Juliana sabia que não devia estar ali. Sabia que não devia se entregar, não naquele nível, sabia que não podia dar o braço a torcer, tinha tanto a perder, estava andando na corda bamba, colocando sua cabeça e a de seus amigos na guilhotina. Mas ali estava, caminhando lentamente em direção ao apartamento bagunçado de Fernando.
Ela arrumou a manga da jaqueta cara, olhou para os pés em suas botas de marca, o relógio que valia alguns meses do aluguel daquele apartamento... Se arrumou estratégicamente para o encontro que estava por vir, prestou atenção em cada detalhe, na marca de cada peça que colocou, em cada fio de cabelo, os colocando em seu devido lugar, se olhou no espelho algumas vezes antes de sair de seu quarto na mansão onde morava. Nunca foi de sentir frio na barriga, mas agora estava, e nem era por ela, ela não sentia medo por ela, sentia medo por quem seu coração batia frenético no peito. Juliana era de outro mundo, um mundo completamente oposto de Fernando. Mas um oposto que a completava totalmente. Prova disso era ela indo ali, naquela manhã, indo fazer aquilo.
Fernando era metido com gangues, entre dez palavras, onze eram palavrões, um humor ácido e sarcástico, e quando não era sua boca grudada a dela, tinha um cigarro nela. Sem falar das bebidas que sempre tinham em estoque, mais que comida de verdade. Aos poucos, com a presença de Juliana na vida de Fernando, os pequenos detalhes começaram a mudar, assim como algumas características da própria Juliana. Já não eram tão opostos assim, ela pensava. Valia a pena estar ali.
No começo ela sabia que devia se afastar, sabia que aquele não era seu mundo, sabia que Fernando não era pra si. Ele era perigoso, instável, volúvel.
Mas ela não conseguia se controlar, porque toda vez que olhava em seus olhos ela encontrava seu lugar. Ela encontrava carinho, encontrava respeito, mesmo em meio as mais diversas e loucas situações que passavam juntos, os rachas, as brigas de gangue, as festas regradas a banalidades sujas, ali nos braços de Fernando, Juliana sabia seu lugar no mundo.
E ela sabia exatamente onde estava se metendo, já que atrás de si alguém a observava atentamente, só procurando um vacilo para fazer Juliana, Fernando e sua gangue cair.
Juliana já sabia que estava sendo alvo da gangue oponente desde que descobriram seu envolvimento com Fernando. Aquelas brigas de territórios e poder... Fernando era temido, mas também temia... e Juliana era seu ponto fraco, eles sabiam agora.
Eles só não sabiam que Juliana não era tão fraca assim.
A vida era muito boa. Juliana sabia disso. Ela tinha as melhores roupas, o melhor celular, o relógio mais caro e chique, o carro do ano, sapatos de marca. Estudava na universidade mais cara, fazia o curso que sempre quis fazer, não era obrigada a nada, seus pais eram maleáveis, apoiavam suas maluquices, como essa de dar apoio ao grupo de "delinquentes" da parte inferior de São Paulo. Juliana ajudava na organização das aulas dos garotos que estavam em liberdade condicional ou para os que precisavam fazer serviço comunitário para pagar as quebras de lei que faziam.
Era completamente voluntário, mas ela gostava de estar ali, observar as pessoas, a diversidade delas. Era quase natural. E conseguia fazer amizade fácil com eles, conversava, ria, ajudava, era uma parte do seu dia que apreciava muito. E sem contar que contava como atividade extra para a faculdade então ela juntava tudo em um pacote perfeito.
Mas mesmo com tudo isso, ela ainda sentia que algo faltava, algo dentro dela parecia incompleto, como se, por mais dramático que pudesse soar - faltasse uma parte de si.
Nesse dia lá estava Juliana arrumando os materiais para o grupo que viria naquela noite. Eles iam fazer aula de economia domestica, para que no natal que se aproximava, fizessem o jantar de fim de ano como finalização de seu serviço.
Ela viu os homens entrando, cerca de seis entre 17-25 anos, e logo viu um rosto bem familiar. Juliana sorriu ao ver o garoto de cabelos vermelhos entrar na sala mascando um chiclete, as tatuagens a mostra em seu pescoço, uma bandana preta na cabeça, camisa branca larga e uma calça rasgada. - Você aqui de novo. - falou cruzando os braços com um meio sorriso, como se quisesse o chamar atenção, mas não conseguia. Tantas vezes tinha o visto ali... apenas se preocupava, mais uma vez e ele iria para a cadeia, de verdade.
- Não resisto a saudade que sinto de você - o de cabelos vermelhos disse, colocando uma mão dramaticamente no coração.
Juliana riu - O que aprontou dessa vez?
- Racha.
- De novo? - arregalou os olhos.
O garoto deu de ombros - Não resisto. - e sorriu, mascando o chiclete e indo ate o fundo da sala, sentando em uma cadeira.
O professor oficial chegou e foi passando as coordenadas, logo 6 marmanjos estavam fazendo cookies com gotas de chocolate. Tinha ate um marombado se esforçando bastante, colocando as gotas milimetricamente em cada bola da massa.
- Thiago, você precisa se esforçar - Juliana chegou ate a mesa do garoto de cabelos vermelhos.
- Mas eu estou Juliana, se você soubesse o quanto sou ruim cozinhando ia saber que isso aqui ta uma maravilha, alias, - chegou mais perto dela com um sorriso safado no rosto - não é a cara que diz algo sobre a comida, e sim o gosto.
Juliana sorriu, se algum dos chefes dos restaurantes caros em que frequentava ouvisse isso teria um aneurisma - Não concordo.
- Claro que não, sua patricinha, mas vamos apostar?
- Apostar o que? - ela perguntou desconfiada.
- Se o gosto estiver bom, independente da cara, você vai ir visitar minha quebrada hoje a noite, vai rolar uma festinha lá.
Juliana olhou para o cookie completamente horroroso em cima da bancada e para a proposta do avermelhado. Fazia quase um ano que Thiago a chamava para conhecer o "submundo" dele, como dizia, e Juliana estratégicamente negava, ainda não tinha chegado a hora - Aquele lugar não é pra mim.
- Você já foi por acaso pra saber? Você precisa se aventurar um pouco na vida patricinha, vai acabar explodindo dentro dessa sua bolha de perfeição. - piscou um olho.
- Tá mas, o que eu ganho se eu não gostar mesmo, o que eu acho bem mais provável. - falhou olhando a coisa horrorosa na mesa.
- Hmmmm - Thiago pensou - Eu entro no tal viciados em bebida que você tanto diz.
- Os alcoólicos anônimos? - Juliana soltou uma risada baixa - Mas isso é você quem acaba ganhando, não eu.
- Você já tem tudo Juliana, não tem graça.
Ela riu mais uma vez - Tudo bem, eu aceito. Não tem possibilidade nenhuma disso aqui tá bom. - disse olhando Thiago colocar os cookies no forno e a olhar com deboche no rosto.
40 minutos depois lá estava Juliana em frente as bolas amassadas com algumas manchas mais escuras. Aquilo parecia coco triturado, ela não conseguia nem olhar.
Thiago cortou um pedaço e colocou em um pratinho, logo os outros homens da sala se aproximaram para assistir a cena. Juliana fez cara de nojo, pegou um pedaço do cookie, fechou os olhos, parou de respirar e colocou na boca.
Foi uma explosão de chocolate cremoso que ela nem conseguiu disfarçar que estava ruim, porque estava maravilhoso, o gosto estava maravilhoso. Ela abriu os olhos vendo o rosto de Thiago que já estava com um sorriso giganta - AH GANHEI! - disse pulando com os braços pra cima.
- Merda - Juliana disse.
- Oh, ganhei e ainda vi você praguejar, hoje o dia promete!
Ela bufou - Preciso terminar de ver os outro.
- Sem problemas, eu te espero pra irmos juntos.
Juliana demorou o máximo que pode, limpando tudo com calma, arrumando as cadeiras e os utensílios, só pra ver se Thiago tinha esquecido. Mas então ela saiu do prédio e lá estava o de cabelos avermelhados fumando um cigarro, encostado em um carro com uma pessoa lá dentro.
- Finalmente!
- Achei que já tinha ido - ela disse com os ombros caídos.
- Você me deve, e eu vim cobrar, vem entra.
- De quem é esse carro?
- Esse é Henrique, diz oi cara. - disse empurrando o ombro do outro garoto dentro do carro. Ele tinha cabelos escuros, um olhar sério, uma jaqueta jeans e nenhum brinco nas orelhas. Esperou Juliana entrar no banco de trás para a ver pelo retrovisor, e mesmo assim pareceu bem tenso.
- Oi, caralho, você por acaso veio da casa da barbie? Puta merda Thi como que ela entra na festa vestida assim? Parece que ta indo pra igreja!
Juliana olhou para as roupas que usava, uma camisa azul clara por baixo de um suéter bege que deixava a gola e as mangas da camisa aparecendo, uma jaqueta branca, calça jeans e sapatos fechados com cadarço. Estava arrumada. Mas com certeza desentoando deles todos.
- Ela é minha amiga e ta comigo, relaxa Ju, eu te protejo, só quero que você se divirta.
Juliana engoliu em seco se arrependendo amargamente de entrar no carro assim que deram a partida. Um hip hop começou a tocar no som e os dois foram trocando os raps enquanto iam para as baixadas de São Paulo.
Ela nunca tinha ido até la. Era zona proibida, ela não pertencia a aquele lugar.
Logo chegaram ate um galpão afastado que ela já ouvia que tocava música, vários carros e motos estacionados, pessoas dançando, indo e vindo de lá pra cá, em rodinhas, fumaça e cheiro de maconha, e bebida, muita bebida.
- Vem - Thiago disse puxando pela jaqueta branca enquanto eles andavam em meio as pessoas que já jogavam olhares curiosos a ela.
- Boa noite irmã - ela escutou com risadinhas.
- Da onde essa saiu? - outro disse.
Juliana se destacava com sua roupa clara e impecável, sem rasgos ou sujeira, no meio de tanta gente cheia de tatuagens, cabelos bagunçados, roupas pretas e rasgadas. eles iam andando em meio as pessoas, tão diferentes dela, tão livres, tão... e então, sentado em uma moto, com algumas pessoas ao seu redor, Juliana o viu.
Como em câmera lenta, a fumaça se esvaindo e seu rosto aparecendo devagar, os cabelos brancos como sua pele, olhos intensos e pretos que pareciam que viam os seus mais secretos segredos, vestia uma jaqueta militar e calças rasgadas nos joelhos, e um coturno para fechar.
As pessoas falavam com ele, mas ele nem parecia dar atenção, acompanhando Juliana com o olhar enquanto el caminhava para o outro lado.
- Ei - ela ouviu Thiago dizer - Não devolve o olhar não.
- O que? - Juliana perguntou, desviando o olhar do estranho e olhando Thiago.
- Aquele lá é o Tony, e você não é pro bico dele, se ficar olhando, ele vai achar que você é presa. Ele é meu amigo, mas não presta, então... só fica longe ok?
Juliana abriu a boca pra falar mas nada saiu, ela virou o olhar disfarçando, procurando Tony na moto, e ele ainda estava lá, olhando em sua direção.
Ela era presa. Se sentia presa.
Mas ao mesmo tempo não sentia medo nenhum.