Meu noivo, Fernando, e eu estávamos juntos há dez anos. Eu estava no altar da capela que eu mesma projetei, esperando para me casar com o homem que tinha sido meu mundo inteiro desde o ensino médio.
Mas quando nossa cerimonialista, Helena, que estava celebrando o casamento, olhou para ele e perguntou: "Fernando Ferraz, você quer se casar comigo?", ele não riu. Ele olhou para ela com um amor que eu não via há anos e disse: "Sim, eu aceito."
Ele me deixou sozinha no altar. A desculpa dele? Helena, a outra, estava supostamente morrendo de um tumor cerebral. Depois, ele me forçou a doar meu tipo sanguíneo raro para salvá-la, mandou sacrificar meu amado gato para satisfazer os caprichos cruéis dela, e até me deixou para morrer afogada, passando por mim para tirá-la da água primeiro.
A última vez que ele me deixou para morrer, eu estava sufocando no chão da cozinha, tendo um choque anafilático por causa do amendoim que Helena colocou de propósito na minha comida. Ele escolheu levá-la ao hospital por uma convulsão falsa em vez de salvar minha vida.
Eu finalmente entendi. Ele não apenas me traiu; ele estava disposto a me matar por ela.
Enquanto eu me recuperava no hospital, sozinha, meu pai ligou com uma proposta insana: um casamento de conveniência com Arthur Medeiros, um recluso e poderoso CEO de tecnologia. Meu coração era uma coisa morta, oca. O amor era uma farsa. Então, quando ele perguntou se uma troca de noivo estava nos planos, eu me ouvi dizer: "Sim. Eu me caso com ele."
Capítulo 1
Clara Vasconcelos e Fernando Ferraz deveriam ser uma história de amor para a posteridade. Dez anos, uma década de memórias compartilhadas que se estendiam de um nervoso baile de formatura do ensino médio até este exato momento, no altar. Clara, uma talentosa arquiteta, tinha até mesmo projetado a bela capela, um testamento para o futuro que ela acreditava que estavam construindo. Fernando, um bem-sucedido dono de construtora, era o homem que tinha sido sua âncora, sua outra metade, desde que eram adolescentes.
A conexão deles já foi uma lenda local em Gramado. Fernando, o atleta popular da escola, só tinha olhos para a quieta e brilhante Clara. Ele a seguiu para a mesma universidade, a UFRGS, apoiou-a durante as exaustivas provas de arquitetura e celebrou cada uma de suas conquistas como se fossem dele. Ele era o homem que, após uma pequena discussão no terceiro ano da faculdade, dirigiu por três horas em uma tempestade de neve apenas para deixar uma única gardênia perfeita - a flor favorita dela - em sua porta com um bilhete que dizia: "Meu mundo fica sem cor sem você." Por dez anos, ele tinha sido o mundo dela.
Aquele mundo perfeito começou a rachar seis meses atrás. Começou sutilmente. Fernando, que sempre fora um livro aberto, tornou-se mais reservado com seu celular. Começou a trabalhar até tarde, citando pressões em um novo projeto imobiliário. Clara, confiante e preocupada com os planos do casamento, atribuiu tudo ao estresse. Ela até sentiu uma pontada de culpa por não estar sendo mais solidária.
O primeiro tremor real veio em uma noite de terça-feira. Fernando estava no banho, e seu celular, deixado na mesa de cabeceira, vibrava incessantemente. Foi um reflexo, não suspeita, que a fez olhar para a tela. Uma série de notificações de um número desconhecido. Seu estômago se contraiu. Ela disse a si mesma que não era nada, apenas algo do trabalho. Mas uma sensação fria a invadiu.
Mais tarde naquela semana, enquanto procurava um documento em seu notebook, ela viu uma pasta desbloqueada na área de trabalho. O nome era inócuo: "Projeto H." A curiosidade, uma coisa corrosiva e feia que ela não sentia há uma década, a fez clicar.
Não eram plantas ou projeções financeiras. Era um álbum de fotos. Centenas de fotos de uma mulher que Clara nunca tinha visto antes. Uma mulher com olhos brilhantes e vivazes e um sorriso que parecia iluminar cada foto. Ela estava rindo em um barco, tomando café em uma cafeteria que Clara e Fernando frequentavam, até mesmo posando de forma brincalhona no que era claramente o escritório de Fernando. As fotos mais recentes eram datadas de apenas alguns dias atrás.
Um arquivo de texto separado continha as conversas deles. As mãos de Clara tremiam enquanto ela lia.
"Helena, você é como um incêndio. Não consigo desviar o olhar."
"Pensando em você de novo. Sua risada não sai da minha cabeça."
"Ela é... confortável. Estável. Você é... todo o resto."
O ar sumiu dos pulmões de Clara. Helena. O nome era desconhecido, mas agora parecia gravado em seu cérebro. Ela rolou pelos e-mails recentes de Fernando. Lá estava ela. Helena Corrêa. A cerimonialista do casamento deles. A mulher que a própria Clara havia contratado três meses antes, encantada por sua eficiência e personalidade borbulhante. A mulher que tinha acesso a todos os detalhes de suas vidas.
Olhando para trás, os sinais estavam todos lá, gritando para ela. O súbito interesse de Fernando nos detalhes do casamento, participando de reuniões que ele antes chamava de "perda de tempo". Seus olhares demorados para Helena durante as consultas, que Clara havia confundido com simples apreciação por seu trabalho. A maneira como ele começou a usar frases e piadas que não eram dele, frases que ela agora via digitadas em suas mensagens para Helena. O amor que ele antes derramava inteiramente em Clara agora estava sendo desviado, redirecionado para outra pessoa.
Naquela noite, ela o confrontou. As fotos estavam abertas na tela do notebook quando ele entrou no quarto deles. Ele as viu, e a cor sumiu de seu rosto.
"Quem é ela, Fernando?" A voz de Clara era pouco mais que um sussurro.
Ele ficou em silêncio por um longo e agonizante minuto. Um minuto onde dez anos de confiança se transformaram em pó.
"Eu... eu me deixei levar, Clara," ele finalmente disse, sua voz tensa. "Foi só um momento."
"Um momento? Existem centenas de fotos. Você disse a ela que eu era 'estável' enquanto ela era 'todo o resto'!" As palavras pareciam ácido em sua boca.
"Ela é tão... cheia de vida," ele gaguejou, desviando o olhar, incapaz de encará-la. "Diferente. Foi um erro. Uma atração estúpida e passageira. Não significou nada."
Clara sentiu uma onda de náusea. Seu corpo inteiro gelou. "Então, quem você escolhe?" ela perguntou, o ultimato pairando no ar, pesado e final.
Ele olhou para ela então, seu rosto uma máscara de culpa. "Você, Clara. Claro que é você. Sempre foi você."
Ele jurou que tinha acabado. Jurou que era apenas uma paixão estúpida que saíra do controle, que ele nunca a havia traído fisicamente, que estava cego pela novidade. Para provar, ele pegou o celular e, bem na frente dela, apagou o número de Helena Corrêa e todas as fotos. Ele abraçou Clara, implorando por perdão, prometendo que todo o seu futuro era com ela e somente com ela.
Uma parte dela, a parte lógica e com amor-próprio, gritava para ela ir embora. Mas a outra parte, a parte que amava este homem por um terço de sua vida, estava desesperada para acreditar nele. Ela escolheu acreditar nele. Ela enterrou a dor e a traição, dizendo a si mesma que todo relacionamento de longo prazo tem seus testes. Este era o deles. Eles superariam. Eles ainda se casariam.
Uma semana depois, Fernando veio até ela com uma proposta estranha.
"A Helena me ligou," ele disse, seu tom cuidadosamente casual. "Ela se desculpou por tudo. Ela se sente péssima. Ela é uma boa pessoa, Clara, ela só... cometeu um erro."
Clara não disse nada, seu coração endurecendo.
"Nosso celebrante teve que cancelar por uma emergência familiar," ele continuou. "Eu estava pensando... e se deixássemos a Helena celebrar? Seria uma forma de mostrar que não há ressentimentos. Uma forma de todos nós seguirmos em frente oficialmente, de fechar esse capítulo logo antes de começarmos o nosso novo."
A sugestão era tão bizarra, tão completamente sem noção, que Clara ficou sem palavras. Um pavor gelado a preencheu. Ela queria gritar, perguntar se ele estava louco. Mas olhando para seu rosto sincero, seu apelo por um "recomeço limpo", ela sentiu um cansaço esmagador. Ela estava tão cansada de lutar, tão cansada da desconfiança. Talvez ele estivesse certo. Talvez essa fosse a única maneira de realmente deixar isso para trás. Deixar a mulher que quase os destruiu ser a pessoa a uni-los oficialmente. Uma vitória final e simbólica.
Contra todos os seus instintos, ela concordou. "Tudo bem," ela disse, sua voz monótona. "Deixe que ela celebre."
Como ela pôde ter sido tão estúpida? A pergunta ecoava em sua mente agora, uma batida zombeteira e implacável.
Aqui, no altar, na capela que ela projetou, diante de todos que conheciam, a verdade completa e horrível de sua tolice foi exposta.
Helena Corrêa, vestida com um elegante terninho creme, sorriu brilhantemente para a multidão, depois para Fernando. A música havia crescido e desaparecido. O ar estava denso de antecipação.
"Você, Fernando Ferraz," Helena começou, sua voz clara e ressoando pela capela silenciosa, "aceita... Você quer se casar comigo?"
Algumas risadinhas confusas se espalharam pelos convidados. Um simples lapso. Um erro nervoso da celebrante. Clara conseguiu um sorriso tenso e forçado, esperando que Fernando risse, a corrigisse, se virasse para Clara e dissesse seus votos.
Mas Fernando não riu.
Ele nem mesmo olhou para Clara.
Seu olhar estava fixo unicamente em Helena. E nos olhos dele, Clara não viu confusão, nem divertimento, mas um oceano de emoção crua e desprotegida. Um olhar de desejo e adoração tão profundos que roubou o ar de seus pulmões. Era o olhar que ele costumava dar a ela, mas mil vezes mais intenso.
O mundo pareceu desacelerar. Os murmúrios confusos dos convidados se transformaram em um rugido abafado. Tudo o que Clara conseguia ver era seu noivo, o homem que ela amara por uma década, olhando para outra mulher como se ela fosse a única pessoa na Terra.
Então, ele falou. Sua voz era firme, clara e absolutamente devastadora.
"Sim, eu aceito."
Um suspiro coletivo varreu a capela. Os olhos de Helena se encheram de lágrimas, um sorriso triunfante e brilhante se abrindo em seu rosto. Ela estendeu a mão, trêmula.
"Fernando," ela sussurrou. "Me leve para longe daqui. Por favor, apenas me leve para longe."
Os olhos de Fernando piscaram para Clara por um único e fugaz segundo. Havia um lampejo de algo - culpa, talvez pena - mas desapareceu tão rápido quanto veio, substituído por um olhar de determinação sombria. Ele pegou a mão estendida de Helena, seus dedos se entrelaçando como se fossem eles que pertencessem um ao outro.
Ele virou as costas para Clara. Para seus dez anos. Para o futuro deles.
"Fernando, não," Clara sussurrou, as palavras presas em sua garganta. Ela o alcançou, seus dedos roçando a manga de seu smoking. "Fernando, não se atreva a fazer isso. Não se atreva a ir embora."
Seu toque o fez parar por uma fração de segundo. Mas então ele puxou o braço como se o toque dela o queimasse. Sem outro olhar, ele conduziu Helena Corrêa pelo corredor, passando por seus amigos e familiares atônitos, e para fora das pesadas portas de carvalho da capela, deixando Clara sozinha no altar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, um peso esmagador. O cheiro de gardênias de seu buquê de repente se tornou enjoativo. Os belos tetos abobadados que ela projetara agora pareciam estar se fechando, sufocando-a.
Então, um som quebrou a quietude. Foi uma risada. Um som quebrado e histérico que ela vagamente reconheceu como seu. Lágrimas escorriam por seu rosto, misturando-se com a risada hedionda e dolorosa. Era tudo uma piada. Sua vida, seu amor, sua confiança - era tudo uma piada espetacular e humilhante.
Sua mãe, com o rosto uma tempestade de fúria e horror, correu para o altar. "Aquele desgraçado! Aquele canalha absoluto!" ela sibilou, envolvendo os braços ao redor do corpo trêmulo de Clara.
Seu pai estava logo atrás dela, sua expressão sombria. Ele olhou para além de Clara, seus olhos percorrendo a multidão até pousarem em um homem sentado silenciosamente na última fileira - Arthur Medeiros, um recluso e imensamente poderoso CEO de tecnologia, um conhecido da família cujos negócios e os do pai de Clara tinham algumas relações. Ele era um homem de poucas palavras, mas de imensa influência.
"Arthur," o pai de Clara chamou, sua voz cortando o caos. "A família Vasconcelos lhe deve um favor. E nós temos uma noiva. Talvez uma troca de noivo seja apropriada."
A sugestão era insana, uma medida desesperada para salvar as aparências, nascida do puro choque e raiva. Mas para Clara, de pé nas ruínas de sua vida, soou como a única tábua de salvação em um mar de afogamento. Seu coração era uma coisa morta e oca em seu peito. O amor era uma farsa. Votos eram uma piada. Nada mais importava.
"Sim," ela se ouviu dizer, sua voz desprovida de toda emoção. "Eu me caso com ele."
Seus pais respiraram aliviados. Seu pai imediatamente começou a fazer os arranjos, sua voz baixa e urgente enquanto falava com o assistente de Arthur Medeiros.
Clara estava entorpecida enquanto sua mãe a levava para longe, de volta à suíte da noiva. De volta para a casa que ela dividira com Fernando, uma casa que agora parecia um mausoléu. Ela arrancou o belo vestido de renda, o símbolo de seus sonhos despedaçados, e o deixou cair no chão em um monte de seda branca e humilhação. Ela começou a fazer uma mala roboticamente, jogando roupas, seu notebook, qualquer coisa que fosse exclusivamente dela. Ela tinha que sair. Tinha que apagar todos os vestígios de si mesma daquele lugar.
Assim que ela fechou o zíper da mala, a porta da frente se abriu com um estrondo.
Era Fernando.
Ele parecia exausto, seu rosto pálido e tenso, mas o desespero frenético havia desaparecido, substituído por uma dor pesada e sombria. Ele correu em sua direção, os braços estendidos.
"Clara, eu sinto muito, muito mesmo," ele disse, sua voz embargada por uma dor que, por um segundo horrível, ela quase acreditou. "Deixe-me explicar."
Ela se encolheu ao seu toque, seu corpo inteiro recuando. "Explicar?" ela repetiu, sua voz pingando gelo. "O que há para explicar, Fernando? Você me deixou no altar pela nossa cerimonialista. Acho que isso é bem autoexplicativo."
"Não, você não entende," ele implorou, seus olhos se enchendo de lágrimas. "Helena... ela está doente, Clara. Ela está morrendo."
Clara o encarou, perplexa.
"Ela tem um tumor cerebral," ele engasgou, as palavras se atropelando. "Glioblastoma. Os médicos... deram a ela três meses, talvez menos. Ela recebeu o diagnóstico final esta manhã. Ela entrou em pânico. No casamento, quando ela disse aquilo... foi um pedido de socorro. Ela me disse que era seu último desejo, apenas me ouvir dizer 'sim, eu aceito' para ela uma vez. Só uma vez. Como eu poderia dizer não, Clara? Como eu poderia negar a uma mulher moribunda seu último desejo?"
Ele olhou para ela, seu rosto um retrato de angústia sincera e comovente. Ele estava implorando para que ela entendesse, para que visse a nobreza em sua traição cruel. Ele estava pedindo a ela para adiar o casamento, para deixá-lo passar os últimos meses da vida de Helena ao lado dela, para conceder-lhe este ato de "compaixão".
Clara olhou nos olhos do homem que amara por dez anos e, pela primeira vez, viu as profundezas de sua fraqueza. Ele amava Helena. Ela tinha visto isso nos olhos dele no altar. Essa história, esse conto perfeitamente trágico e cinematográfico de um último desejo, não passava de uma desculpa conveniente. Era uma maneira de ele ter o melhor dos dois mundos - bancar o herói para seu novo amor enquanto mantinha sua noiva devotada em espera. Ele estava tecendo uma teia de mentiras não apenas para prendê-la, mas para se convencer de sua própria retidão.
Se ela soubesse então, naquele momento, a verdadeira extensão do engano de Helena e da capacidade de crueldade de Fernando, ela teria rido na cara dele e saído para sempre. Ela teria visto que o amor dele por Helena era um poço sem fundo no qual ele estava disposto a jogá-la, repetidamente.
Mas ela não sabia. Ela apenas via o homem que amava, chorando, dividido entre seu passado e um futuro trágico e fabricado. E naquele momento de fraqueza, ela hesitou.
Essa hesitação foi o começo de sua descida ao inferno.
Nesse momento, o celular dele tocou, estridente e exigente. A cabeça de Fernando se ergueu, sua expressão mudando instantaneamente para uma de puro pânico.
"Sim? O que foi?" ele latiu para o telefone. "Como assim ela está sangrando? Estou a caminho!"
O rosto de Fernando era uma máscara de terror. "A Helena está no hospital. Ela começou a ter uma hemorragia. Eles precisam de sangue. Muito sangue."
Ele desligou e agarrou o braço de Clara, seu aperto como um torno. "Temos que ir. Agora."
"O quê? Por que eu?" Clara tentou se livrar do braço dele, a violência súbita de seu aperto a chocando. Este não era o homem de luto e arrependido de um momento atrás; era alguém desesperado e implacável.
"O tipo sanguíneo dela," ele disse, arrastando-a em direção à porta. "É raro. AB negativo. Igual ao seu. O banco de sangue do hospital está baixo. Você é a única que pode doar a tempo. Você tem que salvá-la, Clara."
A audácia de sua exigência era estonteante. Ele queria que ela salvasse a mulher que acabara de destruir sua vida. Ele não estava pedindo; estava ordenando.
"Não," disse Clara, fincando os pés no chão. "Me solta, Fernando. Eu não vou a lugar nenhum."
"Deixa de ser egoísta!" ele rugiu, o rosto contorcido de fúria. "Estamos falando da vida de uma pessoa! O que quer que tenha acontecido entre nós, você não pode deixá-la morrer!"
Ele a estava arrastando para fora de casa agora, seus dedos cravando dolorosamente em sua pele. A pesada aliança em seu dedo, aquela que deveria simbolizar seu amor eterno por ela, pressionava sua carne.
"Ela é uma mulher morrendo, Clara! Você é tão sem coração a ponto de ver alguém morrer por despeito?" ele gritou enquanto a empurrava e puxava para dentro de seu carro.
As palavras eram uma forma brutal de chantagem moral. Ele estava transformando a compaixão dela em uma arma contra ela. No turbilhão caótico de dor e confusão, uma pequena e exausta parte dela cedeu. Uma vida era uma vida. Mesmo a de Helena.
O hospital era um borrão de luzes fluorescentes e o cheiro antisséptico de medo. Fernando não soltou seu braço por um segundo, puxando-a pelos corredores até chegarem ao centro de transfusão.
"Ela precisa de sangue, agora!" ele gritou para uma enfermeira assustada. "O nome dela é Helena Corrêa. Esta é a doadora."
Uma enfermeira rapidamente preparou o braço de Clara. Enquanto ela se sentava na cadeira fria, a mente de Clara estava em parafuso. Ela estava prestes a dar seu próprio sangue, sua força vital, para a mulher que roubou seu noivo e a humilhou na frente de todos que ela conhecia. O absurdo era tão profundo que beirava a loucura.
Ela tentou puxar o braço de volta uma última vez. "Fernando, eu não consigo fazer isso."
"Você vai," ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. Ele se moveu para trás da cadeira dela, colocando as mãos firmemente em seus ombros, prendendo-a no lugar. "Faça," ele ordenou à enfermeira.
A agulha foi uma picada fria e aguda. Clara se encolheu, uma lágrima de pura e absoluta humilhação escorrendo por sua bochecha. Ela observou, entorpecida, enquanto seu sangue vermelho escuro fluía pelo tubo transparente, deixando seu corpo para ir salvar sua rival. As mãos de Fernando nunca deixaram seus ombros, um peso pesado e possessivo que parecia mais uma jaula do que um conforto.
O mundo começou a girar enquanto a bolsa enchia. 450 mililitros. Uma doação padrão, mas após a devastação emocional do dia, seu corpo se sentia esgotado, esvaziado. Pontos pretos dançavam diante de seus olhos.
"Pronto," disse a enfermeira, colando um algodão em seu braço.
No segundo em que a agulha saiu, Fernando a soltou. "Graças a Deus," ele suspirou, seu alívio palpável. Nesse momento, um médico saiu correndo de uma sala de cirurgia próxima.
"Sr. Ferraz! Nós a estabilizamos, mas ela está perguntando por você."
Fernando não hesitou. Ele nem mesmo olhou para trás, para Clara. Ele correu em direção à sala de cirurgia, seu foco inteiramente em Helena.
Enquanto ele corria, Clara tentou se levantar. Suas pernas fraquejaram. O mundo inclinou-se para o lado, e ela desabou, sua cabeça batendo com força na quina de um carrinho de suprimentos médicos de metal.
O carrinho balançou, e uma pesada bandeja de instrumentos de aço inoxidável caiu, atingindo-a na cabeça e nos ombros. Uma dor aguda e ofuscante explodiu atrás de seus olhos, e então, tudo ficou preto.
A última coisa que ela viu foi as costas de Fernando enquanto ele desaparecia pelas portas da sala de cirurgia, um ato final e definitivo de abandono.
...
Quando Clara acordou, a primeira coisa que registrou foi a dor surda e latejante em sua cabeça. Ela estava em um quarto de hospital particular. Fernando estava sentado em uma cadeira ao lado de sua cama, a cabeça entre as mãos. Ele olhou para cima quando ela se mexeu, seus olhos vermelhos e cheios de uma espécie de culpa cansada.
"Clara, você acordou," ele disse, sua voz rouca. "Me desculpe. Eu não vi você cair. Eu estava tão preocupado com a Helena..."
Ela apenas o encarou, seus olhos vazios. O pedido de desculpas parecia um eco oco no quarto estéril. Desculpe por não tê-la visto se machucar, não por ser a causa disso.
"Não fale," ela disse, sua voz um sussurro seco. Sua garganta estava dolorida.
"Eu fui tão estúpido e rude com você," ele continuou, ignorando-a. Ele estendeu a mão para pegar a dela, mas ela a puxou para longe. "Eu prometo, Clara. Eu nunca, nunca mais vou te tratar assim. Assim que a Helena... se for... tudo vai voltar a ser como era. Você e eu. Eu prometo."
Uma risada fria e amarga ameaçou borbulhar de seu peito. Voltar a ser como era? Ele havia estilhaçado o mundo deles e agora estava prometendo colar os pedaços com palavras vazias. Ele estava tão consumido por seu papel de nobre salvador de Helena que não conseguia ver a destruição que deixara para trás.
Ele tentou cuidar dela. Trazia suas refeições, afofava seus travesseiros e falava com ela em um tom suave e apaziguador. Mas sua atenção estava fraturada. Seu celular vibrava constantemente com atualizações do quarto de Helena. Ele estaria no meio de dar a Clara uma colherada de sopa, então seus olhos se desviavam para a tela, sua expressão se suavizando com uma ternura que não era mais para ela.
Uma tarde, enquanto tentava ajudá-la a se sentar, o celular dele tocou. Ele atendeu, seu foco mudando imediatamente. "Ela acordou? Está pedindo alguma coisa?"
Distraído, ele soltou o braço de Clara cedo demais. Ela escorregou de forma desajeitada, seu ombro machucado torcendo ao bater na grade da cama. Um grito agudo de dor escapou de seus lábios.
Fernando encerrou a ligação abruptamente, seu rosto uma confusão de culpa e frustração. "Me desculpe, me desculpe mesmo, Clara."
"Saia," ela disse, sua voz perigosamente quieta. "Apenas saia, Fernando. Vá ficar com ela. Você não me serve para nada aqui."
"Clara, eu posso te compensar," ele implorou, sua voz falhando. "Vou passar o resto da minha vida te compensando."
Mas as promessas dele eram como cinzas em sua boca. Ela fechou os olhos, excluindo-o. Não havia mais nada a dizer. Ele era um estranho agora, um homem cujo coração batia por outra pessoa. O futuro deles, aquele que ela havia projetado com tanto cuidado, fora demolido, e ele estava de pé nos escombros, pedindo a ela para admirar a vista.
Fernando finalmente saiu, seus passos ecoando sua relutância, mas a atração pelo leito de Helena era mais forte do que qualquer culpa que sentia por Clara. Ele contratou uma enfermeira particular e garantiu que todas as necessidades materiais de Clara fossem atendidas, um substituto insignificante para sua presença e um sinal claro de suas prioridades.
No dia em que Clara recebeu alta, ela voltou para a casa que haviam construído juntos. Parecia estranha, fria. O ar estava denso com o fantasma de seu relacionamento morto. Sem uma palavra para os funcionários, ela começou a purgar sua vida dele. Tirou as fotos deles, guardando-as em uma caixa que rotulou "Erros". Jogou fora as velas com cheiro de gardênia que ele sempre comprava para ela. Apagou o número dele do celular, embora o soubesse de cor. Cada item descartado era uma pequena e satisfatória ruptura.
Ela estava no meio de ensacar a coleção de ingressos de cinema que guardavam desde o primeiro encontro quando a porta da frente se abriu. Fernando estava de volta. E ele não estava sozinho.
Helena Corrêa estava apoiada nele, parecendo pálida e frágil. Ela usava um delicado roupão de seda, e seu cabelo estava artisticamente despenteado. Quando viu Clara cercada por caixas e sacos de lixo, seus olhos, longe de serem fracos ou doentios, continham uma centelha de triunfo indisfarçado.
"O que você está fazendo?" Fernando perguntou, a testa franzida em confusão ao olhar para os restos desmontados de sua vida juntos.
"Limpando," Clara respondeu, sua voz monótona. "Me livrando de coisas que não preciso mais."
Fernando não insistiu no assunto, sua atenção já se voltando para a mulher agarrada ao seu braço. "Helena precisa de um lugar tranquilo para se recuperar," ele anunciou, não pediu. "Os médicos disseram que o estresse é a pior coisa para a condição dela. Ela vai ficar aqui."
Ele levou Helena até o sofá, acomodando-a contra as almofadas como se ela fosse feita de vidro. Helena olhou para Clara, sua expressão uma mistura perfeita de desculpa e desamparo, mas seus olhos eram afiados e desafiadores. Era uma declaração de posse. Esta era a casa dela agora. O homem dela.
Clara não sentiu nada. A raiva e a dor haviam se esgotado, deixando para trás uma calma congelada. "Tudo bem," ela disse, voltando-se para suas caixas. "A casa é sua."
Fernando pareceu aliviado com sua falta de protesto. "Obrigado, Clara. Eu sabia que você entenderia." Ele então se virou para a governanta. "Maria, por favor, prepare o quarto de hóspedes no andar de baixo para a Sra. Corrêa. Deixe-o confortável."
Clara não os observou. Ela continuou seu trabalho calmamente, movendo-se pela casa como um fantasma, apagando sistematicamente sua própria existência de suas paredes. Os dias seguintes foram um tipo especial de tortura. Ela se tornou uma espectadora invisível em sua própria casa, observando o homem com quem deveria ter se casado mimar outra mulher.
Ele descascava frutas para Helena, certificando-se de cortá-las em pedaços pequenos e fáceis de manusear. Lia para ela por horas, sua voz um murmúrio baixo e calmante que costumava ser reservado para as noites insones de Clara. Ele monitorava sua medicação, se preocupava com suas refeições e a abraçava quando ela fingia um momento de fraqueza. A ternura que antes fora exclusivamente dela agora estava em exibição pública, prodigalizada em sua substituta. Era um envenenamento lento e deliberado de cada boa memória que eles já haviam compartilhado.
Enquanto arrumava as coisas, ela encontrou uma pequena almofada bordada. "F + C Para Sempre." Um presente de sua avó. Ela a segurou por um momento, depois a jogou em um saco de lixo sem pensar duas vezes. O para sempre durou dez anos.
Seu único consolo era Marmelada, o gato laranja fofo que Fernando lhe dera de aniversário cinco anos atrás. Ele era sua sombra, uma presença quente e ronronante na casa fria e vazia. Quando ela chorava, ele roçava a cabeça em sua mão. Quando ela não conseguia dormir, ele se aninhava em seu peito, uma âncora peluda na tempestade.
Uma tarde, um pacote chegou. Era Marmelada, finalmente de volta do veterinário após uma limpeza dentária de rotina. Ver seu rosto familiar, ouvir seu miado feliz, foi o primeiro calor genuíno que Clara sentiu em semanas. Ela o pegou nos braços, enterrando o rosto em seu pelo macio. Por um momento, ela sentiu um lampejo da mulher que costumava ser.
Andando pelo corredor com Marmelada nos braços, ela encontrou Helena, que estava a caminho da cozinha. Os olhos de Helena imediatamente se fixaram no gato.
"Oh, que coisinha fofa," Helena arrulhou, sua voz doentiamente doce. "Posso segurá-lo?"
"Não," Clara disse secamente, segurando Marmelada com mais força. "Ele não gosta de estranhos."
Um lampejo de irritação cruzou o rosto de Helena antes de ser substituído por um beicinho. "Ah, por favor? Estou tão sozinha e triste. Uma bolinha de pelos me animaria." Ela estendeu as mãos.
Clara deu um passo para trás. "Eu disse não."
O beicinho de Helena se transformou em um escárnio. Ela avançou, tentando arrancar o gato dos braços de Clara. Marmelada, assustado e com medo, sibilou e deu uma patada, arranhando a mão de Helena com suas garras. Foi um arranhão superficial, mal quebrando a pele.
"Ai!" Helena gritou, cambaleando para trás como se tivesse levado um tiro. Ela agarrou a mão, seu rosto se contorcendo em uma máscara de dor e terror.
Fernando veio correndo ao som de seu grito. "O que aconteceu? Helena, você está bem?"
"O gato!" Helena soluçou, mostrando a mão, onde uma pequena gota de sangue estava se formando. "Ele me atacou! Ele simplesmente pulou em mim sem motivo!"
"Isso é mentira!" Clara exclamou. "Você tentou agarrá-lo!"
O olhar de Fernando endureceu enquanto olhava do rosto banhado em lágrimas de Helena para o rosto desafiador de Clara. Seus olhos pousaram no pequeno arranhão na mão de Helena.
"Ela está doente, Clara," ele disse, sua voz perigosamente baixa. "O sistema imunológico dela está comprometido. Qualquer infecção pode ser fatal." Ele pegou gentilmente a mão de Helena, examinando a ferida minúscula como se fosse um ferimento mortal. "Não podemos ter um animal feroz nesta casa."
"Ele não é feroz! Ela o provocou!" Clara implorou, seu coração afundando.
Helena soltou outro soluço. "Eu só queria fazer carinho nele, Fernando. Eu pensei... pensei que talvez ele pudesse ser meu amigo, já que não me resta muito tempo." Ela olhou para o gato com terror fingido. "Estou com medo dele agora."
Isso foi tudo o que precisou.
"É só um gato, Clara," Fernando disse, seu tom desdenhoso e frio. "O bem-estar da Helena é mais importante. Ela quer o gato. Será seu companheiro pelo tempo que lhe resta." Ele se aproximou e, antes que Clara pudesse reagir, arrancou Marmelada de seus braços.
"Não!" Clara gritou, avançando para ele.
Ele entregou o gato assustado e se contorcendo para uma Helena triunfante. "Pronto, pronto, garotinho," Helena arrulhou, sua voz pingando falsa doçura enquanto acariciava seu pelo.
"Me devolva ele, Fernando! Ele é meu!" Clara chorou, sua voz falhando.
"Não seja infantil," Fernando retrucou, parando entre ela e Helena. "É para o bem de todos. Realizar um de seus últimos desejos é o mínimo que podemos fazer."
Ele se virou e começou a levar Helena embora, que agora abraçava Marmelada com força, um sorriso cruel e vitorioso no rosto que apenas Clara podia ver. O gato se debatia em seu aperto, soltando um miado angustiado.
Clara sentiu um pavor gelado tomar conta dela. Ela não podia deixar isso acontecer. Esperou até que Fernando estivesse no banho naquela noite. A casa estava silenciosa. Ela foi sorrateiramente até o quarto de Helena, o coração batendo forte. Ela tinha que pegar seu gato de volta.
A porta estava entreaberta. Ela espiou para dentro, e o que viu fez seu sangue gelar.