar a maior vergonha do mundo, quando ela tentou me fazer conversar com um homem na rua, vou fazer minhas coisas. Resolvo alguns problemas e compro algumas coisas para a nossa nova casa. Olho o relógio e já são 14:30h. Entro no café com as mãos geladas e molhadas. Sento em uma mesa, perto da porta e fico de olho para ver se alguém aparece. A verdade é que não faço ideia de como são. Decido fazer um papel com meu nome e deixar apoiado no suporte de papel, virado pra porta. Cada vez que a porta abre, meu coração para de bater. Olho meu relógio e vejo que são 15:15h. Eles não vão aparecer. Talvez não tenham recebido o e-mail. Respiro fundo e começo a recolher minhas coisas.
- Janaína!
Ergo minha cabeça e vejo um belo homem de sorriso encantador. Solto minhas coisas e me levanto.
- Isso...
- Sou Daniel Visentin!
Estende a mão e a pego, recebendo um aperto suave.
- Janaína!
Olho para trás e vejo outro homem. Este com um sorriso sedutor no rosto ao me ver. Daniel com toda a certeza do mundo é o dono da empresa, com o coração bom.
- Sou Diego Mantovani!
Diego deve ser o noivo rico, que se acha demais.
- Sentem! Tenho algo importante para lhes contar.