Nunca gostei de acreditar em destino.
Sempre achei que as pessoas escolhiam seus caminhos e viviam com as consequências deles. Ainda assim, toda vez que olhava para Ethan Carter, era impossível não pensar que, talvez, algumas histórias realmente estivessem escritas antes mesmo de começarem.
Nós nos conhecíamos desde crianças.
Nossas avós eram vizinhas quando a família Carter ainda morava na pequena cidade onde cresci. Eu passava as tardes correndo pela rua com os dois irmãos, mesmo odiando o frio que insistia em congelar meus dedos. Ethan era o mais velho, impulsivo e cheio de energia. Ryan, dois anos mais novo, era o garoto quieto que sempre ficava para trás quando eu tropeçava, apenas para estender a mão antes que eu pudesse me levantar sozinha.
Os anos passaram.
A família Carter mudou de cidade quando os dois começaram a chamar atenção nas categorias de base do hóquei. Continuamos nos vendo durante as férias, aniversários e festas da família. Ethan se tornou meu primeiro beijo.
Meu primeiro namorado.
Meu primeiro... tudo.
E, agora, seria meu marido.
Sorri sozinha enquanto prendia o cabelo em um coque desajeitado diante do espelho da cafeteria.
- Está sorrindo para o espelho ou pensando no noivo? - perguntou Mia, minha colega de trabalho, apoiando os cotovelos no balcão.
Revirei os olhos.
- Isso está tão na cara assim?
- Você está com cara de quem ganhou na loteria.
Talvez tivesse ganhado.
Nem toda garota tinha a sorte de casar com o amor da infância.
Peguei o avental azul-marinho e o amarrei na cintura antes de começar a organizar as xícaras.
A cafeteria onde eu trabalhava era pequena, mas vivia cheia nos dias de jogo. Camisas de times cobriam as paredes, tacos antigos decoravam o teto e uma televisão enorme exibia reprises das melhores partidas da temporada.
Eu adorava aquele lugar.
Adorava conversar com os clientes, decorar seus pedidos e ouvir as discussões intermináveis sobre quem levantaria a taça naquele ano.
Só havia um assunto proibido.
Comparar Ethan e Ryan.
Os irmãos Carter defendiam equipes rivais na principal liga canadense, e bastava alguém dizer que um era melhor do que o outro para metade da cafeteria começar uma discussão.
Meu celular vibrou sobre o balcão.
Sorri antes mesmo de olhar.
❤️ Ethan
"Passo aí depois do treino."
Respondi imediatamente.
"Estou esperando."
Quase no mesmo instante, outra mensagem apareceu.
Ryan
"Boa sorte hoje. Ouvi dizer que a cafeteria vai lotar."
Franzi a testa.
"Obrigada. Você também. Boa viagem para o jogo de amanhã."
"Obrigado, Lee."
Lee.
Só Ryan ainda me chamava assim.
Era um apelido da infância que Ethan abandonara muitos anos antes.
Sorri sem perceber e guardei o celular no bolso.
- O noivo? - Mia perguntou.
- Não. O Ryan.
Ela arqueou uma sobrancelha.
- O irmão dele?
- Sim.
- Ele ainda fala com você?
- Claro. Somos amigos desde crianças.
Ela fez uma expressão curiosa, mas não comentou nada.
As portas da cafeteria se abriram, trazendo uma corrente gelada junto com os primeiros clientes.
As horas passaram voando.
Preparei cafés, servi tortas, ouvi reclamações sobre árbitros e sorri tanto que minhas bochechas começaram a doer.
Quando o movimento finalmente diminuiu, ouvi aplausos perto da entrada.
Nem precisei olhar.
Conhecia aquele tipo de reação.
Ethan entrou usando um boné preto e um casaco esportivo do time. Mesmo tentando passar despercebido, era impossível.
Ele tinha aquele sorriso de propaganda e um carisma que parecia iluminar qualquer ambiente.
Assim que me viu, caminhou até o balcão.
- Oi, futura senhora Carter.
Sorri.
- Você chegou.
- Prometi que viria.
Ele se inclinou sobre o balcão e me beijou.
Os clientes ao redor aplaudiram novamente.
Corei.
- Você faz isso de propósito.
- Faço.
Ri, empurrando seu ombro.
- Convencido.
- Só porque você gosta.
Gostava mesmo.
Muito.
Enquanto preparava um café para ele, Ethan cumprimentava praticamente todo mundo na cafeteria.
Ele nasceu para ser o centro das atenções.
Entreguei sua bebida.
- Como foi o treino?
- Cansativo.
- Valeu a pena?
- Sempre vale.
Conversamos por alguns minutos até que seu celular vibrou.
Ele olhou rapidamente para a tela.
Por um segundo...
Apenas um segundo...
Seu sorriso mudou.
Foi quase imperceptível.
Ele virou o aparelho para baixo sobre o balcão antes que eu pudesse enxergar quem havia mandado a mensagem.
- Problema? - perguntei.
- Patrocinador.
Respondeu rápido demais.
Depois sorriu outra vez.
- Nada importante.
Não insisti.
Nunca fui do tipo ciumenta.
Confiava nele.
Confiava tanto que nem percebi quando seus dedos deslizaram discretamente para longe do celular sempre que eu me aproximava.
Naquele momento, aquilo parecia apenas um detalhe sem importância.
Eu ainda não sabia que pequenos detalhes eram capazes de destruir uma vida inteira.
Fechar a cafeteria sempre me dava uma sensação estranha.
Era como se, junto com as luzes, eu desligasse a correria do dia e finalmente pudesse respirar.
Guardei o avental no armário, peguei minha bolsa e saí para o estacionamento. O vento frio do início da noite fez meu nariz arder.
Meu celular vibrou.
Ethan: Minha mãe marcou um jantar. Hoje, às oito. Você vem comigo?
Sorri.
Eu: Achei que nem precisava perguntar.
Ethan: Minha futura esposa sempre será convidada.
Balancei a cabeça, divertida.
- Convencido... - murmurei.
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A casa dos Carter continuava exatamente igual à que eu frequentava desde criança.
O jardim estava coberto por uma fina camada de neve, as luzes da varanda iluminavam a entrada e o cheiro de comida escapava pela janela da cozinha.
Nem precisei bater.
A senhora Carter abriu a porta antes.
- Leide!
Ela me abraçou com força.
- Você emagreceu.
- A senhora fala isso toda vez que me vê.
- Porque é verdade.
Ri enquanto entrava.
O senhor Carter apareceu logo atrás, sorrindo.
- Ainda bem que chegou. Estávamos apostando quem chegaria primeiro.
- Quem ganhou?
- Ryan.
Olhei em volta.
- Ele já está aqui?
- Está na cozinha.
Mal terminei de tirar o casaco quando ouvi sua voz.
- Achei que fosse se atrasar.
Virei.
Ryan estava encostado na bancada, usando uma blusa cinza simples e jeans escuros. O cabelo ainda estava úmido, provavelmente depois do treino.
Sorriu daquele jeito discreto de sempre.
- O trânsito estava impossível.
- Ou você demorou escolhendo a roupa.
Olhei para mim mesma.
- Está dizendo que fiquei muito tempo me arrumando?
- Estou dizendo que acertou.
Meu rosto esquentou.
- Você continua péssimo em elogios.
- Eu achei que esse tinha sido bom.
Antes que eu pudesse responder, Ethan entrou na cozinha.
- Vocês começaram sem mim?
Ryan deu de ombros.
- Alguém precisava conversar com ela.
Ethan passou um braço pela minha cintura.
- Agora ela conversa comigo.
Ryan apenas sorriu.
Foi rápido.
Mas, por um instante, tive a impressão de que aquele sorriso não alcançou seus olhos.
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Durante o jantar, a mesa era tomada por conversas sobre hóquei.
Era inevitável.
Os dois irmãos defendiam equipes rivais e o campeonato estava chegando à reta mais importante.
- Vocês jogam um contra o outro daqui a duas semanas. - comentou o senhor Carter.
- Vamos ganhar. - Ethan respondeu imediatamente.
Ryan cortou um pedaço da carne.
- Você fala isso antes de todo jogo.
- Porque normalmente acontece.
- Nem sempre.
Os dois trocaram um olhar.
A senhora Carter suspirou.
- Vocês conseguem passar um jantar inteiro sem competir?
- Não. - responderam ao mesmo tempo.
Todos riram.
Todos, menos eu.
Sempre existia uma tensão entre eles.
Uma disputa silenciosa.
Como se nenhum dos dois soubesse exatamente quando aquilo havia começado.
Depois da sobremesa, Ethan recebeu uma ligação.
Olhou a tela e se levantou.
- Preciso atender.
Saiu para o quintal.
Observei pela janela enquanto ele caminhava para longe da casa.
- Trabalho? - perguntei.
Ryan, sentado ao meu lado, olhou discretamente para fora.
- Talvez.
- Como assim?
Ele demorou alguns segundos para responder.
- Nada.
- Ryan...
- Eu realmente não sei.
Seu tom era sincero.
Ainda assim, percebi que havia algo estranho em seu semblante.
Como se tivesse pensado em dizer alguma coisa... e desistido.
Resolvi não insistir.
Quando Ethan voltou, guardou o celular no bolso com rapidez.
- Desculpem.
- Problemas? - perguntou sua mãe.
- Empresário.
A mesma resposta que havia dado mais cedo.
Nem pensei sobre isso.
Na minha cabeça, fazia sentido.
Jogadores famosos recebiam ligações o tempo inteiro.
O restante da noite passou entre risadas e lembranças da infância.
Antes de ir embora, a senhora Carter segurou minhas mãos.
- Falta tão pouco para esse casamento...
Sorri.
- Nem acredito.
Ela beijou minha testa.
- Você já faz parte da nossa família há muitos anos, querida.
Olhei para Ethan, que conversava com o pai perto da porta.
Depois, meus olhos encontraram Ryan.
Ele também estava me olhando.
Assim que percebeu, desviou imediatamente a atenção para a janela.
Naquele instante, achei que fosse apenas coincidência.
Não fazia ideia de que Ryan desviava o olhar porque, há anos, tentava esconder um sentimento que jamais deveria existir.
A neve caía devagar quando acordei no sábado.
Olhei para o teto do apartamento por alguns segundos antes de me lembrar do compromisso do dia.
O jogo.
Não era um jogo qualquer.
Era o clássico da temporada.
Ethan enfrentaria Ryan pela primeira vez naquele campeonato.
Peguei o celular na mesa de cabeceira.
Havia uma mensagem de Melissa.
"Você vem comigo? Tenho uma surpresa para você."
Sorri.
Melissa era minha melhor amiga desde o ensino médio. Foi uma das primeiras pessoas a comemorar quando Ethan me pediu em casamento e, desde então, fazia questão de participar de cada detalhe da cerimônia.
"Passo aí em meia hora."
Levantei da cama e fui me arrumar.
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O ginásio estava lotado.
Camisas azuis de um lado.
Vermelhas do outro.
A rivalidade entre as torcidas era quase tão intensa quanto a dos jogadores.
Melissa segurava dois copos de chocolate quente enquanto caminhávamos pelos corredores.
- Está nervosa?
- Um pouco.
- Pelo Ethan?
- Pelos dois.
Ela riu.
- Você é a única pessoa que torce pelos dois irmãos ao mesmo tempo.
- É impossível escolher.
Ela deu de ombros.
- Eu escolheria o seu noivo.
Sorri.
- Eu também.
Encontramos nossos lugares perto do gelo.
As luzes diminuíram.
A apresentação dos jogadores começou.
O time de Ethan entrou primeiro.
Os gritos da torcida fizeram o estádio inteiro vibrar.
Quando Ethan apareceu, levantou o taco em direção às arquibancadas.
Sorri imediatamente.
Então veio o outro time.
Ryan liderava a entrada como capitão.
Mesmo cercado pelos companheiros, seus olhos percorreram rapidamente a arquibancada.
Por um instante...
Encontraram os meus.
Ele sorriu.
Discreto.
Quase imperceptível.
Depois voltou a encarar o gelo.
- Acho estranho como ele sempre procura você. - comentou Melissa.
- Somos amigos.
- Ainda assim...
- Ele faz isso desde criança.
Ela não respondeu.
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A partida começou intensa.
Os irmãos jogavam como se não compartilhassem o mesmo sobrenome.
Cada disputa pelo disco terminava em trombadas.
Cada gol era comemorado como uma provocação.
No segundo período, Ethan marcou.
Correu em direção ao vidro e apontou para mim.
As câmeras fizeram questão de mostrar.
Meu rosto apareceu no telão.
A torcida vibrou.
Balancei a mão, completamente envergonhada.
Ryan observou a cena do outro lado da pista.
Seu sorriso desapareceu por alguns segundos antes de voltar para a partida.
No último período, porém, foi ele quem decidiu o jogo.
Recebeu um passe perfeito, driblou dois defensores e acertou o disco no ângulo.
Gol.
O estádio explodiu.
Ryan apenas ergueu os braços.
Sem provocações.
Sem olhar para Ethan.
Quando o cronômetro zerou, o placar marcava 3 a 2 para seu time.
Enquanto os jogadores se cumprimentavam, Ethan bateu o ombro com força no irmão.
Forte demais para ser um simples cumprimento.
Ryan apenas respirou fundo.
Não reagiu.
- Eles vão acabar brigando um dia. - murmurei.
Melissa deu uma risada.
- Homens.
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Depois do jogo, fomos para a área reservada às famílias.
Os atletas começaram a sair dos vestiários.
Ryan apareceu primeiro.
Ainda com o cabelo molhado pelo banho, caminhou até nós.
- Oi, Lee.
Sorriu.
Depois olhou para Melissa.
- Oi.
Ela respondeu com um aceno rápido.
- Belo jogo. - falei.
- Obrigado.
Ele coçou a nuca.
- Desculpa por estragar sua comemoração.
Franzi a testa.
- Você não estragou nada.
- Achei que estivesse torcendo pelo Ethan.
- Eu estava torcendo para ninguém sair machucado.
Ele riu.
- Continua igual.
Antes que eu pudesse responder, Ethan apareceu.
O clima mudou imediatamente.
- Está feliz? - perguntou ao irmão.
Ryan manteve a calma.
- Foi só um jogo.
- Para você, talvez.
Os dois ficaram frente a frente.
Senti um aperto no peito.
- Ethan...
Ele respirou fundo e deu um passo para trás.
- Esquece.
Passou o braço ao redor da minha cintura.
- Vamos?
Assenti.
Antes de sair, olhei para trás.
Ryan continuava parado no mesmo lugar.
Sozinho.
Quando nossos olhares se cruzaram mais uma vez, ele apenas fez um pequeno gesto com a cabeça, desejando boa noite.
Sorri em resposta.
Não percebi que Ethan observava aquela troca de olhares.
Nem que, pela primeira vez, um incômodo silencioso começava a nascer dentro dele.
Naquele momento, pensei que estivesse voltando para casa ao lado do homem que amava.
Sem imaginar que o verdadeiro amor havia permanecido para trás, parado no corredor de um estádio de hóquei.