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Abusivo: A história que ninguém conta

Abusivo: A história que ninguém conta

Autor:: Pauliny Nunes
Gênero: Outras
Catarina Araujo Freitas se muda de cidade em busca da sua independência após o turbulento divórcio de seus pais. Em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul encontra tudo novo: casa , professores, amigos e claro, um novo amor, Jean Vasconcelos. Formando de Medicina , popular por toda a Universidade , arrancador de suspiros por onde passa e o príncipe que roubou o coração de Catarina. Uma história que tinha tudo para ser um verdadeiro conto de fadas,uma verdadeira história de amor, e era para as pessoas do lado de fora, mas para Catarina, se tornou seu pior pesadelo.

Capítulo 1 Servir e Proteger

"Servir e Proteger" aquelas palavras foram lidas inúmeras vezes por mim desde que entrei naquela delegacia, com o meu olho esquerdo, pois o direito ainda está tão inchado que só vejo borrões, o que é uma coisa boa, segundo os médicos. Para eles é um milagre não ter pedido a visão . Tento ajeitar minha postura , mas acabo desistindo diante da dificuldade por conta do gesso que tomou conta de grande parte do meu abdômen, protegendo as costelas fraturadas, também está minha perna e braços esquerdos.

Sem contar o meu maxilar que foi deslocado e os mais diversos hematomas que dominam cada centímetro do meu corpo.

Mas nada me incomodava mais que os olhares das outras pessoas que ali estavam, sei que já deveria estar acostumada com os julgamentos, à curiosidade e a pena que dominam cada um deles que insistem em nem ao menos disfarçar que estão olhando para mim. Leio mais uma vez aquelas palavras, fingindo que não me importava com eles. Fingir, uma palavra que achei que jamais usaria na prática, até que ela surgiu e se tornou minha companheira nos últimos anos. Bem como indas e vindas da delegacia, depoimentos, aqueles olhares, a consciência pesada e agora, a vez em que quase morri. Só de lembrar essa última parte as lágrimas, outra coisa que passou a fazer parte constante da minha vida, surgem, queimam meu rosto por onde escorrem , morrendo em meus lábios ainda inchados e roxos. Porém, nenhuma dor que eu esteja sentindo agora chegará perto da dor que ele me causou durante todo aquele tempo.

Nunca mais, repito para mim mesma.

- Catarina Araujo Freitas? – chama uma jovem de cabelos castanhos com um enorme distintivo pendurado no pescoço de uma das portas. Olho para ela que retribui com um olhar chocado, por mais que tentasse evitar e fingir que estava tudo bem com o seu sorriso treinado. Ergo minha mão devagar e ela pergunta - Vamos?

Levanto devagar sentindo cada parte do meu corpo desejando desmoronar pelo chão. Caminho em sua direção enquanto ela ainda sorri tentando transmitir um pouco de confiança, esperança e por que não... Fé. Não retribuo o sorriso por não acreditar que exista nada daquilo. Não mais, essa parte foi uma das primeiras coisas que ele tirou de mim

Andamos em silêncio pelo corredor mais longo já percorri na vida. A cada passo, tento encontrar uma resposta para a pergunta que faço em minha mente:

"Como fui parar ali?".

Capítulo 2 Ele

Abro meus olhos assim que sinto os raios de sol tocarem meu rosto, os encontrando saindo pelas pequenas frestas da cortina azul que se abre suave conforme o ônibus se movimenta. Se fossem em outros tempos ficaria extremamente brava por acordar tão cedo, mas tudo o que sinto é alegria. Abro a cortina com um enorme sorriso, deixando que a manhã me dê um devido bom dia. A paisagem silvestre do outro é tão linda e acolhedora que me faz suspirar. As cores são tão vívidas que pareço estar vendo um quadro animado.

Enquanto admiro a vista, meus pensamentos vagueiam pela vida que deixei para trás. Não que fosse bem uma boa vida para se recordar, pois ficar em Ourinhos, interior de São Paulo, já não era mais opção há muitos anos, ainda mais com tudo o que aconteceu.

O divórcio dos meus pais foi um verdadeiro divisor de águas minha vida. Não que tivesse me traumatizado, muito pelo contrário, foi um grande alívio para mim e ainda mais para minha mãe. Eu cresci em uma rotina que muitas crianças tivemos em comum na infância e até na vida toda: alcoolismo.

Perdi as contas de quantas vezes vi minha mãe, Vera, indo aos bares do bairro, ou até mesmo em outros, em busca do marido dela e meu pai, Pedro, alcoólatra irreversível. Quantas vezes aquela mulher, minha mãe, de quarenta anos que aparenta ter um pouco mais por conta daquela vida, passou as noites sem dormir, pois o marido saiu de casa na terça e já era domingo a noite e nem ao menos uma notícia lhe dera? Quando voltava era sempre uma desculpa esfarrapada: o carro quebrou, precisou fazer hora extra, ficou preso na firma, teve de viajar, etc. e sem dinheiro. Essas "sumidas" sempre aconteciam no dia do pagamento , quando tínhamos sorte de Pedro estar em um emprego, o que era outro problema.

Desde o começo do casamento, meu pai não conseguia se manter em um emprego e sempre colocando a culpa nos patrões, funcionários, no sistema, mas a culpa nunca foi dele, nem do fato de sempre estar bêbado, ou sempre atrasado por estar no bar. Enquanto em casa, minha mãe passava necessidades básicas, mas nunca teve coragem de ligar para sua família e pedir ajuda. Foi quando ela passou a fazer pequenos bicos como doméstica para sustentar a casa. Porém , com dois anos de casamento estava grávida de mim , sua única filha e as coisas voltaram a piorar, apesar dela ter acreditado que Pedro poderia mudar quando tivessem um filho. Um grande erro, ele apenas se afastou ainda mais, a deixando enfrentar a gravidez sozinha.

E assim foi durante os próximos dezoito anos , quando finalmente passei no vestibular de Letras na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, um estado desconhecido, mas que mostrou apenas o mesmo sentimento que nós nutrimos : recomeço... Vida Nova. Foi pensando nisso, que minha mãe pediu o divórcio surpreendendo Pedro que se revoltou e fez de todo o processo uma grande tortura para todos nós. O divórcio foi tão perturbador e assustador que minha mãe decidiu ir embora para Belo Horizonte, morar com uma prima. A única coisa que pode fazer por mim foi me embarcar na rodoviária. Fecho os meus olhos lembrando seu rosto aflito me olhando entrar no ônibus, nada em sua vida foi mais doloroso do que aquele momento, em que ficamos separadas depois de tantos anos. Para mim também, mas eu não sabia naquela época que algo poderia doer mais que ver minha mãe ficar para trás e de certa forma, não fazer parte da minha vida dali em diante.

Como ela aguentou viver esses vinte anos? Pergunto-me pensando nela. Então percebo que a paisagem muda, e aos poucos, surgem casas, estamos chegando a cidade. Assim que entramos em Campo Grande faço uma promessa: A partir de agora, aquilo ficará para trás e não cometerei aqueles erros.

****

Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul, fundada por mineiros, que vieram aproveitar os campos de pastagens nativas e as águas cristalinas da região dos cerrados. Por causa da cor de sua terra (roxa ou vermelha), recebeu a alcunha de Cidade Morena. A cidade está localizada em uma região de planalto, em que é possível ver os limites da linha do horizonte ao fundo de qualquer paisagem, ao menos era isso que dizia em um dos vários sites pesquisei, mas nada conseguiu descrever a realidade vista pelos meus olhos enquanto o vento bagunça os meus cabelos castanhos ondulados até a cintura. Assim que desço do ônibus, a primeira sensação que tenho é de estar livre.

Em poucos minutos já estou dentro do táxi em direção à nova moradia a qual eu não tinha a menor ideia de como era. Sei que é um pensionato e a sua distância da universidade é menos de quinze minutos a pé. Seguro firme entre as minhas mãos o papel amassado com meu novo endereço enquanto me recordo da coisa mais impensada, insensata e ousada que já fiz em toda minha vida.

Assim que vi meu nome na classificação para o curso de letras, comecei a procurar um lugar para morar, mas para minha frustração as locações ultrapassaram qualquer orçamento que pudesse projetar, ainda mais depois do divórcio, me deixando sem opção além de ir para um pensionato, assim aliviar também as finanças da minha mãe que gastou quase todas as suas economias para comprar nossas passagens e conseguir me manter sozinha por um tempo, até que eu arranje um estágio ou emprego. Depois de muito procurar em vários grupos de universitários, finalmente encontrei um pensionato, com internet, luz, água e almoço inclusos. Além de estar dentro do orçamento da minha mãe. Mas o que fez minha mãe aceitar aquela ideia absurda, foi o fato de ser um pensionato só para garotas.

O táxi para em frente ao destino, que não era muito longe da rodoviária, em um enorme portão de metal enferrujado com o muro apenas cimentado. Depois de pagar o taxista, aperto o interfone e fico aguardando alguém aparecer. Não demora muito e escuto o portão estalar se abrindo e então surge uma senhora de sessenta anos, que tenho certeza que é a Dona Ester, proprietária do pensionato.

- Olá, sou Catarina – me apresento recebendo apenas um aceno da senhora que abre o portão que eu possa passar.

Sorrio ao ver o enorme quintal com vários quartos individuais em tons de salmão, enquanto atrás de mim, Dona Ester repassa algumas regras:

- A lavanderia é comunitária, então você deve acertar com as outras garotas os dias em que poderá lavar as roupas. Eu mesma faço o almoço, porém a janta fica por sua própria conta.

- Quantas meninas moram aqui? – pergunto, notando que alguns quartos parecem estar vazios.

-Hoje temos sete garotas, incluindo você. O quarto já foi limpo esta manhã, então não precisa se preocupar com a limpeza. Porém, a partir de agora fica sob sua responsabilidade limpar o quarto– responde Ester abrindo um dos quartos que agora é o meu. O quarto já vem mobiliado com uma cama de solteiro, guarda roupa, geladeira, microondas, uma mesa e duas cadeiras. No canto, a porta do banheiro que tem uma ducha, vaso e pia brancos - Não é permitido dividir o quarto com outra pessoa. E o que me lembra... Nada de garotos... Ou garotas. Eu sei que isso já foi falado com sua mãe, mas é sempre bom reforçar.

Sorrio em sua direção enquanto me recordo da longa conversa por telefone que minha mãe teve com Ester e da reação dela quando a senhora disse a respeito da última regra.

-Não precisa se preocupar com isso. Minha filha não é dessas, ela é muita centrada e o objetivo dela é estudar, apenas estudar. – responde minha mãe, orgulhosa sorrindo para mim enquanto termino de guardar minhas coisas na mala.

O que de fato era verdade, eu não era dessas garotas, não sentia orgulho disso, pelo contrário, sinto tristeza e arrependimento. Nunca havia me envolvido com ninguém. Durante todos aqueles anos eu apenas me dedicou exclusivamente aos estudos, pois sempre sonhei em ter uma vida diferente da minha mãe e dar orgulho a ela. Essa dedicação acabou não dando espaço para relacionamentos. Claro que eu saía com as minhas amigas e tinha alguns rolos, mas nada sério a ponto de desistir do meu sonho, afinal , fazer minha mãe sentir orgulho de mim era minha prioridade. Nada no mundo valia tanto a pena do que aqueles olhos brilhando quando falava de mim para alguém, bem como agora, ao telefone.

Sento na cama sorrindo, enquanto Ester me observa dos pés a cabeça, como se os seus olhos tirassem raios-X e conseguisse ver o que há dentro de mim e até dos meus pensamentos:

- Todas as mães dizem isso... Minha filha é um anjo... Minha filha jamais irá se envolver com alguém... Você não tem a menor ideia do quanto eu já escutei isso por aqui. Então vocês ingressam na universidade, começam a ir para as baladas e quando vê, já estão escondendo o parceiro debaixo da cama ou no banheiro, mas eu sempre descubro, sempre. – finaliza me encarando de tal forma que me intimida - Continuando, roupas de cama, mesa e banho, ficam sob sua responsabilidade. Achei que sua mãe viesse com você.

-Não. Ela está morando em Belo Horizonte agora – respondo analisando cada canto do quarto

-Achei que fossem de Ourinhos- indaga Ester, desconfiada da minha resposta vaga.

-E somos... Éramos. – respondo triste. Sorrio para ela e continuo- Uma longa história.

- Fique à vontade, pois eu tenho o almoço para fazer para esse batalhão– comenta Ester saindo do quarto.

Assim que Ester saiu, começo a ajeitar as coisas em seus devidos lugares. Com o passar do tempo o quarto passa a ter mais vida com o lençol florido, mural com fotos com todos os meus amigos e da minha mãe, as roupas devidamente guardadas. Estou colocando minha mala em cima do guarda roupa, quando escuto alguém bater de leve em minha porta me fazendo virar. Uma garota de cabelos longos de um lado e raspado do outro, com várias tonalidades de azul e grandes olhos castanhos. Veste um macacão jeans curto e uma camiseta amarela de um desenho animado, o tipo de garota de atitude que eu sempre quis ser, mas que a minha mãe insistia em dizer que só garotas que não queriam nada na vida se vestiam assim. "Maloqueiras se vestem assim, Cat. E eu não criei uma filha maloqueira" disse uma vez quando cogitei a hipótese de pintar as pontas de rosa. Ela sorri para mim e então pergunta:

-Olá, quer dizer então que você é a novata?

- Sim, me chamo Catarina – apresento –me estendendo a mão para a jovem.

- Prazer, meu nome é Betina – corresponde a garota - Mas pode me chamar de Be, ou Beti.

- Okay, Be – digo curiosa em saber mais a respeito da jovem parada em minha frente. - Qual curso você faz?

-Psicologia. Estou indo para o terceiro semestre. Pretendo seguir a psicanálise. E você?

- Letras, primeiro semestre. Não tenho a menor ideia em que irei me especializar– respondo, animada - Você sabe me dizer se a faculdade é longe daqui?

- Ela bem perto, seu bloco é bem perto do meu também. Se quiser, mais tarde levo você para conhecer o campus, que tal? – sugere Be.

-Ótima ideia.

- Eu vim chamar você para o almoço, Dona Ester não gosta muito de atrasos. – explica Beti - E as meninas estão famintas, você não vai querer começar a viver aqui tendo a ira de seis garotas.

-Não mesmo – respondo sorrindo. Caminho em direção a porta, sendo seguida por Betina - É melhor irmos então, antes que eu vire o prato principal.

- Elas são legais, tenho certeza que irá gostar de todas nós – garante Beti andando ao meu lado.

Assim espero, penso fechando a porta.

****

A enorme mesa de madeira na varanda de Ester parecia não ter espaço para acomodar Betina e eu que chegamos para o almoço. Acomodamo-nos no banco de madeira no meio das meninas que conversavam animadas diversos assuntos ao mesmo tempo, sendo impossível de acompanhar e até mesmo compreender. Ester pega um prato e o enche de macarronada para mim, então uma das meninas, uma descendente de japonesa, que estava toda de branco, se levanta , chamando atenção de todas:

-Ei, meninas, acho que agora hora das apresentações. Nada mais digno que todas nós nos apresentamos para a nossa mais nova colega de casa.

- Eu começo – fala a morena de cabelos cacheados envoltos por um turbante. Ela olha para mim e diz sorrindo - Meu nome é Alissa, faço medicina veterinária e estou no quinto semestre.

- Meu nome é Jennifer – revela outra menina de cabelo Chanel - Faço engenharia Ambiental, estou no terceiro semestre.

- Claudia - apresenta a mais baixinha delas, usa óculos que escondem seus olhos verdes e tem os cabelos loiros - Faço Economia e no momento estou apenas pagando matérias.

- EU já me apresentei – comenta Betina, pulando a vez para a Japonesa.

- Meu nome é Tiemi, faço medicina e faltam apenas 100 dias para a minha colação, bitches! - grita Tiemi, animada, enquanto recebe um olhar reprovador de Ester. - Agora sua vez novata.

-Meu nome é Catarina, e estou aqui para fazer letras. – digo sendo observada com curiosidade por todas.

Então elas começam a interrogar sobre tudo, como onde nasci o que gosto, o que me fez escolher viver ali, namorado ou namorada e, ao mesmo tempo, elas revelavam um pouco mais sobre elas. Claudia era do interior do Estado, Aquidauana e apesar da cidade dela ser apenas duas horas dali, estava economizando mais morar em Campo Grande a ficar indo e vindo de casa. Betina veio da Capital de Mato Grosso, bem como Alissa. Jennifer veio de Presidente Prudente e Tiemi veio da capital de São Paulo. A estudante de medicina estava super empolgada, pois hoje seria sua festa de 100 dias e a turma dela fez com todo a polpa como manda a tradição, inclusive o local do evento é a boate mais cara da cidade, afinal:

-Esse é o segundo maior evento de toda a Universidade, ficando atrás apenas da Calourada, daqui alguns dias – informa Tiemi - E é claro que eu tenho convite para todas vocês... Incluindo você, Cat.

- Ah, obrigada. Mas eu não sei se poderei ir – respondo, sem graça. Estou quebrada e a última coisa que desejo é cama. - Hoje a festa irá rolar no meu quarto.

- Para tudo! – grita Cláudia, chocada com a minha atitude - Como assim, você não vai? Nem bem entrou na faculdade e já vai cometer suicídio social?

-Suicídio social? Não, eu só estou cansada da viagem – explico muito envergonhada - Estava pensando em conhecer a faculdade e depois descansar.

- Você está louca? – pergunta Jennifer fazendo uma careta inconformada - Querida, essa é uma oportunidade única! Você tem ideia de quanto tempo eu esperei por esse convite? Você tem ideia do quanto essa festa é exclusiva e só o fato da Tiemi ter pensado em suas colegas de casa, já causa inveja em muita gente? As pessoas estão se matando para ter esse convite e você recusando.

-Não, estou recusando... – me defendo. Como um almoço se tornou um verdadeiro julgamento e eu sou a ré? Por que elas estão em choque com o fato de eu não querer ir? De alguma forma isso me incomoda. Talvez eu não esteja pensando direito e elas estejam certas, por que não ir à festa? Uma boa forma de conhecer pessoas, aliás, aquela é uma nova vida, uma nova oportunidade, então por que irei persistir fazendo as coisas que fazia em Ourinhos?

-Cat, você não precisa ir se não quiser, eu não irei também – diz Betina me tranquilizando.

-Até por que eu nem te convidei, Beti. Então fica na sua. – alega Tiemi quase ajoelhando nos meus pés - Catarina, eu sei que não se importa, mas seria muito importante para mim. Além do mais você não quer começar sendo a única anti social da sua turma. Tem ideia do quanto essa noite será importante para o resto do seu ciclo social? Até os veteranos sentirão inveja de você.

-Mas eu não tenho roupa para esse tipo de lugar – argumento, usando meu último recurso e também o mais verdadeiro. Eu saía com as minhas, mas nunca entrei em uma boate, mas para comer. Embora cansei de ver as garotas da minha cidade com belos vestidos, cabelos arrumados, maquiagens perfeitas, coisas que eu nunca teria por conta da minha situação financeira e também minha mãe jamais me aceitaria ver vestida daquela forma.

- Oh, querida, não se preocupe, você ganhou seis fadas madrinhas, tenho certeza que encontraremos um vestido para você. É só dizer sim... Eu escutei um sim? – pergunta Tiemi sorrindo, me pressionando

- Sim – respondo tímida enquanto as outras meninas gritam alegres. Todas, menos Beti que me encara, séria. Sinto que a decepcionei, sendo comprovado como a forma que ela saiu da mesa, sem ao menos falar comigo.

De repente as meninas correram para o meu quarto, vasculhando minhas coisas a procura de algo que pudesse ser usável. E como imaginei, não encontraram nada. Mas elas não desistiram, cada uma foi até seu quarto e pegou algo que eu pudesse usar para aquele grande momento. Senti-me aliviada e grata por estar no meio de meninas tão legais e prestativas. Sinto que seremos grandes amigas.

****

- Então, já está instalada? Como é a casa nova? - pergunta minha mãe do outro lado da linha.

- Sim, já arrumei tudo, conheci as meninas. Mãe, aqui é tão legal. Não vejo a hora de a senhora estar aqui. – comento indo em direção ao banheiro com meu secador, o colocando na tomada.

- Que barulho é esse, Cat? - pergunta curiosa.

- Estou arrumando meu cabelo.

- Para?

- Hoje é a festa de 100 dias da Tiemi, uma das meninas daqui, então eu irei comemorar com elas – explico nervosa. Estreito os olhos aguardando o sermão da montanha sobre responsabilidades, algo que escuto desde a quinta série quando fui escondida a uma excursão da escola.

- Tudo bem. Juízo, mocinha. Nada de aceitar carona de estranhos, fique sempre de olho em sua bebida e nada... Nada de rapazes. Não quero A Dona Ester me ligando para falar de você. E não vai esquecer que segunda você tem que fazer sua matrícula presencial.

- Só isso? – surpresa com a versão resumida do sermão. - Nada de brigas... Ou de não?

- Bom, você já é adulta e sabe arcar com as suas responsabilidades. – argumenta Vera - Só quero que saiba que não importa o que aconteça, estarei sempre aqui para você. Está bem?

- Obrigada por confiar em mim, mãe. Não irei decepcionar a senhora – garanto

- Assim espero Cat. Agora preciso desligar, tenho ainda muito que fazer por aqui – explica minha que agora trabalha de faxineira junto com a prima em várias casas na parte rica de Belo Horizonte. - Juízo. Eu te amo.

- Eu te amo – respondo desligando o telefone e voltando a me arrumar.

Depois de meia hora, finalmente olho no espelho e encontro uma bela mulher em um vestido rosa chá até o meio da coxa, emprestado de Jennifer, salto preto de Cláudia, maquiagem carregada, ideia da Alissa e os cabelos soltos, bem lisos, ideia da Tiemi. Como tinha de falar com minha mãe antes de ir e Tiemi e as meninas tinham marcado de ir para o salão de beleza e depois ir fazer seu cadastro biométrico para entrarmos na boate, a quase médica deixou seu número de telefone e o endereço para que eu as encontrasse depois.

- É só chamar o táxi e dizer que está indo para a Valley Tai. Lá você me liga que eu saio da boate e te coloco para dentro. Não tem erro, só não demore muito, ou irá perder toda a diversão. – disse Tiemi antes de ir.

Claro que eu achei uma péssima ideia, mas ela voltou a reforçar o seu discurso sobre como queria que eu fosse e como aquilo seria bom pra mim e tudo mais que decidi ignorar o mau pressentimento que percorre meu corpo todo. Dou mais uma conferida em meu look antes de sair para curtir minha primeira noite como universitária.

****

- Chegamos - avisa o Taxista parando em frente ao destino que me deixa de boca aberta. E não é para menos.

Valley Tai tem sua fachada totalmente inspirada na Tailândia, sua arquitetura lembra um palácio asiático, budas e barcos para todos os lados e uma bela iluminação digna de estreia, o que me faz entender por que aquele era um evento tão esperado. Caminho em direção à entrada, discando o número de Tiemi que chama até cair na caixa postal... Na primeira... Segunda... Terceira... Quarta vez, me deixando desesperada, ainda mais pelo fato do segurança ficar me encarando cada vez mais. Vou a sua direção, quem sabe ele pode me ajudar.

- Oi, boa noite. – cumprimento, tímida.

-Boa noite, seu nome, por favor – pede o segurança, ríspido.

- Então, eu estou esperando uma pessoa. Ela está aí dentro e o telefone dela...

- Seu nome, por favor – pede o segurança.

- Como estou tentando explicar. Eu poderia entrar rapidinho pra ver se ela está aí e ela ir me liberar...

- Se você não está no cadastro, não entra. Ordens da casa.

- Olha eu sei. Será que você teria como ir lá dentro ver se ela está aí e dizer que a Catarina está aqui fora? - peço quase chorando.

-Senhorita, não posso. A menos que esteja em nosso cadastro, peço que a senhora se retire, pois é uma festa particular. – explica o segurança

- Mas eu... – tento mais uma vez.

Sabia que eu devia ter escutado meus instintos... Essa hora eu estaria em casa, tranquila e dormindo sem me preocupar com nada disso... Agora estou aqui na frente de uma boate, quase sendo presa, sem conseguir falar com uma menina que conheci há poucas e sozin...

- Não se preocupe, ela está comigo. Sou um dos formandos – fala uma voz masculina firme que me obriga a virar para ver quem é.

O dono da voz era um belo moreno de olhos castanhos bem vívidos, cabelos raspados, vestido de camisa branca social aberta até o começo do peitoral bem definido, calça preta impecável, bem como seus sapatos. Mas o que me surpreende é a tranquilidade com a qual aquele homem se aproxima de mim, passa seu braço envolta dos meus ombros, aconchegando a mão em meu braço. O toque me incendeia e o meu rosto fica vermelho imediatamente.

- Você conhece a jovem? – pergunta o segurança.

- Claro que sim – responde o rapaz sem o menor receio enquanto admira o meu rosto vermelho que mais parece um pimentão agora, coisa que eu realmente não queria que estivesse acontecendo. Ele sorri para mim, enquanto acaricia o braço devagar e então se vira para o segurança – Ela é a minha namorada.

- Seu nome, por favor – pede o segurança com ar de desconfiado para os dois.

- Claro, já ia me esquecendo – diz o homem - Meu nome é Jean. Jean Vasconcelos.

- Seu dedo, senhor. – pede o homem com um impressor digital. Jean coloca seu indicador direito e rapidamente uma luz verde aparece confirmando sua presença - Tudo bem, pode passar - finaliza o segurança liberando a passagem.

Jean caminha devagar, segurando em minha mão enquanto ainda estou sem reação tentando absorver o que está acontecendo. Em menos de um minuto eu deixei de ser uma garota sozinha e desesperada na porta de uma boate para a namorada do homem mais lindo que eu já vi ...isso é muito para se processar. A sua mão na minha, seu perfume, seu sorriso, seus olhos...

- Amor, vamos entrar? – pergunta Jean me despertando.

E agora, o que eu faço? Pergunto-me observando aquele completo estranho.

Capítulo 3 Garotas como eu... Caras como ele...

A maciez, o calor e a delicadeza da mão de Jean, são as únicas coisas em que consigo pensar enquanto caminho ao seu lado. Além do fato dele ser um desconhecido com o qual estou entrando na boate como se fosse meu namorado. Sei que deveria, mas não estou desconfortável com isso. E ele também não parece se incomodar com o fato, aliás, pelo sorriso estampado em seu rosto, demonstra que está apreciando a oportunidade. Então ele solta da minha mão, a colocando no meio das minhas costas, me fazendo arrepiar como se fosse gelo escorrendo da nuca até a lombar.

O rosto de Jean se aproxima devagar em direção ao meu, prendo a respiração, os lábios carnudos do meu "namorado" encontram a minha orelha, pronunciando as seguintes palavras:

- Bem vinda a festa. Espero que encontre o rapaz que a aguarda aqui dentro.

- Não! Não é um rapaz! Eu não tenho ninguém! Estou completamente sozinha! Quer dizer... ahn... –revelo , praticamente gritando, fazendo Jean soltar uma risada gostosa diante do meu desespero. Fico vermelha mais uma vez, droga já comecei com o pé esquerdo. Por que sou tão atrapalhada? Respiro fundo e tento explicar - Eu fui convidada por uma das formandas.

- Qual delas? – pergunta Jean, tranquilamente.

- Tiemi. – respondo então na testa de Jean surge uma enorme ruga, indicando que ou tem muitas "Tiemis" em medicina, ou que não tem a menor ideia de quem seja. De qualquer forma, eu teria de se esforçar para lembrar o sobrenome da Tiemi, mas nada me vem a cabeça - Ela é japonesa, não que isso seja relevante, mas acho que não devem ter muitas Tiemi , japonesas... Droga, eu não consigo lembrar seu sobrenome.

-Eu sei quem é a Tiemi. – responde Jean , sério. Sua expressão está bem fechada, como se eu tivesse dito algo errado, muito errado. Sinto-me culpada sem saber pelo quê.

- Desculpa, você fez uma cara, como se o nome fosse estranho – digo , sem graça me segurando para não pedir desculpas mais uma vez.

- Eu achei estranho o fato de você conhecer a Tiemi. – explica Jean acariciando as minhas costas , um toque que não passa despercebido por mim, um sinal de que está tudo bem agora. Então me vêm uma dúvida.

- Por que diz isso? – pergunto me esforçando para pensar em outra coisa que não fosse a mão de Jean próxima a zíper do vestido... bem no feixe.

- Por dois motivos: O primeiro que eu nunca a vi nas festas em meio as amigas da Tiemi e nem com a própria. Segundo, você não parece ser o tipo de garota que seria amiga da Tiemi. Então , eu criei duas teorias com relação a quem é essa bela garota em minha frente

- E quais são as suas teorias? – pergunto mais curiosa ainda.

-Bom, eu não devia estar falando com estranhas – comenta Jean, me deixando surpresa. Ele era um completo estranho que me colocou para dentro de uma boate. Ele sorri - Ainda mais com aquelas que nem ao menos revelam seus nomes, mesmo que falsos.

- Oh, desculpa . Meu nome é Catarina... vai querer meu sobrenome também? Sabe , eu não sou boa em inventar sobrenomes... – respondo , entrando na brincadeira.

-Tudo bem, eu também não sou bom em inventar sobrenomes... muito menos nomes, por isso sempre uso Jean, é mais fácil de lembrar – responde Jean sorrindo. O sorriso dele é perfeito, alinhado e me enfeitiça - Mas devo admitir que se esse nome for falso, você é muito boa em inventar. Ainda mais um nome tão forte. Agora se for verdadeiro, quero escutar a história por trás dele.

- Depois de você em contar suas teorias ao meu respeito... e o que o fez me ajudar a entrar aqui. – provoco mordendo os lábios .

- Claro, mas para isso , teremos de entrar, sentar em meu bangalô, ou então no bar... Mas acho que você precisa encontrar a Tiemi primeiro. – recorda Jean se afastando do meu rosto deixando a realidade me esbofetear: Tiemi.

-Sim, preciso mesmo – respondo sem graça . Por alguns minutos esqueci completamente da minha colega de casa. Eu me afasto de Jean, arrumando meu cabelo atrás da orelha. Ergo minha mão em sua direção - Então a gente fica por aqui. Um prazer conhecê-lo, Jean e obrigada por me ajudar.

- O prazer foi meu, Catarina – responde Jean com um sorriso que escorre para o canto de sua boca, lentamente, enquanto sua mão toca a minha, firme.

Respiro fundo e com muito esforço me afasto para entrar na festa. Caminho devagar , com a sensação de que ele me observava. Sinto o calor, o perfume que Jean exala bem próximo, como se estivesse andando atrás de mim. Então me viro, quase trombando nele. Sorrimos um para o outro e então ele diz:

- Eu tenho uma ideia que com certeza você irá gostar.

- Bom, eu tenho que escutar para saber se gostei ou não – respondo já animada com o fato dele estar perto de mim novamente.

-Eu decidi unir o melhor dos dois mundos. Eu quero saber mais sobre você e você quer saber mais sobre mim.

-Ah é, eu quero? –irônica.

-Quer sim... – responde Jean levantando a mão para tocar nos meus cabelos, os colocando para trás da orelha mais uma vez. Então sua mão desliza pelas bochechas, ficando vermelhas - Eu preciso entender você e seus detalhes - O toque e seus dedos terminam em meu queixo - Mas temos a questão da Tiemi, você precisa encontrar a sua "amiga".

- Sim, eu preciso - sussurro sem ar ainda saindo do transe - Eu a prometi que a encontraria aqui.

-Então, porém não tem a menor ideia de encontrá-la aqui – comenta Jean recebendo um aceno afirmativo, então ele se afasta e aponta para si - Porém, eu conheço a Tiemi baladeira e sei exatamente os lugares onde ela fica em uma boate. São sete anos de convivência com aquela doida, logo eu tenho mais vantagem que você.

- Então qual é a sua ideia? –curiosa

- Eu a ajudo procurando a Tiemi e você me concede a honra de conhecê-la melhor.

- Uma boa ideia...

-Não necessariamente nessa ordem. – reforça Jean recebendo um olhar surpreso.

-Como assim?

-Bom, conhecendo a Tiemi , como eu conheço, tenho certeza que ela estará mais próxima possível do bar, assim ela evita de se locomover tanto e pode beber mais até cair. Então ficaremos no bar aguardando que a japa vá até lá pegar umas bebidas. Ou mandar uma das suas amigas.

-Ela veio com umas meninas que eu conheço – comento, animada com a ideia.

-Mais fácil ainda. Enquanto ela não aparece, você me conta mais sobre como um garota como você veio parar aqui. Que tal? – propõe Jean olhando fixamente para mim e depois para os meus lábios. Ele me deseja e isso é recíproco, algo que nunca senti antes.

- Eu aceito. – respondo sorrindo em seguida.

- Perfeito. Permita-me, madame – diz Jean deixando seu braço a disposição para entrelaçar com o meu, que faço sem pestanejar.

****

O que posso dizer daquela boate a menos que era um lugar que eu jamais pensei que entraria? Por todo lado tinha água, formando um imenso rio. Estátuas banhadas a ouro , os detalhes da parede em dourado, cristais para todos os lados e o aroma ímpar. No teto, bolhas de veludo e deles saem cordões de cristais e os mais belos lustres que já vi na vida. Além, de ao fundo terem bangalôs que eu só tinha visto em filmes, com garçons circulando servindo comidas tão exóticas que ficaria em dúvida entre comer e guardar. Sem contar as pessoas que ali estavam, todas muito elegantes, me fazendo sentir um pouco incomodado, como se eu estivesse invadindo o mundo deles. Uma fraude completa. Olho para Jean que está alheio aqueles pensamentos, nada o parece surpreender, me fazendo ficar sem graça, aquele é o mundo dele. Caminhamos por entre as águas, e por instinto, aperto mais forte seu braço. Então, meu "namorado" olha para mim:

- Sua primeira vez aqui né? – pergunta com aquele sorriso. Por algum motivo, seu sorriso me acalma. Eu aceno com a cabeça então ele aponta para água - Essa é uma representação do rio Chao Phraya, o principal da Tailândia. As peças são genuinamente tailandesas, bem como as estátuas banhadas a ouro e outras peças que são do cotidiano tailandês. Sabe aquele barco o barco que está no telhado? O nome dele é "tuc tuc" e descreve o funcionamento dos mercados flutuantes. Esse aroma é resultado da junção de especiarias daquele país. Existem mais de trinta budas, quarenta lustres e cristais no teto... e também no bar – finaliza Jean apontando para o bar. - Bem vinda ao bar de cristal, ele retrata exatamente como é a Tailândia.

O bar era uma ilha de cristal para todos os lados, os cristais parecem gelo tomando conta de cada centímetro, cada garrafa, com toda delicadeza e luxo que aquele lugar tinha. Sentamos no bar e recebemos o cardápio, mas assim que abro vejo que realmente aquele não era meu lugar: Champanhes exclusivos de 1,4 mil reais até três mil reais a garrafa. Sem falar nos brindes, eram 15 diferentes e nenhum deles saía por menos de cinquenta reais, e eu tenho exatamente oitenta reais na carteira. Calculo mentalmente, cinquenta para pagar o táxi de volta para casa e o restante que seria para tomar algo, ou seja, nada de bebida pra mim, nem mesmo uma água se querem saber. Observo Jean por cima do cardápio e ele analisa com cuidado item a item.

- Dois Tiki Mug – pede Jean ao garçom. Ele sorri em minha direção e tudo o que eu sinto é meu rosto em chamas.

Olho o "Tiki Mug", ele é feito de gomas de tangerina, gengibre e pimenta... e deve ter ouro no meio, pelo preço que está no cardápio.

-Ah, eu não irei beber nada – digo, sem graça - Obrigada.

- Não aceito não, como resposta – alega Jean colocando seu dedo em cima dos meus lábios, descendo até meu queixo. -Aliás, as únicas respostas que desejo de você são a seu respeito.

- Okay... Fico devendo essa – respondo, sorrindo.

-Não, é mínimo que eu posso fazer. - comenta Jean.

- Bom você é um perfeito cavalheiro – elogio.

- Os cavalheiros à moda antiga não morreram. Apenas trocamos nossas armaduras por ternos e socorremos nossas donzelas das portas das boates. O que me lembra, o que uma garota como você está fazendo aqui? E como se tornou amiga da Tiemi?

- Uma garota como eu? – pergunto surpresa. Como assim, uma garota como eu?

-Sim, desculpa, mas você não parece fazer parte de nada disso. Você não pertence a esse mundo – explica Jean.

Fico séria, ele está falando da minha condição social, tenho certeza. Sou pobre ele é rico, claro que iria notar que eu não faço parte do mundo dele. Que tola sou eu de ter vindo aqui. Os drinques chegam junto com clima de tensão entre nós.

- Não mesmo. Se quiser saber, eu sou pobre. Bem pobre, não tenho a menor condição de pagar esse drinque que você pediu, sem pensar que se eu pagar não tenho como ir pra casa e terei que pegar ônibus, algo que eu não sei pegar aqui ainda, pois sou nova na cidade. Então, você está certo, eu não deveria estar aqui, no seu mundo. É melhor eu ir procurar a Tiemi – digo me levantando.

-Ei, relaxa – diz Jean segurando meu braço - Eu não estava falando da sua condição social. Até por que eu sou tão pobre quanto você. Eu estava falando do fato de você não se comportar como elas... Você parece tão séria... meiga... pura... inocente. Aposto que você era uma daquelas garotas que estudavam no final de semana enquanto via suas amigas saindo, curtindo , festando, pegando... Mas se quer saber, eu admiro garotas como você.

- Como pode ter certeza que sou esse tipo de garota? – pergunto séria.

- Porque enquanto entrávamos, ao invés de procurar o bar, você ficou admirada com todo o resto. Nunca vi uma garota como você por aqui... Logo, sei que é diferente... e que deve se orgulhar disso. – responde Jean tomando um gole do Tiki Mug - E convenhamos você não parece ser o tipo de pessoa que teria a Tiemi como amiga. Ela é toda popular, livre, leve e solta. Faz o que quer, adora dar show em boate, sai com vários caras, bebe até cair e não ter a menor ideia de onde está no dia seguinte. Esse jeito dela é o que afasta os homens... E já você, está aqui, séria, tomando seu drinque, apenas conversando, sem qualquer pretensão. Talvez dance, mas não a ponto de se expor para os caras. Irá se divertir e então irá para casa, sabendo exatamente o que fez e com quem fez. Mas duvido que faça algo que irá se arrepender depois, e isso atrai os homens. Notou a diferença? - finaliza me encarando. Então sorri, já sabe a resposta.

Ele está certo, mas só que seria oposto, garotas como a Tiemi nunca quiseram ser minhas amigas. Eu sempre me achei sem graça e elas sempre foram tão decididas, espertas, bonitas e populares. O tipo de garota que os homens seguiam iguais cachorrinhos adestrados. Então, na minha frente, está um homem dizendo que tudo o que eu sempre quis era ruim, e dizendo que não há nada de errado comigo. Algo a se admirar... Quem é ele e por que demorou tanto tempo para aparecer?

- Você é linda – dispara ele, me deixando sem defesa. - Catarina, ou quem quer que seja.

-Meu nome é Catarina mesmo. Catarina Araújo Freitas - respondo tomando mais um pouco do meu drinque.

- Então, Catarina, o que veio fazer em Campo Grande? – pergunta Jean, curioso.

- Acho que o que todo jovem vem fazer: estudar - respondo.

- Claro, mas qual o curso te motivou você a sair da sua cidade...

-Ourinhos – completo - Interior de São Paulo.

- Ourinhos e vir para cá?

- Bom, eu passei em Letras, algo que eu sempre quis.

-Uau, corajosa – exclama Jean tocando a borda de seu copo.

- Por que acha isso? – pergunto curiosa. De tudo o que falaram sobre minha decisão de mudar de cidade, Coragem, nunca foi uma palavra dita.

- Porque eu jamais sairia daqui para outro lugar se o curso não valesse a pena - responde Jean.

- Você não acha que Letras é um curso que vale a pena?- pergunto confusa.

- O que eu acho é que na sua cidade sem dúvida tem esse curso. Mas que você preferiu sair de lá por um motivo maior. Estou certo? – pergunta Jean. - Quer conversar sobre isso? Eu sou um ótimo ouvinte.

- É uma longa história, nada que deva estar em pauta em uma conversa de boate – respondo, evitando o assunto. Nem o conheço direito, claro que não irei contar a ele sobre minha vida, o divórcio dos meus pais... apesar de sentir vontade de fazê-lo.

- Como quiser – diz Jean finalizando seu drinque - Quer mais um?

-Não, estou satisfeita – respondo olhando para a pista de dança. A música está tão boa que até sinto vontade de dançar...

- Quer dançar? – pergunta Jean lendo os meus pensamentos - Não sou um bom dançarino, mas posso arriscar uns passos.

- Eu estou bem. Afinal, estamos aqui para esperar a Tiemi aparecer...

- Acho que não tem problema dançarmos só uma e o seu corpo demonstra que quer isso – argumenta Jean olhando de cima até embaixo, devagar. Ele não consegue evitar morder os lábios, me deixando sem jeito - Vamos, Catarina, sei que irá gostar. – finaliza segurando minha mão e me puxando contra o seu corpo.

Levantamos e caminhamos até a pista de dança. A música muda para algo mais sensual, nos olhamos sem saber o que fazer ou como agir, enquanto o resto do pessoal já está praticamente simulando sexo na pista. Então Jean passa o braço pela minha cintura me puxando em direção aos seus quadris, nos encaixamos perfeitamente, ele não dança mal como disse. Seus olhos me observam , enquanto eu danço, jogando meu cabelos, meus braços, me sinto livre... Suas mãos deslizam pela minha cintura, quadris... seu corpo remexe com o meu... morde seus lábios me admirando.

Então ele me vira, encaixando perfeitamente, posso senti-lo, suas mãos deslizam em minha coxa, subindo... calor... desejo... uma voz em minha cabeça me repreendeu, mas meu corpo o que mais ... suas mãos estão em minha barriga e subindo... Ele me vira novamente, fazendo nossos rostos ficarem bem próximos. Suas mãos seguraram meu cabelo puxando, enquanto seus lábios tocaram meu pescoço subindo devagar... Meus lábios se abrem em busca dos seus que me aguardam...

- Aí está você!!!! – grita Tiemi surgindo no meio da multidão.

Afasto-me rapidamente dos braços de Jean que a encarou, irritado. Mas ela não percebe, soltando dos braços de dois rapazes e pulando em cima de nós, quase me fazendo cair. Atrás da Tiemi, estão dois caras a cobiçando descaradamente, como se fosse um pedaço de carne dentro de um vestido preto tomara que caia e salto, aquilo me dá nojo, mas ela está tão bêbada que nem nota a real intenção daqueles homens.

-Achei que você tivesse desistido... como as outras – continua Tiemi tocando no meu rosto - E aí! te.... encoooontro com ooooo partidãaaaooo ... da festa! Jay, Jay! Como... Como... como foi que voxxeeeess se conhe... conheceram? Opa me olha sendo uma péssimaaa amiga... –se joga de costas, sendo amparada pelos dois rapazes que fazem questão de segurar em sua nádega e seios. Ela sorri para os dois enquanto toca em seus rostos - Esse são... Bernaaaardooo e rafaeeeeel, ou o contrário, ou descontrário... sei lá. Quem se importa? Enfim, voxê não foi a única que se deu bem essa noite.

- Acho melhor eu levar a Tiemi para casa – comentei com Jean que continua com o semblante sério olhando toda a situação. Então ele se vira para mim e em seus olhos vejo exatamente o que sente: nojo. Sinto-me envergonhada por ela e por toda aquela situação, ainda mais por que agora Tiemi está beijando os dois caras ao mesmo tempo na frente de Jean. Seguro no braço dela, chamando sua atenção - Vamos, Tiemi, está na hora de irmos embora.

- Não, tá cedo ainda - solta um dos caras puxando Tiemi de volta. Ela sorri para eles - Ela não está a fim de ir embora.

- Mas ela vai. Tiemi, Tiemi, vamos – digo estalando meus dedos em direção a ela que sorri para mim. Por algum motivo, não acredito que Tiemi esteja apenas bêbada.

- Ei, que tal você tomar seu rumo e deixar a sua amiguinha aqui com a gente? – sugere o outro rapaz praticamente agarrando a garota. Sua mão está mais atrevida, indo para o meio de suas coxas- Prometemos cuidar muito bem dela.

- De um jeito que ela nunca irá esquecer – garante o outro. Tento ir em direção a Tiemi, mas ele se põe na minha frente e me empurra quase me derrubando, mas sou segurada por Jean. - É melhor você cuidar da sua mina e deixá-la longe de problemas.

- É melhor vocês irem – diz Jean se colocando em minha frente.

- E o que você vai fazer playboy? – pergunta o meu agressor, irritado.

Mas o Jean não responde, pelo menos não com palavras. Ele desferiu vários socos na cara do rapaz o derrubando. Ele continua chutando repetidamente, então o outro cara solta Tiemi e vai para cima de Jean que sorri em minha direção e então chuta o outro que cambaleia no meio da multidão que só então percebe o que está acontecendo. Jean continua batendo sem parar... seus olhos estão vívidos, sua respiração ofegante e o que mais me impressiona é o sorriso estampado em seu rosto. Ele está gostando disso? Em nada lembra o rapaz que há pouco ria comigo e me dizia belas palavras. Aquela cena me deu um frio na espinha, algo muito ruim. Não aguento continuar vendo aquilo e então grito em sua direção:

-Jean, para! Para com isso!

Ele para, solta o colarinho do cara e vem em minha direção, segurando meu rosto, meus braços, analisando cada parte a procura de um hematoma. Então, Jean pega Tiemi nos braços e começa a andar em direção a saída. Acompanho os dois, mas não sem antes olhar para trás e ver as pessoas nos observando, essa foi a primeira vez que fingi não me importar com aqueles olhares. Na saída, pede para o manobrista seu carro enquanto o ajudo a segurar Tiemi que está apagada. A espera pelo carro é infinita e desconfortável:

-Era disso que eu estava falando- solta Jean sem me encarar - Essa é a diferença entre vocês. Você jamais estaria nesse estado...

- Eu não acho que seja só bebida – revelo.

- Catarina, você não entende mesmo o que rola nessas festas? Acha mesmo que ela só bebeu?

- Desculpa, eu realmente não entendo nada desse tipo de festas, mas tenho certeza que ela foi dopada. Olha o estado dela – argumento.

-Catarina, a Tiemi não é uma garota inocente. Aliás, ela nunca foi. Ela é o tipo de garota que se deixa levar por outras coisas. Acredite em mim, o que aconteceu hoje foi só mais uma balada para ela.

- O que você está querendo dizer? – pergunto consternada com as revelações de Jean.

- Que ela estaria muito bem se não tivesse interferido. Catarina, ela sempre faz isso. Não é novidade para ninguém. Bom, mas depois desse escândalo, talvez ela aprenda a lição. Eu acho muito difícil, conhecendo a peça.

- Se isso é tão normal... Por que você bateu naqueles caras? – pergunto, transtornada.

- Eu fiz aquilo por você. – responde Jean com um sorriso fraco.

Abro minha boca para fazer mais uma pergunta, mas então o manobrista aparece com um belo carro executivo preto, atrás escrito BMW, ele entrega as chaves para o Jean que encolhe os ombros diante da minha pergunta silenciosa:

- Eu sou pobre, mas meus pais não – responde abrindo a porta de trás para colocarmos Tiemi lá dentro. Então, ele abre a porta do passageiro para mim e depois entra no carro.

O trajeto pela cidade é feito em ritmo de Bossa Nova, se não fossem as marcas vermelhas nas juntas dos dedos de Jean, parecia que nada tinha acontecido e que estávamos apenas voltando da balada. Mas muita coisa aconteceu e aquelas imagens apareciam toda vez que ousava a fechar meus olhos. Então, olho para o Jean que parecia bem calmo e até feliz.

- Por que você disse aquilo? – pergunto enquanto passo a mão nos meus cabelos.

- Disse o quê? – pergunta Jean sem tirar os olhos da pista.

- Aquilo de ter... batido nos caras por mim.

- Porque é verdade. Eu fiz aquilo por você, Catarina. E faria mil vezes.

- Mas por quê?

- Por que precisa ter um motivo? Só você ser o motivo não basta? – questiona Jean, confuso.

- Porque ninguém sai por aí batendo nas outras pessoas sem motivo. – respondo nervosa. E muito menos daquela forma, penso.

-Mas tem um motivo: você – responde Jean estacionando - Chegamos senhorita.

Ficamos em silêncio no carro, apenas escutando a respiração forte de Tiemi no banco traseiro. Tiro o cinto de segurança e então me esforço para lhe dar meu melhor sorriso como agradecimento por tudo o que fez hoje:

- Obrigada por hoje - sussurro

Jean segura minha mão esquerda a conduzindo para os seus lábios, selando com um beijo.

- Sempre às ordens, minha Catarina.

Saio do carro e abro a porta traseira, para despertar Tiemi que com muita dificuldade, acorda. Ela ainda balbucia coisas sem sentido até o portão que consigo abrir com dificuldade. Olho mais uma vez para Jean que sorri e então sai da frente da casa com seu belo carro.

O céu já está clareando, indicando que aquela noite finalmente chegou ao fim..

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