Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Aventura > AMOR NAS ALTURAS
AMOR NAS ALTURAS

AMOR NAS ALTURAS

Autor:: AutoraAngelinna
Gênero: Aventura
Um violento acidente de aviação... uma perigosa caminhada pela inóspita paisagem de Idaho... uma atração arrebatadora... e um jogo mortal do gato e do rato. Bailey é uma mulher bonita e jovem e acaba de se tornar viúva do multimilionário Winegate. Mas os seus problemas não terminam aqui: os filhos que ele deixou têm praticamente a idade de Bailey e quando descobrem que toda a fortuna ficou a cargo dela, passam a detestá-la ainda mais. Quando Bailey decide usar o avião particular para sair do inferno em que a sua vida se tornara, este despenha-se. Mas graças à perícia do seu piloto, Cam Justice, o acidente não lhe tira a vida. Afastada do mundo e com pouca esperança de ser salva, Bailey tem que confiar a sua vida a Cam, um homem tão rude quanto atraente. Neste seu romance, a autora vai deixar o leitor sem fôlego e a implorar por mais. No mundo de Keitlin Raiane, a confiança pode ser uma arma, um beijo uma ameaça, e a intimidade pode custar uma vida. Sexy e cheio de emoções fortes, Íntimo e Perigoso apresenta-nos, uma vez mais, Keitlin no seu melhor.

Capítulo 1 1

Um violento acidente de aviação... uma perigosa caminhada pela inóspita paisagem de Idaho... uma atração arrebatadora... e um jogo mortal do gato e do rato.

Bailey é uma mulher bonita e jovem e acaba de se tornar viúva do multimilionário Winegate. Mas os seus problemas não terminam aqui: os filhos que ele deixou têm praticamente a idade de Bailey e quando descobrem que toda a fortuna ficou a cargo dela, passam a detestá-la ainda mais.

Quando Bailey decide usar o avião particular para sair do inferno em que a sua vida se tornara, este despenha-se. Mas graças à perícia do seu piloto, Cam Justice, o acidente não lhe tira a vida. Afastada do mundo e com pouca esperança de ser salva, Bailey tem que confiar a sua vida a Cam, um homem tão rude quanto atraente.

Neste seu romance, a autora vai deixar o leitor sem fôlego e a implorar por mais. No mundo de Keitlin Raiane, a confiança pode ser uma arma, um beijo uma ameaça, e a intimidade pode custar uma vida.

Sexy e cheio de emoções fortes, Íntimo e Perigoso apresenta-nos, uma vez mais, Keitlin Raiane no seu melhor.

1

Bailey Wingate acordou a chorar. Outra vez.

Odiava quando isso acontecia porque não conseguia perceber qual a razão para ser tão piegas. Se estivesse miseravelmente infeliz, se estivesse só ou em luto, chorar até adormecer faria sentido, mas nada disso era verdade. Na pior das hipóteses, sentir-se-ia irritada.

Nem mesmo a irritação conseguia ser um estado de espírito a tempo inteiro. Era-o apenas quando tinha de lidar com os seus enteados, Seth e Tamzin, o que, graças a Deus, acontecia apenas uma vez por mês, quando assinava a transferência das quantias que recebiam da herança do seu falecido marido. Quase sempre a contactavam por essa altura. Ou antes, para exporem o seu desejo de mais dinheiro, que nunca aprovara, ou depois, para lhe dizerem, de formas específicas a cada um, que a achavam uma cabra desprezível.

Seth era, de longe, o mais desagradável e deixara-a emocionalmente ferida em mais ocasiões do que as que desejaria contabilizar, mas, pelo menos, era directo na sua hostilidade. Por mais duro que fosse suportá-lo, Bailey preferia lidar com ele a ter de aguentar a insuportável agressividade passiva de Tamzin.

Seria naquele dia que as quantias mensais seriam transferidas para as contas bancárias respectivas, o que significava que podia esperar um telefonema ou mesmo uma visita. Que alegria. Uma das torturas preferidas de Tamzin era visitá-la e trazer consigo os seus dois filhos de tenra idade. Sozinha, Tamzin era já difícil de aguentar, mas, juntando à mistura as suas crianças birrentas, mimadas e carentes, Bailey sentia vontade de fugir para longe.

- Devia ter pedido subsídio de risco - resmungou em voz alta, enquanto afastava as cobertas e saía da cama.

Logo de seguida, censurou-se mentalmente. Não tinha motivo de queixa e, muito menos, motivo para chorar enquanto dormia. Aceitara casar com James Wingate sabendo como eram os seus filhos e como reagiriam às determinações financeiras do pai. Aliás, o pai contara com essas reacções e planeara em concordância. Bailey envolvera-se na situação com os olhos bem abertos e, agora, não podia queixar-se. Mesmo da sua sepultura, Jim pagava-lhe bem para fazer o seu trabalho.

Entrando na casa de banho luxuosa, observou o seu reflexo, algo difícil de evitar quando a primeira coisa que via era o espelho ocupando toda uma parede. Por vezes, quando se observava, sentia um corte quase completo entre a pessoa reflectida e o que sentia no seu interior.

O dinheiro íizera-a mudar, não tanto por dentro como por fora. Estava mais magra, mais tonificada porque agora tinha o tempo e o dinheiro para um treinador pessoal que a visitava em casa e a fazia sofrer no seu ginásio privativo. O cabelo, outrora sempre de um louro escuro, tinha agora madeixas de diferentes tonalidades de louro aplicadas com tanta mestria que pareciam absolutamente naturais. Um penteado caro favorecia-lhe a face e desenhava linhas tão graciosas que, mesmo naquele momento, acabada de sair da cama, o cabelo mantinha um aspecto francamente apelativo.

Sempre tivera uma aparência cuidada e sempre se vestira tão bem quanto o seu salário permitia, mas havia uma enorme diferença entre «cuidado» e «vistoso». Nunca fora bela e, certamente, continuaria a não se qualificar para essa categoria, mas, por vezes, conseguia ser «bonita» ou até «marcante». A aplicação meticulosa dos melhores cosméticos disponíveis tornava o verde dos seus olhos mais intenso e vibrante. As roupas eram preparadas para lhe servirem a ela e a mais ninguém, não tendo de as partilhar com milhões de outras mulheres que vestiam o mesmo tamanho genérico.

Como viúva de Jim, tinha o direito de utilização plena e inquestionável daquela casa em Seattle, de uma em Palm Beach e de outra no Maine. Nunca voava em voos comerciais, a não ser que o desejasse. As Empresas Wíngate fretavam aviões privados e havia sempre um disponível para si. Pagava apenas os seus objectos pessoais, não tendo de se preocupar com contas. Era, inegavelmente, o aspecto mais positivo do acordo que fizera com o homem que com ela casara e que, menos de um ano depois, a deixara viúva.

Bailey fora pobre e, apesar de a acumulação de riqueza nunca ter sido o seu principal objectivo ou ambição, precisava de admitir que ter dinheiro tornava a vida muito mais fácil. Continuava a ter problemas, sendo Seth e Tamzin os principais, mas os problemas pareciam diferentes quando não envolviam o pagamento atempado de contas. Desaparecia o sentimento de urgência.

Bastava-lhe zelar pelos fundos instituídos para cada um deles, uma responsabilidade que levava muito a sério apesar de nenhum deles acreditar nisto, limitando-se a ocupar os seus dias conforme bem entendiam.

Bolas, como estava entediada.

Jim previra tudo no que dizia respeito aos filhos, pensou, ao entrar no chuveiro redondo e rodeado de vidro fosco. Salvaguardara as suas heranças, garantindo tanto quanto possível que teriam segurança financeira, e, com grande perícia, avaliara as suas personalidades ao fazê-lo. No entanto, os planos não tinham incluído o decorrer da vida de Bailey depois da sua partida.

Era provável que não se tivesse importado, pensou, com mágoa. Fora o meio para atingir um

fim e, mesmo que tivesse gostado dela e o sentimento fosse recíproco, nunca fingira sentir mais do que isso. Tinham tido uma relação profissional, iniciada e controlada por ele. Mesmo que tivesse sabido de forma antecipada que o fariam, não se teria incomodado por os seus amigos, que a haviam convidado diligentemente para os seus eventos sociais enquanto Jim fora vivo, a apagassem das listas de convidados como se fosse uma batata quente, mal ele fora sepultado. Os amigos de Jim pertenciam maioritariamente ao seu grupo etário e muitos deles tinham conhecido e sido amigos de Lena, a primeira mulher. Alguns também tinham conhecido Bailey quando ela ocupava o cargo de assistente pessoal de Jim. Sentiam-se desconfortáveis por ela passar a desempenhar o papel de sua mulher. E também ela se tinha sentido desconfortável. Não podia culpá-los por se sentirem da mesma forma.

Não era a vida que pretendera para si. Sim, o dinheiro era agradável, muito agradável, mas não queria passar o resto da vida sem fazer nada além de angariar dinheiro para duas pessoas que a desprezavam. Jim estivera certo de que a humilhação sentida por Seth por ter a sua herança controlada por uma madrasta três anos mais nova do que ele próprio o chocaria ao ponto de mudar de comportamento e começar a comportar-se como um adulto responsável, em vez de uma versão masculina e mais velha de Paris Hilton, mas, até àquele momento, isso não acontecera e Bailey já não tinha qualquer fé de que viesse a acontecer. Seth tivera bastantes oportunidades para se aplicar, para se interessar pelas empresas que financiavam o seu modo de vida de luxo e ócio, mas não decidira ocupar-se de nenhuma delas. Seth fora a esperança de Jim porque Tamzin era absolutamente desinteressada e incompetente para o tipo de decisões financeiras exigidas por imensas quantidades de dinheiro. Interessava-se apenas pelo resultado final, o dinheiro à sua disposição, e queria receber a totalidade da sua herança para poder gastá-la como entendesse.

Bailey estremeceu ao considerar essa possibilidade. Se Tamzin adquirisse o controlo da sua herança, queimaria o dinheiro num máximo de cinco anos. Se não fosse a própria Bailey a controlar os fundos, teria de ser outra pessoa a fazê-lo.

O telefone tocou no momento em que fechou a torneira do chuveiro e estendeu a mão para uma toalha cor de champanhe para enrolar em redor do corpo. Enrolando outra sobre o cabelo molhado, saiu e pegou no telefone sem fios do quarto, olhando a identificação de chamada e voltando a pousá-lo sem atender. O número fora bloqueado. Registara todos os seus números na lista nacional de números a não contactar e era pouco provável que fosse alguém tentando venderlhe algo. Isso significava que Seth teria acordado cedo, pensando nos insultos que usaria, e recusouse a lidar com ele antes de tomar café. A sua consciência do dever tinha limites e aquilo ultrapassava-os.

Por outro lado, e se houvesse algum problema? Seth ia de festa em festa, raramente se deitando antes da madrugada, pelo menos na sua cama. Não era normal que lhe ligasse tão cedo. Sentindo os limites diluírem-se um pouco, voltou a pegar no telefone, pressionando o botão de atendimento de chamada, mesmo que o atendedor automático já tivesse iniciado a sua lengalenga.

- Estou - disse sobre a mensagem gravada com a voz masculina enlatada que vinha programada de origem no sistema. Mantivera-a em vez de gravar uma mensagem própria porque a voz enlatada era mais impessoal.

O atendedor parou a meio de uma frase quando atendeu, emitiu um apito e silenciou-se.

- Olá, mãe.

O sarcasmo na voz de Seth era intenso. Suspirou mentalmente. Nada estava errado. Seth experimentava apenas uma nova forma de a incomodar. Ouvir um homem mais velho chamar-lhe «mãe» não a incomodava, mas ter de lidar com ele sim.

A melhor forma de lidar com Seth seria não mostrando grande reacção. Eventualmente, acabaria por se cansar e desligaria.

- Seth. Como está? - respondeu, no tom frio e racional aperfeiçoado enquanto trabalhara como assistente pessoal de Jim. Nem o tom nem a expressão transmitiam qualquer indício quanto ao que sentia.

- Não podia estar melhor - replicou Seth com uma alegria forjada, - considerando que a

puta avarenta da minha madrasta vive à grande com o meu dinheiro enquanto que eu nem sequer lhe posso tocar. Mas o roubo será sempre aceitável em família, não é?

Habitualmente, deixaria que os insultos lhe passassem ao lado. «Puta» fora o que usara quando ouviu as determinações previstas pelo testamento do pai. De seguida, acusara-a de ter casado por dinheiro e de se ter aproveitado da doença de Jim para o persuadir a deixar o dinheiro dos filhos sob o seu controlo. Também jurara e ameaçara contestar o testamento em tribunal, fazendo o advogado de Jim suspirar e desaconselhar tal acção porque seria um desperdício de tempo e dinheiro. Jim segurara as rédeas do seu império até poucas semanas antes da morte e o testamento fora elaborado quase um ano antes, precisamente no dia a seguir ao seu casamento com Bailey.

Ao saber disso, Seth pusera-se muito vermelho, disse algo tão obsceno sobre ela que fez os outros presentes suster o fôlego e saiu disparado. Depois disso, Bailey educara-se para não mostrar qualquer reacção e um simples «puta» não provocaria grande efeito.

Por outro lado, incomodava-a que lhe chamassem ladra.

- A propósito da sua herança, há uma oportunidade de investimento que quero estudar - disse, calmamente. - Para maximizar os lucros, precisarei de investir o máximo possível. Não se importa que reduza a sua mesada para metade, pois não? Será apenas de forma temporária. Um ano deverá bastar.

A proposta provocou um instante de silêncio e, a seguir, Seth rugiu com voz plena de raiva.

- Puta. Hei-de matar-te.

Era a primeira vez que reagia aos insultos dele com uma ameaça própria e o choque fê-lo afastar-se do seu padrão predefinido. A ameaça não a alarmou. Seth tinha experiência em fazer ameaças que não concretizava.

- Se tiver outras propostas de investimento que gostasse de submeter à minha consideração, terei todo o gosto em estudá-las - disse ele, tão educadamente como se a tivesse questionado sobre os pormenores do negócio em vez de ameaçar matá-la. - Estude-as com cuidado e submeta-as por escrito. Dar-lhes-ei atenção logo que possível, mas é provável que leve algumas semanas. Vou de férias depois de amanhã e espero estar fora durante um par de semanas.

Como resposta, o telefone foi-lhe desligado na cara. Não era uma grande forma de começar o dia, pensou, mas, pelo menos, conseguira evitar o seu encontro mensal com Seth. Se, ao menos, conseguisse evitar também Tamzin...

Capítulo 2 2

Cameron Justice lançou um olhar breve e abrangente ao pequeno aeródromo e ao parque de estacionamento enquanto conduzia o seu Suburban azul até ao local que lhe fora atribuído. Apesar de não serem ainda seis e meia da manhã, não foi o primeiro a chegar. O Corvette prateado significava que o seu amigo e colega, Bret Larsen, o L da J&L Transporte Aéreo Executivo, já tinha chegado e o Ford Focus vermelho assinalava a presença da sua secretária, Karen Kaminski. Bret chegara cedo, mas Karen habituara-se a chegar ao escritório em primeiro lugar.

Dizia que era a única altura em que podia trabalhar sem interrupções constantes.

A manhã estava luminosa, apesar de o boletim meteorológico referir um aumento de nebulosidade durante o dia. No entanto, naquele momento, o sol brilhava com intensidade sobre os quatro reluzentes aviões da J&L e Cam fez uma pausa momentânea para gozar a vista.

A pintura personalizada fora cara, mas o resultado justificara o custo, com o negro brilhante cortado por uma estreita linha branca curvando-se para cima do nariz até à cauda. Os dois Cessna, um Skylane e um Skyha-wk, estavam pagos na totalidade. Juntamente com Bret, dera cabo do couro nos primeiros anos, fazendo outros trabalhos, além de voar, para conseguir pagá-los logo que possível e reduzir a dívida. O PiperMirage era quase seu e, depois de estar pago, planeavam dobrar os pagamentos do Lear 45 XR de oito lugares, o bebé de Cam.

Apesar de o Lear estar relativamente próximo em comprimento e largura de asas do F-15E Strike Eagle que o sócio de Cam voara na força aérea, Bret acostumara-se desde então aos Cessna menores e ao Mirage de dimensão média, preferindo-os pela sua agilidade. Cam, que voara o enorme KC- 10A Extender durante a sua prestação de serviço, preferia ter mais avião em seu redor. As suas preferências ilustravam as diferenças básicas entre ambos enquanto pilotos. Bret era o piloto de caças, vaidoso e com reflexos rápidos. Cam era fiável, o tipo desejável aos comandos quando um avião necessitasse de reabastecimento a milhares de pés de altitude, viajando a centenas de quilómetros por hora. Para descolar, o Lear necessitava de cada centímetro disponível da pista que o pequeno aeródromo podia disponibilizar e Bret cedia de bom grado o lugar do piloto a Cam nesses voos.

Tinham-se saído bem, pensou Cam, enquanto faziam algo que ambos amavam. Voar estavalhes no sangue. Conheceram-se na academia da força aérea e, ainda que Bret estivesse um ano à frente de Cam, tornaram-se amigos e a amizade manteve-se ao longo de várias missões, de diferentes percursos de carreira, de diferentes colocações. Enfrentaram juntos três divórcios, dois para Bret e um para Cam, e uma série de namoradas. Quase sem realmente o planearem, decidiram, por telefonemas e e-mails, começar um negócio juntos quando deixassem a vida militar. O tipo de negócio nunca esteve em questão. Um pequeno serviço de aviões fretados parecia assentar-lhes na perfeição.

A empresa prosperara. Empregavam agora três mecânicos, um piloto a tempo parcial, uma equipa de limpeza com um elemento em tempo parcial e outro a tempo inteiro, e a Indispensável Karen, que os governava a todos com punho de ferro e com uma total falta de tolerância para assuntos de merda. Os lucros eram razoáveis e ambos ganhavam bom dinheiro. Os voos quotidianos não permitiam as emoções do voo militar, mas Cam não precisava de adrenalina para gozar a vida. Bret, claro, era diferente. Os pilotos de caça viviam para o perigo, mas conseguira ajustar-se e obtinha doses esporádicas de drama por se ter juntado à Patrulha Aérea Civil.

Também tinham tido sorte na localização. O aeródromo era perfeito para as suas necessidades. Acima de tudo, era conveniente para a sede do Grupo Wingate, o principal cliente da J&L. Sessenta por cento dos voos que efectuavam eram ao serviço da Wingate, sobretudo para transportar executivos de topo de um ponto para o outro, apesar de, por vezes, a família usar a J&L para deslocações privadas. Além da conveniência, o aeródromo oferecia também boa segurança e um terminal acima da média em que a J&L tinha o seu escritório de três divisões. Tinham sido os contactos de Bret a conseguir o contrato da Wingate e era ele quem habitualmente fazia as viagens da família, enquanto Cam se ocupava das gravatas. O acordo agradava-lhes a ambos porque Bret se dava melhor com a família do que Cam. O Sr. Wingate fora um bom tipo, mas os filhos eram umas bestas e a esposa troféu que deixara para trás era tão calorosa e simpática como um glaciar.

Cam saiu do Suburban. Era um homem alto e de ombros largos e o carro grande assentavalhe bem, dando-lhe o espaço para as pernas e para a cabeça de que precisava. Atravessando o parque de estacionamento com passos descontraídos e vagarosos, entrou pela porta privativa na parede lateral do edifício do terminal, usando o cartão de identificação para a destrancar. Um corredor estreito conduzia ao escritório, onde Karen estava sentada, dedilhando afincadamente o teclado do computador. Sobre a sua secretária, uma jarra com flores frescas exalando uma fragrância que se mesclava com a do café. Tinha sempre flores, apesar de Cam suspeitar que era ela própria a comprá-las. O namorado, um profissional da luta-livre barbudo, motociclista e habitualmente vestido de cabedal negro, não parecia o tipo de homem que compraria flores. Cam sabia que estava próxima dos trinta anos, sabia que gostava de pintar madeixas negras no cabelo ruivo curto e que garantia fluidez perfeita nos trabalhos do escritório. O que fosse além disso, receava perguntar. Bret, por outro lado, constituíra como missão da sua vida desvendar o indesvendável e provocava-a sem descanso.

- Bom dia, princesa - saudou-a Cam porque, afinal, também tinha direito a provocá-la um pouco.

Voltou-se do monitor e semicerrou-lhe os olhos, regressando ao trabalho. A distância que separava Karen da boa-disposição matinal era semelhante à que separava Seattle de Miami. Certa vez, Bret partilhou a teoria de que Karen tinha um emprego secundário como cão de guarda numa sucata porque era má como um e não se tornava razoavelmente humana até cerca das nove horas. Karen não disse nada, mas o correio pessoal de Bret desapareceu durante mais de um mês até perceber o motivo e pedir desculpa,

momento em que o correio voltou a aparecer, deixando-o com um mês de atraso no pagamento das contas.

Optando pela cautela e não pelo arrojo, Cam não lhe disse mais nada. Ao invés, serviu-se de café e caminhou até à porta aberta do gabinete de Bret.

- Chegaste cedo - disse, encostando-se à ombreira da porta. Bret olhou-o com azedume.

- Não foi por querer.

- Quer dizer que a Karen te ligou para cá vires? - Atrás dele, Cam ouviu um som que poderia ser riso ou um rosnado. Com Karen era difícil de distinguir.

- Quase tão mau como isso. Um idiota qualquer esperou até ao último minuto para marcar um voo às oito.

- Não lhes chamamos idiotas - disse automaticamente Karen. - Mandei-lhe um memorando. Preferimos dizer «clientes».

Bret bebia um gole de café enquanto ela falava e a sua reacção si-tuou-se algures entre um engasgo e uma gargalhada.

- Clientes - repetiu. - Percebido. - Indicou a folha de papel em que tinha estado a escrever e que Cam reconheceu como um formulário de marcação de voo. - Liguei ao Mike para fazer esta tarde a viagem até Spokane no Skylane. - Mike Gardiner era o seu piloto em tempo parcial. - Isso libertar-me-á para levar o Mirage até Los Angeles se quiseres ir a Eugene no Skyhawk. Ou podemos trocar se preferires Los Angeles.

O primeiro a chegar ao escritório teria de começar a papelada e essa era uma das razões para Bret raramente chegar tão cedo. Distribuía os aviões disponíveis de acordo com a duração dos voos, o que fazia sentido porque poupava tempo não terem de parar para reabastecer. Normalmente, Cam preferiria a viagem até Los Angeles, mas já fizera um par de viagens longas naquela semana e precisava de uma pequena pausa. Também precisava de horas num dos Cessna. Voava tanto no Leare no PiperMirage que precisava de se esforçar para conseguir horas nos aviões mais pequenos.

- Não. Está perfeito assim. Preciso das horas. O que há amanhã?

- Só dois voos. Amanhã também terei de acordar cedo. Levo a Sra. Wingate a Denver para começar as férias. Volto sem ocupantes para cá, a não ser que consiga arranjar alguma coisa. O outro é... - Fez uma pausa, procurando entre os papéis sobre a secretária o contrato escrito por Karen.

- Um transporte de carga até Sacramento - disse Karen do lado de fora do gabinete, não se dando ao trabalho de fingir que não estava a escutar.

- Um transporte de carga até Sacramento - ecoou Bret, sorrindo, como se Cam não tivesse ouvido perfeitamente. O rosnado voltou ouvir-se.

Bret rabiscou uma nota e fê-la deslizar sobre a secretária. Cam aproxi-mou-se, colocou um dedo sobre o papel e voltou-o ao contrário. «Pergunta-lhe se está vacinada contra a raiva», lia-se.

- Claro - disse, erguendo a voz. - Karen, o Bret quer que lhe pergunte se...

- Cala-te, sacana! - bradou Bret, pondo-se de pé e esmurrando Cam no ombro para o impedir de completar a frase. Rindo, Cam saiu e dirigiu-se para o seu gabinete.

Karen voltou a semicerrar-lhe os olhos.

- O Bret quer que me pergunte o quê? - perguntou.

- Esqueça. Não era importante - disse Cam, fingindo-se inocente.

- Aposto que não - murmurou ela.

O telefone tocou quando se sentou e, apesar de, tecnicamente, atender as chamadas ser uma das responsabilidades de Karen, ela estava ocupada e ele não. Pressionou o botão e atendeu. - Transporte Aéreo Executivo.

- Fala Sefh Wingate. A minha madrasta marcou um voo para amanhã?

O homem falava com voz brusca, irritando Cam, mas conseguiu manter neutral o tom da resposta. - Marcou, sim.

- Para onde?

Cam gostava de poder dizer ao idiota que o destino da Sra. Wingate não lhe dizia respeito, mas, em termos práticos, idiota ou não, era um Wingate e teria muito a dizer na continuação da J&L como colaboradora do Grupo Wingate.

- Denver.

- Quando regressa?

- Não sei a data precisa, mas creio que será dentro de duas semanas.

A única resposta foi o fim brusco da chamada sem sequer um «obrigado», um «vá-se lixar» ou qualquer outra coisa.

- Palhaço - murmurou, pousando o auscultador.

- Quem?

A voz de Karen infiltrou-se pela porta aberta. Haveria alguma coisa que não ouvisse? O mais bizarro era que o matraquear das teclas nunca parava, nunca hesitava. A mulher era assustadora.

- Sefh Wingate - respondeu.

- Estamos de acordo, chefe. Estava a controlar a Sra. Wingate, não é? Gostava de saber porquê. Esses dois não morrem de amores.

Não era surpreendente. A Sra. Wingate original, que conhecera brevemente mas com quem simpatizara muito, morrera menos de um ano antes de o Sr. Wingate casar com a sua assistente pessoal, mais jovem do que os seus dois filhos.

- Talvez planeie uma festa na casa enquanto ela estiver fora.

- Isso seria infantil.

- Ele também é.

- Terá sido provavelmente por isso que o Sr. Wingate, o velho, a deixou a administrar o dinheiro.

Surpreendido, Cam levantou-se e assomou à porta.

- Está a brincar - disse, falando-lhe para as costas.

Karen olhou sobre o ombro, mantendo os dedos no seu voo sobre as teclas do computador.

- Não sabia?

- Como poderia saber? - Nenhum dos membros da família ou dos executivos do grupo discutia finanças pessoais com ele e não acreditava que o fizessem com Karen.

- Eu sei - afirmou ela.

Sim, mas você é assustadora. Conteve as palavras antes que a boca lhe colocasse o couro em sério risco. Karen tinha as suas formas de descobrir coisas.

- Como descobriu?

- Ouvi coisas.

- Se é verdade, não admira que não morram de amores um pelo outro. - Aliás, se estivesse no lugar de Seth Wingate, seria provável que também se comportasse como um sacana para com a sua madrasta.

- É verdade. O velho Sr. Wingate era um tipo esperto. Pense nisso. Deixaria Seth ou Tamzin encarregues da gestão de milhões e milhões de dólares?

Cam teve de pensar durante cerca de um milésimo de segundo para responder.

- Não me parece.

- Nem a ele. E gosto dela. É esperta.

- Espero que seja suficientemente esperta para ter mudado as fechaduras quando o Sr. Wingate morreu - disse Cam. E para olhar por cima do ombro ocasionalmente porque não estranharia que Seth Wingate lhe cravasse uma faca nas costas, se tivesse oportunidade para o fazer.

Capítulo 3 3

O telefone acordou Cam na manhã seguinte e tacteou para o encontrar sem abrir os olhos. Talvez fosse engano. Se não abrisse os olhos, conseguiria voltar a dormir até soar o alarme do seu relógio de pulso. Sabia por experiência que, com os olhos abertos, mais valeria levantar-se porque o sono não regressaria.

- Estou?

- Chefe, vista as calças e corra para aqui.

Karen. Merda. Esqueceu-se de manter os olhos fechados e endirei-tou-se de um salto, enquanto uma descarga de adrenalina lhe limpava as teias do cérebro.

- O que se passa?

- O idiota do seu sócio apareceu aqui com os olhos tão inchados que quase não consegue ver. Mal consegue respirar e acha-se em condições de voar para Denver hoje.

Ao fundo, Cam ouviu uma voz grave e rouca, que não se parecia nada com Bret, dizer algo ininteligível.

- Foi o Bret?

- Sim. Quer saber porque lhe chamo «chefe» a si e «idiota» a ele. Porque há coisas que são evidentes, claro - ripostou ela, obviamente respondendo a Bret. Voltando a dirigir-se a Cam, disse:

- Liguei ao Mike, mas não consegue chegar aqui a tempo do voo para Denver e, por isso, dou-lhe o seu voo para Sacramento e terá de se preparar.

- Vou a caminho - disse, desligando e correndo para a casa de banho. Tomou banho e barbeou-se em quatro minutos e vinte e três segundos, vestiu um dos seus fatos pretos, pegou no chapéu e na mala de viagem que mantinha sempre preparada para quando havia emergências como aquela e saiu em seis minutos. Voltou atrás para desligar a máquina de café, programada para começar a funcionar dentro de uma hora e, depois, porque não sabia se teria tempo para o pequenoalmoço, trouxe algumas barras de cereais do armário e guardou-as no bolso.

Merda, merda, merda. Praguejou entredentes enquanto seguia pelo trânsito matinal. O passageiro daquele dia seria a gélida viúva Wingate. Bret dava-se bem com ela, mas também era verdade que se dava bem com quase qualquer pessoa. Das poucas vezes que Cam tivera o azar de estar perto dela, comportara-se como se tivesse um pau enfiado no cu e como se ele fosse um insecto esmagado no pára-brisas da sua vida. Já antes lidara com o seu tipo nas forças armadas. Não lhe agradara então e continuava a não agradar. Manteria a boca fechada nem que isso o matasse, mas, se ela lhe dissesse alguma coisa menos agradável, teria a viagem mais atribulada da sua vida. Fá-la-ia vomitar as entranhas no caminho para Denver.

A viagem foi rápida. Vivia nos arredores de Seattle e, além disso, afastava-se da cidade em vez de se dirigir para ela e o seu lado da estrada estava relativamente desimpedido, enquanto o outro continha uma massa compacta de veículos. Arrumou o carro no seu lugar apenas vinte e sete minutos depois de ter desligado o telefone.

- Foi rápido - disse Karen, quando entrou no escritório, trazendo a mala na mão. - As más notícias não acabaram.

- Venham elas. - Pousou a mala e encheu uma chávena de café.

- O Mirage está a ser reparado e o Dennis diz que não estará pronto a tempo do voo.

Cam ficou em silêncio, passando em revista os pormenores logísticos. O Mirage teria conseguido chegar a Denver sem reabastecer. O Lear também, obviamente, mas usavam-no para grupos e não para um único passageiro. Além disso, apesar de conseguir pilotar o Lear sozinho, preferia ter um co-piloto. Nenhum dos Cessna possuía o alcance necessário, mas o Skylane tinha um tecto de serviço de cerca de dezoito mil pés, enquanto que o tecto do Skyhawk era de treze e meio. Alguns dos picos montanhosos do Colorado alcançavam os catorze mil e a escolha de aeronave era simples.

- O Skylane - disse. - Reabasteço em Salt Lake City.

- Foi o que pensei - disse Bret, saindo do seu gabinete. Tinha a voz tão rouca que falava como um sapo com o nariz entupido. - Disse à equipa para o preparar.

Cam ergueu os olhos. Karen não tinha exagerado o estado de Bret. Quanto muito, a descrição tinha-o favorecido. Os olhos estavam vermelhos e tão inchados que se via apenas uma estreita faixa da íris azul. Tinha a cara manchada e respirava pela boca. O seu aspecto geral era terrível e, avaliando pela sua expressão miserável, sentir-se-ia igualmente mal. Fosse o que fosse que tinha, Cam não queria ser contagiado.

- Não te aproximes mais - advertiu Cam, erguendo a mão como um polícia de trânsito.

- Já o vaporizei com Lysol - disse Karen, olhando Bret do outro lado do escritório. Uma pessoa ponderada, com um pouco de bom-sen-so, teria ficado em casa e ligado em vez de vir trabalhar e espalhar os seus germes.

- Eu consigo pilotar - esforçou-se por dizer Bret. - É você quem insiste no contrário.

- Certamente a Sra. Wingate quereria passar cinco horas trancada num avião minúsculo consigo - disse, com sarcasmo. - Eu não quero passar cinco minutos no mesmo escritório. Vá para casa.

- Apoio essa proposta - rosnou Cam. - Vai para casa.

- Tomei um descongestionante. - Silvou Bret em protesto. - Só que ainda não começou a actuar.

- Então não actuará até à hora do voo.

- Tu não gostas de voar com a família.

«Sobretudo com a Sra. Wingate», pensou Cam. Em voz alta, disse:

- Não tem grande importância.

- Ela gosta mais de mim.

Bret parecia agora um miúdo amuado, mas amuava sempre quando algo interferia com o seu plano de voos.

- Conseguirá aguentar-me durante cinco horas - disse Cam, sem baixar a guarda. Se ele conseguia, ela também. - Estás doente. Eu não. Fim da discussão.

- Consegui-lhe os boletins meteorológicos - disse Karen. - Estão no seu computador.

- Obrigado. - Indo para o seu gabinete, Cam sentou-se à secretária e começou a ler. Bret manteve-se atravessado na porta, parecendo não saber o que fazer consigo mesmo. - Pelo amor de Deus - disse Cam -, vai ao médico. Parece que te acertaram com spray pimenta. Podes estar com uma reacção alérgica a alguma coisa.

- Está bem. - Espirrou violentamente e não conseguiu parar de tossir.

De onde estava sentado, não conseguia ouvir Karen, mas ouviu um silvo e, em seguida, Bret ficou envolto numa nuvem. - Ora bolas - protestou o doente, abanando os braços para dissipar a nuvem. - Respirar isto não pode fazer bem a ninguém.

Karen limitou-se a vaporizá-lo novamente.

- Desisto - murmurou ele, após alguns segundos a abanar os braços, um esforço fútil porque a nuvem parecia ganhar o duelo. - Vou-me embora. Mas, se ficar com problemas pulmonares e morrer porque me cobriste com esta porcaria, estás despedida!

- Se estiver morto, não poderá despedir-me. - A última palavra foi sua, falando para as costas de Bret enquanto este saía do escritório, batendo com a porta.

Após um momento de silêncio, Cam disse:

- Mais spray. Em tudo o que tocou.

- Vou precisar de uma lata nova. Esta está quase vazia.

- Quando voltar, compro-te uma caixa.

- Por agora, vou vaporizar as maçanetas em que tocou. Mas fique fora do gabinete dele. - E a casa de banho?

- Não entro na casa de banho dos homens. Costumava pensar que os homens eram humanos, mas entrei numa casa de banho masculina uma vez e quase desmaiei com o choque. Se entrasse noutra, acabaria por sofrer de problemas psicológicos. Se quiser a casa de banho vaporizada, terá de ser você a fazê-lo.

Ponderou por um momento o pormenor vagamente inacreditável de que era ela quem trabalhava para eles e, a seguir, considerou também as probabilidades de o escritório cair no mais completo caos se ela lá não estivesse. Aliás, não era uma questão de probabilidade. Ela certificar-seia de que seria esse o resultado. Pesando estes dois pontos, concluiu que vaporizar a casa de banho não integrava a lista de deveres de Karen.

- Agora não tenho tempo.

- A casa de banho não sai do sítio. E eu uso a das senhoras. - Ou seja, não importava que a dos homens fosse desinfectada ou não.

Cam olhou pela porta aberta, percebendo apenas agora que muitas das suas conversas decorriam consigo no gabinete e com ela no espaço exterior e que, na maior parte do tempo, não a conseguia ver de todo.

- Vou mandar instalar um grande espelho redondo - disse. - Mesmo ao lado da porta.

- Porquê?

- Para poder vê-la quando falar consigo.

- Porque quer fazer uma coisa dessas?

- Para ver se está a sorrir.

Cam guardou a sua mala no compartimento da bagagem e, a seguir, inspeccionou o Skylane, andando em seu redor, procurando algo que estivesse solto ou gasto. Puxou, abanou, pontapeou. Trepou ao cockpit e passou em revista os procedimentos anteriores ao voo, marcando cada item com um visto na lista presa numa prancheta. Conhecia os procedimentos de cor e conseguiria efectuá-los a dormir, mas nunca confiava apenas na sua memória. Um momento de distracção e poderia escapar-lhe algo de crucial. Conferiu a lista para se certificar de que nada fora esquecido. Quando estivesse a três mil metros de altitude, seria tarde demais para descobrir que alguma coisa não funcionava.

Olhando o relógio, percebeu que estava quase na hora a que a Sra. Wingate deveria chegar. Ligou o motor, ouvindo o som aumentar gradualmente de intensidade e regularizar-se. Verificou as leituras dos instrumentos nos monitores, voltou a conferir que todos os dados estavam normais e consultou o tráfego regional antes de se dirigir para o portão de rede metálica na parte dianteira do aeródromo, onde recolheria o passageiro. Pelo canto do olho, notou um movimento e olhou nessa direcção, apenas durante tempo suficiente para perceber que um Land Rover verde-escuro parava no local de estacionamento mais próximo.

Vê-la no Land Rover era sempre uma surpresa. A Sra. Wingate não parecia ser o tipo de mulher que apreciava veículos utilitários. Se a encontrasse pela primeira vez, diria que a sua preferência recairia em modelos luxuosos de grande dimensão, não do tipo desportivo, mas daqueles que outra pessoa conduziria enquanto ela se sentava no banco de trás. Ao invés, era sempre ela a conduzir, quando se tratava de um veículo de tracção às quatro rodas, manobrando como se pretendesse atravessar um campo a qualquer momento.

Não havia tempo a perder. Normalmente, Bret já estaria junto ao portão e ajudá-la-ia a arrumar a bagagem. Cam notou a forma como se manteve de pé por um momento, observando enquanto o Skylane se aproximava, antes de fechar a porta e contornar o carro para começar a retirar a bagagem. Ainda estava a uns bons cinquenta metros do portão. Era impossível chegar a tempo.

Óptimo. Seria provável que estivesse já irritada no início do voo porque não havia ninguém para a ajudar. Por outro lado, não precisara de esperar de nariz no ar até chegar alguém.

Quando conseguiu finalmente posicionar o avião, desligou o motor e saiu. Enquanto se voltava para o portão, viu-a saindo do terminal, arrastando uma mala atrás de si com uma mão enquanto usava a outra para segurar uma grande bolsa. Surpreendentemente, era Karen que vinha com ela, puxando mais duas malas.

A Sra. Wingate observou-o enquanto se aproximava e voltou-se para Karen.

- Pensava que seria Bret o meu piloto - disse no seu tom de voz frio e neutro.

- Está doente - explicou Karen. - Confie em mim. Não quereria estar perto dele.

A Sra. Wingate não permitiu que gesto ou expressão traísse o que pensava.

- Claro que não - replicou, com brevidade e com os olhos completamente ocultos pelos óculos escuros que trazia.

- Sra. Wingate - cumprimentou-a Cam quando conseguiu alcançá-las.

- Comandante Justice. - Atravessou o portão mal o abriu.

- Permita-me que lhe leve a bagagem.

Em silêncio, libertou a mala antes mesmo que a mão dele se aproximasse da pega. Seguindo o seu exemplo, Cam não falou enquanto guardava as outras duas malas no compartimento da bagagem, questionando-se se ela teria deixado alguma roupa no armário. As malas eram tão pesadas que, num voo comercial, teria pago uma taxa avultada.

Quando havia apenas um passageiro, era frequente que optassem por se sentar a seu lado em vez de ocuparem os bancos dos passageiros atrás do cockpit, em parte porque conversar era mais fácil através dos auscultadores do co-piloto. Ajudou a Sra. Wingate a entrar no avião, apoiando-a enquanto subia a escada e, no interior, viu-a sentar-se no banco atrás dele, mostrando claramente que não tinha qualquer intenção de conversar.

- Poderia sentar-se do outro lado, por favor? - instruiu, num tom de voz que transformava o pedido numa exigência, apesar do «por favor» que acrescentara.

Ela não se moveu.

- Porquê?

Cam estivera na força aérea durante quase sete anos, mas os hábitos militares estavam de tal forma entranhados que quase lhe berrou para se mexer imediatamente, o que teria como resultado provável o cancelamento do contrato no espaço de uma hora. Teve de cerrar os dentes, mas conseguiu dizer num tom relativamente cordial:

- O peso ficará melhor distribuído se nos sentarmos em lados opostos.

Em silêncio, viu-a passar para o banco do lado direito, colocando o cinto de segurança. Abrindo a bolsa, retirou um livro grosso de capa dura e escondeu-se de imediato atrás dele, apesar de as lentes dos óculos serem tão escuras que Cam duvidava que conseguisse ler uma palavra. De qualquer forma, a mensagem foi compreendida com clareza: «Não fale comigo.» Óptimo. Tinha tanta vontade de falar com ela, como ela teria de falar com ele.

Ocupou o seu lugar, fechou a porta e colocou os auscultadores. Karen acenou antes de regressar ao interior. Depois de ligar o motor e verificar que todas as leituras estavam normais, deslizou até à pista. Em nenhum momento, mesmo durante a descolagem, a Sra. Wingate ergueu os olhos do seu livro.

Sim, pensou Cam, amargamente. Seriam umas cinco horas muito longas.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022