Estou encarando um documento que acabou de apagar o último fio da minha sanidade.
Já me belisquei tantas vezes que minha pele ficou cor-de-rosa. Mesmo assim... não acordei desse pesadelo que, ao que parece, é a minha vida. A minha realidade.
O Dr. Carter está sentado à minha frente, com as mãos cruzadas sobre uma pasta bege, olhando para qualquer lugar, menos para o meu rosto.
"Pode... pode repetir?", pergunto, torcendo para ter ouvido errado da primeira vez.
Porque isso não pode ser real.
Não pode.
"Sinto muito, Sra. Vance", diz ele. A voz sai baixa, sem aquela segurança profissional que costuma carregar. "Houve um erro de procedimento no laboratório. Uma rotulagem incorreta na retirada do material criopreservado."
"O que... o que isso quer dizer?"
Ele se ajeita na cadeira.
"O embrião que implantamos... não foi criado com as amostras de Julian Thorne. O sêmen usado pertencia a outro doador."
Abraço a própria barriga, sentindo a leve curva sob o tecido fino do meu vestido florido.
Esse bebê é a minha âncora.
Desde que o carro de Julian derrapou naquela estrada encharcada pela chuva, um mês atrás, essa gravidez tem sido a única coisa que me impede de afundar. Os médicos disseram que talvez Julian nunca acordasse do coma, e os pais dele me imploraram para usar as amostras que ele tinha congelado antes mesmo de ficarmos noivos. Queriam que uma parte dele continuasse viva.
Eu queria isso ainda mais.
"Não", digo, balançando a cabeça devagar. Minha voz sai tão calma que até me assusta. "Não, isso não está certo. Nós usamos a amostra do Julian. Foi isso que combinamos. Foi para isso que eu assinei."
"Sra. Vance..."
"Passei semanas em tratamento", retruco, e a calma começa a rachar. "Hormônios. Injeções. Exames de sangue. Você me disse que estava tudo certo. Disse que ia funcionar."
"E funcionou", responde com cuidado. "Você está grávida."
Então a voz dele baixa ainda mais.
"Mas o pai biológico não é Julian Thorne."
Uma lágrima escorre pelo meu rosto antes que eu consiga segurar. Limpo com raiva.
"Esse não é meu filho", digo, como se a firmeza na minha voz pudesse apagar a verdade.
"É seu filho", ele diz. "Geneticamente, você é a mãe."
Encaro o médico por alguns segundos e depois rio. Um som seco, amargo, sem humor nenhum.
"Não é meu filho com o meu noivo. Eu queria um bebê com o homem que amo. Com o homem com quem vou me casar. Fiz tudo certo. Segui cada etapa. Confiei em você."
"Eu entendo como isso deve ser difícil..."
"Não, você não entende!", grito, batendo as mãos trêmulas na mesa. "Você não faz ideia do que isso significa."
Porque Julian talvez nunca acorde.
Porque esse bebê deveria ser a única parte dele que me restaria.
Porque construí meu futuro inteiro em torno dessa única esperança.
"Sinto muito."
"Sente muito?", solto uma risada de desprezo. "Você não perdeu a minha mala, doutor. Perdeu a última parte viva do meu noivo. Julian está em coma. Talvez nunca acorde, e você me colocou... o quê? O DNA de um cara aleatório?"
A ironia desce pela minha garganta como um comprimido com lâminas. Passei seis semanas enchendo meu corpo de hormônios, deixando minhas coxas roxas de tantas agulhas.
"Quero tirar isso", digo, de repente calma. "Interrompam a gravidez. Vamos refazer o ciclo. Não vou levar um 'erro de etiqueta' até o fim."
"Sra. Vance, o conselho do hospital está preparado para oferecer um acordo de um milhão de dólares", o Dr. Carter diz depressa, pálido. "Além do reembolso total do tratamento e do melhor pré-natal disponível, desde que a senhora assine um acordo de confidencialidade."
Levanto tão rápido que a cadeira arranha o piso de linóleo.
Um milhão de dólares.
Querem comprar meu silêncio sobre o bebê de um estranho.
Olho para os diplomas emoldurados na parede, para os gráficos anatômicos, para os pequenos modelos de plástico representando a vida, e sinto uma onda de calor subir pelo meu pescoço. Minha pele parece apertada demais para o meu corpo.
"Um milhão de dólares?", murmuro.
Outra lágrima escorre, e aquela calma gelada volta. Estou oscilando entre a fúria e o vazio, sem conseguir controlar nada.
"Eu não quero o dinheiro de vocês", digo. "Quero isso." Aponto para a minha barriga. "Fora de mim."
A expressão dele se contrai.
"Temo que isso não seja uma boa ideia..."
"Não me importo."
"Isso seria um erro."
A voz é grave, fria, autoritária.
Viro na direção da porta e vejo um homem parado no batente. Alto, de ombros largos, usando um terno cinza-chumbo que parece caro demais para existir. Os olhos, de um cinza penetrante, estão fixos em mim com uma intensidade implacável.
O Dr. Carter se levanta tão rápido que quase tropeça.
"Sr. Wolfe. Eu não sabia que o senhor estava aqui."
"Costumo tomar medidas rápidas quando os meus ativos são mal geridos, doutor", diz o homem.
Ele entra na sala, e o espaço parece encolher pela metade. Não olha para o médico. Olha para mim, me avaliando com uma intensidade clínica e predatória.
A presença dele é tão forte, tão intimidadora, que quase sinto vontade de dar um passo para trás. Mas não recuo. Luto com cada osso do meu corpo para manter a postura.
O Sr. Intimidador enfia a mão no bolso e coloca sobre a mesa um cartão de visita grosso, preto e fosco.
Alistair Wolfe. CEO, Wolfe Industries.
Meus lábios se abrem de leve.
Esse é o homem que praticamente automatizou metade das empresas de logística do país. O homem que chamam de Fantasma de Wall Street.
"Sou o pai biológico da criança que você está carregando", diz Alistair. O tom não carrega pedido de desculpas. É apenas uma constatação. "E não tenho intenção de permitir que interrompa essa gravidez. Leve a gestação até o fim. Entregue a criança para mim no momento em que nascer, e depositarei cem milhões de dólares em uma conta de sua escolha."
Dou um passo para trás até minhas panturrilhas baterem na cadeira de visitas. Fico olhando para ele, com a respiração falhando. Minha calma se transforma naquele calor dolorido no peito, e cerro os punhos.
"Você é maluco."
Os olhos do Dr. Carter se arregalam. O Sr. Intimidador franze a testa.
"O quê?"
"Você é maluco", repito. "Meu noivo está deitado em um hospital, em coma, e você acha que pode me pagar para eu ter o seu bebê no lugar do dele?"
"Duzentos mi..."
"Eu não me importo com o seu dinheiro!", rebato. "Quero minha vida de volta. Quero o filho do meu noivo."
A expressão de Alistair não suaviza. Pelo contrário. Vira pedra.
"Dinheiro compra tempo, Sra. Vance. E, agora, você não tem mais tempo."
"O que isso quer dizer?"
Ele faz um sinal para o Dr. Carter, que pega outro relatório na mesa e entrega para mim.
"Seus últimos exames saíram esta manhã", explica o médico. "Seu endométrio está... significativamente mais fino do que prevíamos. O estresse hormonal desse ciclo de fertilização in vitro causou cicatrizes graves."
Ele faz uma pausa, olha para Alistair e depois volta os olhos para mim.
"Se você interromper essa gravidez, o dano será irreversível. A probabilidade de uma segunda implantação bem-sucedida é praticamente zero. Você ficaria permanentemente infértil."
Minha cabeça gira. Por um segundo, acho que vou desmaiar.
"Isso... isso não é verdade. Vocês podem aplicar algum remédio. Podem fazer uma cirurgia."
"Essas não são opções viáveis, Sra. Vance."
O sonho de uma casa com um balanço de pneu no quintal, de um garotinho com o cabelo loiro e bagunçado de Julian, começa a evaporar como névoa.
Se eu acabar com essa gravidez, acabo com tudo.
Nunca vou ser mãe.
Não do filho de Julian.
Não de filho nenhum.
"Pense bem", diz Alistair, agora com a voz baixa como seda. "Você mantém a criança. Cumpre o potencial biológico dessa gestação. Recebe uma fortuna que garante que nunca mais precise trabalhar um único dia na vida. E depois pode ter outro filho com seu noivo. Tudo que peço é..."
Ele para quando vê novas lágrimas se formando nos meus olhos.
Algo na expressão dele suaviza, mas dura só um segundo.
"O que é meu", completa.
A tontura piora, e agora mal consigo respirar. É informação demais. Preciso ver Julian. Preciso tocar a mão dele e dizer que sinto muito por ter falhado.
Como se o universo tivesse lido minha mente, meu celular começa a vibrar em cima da mesa.
Avanço para pegar assim que vejo o nome da mãe de Julian na tela.
"Emily!", ela soluça no instante em que atendo. "Emily, venha para o hospital. Agora! Julian... ele abriu os olhos. Ele acordou!"
Não digo uma palavra a Alistair Wolfe.
Nem sequer olho para ele.
Eu corro.
Disparo pelos corredores do hospital. Meu coração vira um tambor, batendo uma única palavra.
Julian.
Julian.
Julian.
Chego à UTI. Diminuo o passo ao me aproximar do quarto 402, a mão tremendo quando alcanço a maçaneta. Quero entrar de uma vez, abraçar Julian, dizer que vamos resolver juntos toda essa confusão do bebê.
Mas a porta está entreaberta apenas alguns centímetros.
E, lá de dentro, não escuto o bipe dos monitores nem a respiração estável de um paciente em recuperação.
Escuto um soluço abafado e familiar.
O homem com quem eu planejava passar o resto da vida acaricia o cabelo da minha irmã como se fosse ela que tivesse passado um mês dormindo numa poltrona de hospital.
Fico imóvel no vão escuro da porta, os dedos fechados em punhos. Julian parece outro, afundado naqueles travesseiros brancos. O noivo forte e atlético que eu conhecia foi substituído por um homem frágil. Mas os olhos dele estão bem abertos, presos em Chloe. Ela está tão perto que as testas dos dois quase se encostam.
"Eu estava indo te ver naquela noite", Julian sussurra. "Entrei no carro porque não aguentava esperar mais um dia para dizer à Emily que o casamento tinha sido um erro. Eu estava correndo para cancelar tudo, Chloe. A chuva... eu simplesmente não vi o caminhão vindo."
Chloe solta um soluço abafado e esconde o rosto contra a lateral do colchão.
"Você quase morreu por nós", ela choraminga. "Eu passei tanto medo, Julian. Tive que ver ela fazendo papel de noiva desesperada quando sou eu que te amo de verdade."
O ar no corredor vira gelo.
Cada sacrifício que fiz nas últimas quatro semanas volta de uma vez. As agulhas que enfiei nas próprias coxas por causa da fertilização in vitro. A culpa esmagadora que carreguei por acreditar que ele tinha batido o carro correndo para me ver. A criança crescendo dentro de mim, uma criança que pertence a um estranho de olhos frios chamado Alistair Wolfe, tudo porque eu queria entregar aos pais de Julian um pedaço da sua essência antes que ele morresse.
Empurro a porta e entro no quarto.
No instante em que a luz cai sobre eles, Chloe se afasta num sobressalto. Julian olha para mim, de olhos arregalados e vidrados. Não sustenta meu olhar por mais de um segundo. As bochechas ficam vermelhas, e ele desvia para o teto.
Antes que eu consiga encontrar a própria voz, um som vem de trás. Viro e vejo a mãe de Julian parada ali, segurando uma bandeja de papelão com cafés. Os olhos dela estão vermelhos, e seu rosto parece de quem não dorme há uma semana.
"Emily, querida, você está branca feito papel", ela diz. Então olha para minha barriga com um sorriso trêmulo, cheio de esperança. "Como foi a consulta? Nosso pequeno milagre está firme?"
Olho para ela, a mulher que me tratou como filha por três anos, e depois para Julian. O covarde continua encarando o teto. A verdade sobre o bebê de Alistair Wolfe fica presa na minha garganta como um punhado de cinzas.
"Não deu certo", digo.
Minha voz sai firme, sem nenhum traço de tristeza. Tão firme que até me surpreende.
"A fertilização falhou. Não tem bebê nenhum."
O rosto da mulher mais velha desaba. Ela se apoia no encosto de uma cadeira de plástico para não perder o equilíbrio.
"Ah, Emily. Não. Depois de tudo isso, não. Sinto muito."
Observo Chloe pelo canto dos olhos. Ela me encara com a boca entreaberta, numa expressão falsa de choque. Leva um lenço de renda aos olhos e enxuga lágrimas que nem existem.
"Ai, Emily, que devastador", Chloe diz.
Ela se levanta e vem na minha direção. Lança um olhar pesaroso para a mãe de Julian antes de voltar aquela expressão para mim. Só que os olhos dela não parecem tristes. Pelo contrário. Brilham.
"Eu sei o quanto você queria isso. Todos nós queríamos."
Ela para a poucos centímetros de mim.
"Mas talvez", Chloe continua, baixando a voz para um sussurro, "talvez seja melhor assim, não é? Tudo está tão complicado agora, com a recuperação do Julian. Pelo menos você não carrega esse fardo sobre os ombros, arruinando a sua vida. Pode finalmente pensar em você."
A palavra fardo ecoa nos meus ouvidos como um sino.
Uma calma estranha, gelada, toma conta de mim. O calor do quarto se esvai, substituído por uma clareza nítida, como se um véu caísse dos meus olhos. Penso nos hormônios que injetei no meu corpo. Penso em todas as vezes que me sentei ao lado da cama de Julian e sussurrei para ele sobre uma criança que eu acreditava que salvaria o espírito daquela família.
A raiva que sinto não se parece com nada que já senti antes. Ela apenas fica ali, branca, silenciosa, incandescente, cegando tudo ao redor e ditando meu próximo movimento.
Antes mesmo que eu consiga pensar, minha mão sobe com uma velocidade que pega Chloe completamente desprevenida. O som do meu tapa ecoa pelo pequeno quarto.
A cabeça de Chloe vira para o lado, e ela cambaleia para trás. Uma marca vermelha floresce na pele.
"Emily!", Julian grita da cama.
Ele tenta se sentar, o rosto se contorcendo de dor enquanto os monitores começam a apitar num ritmo frenético e irregular.
"Que diabos você está fazendo?"
Não respondo. Agarro Chloe pelo colarinho da blusa de seda e arrasto ela para perto da cama. Ela grita, cravando as unhas impecáveis nos meus pulsos, mas não sinto nada. Empurro ela na direção de Julian.
"Quer falar sobre fardos, Chloe?", pergunto. "Então vamos falar do fardo de ser uma mentirosa. Vamos falar sobre o que vocês dois faziam enquanto eu estava numa clínica tentando salvar um legado que nem queria ser salvo."
Julian estende a mão, os dedos tremendo enquanto tenta afastar minha mão do colarinho dela.
"Emily, para. Você está histérica."
Olho para ele, e o homem que eu achava que amava já não existe. No lugar dele, só resta um estranho de queixo fraco e expressão assustada. Solto a camisa de Chloe, mas apenas para voltar toda a minha atenção para Julian.
Levanto a mão e acerto o rosto dele.
O primeiro tapa é pelos três anos que desperdicei.
O segundo, pela culpa que carreguei, acreditando que eu era a razão de ele estar ferido.
O terceiro, pela farsa. Pela forma como me deixaram entrar num hospital e implantar em mim o filho de um estranho enquanto planejavam fugir juntos.
"Acabou", digo. "Não me liguem. Se eu vir qualquer um de vocês dois de novo, vou garantir que o resto do mundo saiba exatamente que tipo de gente vocês são."
Viro e saio, ignorando o choro sufocado e o caos que explode no quarto. Não paro até chegar à escada vazia, três andares abaixo. Encosto na parede fria de concreto e, finalmente, o ar dentro de mim se rompe.
Estou sozinha.
Estou grávida do filho de um bilionário.
E não tenho nada.
Uma hora depois, estou sentada na sala de espera de uma clínica da mulher do outro lado da cidade. Não posso levar adiante o filho de Alistair Wolfe, não quando essa criança foi concebida sob uma mentira.
A médica é uma mulher de uns sessenta anos, com olhos cansados. Ela analisa meus exames e depois volta o olhar para mim.
"Preciso ser sincera com você. Seu histórico mostra endometriose grave e um endométrio muito fino. Essa gravidez é, basicamente, um acaso médico. Se prosseguirmos com a interrupção, as cicatrizes podem ser permanentes. É bem provável que você nunca mais consiga engravidar."
Saio daquela clínica e vou para outra. E depois para mais uma.
Passo a tarde inteira dirigindo pela cidade, ouvindo a mesma frase em consultórios diferentes, dita por vozes diferentes.
Infertilidade permanente.
Quando finalmente entro na garagem da propriedade dos Vance, o sol já está se pondo. Sigo em direção ao escritório para procurar meu pai, mas paro ao ouvir vozes vindas da porta entreaberta da sala de estar.
A essa altura, eu já deveria saber que nunca se deve escutar conversas por portas entreabertas.
"Não sei, Lydia", diz a voz do meu pai.
"A empresa está afundada em dívidas", responde uma voz. É Lydia, minha madrasta. "E esse acordo com Silas Reed é a única coisa que pode nos salvar agora. Ele pergunta sobre a Emily há meses. Não vai se importar com o fim do noivado. Está disposto a quitar a dívida principal no momento em que a certidão de casamento for assinada."
"Mas os boatos sobre ele", meu pai diz, sem força. "O jeito que a última esposa dele acabou... e ele é quase vinte anos mais velho que ela."
"Ele é rico, Thomas", Lydia rebate. "Depois da notícia que recebemos do hospital, sabemos que a Emily precisa ser controlada. Silas vai manter ela na coleira curta."
Encosto na parede do corredor, com o estômago revirado.
Silas Reed.
Um predador conhecido pela crueldade. Minha própria família está me vendendo para um monstro a fim de salvar um negócio falido.
Meu celular vibra no bolso. Pego o aparelho e leio as palavras na tela com a visão embaçada.
Você chegou a uma decisão, Emily? - Alistair Wolfe.
Olho para a porta da sala de estar, onde meu pai e minha madrasta negociam minha vida como se eu fosse gado. Depois olho para a mensagem.
Não tenho marido.
Não tenho família.
E, se eu perder esse bebê, não tenho futuro.
Aperto o botão para ligar para o número desconhecido. Chama uma vez antes de ele atender.
"Não esperava sua ligação", diz a voz.
"Vou fazer sim", digo.
Fico ereta, a mão pousada sobre a barriga.
"Vou levar essa criança adiante. Vou te dar seu herdeiro."
Há um breve silêncio do outro lado.
"Uma escolha sábia, Emily. Vou providenciar os documentos do fundo."
"Não", digo, com a voz mais dura. "Não quero os cem milhões. Quero outra coisa."
"Diga."
Respiro fundo.
"Você vai ter que se casar comigo, Alistair."
Acabei de pedir a um bilionário que se casasse comigo para me salvar de um cobrador de dívidas predatório e de uma família que me enxerga como mais uma linha numa planilha.
O silêncio parece um castigo quando se está falando com um homem como Alistair Wolfe. E o celular continua mudo há tanto tempo que parecem horas. Aperto o aparelho com tanta força.
"Só um casamento de conveniência", digo, com a voz saindo bem mais firme do que me sinto. "Não quero seu dinheiro. Depois que o bebê nascer, podemos pedir o divórcio. A única coisa que peço é direito de visita, para eu não virar uma estranha na vida do meu próprio filho."
O silêncio se estende por mais cinco segundos, tempo suficiente para eu contar as rachaduras no piso do corredor. Estou prestes a repetir que é só por conveniência, mas não tenho chance.
"Sete da manhã", diz Alistair. "No Cartório de Registro Civil. Leve sua certidão de nascimento, seu passaporte e todos os documentos de identificação que tiver. Meu advogado principal vai estar lá às seis e quarenta e cinco com a papelada. Não se atrase, Emily."
A ligação cai antes que eu consiga soltar um suspiro de alívio.
Ele não disse sim, mas as instruções bastam.
Encosto a cabeça na parede frio e fecho os olhos. Esse não é o casamento com que sonhei quando era menina. Não há rosas, não há véu de catedral e, com certeza, não há um noivo olhando para mim como se eu fosse o mundo inteiro dele. Em vez disso, estou trocando minha liberdade por um escudo. Uma troca justa, eu acho.
Durmo mal, acordando a cada hora com a imagem do sorriso oleoso de Silas Reed e de Chloe beijando meu ex-noivo. Quando o sol finalmente começa a atravessar as cortinas, me arrasto para fora da cama, tomo um banho rápido e pego um vestido envelope azul-marinho simples. É profissional, discreto, e esconde o fato de que emagreci nas últimas semanas. Penteio o cabelo até ele virar uma cascata escura e brilhante. Um pouco de corretivo e uma camada de bálsamo labial com cor disfarçam meu ar abatido.
O Cartório de Registro Civil cheira a cera de limão e café velho. É um prédio municipal sem graça, com fileiras de cadeiras de plástico e o zumbido constante de uma impressora em algum lugar nos fundos. Um homem de terno cinza-chumbo está perto do balcão de informações, segurando uma pasta de couro. Pela qualidade do terno, sei que é o advogado do bilionário.
"Sra. Vance?", pergunta quando me vê. Não sorri. "Sou Markson, advogado pessoal do Sr. Wolfe. Temos bastante coisa para resolver antes que ele chegue."
Ele me leva até uma mesinha reservada no canto e começa a espalhar folhas de papel grosso, de alta gramatura. O acordo pré-nupcial é tão detalhado que quase suspeito que tenha sido preparado semanas antes. Mas isso não é possível, porque esse casamento foi ideia minha. O documento descreve a duração do casamento, os arranjos patrimoniais após o divórcio e a parte mais dolorosa: a guarda legal e física integral da criança a favor de Alistair Wolfe. Meus direitos de visita constam em uma série de tópicos.
Leio cada palavra, a tinta ficando turva enquanto as lágrimas se acumulam nos meus olhos. Entendo que estou assinando a renúncia à única coisa que seria verdadeiramente minha. Então lembro da alternativa. Se eu ficar naquela casa, minha madrasta vai me arrastar para um casamento com um homem que destrói mulheres por diversão. Estico a mão, pego a caneta de ponta dourada que Markson me oferece e assino meu nome no fim de todas as páginas.
"Tudo parece estar em ordem", diz Markson, dando uma olhada no relógio.
Alguns minutos depois, as portas de vidro da entrada se abrem, e a atmosfera da sala muda. É como se a temperatura tivesse caído. Alistair Wolfe entra, e quase todo mundo no lugar se vira para olhar. Ele não está de terno completo hoje. Usa uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços e uma calça escura, de corte impecável. Parece mais à vontade, sólido, e bonito de um jeito absurdo, capaz de deixar minha garganta seca.
Ele para diante da nossa mesa, o olhar percorrendo meu corpo com a mesma intensidade de ontem. Não me cumprimenta. Olha para os papéis assinados, depois volta a olhar para mim. Por uma fração de segundo, seus olhos descem até meus lábios, demorando ali o bastante para minha pele se arrepiar. Então a frieza retorna.
"Ela assinou?", Alistair pergunta ao advogado.
"Todas as páginas, senhor", confirma Markson.
"Ótimo. Vamos acabar com isso."
O processo de registro vira uma sequência confusa de carimbos e assinaturas. Por causa da influência de Alistair, somos levados a uma sala privada, onde um funcionário com expressão cansada cuida do serviço acelerado. Quinze minutos depois, um documento com selo dourado desliza pela mesa em nossa direção.
Alistair pega uma das cópias e me entrega. Os dedos dele roçam nos meus, e sinto um choque de algo que não é exatamente medo, mas parece igualmente perigoso. A pele dele é quente, um contraste forte com a postura gelada.
"Agora você é a Sra. Wolfe", ele diz. "Preciso pegar um voo para Londres imediatamente. Tenho uma aquisição que exige a minha presença pessoal. Vou ficar fora por três dias."
Fico encarando o papel.
Emily Wolfe.
Parece errado. Parece uma mentira escrita com tinta dourada.
"Vou mandar um carro e uma equipe de mudança até a casa do seu pai na quinta-feira de manhã, às oito", ele continua. "Você vai se mudar para a minha propriedade. Durante a vigência desse contrato, mora comigo. Preciso garantir que a saúde do meu herdeiro seja monitorada adequadamente."
"Sei cuidar de mim, Alistair", digo, tentando recuperar um resto de dignidade.
Ele se aproxima, e sua sombra cai sobre mim. Tem cheiro de sândalo.
"Você está carregando meu filho, Emily. Isso transforma sua segurança em assunto meu. Não dificulte as coisas."
Ele faz uma pausa, e seu olhar suaviza por uma fração de milímetro.
"Precisa de carona para voltar?"
Balanço a cabeça depressa. Apenas imaginar o carro preto de Alistair parado na entrada da casa do meu pai já é um pesadelo. Lydia teria um ataque, e Thomas provavelmente tentaria pedir um empréstimo a ele antes que eu conseguisse sair do carro.
"Não. Vou pegar um táxi. Preciso resolver umas coisas em casa primeiro."
Alistair concorda com um único aceno seco e decisivo.
"Quinta-feira. Oito horas. Não faça meus homens esperarem."
Ele se vira e sai, com Markson seguindo atrás como uma sombra leal. Fico parada no meio do saguão, apertando a certidão de casamento contra o peito. Meu coração bate pesado e constante.
Eu fiz isso.
Saltei do precipício, e agora só me resta esperar para ver se o paraquedas abre.
Quando entro pela porta principal da propriedade dos Vance, o cheiro dos lírios caros de Lydia quase me sufoca. Meu pai e minha madrasta estão sentados no vestíbulo, vestidos como se fossem a um funeral. Lydia usa um terninho preto de corte afiado, o cabelo preso num coque tão apertado que parece doloroso. Thomas ajeita os botões de punho, com a testa levemente franzida.
"Onde você estava?", Lydia dispara, levantando-se no instante em que a porta se fecha com um clique. "Estamos ligando há duas horas. Tem alguém nos esperando no St. Regis para almoçar. Você precisa subir e vestir aquele vestido vermelho que comprei. E, pelo amor de Deus, dê um jeito nessa cara. Parece exausta."
"Com quem vamos nos encontrar?", pergunto, fingindo que já não sei.
"Alguém importante."
Meu pai também se levanta, embora não consiga me encarar direito.
"Emily, por favor. Coopere. É só um almoço. Essa pessoa é um homem muito influente. Ele pode nos ajudar."
"Ajudar vocês", corrijo.
Sinto uma estranha sensação de poder borbulhando dentro de mim, uma raiva fria e limpa queimando o resto do meu medo.
"Sei que é Silas Reed que vamos encontrar. E vocês querem me despachar porque ele pode ajudar a pagar seus investimentos ruins e as joias da Lydia. Mas ele não pode me ajudar."
"Não seja dramática", diz Lydia, caminhando na minha direção. "Você é uma Vance. Tem responsabilidade com essa família. Agora suba."
Não me mexo. Enfio a mão na bolsa e tiro a certidão de casamento. Ergo o papel, e o selo dourado capta a luz do lustre.
"Não sou mais uma Vance", digo. "Casei esta manhã."
Lydia para no lugar. A boca se abre e se fecha como a de um peixe fora d'água. O rosto do meu pai fica pálido, os olhos arregalados enquanto ele fixa o documento.
"Do que você está falando?", ele balbucia. "Casada? Com quem? Julian ainda está no hospital, ele..."
"Não com Julian", digo, chegando mais perto para que consigam ver o nome no papel. "Com Alistair Wolfe. Agora sou esposa dele- o que significa que estou sob sua responsabilidade. Então podem ligar para Silas Reed e dizer que o negócio acabou. Vou me mudar na quinta-feira."
O silêncio que se segue é o som mais satisfatório que já ouvi. Passo por eles em direção à escada, de cabeça erguida, deixando as ruínas de seus planos espalhadas pelo chão.
Estou indo para uma casa de gelo, mas pelo menos as paredes de lá seriam minhas.
Por algum tempo.