Prólogo
FALTAVAM APENAS duas semanas para o dia de Ação de Graças e fazia muito frio, até mesmo para a região do sul do Texas, para que Peg Larson se sentasse à beira de um rio para pescar, como adorava fazer.
No começo da primavera era uma delícia se acomodar com uma vasilha de minhocas e sua vara de pescar testada e aprovada. Peg costumava preparar a linha com os pesinhos e uma isca vermelha, branca e azul que seu pai lhe dera em seu aniversário de 5 anos.
Mas ainda faltavam alguns meses para a estação de pesca. E naquele momento ela não estava tão interessada em pescar peixes nos rios das cercanias de Comanche Wells, Texas, como em fisgar homens atraentes.
Peg se olhou no espelho e suspirou. Seu rosto era agradável, mas não bonito de fato. Seus olhos eram verdes e grandes. Os cabelos, loiros e compridos, em geral usados presos num rabo de cavalo, com um elástico ou qualquer outro prendedor que ela visse pela frente.
Ao puxar o elástico dos cabelos, Peg deixou os fios cair, emoldurando seu rosto. Escovou-os várias vezes até que os fios se transformaram numa espécie de cortina brilhante e dourada. Cobriu os lábios com um pouco de batom e passou pó no rosto, usando o presente que o pai havia lhe dado alguns meses antes. Mirando-se no espelho, suspirou.
Se estivessem no verão, ela poderia ter optado por uma calça velha cortada como short e uma camiseta, que exibiria seus seios pequenos e firmes. Em novembro, no entanto, as opções não eram muitas.
O jeans que vestia era velho, azul-claro e desbotado em algumas partes, pelas diversas lavagens que já sofrera, mas vestia seus quadris redondos e as pernas como uma segunda pele. A blusa era cor-de-rosa, de algodão, com mangas compridas e decote redondo; discreta, mas sexy. Pelo menos, Peg achava que era sexy.
Ela estava com 19 anos, uma moça que se desenvolvera tardiamente e que lutara para não fazer parte do grupo extremista, que achava que sexo antes do casamento era algo trivial, que apenas uma garota estranha podia desdenhar.
Peg riu sozinha ao relembrar os debates com amigas sobre o assunto. Seus amigos verdadeiros eram aqueles que frequentavam a igreja numa idade quando a religião era desafiada sob todos os aspectos.
Mas em Jacobsville, Texas, e na escola municipal, ela fazia parte da maioria.
A escola seguia uma diversidade cultural e protegia os direitos de seus alunos. Todavia, a maioria das garotas da cidade, como Peg, não se curvava à pressão ou coerção no que se referia à moralidade. Peg queria um marido e filhos, uma casa com jardim e canteiros de flores por toda parte, e, acima de tudo, que o marido fosse Winslow Grange, para completar o conto de fadas.
Peg e seu pai, Ed, trabalhavam para Grange em sua nova fazenda.
Grange libertara Gracie Pendleton, a mulher de seu patrão, do sequestro perpetrado por um presidente deposto, que precisava de dinheiro para derrubar seu monstruoso inimigo.
Grange levou alguns soldados mercenários para o México na calada da noite, e assim salvou Gracie.
Para recompensá-lo, Jason Pendleton, um milionário com coração de ouro, presenteou Grange com uma fazenda em sua imensa propriedade em Comanche Wells, incluindo um capataz e uma governanta: Ed e sua filha, Peg.
Antes disso, Ed trabalhara para Pendleton, e Peg passara meses a fio construindo sonhos nos quais o protagonista era o enigmático e maravilhoso Grange.
Ele era moreno, alto, tinha olhos penetrantes e rosto bronzeado. Fora major nas Forças Armadas americanas durante a guerra do Iraque, quando fizera algo fora do convencional para evitar a corte marcial. Segundo boatos, sua irmã cometera suicídio. Grange era um sobrevivente no sentido exato da palavra, e agora trabalhava para o líder deposto Emilio Machado, para retomar o controle de seu país, Barrera, localizado na floresta Amazônica.
Peg não conhecia nada além do Texas, nunca saíra de lá. A única vez em que subiu em um avião foi para um voo rápido, e numa aeronave pequena de hélices, de um amigo de seu pai. Ela era totalmente ingênua em se tratando de homens e do mundo.
Mas Grange não sabia disso, nem Peg iria lhe contar. Durante semanas ela vinha jogando seu charme para ele sempre que possível. Claro que de um jeito leve, mas estava determinada a conquistá-lo. Se houvesse uma mulher no Texas que conquistaria Grange seria ela.
Peg não queria que ele formasse uma opinião ruim a seu respeito, claro; gostaria apenas que ele se apaixonasse tão perdidamente que a pedisse em casamento. Seu sonho maior era morar com ele. Não que já não morassem juntos, mas era um relacionamento profissional. Peg desejava poder tocá-lo, abraçá-lo e beijá-lo sempre que quisesse... além de outras coisas.
Seu corpo inteiro reagia quando estava perto dele. Eram sensações abrasadoras que nunca tinha sentido antes.
Peg não costumava sair acompanhada porque nenhum dos homens lhe chamava a atenção. Houve até uma época em que pensara haver algo errado, pois seus programas favoritos eram sair com as amigas para fazer compras e ir ao cinema sozinha; bem diferente das outras jovens, que preferiam sair acompanhadas todas as noites.
Seus prazeres incluíam também preparar pratos diferentes na cozinha, fazer pão e cuidar do jardim. Peg cultivava uma horta durante a primavera e o verão, e trabalhava nos canteiros de flores durante o ano inteiro.
Grange apreciava seu gosto pelo cultivo e gostava dos vegetais orgânicos e frescos que ela punha à mesa. Gracie Pendleton também amava jardinagem, e trocava sementes e mudas de flores com Peg.
Na verdade, Peg saía muito raramente. Certa vez um rapaz a levou para assistir a uma peça de teatro em San Antonio. O programa teria sido ótimo se ele não tivesse insinuado que parassem num motel a caminho de casa.
Outro rapaz a levara para ver os répteis no zoológico de San Antonio e sugeriu que passassem em sua casa para que ela conhecesse sua família de cobras. O encontro também não terminou muito bem. Peg não tinha nada contra cobras, contanto que não fossem agressivas e venenosas, mas estava além de seus limites dividir um homem com elas.
Certa vez saíra com o xerife Hayes Carson. Ele era um homem muito bom, educado e dono de um excelente senso de humor. Carson a levou ao cinema. O programa foi ótimo, mas Hayes estava apaixonado por outra garota local. Todos sabiam daquele amor, menos ele próprio. Hayes saiu com Peg para provar a Minette, dona de um jornal semanal, que não estava sofrendo por ela. Minette acreditou, mas Peg não. Além do mais, não se apaixonaria por um homem cujo coração pertencia a outra mulher.
Depois dessa experiência, ela parou de sair com homens. Até seu pai aceitar trabalhar para Grange.
Peg já o tinha visto na fazenda e estava fascinada por ele. Eram raras as vezes em que ele sorria, e mais difícil ainda era dirigir algumas palavras a ela. Peg conhecia o passado militar dele e sabia que era considerado muito inteligente. Falava outras línguas e prestava alguns serviços para Eb Scott, que dirigia uma escola antiterrorista em Jacobsville, na mesma estrada de Comanche Wells, onde Grange vivia.
Eb era um ex-mercenário, como vários homens da cidade. Dizia-se que muitos deles trabalhavam para o general Emilio Machado para ajudá-lo a recuperar o governo de um usurpador que estava prendendo pessoas inocentes e torturando-as. Parecia um sujeito muito mau, e Peg desejava que o general ganhasse a batalha.
No entanto, sua maior preocupação era por Grange ser o líder da invasão. Ele era um soldado e lutara no Iraque. Mas mesmo um bom soldado podia ser morto, e Peg se preocupava. Queria contar a Grange seus temores, mas nunca surgia a oportunidade.
Peg costumava provocá-lo, brincar e preparar todo tipo de pratos e sobremesas. Grange era educado e agradecia, porém não parecia reparar nela de verdade. Isso era irritante. Sendo assim, Peg armou uma estratégia para chamar a atenção dele, e já vinha trabalhando nisso havia semanas.
Surpreendeu-o no celeiro, usando uma blusa mais decotada do que o usual, e curvou-se de propósito para pegar algo no chão. Claro que ele reparou, mas desviou o olhar, contando sobre sua vaca de raça que estava prestes a dar cria.
Como a tática do decote não deu certo, Peg tentou passar por ele pelo vão de uma porta, roçando os seios no peito largo. Ela olhou para cima para avaliar a reação dele. Grange deu uma tossidela e saiu de casa.
Como os contatos físicos não estavam adiantando muito, Peg tentou um novo ardil. Toda vez que estavam juntos e a sós, ela dava um jeito de fazer algum comentário mais sensual.
– Você sabia que existem métodos muito eficientes para o controle de natalidade? – perguntou quandocerto dia levou uma caneca de café para Grange no estábulo. – É quase cem por cento. Não há como uma mulher engravidar de um homem, a menos que ela queira.
Grange a encarou, deu uma tossidela e saiu.
Bem, não se construiu Roma num só dia. Ela tentou mais uma vez quando estava sozinha com ele na cozinha; o pai havia saído para jogar pôquer com os amigos.
Inclinando-se a ponto de quase roçar os seios nos ombros dele para servir um pedaço de torta de maçã com sorvete para acompanhar com o café, Peg disse:
– Eu li numa revista que não é o tamanho que importa num homem, mas o que ele faz com seus predicados... Ah, meu Deus! – Ela pegou um pano de prato para limpar o café que ele derrubou. – Você se queimou? – perguntou, enquanto limpava, apressada, a bagunça.
– Não – respondeu ele com frieza. Em seguida, pegou o pedaço de torta, serviu-se de mais café e deixoua sala.
Peg ouviu-o entrar em seu quarto e bater a porta com força.
– Foi alguma coisa que eu disse? – perguntou ela para si mesma na sala vazia.
AQUELA TÁTICA, pelo visto, também não chamaria a atenção de Grange. Doravante Peg tentaria ser discreta e sensual.
Era preciso fazer alguma coisa. Grange logo partiria com o general para a América do Sul. Ela iria ficar muito tempo sem vê-lo de novo, e já estava com o coração partido. Tinha de encontrar uma maneira de fazê-lo notá-la e sentir alguma coisa.
Pena que não conhecia melhor os homens. Peg costumava ler artigos em revistas, procurava na internet e lia livros, mas nada disso a preparava para a arte da sedução. Não que quisesse seduzi-lo por completo; apenas pretendia enlouquecê-lo de desejo o suficiente para que Grange não tivesse outra opção senão pedi-la em casamento.
Bem, não, não queria preparar uma armadilha. Queria apenas que ele a amasse.
E como, em nome dos céus, conseguiria isso?!
Grange nem costumava sair com garotas. Na verdade, ele saíra uma ou duas vezes com uma moça da região. Havia boatos de que ele sentia uma paixão não correspondida por Gracie Pendleton. Mas Grange não costumava sair, pelo menos não em Comanche Wells.
Peg imaginava que ele devia ter tido muitas oportunidades de conhecer mulheres quando estava no Exército. Já o ouvira falar das festas da alta sociedade a que comparecera quando estivera na capital.
Grange já tivera acompanhantes muito bonitas e ricas, para quem devia ser tão atraente e desejável quanto era para a pobre Peg. Ela imaginava como ele devia ser experiente... Com toda a certeza, mais do que ela, que voava às cegas, tentando fascinar um homem com habilidades que não possuía. Estava tateando no escuro.
Depois de se olhar mais uma vez no espelho, esperançosa, Peg saiu, determinada a impressionar Grange.
Encontrou-o sentado na sala assistindo a um documentário especial sobre cobras sucuris, filmado na Amazônia, para onde iria em breve.
– Nossa, como são grandes! – exclamou Peg, empoleirando-se no braço do sofá, ao lado dele. – Vocêsabia que quando as fêmeas estão prontas para acasalar, os machos vêm de longe, e a dança do acasalamento dura...
Grange se levantou, desligou a televisão, blasfemando baixinho, e saiu batendo a porta.
– Bem... – disse ela depois de um suspiro. – Ou eu chamo a atenção dele ou vou terminar sob umaponte, boiando num rio.
Pensar na possibilidade a fez rir.
Nesse instante, Ed Larson entrou na sala.
– Winslow passou por mim, indo para o celeiro – comentou ele devagar. – Estava dizendo os piorespalavrões que já ouvi na vida. Quando perguntei o que tinha acontecido, ele me disse que mal podia esperar para sair do país, e que se um dia cruzar com uma sucuri, vai mandá-la para você como uma entrega especial.
– Como? – indagou Peg, arregalando os olhos.
– Que sujeito esquisito – disse Ed, balançando a cabeça. – Muito estranho mesmo...
Peg riu baixinho. Tudo indicava que estava atingindo Grange de alguma maneira, mesmo que fosse apenas num ataque de nervos.
NO DIA seguinte, Peg fez um bolo de coco, o favorito de Grange. Cobriu o bolo com lascas de coco e pontilhou com algumas cerejas vermelhas.
Depois de um jantar paradoxalmente calmo e tenso, ela serviu a sobremesa.
– Coco! – exclamou Ed Larson. – Peg, você é ótima. Esse bolo está igual ao que sua mãe costumavafazer – acrescentou enquanto saboreava uma fatia do bolo com um sorriso e olhos fechados.
A mãe de Peg morrera de câncer havia alguns anos. Ela era uma cozinheira talentosa e uma das pessoas mais amorosas que Peg conhecera; tinha o dom de transformar inimigos em amigos usando apenas compaixão e empatia. Peg nunca tivera inimigos na vida, mas nutria a esperança de que, se um dia viesse a tê-los, os ensinamentos da mãe a guiariam.
– Obrigada, papai – agradeceu ela.
Grange estava devorando uma fatia do bolo, colocando as cerejas de lado.
– Você não gosta de... cerejas? – indagou Peg com olhos arregalados e inocentes, franzindo os lábiosde maneira sedutora.
Ele respondeu com uma palavra que deixou Ed perplexo, e acrescentou:
– Desculpem-me. Com licença.
Em seguida levantou-se, jogou o guardanapo sobre a mesa e saiu, sem dúvida contrariado.
– O que está acontecendo com ele? – perguntou Ed a Peg, boquiaberto. – Nunca o vi tão irascível –concluiu, terminando de comer sua fatia de bolo, indiferente à expressão do rosto da filha. – Acho que tem a ver com Barrera. Isso o está deixando muito preocupado. Grange planeja executar uma campanha militar contra um ditador, com poucos homens e longe das organizações governamentais. Eu também estaria apreensivo.
Peg tinha esperança de que Grange estivesse tenso por outras razões. Corou ao se lembrar do que dissera a ele. Fora um comentário rude, que não era do seu feitio. Tinha de ser menos grosseira, pois não queria que ele se afastasse por isso.
Blasfemou baixinho pela falta de tato. Vinha deixando-o cada vez mais bravo. De súbito pensou que poderia estar colocando o emprego do pai em risco se continuasse a agir daquele jeito. Mais uma vez, teria de reformular sua estratégia.
DEPOIS DE pensar e repensar no assunto por uns dois dias, Peg decidiu tentar algo um pouco diferente. Assim, enrolou o cabelo, colocou seu melhor vestido de domingo e se sentou na sala para assistir ao filme A noviça rebelde. Sabia que Grange, que fora inspecionar as cercas divisórias da fazenda, não demoraria.
Quando chegou, ele a viu sentada em seu lugar no sofá e postou-se ao lado dela.
– Esse filme é bem antigo – comentou.
– É verdade – respondeu ela, sorrindo com discrição. – Além de ter uma música linda, a história ésobre uma freira que tem um romance de conto de fadas com um comandante da Marinha e acabam se casando.
– Não é um filme muito comportado para o seu gosto? – perguntou Grange de um jeito meio sarcástico.
– Por quê? O que quer dizer com isso? – indagou ela, arregalando os olhos.
– O que aconteceu com os bailes de acasalamento das sucuris e o controle da natalidade?
– Você acha que as sucuris deviam fazer controle de natalidade? – Ela quis saber, espantada. – Deus docéu, por que uma cobra usaria um profilático... Hã?
Grange saiu da sala com a habitual rapidez, mas, antes de bater a porta, Peg poderia jurar que ouviu um riso abafado.
NÃO QUERO ir ao baile dos vaqueiros – declarou Winslow Grange, categórico, olhando para os outros homens com expressão hostil.
Na verdade, todos eram hostis.
Jason Pendleton conhecia seu capataz muito bem e sorriu ante a certeza de Grange.
– Você irá se divertir. Será uma pausa...
– Pausa? – Grange ergueu os braços e se virou. – Estou de partida para a América do Sul com um grupode agentes secretos para destituir um ditador sanguinário...
– É por isso mesmo – retrucou Jason. – Você precisa dar um tempo.
Grange se virou de novo, com as mãos nos bolsos da calça jeans.
– Ouça, não gosto muito de aglomerações de pessoas, não me entroso muito bem.
– E você acha que eu gosto? Tenho de me relacionar com presidentes de empresas, agentes do governo,auditores federais... mas eu supero. Você também dará um jeito.
– Acho que sim. – Grange soltou a respiração ruidosamente. – Faz tempo que não lidero uma equipe deguerra.
– Você foi ao México para libertar minha mulher, que tinha sido sequestrada pelo seu atual chefe –relembrou Jason, erguendo uma sobrancelha.
– Aquilo foi uma incursão. Estamos falando de guerra. – Grange apoiou a arma na cerca e deixou oolhar se perder na imensidão verdejante e no gado pastando. – Perdi homens no Iraque.
– Mas por causa das ordens de seu comandante, se bem me lembro. Não foi culpa sua.
– Vibrei quando ele foi levado à corte marcial.
– Foi benfeito. – Jason encostou-se à cerca. – Verdade seja dita, você sabe comandar. Isso é umaqualidade valorosa para um chefe de estado que luta para restaurar a democracia em um país. Se você ganhar, e acredito que ganhará, erguerão uma estátua em sua homenagem em algum lugar.
Grange soltou uma gargalhada.
– Mas o baile é uma tradição local. Vamos todos e ao mesmo tempo, fazemos donativos para as importantes causas regionais. Além disso, dançamos e nos divertimos. Você se lembra do que é diversão, não?
– Seus amigos ex-militares, tementes a Deus... – Jason suspirou.
– Não comece por mim – pediu Grange. – Lembre-se de que por causa da minha experiência comomilitar a sua Gracie não jaz em uma cova.
– Penso nisso todos os dias.
Jason meneou a cabeça. Aquele não era um assunto que ele gostava de lembrar. Gracie quase morrera.
O namoro deles fora difícil, mas agora estavam casados e esperando o primeiro filho. Gracie teve a impressão de estar grávida assim que eles se casaram, mas se enganara. Agora, porém, estava grávida de seis meses, e eles estavam felizes juntos. Entretanto, o caminho até o altar fora árduo.
– Eu ia convidá-la para sair antes de vocês se casarem – disse Grange para provocar Jason. – Tinha atécomprado um terno novo.
– Você não vai perdê-lo, porque ainda está na moda. Por que não o usa para ir ao baile? – sugeriu
Jason, sorrindo. – Além do mais, você não tem do que reclamar. Eu lhe dei terras e embriões de gado Santa Gertrudes legítimo.
– Você não deveria ter feito isso – afirmou Grange. – Foi um exagero.
– Não foi, não. Você é o empregado mais valioso que tenho aqui. Isso tudo foi um bônus merecido.
– Obrigado. Mas não precisava acrescentar ao pacote Ed Larson e sua filha.
– Peg é um doce, e cozinha como um anjo.
– Ela está sempre atrás de mim, dizendo bobagens... – Os olhos de Grange brilharam.
– Ela tem 19 anos... claro que diz bobagens.
– Por Deus, ela está tentando me seduzir! – desabafou Grange com o rosto vermelho.
– Você sabe que a época vitoriana acabou, não é? – Jason arqueou uma sobrancelha.
– Não estou disposto a fazer joguinhos com uma garota de 19 anos. Eu já vou à igreja, pago meusimpostos e faço doações para caridade. Nem beber eu bebo!
– Desisto. Você é uma causa perdida. – Jason meneou a cabeça.
– Basta olhar em volta para encontrar causas perdidas. Temos a maior taxa de divórcios, a pior economia e as mais mesquinhas empresas da Terra...
– Lamento, mas tenho de ir a Nova York na semana seguinte ao dia de Ação de Graças.
– Não vou demorar tanto para expor meu ponto de vista.
– Terá de pregar em outro lugar. Voltando ao assunto do baile, se você não levar Peg ao baile, não terácom quem ir.
– Irei sozinho – resmungou Grange.
– Se fizer isso será assunto de primeira página para todo mundo.
– Não vou levar Peg! – exclamou Grange por entre os dentes. – Ela e o pai trabalham para mim.
– Se quiser, posso listar os nomes de várias pessoas que levaram empregados a bailes passados – disseJason em tom de brincadeira.
Grange já sabia quem estaria nessa lista; muitos deles acabaram se casando. Ele não queria dar nenhuma chance de isso acontecer.
– Será por apenas três horas, Grange. Que mal há nisso? Além do mais, você sairá de viagem dois diasdepois.
– É verdade.
– Pense nas lembranças felizes que levará consigo.
– Peg não tem dinheiro para comprar um vestido novo. – Grange passou os dedos por entre os espessoscabelos negros.
– Há uma nova butique na cidade. A designer, Bess Truman, está investindo para crescer e irá vestir metade das moças solteiras da cidade com seu estoque. Você se lembra de Nancy, a farmacêutica? Ela apareceu na televisão local com um vestido verde da coleção de Bess. Bonnie, a assistente dela, tem um vestido vermelho de parar o trânsito, literalmente. Até mesmo Holly, que trabalha com elas, tem um dourado. Bess já emprestou um vestido para Peg usar.
– Você vai me contar a cor do vestido? – indagou Grange em tom sarcástico.
– Você terá de esperar para ver. – Jason sorriu. – Gracie disse que é o vestido mais bonito de todos.
Grange ainda não parecia muito convencido.
– Convide-a, Grange. Já faz tempo que você anda circulando sozinho, sem sair com ninguém. É hora dese lembrar das razões pelas quais homens gostam de mulheres.
– Foi Gracie que mandou você falar comigo, não foi? – Grange estreitou os olhos.
– Desejos de uma mulher grávida, do tipo sorvete de morangos com picles, manga com gelo, as amigassendo convidadas para os bailes... – Jason fitou Grange com olhos brilhantes. – Creio que você não vai querer desapontar Gracie, não é?
– Certo, pode bater no meu ponto fraco.
Jason sorriu abertamente.
– Vou testar as armas e exercitar meus homens, mas posso tirar a noite livre e levar Peg a um baile parao qual não tenho a menor vontade de ir. Por que não?
– Seja legal com ela, está bem, Grange? Pelo menos uma vez.
– Detesto coisas legais. Eu não sou legal. Fui capitão de um pelotão no Iraque.
– Vai ser bom praticar seu charme quando tiver de convencer os insurgentes a se render a seu chefe, ogeneral.
– Não preciso de charme para isso. Tenho várias armas automáticas e algumas granadas para essafinalidade.
Jason se limitou a balançar a cabeça.
PEG ESTAVA na cozinha quando Grange entrou pela porta lateral da casa. Apesar dos protestos, Jason o presenteara com a fazenda junto com a casa. Grange ainda era tecnicamente o capataz de Jason na imensa propriedade chamada Pendleton Comanche Wells. Quando tivesse tempo, Grange pretendia formar seu próprio rebanho e reformar o enorme elefante branco, transformando-o numa casa menor. Jason era o responsável pelo pagamento de Ed, e Grange pelo de Peg.
Grange nunca deixara de reconhecer a generosidade de Jason. Ele fazia questão de pagar suas dívidas e achava que devia muito a Grange por ter salvado Gracie. Grange recusara uma oferta em dinheiro, e Jason deu outro jeito para recompensá-lo: a terra, a casa e embriões de gado. Tudo aquilo valia uma pequena fortuna, mas seria impossível convencer Jason do contrário quando se determinava a fazer alguma coisa. Fora uma recompensa e tanto.
Por outro lado, aquela tinha sido uma missão muito perigosa e arriscada. Grange e seus homens podiam ter morrido, mas efetuaram o resgate em pouco tempo e sem nenhum acidente sério. Ele tinha esperança de que o feito se repetisse quando invadisse Barrera, país de Emilio Machado, e retomasse o poder de um cruel ditador.
Peg tinha 19 anos, cabelos loiros compridos, olhos verdes e um sorriso travesso. Ela e o pai viviam sozinhos havia cinco anos, desde a morte da mãe, vítima de um câncer agressivo. Os dois acabaram trabalhando para Jason Pendleton, e agora trabalhavam para Grange.
Nenhum deles se importou com a troca de patrões. Ed adorava ser capataz na pequena propriedade de Grange, pois continuava com o mesmo salário, e o trabalho era bem melhor, o que lhe proporcionava mais tempo livre.
Peg, por sua vez, tinha a única obrigação de cozinhar para os três, e essa era a sua especialidade. Muito embora a cozinheira de Jason viesse de vez em quando para pedir tortas e bolos. Peg nunca se importava. Ela amava cozinhar.
– Você deveria estar na faculdade – disse Grange sem nenhum preâmbulo ao entrar na cozinha, onde elaacabara de colocar um bolo de carne no forno.
– Claro. Vou para Harvard no semestre que vem. Lembre-me de pedir para meu pai pagar a mensalidade – respondeu ela, olhando para ele e rindo, enquanto mexia as batatas na panela com água.
– Existem bolsas de estudos.
– Minhas notas não foram boas o bastante para me candidatar.
– Você pode trabalhar e estudar.
Peg se virou para olhar para ele e precisou levantar o rosto para fitá-lo nos olhos. Ela estava com o cabelo preso, e a camiseta mostrava manchas de gordura, pois nunca usava avental. – E o que eu estudaria? – perguntou Peg, apontando o garfo para ele.
– Economia doméstica.
– Acha mesmo que vou para a faculdade e dormir num dormitório misto?
– Como?
– Estou falando de um dormitório onde homens e mulheres dividem os cômodos sem se conhecerem.Você imagina que eu tiraria a roupa ao lado de um homem que não conheço?
– Você só pode estar brincando.
– Não estou, não. Há quartos para casais casados. Os outros não têm muita escolha, podem dormir comhomens ou mulheres. – Peg o encarou, antes de prosseguir: – Fui criada de um jeito específico, e é por isso que moro num lugar onde as pessoas pensam como eu. Li um livro de um sujeito chamado Toffler. Há 30 anos ele anteviu que haveria pessoas em ritmos diferentes da sociedade e que não se ajustariam muito bem aos padrões. – Deu de ombros. – Desajustada, essa sou eu; não pertenço a lugar nenhum. Bem, com exceção de Jacobsville ou Comanche Wells.
Grange admitiu que não gostava da ideia de Peg dormindo num quarto misto e com pessoas desconhecidas. Por sua vez, ele próprio não gostaria de ser forçado a viver com uma mulher que não conhecesse bem. Como o mundo havia mudado em apenas uma década!
– Bem, acho que você está certa. – Ele encostou-se à parede. – Mas poderia estudar pela internet.
– Já pensei a respeito.
Grange analisou o rosto dela, a boca bem desenhada, o queixo redondo e o pescoço elegante. Os olhos eram sua característica mais bonita, mas o cabelo preso e a ausência de maquiagem não a favoreciam. – São apenas fatores que desviam a atenção – comentou ela, ao perceber que ele a encarava.
– Como? – indagou ele, piscando.
– Estou falando do meu rabo de cavalo e da falta de maquiagem. É assim que mantenho meus admiradores afastados. Os homens acham que uma garota que não curte roupas bonitas e maquiagem deve ser inteligente. Como eles não gostam de mulheres inteligentes...
– Se eu quisesse uma namorada, gostaria que ela fosse inteligente. Eu me formei em Ciências Políticascom mestrado na Língua Árabe.
– Não acredito! Você fala Árabe? – perguntou ela, levantando o garfo.
– Sim, e vários dialetos.
– Oh... – Peg suspirou e fechou os olhos.
Não tinha ideia de que ele era tão culto, e de repente sentiu-se inferior. Grange acabara de sugerir que ela fizesse faculdade. Será que sua mente não era tão desenvolvida quanto a dele? E por isso ele ia mandá-la embora?
Grange franziu o cenho ao percebê-la tão preocupada. Lembrou-se do que Jason dissera sobre a designer que dera vestidos para as moças da cidade e sorriu. Bem, afinal não tinha nenhum plano de convidar outra garota.
– Que tal ir ao baile dos vaqueiros comigo? – perguntou Grange de repente.
Peg passou da tristeza profunda para a euforia em questão de cinco segundos.
– Eu?!
– Bem, seu pai não ficaria muito bem num vestido de baile...– O baile...?
– Isso mesmo. Odeio festas, mas acho que aguento por umas duas horas.
Peg limitou-se a menear a cabeça, ainda sem acreditar no que tinha ouvido.
– Você quer ir? – perguntou Grange de novo, porque ela estava com cara de quem... Na verdade, elenão sabia de quê.
– Sim! – gritou Peg, soltando o garfo, que foi parar dentro da pia.
– Ótimo lance, você podia ser jogadora profissional – comentou ele, rindo.
– Não jogo futebol.
Grange começou a dizer que se referia a basquete, mas Peg não estava prestando atenção, tão radiante ficara com a novidade.
– Eu só estava brincando.
– Tudo bem.
– Vou voltar ao trabalho. – Grange se desencostou da parede. – Vamos sair às seis horas, no sábado.Eles servirão canapés e algumas outras coisas, por isso acho que você não precisa fazer jantar, a não ser alguma coisa para seu pai. – Está bem...
Grange sorriu e saiu da cozinha.
Peg só voltou à realidade quando a água das batatas levantou fervura, espirrando no fogão. Espetou uma batata com um garfo limpo e colocou a panela da pia.
Sentia-se a própria Cinderela. Fora convidada para ir ao baile! Arrumaria o cabelo e o rosto para deixar Grange orgulhoso de sua companhia. Seria a melhor noite de sua vida! Quando começou a espremer as batatas, teve a sensação de estar nas nuvens.
– EU SOUBE que vocês vão ao baile – brincou Ed Larson com Peg depois do jantar com Grange.
Ela corou mais uma vez. Tinha sido assim durante a refeição inteira. Foi com grande alívio que viu Grange sair para o estábulo.
– Vamos, sim. Fiquei de queixo caído quando ele me convidou. Aposto que Gracie mandou o maridoobrigá-lo a fazer isso – disse ela com uma pontinha de tristeza. – Garanto que Grange disse que não ia.
– Que bom que vai. – Ed tomou um gole de café. – Dizem os boatos que Grange e os outros guerrilheiros partirão em breve com Emilio Machado. A revolução não será nada boa.
– Mas já? – perguntou Peg sem pensar.
Ela sabia sobre a missão de Grange. Era difícil guardar segredos numa cidade pequena. Além disso, Rick Marquez, cuja mãe adotiva, Barbara, era dona do café de Jacobsville, era filho do general Machado.
– É sim.
– Mas ele vai morrer!
– Nada disso. Grange foi um boina-verde no Iraque e voltou para casa. Ele vai ficar bem.
– Você acha mesmo? Sério?
– De verdade.
– Por que as pessoas precisam lutar? – indagou Peg depois de um suspiro.
– Às vezes por razões estúpidas, outras por razões patrióticas, ou para impedir que um ditador matepessoas em suas casas por terem questionado suas leis – disse Ed, com o olhar perdido no infinito.
– Nossa Senhora!
– O governo do general Machado era democrático, com ministros escolhidos com cuidado. Ele viajoupelo país conversando com o povo para entender suas necessidades reais. Criou comitês especiais com representantes de grupos indígenas no conselho. Chegou inclusive a negociar com países vizinhos para criar uma política de comércio livre que beneficiaria ambos os lados. – Ed meneou a cabeça antes de continuar: – Aproveitando que Machado estava viajando, aquela víbora chamou alguns comparsas para liderarem as forças militares do país e tomou o governo.
– Que cara bacana... – comentou Peg com sarcasmo.
– Ele também era o braço direito do general. Seu nome é Arturo Sapara. Arturo liderou o golpe deestado, depois fechou as emissoras de rádio e TV e colocou representantes em todos os jornais, que se reportavam diretamente a ele. Sapara controla toda a mídia, coloca câmeras em todo lugar e espiona a população. Se alguém é contra o que ele faz... essa pessoa simplesmente desaparece. Foi o que aconteceu com dois professores universitários há alguns meses.
– Nossa...
– Há quem diga que coisas assim não acontecem, mas são inevitáveis quando as pessoas fecham osolhos para as injustiças.
– Eu não sabia que era tão grave assim.
– Machado diz que não vai ficar parado vendo todo o seu trabalho pela democracia escorrer pelo ralo.
Levou meses para formar uma contradefesa, mas agora ele tem homens e dinheiro, e vai entrar em ação.
– Espero que ele vença – comentou Peg, fazendo uma careta. – Não quero que Grange morra.
– Você o está subestimando. Ele tem sete vidas, como um gato. Além disso, tem uma mente aberta; poresse motivo tem um valor inestimável para o general. – Os olhos de Ed começaram a brilhar quando começou a contar: – Durante a Segunda Guerra Mundial, um marechal de campo alemão, Rommel, foi enviado para o norte da África com um pequeno contingente de soldados, em comparação aos ingleses. Mas ele queria dar a impressão de possuir um batalhão maior. Então ele fez com que seus soldados marchassem numa parada militar, virassem a esquina e voltassem, deixando a impressão de que eram inúmeros homens. Rommel dispunha também de ventiladores enormes, motores de avião presos atrás dos caminhões para levantar a poeira do deserto e fazer parecer que seu contingente militar era maior do que era na realidade. A oposição foi enganada por muito tempo. É isso que eu chamo de ter uma visão ampla.
– Nossa... Nunca ouvi falar desse oficial alemão.
– Como?! – Ed a encarou, perplexo. – Você não estudou a Segunda Guerra Mundial na escola?
– Claro que sim. Aprendi sobre um general chamado Eisenhower, que depois se tornou presidente.
Ah... tinha também aquele sujeito, Churchill, que era um líder inglês.
– E o que aprendeu sobre Montgomery e Patton?
– Quem foram esses?
Ed terminou o café e se levantou.
– Vou citar as palavras de um professor de Harvard, George Santayana: "Aqueles que não se lembramdo passado estão condenados a repeti-lo." E, só para constar, a história ensinada na escola precisa ser revista.
– História moderna. Para mim, tudo não passa de uma porção de datas e fatos insignificantes.
– Coisas lendárias.
– Se você acha...
Ed olhou para a filha, sorriu e desistiu do assunto.
– O mundo estará nas mãos de pensadores superficiais quando os mais velhos se forem.
– Não sou superficial – protestou ela. – Eu apenas não gosto de História.
– Mas Grange gosta.
– É mesmo?
– Sobretudo História Militar. Sempre falamos a respeito.
– Acho que vou recorrer à internet. – Peg encolheu os ombros.
– As prateleiras estão cheias de livros. Literatura real e honesta!
– São árvores mortas, papai. É preciso matar uma árvore para fazer um livro, quando existem tantosbons e-books para vender em toda a web.
Ed balançou as mãos e se dirigiu para a porta.
– Daqui a pouco você vai me dizer que concorda que todas as livrarias e bibliotecas fechem no paísinteiro.
– Acho tudo muito triste. Muita gente não pode comprar nem livros usados. As bibliotecas têm toda essatecnologia de graça. O que farão as pessoas quando não tiverem outro jeito de aprender a não ser indo à escola?
– Essa é a fala de uma filha minha. – Ed voltou para abraçá-la, soltando-a em seguida.
– Você quer um pedaço de torta? – gritou Peg quando ele já havia saído.– Daqui a uma hora, quando o jantar se assentar!
PEG AQUECEU o café e saiu da casa com uma caneca na mão, em direção ao estábulo. Lá, encontrou Grange sentado numa cadeira com assento de palha lidando com uma vaca Santa Gertrudes que paria pela primeira vez. Ele era muito ligado àquele animal; dera a ela o nome de Bossie. Ela estava sofrendo.
– Maldito touro que fez isso... – murmurou Grange, aceitando o café com um sorriso. – Se eu soubesseque ela estava prenhe, não a teria comprado de Tom Hayes.
Peg sabia do que ele estava falando. Uma vaca que paria pela primeira vez tinha de ter um novilho pequeno. Mas aquela fora fecundada por um touro, que geraria um filhote com peso acima do recomendado e prejudicaria a mãe.
– Tomara que ela tenha uma boa hora.
– E ela terá, se eu pagar para o veterinário se sentar aqui a noite inteira para ajudá-la.
– O dr. Bentley Rydel faria isso de graça. Ele ama os animais.
– Ah, sim, o cunhado dele é um deles. Quero dizer, um animal.
– Você tem raiva dos soldados mercenários, não é? – comentou ela.
– Não de todos. Os homens de Eb Scott são uma exceção. Mas Kell Drake, o cunhado de Rydel, tinhauma carreira mi
Capítulo Dois
–O QUE seu cunhado anda fazendo? – indagou Grange ao convidado.
Bentley Rydel franziu a testa antes de responder:
– Kell Drake sempre muda de assunto quando o questiono. Mas ele e um de seus amigos estão envolvidos em algum projeto com armas na África do Sul. Nem me dou o trabalho de perguntar. – Bentley interrompeu Grange, que ia começar a falar: – É perda de tempo. Ele estava trabalhando em alguma coisa com Rourke, mas soube que ele vai viajar com você.
– Rourke... – Grange suspirou e balançou a cabeça. – Esse é uma figura.
– Quem é ele? – Peg quis saber.
– Alguém que você nem precisa conhecer – disse Grange categórico. – É um...
– Por favor. – Bentley ergueu a mão para impedir Grange de continuar. – Estamos na companhia de umasenhorita.
– É verdade – concordou Grange e, sorrindo para Peg, deu um gole no café.
– Bem, Rourke pertence a uma categoria especial. Até mesmo o chefe de polícia, Cash Grier, evitaencontrar-se com ele. E pensar que Grier já trabalhou com muitos canalhas na sua época. O fato é que Kilraven, que costumava trabalhar como agente federal infiltrado do departamento de Grier, quase saiu aos socos com Rourke por causa da mulher com quem se casou.
– É um mulherengo, não é? – indagou Ed, aproximando-se do grupo.
– É difícil dizer, mas ele acha que sim – respondeu Grange.
– Rourke é bem relacionado – disse Bentley em tom de brincadeira. – Dizem que é filho ilegítimo dobilionário K.C. Kantor, que esteve à frente da maioria dos conflitos nos estados africanos.
– Já ouvi falar dele. – Ed meneou a cabeça. – É um homem fascinante.
– Ele nunca se casou. Dizem que se apaixonou por uma mulher que virou freira. Ele tem um afilhado quese casou com uma moça de uma rica família de fazendeiros do Wyoming.
– Nossa! – exclamou Ed. – Cada uma que a gente ouve!
– É verdade. – Bentley consultou o relógio e se levantou. – Preciso me apressar, tenho uma cirurgiadaqui a trinta minutos. Obrigada pelo café, Peg. – Sorriu-lhe.
– Por nada. Dê lembranças à sua esposa. Cappie estava mais adiantada que eu na escola, mas eu aconheci. Ela é um amor.
– Vou dizer a ela. Até mais.
Os homens acompanharam Bentley até a van, e Peg tirou a mesa do café. Depois de colocar a louça na máquina, subiu para o quarto para arrumar os acessórios que usaria em sua grande noite de baile. Cinderela é meu nome, pensou.
PEG ADORAVA plantar, especialmente mudas de flores. Até a primavera, as mudas de jacintos, tulipas e narcisos que estava plantando floresceriam em todo o seu esplendor de cores.
Os jacintos tinham um aroma melhor do que os perfumes mais refinados e caros. E Peg entendia de perfumes caros, pois passava horas nas lojas abrindo os frascos e sentindo a fragrância. Nunca tivera dinheiro suficiente para comprar um, mas adorava sentir os perfumes luxuosos quando passeava pelo shopping center em San Antonio. Não era sempre que saía da fazenda, mas aproveitava cada minuto quando tinha oportunidade.
Depois de plantar a última muda, Peg se ergueu. Sua camiseta estava suja de terra, e provavelmente o cabelo também. Mas adorava mexer na terra, assim como a esposa de Jason, Gracie, que costumava lhe mandar as mudas. As pessoas apaixonadas por jardinagem se tornavam amigas com facilidade por compartilharem o amor pelas plantas.
Grange estacionou o carro ao lado do estábulo e se aproximou dela, admirando o canteiro.
– Estou bem próxima ao melhor adubo que há.
Ele levou alguns segundos para entender que ela se referia ao esterco do gado, orgânico e muito eficaz.
– Entendi.
– A sra. Pendleton me mandou as mudas de seu jardim. Você não se importa...– Não, divirta-se.
– Meu pai foi ao mercado. Você não quer me raptar enquanto ele está fora?
Fazer insinuações sensuais era o jeito como Peg costumava provocá-lo, e o estava atingindo de um jeito preocupante.
– Não, não quero – respondeu ele, seco.
– Puxa vida, você está na era do gelo... Todo mundo se diverte hoje em dia.
– Você inclusive?
– Claro que sim. Tenho vida sexual ativa desde os 14 anos.
Grange arregalou os olhos, procurando disfarçar o susto. Peg não parecia uma moça fácil, mas será que estava enganado?
– Isso não tem nada de mais, Grange! Você é tão retrógado!
Calado, Grange seguiu para dentro do estábulo. Não achava que Peg fosse promíscua, mas era antiquado demais para achar que o estilo de vida mais liberal era salutar, apesar de muita gente pensar assim.
Peg não deixou por menos e foi atrás dele, balançando uma pazinha.
– Escute aqui, as pessoas não precisam seguir antigas doutrinas que já não são mais pertinentes nomundo moderno – desabafou ela. – Não existe um seriado de televisão em que as pessoas não durmam juntas antes do casamento.
Grange virou-se para responder:
– É por isso que eu não assisto à televisão.
– Você é o típico homem que imagina que as mulheres são santas. E todas deveriam se vestir de maneirarecatada e não abrir a boca. – Peg jogou a pazinha para longe e partiu para cima dele. – Sou uma ameaça para você, não é? Você está louco por mim, mas acha que sou muito jovem e inocente...
Sem que ela esperasse, Grange a segurou pelos braços e a prensou entre a parede do estábulo e seu corpo forte. Antes que Peg pudesse protestar, ele a beijou com uma avidez inesperada, levando o coração dela a bater em total descompasso.
– Sua danada... – sussurrou ele sem deixar de beijá-la, enquanto viajava com as mãos pelos quadrisarredondados, pressionando sua masculinidade intumescida contra as coxas macias de Peg.
Ela se arrependeu de tê-lo provocado, e agora estava morrendo de medo. Fora beijada uma única vez, por um garoto mais tímido do que ela, e o contato lhe causara asco. Desde que se apaixonara por Grange não namorara ninguém.
Agora ele tinha aceitado a oferta, imaginando que ela fosse uma mulher experiente, mas Peg mal sabia o que fazer. Pior: ele a estava assustando.
Peg nunca sentira com tamanha proximidade o membro rijo de um homem, e era tão ameaçador quanto a língua que agora se infiltrava em sua boca com uma volúpia totalmente desconhecida para a sua pouca experiência.
– Por... Por favor... – Peg espalmou as mãos no peito largo e o empurrou para trás, quando conseguiuvirar o rosto por alguns segundos.
A mente de Grange estava em turbilhão. Peg tinha o gosto do mais refinado champanhe. O corpo macio, quente e um perfume delicado que se amoldara perfeitamente ao seu, levando-o aos céus como nenhuma outra mulher fora capaz de fazer.
Peg já havia se deitado com outros homens, pelo menos era o que propagava. Mas, assim que voltou à realidade, Grange percebeu as mãos miúdas sobre seu tórax e o pedido para que parasse. Afastando-se um pouco, olhou no fundo dos olhos dela e entendeu que, ao contrário do que dizia, ela não tivera experiência alguma com outros homens.
– Fique quieta! – ordenou ele, quando Peg tentou fugir da proximidade intimidante.
A voz de comando a deixou petrificada. Ela engoliu em seco algumas vezes, enquanto Grange se afastava devagar, virando-se de costas.
Grange estava tenso, mas ela nem percebeu, de tão trêmula que estava, ainda encostada à parede com os braços cruzados sobre o peito. Aos poucos notou que seu corpo estava estranho, os seios, mais cheios, e uma sensação estranha entre as pernas. Deveria ter prestado mais atenção às aulas de Biologia em vez de ler livros de Arqueologia enquanto o professor explicava sobre contracepção e outros detalhes clínicos. Era uma aula muito enfadonha, mas pelo menos agora ela sabia que entre a teoria e a prática havia um longo caminho.
Passados alguns minutos, Grange respirou fundo e virou-se para Peg novamente. Ela evitou encará-lo de tão corada, nervosa e abalada que se sentia. A vulnerabilidade dela o levara a extremos. Assim, ele se aproximou e tomou o rosto delicado em suas mãos grandes, forçando-a a olhar em seus olhos.
– Sua pequena mentirosa... – Grange sorria.
Peg engoliu em seco de novo, embora achasse que ele não estava bravo.
Inclinando a cabeça, Grange beijou-lhe as pálpebras, sentindo o sabor das lágrimas que começavam a escorrer.
– Não chore – murmurou. – Você está em segurança.
Os lábios de Peg tremeram. Da mesma forma como estranhara o beijo agressivo de minutos antes, nunca tinha recebido uma manifestação de tanto carinho por parte de um homem como naquele instante.
Peg colocou as mãos sobre o tecido aflanelado da camisa, sentindo os músculos firmes e as batidas do coração de Grange, e procurou absorver toda a ternura dos lábios dele sobre sua pele.
– Agora já sabemos que insinuações falsas e agressividade fora de hora podem gerar mal-entendidos,não é? – murmurou ele.
– Tem razão. Eu deveria ter prestado mais atenção às aulas de Biologia em vez de ficar lendo livros deArqueologia escondido.
– Arqueologia? – indagou ele, arqueando uma sobrancelha.
– Ah, gosto de cavar a terra – respondeu ela, esboçando um sorriso. – Adoro plantar, desenterrarrelíquias... Tem algo a ver, não acha?
– Se você diz... – retrucou ele, rindo.
– Você está bravo? – Peg o encarou, sentindo-se vulnerável.
– Bravo não, mas um pouco envergonhado. – Grange meneou a cabeça.
– Por quê? A culpa foi minha. Eu passei dos limites. Sinto muito.
– Eu também. – Grange suspirou.
– Ainda vai me levar ao baile? – perguntou, preocupada.
– Mais do que nunca.
– Está bem.
– Agora, saia daqui – pediu ele, beijando-a na ponta do nariz. – Tenho de ver como está minha novilha.– Vaca. Agora ela já é mãe.
– Está bem, tenho de ver como está minha vaca.
Peg sorriu e começou a se afastar.
– Peg? – Grange a chamou, o nome soando como magia. – Meu pai era pastor.
Peg sentiu o sangue subir-lhe ao rosto, envergonhada por tudo o que já tinha dito a ele.
– Ah, meu Deus...
– Ele não era fanático, mas tinha uma consciência rígida de como a vida devia ser, diferente de outraspessoas mais permissivas. Segundo meu pai, a única coisa que separa os seres humanos dos animais é a nobreza de espírito que caminha junto com o respeito. A religião, ele dizia, junto com as artes, é o fundamento de uma civilização. Se uma das duas coisas falhar, a sociedade seguirá o mesmo caminho.
– Um dos meus livros de Arqueologia fala sobre a civilização egípcia – comentou Peg, voltando para oceleiro. – Primeiro cultuavam as artes, depois a religião praticada durante séculos. Roma, no entanto, foi absorvida por tantas outras culturas e nacionalidades que, como não se misturavam, o império acabou se dividindo em oriente e ocidente, depois de um conflito interno.
– Você deveria fazer faculdade de Antropologia.
– Se eu tivesse a chance, seria ótimo.
– Jason Pendleton doa algumas bolsas de estudos para várias universidades. Não tenho dúvida de queele mandaria você, se quisesse mesmo ir.
– Uau! Será?
– Acho que sim.
– Bem, tem aquele problema de morar em dormitórios mistos – disse ela, relutante, referindo-se aoassunto daquele mesmo dia, quando falara de uma experiência que não possuía.
Grange pensou que poderia lembrá-la daquilo, uma vez que alguém que não queria viver em um alojamento conjunto não aprovaria dormir com qualquer um.
Mas nada comentou.
– Você poderia morar fora do campus – sugeriu ele, tomando uma mecha do cabelo dela na mão.
– E quem tomaria conta de você e do meu pai? – Peg fitava os olhos escuros.
Grange sentiu uma pontada no peito. Até aquele momento não tinha avaliado como Peg cuidava bem deles. Havia sempre roupa limpa nas camas, móveis sem poeira, lanchinhos enfiados na sela do cavalo quando ele ia inspecionar as cercas da fazenda, e seu casaco sempre escovado e pendurado em algum lugar à mão.
– Você me mima demais – disse ele depois de um minuto, sério. – Isso não é bom. Passei a maior parteda vida no Exército, e não quero amolecer agora.
– Isso nunca acontecerá. Você possui a mesma aspereza refinada de Aníbal ao lutar com Cipião Africano, o famoso general romano, durante as guerras púnicas.
– Como sabe disso e não reconhece os nomes de Patton e Rommel? – perguntou ele, aturdido.
– Você gosta de História Moderna, e eu, de História Antiga. – Peg encolheu os ombros e sorriu. – Umadas estratégias de Aníbal era jogar potes de cerâmica cheios de cobras venenosas no deque dos navios inimigos. Aposto que os tripulantes pulavam como grilos para o mar.
– Que garota malvada... – Grange balançou o dedo indicador e mordiscou o lábio, ainda inchado pelobeijo. – Se bem que essa tática é boa para se usar nas guerras modernas.
– Ah, não iria dar certo. Grupos de ativistas iriam protestar nas ruas contra os maus-tratos às serpentes.
– Acho que você tem razão. – Grange começou a rir. – Segundo os chineses, vivemos em tempos interessantes.
Peg arqueou as sobrancelhas, sem entender.
– Trata-se de uma antiga predição chinesa. "Tempos interessantes" se refere a uma época difícil.
– Entendo.
Grange estudou os traços delicados de Peg. Ela não tinha uma beleza padrão, mas era dona de um rosto de linhas fortes, lindos olhos verdes e uma boca muito tentadora para se beijar. Mesmo contra a vontade, seus olhos não se desviavam daqueles lábios.
– Chega de brincadeira, Peg. Eu entro em ebulição muito rápido, e você não está preparada para o quepode acontecer.
Ela ia protestar, mas optou por ficar quieta.
– Jogue sal na ferida.
Grange avançou alguns passos e a segurou pelos ombros.
– Eu não estava reclamando. – Ele escolheu bem as palavras. – Não sou um aproveitador. Não gosto dehomens que tratam mulheres como objetos descartáveis. E o mundo moderno está cheio deles.
– Traduzindo, você acha que as pessoas têm de se casar primeiro – disse Peg o que lhe veio à cabeça ecorou, lembrando-se de que ele podia pensar que era uma insinuação de um pedido de casamento.
Sim, era o que ela queria, mas não pretendia ser brusca demais.
– Não vou dizer que não penso em casamento, mas não já. Estou prestes a participar de uma operaçãoperigosa. Não posso estar com a cabeça em outro lugar quando as balas começarem a voar, concorda?
O estômago de Peg se contraiu. Seria horrível se Grange se ferisse longe de casa e ela não pudesse cuidar dele. Decididamente não pensaria na pior das hipóteses. De jeito nenhum!
– Não precisa ficar nervosa – reprovou Grange. – Tenho experiência nessas táticas militares para nãome ferir. Sou bom nisso. É por esse motivo que o general Machado quer que eu lidere a missão.
– Eu sei. Meu pai garantiu que você é um líder nato. Ele acha que foi uma pena você ter deixado oExército.
– Acredito, como meu pai, que as coisas acontecem por uma razão e que as pessoas aparecem na nossavida na hora certa e com um propósito.
– Eu também acho.
Peg esboçou um sorriso, e Grange colocou o dedo indicador sobre os lábios dela.
– Fico feliz que você tenha entrado na minha vida – disse com voz suave, mas recuou em seguida. –Porém, somos apenas amigos, por enquanto. Entendeu?
– Você vai me reembolsar os contraceptivos? – perguntou ela, audaciosa.
Grange caiu na risada e saiu do estábulo balançando a cabeça.
– Isso é um "não"? – gritou ela.
Ele bateu a mão no ar e continuou andando. Peg abriu um sorriso.
NO DIA da festa dos vaqueiros, Peg estava tão nervosa que queimou uma fornada de biscoitos que assava para o café da manhã. Era a primeira vez que isso acontecia, desde que aprendera a cozinhar aos 12 anos de idade.
– Sinto muito – disse ao pai e a Grange.
– Um escorregão em um mês não é um desastre, mocinha – brincou Grange. – Os ovos com bacon estãoótimos, e já comemos mais pão do que o necessário.
– Pão modificado – murmurou Ed.
Grange e Peg olharam para ele sem entender.
Ed deu uma tossidela antes de iniciar a explicação:
– Hoje em dia boa parte dos grãos são modificados geneticamente, e os rótulos não dizem o que foi ounão alterado. Não faz muita diferença. O pólen proveniente de colheitas modificadas é transportado pelo ar e acaba chegando a colheitas normais. Acho que os gênios de laboratório não previram que o pólen pode viajar.
– O que há de errado com a modificação genética? – indagou Grange.
– Tenho um estudo sobre isso, vou lhe emprestar. – Ed suspirou. – As pessoas não deveriam bagunçar aordem natural das coisas. Existem boatos de que isso começará a ser feito com gente, em fertilizações in vitro, mudando a cor dos cabelos, dos olhos, e coisas assim. – Inclinou-se para a frente. – Já ouvi falar que cientistas costumam misturar genes humanos e de animais nos laboratórios.
– Isso é verdade – interveio Grange. – Há estudos para modificar a estrutura genética para se tratardoenças genéticas.
Ed o encarou e apontou o dedo indicador na direção de Grange.
– Espere um pouco. Se for assim, logo teremos humanos com cabeça de pássaro, de chacal e coisas dogênero, tal como os hieróglifos egípcios. Você acha que aquilo foi invenção dos egípcios? Aposto dez dólares como eles estavam tão avançados quanto nós atualmente e criaram essas coisas!
Peg se levantou e olhou preocupada ao redor.
– O que você está fazendo? – perguntou Ed.
– Estou verificando se não há ninguém com redes por aqui. Shh!
Grange começou a rir.
– Ed, essa é uma teoria muito louca.
– Acho que estou me deixando contaminar por Barbara Ferguson, dona do Barbara's Café em Jacobsville. De vez em quando ela se senta comigo no almoço e conversamos sobre coisas que vemos em sites de notícias alternativas.
– Lembre-se de que esses sites são como a imprensa marrom – advertiu Grange. – Lembro que Barbaraafirmou que um equipamento elétrico poderia sustentar um impulso eletromagnético se armazenado numa garrafa de Leyden. É o mesmo que uma gaiola de Faraday. Ela ficou muito brava quando eu a corrigi, mas peguei meu smartphone e mostrei a ela uma referência científica. Barbara estava se baseando numa fonte desinformada.
– Droga. Acho que vou ter de jogar fora minha garrafa de Leyden. – Ed deu risada.
– Não se esqueça de me mostrar se você montar uma – pediu Grange.
– Não espere isso de mim – respondeu Ed. – Tive aulas de Pecuária, não de Física.
– Eu desisti das aulas de Física logo nas primeiras três semanas do segundo grau; pedi transferênciapara Biologia. – Peg suspirou. – Adoro física, mas é muito para a minha cabeça.
– Tive aulas na faculdade – disse Grange. – Tirei notas boas, mas eu adorava Ciências Políticas.
– Você vai acabar fazendo parte do governo do general Machado – brincou Ed. – Talvez como umoficial de alta patente, como comandante supremo das Forças Armadas.
– Eu pensei nisso também. Haverá muitas oportunidades para refazer as forças governamentais e promover boas mudanças na política.
Ao ouvir isso, Peg sentiu um aperto no coração. Se Grange aceitasse fazer parte de um novo governo na América do Sul, ele talvez não voltasse para casa, mesmo que o golpe desse certo.
Olhou para ele de soslaio, estudando-o. Ele era o que havia de mais importante na sua vida. Peg não dormira direito desde o beijo inesperado e apaixonado no celeiro. Depois daquele beijo, Peg teve certeza de que Grange a desejava, pois não fizera esforço algum para esconder. Contudo, ele não estava à procura de uma esposa.
A tristeza momentânea de Peg devia estar evidente, tanto que chamou a atenção de Grange, que a encarou. E foi como se uma faísca saísse daqueles olhos e atravessasse seu corpo inteiro. Ela corou e virou o rosto o mais rápido possível, para evitar que o pai suspeitasse de que algo acontecera sem seu conhecimento.
Ed era muito sensível, mas limitou-se a olhar de um para outro, sem dizer nada.
MAIS TARDE, Ed interpelou a filha antes que ela entrasse no quarto para se vestir para o baile:
– O que está havendo entre você e Grange?
– Infelizmente, nada. O pai dele era pastor, e Grange não é de ter aventuras românticas.Ed começou a rir antes de responder:
– Você só pode estar brincando!
– Não, só estou repetindo o que ele mesmo disse. – Ela gesticulou, levantando as duas mãos. – Grangenão bebe, não fuma e não transa. Acha que as pessoas têm de se casar primeiro. Não que ele queira se casar com alguém.
– Que bom. – O rosto de Ed se iluminou.
Grange subira vários pontos em seu conceito.
– Ou seja, ele vai me levar à festa, mas não me convidar.