A ponte Golden Gate, em São Francisco, nos Estados Unidos é a ponte mais visitada do mundo e também é um dos principais pontos de suicídio do planeta. Este foi o local escolhido por Annie Isli para dar fim ao sofrimento que a afligia a muito tempo.
- "Hoje acabo com esta dor que tanto me machuca, com este compromisso que não desejo e finalmente esqueço de vez o passado que tanto me atormenta". Este foi o pensamento de Annie enquanto caminhava tranquilamente pela ponte, procurando o lugar e o momento em que ninguém a tivesse observando, para que pudesse pular.
Annie estava imergida em seus pensamentos, quando olhou para as águas geladas do Pacífico que passavam por debaixo da ponte e pensou
– "Aqui deve ter uma queda de uns 75m de altura, meu corpo não aguentará o impacto e não terei chances de sobreviver".
O dia estava frio, com nuvens espessas e, provavelmente, iria chover muito. Annie pensou em como ter êxito na sua empreitada. Nesta hora, ela começou a recordar da sua infância, o fato que marcou sua vida, a desilusão com o amor, a obrigação de casar com um homem que não conhecia e nem amava, além das inúmeras humilhações provocadas pela sua família. Sua vida realmente estava um caos.
Enquanto ela pensava e chorava silenciosamente perto do gradeado da ponte, David Ford, um novo advogado do renomado escritório de advocacia Ford&Fox, que estava estava próximo dela, fez uma ligação para um dos assistentes do escritório.
-"Kevin, solicite ao seguro que envie um reboque para a ponte Golden Gate para pegar o meu carro que teve um problema mecânico. Também me envie outro carro para que eu possa ir ao escritório, pois John, meu motorista, pediu dispensa hoje."
Após dar instruções, David desligou o telefone e o guardou no bolso. Devido ao importante caso que ele estava defendendo e as inúmeras horas de trabalho, David estava muito cansado.
Além disso, por imposição do seu pai, tinha seu casamento amanhã no Cartório de Registro Civil, com uma mulher que ele não sabia quem era e nem tinha vontade de conhecê-la, pois era um acordo entre as famílias.
Ele aceitou tal situação porque seu pai afirmou que a futura esposa não tinha interesse em expôr o casamento e ele não seria obrigado a cumprir suas obrigações matrimoniais, caso eles não quisessem.
Como não estava interessado em ninguém em especial e estava focado na ascensão da sua carreira profissional, tal situação evitaria distrações amorosas futuras e resolveria alguns problemas familiares. Pensando desta forma, David consentiu com o casamento. Para agilizar, a assinatura da Certidão de Casamento seria realizado por procuração, em Montana.
Para descansar um pouco a mente, ele se apoiou no gradeado e ficou a observar o horizonte enquanto o escritório enviava outro carro para buscá-lo.
Não muito distante, ele observou uma jovem de aproximadamente 18 anos, com um rosto triste, pálido e com lágrimas nos olhos. Ela tinha uma aparência que estava acima do peso, mas seu rosto ainda era delicado. David percebeu que ela estava com um olhar sem brilho, sem vida e profundamente fixado nas águas.
Mesmo tendo inúmeros noticiários sobre os suicídios naquela ponte, David não queria acreditar que aquela jovem estivesse disposta a tal ato. Inconscientemente, ele a estava observando atentamente, mas sem se aproximar dela, pois rosto dela tinha traços de uma pessoa que a muito tempo ele não via.
Após alguns minutos, Annie enxugou as lágrimas e começou a observar o movimento na ponte.
Quando percebeu que tinha um rapaz, alto, pele clara, bonito e bem arrumado, de aproximadamente 23 anos, observando-a, ela pensou e se afastou dele. Primeiro, porque não queria que ninguém percebesse sua intenção e, segundo, não achou que um homem tão bonito quisesse se aproximar dela.
'Devido a minha aparência, meu peso, fui discriminada na escola e na rua, durante toda minha adolescência. Como você acha que um homem importante e bonito desse queria se aproximar de você! Não se iluda, sua burra, você é insignificante aos outros. Sua aparência não atrai ninguém'.
Devido ao bulling que constantemente sofrera por causa de sua aparência, a baixa autoestima de Nina a fez aumentar ainda mais o momento depressivo que enfrentava. No instante seguinte, para não chamar atenção, ela tentou disfarçar sua tristeza e começou a mexer no celular, então escreveu uma mensagem para sua colega de quarto.
- "Kelly, provavelmente quando ler esta mensagem eu não estarei mais neste mundo. Sei que és minha única amiga e te considero minha única família. Sei que estarás se perguntando por que fiz isso, mas te digo: não vejo mais graça na minha vida, não tenho fé no amor e nem nas pessoas. Sinto um vazio muito grande dentro de mim e me sinto suja. Talvez você não me entenda, mas não aguento mais. Eu só que acabar com isso. Nos últimos anos, minha vida foi uma farsa. Meu rosto tinha uma sorriso, mas meu corpo e minha mente já haviam sido destruídos. Gritei, mas ninguém me ouviu. Chorei, mas ninguém percebeu. Então decidi sair deste mundo onde não tenho ninguém me esperando. Espero que sejas feliz. Não estou sendo boa amiga com você, mas quero te desejar toda a felicidade do mundo. Adeus"
Enquanto ela estava concentrada digitando, David se aproximou, disfarçadamente, tirando selfies com a paisagem e tentou ver o ela digitava. Ele percebeu que era uma carta de despedida e que aquela jovem tentaria desistir do mundo.
'Eu não posso fingir que essa jovem não precise de ajuda.' David pensou em como ajudá-la. Como ele já havia estudado sobre psicologia forense, tentou analisar os sinais que ela emitia.
Ele observou seu desleixo com o autocuidado (sem interesse de se arrumar), pois a jovem estava com os cabelos descuidados e cuja aparência era como se tivesse acabado de acordar.
Seu olhar era triste e sem vida, com um ar de desespero. Ela tinha marcas de lágrimas por todo o rosto e seus olhos estavam vermelhos, o que indicava claramente que faziam horas que chorava. Mesmo que seu choro não fosse alto, era perceptível que ela estava sofrendo.
David aproximou-se dela e tentou iniciar uma conversa:
- "Com licença, desculpe incomodá-la, você poderia me ajudar a tirar umas fotos minhas aqui nesta paisagem, é que minhas selfies não conseguem pegar meu melhor ângulo".
Annie assustou-se com a proximidade do jovem, deu um passo para trás e escondeu o telefone. Ela não acreditou que o jovem bonito falou com ela. Depois de seu transe, com um sorriso sem graça e abaixando o rosto, ela consentiu com uma voz baixa e doce.
- "Tudo bem". Ela tirou algumas fotos dele e depois entregou o celular.
David ainda continuou;
- "Desculpe perguntar, você está aqui a passeio? Ou mora por aqui?"
- "Passagem". Annie respondeu sem olhá-lo.
- "Meu nome é David. E o seu?"
David queria instigar a garota a falar e obter mais informações sobre ela. Mas Annie ficou em silêncio. David tentou continuar conversando, mas logo a jovem disse:
- "Não quero conversar com estranhos. Com licença."
Ela se afastou dele e procurou um lugar onde poucos pessoas estavam. Antes que ele tentasse algo mais, seu telefone tocou. Era um dos assistentes do escritório que chegou com o carro para buscá-lo.
David não saiu imediatamente, a uma certa distância, ele ficou observando aquela jovem. Passado alguns minutos, a jovem percebeu que o movimento de pessoas havia diminuído na ponte, então ela começou a subir no gradeado para pular.
Quando ela já estava sentada no gradeado, uma mulher, que percebeu sua atitude, tentou um diálogo com ela. Mas Annie apenas olhou pra mulher sem dizer um palavra e voltou a olhar para água.
Outras pessoas, ao perceberem o que estava acontecendo, ligaram para a emergência para informar sobre os acontecimentos e pediram ajuda médica.
David, que ainda estava no local, então se aproximou devagar para que ela não se assustasse. Annie estava de costa para ele e não percebeu sua aproximação.
David sinalizou para a mulher que estava falando com ela para continuar distraindo a atenção de Annie em sua direção, para que ela não pudesse vê-lo se aproximando pelas suas costas.
Quando a mulher tentou dar um passo para se aproximar, Annie disse:
- "Não se aproxime, senão eu pulo agora". A mulher parou abruptamente, mas ainda continuava tentando conversar com ela. Quando a jovem fez um movimento para se levantar e pular, David já estava bem próximo dela.
Num movimento ágil e forte, David a segurou pela cintura e a puxou para a parte interna da ponte em segurança. Surpresa, Annie tentou se libertar dele com toda a sua força, mas ele a segurou com força nos seus braços.
Neste momento, ele sentiu o agradável aroma floral de jasmim que ela exalava, o que fez lembrar de alguém do seu passado. E ela, por sua vez, sentiu uma fragrância amadeirada penetrar em seu olfato, o que a fez lembrar do garoto que a ajudou algum tempo atrás. Mas, recordar do seu passado a fez desesperar-se ainda mais.
Aqueles que viram a cena e alguns curiosos que gravaram o ato, aplaudiram o ato heroico do jovem, enquanto Annie se desesperava em prantos.
David percebeu que Annie estava tremendo de frio, devido as suas roupas serem leves naquele clima gelado e ao seu péssimo estado de espírito.
–"O clima está frio. Use meu casaco para aquecê-la".
Ele a afastou um pouco do seu peito, tirou o casaco com uma mão e, com a outra, segurou o pulso da garota firmemente. Quando estava preste a colocar um dos braços dela no casaco, ele percebeu uma cicatriz de um corte no seu pulso, que o fez arregalar os olhos, franzir a testa e pensar na situação daquela jovem.
'O que aconteceu com ela para que se desesperasse tanto?' Então ele suavemente disse:
-"Garota, não importa o que te aconteceu, nunca desista de viver por algo ou alguém. (...) As pessoas só se machucam quando se deixam machucar. (...) Tudo que te fere deixa uma cicatriz, a qual te lembrará de onde veio a dor e a deixará mais forte. (...) Ame-se primeiro e sempre! (...) Nunca mostre sua fraqueza a ninguém. Seja forte sempre!"
David continuou a segurando firme até os médicos chegarem. Eles a levarem para uma ambulância, aplicaram-lhe um sedativo para acalmá-la e a levaram para o hospital.
Quando David saiu, ele ficou curioso com aquela jovem menina e percebeu que não sabia seu nome e nem da sua família. Ele apenas percebeu que ela ficara com seu casaco cashemere personalizado, em que suas iniciais estavam gravadas na gola e que fora um presente do seu pai.
Depois daquele dia, David pensou que nunca mais veria aquela jovem.
David foi ao escritório de advocacia e continuou o seu trabalho normalmente. Já Annie não teve a mesma sorte. Após descobrir o contato da família dela, ligaram para sua residência em Montana e Elisa Fox, a madrasta de Annie, atendeu o telefone. Quando soube o que aconteceu, ela viajou imediatamente à São Francisco e encontrou Annie no hospital.
Após acordar meio tonta, Annie foi forçada por sua madrasta à assinar uma procuração em que sua ela a representaria no seu casamento no Cartório de Montana. Annie não tinha conhecimento do conteúdo do papel, ela só soube depois que assinou um papel.
Em seguida, Elisa subornou uma enfermeira para que continuasse drogando Annie, com a desculpa que ela tinha transtornos mentais e que poderia fugir antes que fosse levada ao hospital psiquiátrico em sua cidade. Desta forma, Annie ficaria internada no hospital, assim, o casamento aconteceria e o acordo entre as famílias poderia ser concretizado.
Depois que Elisa saiu do hospital, deixou seu filho Douglas Fox vigiando Annie e voltou para Montana.
No dia seguinte, Elliot Ford, pai e representante de David, e Elisa Fox, madrastra e procuradora de Annie, entraram no Cartório de Registro Civil de Montana, nos Estados Unidos, para assinar o Contrato de Casamento entre os nubentes.
Após realizar todo a burocracia do casamento, o pai de David sai com a Certidão de Casamento na mão.
Elliot não tinha conhecimento do que Annie tinha feito e Elisa não mencionou o que aconteceu em seguida, pois tinha medo que desistissem do casamento achando que Annie estava louca.
- "Você me disse que Annie não compareceu ao Cartório por estava doente. É grave? Quero ir a sua casa para visitá-la, já que agora pertencemos a mesma família". – Elliot estava preocupado com a saúde da garota. Ele queria vê-la e poder conversar com ela e seu pai e finalizar o acordo.
Mas Elisa rapidamente respondeu:
- "Ela não estava se sentindo bem devido ao mal-estar mensal comum às mulheres. Ela foi ao hospital tomar umas medicações, mas logo estará de volta. Não é grave. Como você é um homem muito ocupado, quando ela melhorar pedirei que lhe faça uma visita".
- "Está bem". – Disse Elliot dando um suspiro.
Elliot se sentiu aliviado, pois com este matrimônio, ele cumpriria sua promessa à Willian Isli, o pai de Annie, e evitaria um escândalo à sua família. Para finalizar o acordo, faltava apenas pagar a quantia de 2 milhões de dólares à família dela, como compensação. Foi aí que perguntou:
- "Mas, por que Willian também não veio na cerimônia? Ele mudou de ideia? Por que só você veio? Queria falar com ele sobre nossos filhos e a transferência dos valores". – Elliot ficou se questionando sobre o comportamento do pai de Annie.
Nervosa, Elisa apressadamente respondeu:
- "Ontem ele estava muito ansioso com o casamento da filha e passou mal. Ele está no hospital em observação, mas logo estará em casa.
- "Em qual hospital ele está? Qual quarto? Quero vê-lo". Perguntou Elliot ansioso com o acontecido.
- "O médico disse que ele não pode ter fortes emoções neste momento. Então, sugiro que você converse com ele quando se recuperar do susto e sair do hospital. Devido a sua agenda lotada, sugiro que marquemos um dia para que a família se reúna e assim possamos conversar com todos juntos". – Elisa o respondeu com um sorriso amarelado.
-"Já que Annie não pode comparecer a este ato devido à sua saúde, quando ela se recuperar a envie para uma das casas do meu filho em São Francisco. Aqui estão as chaves e o endereço. Como ele está muito ocupado no nosso escritório lá, em decorrência da complexidade de um caso muito importante e seu o julgamento está próximo, ele conhecerá sua esposa em alguns dias. Neste período, Annie se recupera e acomoda-se no seu novo lar". Disse Elliot, esperando que seu filho pelo menos se desse bem com sua nova esposa.
Elliot conheceu Annie quando tinha 8 anos. Ela era uma menina linda, educada, inteligente e muito alegre. Mais depois do que aconteceu a 4 anos atrás, ela começou a ganhar um pouco de peso e tornou-se uma jovem mais introvertida, calma e recatada. Mas ela ainda possuía uma beleza encantadora. Os pensamentos de Elliot foram interrompidos por Elisa.
- "E quando você realizará o pagamento da indenização? Quando vais cumprir totalmente o acordo?" – Elisa perguntou pelo dinheiro, pois, para ela, este era o mais importante deste casamento.
Se não fosse pelo valor que a família Ford se propôs a pagar à Willian, Elisa não estaria nem um pouco interessada na reputação ou sentimentos de Annie, pois ela acreditava que Annie era a filha da mulher que ela mais odiava no mundo.
- "Quando Willian sair do hospital, peça pra ele para me ligar neste número e aí acertamos todos os detalhes" – Disse Elliot, entregando um cartão de visitas.
Elisa consentiu, pegou as chaves e o endereço do apartamento, despediu-se do pai de David e saiu pensativa.
"Como irei fazer para que esse dinheiro não chegue nas mãos de Annie e nem do seu pai". – Elisa estava planejando em usurpar o dinheiro do marido e da enteada. Depois que conseguisse o dinheiro abandonaria Willian e fugiria com o filho para outro país para viver como queria.
Willian não tinha comparecido a cerimônia de casamento de sua filha, mas Elisa não contou à Elliot a verdadeira razão da sua ausência.