Grávida de nove meses, estava presa num túnel inundado em Lisboa.
A água subia rapidamente, e o pânico apoderava-se de mim enquanto ligava desesperadamente para o Marcos.
A sua voz atendeu, irritada e distante, abafada pelos ruídos do fundo.
"Marcos, estou presa! A água está a subir!" implorei.
A sua resposta foi um golpe gélido: "Chama os bombeiros. Não te posso ajudar agora. A Sofia está a ter um ataque de pânico."
A Sofia? Enquanto eu me afogava, ele socorria a amiga de infância?
Abandonada, dei à luz prematuramente, perdendo o nosso bebé.
No hospital, Marcos e a sogra, Helena, defendiam o indefensável, minimizando a tragédia e culpando-me.
"Ele também está a sofrer," disse Helena, chamando a morte do nosso filho de "acidente".
Acidente? Seria eu a tola por exigir apoio, enquanto a minha vida e a do nosso bebé se desfaziam por uma aparente "crise de pânico"?
A voz de Sofia soava falsamente preocupada ao telefone, mas os hospitais não tinham registo dela.
Onde estavam eles, afinal? Uma terrível suspeita começou a crescer.
A verdade gelou-me: descobri um recibo. Um anel de noivado para "A minha Sofia. Para sempre."
No dia em que eu lutava pela vida, ele pedia outra mulher em casamento.
A dor virou fúria.
Não haveria perdão.
Apenas justiça.
Eles não me iriam destruir.
Eu reconstruir-me-ia, pedaço a pedaço, livre das suas mentiras.
A chuva caía sem parar, um barulho surdo e constante no teto do carro.
Eu estava presa num túnel, a água subindo rápido demais.
O rádio do carro anunciava o caos, a cidade de Lisboa estava debaixo de água, um dilúvio repentino que ninguém esperava.
A minha barriga de nove meses estava dura, o bebé mexia-se, inquieto.
O meu coração batia descontrolado.
Peguei no telemóvel com as mãos a tremer, disquei o número do meu marido, Marcos.
A chamada demorou a ser atendida, cada toque era uma eternidade.
Finalmente, a voz dele soou, irritada.
"Lia? O que foi? Estou no meio de uma coisa importante."
A voz dele estava distante, abafada por outros sons.
"Marcos, estou presa," a minha voz falhou, "no túnel da Avenida da Liberdade, a água está a subir muito rápido."
Houve um silêncio do outro lado.
"Chama os bombeiros," ele disse, com uma frieza que me gelou. "Não posso sair agora."
"Não posso sair? O que é mais importante do que eu? Do que o nosso filho?"
Eu conseguia ouvir uma voz feminina ao fundo, uma voz que eu conhecia demasiado bem. Sofia. A amiga de infância dele.
"A Sofia está a ter um ataque de pânico por causa da tempestade, não a posso deixar sozinha," ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Um ataque de pânico.
Eu estava a afogar-me com o filho dele na barriga, e ele estava a consolar a amiga por um ataque de pânico.
"Marcos, por favor," eu implorei, as lágrimas a misturarem-se com o suor frio na minha testa.
"Lia, para de ser dramática. Liga para o 112, eles resolvem. Tenho de desligar."
E ele desligou.
O som do "tu-tu-tu" foi mais assustador do que o barulho da água a bater contra os vidros do carro.
Olhei para a água barrenta que já cobria metade da porta.
Eu e o meu filho, estávamos sozinhos.
Tentei ligar para os serviços de emergência, mas a rede estava em baixo.
Todas as minhas chamadas falhavam. O pânico instalou-se de vez.
A água continuava a subir, implacável. Já sentia a humidade fria nos meus pés.
O bebé mexia-se violentamente, como se sentisse o meu medo.
Eu batia no vidro, gritava, mas ninguém me podia ouvir. O túnel era uma armadilha de betão e água.
Fechei os olhos, a minha mão a proteger a minha barriga.
Pensei em todas as vezes que o Marcos pôs a Sofia em primeiro lugar.
As festas de família que perdemos porque a Sofia "precisava dele".
As férias canceladas porque o gato da Sofia ficou doente.
Eu sempre aceitei, sempre achei que era eu a ser ciumenta, insegura.
A minha sogra, Dona Helena, sempre dizia: "Oh, querida, eles são como irmãos. Tens de compreender."
Compreender.
Agora, a compreensão parecia uma estupidez sem tamanho.
Uma dor aguda atravessou a minha barriga, diferente de tudo o que já tinha sentido.
Não era o bebé a mexer-se, era uma cãibra, forte, paralisante.
Gritei, não de medo, mas de dor.
Foi nesse momento que o vidro da janela traseira se estilhaçou.
Um bombeiro, com a cara séria e molhada, olhou para mim.
"Senhora, temos de a tirar daqui, agora!"
Ele não esperou por uma resposta, abriu a porta por dentro e a água entrou de rompante.
A corrente era forte, mas os braços dele eram mais.
Ele puxou-me para fora, para um pequeno barco insuflável.
A última coisa que vi antes de desmaiar de dor foi o meu carro a ser engolido pela água escura.