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ANNA - A encantadora de cavalos

ANNA - A encantadora de cavalos

Autor:: Roma
Gênero: Romance
Anna era diferente, parecia de outra época, assim diziam as pessoas que a conheciam. Para além de ter uma beleza extrema, muito loura, cabelo muito comprido, meio selvagem , olhos verdes como a floresta que a rodeava, de corpo esbelto e esguio. Todos os rapazes a cobiçavam, no entanto era a maneira de ser que a distinguia: "Maria - rapaz". Treinava cavalos, parecia que os entendia, diziam que os encantava. A maioria das pessoas da terra a admirava, pela sua coragem e determinação, no entanto sabiam que isso seria a sua desgraça. A sua vida muda quando conhece um rapaz de uma tribo "selvagem". Foi amor à primeira vista, no entanto viviam em mundos completamente diferentes, que em vez de os juntar só os afastavam...

Capítulo 1 1

Anna vivia numa pequena aldeia, com poucos recursos, que vivia sobretudo do comércio e agricultura.

Residia com a mãe pois o pai havia falecido ainda era ela bebé, nem sequer tinha memórias paternais.

Era diferente, parecia de outra época, assim diziam as pessoas que a conheciam.

Para além de ter uma beleza extrema, muito loura, cabelo muito comprido, meio selvagem (não era liso nem encaracolado), olhos verdes como a floresta que a rodeava, de corpo esbelto e esguio. Todos os rapazes a cobiçavam, no entanto era a maneira de ser que a distinguia: "maria – rapaz". Desde pequena que as suas brincadeiras preferidas eram com os rapazes, adorava cavalos e só no meio deles é que se sentia ela própria. O que tinha a dizer não levava para casa, doesse a quem doesse. "- Não era uma rapariga para casar" - diziam. E para outras coisas ela também não queria.

A maioria das pessoas da terra a admirava, pela sua coragem e determinação, no entanto sabiam que isso seria a sua desgraça.

A Aldeia, la crox, era rodeada por floresta, havia populações próximas, mas eram de selvagens, povos sem escolaridade ou regras, que viviam sobretudo da venda de animais, mas não se misturavam com outras populações.

Existiam também regiões onde habitavam pequenas tribos mais civilizadas que viviam sobretudo do comércio de cavalos.

Eram rebeldes, com poucas regras. A sua maioria eram homens, usavam cabelo comprido em trança ou solto (cabelos muito negros). Eram excelentes a treinar cavalos e montavam como ninguém. Não se misturavam com outras populações, tinham as suas próprias leis que eram impostas pelos anciãos.

Casavam quase sempre entre eles, eram muito poucos os casos de casamentos fora e quando acontecia, a mulher é que era do exterior e tinha que se submeter as regras da tribo.

De início eram muito maltratadas para "aprenderem" a obedecer. Nem todas aguentavam e uma grande parte fugia.

Eram destemidos e conhecidos pela sua coragem e determinação.

_ Anna, Anna! Gritava D. São pela filha. Nunca sabia onde estava a rapariga. "Tem 21 anos, mas é uma desmiolada, se algum pior a apanha ninguém a salva".

- Ela sabe-se defender melhor que eu, D. São. Não se apoquente! Deve andar de roda dos bichos.

_ Ai, se eu a apanho. Ela sabe que está na hora de comer...

Anna andava como sempre pela floresta a explorar, como ela dizia. Ninguém conhecia a floresta como ela e maior parte até tinha medo de ir mais para longe.

Mas ela gostava, todos os dias ia mais um bocadinho, já tinha ouvido falar dos povos que habitavam para lá da floresta e até já os tinha visto a comercializar produtos, mas queria ver como viviam. Se a mãe soubesse ou alguém de la crox... diziam que era perigoso, mas qual era o mal de espreitar, desde que não fosse apanhada.

Mas eles viviam mesmo no interior da floresta, ela já se tinha fartado de andar e nem sinal deles.

O melhor era voltar para trás, à noite era mais fácil, o difícil era enganar a mãe e sair à socapa.

Era noite de festa em la crox, todos os anos celebrava-se o fim da Primavera com música e bailarico. As senhoras e raparigas vestiam o seu melhor vestido e os homens também não se ficavam atrás.

Anna estava como sempre com as suas calças de ganga pretas já muito roçadas e uma t-shirt preta. O cabelo parecia ouro com o brilho das luzes da festa.

Entretinha-se a jogar à bola com os miúdos mais novos. Era uma algazarra.

-Gooolllooo! Gritaram todos e caíram todos em cima uns dos outros, era disto que ela gostava.

No meio da confusão e alegria, Anna não reparou que alguns elementos da tribo chegaram. Só deu conta quando se ouviu alguém a falar mais alto com as prostitutas que estavam a trabalhar. Era uma noite concorrida.

Anna tomou atenção à discussão. Alguém queria os serviços da rameira, mas por alguma razão não queria nas condições que esta exigia.

Ninguém se meteu na barafunda, até porque os homens estavam acompanhados das suas esposas, namoradas ou pretendentes e não se iam meter a defender uma puta,

Anna aproximou-se e com a atitude que lhe era característica gritou:

- Ou é como ela quer ou se não queres há mais quem queira! O que não falta para aí é freguesia.

O Homem, alto, bem constituído de meia-idade reagiu meio desconcertado, não estava à espera de que aquela miúda franzina lhe falasse daquela maneira. Aliás não era costume ninguém da vila lhe falar assim.

- Já a formiga tem catarro... se não tens pai ou homem que te dê uma lição podes contar comigo.

- Experimenta... posso apanhar, mas tu também levas!

Nisto juntou-se gente para ver a discussão e logo começaram a tentar separar a Anna do Homem. Na aldeia sabiam que Anna não se deixaria levar pelo medo, e só pararia quando não conseguisse levantar-se, quer fosse para defender um amigo ou uma prostituta. Injustiça era tratada toda da mesma forma.

No meio da confusão Anna, não reparou que junto ao grupo dos "selvagens" como eram conhecidos, estava um rapaz a olhar incessantemente para ela.

Peter Black, alto, moreno, com um cabelo negro em trança até ao meio das costas, muito apreciado na tribo pela sua mestria a montar a cavalo.

Peter ficou petrificado com a beleza de Anna assim como pelo seu atrevimento.

- Quem pensa ela que é? A falar assim com um ancião! - Pensou

O grupo afastou-se, montaram a cavalo e dirigiram-se para casa. No caminho não se falava outra coisa. Cada um dava a sua sentença. Estavam muito irritados.

- Precisava era de umas palmadas, para acalmar! - Dizia Simon.

- Eu bem lhas dava! -Dizia Blue.

Peter permanecia calado. Estranhando tanto silêncio, que não era costume da parte dele, Blue perguntou:

- O que Achas Peter?

- Acho que ela era linda!

Os outros riram.

-Ui! O pinga amor. Quem é que a aturava com aquele feitio? – gozou Blue

- Só precisa de ser amansada e eu não me importava de domesticar aquele animal selvagem. Iam só ver, Não dava uma semana para a conseguir montar como um cavalo treinado. - Disse Peter a rir.

Todos riram à gargalhada.

Blue acrescentou_ - Tens tanta gaja na tribo atrás de ti que não lhes ligas nenhuma e agora estás a babar por uma gata selvagem qualquer que nem sequer é dos nossos.

- Ninguém disse que a queria para mim, só disse que lhe dava a volta e até gostava.

Anna tinha começado o dia cedo, tinha pegado no seu cavalo e resolveu "fugir" sem rumo. Gostava de correr o mais veloz possível com o mostarda. Nessas alturas não tinha qualquer problema. Ela e o mostarda eram um só. Parecia que todos os problemas desapareciam.

Já tinha passado uma boa parte da zona de árvores e entrava agora numa zona de vegetação mais rasteira. O mostarda adorava, era como se fosse ele a comandar.

Não fora habituada a usar sela no cavalo e por isso montava em osso, já não lhe metia confusão nem incomodo.

Naquele dia tinha o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo para não atrapalhar a corrida.

A caminho da vila para comprar mantimentos iam Peter, Blue e Simão. Vinham em amena cavaqueira, montados nos seus cavalos sem pressa.

Anna passa por eles a alta velocidade, nem reparou nos rapazes.

- Vou atras dela! – diz Peter

- Tas maluco Peter, à velocidade que a gaja vai já está a quilómetros, nunca a ias encontrar e o mais certo era ainda mandar vir por a teres seguido. – disse Blue

- Tens razão, ela pode ter mudado de direção. Mas vou apanhá-la!

- Há gente que tem tendência para o abismo e tu és uma delas! – remato Simon.

Riram-se em concordância e seguiram o seu caminho.

Depois de comprarem os mantimentos, sentaram-se na taberna da vila do lado de fora a beber umas cervejas e a conversarem.

Eram sem dúvida exóticos em comparação com os homens da vila. Peter era o que sobressaia mais, devido à altura e beleza. As miúdas adoravam que eles fossem a La Crox, ao menos podiam "lavar as vistas".

Quando já se estavam a levantar chegou Anna do passeio. Desmontou e foi lavar o Mostarda, depois deu-lhe água e comida. Adorava a quele animal. E ele entendia como se duma pessoa se tratasse.

- Agora é que vou lá! – afirmou Peter.

- E vais dizer o quê? Olha queres vir ali atrás comigo? Tas maluco! Ainda mais, já deve ter um gajo, tão bonita assim. - Disse Simon

-Com aquele feitio, parece um Homem, nem saias veste. Mulher minha não andava assim... - Disse Blue.

- Cala-te Blue, não a quero para mulher, só a quero experimentar, quero saber ao que ela sabe...

- És mesmo louco, meu! – Afirmou Blue.

Peter dirigiu-se para o cercado onde Anna estava a tratar do cavalo.

- Montas em osso?

Anna ficou calada. Porque lhe estava a perguntar se montava em osso, não tinha visto que sim.

Peter insistiu.

- Não te magoa?

- Nop... estou habituada.

- Quantos anos têm a tua montada?

- Não estou a pensar vender o mostarda. - Respondeu secamente.

Porque estava a fazer-lhe tanta pergunta. Era um borracho, mas não estava interessada.

- Não quero comprá-lo. – disse Peter.

- Então qual é o interesse em tanta pergunta? Porque não vais logo direto ao assunto? Detesto quando se põem a engonhar.

Anna conhecia bem os homens. Era sempre assim. Vinham com falinhas mansas, mas depois todos queriam o mesmo. O facto de ser tão bonita era mais um fardo que uma virtude.

Este até era jeitoso, mas o interesse ela sabia que era somente sexo, ainda mais sabendo de onde ele vinha.

- Interesse nenhum. Só te queria conhecer melhor. Admiro miúdas que montam bem. Além disso ouvi dizer que és boa a treiná-los. – disse tentando cativá-la.

- E sou... Mas eu achava que admiravas era miúdas que cozinham bem ou que lavam bem a roupa. Pelo que ouvi dizer, eu não sou do tipo que vocês admiram.

Fez um sorriso travesso e foi-se embora sem dizer mais nada.

Peter ficou um pouco desconcertado, estava habituado a que elas babassem todas as vezes que ele passava, quer fossem da vila ou da tribo. Aquela atitude não estava habituado.

Blue ria à gargalhada: - ela deu-te uma tampa! Dessa não estavas tu à espera. Cada vez estou a gostar mais desta gaja.

Peter sorriu.

- ainda não desisti! Ainda me aguça mais o apetite...

- Se calhar é fufa! -Contrapôs Simon.

- Não tem ar disso. Tá armada em difícil... - disse Peter.

Anna foi para casa, mas não resistiu em olhar pela janela.

- Bem giro. Um borracho. Mas tem muito que rastejar e se não se der ao trabalho é porque não merece. – Pensou.

Anna sentou-se no cadeirão da sala e tentou descansar do passeio com o mostarda. Mas o pensamento estava lá fora com aquele selvagem moreno de cabelo negro e comprido.

Dormitou um pouco e quando acordou foi novamente à janela. Já não se via os rapazes da tribo. Já deviam ter ido embora, pensou.

Vestiu um casaco e saiu à rua. Estava uma noite agradável, por isso havia muita gente na rua à conversa.

Anna reparou no cavalo de Peter. Bastou assobiar para ele vir ter com ela, mesmo sem a conhecer. Era por isso que na aldeia a chamavam a encantadora de cavalos.

Anna percebeu que o cavalo preto estava a coxear ligeiramente, devia ter uma pedra no "sapato".

Viu-lhe o casco e tirou-lhe a pedra.

- Agora vais andar mais equilibrado, bicho lindo... - disse meigamente para o cavalo.

- O tempestade, não costuma dar-se bem com qualquer um! Só me obedece a mim e mesmo assim é só às vezes. – Disse Peter aparecendo por trás de Anna.

Afinal ainda não tinha ido embora...

- Ele sabe quem é amigo. Tinha uma pedra no sapato que estava a desequilibrar o andar.

- Eu já tinha tentado tirar, mas ele é teimoso e não deixou...

Anna riu-se. E deu uma festa no tempestade, sempre de olhos postos em Peter. Este até se estava a sentir envergonhado com a força do olhar. Mas estava a adorar.

- Queres fazer uma corrida. - pergunta Peter.

- O que ganho com isso? – perguntou Anna atrevida

- Se ganhares posso te pedir uma coisa se tu ganhares pedes tu. – respondeu Peter

- Ok, quando quiseres. – Continuou Anna

- Pode ser já! – contrapôs Peter

Anna assobia a mostarda e este aparece logo por trás dela. Peter fez o mesmo com um ar de satisfação no rosto.

- Termina ao pé do lago? -Disse Anna com ar convencido.

Peter assentou em concordância.

Pareciam duas flechas lado a lado. Anna era melhor cavaleira, mas ele não lhe ficava atrás. Para além disso Tempestade era melhor cavalo para corrida que mostarda.

Quando chegaram ao lago Anna estava na frente com ar vitorioso.

- Não é justo! Montas em osso e o teu cavalo anda mais leve... - Disse Peter fingindo ar amuado.

- Mas o teu cavalo é mais rápido. Admite que eu sou melhor! - Respondeu Anna

- O Dobro ou nada... - desafiou Peter.

- Ok. Mas hoje não. Hoje vais ter que pagar a aposta. – Disse Anna com ar vitorioso.

- É justo! O que queres? – perguntou Peter

- Quero satisfazer uma curiosidade... porque é que eu nunca vejo as mulheres da tribo na vila?

- Porque estão a tratar das coisas da casa, dos animais, das crianças, cabe aos homens as coisas externas a tribo. – respondeu Peter naturalmente.

- Acho que vocês têm medo que os outros homens reparem nas vossas mulheres. – Disse Anna para espicaçá-lo.

- Estas louca, nós não temos medo disso, somos mais giros. - disse Peter a rir - e elas são muito tímidas não gostam de sair do seu território

- Ou então elas têm todas bigode e têm vergonha de se mostrar - disse Anna com ar matreiro.

- Qualquer dia levo-te lá. Vais ver como são bonitas. Satisfeita? – perguntou Peter

- Sim, quando te ganhar da próxima vez pergunto mais coisas – Disse Anna novamente com ar convencido.

- Quando eu ganhar da próxima vez vou-te pedir um beijo... – Disse Peter em tom matreiro.

- Um beijo! -Anna fez um ar escandalizado - Eu sou mais tímida que as raparigas da tribo.

Saltou para o mostarda e desapareceu à frente dele a rir satisfeita. Aquela ideia agradava-lhe.

Quando chegaram à vila Anna foi embora para casa sem dizer mais nada.

Capítulo 2 2

Começou a chover torrencialmente, toda a gente se recolheu por baixo de qualquer alpendre ou telhado que encontrava, Josué sai à rua completamente assarapantado no meio de chuva. Foi a correr até à casa da D. São.

- D. são, a Anna está aí?

- Está, mas não vai sair com esta chuva. – disse com brusquidão.

- O que se passa mãe? - perguntou Anna do quarto

- É o Josué, preciso mesmo de ti. – respondeu do lado de fora da porta Josué.

Anna foi até à porta, desvalorizando a cara de desaprovação da mãe.

- O que foi, Josué?

- É a taliska, está outra vez com a falta de ar. Tá aflita coitadinha.

- Não tens o remédio? – perguntou Anna.

- Não! Preciso mesmo que vás até à população vizinha... és a mais rápida....

- Era só o que faltava. -Disse d. São. - A esta hora da noite e a chover assim. Com tanta gente má nessa floresta.

- Eu vou! -Disse Anna.

- Obrigada... sabia que só tu me podias valer! – Respirou fundo Josué

- Josué, não podes querer salvar a tua filha à custa da minha! – Ralhou aflita D. São.

Ainda D. são não tinha acabado de falar já Anna estava de casaco vestido e chapéu na cabeça e já estava fora de casa a caminho do cavalo. Nem respondeu à mãe que a chamava da porta furiosa e ao mesmo tempo amedrontada.

O caminho até à aldeia vizinha era cerrado de árvores e com tanta chuva mal se via um palmo à frende do nariz.

Anna continuava com o mostarda em corrida, se parasse podia ser atacada por marginais que por ali pernoitavam, alguns fugidos das autoridades.

O caminho era longo e só chegaria à aldeia vizinha ao nascer do dia.

Anna conseguiu evitar tudo o que era "criatura da noite" à exceção dos lobos, mas com esses ela podia bem. Antes do nascer do dia, já tinha chegado. Estava completamente encharcada. Não perdeu tempo, dirigiu-se à casa do médico, que já conhecia bem, já lá tinha estado mais que uma vez.

Quando este abriu a porta, vestido de pijama e com ar maldisposto por ter sido acordado tão cedo, Anna sorriu.

- Só podias ser tu, minha maluquita! A menina precisa do remédio?

- Sim, Sr. Doutor!

- Anda secar-te que vou buscar o que precisas.

-Não é preciso, vou para a chuva novamente, preciso é de me despachar. Ela está mesmo aflita Doutor.

Montou o mostarda debaixo de chuva e já com o medicamento bem guardado no bolso do casaco, preparada para fazer o caminho de regresso.

Ainda estava muito escuro, mas já estava a amanhecer e muitas das "criaturas da noite" não desejáveis, também a acordar. Se a vissem iriam fazer com que parasse o seu caminho, talvez roubá-la ou algo pior.

Anna cavalgava o mais depressa que conseguia, pois já estava ao ouvir ao longe o casco de outros cavalos.

Cada vez o som estava mais próximo, ela nem olhava para trás.

Como se fosse um raio algo lhe rasgou as costas e atingiu a garupa do cavalo. Nem se apercebeu do que era, só sentiu a dor alucinante nas costas. O mostarda relinchou alto, mas não parou de correr.

Anna nem sabe como chegou à aldeia, quando deu conta já estava deitada no chão com uma serie de pessoas em volta dela.

Tinha a roupa rasgada nas costas e uma dor insuportável. D. São com a ajuda do taberneiro, levou a filha para dentro de casa e pediu que chamassem alguém que se assemelhasse a um médico.

Anna abriu os olhos e disse com voz fraca:

- Sr. Fox, o remedio da menina esta aqui no meu bolso, leve-o por favor. Veja o meu cavalo, que acho que esta ferido.

O Ferreiro e dono de uma venda de cavalos, assentou com a cabeça e foi entregar o remedio de taliska, quando chegou perto do mostarda já Black lá estava.

- Do cavalo cuido eu. Sabe que somos especialistas nos cuidados com animais.

- Agradeço. A ferida tem muito mau especto e vocês com as vossas mezinhas são os melhores. - respondeu o ferreiro.

Peter levou o cavalo para a tribo e começou logo nos tratamentos. Tinham uma pomada muito antiga feita à base de ervas que era um antisséptico espetacular. Não servia só para animais, as pessoas também usavam. Aliás ninguém se lembrava de alguma vez ter ido ao médico.

Passado poucas semanas Peter foi entregar o cavalo ao ferreiro. Ainda se notava a marca, mas estava completamente cicatrizado.

O médico ia de dois em 2 dias a casa de D. São, mas o corte que Anna tinha desde a zona da omoplata até ao fundo das costas não tinha melhoras, a infeção não curava.

Anna já não aguentava, não era só as dores que a incomodavam, nem a fraqueza que sentia por estar sempre a perder sangue, era o facto de estar há semanas fechada em casa e não poder sair, mas também não sentia forças para se levantar.

Um dia de manhã, depois do médico lá ter passado para mudar o penso, Anna levantou-se encheu-se de forças e dirigiu-se à pota da rua.

- Anna, onde pensas que vais? – Gritou D. São da cozinha.

- Apanhar ar! Pode ser que me faça bem. Já não consigo estar mais tempo dentro de casa. – Disse com voz tremula e fraca

Dona São nem queria acreditar, a miúda só podia estar a delirar com a febre.

- Volta para casa imediatamente! – Ordenou D. São

Mas ainda D. São não tinha acabado a frase já Anna tinha fechado a porta atrás de si.

Quando Anna saiu, a magreza fazia sobressair os olhos grandes e verdes. Toda a gente que que estava na rua, não puderam deixar de reparar.

Anna saiu sem dizer nada, foi direita ao cercado dos cavalos. Mostarda pressentiu logo a chegada da dona e em menos de 1 segundo estava ao pé dela para lhe dar uma festa. Anna encostou a cabeça à do mostarda como se de uma pessoa se tratasse.

- Tás muito melhor amigo – disse baixinho

O cavalo estava "morto de festa", já não via a dona há algum tempo. Não conseguia parar quieto tal era a excitação.

Anna riu e disse em tom de brincadeira:

- Não posso mostarda, a minha mãe não deixa...

Peter que estava sentado com os amigos, não conseguia tirar os olhos dela.

- Ainda não conseguiu recuperar, estes médicos de aldeia não percebem nada disto... - pensou para si.

Quando olhou novamente para Anna já esta montava o cavalo a custo e saia disparada.

- Anna volta aqui, tás doente – gritou dona São.

- Pior não fico, preciso desanuviar, vou só até ao rio. - Retorquiu

Peter chamou o tempestade e correu para a tribo, entrou numa tenda onde estavam umas velas à porta e saiu novamente com o tempestade.

Seguiu à beira rio com a intenção de a encontrar. Mais à frente viu-a sentada no chão à beira rio com o cavalo ao lado a pastar.

Chegou-se mais perto, desmontou o tempestade.

- Não te assustes, tenho aqui uma coisa para ti. – Disse Peter serenamente

- Obrigada por cuidares do mostarda está como novo. Não tinhas que o fazer... - disse Anna timidamente.

- Sim, se não o fizesse ele ainda andava todo torto como tu ou já tinha morrido, e o que dá em confiar em médicos de aldeia – Disse Peter a brincar.

Anna riu a custo, pois tinha muitas dores. Talvez não tivesse sido boa ideia montar, os pontos deviam ter aberto outra vez.

- A culpa não é do médico, é da doente que está podre. –Disse Anna no mesmo tom.

Black chegou-se mais perto, sentou-se ao pé dela e sentiu aquele cheirinho inebriante que saia do corpo dela.

- Como é que é possível alguém cheirar tão bem – pensou

- Olha tenho aqui a pomada que pus no cavalo para cicatrizar a ferida, queres por um bocadinho? Não digas é a ninguém porque os meus não gostam de revelar segredos. – perguntou Peter a medo.

- Mas não é só para animais? – disse Anna intrigada

- É para tudo o que mexe. - Disse Peter em tom de brincadeira. – Confias em mim?

- Se trataste do mostarda tão bem, só posso confiar.

- Podes levantar a camisola um bocadinho para eu te pôr. – Disse Black timidamente, pensando que ela ia recusar.

Anna nem respondeu. Levantou a camisola até quase ao pescoço. Tinha um penso a tapar o rasgão.

Peter estremeceu todo, como é que era possível ficar excitado por ver umas costas com um penso enorme colado? - Pensou.

Chegou-se para trás dela, assim estava melhor, ela não conseguia ver o alto que se estava a formar nas calças dele de tão excitado que estava. Tirou o penso com cuidado. O corte estava todo inflamado, nunca iria curar assim.

Com todo o cuidado passou a pomada na ferida, as mãos tremiam-lhe como nunca... Nunca se tinha sentido assim ao pé de uma mulher. Normalmente as mulheres só serviam para sexo e nunca lhe davam luta. Era foder e arrancar, noutro dia seria com outra. Esta era diferente... só o cheiro...

- Estou a magoar-te? –disse preocupado

- Não. O médico é muito mais bruto. - respondeu Anna em tom de brincadeira

- Peter sorriu atrás dela. - Pelo menos só mais "querido" que o médico - pensou divertido.

Tapou novamente a ferida com o penso e baixou-lhe a camisola, roçando ao de leve os dedos pelas costas dela abaixo.

- Pronta menina, vai ver que vai melhorar! – Disse a Peter a imitir o médico

- Doutor, quando é que preciso de fazer o tratamento outra vez? - disse Anna com ar de gozo...

- Por mim era já amanhã, mas não acredito que te deixem sair de casa tao depressa. –Retorquiu Peter

Anna mexeu-se para se levantar, mas Peter pôs se em pé mais rápido e encostou-se ao cavalo para montar. Não podia deixar que ela lhe visse o alto de tesão que revelava nas calças.

Ela chegou-se ao pé dele e encostou-lhe a boca à face para lhe dar um beijo.

- Obrigada, meu índio. – Disse Anna timidamente

- Índio? Eu mostro-te o índio. Olha que eu não sou gajo para beijinhos na cara. Isso é para meninos – disse para provocar.

Anna riu-se e montou o mostarda.

- Homens... todos iguais... - Disse Anna a rir

Saiu a galope, deixando Peter completamente embasbacado para trás.

- Dass. Devo estar a ficar maluco. Só pode. - Disse em tom de desabafo quando a viu ao longe.

Quando chegou a tribo. Peter fez sinal a uma rapariga e esta segui-o encantada. Sabia bem o que ele queria e era sempre um gosto fazer sexo com Black.

Anna acordou sem dores e até no humor parecia outra.

A mãe entrou e anunciou a chegada do médico.

O doutor analisou a ferida e após algum tempo disse animado.

- Muito melhor, eu sabia que o tratamento mais cedo ou mais tarde ia dar resultado. – Afirmou o médico

Voltou a tapar a feriada com um penso novo.

Anna estava divertidíssima com as palavras do doutor.

- Então a recomendação é continuar com o mesmo tratamento? – Perguntou D. São.

O médico assentou com a cabeça.

Apesar da insistência de Anna em sair, a mãe não facilitou e da parte da manhã quis que ficasse em casa, apesar dos argumentos de Anna.

À tardinha Anna saiu, foi dar uma festa ao mostarda e depois seguiu para a taberna onde estavam sentados os amigos e numa mesa à parte os rapazes da tribo.

Sentou-se no meio dos amigos da aldeia, já quase parecia que não tinha qualquer mazela.

- Então Anna, pareces bem melhor? -Perguntou Rita, uma rapariga franzina que conhecia Anna desde pequena.

- Estou bem melhor. Tudo graças ao doutor! - Sorriu e piscou o olho a Peter.

Este ficou meio atrapalhado, mas não pode deixar de sorrir. Estava todo satisfeito que o tratamento tivesse feito efeito, pensou para consigo mesmo: - quem dera que não fizesse logo tanto resultado, assim passava-lhe novamente as mãos pelo pêlo.

Anna debruçou-se na mesa e a camisola levantou um pouquinho, Peter conseguiu vislumbrar um bocadinho de cicatriz. Só essa pequena visão o fez corar. - Como é que era possível ficar cheio de calor e tão excitado por ver uma cicatriz? Devo estar a ficar louco, de certeza! - pensou. Levantou-se para apanhar ar e saiu da taberna.

Algum tempo depois Anna, apareceu por trás dele de socapa.

- Quando é que fazemos uma corrida outra vez, já estou boa graças ao doutor. -Disse com ar trocista.

Peter ficou todo satisfeito por ela se ter ido meter com ele.

- Quando quiseres! Mas estava a pensar em levar-te a tribo um dia destes, para fazeres as perguntas todas que queres a quem quiseres e veres com os teus próprios olhos que as mulheres da tribo são bem bonitas.

- Assim... sem mais nada. Não é preciso nada em troca? Estou a desconfiar dessa boa vontade!

- É verdade, assim sem mais nada. Só para me deixares de chatear com perguntas e se voltares a ganhar a corrida, o que eu duvido muito, já podes pedir algo mais agradável... - Disse Peter a sorrir de orelha a orelha com intenção de a picar.

Anna riu à gargalhada.

- Combinado, quando é que vamos? Não se vão chatear comigo ou contigo? – Perguntou Anna preocupada

- Quem?

- Os teus amigos e os anciãos e sei lá mais quem. – respondeu Anna

- Pensas que somos alguns selvagens? -Disse a rir

- Nop. Quando é que vamos?

- Se te sentires bem, pode ser amanhã a tarde, uma grande parte dos homens da tribo não estão porque vão a uma feira vender cavalos. Assim não carece de tanta justificação.

- Não te vais meter em problemas, por minha causa? – perguntou novamente Anna

- Em problemas já eu estou só de te estar a dar trela! - disse com ar gozão. - Não tás a ver o meu pessoal todo a olhar para mim?

Anna olhou, realmente os amigos de Peter não tiravam os olhos dele.

- Podes dizer que me estas quase a papar para eles ficarem satisfeitos, mas sabes que isso está muito longe de acontecer meu índio lindo. – Disse Anna novamente no gozo

Peter ficou boquiaberto. Era loura, mas não era parva. "Estou feito ao bife". - Pensou.

- Até amanhã Peter Black. – Disse Anna sorrindo.

Peter não respondeu, limitou-se a assentar com a cabeça.

- Levo-a á tribo e depois se não conseguir levar a água ao meu moinho, tenho que acabar com isto. Ela é muito arisca para mim. -Pensou sem convicção nenhuma.

A caminho da tribo, já com Blue meio bebido, os rapazes estavam na troça com Peter.

- Uiiii! Foi falar contigo... o que é que falaram pinga amor? -Perguntou Simon.

- Deve ter dito que ele escusava de tentar porque eu fazia mais o estilo dela. - Acrescentou Blue a rir à gargalhada.

Peter permaneceu calado com um sorriso nos lábios. Amanhã ia estar a tarde toda com ela. Podia ser que ao menos um beijo lhe conseguisse roubar. Depois acabava a história. Miúdas assim não serviam para gajos como ele. Nem cozinhar devia saber, só se ocupava de trabalho de homens. Isso não era normal, nem para uma miúda da aldeia

No entanto, ele sabia que era essa maneira de ser irreverente e fora do normal que o atraia, apesar de nunca o poder admitir, nem para ele próprio.

Capítulo 3 3

No dia seguinte muito antes da hora marcada, Black já se preparava para sair do acampamento. Antes de sair foi falar com Mama, a mulher do ancião mor, tinha tanto ou mais poder que o marido, mas não se podia falar isso em voz alta. Ela era como se fosse a mãe de todos os rapazes e raparigas da tribo. Era a ela que se socorriam quando tinham problemas, ou precisavam de desabafar. Uma mulher forte, dura por vezes, sem papas na língua, mas com um coração do tamanho do mundo.

-Mama, hoje vou trazer uma pessoa para conhecer a tribo. Pode ser?

- Claro Peter, se vier por bem... – respondeu Mamma.

- Sim, é só para conhecer, nunca mais cá volta! - disse pouco à vontade.

Mama desconfiou e pensou logo que fosse rabo de saia, mas não era costume dele esse tipo de coisas. Peter nunca tinha trazido uma rapariga de fora à tribo e nunca tinha deixado sequer uma rapariga da tribo entrar na tenda dele, pois isso era sinal de interesse na pessoa. Ele tinha as suas conquistas, mas só para passar o tempo, nunca se tinha comprometido com ninguém, apesar de interessadas não lhe faltar quer na tribo ou na aldeia.

Quando chegou à aldeia, Anna ainda não estava no local combinado. Ele odiava esperar, mas não tinha outro remédio.

Quando Anna apareceu toda sorridente, o mau humor que se tinha apoderado de Peter desapareceu por completo, para dar lugar a um nervoso miudinho e a uma certa satisfação.

- Demoras-te! Disse ele, fazendo-se de zangado. – Pensava que já não vinhas.

- Não podia perder isto por nada. Só demorei um bocadinho, para não ficares tão convencido. - Disse a sorrir com ar matreiro.

- Ó Deus! Aquilo que eu tenho que aturar! - Disse de modo exagerado e teatral.

- Porque gostas! -Disse Anna já a montar no mostarda.

Anna seguiu a trote sempre ao lado de Black em silêncio. Estava nervosa, há muito que queria conhecer a tribo, mas também não sabia se era bem-vinda e tinha receio de estar a arranjar problemas a Peter. Mas não podia perder esta oportunidade.

Quando chegaram, desmontaram e Peter fez sinal a Anna para o seguir. Todos os olhos estavam postos nela. Anna nem reparou, estava maravilhada com o cercado dos cavalos que se via ao longe, devia de ter mais de 400 cabeças.

Havia imensas crianças a brincar e a correr de um lado para o outro e raparigas e mulheres mais velhas a fazerem as suas tarefas diárias. As casas de cada um pareciam tendas de índios e assim ao longe pareciam cogumelos plantados num prado verde.

Peter levou Anna atá à tenda de Mamma que já estava à espera à porta.

- Mamma esta é a pessoa que te falei, só veio conhecer e depois vai embora. - disse secamente, mas por estar envergonhado. Para ele era como se desse parte fraca ao levar uma miúda à tribo.

Mamma cumprimentou Anna com um sorriso.

- Sê bem-vinda! Eu sou a Mamma a mulher do ancião. -Disse com orgulho

- Muito prazer, minha senhora. Chamo-me Anna e prometo que não vou incomodar nada.

- Não incomodas nada, está à vontade, está toda a gente a olhar para ti porque este menino nunca tinha trazido cá ninguém. Digamos que está tudo perplexo com ele e com a tua beleza. Já te disseram que és linda, meu anjo?

- Muito obrigada, minha senhora. – respondeu Anna envergonhada.

- Dizes isso porque não conheces o feitio da peça. -Retorquiu Peter com ar de gozo.

Anna encolheu os ombros e sorriu com simpatia para Mamma que retribuiu com um sorriso aberto.

-Está à vontade filha, podes ver o que quiseres. – disse Mamma simpaticamente.

Anna encaminhou-se logo para o cercado, Peter pôs-se no seu encalce, mas Mamma puxou-o para o advertir.

- Filho se lhe queres bem, como acho que queres, não brinques com ela!

- Oh Mamma, lá estás tu, é só uma gaja qualquer!

- Estás avisado, depois não venhas chorar ao meu ombro. Toma atenção às outras raparigas que devem estar com uma ciumeira dela que Deus te livre. Não a percas de vista!

Peter assentou com a cabeça e prosseguiu no encalce de Anna.

Mamma sabia bem o que dizia, as raparigas da tribo eram lutadoras e persistentes quando queriam alguma coisa e Black era uma coisa que todas queriam muito, para além de ser bonito, era mais simpático que a maioria, dizia quem sabia que para o sexo não havia igual. E muitas já tinham experimentado e sabiam o que diziam.

Anna parou junto dos cavalos, estava extasiada. Nunca tinha visto tanto cavalo junto. E tudo tao bem organizado. Cavalos selvagens separados dos desbastados, éguas e poldros separados noutro sítio...por isso eles eram os melhores. Sabiam mesmo o que faziam.

- Trouxe-te para conheceres as miúdas lindas da tribo e tu só te interessas pelos animais? – Disse Peter aproximando-se por trás de Anna.

Ana sorriu

- Meu, isto é espetacular, são mesmo profissionais, até tem um picadeiro diferente para treinar os cavalos selvagens dos outros. Demais!

Peter estava orgulhoso, nem se apercebeu da importância que estava a dar aquilo que ela dizia.

- Queres conhecer as meninas, ou não viemos cá para isso? – perguntou novamente.

Anna assentou com a cabeça, mas só lhe apetecia entrar no cercado dos cavalos e montar uns quantos.

Peter apresentou-a a algumas miúdas, nunca se distanciado dela, pois conhecias tão bem como Mamma. Pelo canto do olho já as tinha visto cochichar umas com as outras, especialmente aqueles que ele dava mais "atenção" sexual.

Anna fazia imensa pergunta. - Era curiosa aquela gatinha selvagem. - Pensou.

Entretanto uma série de miúdos foram-se aproximando, tinham tanta curiosidade como Anna, nunca tinham visto uma rapariga com o cabelo cor de trigo e tão bonita. Normalmente não achavam as miúdas da aldeia bonitas, mas esta era diferente, tinha um encanto qualquer.

Anna reparou logo nas crianças e não levou um minuto para já estar integrada na brincadeira. Peter relaxou, as crianças não lhe fazem mal, são puras.

Distanciou-se para a poder apreciar mais. Estava como só ela mesmo, sem preocupações em estar apresentável e sem qualquer medo em fazer figuras tristes.

No meio da correria, Anna distanciou-se para não a apanharem e duas mulheres mandaram-lhe um alguidar de água suja para cima.

Peter saiu a correr furioso, sabia bem que tinha sido de propósito.

- És maluca miúda, poes-te a frente de quem esta a trabalhar, vesse mesmo que não fazes nada da vida... -disse Kate com um tom maldoso.

Cala-te Kate, fizeste de propósito, não vales nada. - Disse Peter enfurecido

Anna estava completamente desconfortável toda molhada e com restos de comida por cima. Não quis armar confusão. Percebeu bem que tinha sido de propósito, mas achou que não deveria de arranjar problema. Se fosse na aldeia Anna já lhes tinha saltado para cima, mas aqui não queria arranjar conflitos.

- Não faz mal, peço desculpa, não reparei no vosso trabalho. Nem fazia ideia de que deitavam a água de lavar a loiça onde as crianças brincam. -Disse sem ser agressiva, mas para que elas percebessem que ela não era parva.

- Também já esta na hora de me ir embora. Obrigada por me receberem.

Mamma estava mortificada. Já estava a prever que isto fosse acontecer e o pior era segurar Peter que quando se enfurecia, ninguém o parava.

- Nem penses que vais assim para casa, o que vão pensar de nós. Tomas aqui um banho e eu arranjo-te umas roupas limpas. – Disse Mamma envergonhada.

- Não é necessário, chego a casa num instante e trato disso, não quero incomodar.

- Tomas aqui banho sim! - Disse Peter com ar autoritário.

Mamma foi arranjar umas roupas para Anna e indicou-lhe a zona de banhos femininos. Anna não teve alternativa. Enquanto estava a tomar banho, ouvia lá fora uma grande discussão, sobressaia a voz de Peter, mas não conseguia perceber o que diziam.

Peter estava fora de si. A primeira vez que levava uma miúda à tribo e logo tinha corrido tudo mal.

Mamma tentava acalmá-lo.

- Deixa lá filho, a loirinha nem se chateou assim tanto. Até está bem-disposta. – dizia Mamma para suavizar a situação.

- Parece-te a ti. Deve estar a ferver por dentro. Tem cá um mau feitio... - responder Peter furioso.

Kate e Mary, que tinham provocado a situação já se tinham distanciado de Peter. Sabiam bem que quando se irritava a sério, não havia quem o segurasse. Mas a Loirinha estava a merecê-las. Quem era ela par se meter no caminho delas. Os homens da tribo andam com mulheres da tribo. Ele não gosta daquele tipo de rapariga. Nem se parecia com nada. Que raio de cabelo era aquele, todo desgrenhado... pensavam, mas sabiam que era só para se iludir.

Anna saiu do banho com uma camisa enorme vestida, que quase dava para um vestido e uma saia comprida e larga que lhe dava quase até aos pés. Não a incomodava andar assim. Até agradecia, ao menos estava seca e limpa.

Peter quando a viu sair, não se conteve e deu uma gargalhada ruidosa. Como é que era possível, mesmo naquela figura continuar tão sexy. Pior, ainda lhe dava mais vontade de arrancar-lhe aquela roupa do corpo.

Mamma também achou piada à figura de Anna. - A miúda é mesmo gira. – Pensou.

- Do que é que te estás a rir? – Disse Anna fazendo-se inocente

-Pareces um espantalho! – Respondeu Peter a rir

Anna sorriu, mas não podia dar parte fraca era mais forte que ela tinha que argumentar.

- E tu és palhaço, senão não te rias tanto, nem achavas piada a tudo! - disse simulando um ar enjoado.

Se fosse uma rapariga da tribo, nunca teria respondido, mesmo que o comentário a tivesse magoado. Mas Anna era assim. E Peter adorava picá-la só para obter resposta, era como um jogo. Nunca admitiria, que na tribo lhe falassem assim, mas também Anna não era para nada sério. Não fazia o estilo dele. Pensava Peter para se convencer.

- Vou-me embora, a minha mãe já deve andar maluca à minha procura. Obrigado por tudo D. Mamma. Adorei conhecer a tribo e especialmente, adorei conhecê-la.

- Trata-me só por Mamma. Adoras-te levar com a água em cima? Não me parece. – retorqui-o Mamma.

- Foi um acidente, já passou! – Disse Anna para a calmar.

Mamma puxou Anna para o seu lado, para que Peter que estava entretido com os miúdos não a ouvisse.

- Sabes filha, o Peter é muito querido pelas meninas aqui da tribo e ainda não se decidiu, percebes? Ainda não escolheu uma namorada. E qualquer outra rapariga que ele leve a casa é uma ameaça para elas. Ainda por cima foste a primeira que ele trouxe...

- Elas podem estar sossegadas, ele não gosta de mim. Eu não sirvo! Não sei cozinhar, nem lavar, nem cuidar da casa. Não sei, nem gosto... Eu gosto daquilo que ele gosta, cavalos, aventuras... sei lá mais o quê. E para isso ele tem os amigos dele.

Mamma riu. Ela ainda não tinha percebido que era isso mesmo que o atraia. E ele se calhar também ainda não tinha percebido...

- Eu acompanho-te até a casa! –Disse Peter

- Deixa Peter. Obrigada. Mas não é preciso. Fica com os teus que já é tarde. Depois falamos. – respondeu Anna decidida

- Não sejas teimosa. Deixa-me ir contigo. – Pediu Peter com ar zangado

- Nop. – Respondeu Anna com indiferença

Anna assobiou ao mostarda e antes que Peter desse conta já ela o tinha montado e desaparecia à frente dele.

- Obrigada Mamma, obrigada por tudo. Depois devolvo-lhe a roupa. – Ainda gritou Anna

Mamma acenou com a mão enquanto a via desaparecer por dentro da floresta.

Peter estava zangadíssimo.

- Teimosa como uma porta. Mas agora acabou. Vou deixar de me armar em parvo. Já vi que ali não posso brincar. E não a quero para mais nada. Estou farto do jogo do gato e do rato. –Pensou Peter.

Já tinha passado uma semana desde que Anna tinha ido á tribo e nunca mais tinha visto Peter na aldeia. Já tinha visto Blue e Simon, mas ele nunca os acompanhou.

Anna já se tinha apercebido e pensou que tivesse ficado zangado ou então percebeu que não valia a pena insistir. Ela não era mulher de quecas fortuitas. Que pena, gostava da companhia dele e da atitude. Tirando o facto de ser um borracho, parecia índio, lindo. - Pensou Anna.

Já estava a anoitecer, mas ainda havia uma réstia de sol, chamou o mostarda e resolveu dar uma volta pela floresta.

Era a esta hora que mais gostava de sair, não podia demorar muito, pois depressa vinha a noite, mas sempre dava para desanuviar.

Quando já estava a voltar para casa, ouviu um barulho diferente. Parou o mostarda e pôs-se à escuta. Não se ouvia nada. Reparou que o tempo se estava a preparar para chover. Voltou a dirigir o mostarda para casa.

Voltou a ouvir qualquer coisa, parecia um frenesim qualquer. Voltou para trás. Provavelmente seriam lobos de volta de uma presa, mas não custava verificar.

Andou uns metros e voltou a ouvir mais perto, parecia um frenesim de lobos, mas pareceu-lhe ouvir um choro, não se conseguia perceber.

Mais a frente, estava uma alcateia de volta de algo, talvez um veado ou outa coisa qualquer. Anna já estava a dar a volta para voltar a casa, mas reparou em algo colorido no meio dos lobos.

Olhou melhor, parecia roupa azul. Aproximou-se devagar, não queria irritar os lobos. Ouviu agora bem um grito misturado com choro. Era alguém que estava ali.

Desmontou o mostarda e saiu a correr e a gritar para o meio da alcateia, sem pensar em consequências.

- Xô... xô saiam daqui. - Gritava muito alto para dispersar a matilha. No meio da confusão estava um menino com cerca de 10 anos. Com uma ferida na perna. Anna pôs-se a frente do menino e continuou a gritar e a mexer vigorosamente as pernas e os braços, tentando intimidar os lobos.

Não sabe o que se passou, mas passado uns minutos, um a um os lobos começaram a dispersar.

Anna abraçou a criança com força. Chorava completamente fora de si, mas não parecia muito magoado. Anna só reparou na perna, mas não lhe parecia que tivessem sido os animais os causadores da mazela, provavelmente tinha caído e a alcateia deve ter sentido o cheiro a sangue, mas deveriam de estar com tanto medo como ele e ainda não lhe tinham chegado a tocar.

Quando o miúdo acalmou, olhou bem para ele e reparou que deveria ser da tribo pela fisionomia.

Tentou acalmá-lo e acalmar-se a si mesma, pois estava muito acelerada e a tremer. Começou a falar com ele, com a voz o mais calma que conseguia

- Pronto! Pronto! já passou, já se foram embora. Vamos voltar para casa?

O menino assentou com a cabeça ainda a chorar e sem largar o colo de Anna.

-Como te chamas?

- Jake. Disse com voz embargada.

- Onde á a tua casa?

-Na tribo perto da aldeia.

- Ok. Vou-te levar a casa que devem de estar todos preocupados contigo.

- Eu só fui dar uma volta, mas acabei por me distanciar. Caí e doía muito para andar. Comecei a chorar e os lobos apareceram logo. Acho que me queriam comer. -Disse num soluço.

Anna brincou com a situação para o acalmar.

- Achas, tinham logo uma dor de barriga.

O miúdo acabou por desenhar um sorriso mo rosto, mas sem parar de soluçar.

Anna pegou-o ao colo e montaram o mostarda, com Jake sempre agarrada ao pescoço dela. Estava a apertar tanto que Anna quase que lhe faltava o ar, mas não disse nada. Sentia o corpo dele a tremer ainda susto e o dela também não estava melhor.

Na aldeia, um grupo tinha saído para procurar Jake a algumas horas, mas ainda não tinham regressado. As mulheres estavam aflitíssimas.

Quando Anna entro na tribo, pediu licença para entrar ao primeiro homem que encontrou, que começou logo a gritar o nome da mãe de Jake.

--Beth! Beth! Já o encontraram.

Seguiu-se um grande alvoroço e a primeira a chegar ao pé de Anna foi Mamma. Vinha completamente esbaforida, com a mão no peito e via-se que tinha os olhos molhados de quem tinha estado a chorar.

Anna desmontou com o menino, que não queria largar-lhe o pescoço.

- Pronto! Já estas a salvo! Já estás ao pé da tua mamã! Há alguma coisa melhor que o colinho da mamã? – disse Anna tentando acalmá-lo.

Jake sorriu para Anna. Esta deu-lhe um beijo na testa e entregou-o a Beth, que estava desesperada par lhe pegar. Enquanto recebia o menino nos braços, apertou a mão de Anna com força em sinal de agradecimento e olhou-se nos olhos. Anna percebeu a mensagem e sorriu. A mulher desapareceu com o miúdo ao colo por entre a multidão.

Anna reparou em Peter, estava mais distanciado. Fingiu que não o viu. Não queria arranjar problemas para ele e também estava um bocadinho ressentida por ele nunca mais lhe ter dito nada. Parecia que ela tinha cometido algum "pecado mortal", mas sem saber.

Montou logo de seguida.

-Filha, estas com a roupa toda suja de sangue e terra e rasgada, Não queres trocar de roupa? – perguntou Mamma.

- Não é preciso. Ainda tenho a outra roupa lá em casa, daqui a pouco o melhor é transferir o seu guarda-roupa para minha casa. – disse a brincar

- Deixa-me ao menos ver se estas ferida? – continuou Mamma

- Não é necessário, estou suja da perna do Jake que estava a sangrar. Ele sim é que precisa que o vejam. – Avisou Anna

Anna nem sabia se estava ferida ou não, mas queria sair dali o mais rapidamente possível. Não queria confrontar-se com Peter de maneira nenhuma, iria acabar por dizer o que queria e o que não queria. Só naquele momento é que reparou como estava magoada.

Peter ficou a ver Anna desaparecer na floresta sem reação. Reparou que ela tinha evitado olhar para ele e isso entristeceu-o.

Na altura da visita de Anna à tribo, mal os homens souberam da sua presença e quem a tinha convidado, fartaram-se de gozar com Peter, dizendo que ele estava pelo beicinho, que nem parecia um homem a sério por andar atrás de uma mulher daquelas que não valia nada.

Peter não tinha gostado e nesse dia prometeu a si mesmo que não ia mais procurá-la, sabia que ela não era mulher para ele, nem para a tribo e não ia estragar a sua vida por uma mera atracão. Recomeçou a andar com as miúdas da tribo, mas ainda não tinha achado nenhuma que o satisfizesse verdadeiramente. No entanto quando reviu Anna, o coração acelerou tanto que parecia que queria sair do peito e as pernas pareciam gelatina.

Não podia voltar atrás, se ao menos consegue-se ir para a cama com ela uma vez que fosse, tinha a certeza que este sentimento passava. Achava que a queria porque não a podia ter.

Estavam todos de volta de Jake a disparar perguntas para o menino para saberem o que tinha acontecido.

Jake no meio de soluços explicou tudo direitinho. E prometeu não se afastar tanto da aldeia.

- Quando saímos a procura do puto, não pensamos que tivesse tão longe por isso não o encontramos. - Justificou Blue.

- Tinha que ser aquela gatinha selvagem a encontrá-lo, deve andar sempre na ramboia, parece que nunca está em casa, deve ser uma puta qualquer. -Comentou um dos homens que tinha saído à procura de Jake.

Peter não aguentou. Eram pobres e mal-agradecidos. Mal ou bem era ela que tinha encontrado o puto e mesmo assim estavam a mandar "bocas".

-o que é certo é que quase uma dúzia de homens, que se dizem os reis da floresta, não encontraram um simples puto de 10 anos e uma rapariga ou uma gatinha selvagem como vocês dizem é que se meteu no meio dos lobos para o defender. E não tinha que fazer nada disto. Não era obrigação dela. Não é da família, não pertence à tribo e não tem qualquer relação connosco. Aposto que qualquer um de vocês se estivesse sozinho na mesma situação, não se ia meter no meio dos bichos, se calhar preferia voltar atrás e pedir ajuda. A mim parece-me que essa gaja ou essa puta que gosta de ramboia, como vocês dizem é muito mais mulher do que vocês são de homens!

O grupo ficou calado, da forma como Black estava, o melhor era nem responder, senão ia dar porrada.

Peter continuou. – E ninguém teve a humildade de lhe agradecer, eu pelo menos não ouvi. Nem tu Bob, como pai do puto, devias de pôr para trás das costas os teus preconceitos e as tuas opiniões pré-concebidas e teres manifestado algum sinal de agradecimento, porque senão fosse ela, quando o encontrassem só lhe encontravam as roupas e os sapatos.

Assim que acabou de falar Peter saiu do grupo e foi para a sua tenda.

- Ele tem razão, deviam ter vergonha! Especialmente tu Dave, como ancião devias de dar o exemplo. - Disse Mamma zangada.

Só a Mamma era permitido falar assim com o marido e com o resto dos homens e normalmente ninguém levava a mal, porque quando ela falava, tinha sempre razão.

Peter estava furioso, especialmente com ele mesmo, uma vez que nem ele tinha tido a capacidade de lhe dirigir a palavra.

-Amanhã vou à aldeia e agradeço-lhe! Só isso, é o mínimo que posso fazer. Não a estou a pedir em casamento é só um agradecimento. - Pensou Peter a tentar convencer-se a ele próprio.

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