Definitivamente, acordar às cinco da manhã deveria ser proibido. Não era justo ter que levantar tão cedo em uma segunda-feira, principalmente depois de um feriado prolongado.
A dor de cabeça, resultado de uma noite de bebedeira com as amigas, já havia desaparecido. Mas eu ainda sentia uma forte irritação no estômago, que não passava nem mesmo com todos os sucos, chás e sermões da minha mãe.
Abri os olhos, afastei as cobertas preguiçosamente e sentei na beira da cama. Meu corpo não tinha se recuperado nem noventa por cento, como eu faria para me concentrar e colaborar com a Concepta Arquitetura, na reunião com os novos investidores?
Como não tinha outro jeito, me preparei psicologicamente para aquele dia e, após repassar mentalmente minha agenda, fui me arrastando até o banheiro.
"Acorda mulher."
Meu reflexo no espelho estava deplorável: cabelo embaraçado, olheiras enormes, lábios ressecados, a imagem de uma pessoa sem a menor noção do ridículo e pensava que ainda era uma adolescente.
"Irresponsável!"
Fiz minha higiene bucal, ignorando deliberadamente a Lia horrorosa que me encarava no espelho, dizendo que eu precisava tomar serias providencias com relação à aparência.
Entrei no chuveiro e deixei o jato de água fria fazer seu trabalho. Se eu tinha certeza de algo era que, nunca mais, entraria na onda de Lorena e Lisandra. Eu não aguentava beber no mesmo ritmo que elas, precisava me conscientizar disso e aprender a controlar meus impulsos.
Saí do chuveiro revigorada.
Parei novamente na frente do espelho, desembaracei os cabelos e me tornei apresentável para a reunião.
Aquela segunda-feira era a mais importante da minha vida, o dia em que eu seria promovida a arquiteta-chefe, responsável por um setor inteiro e projetos importantes. Tudo o que eu havia sonhado, me preparado e trabalhado a vida inteira estava prestes a acontecer.
Fiz o melhor que pude com meu visual, mas não adiantou muita coisa. Somente uma passada no salão de beleza resolveria minha situação. Então, resolvi me fantasiar de arquiteta competente, vesti meu conjunto de calça e blazer preto, combinando com uma camisa social lisa, da mesma cor e o scarpin com o solado vermelho - que custou os dois olhos da minha cara - completei com relógio, semi-joias e uma maquiagem leve, mas eficiente. Deixei os cabelos soltos, para secarem naturalmente e saí de casa - atrasada para variar.
***
A Avenida Luís Viana Filho, mais conhecida como Avenida Paralela, estava completamente engarrafada.
No rádio, o locutor informou a hora: faltavam quinze minutos para às oito, horário do início do meu expediente. A reunião estava marcada para às nove.
***
Uma hora e centenas de meias embreagens depois, finalmente passei pela cancela de acesso ao estacionamento do World Plaza II.
Pela hora, eu não conseguiria encontrar vaga em nenhum dos cinco primeiros níveis, então, avancei para os superiores onde ficavam as vagas destinadas aos diretores e executivos das empresas instaladas no prédio. Eu conseguiria estacionar rapidamente e usaria os elevadores para chegar no meu andar a tempo da reunião.
Eu adorava roubar vagas de carros maiores e mais potentes que o meu, por isso, deixei que meu lado competitivo desse as caras no instante que avistei um SUV se posicionando para ocupar uma das vagas.
"A hora é agora. Vamos lá, Lia. Se concentra!"
Pareei meu carro, engatei a ré, soltei a embreagem e alinhei o veículo. Acertei o volante e deslizei vitoriosa para dentro dos limites da vaga.
Identifiquei que o possante se tratava de um modelo Bentayga, da marca britânica Bentley. Não me lembrava de ter visto um veículo como aquele circulando pelas ruas de Salvador, por isso, aumentei consideravelmente a pontuação do meu ranking pessoal de roubo de vagas. Afinal, não era todo dia que uma saboneteira, como meu Fiat Mobi, vencia um modelo importado que nem português falava.
Reuni meus pertences e me preparei para desembarcar. Foi quando ouvi umas batidas insistentes no vidro da porta do meu carro.
- Essa vaga era minha, senhorita! - a voz máscula e muito grave, avisou que alguém estava disposto a iniciar uma discussão.
Pendurei a bolsa no ombro, abri a porta e quase tive uma morte súbita: não muito mais alto que eu - cerca de um metro e oitenta e cinco de altura - cabelos castanhos - impecavelmente penteados - vestindo um terno cinza-escuro - caro e muito bem cortado - um verdadeiro "problema" de olhos azuis me encarava fixamente.
"Minha Nossa Senhora, que gato!"
Minha vontade era ficar o dia inteiro admirando aquele monumento cheiroso e enfezado. Mas, lembrei que eu tinha uma reunião e estava muito atrasada. Sendo assim, recuperei o fôlego, juntei com o resto de dignidade que eu ainda não havia perdido, apoiei as mãos na cintura e o encarei de volta.
- Tinha seu nome escrito na vaga? - fiz o melhor que pude para sustentar o olhar e não demostrar o quanto estava afetada.
- Não, não tinha. Mas, pelas regras de trânsito, quando a lanterna está piscando para a esquerda, significa que o condutor pretende manobrar para aquele lado. Como meu carro estava bem à sua frente, acredito que deve ter visto a seta indicando o que eu pretendia fazer. - ele apontou na direção da luz traseira do veículo, que acendia e apagava freneticamente, confirmando que ele tinha razão.
Claro que aquilo não me intimidava, nem um pouco. Roubar vagas era meu hobby, algo que eu fazia para me distrair. Nenhuma das minhas "vítimas" jamais haviam se dado ao trabalho de vir reclamar, piorou me corrigir se baseando nas Leis Nacionais de Trânsito. Ele que aceitasse a derrota e fosse procurar uma vaga em outro lugar.
- Eu gostaria muito de ficar, discutir sobre as leis de trânsito, suas brechas e emendas, mas estou muito atrasada e preciso chegar no meu andar - consultei o relógio -, em cinco minutos para entrar numa reunião que começa em seis. Sua palestra terá que ficar para outra ocasião.
Falei de maneira bem debochada, enquanto pendurava novamente a bolsa no ombro, trancava meu carro e me preparando para sumir dali. Mas, o homem parecia disposto a briga e não havia, sequer, saído do lugar.
- Você pode dar licença, por favor?
A proximidade com o corpo dele estava provocando uma série de reações descabidas para aquele momento.
- Ah! O que foi? Estou pedindo licença. - enfezei a cara para ele também.
- Está desculpada. - ele continuou me encarando.
Notei um quase sorriso em seu rosto e me dei conta de que ele estava se divertindo com a situação e bloqueando propositadamente minha passagem.
- Ok! Me desculpe! - falei apressadamente - Qual é? Eu já pedi desculpas! Pode me deixar passar?
- Por favor? - ele pendeu a cabeça um pouco para o lado e arqueou a sobrancelha esquerda.
"Oh! Diacho, não faz isso. Não faz essa cara que eu gamo."
- Por favor.
Ele deu um sorriso fraco e eu revirei os olhos.
Sem dizer uma só palavra, ele deu as costas e voltou para o carro, entrando pela porta traseira.
Aquilo me irritou demais.
- Que maravilha! Você não estava nem dirigindo, seu babaca. Porque não mandou o corno do seu motorista procurar outra vaga? Riquinho de merda!
Perdi o controle e proferi um monte de palavrões acompanhados por uns gestos obscenos, usando a língua e o dedo do meio, para enfatizar.
***
Entrei no elevador tremendo de raiva.
"Quem autorizou uma humilhação desse porte, uma hora dessa da manhã?"
Respirei fundo.
Meu rosto estava em brasas e o calor sobrepunha o ar fresco do ar condicionado.
Prendi os cabelos num coque alto e saí do elevador quando chegou ao andar. Passei pela recepção da empresa parecendo um foguete. Guardei minha bolsa na última gaveta da mesa que eu ocupava, apanhei o material da apresentação e me dirigi à sala de reuniões.
Quando entrei, já haviam se passado mais do que quinze minutos do horário marcado para o início da reunião. Meu chefe estava sentando bem de frente para a porta de entrada da sala e me saudou com um olhar sério e pouco amistoso.
- Lia Elizabeth, até que enfim. Já estava aqui pensando em como faria para apresentar o projeto, já que você não disponibilizou o material para mais ninguém da equipe.
Dominique Randon deveria ganhar um Oscar de "Melhor Ator da Década" por sua atuação naquele momento. Quem não o conhecia - ou sabia que aquilo tudo era uma farsa - poderia jurar que ele estava possesso pelo meu atraso e do não cumprimento das regras básicas da empresa.
Mas, a maioria das pessoas naquela sala eram funcionários da Concepta. Logo, todos sabíamos ele estava tentando passar uma boa imagem para impressionar os acionistas e futuros investidores dos nossos projetos. E, já que ninguém se atrevia a desmascará-lo, não seria eu que o faria. Fechei a porta e incorporei meu papel de funcionária arrependida e super constrangida pelo meu atraso e falta de comprometimento.
Sentei ao lado de Melina, minha estagiária assistente. A menina estava tão nervosa que poderia ter uma síncope a qualquer momento.
- Está tudo bem? - perguntei demostrando preocupação com seu estado de nervosismo.
- Você não faz ideia de quem será o novo investidor da Concepta, não é? - ela falou baixinho, quase sussurrando.
- Não. - respondi no mesmo tom - Quem é?
- Henrique Medeiros Villas Boas.
- E daí? - perguntei enquanto organizava meu material sobre a mesa.
- Simplesmente, o cara mais insuportável do mercado imobiliário. O tipo que te deixa sem graça só com um levantar de sobrancelhas, é muito mal-humorado e vive de cara fechada.
- Belo currículo! - debochei - E quem é ele? Já chegou? Está nessa sala?
Ela estava reclamando do meu descaso com as informações, quando nossa atenção foi atraída para a movimentação na entrada da sala. Encolhi-me na cadeira e desviei os olhos para uma parede tão vazia quanto minha mente naquele momento.
O ar-condicionado perdeu totalmente a utilidade e, o frio que correu pela minha espinha, congelou também minhas mãos e o ar em meus pulmões.
- Bom dia, peço desculpas pelo atraso. Acabei demorando mais que o necessário para estacionar, depois de um contratempo com uma motorista que roubou minha vaga.
E foi nesse instante nossos olhares se encontraram e eu percebi a gravidade do problema em que havia me metido.
"Agora sim, eu me ferrei em verde e amarelo!"
***
O nervoso devido à apresentação do projeto, cedeu espaço para o pânico. Lembrei dos impropérios e palavrões que disse no estacionamento, enquanto me dava conta de que o reclamante da vaga e o novo investidor da empresa eram a mesma pessoa.
A essa altura, eu já não conseguia raciocinar direito e o único pensamento que me ocorria era: "Fudeu!". Eu não tinha somente discutido com o futuro sócio do meu chefe, também insultei a pessoa que - dependendo do desempenho da minha apresentação - poderia alavancar ou destruir meu plano de carreira na empresa.
Durante os dez minutos seguintes, eu morri centenas de vezes. Enquanto alguns diretores e acionistas apresentavam os resultados de suas empresas e setores, de tempos em tempos Dominique me olhava, intrigado, como se estivesse tentando ligar os pontos e descobrir qual era a relação do meu atraso com o incidente mencionado pelo bonitão encrenqueiro.
Dom havia oferecido a Henrique, justamente a primeira cadeira do lado direito, de onde ele teria a visão de todos à mesa, o que significava que nossos olhares e cruzariam furtivamente durante a reunião. E, já que estava praticamente demitida, me dei ao luxo de admirar a "encrenca de olhos azuis" minuciosamente.
A expressão séria e concentrada o deixava ainda mais bonito. O brilho de suas íris azuis focados na tela do monitor, era uma coisa fora do comum. Ele estava com um dedo - o indicador - pousado sobre os lábios, aquele gesto lhe conferiam um certo ar de mistério e faziam dele, definitivamente, o homem mais lindo que eu já vira na minha vida.
"Cretino. Um cretino lindo."
Ouvi meu nome ser pronunciado por Dominique e isso atraiu minha atenção. Ele me apresentou formalmente, mencionando que eu era a autora do projeto e faria uma explicação mais detalhada.
Eu deveria ter escolhido uma roupa melhor e um salto mais confortável para a ocasião? Deveria. Mas, na história da minha existência, eu nunca estava dignamente vestida quando algo estava prestes a dar errado.
Coloquei a pasta com minhas anotações sobre a mesa e me dirigi ao assistente de mídia para conectar o pendrive.
Eu não precisava olhar para saber que estava sendo observada. Era possível sentir o calor vindo dos olhos dele, queimando minhas costas, causando arrepios e trazendo a lembrança do momento exato em que senti a intensidade e o poder daquele olhar, de perto.
Respirei fundo, virei para frente, saudei a todos e comecei a apresentação.
***
Henrique não tirou os olhos do monitor gigante, instalado em um das paredes da sala, onde a imagem em 3D de um condomínio de luxo, era exibido.
Aparentemente, ele estava satisfeito com o que via e ouvia, pois, não interrompeu a apresentação em nenhum momento. Tudo o que fazia era concordar e anotar algo em seu laptop.
Aqueles foram os trinta minutos mais demorados de toda minha vida.
***
Terminei a apresentação e voltei para minha cadeira. Não me atrevi a olhar na direção de Henrique, mas tinha certeza de que ele estava com os olhos em mim. Era estranho ter esse tipo de certeza, principalmente se eu fosse julgar o que realmente estava evidencia. Ele devia estar se preparando para pedir minha cabeça e tinha que ter bastante detalhes para embasar seu pedido. Por isso fez tantas anotações e estava prestando tanta atenção em mim.
Eu só queria que aquela reunião terminasse logo. Precisava me esconder da perturbação que aquele olhar azul causava e minha alma. Por isso, assim que o final da reunião foi anunciado, driblei o máximo de pessoas que queriam me parabenizar pela apresentação, o tanto quanto foi possível e escapei para o refúgio da minha mesa.
"Mas que droga! Como foi que eu não prestei atenção ao nome do principal investidor do projeto?"
Meu desabafo tinha ares de frustração e, depois, de irritação. Se eu tivesse ao menos lido as minutas ou os comunicados internos, saberia o nome do homem, teria feito uma pesquisa, veria a cara do dito cujo e, com certeza, evitado o episódio do estacionamento. Eu queria cavar um buraco e me enfiar nele, como aquela opção estava indisponível no momento, coloquei meus fones de ouvido, escolhi uma playlist bem heavy metal e mergulhei de cabeça no trabalho. Aquilo me ajudaria a esquecer a reunião, o fracasso da minha apresentação, a eminente perda da minha promoção, o ocorrido no estacionamento e, principalmente, Henrique.
Quem me trouxe de volta à realidade, foi Melina.
Não estava com humor para seus pulinhos e gritinhos de alegria, por isso me apressei em responder afirmativamente o convite para almoçarmos juntas.
- Escolhe o restaurante. Não muito caro, porque sou eu que vou pagar nossa comemoração, com meu salário de estagiária.
- Como assim? Que comemoração? Do que você está falando.
- Você ainda não leu o comunicado interno, não foi? - ela me girou pelos ombros - Fomos promovidas, Lia. Vamos nos mudar para o trigésimo terceiro andar, da torre um.
- Você deve ter lido o comunicado da equipe errada. Até onde sei, a apresentação foi razoável, para não dizer que foi um fiasco.
- Ah! Lia, para de ser exigente garota. A apresentação foi um sucesso. Tanto que Dominique já anunciou a parceria da Villas Boas com a Concepta e seu nome já apareceu como a nova arquiteta-chefe.
- Se você não estivesse em horário de trabalho, diria que andou bebendo. Vem, vamos almoçar. Acho que isso ai é fome.
***
Fiz o caminho até o restaurante, com Melina tagarelando sobre a suposta promoção e os efeitos dela em nossas carreiras. Ela, que estava no último ano da faculdade de Arquitetura e Urbanismo, sonhava em ser efetivada na empresa quando seu contrato de estágio chegasse ao fim.
Se fosse minha promoção fosse mesmo verdade, eu ficaria muito feliz em contrata-la como minha assistente. Além de competente, Melina havia se tornado uma espécie de irmã mais nova para mim. Eu havia acompanhado, de perto, tanto sua evolução pessoal, como profissional e sabia que ela seria uma excelente aquisição para a Concepta.
Felizmente, depois que nossa refeição chegou, Melina mudou de assunto e começou a relembrar um momento triste em sua última relação amorosa. Contou haver finalmente superado, que estava conhecendo outra pessoa e planejava me apresentar em breve.
Fiquei contente por ela. Mais do que ninguém, Melina merecia encontrar o amor e ser feliz. Principalmente depois de ter seu coração quebrado por um babaca que a iludiu e depois decidiu correr atrás de outra mulher.
***
Depois do almoço, retornamos para a empresa e trabalhamos juntas em outro projeto, que também estava em andamento.
As horas passaram voando e, quando vimos, já era hora de encerrar o expediente. Melina se despediu e me deixou com a missão de organizar os papeis em minha mesa e desligar os computadores.
Quando pousei a mão sobre o mouse, reparei em minhas unhas e em como estavam horríveis. Nem uma prisioneira no corredor da morte merecia estar naquele estado. E, atendendo ao chamado da beleza, enviei uma mensagem para o grupo das minhas amigas, no WhatsApp e combinei uma passadinha no salão, para cuidar dos cabelos e das unhas.
Enquanto áudios e emojis pipocavam na tela do meu celular, peguei minha bolsa e me dirigi para o hall dos elevadores. O primeiro que chegou, estava lotado, mal cabia o ar que as pessoas ali dentro respiravam. Deixei passar e, quando o segundo chegou, entrei respondendo às mensagens do grupo, sem prestar atenção no que estava fazendo e em quem estava na cabine.
- Parece que agora teremos tempo para discutir sobre as leis, emendas e brechas das leis de trânsito, senhorita Mendes. A personificação de todos os meus problemas daquele dia, estava encostado em uma das paredes do elevador e me encarava com um sorriso debochado nos lábios.
"Eu devo ter jogado pedras na cruz de Jesus Cristo, para merecer um castigo desses."
- Pensei que seu interesse estivesse mais voltado para assuntos financeiros, afinal, esse é o ramo de sua empresa, não é?
Tentei parecer indiferente a provocação, mas o tom da minha voz denunciou o contrário.
Ele abriu ainda mais o sorriso, visivelmente satisfeito em me ver irritada. Enfiou as mãos nos bolsos e me encarou com uma das sobrancelhas erguidas.
- Você se surpreenderia com a quantidade de assuntos sobre os quais eu sei discorrer, senhorita.
Ele caprichou no sarcasmo e na sensualidade imposta na voz.
- Interessante...
Fingindo desinteresse, virei as costas para ele e respirei profundamente.
O homem era uma tentação muito difícil de querer resistir. Me esforcei e falhei miseravelmente ao tentar apagar a imagem de seu sorriso 'sexy' e irresistivelmente provocador.
O elevador demorou mais que o normal para fechar as portas e começar a descer. O tempo parecia estar jogando contra mim.
"Vigésimo quinto andar. Desce."
Eu senti como se estivesse descendo para o inferno, literalmente.
***
Não houve tempo, nem para pensar em iniciar uma discussão. Senti o corpo de Henrique encurralar o meu, em um dos cantos da cabine do elevador.
- A senhorita é muito atrevida. Ainda bem que eu conheço uma maneira muito eficiente de controlar essa sua língua afiada. Acredite que falta muito pouco para lhe dar uma amostra grátis dos meus métodos.
- Se eu tinha alguma dúvida do quanto você é babaca, agora tenho certeza. Me solta! - tentei, em vão, empurrá-lo para sair de cima de mim.
- Tentando fugir de mim, outra vez, senhorita Mendes?
- Se você não me soltar, vou fazer um escândalo!
Reuni toda força que pude e consegui empurrá-lo para a outra extremidade da cabine. Corri para o painel de controle do elevador e comecei a apertar o botão 'descer', desesperadamente.
Ele ignorou meu aviso e se aproximou novamente, colando o peito musculoso contra minhas costas e pressionando-me corpo contra o painel.
Suas mãos avançaram habilmente para debaixo da minha blusa e encontraram o fecho do meu sutiã. Meus mamilos endureceram imediatamente, quando sentiram o toque preciso e gentil dos dedos dele.
Henrique aproximou os lábios do meu ouvido e declarou:
- Só estou realizando o desejo que você expressou, tão claramente, essa manhã. Pensa que eu não vi você quase me comendo com os olhos, durante a reunião?
- Vou mandar um e-mail bem detalhado, sobre seu comportamento, para a presidência da sua empresa. Vamos ver quem tem os métodos mais eficazes para controlar quem?
Ele provocava meus mamilos de uma maneira tão gentil e delicada, que não tive outra opção a não ser me esfregar em suas palmas.
A respiração quente, os lábios macios passeando por meu ombro e pescoço era um convite tentador para facilitar e me deixar levar por aquele clima sensual.
Ele me colocou de frente e fez com que olhasse em seus olhos.
- Vou ficar esperando seu e-mail. Capriche nos detalhes, pois, servirão de material de estudo para a próxima vez que estivermos a sós. - com a boca bem perto da minha ele deu um sorriso safado e enfiou uma mão dentro da minha calça.
- Não!
***
Acordei assustada, suando, com o coração acelerado, como se tivesse corrido a Maratona de São Silvestre.
"Agora vou ter sonhos eróticos com o senhor encrenca, que maravilha!"
Levantei da cama, fui até a cozinha, enchi um copo com água e sentei no banco de madeira do balcão.
Minha mente estava preenchida de pensamentos sobre o moreno de brilhantes e perigosos olhos azuis que me provocava sensações deliciosas e irritantes quando me olhava desafiadoramente. Era como se estivesse constantemente me instigando e não deixando tirar Henrique da cabeça, nem por um minuto.
Ele tinha um sorriso lindo, que exalava inocência e sensualidade ao mesmo tempo. Parecia um menino travesso, desafiando você a segui-lo em sua peraltice.
Enquanto pensava no "senhor sétima maravilha do mundo", acabei adormecendo sobre o balcão americano da cozinha e garantindo uma noite mal dormida, olheiras profundas e uma dor nas costas, insuportável, na manhã seguinte.
***
Depois do evento desastroso no estacionamento, decidi parar de brincar de roubar vagas. Por isso, me programei para sair mais cedo e evitar o engarrafamento na Avenida Paralela.
Pela primeira vez, em muito tempo, cheguei na portaria do World Plaza II antes das oito e meia. Eu teria até comemorado essa pequena vitória se, na hora de passar pela cancela, meu cartão de acesso não estivesse bloqueado.
"Me demitiram!" - foi o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça.
Tentei novamente. Nada.
"Ué? Será que estou usando o cartão errado?"
Verifiquei se era o mesmo que eu usava todas as manhãs para acessar o estacionamento do prédio.
Mais uma tentativa.
Mais um fracasso.
"Mas que droga! Era só uma vaga seu riquinho, mimadinho, filho de uma puta."
Desferi vários socos contra o volante.
O porteiro do prédio apareceu e bateu no vidro da janela do meu carro.
- Bom dia, senhorita Mendes. Algum problema?
- Bom dia, Xavier. Meu acesso ao estacionamento está bloqueado. Será que você não pode dar uma olhadinha no meu carro, enquanto eu vou à recepção saber o que está acontecendo?
- É claro. Estacione ali, na vaga para visitantes e vá correndo. Fico de olho e, caso alguém precise da vaga, eu te chamo. - ele me respondeu com a simpatia e o sorriso de sempre.
- Muito obrigada, Xavier! - agradeci dando um beijo no rosto dele, assim que desci do carro.
Quando me viu, Lorena abriu um sorriso largo.
- Pela sua cara, você sabia que eu viria. Então, que tal economizar na enrolação e dizer o que está acontecendo?
- Bom dia para você também, senhorita Mendes. - ironizou - Está procurando seu sapatinho?
- Não sei do que você está falando.
Revirei os olhos e ela abriu ainda mais o sorriso, evidenciando as charmosas covinhas das bochechas.
- Disso aqui.
Ela me entregou um cartão vermelho, com a inscrição "Exclusive Park" impressa em letras amarelas.
- Ontem, um príncipe lindo esteve aqui para alterar sua matrícula e inscrever no sistema do estacionamento exclusivo.
- Nem vou perguntar quem era o príncipe lindo, porque não estou interessada em te ver babando por Dominique de manhã, logo cedo.
- Não boba. Não estou falando de Dom. Foi outro príncipe, infinitamente mais bonito.
Quando ela descreveu o "príncipe" não me restaram dúvidas de que se tratava de Henrique. Disfarcei a euforia da descoberta, enquanto especulava se ela sabia o motivo para o repentino 'upgrade'.
- Ele falou algo sobre mudança, mas eu não prestei muita atenção. Estava ocupada decorando a cor dos olhos e o timbre da voz dele.
- Nossa, Lorena, como seu coração é vagabundo. Nem conhece o homem e já está cheia de olhos para cima dele. Esqueceu Dominique rapidinho, hein?
- Do que adianta lembrar, se ele não está nem aí? E, para sua informação, eu conheço o príncipe sim. Ele trabalha no prédio um, com o irmão, que é outro príncipe maravilhoso.
- Você não tem jeito mesmo, Lorena. Deixa eu ir trabalhar. Não tenho o tempo disponível que você tem, para ficar admirando príncipes maravilhosos, não. Tchau!
- Tchau, amiga! Se encontrar Dominique ou um dos príncipes do prédio um, mande lembranças e diga que estou solteira viu?
Eu ri e deixei a recepção.
***
Coloquei minha bolsa na última gaveta e corri para a sala de Dom. Precisava saber os detalhes do que estava acontecendo e o motivo para me darem uma vaga personalizada no estacionamento exclusivo do prédio.
Entrei sem bater e o encontrei bem relaxado, com os pés sobre a mesa, falando ao telefone.
- Te ligo em instantes, Cléo. - ele encerrou a ligação e mirou suas esferas esverdeadas em minha direção.
- Cléo? Namorada nova? - cruzei os braços e ergui uma sobrancelha.
- Bom dia, Lia. Não sabia que você agora transpunha a matéria. - ele deu um meio sorriso.
- Ah! Me faça o favor, Dom! Desde quando eu preciso bater para entrar aqui, se eu sei que, quando a porta está fechada, você não está trabalhando?
Ele revirou os olhos e endireitou a postura.
- A que devo a honra da visita?
- Fui barrada na entrada do estacionamento, porque minha matrícula estava bloqueada. E advinha? Acabei de descobrir que eu ganhei um 'upgrade' para o estacionamento exclusivo. - mostrei o cartão - Tem algo que eu preciso saber, Dominique?
- Claro que tem! Se você não tivesse desaparecido ontem, depois da reunião, ou respondido ao e-mail que te enviei, saberia que a vaga é benefício do seu novo cargo.
- Novo cargo? - perguntei surpresa.
- Ontem assinamos o contrato e fechamos a parceria com a Villas Boas Inc. Logo, o cargo de arquiteta-chefe, agora é seu. A empresa toda já está sabendo disso. Nem é mais novidade.
Levei a mão à boca para suprimir o gritinho que estava querendo escapar.
"Ah! Meu Deus!"
- Você poderia ter me ligado para contar. Evitaria que eu pagasse o maior mico e tivesse pensado um monte de besteira.
- Para perder sua cara agora? Nem pensar!
Ele riu.
- Falando nisso, desde ontem que estou querendo te fazer uma pergunta: o que o seu atraso tem a ver com o incidente no estacionamento mencionado por Henrique?
Se um buraco se abrisse no chão da sala, eu enfiaria minha cara nele de bom grado. Minhas bochechas esquentaram tanto e eu fiquei totalmente sem graça.
Sabendo que se eu contasse o que acontecera, Dominique espalharia para a Concepta inteira e aproveitaria para tirar sarro da minha cara, preferi fingir que não entendi e desviar a atenção para outro assunto.
- Agora que minha promoção está confirmada, não seria o caso de pensarmos na contratação de Melina?
Ele ficou me olhando fixamente por vários segundos e depois concordou.
- Vou mandar preparar a papelada e te aviso.
- Obrigada, Dom! De verdade, muito obrigada. - corri até ele e o abracei - Você, mais do que ninguém, sabe o quanto eu sonhei com essa oportunidade.
- Não há nada para agradecer, Lia. Desde que começou a trabalhar aqui, você sempre foi uma excelente profissional. Não duvido que fará um excelente trabalho como uma das executivas do grupo. Estou orgulhoso de você.
- E quando será a homologação?
- Acredito que na próxima semana você e sua equipe já estarão instalados no prédio um. Vou te mantendo informada.
Me despedi dele e, quando estava quase fechando a porta ele perguntou:
- Lia, você gosta de gardênias brancas ou rosas?
Por um minuto eu pensei que ele estava tentando me fazer uma gentileza, mas, quando a expressão carinhosa em seu rosto deu lugar para um sorriso debochado, mostrei a língua e o mandei ir à merda.
De volta à minha estação de trabalho, sentei de frente para o computador e liguei o monitor. Esperei que o sistema operacional iniciasse e abri a caixa de e-mails.
Encontrei o comunicado enviado por Dom e outros dois de endereços desconhecidos.
Cliquei no primeiro e a mensagem de Henrique se expandiu na tela.
"Acreditando que a senhorita não teve problemas para estacionar essa manhã, venho parabenizá-la pelo novo cargo.
Será um privilégio para nós, contar com uma profissional tão competente e dedicada em nosso corpo executivo.
Gostaria de aproveitar para convidá-la, bem como a sua equipe, para conhecerem nossas instalações e se familiarizarem com o novo ambiente, durante a recepção que ofereceremos na próxima sexta-feira, às vinte horas.
Cordialmente,
Henrique M. Villas Boas
Co-CEO, Villas Boas Inc."
Ignorei deliberadamente a provocação.
Endireitei a postura, encarei a tela do computador e comecei a escrever a resposta.
"Bom dia senhor Villas Boas.
De fato, não tive problemas para estacionar essa manhã. Foi muita gentileza de sua parte se preocupar com o meu bem estar.
Alguém da comunicação interna entrará em contato com seu pessoal, para confirmar a visita.
Em nome de toda minha equipe, agradeço o convite e, pessoalmente, pelo upgrade no estacionamento.
Atenciosamente,
Lia Elizabeth M. Mendes
Arquiteta, Concepta Arquitetura."
Enviei o e-mail e pedi a Melina que cuidasse do restante da organização da visita.
- Sério? Que maravilha! Deixa que eu cuido disso. - ela piscou e seguiu em direção à sala da comunicação.
***
Depois do almoço recebi uma ligação de Dominique informando que os papéis da contratação de Melina já estavam prontos. Decidi só contar a novidade para ela no dia da visita à Villas Boas.
O resto da tarde foi consumido pelas atividades pendentes e no processo de transição para o novo cargo.
***
Encerrei o expediente desejando minha cama.
Estava tão cansada que praticamente me arrastei no trajeto entre o elevador e meu carro.
Vi quando o SUV de Henrique chegou e parou na porta de entrada para o hall dos elevadores.
Inseri a chave no contato rapidamente e o som do motor sendo acionado atraiu sua atenção. Ele estava falando ao telefone, mas acenou quando me viu e abriu um sorriso tão lindo, que conseguiria iluminar qualquer dia nublado.
Meu coração disparou diante da eminência de um novo encontro. E, para evitar que ele se aproximasse e percebesse o quanto eu estava eufórica, saí dali imediatamente, quase cantando pneus.
***
Minha preocupação era estar vestida conforme a ocasião e não passar nenhuma informação equivocada. Por isso, escolhi uma saia lápis, verde-escuro, blusa com um discreto decote "V", sem mangas, dois tons mais claro que a saia e um par de sandálias com salto quadrado, que garantiriam o conforto dos meus pés durante a visita. Fiz uma maquiagem leve e deixei os cabelos soltos.
Consultei o relógio e ainda faltavam alguns minutos para as vinte horas. Decidi sair mais cedo para chegar atrasada e perder a visita.
***
Percebi que meu plano daria errado, no momento que entrei na Avenida Dorival Caymmi e encontrei um longo congestionamento. Como já havia perdido o retorno, tive que encarar a fila de veículos por muitos quilômetros até a altura da Praia do Corsário.
Assim que cheguei na confraternização encontrei Melina, que tratou de me contar tudo sobre a visita com entusiasmo e euforia que eu nunca vira antes.
A recepção estava bastante animada e o clima estava realmente ótimo. Encontrei alguns colegas, fui apresentada a outros novos, mas, meus olhos procuravam uma certa pessoa.
Obviamente, não perguntei por ele. Ao invés disso, procurei focar minha atenção em outras coisas que não fosse Henrique e seus belos olhos azuis.
- Lembra que te falei sobre um rapaz que eu estava conhecendo melhor? - Melina perguntou e respondi confirmando - Olha só, que coincidência: ele é o diretor de 'marketing' da Villas Boas Inc.
- Ele não te contou sobre o trabalho dele? - perguntei tentando me interessar pela conversa.
- Na verdade, eu não quis perguntar e parecer interessada demais em quanto ele ganha. - ela riu - Pelo menos ele é solteiro.
- Espero que dessa vez não apareça outra mulher para deixa-lo confuso e fazer ele te abandonar. Já basta aquele outro, daquela história.
- Nem me lembre disso, chefa. - ela fez o sinal da cruz - Eu fui muito tonta em me apaixonar daquele jeito. Era óbvio que ele nunca ficaria comigo. Aliás, desde o primeiro momento ele foi muito claro, eu que me iludi.
- Cuida do seu coração, tá? Nada de coração machucado na minha sala, dessa vez. Quero minha assistente bem plena e feliz.
- Oi?!? Como assim "assistente"? - ela arregalou os olhos castanhos surpresa - Está querendo dizer que...
- Sim... Você é a nova contratada da Concepta/Villas Boas Inc.
Fiz o anúncio e ela quase me jogou no chão, pulando em meu pescoço.
- Não acredito, Lia! Você é a melhor, sabia? Eu estava preocupada, pensando em como faria para bancar o final do curso e a festa de formatura.
- Agora não precisa se preocupar mais. Seja bem-vinda ao time!
***
Circulei mais um pouco pela recepção e Melina me apresentou, finalmente, ao rapaz com quem estava saindo.
- É um prazer conhece-lo, senhor Duarte. Melina tem falado muito sobre você.
- Espero que só coisas boas. - ele sorriu, tímido.
- Léo, a Lia perdeu a visita, porque ficou presa no trânsito. Será que você não poderia mostrar aquela sala maravilhosa para ela?
- Claro que sim!
- Se for atrapalhar vocês dois, não precisa. Eu vejo a sala em outro momento.
- Imagina, será um prazer. - ele mostrou a direção e eu o segui.
Alguns corredores depois, acessamos o lugar onde ficava a recepção da presidência.
Haviam quatro portas, duas em uma parede e duas em outra. Eram as salas da presidência, vice-presidência, de reuniões e a minha.
Meu coração se encheu de alegria quando li a placa com meu nome escrito. Era a confirmação de que tudo havia dado certo e meu sonho havia se realizado.
- Posso entrar?
- Claro, fique à vontade. Vou deixá-la sozinha, para ter mais privacidade.
- Se for causar problemas para você, eu...
- Imagina, a sala é sua, como poderia causar problemas? - ele sorriu - Nos vemos logo.
Ele acenou e se retirou.
Pousei a mão na maçaneta, respirei fundo, abri a porta e entrei com o pé direito.
***
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, admirando o requinte e o bom gosto da decoração.
A sala era linda, espaçosa e tinha uma janela panorâmica que ia de uma parede a outra, do chão até o teto.
Sentei na cadeira do chefe, que ficava de frente para a janela. Me deixei ser envolvida pela maciez do couro legitimo e pela deliciosa sensação de estar no topo do centro econômico de Salvador, ocupando o cargo que havia almejado a vida inteira.
Sim, meu cargo tinha atribuições de executivo, embora fosse lidar diretamente com construtoras e canteiros de obras. Mas, eu também participaria das tomadas de decisões importantes, assinaria e me responsabilizaria por grandes projetos, teria meu nome atrelado a muitos empreendimentos e arquitetos renomados.
"Esse é só o primeiro degrau."
- Finalmente, te encontrei.
Girei na cadeira e me deparei com a figura de Henrique parado, na entrada da sala, trazendo uma garrafa de champanhe e duas taças nas mãos.
Precisei de alguns minutos para me recuperar do susto e conseguir falar pronunciar algumas palavras.
- Você estava me procurando?
- Se você for Lia Elizabeth, a nova arquiteta-chefe da Concepta/Villas Boas Inc., sim, 'estou' te procurando.
Ele entrou, deixou as taças e a garrafa sobre a mesa e voltou para fechar a porta.
- Desculpe, ninguém avisou que estava a minha procura.
- Não tem problema. Acabei de chegar.
Um silêncio constrangedor se fez presente.
- Adorei a decoração. - tratei de começar qualquer assunto e quebrar o silêncio.
Levantei da cadeira e fui para mais perto da janela, buscando aumentar a distância entre nós.
- Você gostou? Pedi ajuda a uma pessoa que entende bastante do assunto: minha mãe.
- Agradeça-lhe por mim. Ficou incrível.
- Você terá a oportunidade fazer isso, pessoalmente, em breve.
"Oi?!?!"
- Trouxe champanhe. Vamos fazer um brinde?
- E ao que brindaremos?
- Aos novos tempos.
Ele retirou o lacre da garrafa e fez com que a rolha voasse e uma quantidade generosa de espuma, voassem pelos ares
- Você gostaria de fazer algum brinde especial? - perguntou enquanto enchia as taças e me lançava um dos seus olhares intensamente sedutores.
- Não. Vou acompanhar você, no seu.
Quando me entregou a taça, nossas mãos de tocaram por uma fração de segundos, suficiente para arrepiar meu corpo, completamente. Estávamos muito, muito perto um do outro. E aquela proximidade estava me impedindo de agir e reagir normalmente.
"Respira, Lia."
Fixei os olhos em um quadro da parede e tratei de saborear um pouco de champanhe. Mas, aquela noite, Henrique não parecia disposto a facilitar minha vida. Muito pelo contrário, ele se aproximou lentamente e diminui distância entre nós.
- Estava ansioso para encontrar você, outra vez.
- Por quê?
- Eu poderia dizer que devido ao nosso primeiro encontro, mas esse não foi o principal motivo.
- E qual foi?
- Você. Eu queria ficar perto, para entender algumas coisas.
- Que tipo de coisas?
- Prefiro não falar sobre isso, aqui. Talvez em outra ocasião, mais propícia.
Me senti sugada pela sensualidade e intensidade daqueles olhos azuis. Havia uma espécie de magnetismo entre nós, que nos obrigava a manter a proximidade. Eu queria me afastar, mas não conseguia, como se meus pés estivessem pregados no chão.
Estávamos tão próximos, que eu sentia a respiração dele bem perto do meu rosto. Engoli seco e controlei minhas emoções quando ele pousou uma mão em minha cintura e inclinou ainda mais o rosto na direção do meu.
Eu não conseguia me mexer. Continuei ali, parada, anestesiada, incapaz de quebrar a magia daquele momento.
- Eu acho melhor voltarmos para a recepção. Devem estar nos procurando. - apenas balbuciei as palavras.
- Tem razão.
Ele piscou algumas vezes, como se estivesse recobrando a consciência, então anunciou:
- Vou pedir a alguém para vir buscar a garrafa e a taças. Se não se importar, vou ficar mais um pouco.
Me afastei rapidamente e o deixei sozinho.
Encontrei um banheiro feminino no caminho de volta para a recepção.
"Caralho!"
Fui até o espelho e encarei meu reflexo.
Não restava a menor dúvida: eu estava completamente rendida ao charme de Henrique. Como eu faria para trabalhar com ele e resistir à toda aquela sensualidade e beleza?
- Você não pode deixar ele chegar tão perto outra vez. - falei para mim mesma - Você não é de ferro e nem tem sangue de barata.
Esperei que minha respiração normalizasse e minhas pernas parassem de tremer para sair do banheiro e voltar para a festa.
"Minha Nossa Senhora, chega ser pecado a beleza desse homem. Assim não tem cristã que aguente."
***
De volta à recepção, encontrei Dominique e sua nova acompanhante.
- Finalmente encontrei a mulher do momento. Sempre linda e elegante. - ele beijou minha mão e depois minha testa. - Boa noite, Lia.
- Boa noite, Dom. – sorri - Você também está muito elegante.
Iniciamos uma conversa agradável e eu notei que a conversávamos a companhia de Dom não tirava os olhos de mim. Usando um vestido assimétrico exageradamente decotado, a moça de longos cabelos negros, enroscou os braços em volta do pescoço do meu chefe, demarcando seu território e sua posse. Quase tive pena da pobre moça. Ela não sabia que, depois daquela noite, dificilmente o veria novamente.
Temendo ser alvo de mais uma namorada do meu chefe, inventei uma desculpa e me afastei. Estava bonita demais para levar um banho de champanhe aquela noite.
***
Encontrei Melina, alguns corredores depois, com cara de quem já bebera demais. Muito por acaso, ouvi alguém comentar que Henrique havia acabado de deixar o evento e isso me fez respirar aliviada.
- Você ainda está aqui? - ela falou com a voz bastante enrolada. - Achei que já tivesse ido embora.
- Estava em uma reunião de última hora com o chefe. - fiz uma careta - Mas, você parece que aproveitou bastante a noite, hein? Cadê seu namorado?
- Léo? Foi embora. Disse que estava cansado.
- Bom, eu já estou indo embora. Acredito que você deveria fazer o mesmo.
- Ah! Agora não. Deixa eu comemorar minha contratação mais um pouquinho? Comer e beber à custa do senhor "curtam a festa, que eu já estou indo".
Percebi que ela se referia a Henrique e imaginei que, talvez, ele tivesse feito ou dito algo que a deixou chateada. - Acho que está na hora de ir para casa, mocinha. Já passou da conta na bebida. Vou pedir um carro para você.
***
Acompanhei Melina até saída do prédio e fiquei aguardando a chegada do UBER.
Depois que ela foi embora, tomei a direção dos elevadores, decidida a encerrar a noite e ir para casa.
Enquanto caminhava até meu carro, as lembranças do encontro recente com Henrique passearam por minha mente. Eu poderia estar muito louca, mas, algo quase aconteceu naquela sala. E se eu não tivesse interrompido, poderia estar amargando uma tremenda decepção.
"Meu pai amado, me livra de confusão.