Abandonada, descartada e indesejada.
Foram exatamente essas três palavras que passaram na minha cabeça quando o dia mais feliz da minha vida se transformou em um completo desastre.
Eu ainda estava no carro, esperando Liam aparecer para me salvar de passar vergonha na frente de toda Melbourne, já que a minha mãe e seu ego enorme me convenceram de que a princesinha mais velha era digna de uma festa de casamento dos sonhos, desses que você não conhece nem metade das pessoas que estão ali e elas fingem te adorar, com direito a frases como "seu cabelo está perfeito" e "você é a noiva mais linda que eu já vi na vida".
Detalhe: meu vestido era horrível e meu cabelo parecia um ninho de passarinho.
Eu levei a foto de um penteado que peguei na Internet no salão, mas acho que as mocinhas lá não entenderam muito bem o que era pra fazer e ainda culparam meus fios finos e curtos pela titica que fizeram na minha cabeça.
Quanto ao vestido... bem...
Minha mãe estava tão empolgada com a ideia da filha mais velha usar seu vestido de casamento, como uma tradição de mãe para filha que ela obviamente inventou para me convencer, e eu covarde não quis magoá-la e dizer a ela que desejava usar uma coisa mais simples, talvez um modelo sereia que se ajustasse ao meu corpo ou algo leve com apenas uma camada de tecido e não cinco. Sim! Eram cinco camadas de tecido e eu mal conseguia me equilibrar sozinha, além de me sentir sufocada pelas mangas bufantes que ela chamou de clássico.
Então lá estava eu, sentada na limousine escandalosa que Liam fez questão de alugar, com a maquiagem borrada de tanto chorar segurando o celular nas mãos trêmulas lendo sua mensagem pela vigésima vez e tentando assimilar cada palavra. Isso mesmo, o idiota me dispensou na porta da igreja por mensagem de texto.
Depois disso, eu nunca mais voltei. Fiz o coitado do motorista que parecia tão assustado quanto eu me levar a um hotel qualquer, desses de beira de estrada e de lá pedi a minha irmã que trouxesse algumas roupas, meus documentos e passaporte e parti.
Saí da cidade costeira de Los Angeles e parti para a badalada Nova York e estava vivendo meu sonho até receber aquele maldito convite de casamento.
No dia em que fui abandonada, eu jurei nunca mais voltar a Melbourne mas não posso recusar o convite de ser a madrinha da minha irmãzinha caçula.
Eu precisava mostrar a Liam e ao resto da cidade que o havia superado e faria isso no melhor estilo: contratando o cara mais gostoso de NY para ser meu acompanhante.
Eu sabia que iria me arrepender dessa ideia idiota assim que o conheci, mas estava bêbada o suficiente para ignorar qualquer sinal de que aquele homem era o caos mais gostoso e intenso que cruzaria meu caminho.
Sorte no jogo, azar no amor.
Essa frase nunca me definiu tanto.
Aos 26 anos eu já tinha minha vida toda planejada. Com uma carreira bem sucedida como analista da bolsa em Wall Street eu já tinha meu próprio apartamento no central Park bem no coração de Manhattan, a cidade que eu adorava. Mas quando o assunto era relacionamentos, eu era o completo caos disfarçado.
E nem é pelo temperamento. Eu sou bem tranquila na verdade. Nada de ciúmes exagerado, pegação no pé ou do tipo possessiva. O problema é ser um maldito para-raios para relacionamentos complicados que parecem surgir dos quintos dos infernos para atormentar minha vida.
Com um deles eu quase me casei. Liam, meu namorado do ensino médio, o cara mais legal, talentoso e atleta do colégio, o típico clichê adolescente. Depois da faculdade, eu voltei para Melbourne e lá estava ele, com seus cabelos dourados e olhos cinzentos que me fizeram esquecer em um segundo do meu sonho de morar em Nova York.
Alguns meses depois nós noivamos, eu estava em êxtase, afinal a garota nerd ia se casar com o atleta local, era o máximo! Aparentemente eu não sou boa em captar os sinais de que um homem é um mentiroso traidor.
Resultado: um completo desastre. No dia do nosso casamento ele termina tudo e diz que está apaixonado por outra. Assim, exatamente nessa ordem.
Então eu fugi. Como uma garotinha assustada eu fugi para mais longe daquele lugar que eu pude. E NY passou de um sonho distante para meu novo lar. Eu gosto daqui e adoro o que me tornei, apesar de um tanto metódica e perfeccionista, eu não sou mais aquela garotinha ingênua que todos achavam que era perfeita.
É claro que meu padrão subiu um pouco e eu até tenho uma lista de exigências.
Eu sei que o cara ideal existe e está por aí e em uma cidade tão grande quanto essa eu poderia até esbarrar com ele enquanto saio de um jantar de negócios, ou em um bar depois de um happy hour com os amigos. O fato é que eu não aceito nada menos que o homem perfeito.
- Meu Deus, você ainda não se livrou dessa lista horrorosa? - Sarah me repreendeu assim que me pegou rabiscando a lista pela centésima vez.
- Não é uma lista horrorosa- eu rebati- É como um lembrete para me manter longe de caras horríveis. E você como minha amiga, deveria me apoiar.
- Eu vou te apoiar meu amor - ela se inclinou sobre a minha mesa me encarando seriamente - Vou te apoiar quando você fizer muito sexo selvagem com um gostosão bonitão bem másculo e forte - ela fecha os olhos e passa a língua nos lábios - Hum, delícia!
- Meu Deus, você tem sérios problemas - eu ri e ela soltou uma gargalhada bem escandalosa.
Essa palavra a definia perfeitamente: escandalosa. Sarah era a definição da palavra "foda-se". Ela não ligava para o que pensavam dela, não se importava em manter as aparências ou fingir. Acho que ela nem sabia fingir e foi exatamente por isso que a contratei. Então depois de dois anos trabalhando como minha assistente, ela se tornou uma amiga maravilhosa e por esse jeito debochado, todo mundo ali no escritório mantinha uma certa distância dela. Em outras palavras, as pessoas tinham medo dela as expor... Expor seus podres melhor dizendo. Era incrível como a Sarah sabia os podres de toda aquela gente.
- Chegou pra você - ela estendeu um envelope elegante branco e meu coração deu um salto quando o abri e me deparei com um laço envolto em um papel cartão finíssimo e de muito bom gosto com a frase:
"Hellen e Nathan vão se casar"
- Puta que pariu! - eu soltei, fazendo Sarah estalar os olhos.
- Puta que pariu mesmo - ela respondeu terminando de recolher os documentos na minha mesa - Pra você falar palavrão meu amor, não quero nem saber o que tem nesse envelope aí.
O casamento da minha irmãzinha caçula. O lembrete de que minha vida amorosa era um verdadeiro show de horrores. Não me entenda mal, eu adoro minha irmã e devido a apenas três anos de diferença de idade, nós sempre fomos muito unidas e temos um ótimo relacionamento. O problema era toda essa coisa de madrinha de casamento.
Mas a quem eu quero enganar? Era óbvio que ser a madrinha da Hellen nunca seria um problema. O motivo de jamais querer pisar em Melbourne novamente era o fato de ter sido envergonhada na frente de mais de trezentos convidados chocados.
Meus pais gastaram uma pequena fortuna nos preparativos mesmo contra meus protestos, isso graças a minha mãe, a mulher mais deslumbrada que eu já conheci, que exigiu que a sua primogênita tivesse o maior casamento da cidade. O idiota do Liam adorava a badalação que aquele evento trazia e se aproveitando disso ele fazia questão de que todos testemunhassem nossas núpcias e a minha eventual humilhação.
Dei um salto da cadeira quando o telefone tocou, me despertando dos meus devaneios e lembranças que gostaria de esquecer.
- A megera na linha seis - Sarah me avisou e percebi que esquecer seria uma tarefa praticamente impossível, já que com toda essa história de casamento seria praticamente impossível.
- Oi mãe - atendi sem qualquer ânimo.
- Oi querida, recebeu o convite? Eu pedi para o entregador me avisar quando entregasse. Na verdade falei para entregar em mãos, já que não tinha certeza se aquela sua secretária entregaria...
- Ela é minha assistente mãe, não minha secretária- eu a interrompi, contrariada.
- Que seja....Eu pedi para sua irmã deixar o seu para a última hora de propósito mesmo, assim você não vem com aquelas desculpas esfarrapadas de que precisa trabalhar - ela continuou falando e eu me dei conta de que devido ao meu momento nostalgia, nem percebi que não havia reparado na data.
- Mais que merda - eu berrei no telefone me ajeitando na cadeira - É praticamente daqui a uma semana!
- Meu Deus Lilly, olha a boca - ela me repreendeu - Nós esperamos você para a semana das madrinhas.
- Mãe, eu...
- Nem pense em inventar uma desculpa, mocinha. Se você não estiver aqui na próxima segunda, pode esquecer que tem uma família.
E essa era a minha mãe. Mary Anne, a mulher mais intimidadora e irritantemente chata que eu já lidei e eu sabia que aquela ameaça era séria.
Não que ela fosse um monstro, só um pouco agressiva e bem rancorosa, já que eu não apareci nos últimos dois natais.
- É claro que eu vou estar lá, mãe - respondi tentando parecer o mais casual possível.
- Todo mundo está ansioso para vê-la, querida - ela respondeu com excitação na voz - Soube que o filho dos Cameron vai vir, lembra que ele gostava de você na escola? Ele é engenheiro agora e trabalha na...
- Tchau mãe - eu desliguei antes que ela me desse um dossiê completo sobre o rapaz e de mais uns quinze pretendentes.
Depois de sentir um frio percorrendo a espinha ao me imaginar pisando naquele lugar novamente, ficamos alguns minutos tentando bolar um plano para escapar de toda essa merda. As ideias da Sarah eram hilárias e incluía: aniversário do meu cachorro, morte da minha tartaruga... o detalhe é que não tenho nenhum desses bichinhos em casa, mas agradeci pela ajuda.
- Amiga, se anima! Hoje é a despedida da Leah e você disse que ia. Passo pra te pegar às dez - ela falou se levantando da cadeira empolgada.
Ótimo, mais uma noiva! O lembrete perfeito da minha vida amorosa arruinada. Eu tentei protestar, mas encher a cara numa noite de sexta não era uma má ideia. O negócio era se preparar mentalmente para um monte de gente suada se esfregando, música ensurdecedora e o mínimo de comunicação possível. Perfeito!
Um cenário de merda, pra uma vida amorosa de merda.
- E vê se aparece lá vestindo alguma coisa melhor do que esse terninho horroroso - foi seu último conselho.
Insegura, constrangida e comum. Eram exatamente esses três adjetivos que me definiam perfeitamente.
Eu podia até ser uma fera quando o assunto era negócios, mas se tratando da minha vida pessoal, eu era uma completa sem noção.
Eu não tinha o corpo escultural e perfeito e muito menos o porte físico de uma gostosona. Na verdade estava mais para o porte físico de alguém que adora chocolate e sente um número aumentado toda vez que sai pra comprar um jeans novo.
Eu não tinha a menor ideia sobre o que vestir e agora me olhando no espelho, me senti completamente insegura sobre o minúsculo vestido que estava usando. Ele não era tão apertado, desses que você não consegue dar mais de dois passos sem ter que se ajeitar o tempo todo, mas era curto e deixava minhas pernas grossas de fora e isso de certa forma me incomodava, já que eu não era acostumada a usar esse tipo de roupa o tempo todo... mais pelo menos era preto.
Tentei fazer alguma coisa diferente do liso sem graça nos cabelos seguindo algum tutorial maluco no youtube, mas acabei com um ninho na cabeça. Então prendi os cabelos num rabo de cavalo e fiz uma make basiquinha. No fim das contas, ainda era eu dentro de um micro vestido de alças finas.
- Não diga nem uma palavra sobre isso - eu resmunguei assim que entrei no carro da Sarah, enquanto ela me observava com um sorriso exagerado.
- Tá gata hein! - ela ignorou meu pedido dando partida - E que pernocas meu amor!
- Vai logo - revirei os olhos.
- Você deveria sair mais com a gente, sabia? Quando foi a última vez?
- Sei lá, tem uns dois anos, eu acho.
- Caralho, Erin! Não vou nem perguntar quando foi seu último encontro.
- Faça isso amiga, não pergunte!
- O que eu quero saber é se isso aí embaixo ainda funciona? - ela tirou os olhos da estrada e apontou para o meio das minhas pernas.
- Cala a boca! - nós rimos juntas.
- Só espero que pelo menos esteja usando uma lingerie decente, nunca se sabe com quem vai voltar pra casa - ela disse entrando em um estacionamento.
- Como assim? Achei que ia voltar pra casa com você.
- Ah tá, vai sonhando. No lugar que a gente tá a última pessoa que eu quero voltar, meu amor é com você, sem ofensa.
- O que quer dizer com isso? Onde a gente tá? - perguntei, seguindo Sarah pelo corredor mal iluminado, que dava acesso a uma porta grande de metal e assim que foi aberta, pude ouvir a música eletrônica alta, show de luzes que quase me cegaram e gritinhos histéricos de um bando de mulher tarada.
- Mais que porra é essa?... - sussurrei assim que me dei conta de onde estávamos.
- Bem vinda ao paraíso! - Sarah gritou toda animada, dando pulinhos de alegria.
- Não, não e não!! - eu dei meia volta, tentando sair do lugar, mas fui impedida por nossas colegas alucinadas, correndo em minha direção, gritando como um bando de crianças em um parque de diversão.
- Meu Deus é a Erin - uma delas gritou .
- Não acredito que você veio! - Leah, a noiva berrou, se lançando ao meu pescoço.
Foi uma loucura, todas elas falando ao mesmo tempo, a música ensurdecedora, as luzes e depois uma fumaça quase tóxica de algum show que estava prestes a começar.
Sarah me agarrou pelo braço e então seguimos as meninas eufóricas para uma mesa perto do palco e assim que me sentei ao seu lado, tive que berrar para poder ser ouvida.
- Por acaso isso é parte de algum plano idiota pra me arranjar uma transa?
- Credo, Erin. Relaxa! É só um clube - ela respondeu sem tirar os olhos do gostosão que se apresentava com um traje de cowboy.
- Porque não me disse que viríamos aqui?
- Onde acha que acontecem as despedidas de solteiro?
- Eu não cheguei a ter uma, mas com certeza não seria aqui - eu disse, enquanto ela assobiava e aplaudia o cowboy freneticamente - Sei, lá, na balada, dançando?
- Não em Nova York, baby - ela deu uma chacoalhada nos peitos que quase saltaram na minha cara, através do decote exagerado que deixava meu vestido no chinelo. Pelo menos me fez sentir melhor com minhas pernas grossas de fora.
Clubes, baladas e boates, eu odeio todos na mesma intensidade.
Lugares cheios, gente se esfregando, corpos suados, luzes reluzindo nas paredes em sincronia com a música alta que faz seus tímpanos sangrarem... é tudo horrível! Mas o pior disso, sou eu, a pessoa que não sabe nem fingir que está se divertindo. Eu até tentei dar uns sorrisos, bater palmas, juro que até dei uns gritinhos histéricos, mas se gostar de balada já era difícil, imagina de um clube das mulheres? Era uma apresentação mais bizarra que a outra, um deles até incorporou o Rocky Balboa com seus golpes de boxe. Eu tinha que admitir que pelo menos eles eram criativos.
Eu sei que não deveria, mas tudo o que desejava depois da décima apresentação, era sair correndo dali. Pode até ser que a Sarah e as meninas estavam cheias de boas intenções (ou não) quando me trouxeram pra cá, mas eu realmente me sentia como um peixe fora d'água.
Em uma determinada altura da noite, parte das minhas amigas já haviam subido no palco para se esfregar em algum bonitão. Minha cabeça doía só de pensar em ter algum saradão me chamando para dançar. Metade das mulheres ali esperam por isso a noite inteira, eu porém só desejava ir pra casa e me jogar na cama.
Aquela música alta, misturada as margaritas que estava bebendo quase fazia meus miolos estourarem, eu só precisava achar um jeito de escapar dali bem rapidinho.