O silêncio que se seguiu ao som do órgão parando não foi pacífico. Foi o tipo de silêncio que precede um acidente de carro, aquele microssegundo em que o cérebro regista o horror antes que o corpo sinta o impacto. Audrey Sharp sentiu o sangue drenar do seu rosto, uma sensação física de frio que começou nas pontas dos dedos e subiu violentamente até à garganta.
Ela estava parada no altar da Catedral de St. Patrick, com quinhentos convidados da elite a observar as suas costas. O vestido de seda italiana, que custara mais do que o carro do seu pai, parecia agora pesar uma tonelada, arrastando-a para o chão.
- Repete, por favor? - A voz de Audrey saiu num sussurro que o microfone do padre, cruelmente eficiente, captou e amplificou para todo o salão.
Blake Miller, o homem com quem ela namorava há quatro anos, o homem que segurara a mão dela enquanto o pai dela morria no hospital, não olhava para ela. Ele olhava para os punhos da camisa, ajustando uma abotoadura de ouro que Audrey lhe dera de presente.
- Eu disse que não posso, Audrey. - A voz de Blake não tremia. Isso foi o que mais doeu. Não havia remorso, apenas uma irritação impaciente, como se ela o estivesse a fazer perder uma reunião de negócios. - Não posso casar contigo. Não faria sentido.
O buquê de peónias brancas escorregou dos dedos dormentes de Audrey e bateu no chão de mármore com um baque surdo.
Um murmúrio coletivo, como o som de um enxame de abelhas furiosas, explodiu nos bancos atrás dela. Audrey sentiu o estômago contrair-se violentamente.
- Não faz sentido? - Ela repetiu, a mente a tentar processar a realidade. - Estamos no altar, Blake.
-Exatamente.-Blake finalmente ergueu os olhos,mas não para ela. O olhar dele passou por cima do ombro de Audrey e fixou-se NA primeira fila.-Tiffany é quem entende O peso do meu futuro. O meu estatuto. Tu... Tu foste um passatempo divertido,Audrey. mas a brincadeira acabou.
Audrey seguiu o olhar dele. Tiffany Kensington, a sua suposta melhor amiga e dama de honra, levantou-se. Ela não parecia chocada. Ela parecia triunfante. O vestido dela, um tom de champanhe que roçava o inadequado para um casamento que não era o dela, brilhava sob as luzes.
Blake desceu os três degraus do altar. Ele não hesitou. Caminhou até Tiffany e segurou a mão dela. Tiffany sorriu, um sorriso pequeno e venenoso, e entrelaçou os dedos nos dele.
- Desculpa, querida - disse Tiffany, a voz projetada para que as primeiras filas ouvissem. - O coração quer o que o coração quer.
O mundo de Audrey inclinou-se. A humilhação não era apenas uma emoção; era uma queimadura química na pele. Ela conseguia sentir os olhares de pena, de escárnio, de choque. "A órfã pobre que tentou dar o golpe no herdeiro Miller e falhou", era o que pensavam.
O pai de Blake fez menção de se levantar, furioso com o escândalo, mas a mãe dele segurou-o pelo braço, sussurrando algo. Eles não iam intervir. Ninguém ia.
Audrey estava sozinha.
A vontade de chorar veio, forte e sufocante, mas ela mordeu o interior da bochecha até sentir o gosto metálico de sangue. Não, pensou ela. Não lhes vou dar isso.
Ela pegou o microfone da mão do padre, que estava paralisado de boca aberta.
- Obrigada por me livrares de um erro, Blake - a voz de Audrey ecoou, firme, embora as suas pernas tremessem como varas verdes. - É melhor descobrir que és um cobarde agora do que daqui a dez anos.
Ela virou-se de costas para ele. Não ia correr. Não ia sair a chorar pela nave central como uma vítima.
Os seus olhos, turvos pelas lágrimas não derramadas, varreram o fundo da igreja. Perto da saída, nas sombras, longe da família principal, havia uma figura isolada.
Victor Sterling.
O "pária" da família Sterling. O homem que todos diziam ter sido deserdado, o inválido amargo que vivia recluso numa mansão a cair aos pedaços. Ele estava sentado na sua cadeira de rodas motorizada, levando aos lábios um cantil de prata fosca, bebendo discretamente enquanto observava a cena com uma expressão de tédio absoluto.
Ele era a vergonha dos Sterling, assim como ela era agora a piada dos Miller.
Uma ideia insana, nascida do desespero e da fúria pura, cruzou a mente de Audrey. Se Blake queria um espetáculo, ela dar-lhe-ia um espetáculo. Se ele achava que ela sairia dali como uma mulher destruída, estava muito enganado.
Audrey rasgou a parte inferior do seu véu, que se prendera num banco, e começou a caminhar. Não para a saída, mas em direção a Victor.
O som dos seus saltos no mármore era o único ruído na igreja. Todos a seguiam com o olhar. Tiffany franziu a testa, confusa.
Audrey parou diante da cadeira de rodas de Victor. Ele era intimidante, mesmo sentado. Ombros largos num fato preto que parecia caro demais para alguém supostamente falido. O rosto dele era uma máscara de ângulos duros, com uma barba por fazer e olhos escuros, impenetráveis, que a analisaram de cima a baixo sem qualquer pudor.
- Bela cerimónia - disse Victor, a voz rouca e grave, fechando o cantil. - A parte do noivo a fugir foi um toque original.
Audrey ignorou o insulto. Ela agachou-se, ficando ao nível dos olhos dele. O cheiro dele invadiu-a: sândalo, tabaco e álcool forte.
- Precisas de uma esposa para calar a tua família e parar com as tentativas de te internarem ou casarem à força, não precisas? - Audrey disparou, lembrando-se das fofocas que ouvira.
Victor ergueu uma sobrancelha. O tédio nos olhos dele foi substituído por uma faísca de interesse perigoso.
- E tu? O que precisas, Srta. Sharp?
- Eu preciso de um marido para salvar a minha dignidade e sair desta igreja de cabeça erguida - respondeu ela, a voz a falhar por um segundo. - E preciso de alguém que odeie esta gente tanto quanto eu.
Victor olhou para Blake e Tiffany, que observavam a cena boquiabertos. Depois olhou para a sua própria família, que parecia horrorizada com a aproximação da "noiva rejeitada" ao "filho problema".
Os dedos de Victor tamborilaram no braço da cadeira de rodas. Um, dois, três toques. Um cálculo rápido.
Um sorriso lento e cínico curvou os lábios dele. Não era um sorriso gentil. Era o sorriso de um lobo que acabara de encontrar uma porta aberta no galinheiro.
- Muito bem - disse Victor, alto o suficiente para que a sua madrasta, na terceira fila, ouvisse e empalidecesse. - Vamos ao cartório, Srta. Sharp. O meu motorista está lá fora.
Ele girou a cadeira de rodas. Audrey levantou-se, limpou as lágrimas invisíveis, e colocou a mão no ombro dele. Juntos, a noiva abandonada e o aleijado deserdado, passaram por Blake Miller sem lhe dar um segundo olhar.
O som do carimbo a bater no papel do Registo Civil soou como um tiro de misericórdia.
O funcionário público olhou para o casal ímpar à sua frente com estranheza. A mulher ainda vestia um vestido de noiva de trinta mil dólares, agora com a bainha suja de poeira, e o homem na cadeira de rodas exalava uma aura de autoridade que não condizia com a sua suposta invalidez.
- Assine aqui, Sr. Sterling - disse o funcionário.
Victor pegou na caneta. A sua caligrafia era agressiva, pontiaguda, ocupando mais espaço do que o necessário. Audrey observou a mão dele. Era uma mão grande, com veias salientes e dedos longos. Não parecia a mão de um homem fraco.
Quando chegou a vez de Audrey, a sua mão tremia tanto que a assinatura saiu quase ilegível. A adrenalina do momento na igreja estava a dissipar-se, deixando para trás um vazio frio e o terror do que ela acabara de fazer. Ela acabara de se casar com um estranho.
-Feito-disse Victor,sem emoção. Ele nem olhou para ela.-Vamos.
Eles saíram para o sol da tarde. O motorista de Victor, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos chamado Bruno, abriu a porta de trás de um Mercedes preto antigo. Era um modelo clássico, quadrado, de uma era passada, com a pintura bem cuidada mas denunciando a idade.
Audrey viu Bruno ajudar Victor a transferir-se da cadeira para o banco do carro. Victor fez uma careta de dor, os músculos do pescoço tensos, enquanto arrastava as pernas "inúteis" para dentro.
Audrey sentiu uma pontada de culpa. Ele sofre, pensou ela. E eu usei-o.
Dentro do carro, o silêncio era espesso. O interior cheirava a couro velho e nostalgia. O carro deslizou pelas ruas, o motor ruidoso contrastando com os veículos modernos ao redor.
Victor quebrou o silêncio sem olhar para ela, mantendo os olhos na janela.
- Não esperes luxo, Audrey. Ou aceitação.
- Eu sei - disse ela, abraçando os próprios braços. - Ouvi dizer que a tua família cortou o teu acesso ao fundo fiduciário.
Victor soltou uma risada seca, sem humor.
- Cortaram tudo. Este carro e a mansão são heranças da minha mãe, protegidos por cláusulas antigas que impedem a venda, mas não geram dinheiro. Bruno trabalha por lealdade à memória dela, porque eu não tenho como lhe pagar um salário. És a senhora de uma ruína.
Audrey olhou para o perfil dele. A mandíbula tensa, a cicatriz pequena perto da orelha. A realidade da situação financeira dele parecia palpável naquele carro antigo.
- Eu não casei contigo pelo dinheiro, Victor. Eu trabalho. Nós vamos dar um jeito.
Ela estendeu a mão e tocou levemente no dorso da mão dele, um gesto instintivo de conforto.
Victor retirou a mão bruscamente, como se ela fosse feita de fogo. Ele virou-se para ela, os olhos negros faiscando com uma hostilidade repentina.
- Regra número um: não me toques com essa piedade nojenta.
Audrey recolheu a mão, assustada com a violência verbal.
-Desculpa.
O carro atravessou os portões de ferro forjado da Mansão Sterling. Era uma estrutura imponente de pedra cinzenta, com gárgulas nos beirais e hera a subir pelas paredes. Parecia uma casa saída de um romance gótico, bela mas triste, e estranhamente vazia.
Higgins, o mordomo, esperava na porta. Ele era um homem idoso, com postura militar e um rosto que parecia talhado em granito.
-Bem-vindo a casa,Sr. Sterling-disse Higgins,sem demonstrar surpresa ao ver a noiva.-Devo preparar O quarto de hóspedes para a senhora?
Audrey suspirou de alívio internamente. A última coisa que ela queria era partilhar uma cama com este homem volátil.
Victor percebeu o alívio dela. Os olhos dele estreitaram-se. Ele estava a testá-la desde o momento na igreja. Queria saber se ela era apenas mais uma oportunista que fugiria ao primeiro sinal de dificuldade ou intimidade com um "inválido".
-não-disse Victor,a voz cortante.-Leva as coisas dela para O quarto principal.
Os olhos de Audrey arregalaram-se. O coração dela começou a bater contra as costelas como um pássaro preso.
-Victor...-ela começou.
- Somos casados, não somos? - Victor desafiou-a, um sorriso cruel a brincar nos lábios. - Ou o contrato era apenas para as câmaras?
Higgins piscou, a única quebra na sua máscara profissional, mas assentiu.
- Como desejar, senhor.
Eles entraram no hall. Era frio, mal iluminado por um lustre de cristal coberto de pó. Um enorme retrato da família Sterling dominava a escadaria. Mostrava o pai de Victor, a madrasta Eleanor, o meio-irmão Julian, e Victor ao fundo, quase nas sombras, com uma expressão sombria.
- Tens olhos tristes na foto - comentou Audrey, tentando desviar o foco do pânico de dormir com ele.
Victor travou a mandíbula. Ela via demasiado.
O telemóvel de Audrey, que ela segurava com força na mão, começou a vibrar. O nome "Blake" apareceu no ecrã.
Ela olhou para o aparelho, sentindo a náusea voltar.
- Não vais atender? - perguntou Victor, observando-a como um falcão.
Audrey recusou a chamada e desligou o aparelho completamente.
- Não há nada para dizer.
-Ótimo-Victor fez sinal para Higgins empurrar a cadeira.-Bem-vinda ao inferno,Sra. Sterling.
A luz da manhã entrava pelas cortinas pesadas de veludo, iluminando a poeira que dançava no ar. Audrey acordou na cama enorme de dossel, o corpo rígido. Ela estendeu a mão para o lado.
Vazio. O travesseiro ao lado dela estava intacto. Victor não dormira ali.
Um misto de alívio e insulto percorreu-a. Ele fizera toda aquela cena sobre dormirem juntos apenas para a assustar?
Audrey levantou-se. O vestido de noiva estava num canto, uma pilha de seda triste. Ela vestiu a única roupa que tinha, a lingerie do casamento e um roupão de seda que encontrara no armário. Precisava das suas coisas. Precisava de enfrentar a realidade.
Ela desceu as escadas. A casa estava silenciosa como um túmulo.
-Higgins?-chamou ela.
O mordomo apareceu da cozinha, segurando uma bandeja de prata.
- Bom dia, senhora. O Sr. Sterling está... indisposto. Pediu para não ser incomodado.
- Eu preciso de ir ao meu antigo apartamento buscar as minhas roupas - disse Audrey.
- Posso chamar o Bruno para levá-la no Mercedes.
-não-Audrey ergueu O queixo.-Quero ir sozinha. não Quero gastar a gasolina dele.
Ela chamou um táxi, usando o dinheiro de emergência que guardava na capa do telemóvel.
Quando chegou ao prédio onde morava com Blake, o estômago dela deu um nó. A chave ainda rodou na fechadura. Ela empurrou a porta.
A cena que encontrou fê-la parar. Blake estava sentado no sofá, com os pés em cima da mesa de centro, enquanto Tiffany andava pela sala a filmar com o telemóvel num tripé de luz anelar.
- E aqui está a sala, pessoal! Vejam como é pequena e abafada! - Tiffany narrava para a câmara, a voz estridente. - É aqui que a pobre Audrey vivia antes de tentar enganar o meu Blakezinho.
Blake riu, um som cruel.
- Acabou o showzinho, Audrey? - perguntou ele, vendo-a na porta. - Vieste rastejar de volta? Sabia que o aleijado não ia aguentar muito tempo.
Audrey sentiu a bílis subir à garganta.
- Vim buscar as minhas coisas, Blake. E o que fazem aqui? O contrato de arrendamento está em meu nome.
Blake encolheu os ombros, arrogante.
- Estamos só a recolher o que é "nosso". E a Tiffany precisava de um cenário para o vlog dela sobre "Como identificar uma caça-fortunas".
- Saiam daqui - disse Audrey, a voz trémula de raiva. - Agora.
Ela passou por eles e foi para o quarto. Começou a atirar roupas para dentro de uma mala aberta.
Tiffany apareceu na porta do quarto, ainda a segurar o telemóvel a filmar.
- Digam olá à noiva psicopata! - Tiffany apontou a câmara para o rosto de Audrey. - Olha a cara de derrota dela.
Audrey tentou desviar-se, mas Tiffany bloqueou o caminho.
-Deixa-me passar,Tiffany.
- Ou o quê? Vais chorar? - provocou Tiffany, aproximando o telemóvel do rosto de Audrey agressivamente.
Num reflexo defensivo, Audrey empurrou a mão de Tiffany para afastar a câmara.
Tiffany aproveitou o momento. Ela soltou um grito exagerado e deixou o telemóvel cair no tapete fofo, atirando-se dramaticamente contra a moldura da porta.
- Ah! Ela agrediu-me! Blake! - gritou Tiffany, olhando para a câmara que, convenientemente, continuava a filmar do chão num ângulo perfeito.
Blake correu para o quarto.
- Estás louca, Audrey?! - Blake rugiu, avançando para ela.
- Eu só afastei o telemóvel! É tudo teatro! - Audrey recuou, encurralada entre a cama e a cómoda.
Blake avançou. Havia uma violência real nos olhos dele agora, alimentada pela plateia invisível da transmissão de Tiffany.
Audrey agiu por instinto. Ela agarrou num vaso de cristal pesado que estava na cómoda e ergueu-o como uma arma.
- Dá mais um passo - sibilou Audrey, a voz gelada - e eu parto isto na tua cara. Eu juro, Blake. Não tenho mais nada a perder.
Blake parou. Ele nunca a vira assim. Audrey sempre fora a pacificadora. A mulher à frente dele tinha os olhos selvagens de um animal encurralado.
- Sai daqui - disse Blake, recuando um passo, a bravata a desaparecer. - Leva o teu lixo e vai-te embora.
Audrey pegou na mala com a mão livre, sem baixar o vaso, mantendo-o apontado para eles.
- Fiquem com o apartamento - disse ela, recuando até à saída. - O aluguel está dois meses atrasado porque eu parei de pagar as vossas contas na semana passada. Boa sorte a explicar isso ao senhorio.
A expressão de choque no rosto de Blake foi a única vitória que ela levou consigo. Ele sempre vivera da mesada do pai e do salário dela, gastando tudo em aparências.
Ela saiu e bateu a porta com toda a força que tinha, deixando para trás a vida que achava que queria.