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APRENDENDO A AMAR ...

APRENDENDO A AMAR ...

Autor:: RENATA PANTOZO
Gênero: Romance
LIVRO 2 SEQUÊNCIA DE "PAGANDO PARA AMAR" Como amar depois de sofrer uma grande decepção? Como continuar vivendo o amor, quando nada mais faz sentido? Como amar, quando tudo não passou de uma mentira? Traumas, medos, reconquistas e recomeços. Ela precisa amar e ser amada. Ele deseja amá-la e ser amado. Ambos precisam aprender a amar.

Capítulo 1 -1

Meus olhos vão do relógio na parede da recepção, para o corredor onde uma placa indica centro cirúrgico. Já não sei quantas vezes passei minhas mãos em meu cabelo e em meu rosto. A sensação que tenho é que cai do céu direto no fogo do inferno. Fiz diversas perguntas sobre a mulher desconhecida que atenderam, mas a recepcionista não soube me responder nada. A única coisa que sabia era que a mulher foi deixada na emergência e que não se podia ver muito de seu rosto. Olho para as minhas mãos que ainda estão tremulas. Não pode ser a Fernanda. Não pode ser a minha chapeuzinho.

Fecho meus olhos e as lembranças do pior dia da minha vida voltam com tudo. Estou sentado ao lado do meu avô em um banco no hospital. Estava com ele quando ligaram avisando do acidente. Ainda me lembro do rosto do médico ao se aproximar. Me lembro de cada palavra dita por ele sobre meus pais já chegarem sem vida no hospital. Lembro da dor, do choro que engoli e da vontade de fugir dali. A dor em meu peito agora é ainda maior do que quando tinha 12 anos. Agora carrego a culpa de talvez Fernanda estar em perigo. Um movimento no corredor me chama a atenção. Um médico com o rosto coberto por uma máscara. Ele a arranca de forma irritada e solta um palavrão. Me levanto de onde estou e minhas pernas me levam até ele, já que minha mente esta em pânico. Sua irritação não é uma boa coisa. Paro a sua frente e ele me encara.

- Pode me dar licença?

- O doutor estava na cirurgia da mulher sem identificação?

- Não posso te dizer nada se não for policial ou da família.

- Minha noiva sumiu e pode ser essa mulher que acabou de ser operada.

O médico respira fundo.

- Se for mesmo sua noiva, sinto muito...

Suas palavras são como uma faca cravada em meu coração.

- Infelizmente ela não suportou a cirurgia e veio a óbito.

Me sinto sufocado e a dor no peito é insuportável. Me apoio na parede e tento desesperadamente buscar o ar.

- O senhor esta bem?

Quero gritar que não, mas as lágrimas que agora tomam meu rosto lhe confirmam o que não consigo dizer.

- Sinto muito!

- Quero vê-la!

- Estão fechando o corpo e...

- Por favor! Preciso ver com meus olhos se é a minha Fernanda.

Imploro, me agarrando a um fio de fé que ainda me mantém de pé.

- Por favor! Só preciso reconhecer o corpo.

- Me dê alguns minutos. Vou ver se já terminaram e venho te buscar.

- Obrigado!

Continuo escorado na parede, enquanto o médico se afasta. Fecho meus olhos e imploro a Deus que não seja Fernanda.

*****************

Em pouco tempo ele volta e em sua mão tem uma máscara.

- Coloque isso.

Pego a máscara e minhas mãos estão mais tremulas ainda. Coloco e o sigo até a sala de cirurgia. Abre a porta e minhas pernas não se movem. Medo, desespero e todos os sentimentos horríveis me tomam agora.

- Precisa entrar, o corpo não ficará aqui na sala por muito tempo.

Dou pequenos passos para dentro da sala. Vejo o corpo coberto sobre a mesa de cirurgia.

- Ela possui alguma marca de cicatriz ou tatuagem?

Minha mente detalha cada parte do corpo da Fernanda.

- Não!

- Infelizmente terei que te mostrar a parte mais afetada de seu corpo e não será uma boa visão.

Respiro fundo e tento engolir o nó que se forma em minha garganta.

- Tudo bem!!

Minto, pois não esta nada bem. Me aproximo de onde ele esta e o observo segurar a barra do lençol.

- Não foque muito nos machucados, foque em algo marcante.

Seus olhos são a parte mais marcante e que mais amo nela. Sua boca! Focarei em seus lábios atrevidos que sempre me provocaram.

- Pronto?

- Sim...

Ele puxa o lençol e meus olhos encontram a região da boca e não posso evitar de ver o rosto todo machucado.

- Merda!

Me viro rapidamente e me curvo, apoiando as mãos no joelho, segurando a vontade de vomitar.

- Não é ela... Não é a minha Fernanda.

Digo entre as puxadas de ar que dou para não vomitar.

- Então ainda existe esperança pra você lá fora, mas infelizmente alguém perdeu uma esposa, uma namorada ou uma filha.

Me ergo de volta e sinto seu toque em meu braço.

- Vamos sair daqui.

Saio da sala e retiro minha máscara.

- Espero que encontre sua noiva.

- Obrigada por me liberar pra ver o corpo.

- Só não conte que fiz isso, perderia meu emprego.

- Não direi.

****************

Saio do hospital um pouco mais tranquilo, mas ainda me preocupa seu desaparecimento. Talvez ela tenha sido mesmo sequestrada e José é a primeira pessoa que me vem à mente. Entro no carro e encaro o volante. Existe a possibilidade de ter voltado para o apartamento, pedido carona ou algo assim. Ligo o carro e sigo para o apartamento dela.

******************

Direciono a frente do carro para a garagem, mas o portão não se abre para mim. Buzino e nada de abrir. Abro a porta do carro e vejo um dos porteiros vir em minha direção.

- Preciso entrar.

- Sinto muito, mas o senhor esta proibido de entrar no prédio.

Fernanda! Estou sorrindo feito um idiota. Se ela me proibiu é porque esta bem. Preciso ter certeza.

- Quem me proibiu?

- O Sr. Hernandes.

Meu sorriso some.

- Ele acabou do nos avisar que a Srta. Hernandes sumiu e nos disse que o senhor é o principal suspeito.

Filho da puta! Ele acha mesmo que eu faria isso? O filho da mãe ainda disse a polícia essa merda. Agora eles vão colar em mim e com a porra da minha ficha, vão achar mesmo que fui eu. Entro no carro e deixo o porteiro falando sozinho. Minha vontade é de ir tirar satisfações com Rubens, mas sei que isso só ferraria ainda mais minha vida com a polícia. Tiro o carro de frente da garagem e saio pela rua sem saber para onde ir. Minha vida esta de cabeça pra baixo e não sei de verdade o que fazer. Só queria ela aqui, na minha frente e bem. Mesmo me odiando, mesmo não ficando comigo. Só quero ela bem.

*****************

Encosto o carro e ligo pra única pessoa que pode me ajudar, agora.

- Bernardo!

- Flávio, preciso da sua ajuda.

- O que houve?

- Fernanda...

O nome dela já é um alerta pra ele.

- O que aconteceu?

- Preciso falar com você pessoalmente.

- Vem pra minha casa, estou te esperando.

Desliga e rapidamente uma mensagem com seu endereço surge em meu celular.

*****************

Estou sentado de frente pro Flávio, que esta calado há mais de dez minutos. Contei a ele tudo sobre abelhinha, Fernanda e eu. E a pior parte de Fernanda estar desaparecida.

- Me diz alguma coisa.

- Caralho!

Diz e respira fundo.

- Fernanda não faria nada contra a própria vida.

- Não sei, Flávio. Se tivesse visto seus olhos como eu vi, não teria tanta certeza.

Me olha assustado.

- Vamos procurar por ela em toda a cidade, em algum lugar deve estar.

- Então me ajude a encontrá-la.

- Vamos percorrer os hospitais!

****************

20 DIAS DEPOIS

Encaro a enorme parede desenhada e escrita a minha frente. Escuto batidas na porta.

- Entra!

Vejo Flávio entrar com uma bandeja. Meu estomago revira só de sentir o cheiro da comida.

- Não faz essa cara, você precisa comer.

- Não estou com fome.

- Faz vinte dias que vive só de água e café. Não te vejo comer nada.

- Comi uma maçã ontem.

Digo voltando a encarar a parede. Marquei os pontos em Santos que já procurei por ela. Círculo agora apenas duas regiões onde ainda não fui e Flávio para ao meu lado.

- Não me conformo do pai dela não ter o mesmo desespero que você.

- Ele é um merda.

Digo irritado.

- Pelo menos a polícia parou de te investigar.

- Parou de investigar tudo. Graças ao poderoso Hernandes, eles acham que Fernanda esta bêbada em algum lugar por ai, curtindo a vida. Ele disse a polícia que Fernanda vive sumindo e que bebe muito.

Meu celular começa a tocar.

- Não vai atender?

- Não! Deve ser Liz e não sei mais o que dizer a ela, que mentira contar.

- Pare de mentir! Talvez o poder dela seja útil nas investigações.

Olho para Flávio.

- Não posso arriscar o coração dela. Não sei se suportaria.

O celular para de tocar e o apito de uma mensagem chega. Ando até meu celular e abro a mensagem. É de um número desconhecido.

De: Desconhecido

Para: Bernardo

Favor me encontrar no endereço a seguir.

Vejo o endereço, é do prédio que Fernanda e eu queríamos comprar do Vinicius, mas não chegamos a fechar o acordo. Talvez seja alguma secretária dele pedindo para ir ao local. Clico em responder, para dizer que não posso no momento, mas então me lembro do andar de vidro, da Fernanda.

- Preciso sair!

Digo a Flávio pegando minhas chaves.

- Onde vai? Você precisa comer.

Grita e corro para fora da casa, entrando no carro. Ter lembranças dela pode me deixar menos surtado, talvez consiga pensar em algo. O andar de vidro é o único lugar que tenho acesso e que tem lembranças nossas.

***************

Paro o carro em frente ao prédio. Tudo parece vazio e nem o segurança esta na porta. Saio do carro e sigo pra entrada. A porta esta aberta, assim como as do elevador que está ligado.

Entro e não vejo ninguém.

- Vinicius...

O grito e nada. Talvez esteja no andar de vidro. Entro no elevador e vou ao painel de acesso ao andar. Lembro da senha, já que Fernanda digitou na minha frente. Digito e as portas se fecham. Meu coração acelera com a subida e me sinto ansioso, como se as portas fossem abrir e eu fosse vê-la me esperando. Fecho meus olhos, tentando afastar esse sonho. O elevador para e as portas se abrem. Abro meus olhos e meu coração para de bater por segundos. Dou um passo pra frente, sentindo meus olhos nublados pelas lágrimas. Ela se vira e me olha.

- Fernanda...

Capítulo 2 -2

O medo de que seja uma ilusão me consome. Ando ou corro, não sei ao certo. Mas a cada passo que dou ela recua assustada, até chegar a uma das paredes de vidro. Meu corpo cola no dela e meus lábios buscam desesperados os de Fernanda. É ela! Posso senti-la! Seu sabor, seu cheiro, seu calor. Meu corpo buscando se enfiar no dela, querendo matar a saudade que me consome. Seus lábios não correspondem ao meu beijo, mas não me importo. Ela está viva! Está aqui em meus braços. Solto seus lábios e beijo todo o seu rosto.

- Você está bem...

Seguro seu rosto em minhas mãos e encaro seus olhos assustados pra mim.

- Tive tanto medo de que...

Não quero pensar naquelas coisas de novo. Avanço em sua boca e suas mãos me empurram com força, tentando afastar nossos corpos.

- Me solta!

Diz brava e mesmo não desejando, dou um passo pra trás.

- Quem pensa que é para me beijar assim?

Limpa sua boca grosseiramente.

- Alias! Quem você pensa que eu sou para beijar um estranho?

Estranho? Fico confuso com suas palavras.

- Não sei quem é, nunca o vi em toda a minha vida. Que intimidade acha que tem pra me beijar assim?

- Fernanda...

- Isso é um absurdo.

Estou em choque a encarando.

- Não sei o que andou lendo sobre mim, mas não sou uma vagabunda que você pode sair pegando assim.

- Fernanda... Sou eu...

Digo tentando olhar seus olhos que fogem dos meus. Começa a se afastar, indo em direção ao elevador.

- Espera! Não vai embora.

- Não estou indo embora, só estou me afastando de você.

Seu olhar pra mim é frio e isso me assusta. É ainda mais doloroso que o olhar de decepção que teve antes. Ando em volta dela, sem me aproximar.

- Você fala como se não soubesse quem eu sou.

- Eu não sei quem você é.

Paro de andar, sentindo meu corpo travando

- Como assim?

- Estou aqui apenas para lhe entregar isso.

Estica a mão e vejo que esse tempo todo, segurava um envelope.

- O que é isso?

- Isso estava sobre a minha mesa, em meu escritório.

Aproxima pra que eu pegue o envelope.

- Não sei o que é, mas tem seu nome. Não faço ideia do porque isso estava comigo.

Pego o envelope de sua mão e o vejo lacrado.

- Mas se escrevi seu nome no envelope, é porque deveria te entregar.

Ergo meus olhos pra ela.

- Só não sei porque estaria com algo em meu escritório de um estranho.

- Não sou um estranho.

- Sim, você é!

- Sou o lenhador! Você sabe quem eu sou chapeuzinho!

Fernanda começa a rir.

- Isso é a coisa mais ridícula que já me disseram.

Suspira ao parar de rir.

- Não tenho muito tempo pra perder, tenho muitas coisas para fazer e...

- O que aconteceu com você?

Me aproximo um pouco mais dela.

- Você sumiu e quando volta... Quando volta esta assim.

- Como sabe que eu sumi?

- Como eu sei?

Agora sou eu quem esta rindo, mas de nervoso.

- Fui o culpado do seu sumiço.

- Não foi o que me disseram.

Encaro seus olhos vazios.

- Quando acordei me disseram que eu havia sofrido um acidente e você não era o motorista.

- Você sofreu um acidente?

Solto o envelope e avanço nela tocando seus braços, rosto, em busca de alguma cicatriz. Novamente ela recua de mim.

- Sim! Infelizmente passei dias em coma.

- Meu Deus!

Procurei por ela em todos os hospitais, como nunca a achei? Meus olhos percorrem seu corpo. Não possui qualquer marca aparente.

- Em que hospital esteve?

- Por que a pergunta?

- Me responda.

- Não tenho que responder nada a um estranho.

- Procurei por você em todos os hospitais.

Grito desesperado e Fernanda se vira, desviando os olhos de mim.

- As pessoas da família e as que conheço, já sabem do meu retorno. Já voltei a minha vida normal, amanhã volto para a empresa.

- Você não trabalha mais na empresa da sua família.

- Claro que trabalho, estou tentando ganhar a presidência da empresa. Tentando mostrar ao meu pai que mereço esse cargo.

Minha mente começa a unir as informações. Se pra ela ainda trabalha na empresa e não se lembra de mim... Fernanda perdeu a memória com o acidente. Ela simplesmente esqueceu tudo sobre nós. Olho fundo em seus olhos, tento buscar algo que me diga que tudo isso é mentira. A merda de uma mentira.

- Como sabia meu telefone? Como mandou mensagem me chamando aqui, se não lembra de mim e nem daqui.

Abro meus braços e aponto para o andar de vidro.

- Isso aqui não te lembra nada?

Aponto pra mim.

- Me olha e diz que não sabe quem eu sou.

Fernanda mantém os olhos em mim.

- Não sei quem você é.

Meus olhos se enchem de lágrimas.

- É impossível você não se lembrar dos sentimentos que tem por mim. Impossível não lembrar de tudo que passamos e que eu te amo.

Seus olhos se mantêm frios e o silêncio me dói ainda mais.

- Me diz que não sente nada.

Grito e as lágrimas descem pelo meu rosto.

- Não tem como sentir algo por alguém que nunca vi, nunca existiu na minha vida.

Suas palavras são como um soco em meu coração.

- Não tive perda de memória, todos os meus exames apontaram que estou bem. Me lembro da minha família, de toda a minha vida.

- Você não se lembra de mim e tive, tenho uma passagem muito importante na sua vida. Você me ama!

- Você precisa procurar ajuda.

- Então me explica porque isso estava na sua casa, com o meu nome.

Pego o envelope do chão.

- Por que algo com o meu nome estaria na sua casa?

- Não sei! Mas se esse prédio é do Vinicius, provavelmente ele esqueceu comigo ou se misturou nas minhas coisas na empresa.

- Onde achou meu celular?

- Meu segurança conseguiu. É fácil quando se tem o nome completo da pessoa.

- Não posso acreditar nisso.

Passo a mão em meu rosto.

- Não quero acreditar que tenha me esquecido.

- Acredite no que, você nunca existiu na minha vida. Só vim aqui te entregar isso e voltar para a minha vida. Perdi muito tempo naquele hospital.

Se vira e vai até o elevador. Ando atrás dela e entramos juntos. Estou em pânico com tudo isso, não sei o que fazer. Ela digita a senha do elevador e as portas se fecham. Na verdade eu sei sim. Ela precisa lembrar de mim. Jogo o envelope no chão, empurro seu corpo com o meu e a prendo na parede, avançando em sua boca. Seus lábios brigam contra os meus e suas mãos tentam me afastar. Por segundos sua boca se molda a minha como antes. Por segundos a sensação é de que seus lábios se lembram dos meus. Paro de beijá-la e encaro seus olhos, que parecem mais suaves pra mim.

- Se continuar me atacando assim, serei obrigada a andar com meu segurança. Darei a ordem de não deixar que se aproxime de mim.

As portas do elevador se abrem.

- Me solte, Sr. Lima!

Solto seus braços e meu corpo se afasta do dela.

- Boa noite!

Passa por mim e sai do elevador quase correndo. Vejo na porta do prédio o Vitor. Ela fala algo a ele que me olha furioso. Sua mão se posiciona nas costas da Fernanda e ele a conduz para fora.

Esse filho da mãe está se aproveitando da falta de memória da Fernanda. Pego o envelope do chão e corro pra fora do prédio pra falar com ela, mas já está no carro que logo segue pela rua. Passo a mão em meu cabelo, sem entender que merda está acontecendo. Encaro o envelope e decido abri-lo. Rasgo e puxo de dentro um contrato. Meu coração acelera. É o contrato do prédio, está em meu nome. Vejo dentro do envelope um papel dobrado. Puxo e o abro. É uma carta dela.

"Lenhador...

Aqui esta seu sonho se realizando. É a minha forma de dizer o que sinto.

Espero que seja o suficiente para entender quanto é importante para mim.

Da sua...

Chapeuzinho"

Capítulo 3 -3

NARRAÇÃO FERNANDA

Merda de corpo traidor, merda de coração burro. Tento de todas as formas não sentir seu beijo, luto contra a maldita saudade dele. Bernardo para de me beijar e encara meus olhos. Sei que ele busca a antiga Fernanda, mas ela não existe mais. A deixei na beira daquele penhasco há alguns dias atrás.

- Se continuar me atacando assim, serei obrigada a andar com meu segurança. Darei a ordem de não deixar que se aproxime de mim.

As portas do elevador se abrem.

- Me solte, Sr. Lima!

Solta meus braços para o meu alívio. As batidas do meu coração se acalmam. Busco as minhas forças novamente.

- Boa noite!

Passo por ele e tento andar como se não mexesse comigo. Como se isso fosse só a merda de um beijo. Vejo Vitor na porta e me sinto aliviada.

- Tudo bem?

- Achei que estava pronta para negá-lo.

- Ele te tocou?

Vitor se vira para ver Bernardo no elevador.

- Só me tira daqui.

Sua mão se posiciona em minhas costas e me conduz até o carro.

- Ele vai me seguir, seja rápido.

Vitor abre a porta do carro e assim que entro a fecha, indo rápido para o lado do motorista. Liga o carro e vejo pela janela Bernardo vindo correndo.

- Vamos!

Quase grito e o carro sai para a rua. Relaxo meu corpo, mas meu coração ainda quer sair pela boca. Vitor me olha pelo retrovisor.

- O que houve?

- Achei que estava pronta pra voltar e começar o plano.

Fecho meus olhos e deito a cabeça no encosto do banco.

- Mas não estou! Não com ele! Bernardo consegue derrubar minhas barreiras, é como se pudesse ver dentro de mim.

- Ele acreditou que perdeu a memória?

- Não sei! Fiz todo um plano mental, mas nada saiu como imaginei.

- Quer desistir?

- Não...

Abro meus olhos, passo a mão em meu rosto e viro a cabeça para a janela. Vejo a pouca iluminação nas ruas de Santos.

- Vamos continuar com meu plano.

- Tem certeza?

- Sim...

Olho pra ele pelo espelho retrovisor.

- Todos vão sentir na pele a dor que me causaram.

- Ainda podemos atacá-lo. Podemos usar o passado que ele tem e...

- Não! Sabe qual é o plano com relação ao Bernardo e a minha avó.

Vitor apenas confirma com a cabeça, voltando sua atenção para a rua.

- Está pronta pra voltar ao apartamento?

- Retirou as coisas dele?

- Parece que seu pai se livrou do Bernardo antes de mim.

Vitor ri alto, satisfeito com isso.

- Assim que você sumiu e a polícia começou a investigar seu desaparecimento, seu pai culpou o Bernardo. Disse que poderia tê-la sequestrado. Isso fez a polícia ficar no pé dele e seu pai ainda proibiu o acesso ao seu apartamento. Parece que o porteiro entregou tudo que tinha do Bernardo no apartamento, a mando do seu pai.

- Pelo menos pra isso Rubens Hernandes serviu.

- Já sabe como fará para voltar à empresa?

- Sim! Voltarei como se nada tivesse acontecido. Do jeito que a empresa está na merda, meu pai vai apenas aceitar e fingir demência.

- Certo!

Em pouco tempo chegamos em frente ao meu prédio. Meu corpo treme assim que entramos na garagem. Vitor segue para uma das minhas vagas, assim que o carro para e abro a porta, vejo que o carro ao lado é o que dei para o Bernardo.

- Se livre disso.

Digo apontando com a cabeça para o carro.

- Entrego a ele?

- Não! Se fizer isso Bernardo saberá que me lembro de tudo. Apenas se livre.

- Certo! Vou fazer isso agora mesmo.

- Obrigada!

Sigo para o elevador, deixando Vitor pra trás. Entro no elevador e assim que as portas se fecham e começo a subir para o meu andar, a vontade de chorar me sufoca. O gosto dele em minha boca, seu desespero me olhando me fazem querer chorar. Seu rosto aparentemente cansado e sua barba crescida me deixam confusa. Parecia estar sofrendo. Balanço minha cabeça, afastando a fraqueza que me toma agora.

- Não posso baixar minha guarda. Todos eles são iguais!

As portas do elevador se abrem e assim que meu pé toca o chão da sala, as lembranças com ele tomam minha mente e tudo que passamos vem como um filme. Merda! Cada canto dessa casa tem uma lembrança. Meu corpo todo treme e não consigo mais segurar as lágrimas. O choro explode e ando rápido para o meu quarto, com a visão distorcida pelas lágrimas. Entro em meu quarto e me tranco nele.

Meus olhos percorrem o quarto todo e param em minha cama. Imagens dele me abraçando pra dormir me atormentam. Isso precisa sumir! Não quero lembrar dele! Desejo com todas as forças que fosse verdade a amnésia. Não quero essas lembranças. Corro para o banheiro e sem tirar minhas roupas, entro no espaço do chuveiro e o ligo. A água fria bate em meu rosto e a dor só piora.

Me sento no chão do banheiro e deixo a água se misturar as lágrimas que não seguro mais. Achei que estava forte pra passar por isso. Achei que tivesse forças para fugir de seu toque, de seus beijos, seu calor. Ele ainda está em minha pele. Grito e o choro é ainda mais intenso. Grito mais forte para tentar diminuir a dor. Achei que estava pronta para voltar. Achei que pudesse enfrentá-lo sem sofrer. Achei que não o amava mais. Encolho minhas pernas, abraçando-as forte. Fecho meus olhos e a dor ainda parece à mesma de quando estava naquele penhasco. Me vejo novamente à beira do penhasco.

"Isso precisa acabar! Isso precisa ter um fim! Abro meus olhos e respiro fundo. Me sento na grade de proteção encarando o penhasco. Não consigo ver o que tem em meio a escuridão. Não posso ver sua descida e muito menos o seu fim. Com a ponta dos dedos dos pés, retiro minhas sapatilhas e as chuto. Elas voam e somem na escuridão. Fecho meus olhos e respiro fundo. Busco forças para me jogar, mas o que se passa em minha mente é ele, seu sorriso. Abro meus olhos e cubro meu rosto com as mãos. Como pude me apaixonar por ele? Como me deixei ser tão vulnerável assim?

- Não pula...

Tiro a mão do meu rosto e viro minha cabeça. Vitor está atrás de mim e me olha preocupado.

- Por favor! Não faça isso.

Ergue a mão e tenta se aproximar.

- Vai embora!

Grito e volto a olhar para o penhasco.

- Ele não vale a pena.

Sussurra e sei que está se aproximando.

- Você é melhor que tudo isso, Fernanda. Você não merece passar por isso, não merece sofrer assim.

- Você não faz ideia da dor que sinto. Você não faz ideia da merda de vida que tenho.

Vitor me abraça e não me movo. Me aperta forte contra seu corpo e isso me faz chorar ainda mais em seus braços.

- Sinto muito!

Diz beijando minha cabeça.

- Sinto muito!

Meu corpo relaxa mesmo com o choro intenso e assim que ele percebe, me puxa para trás me pegando no colo e me tirando da grade. O movimento faz meu celular cair do bolso e o escuto cair. Me encolho contra o seu peito e Vitor anda comigo para longe do carro.

- Vou cuidar de você...

Diz com a voz suave, beijando minha cabeça.

- Ninguém mais vai te ferir. Prometo!"

Abro meus olhos e tento tirar minhas roupas molhadas.

Me levanto do chão e aos poucos vou domando meu coração, o trancando de volta em um lugar escuro, longe do alcance do Bernardo. Assim que me livro das roupas, começo a me lavar. Vitor foi um grande amigo nesses dias.

"- Onde estamos?

Digo ao abrir os olhos e ver uma casa de madeira.

- Na minha casa.

Me sento e vejo Vitor com uma xícara de café em sua mão. Me entrega e se senta em uma cadeira de frente para mim.

- É uma pequena casa, mas tem algo importante aqui.

Dou um gole no café.

- O que tem de tão importante?

Pergunto olhando o pequeno espaço com uma cama, cozinha e sala, tudo no mesmo lugar. Ele se levanta e me estende a mão.

- Vem ver!

Pego sua mão e saio da cama. Me arrasta para a porta e assim que a abre, vejo o que tem de tão importante.

- Um dia, viemos para o topo dessa montanha em uma caminhada.

Escuto sua voz atrás de mim, mas não me viro pra ele. Meus olhos estão deslumbrados com a visão que tenho agora.

- Você me pediu pra sair da loucura de Santos e te levar a um lugar calmo.

- Você me trouxe para ver o nascer do sol nessa montanha.

- Sim! Ainda me lembro de seus olhos brilhando cheios de vida ao ver a paisagem.

- Isso aqui é incrível.

Fecho meus olhos e a sensação de paz é enorme.

- Juntei tudo o que tinha e comprei esse terreno. Aos poucos construí esse pequeno espaço. Não é uma bela casa ainda, mas já dá para ficar aqui e curtir isso.

Abro meus olhos.

- Não importa a casa, importa o lugar onde ela está.

Digo me virando pra pequena casa, na verdade uma cabana.

- Ela é simples, mas é perfeita por estar aqui.

Vitor ergue a mão e toca meu rosto.

- Não importa a sua família e as pessoas que te machucam...

Encara meus olhos.

- O que importa é você. Você é como essa vista no topo dessa montanha. Perfeita e merece ser admirada, cuidada..."

Afasto as lembranças dos dias na cabana. Meu foco agora é aqui. Meu foco agora é a minha vingança.

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