Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Acordo com o Inimigo
Acordo com o Inimigo

Acordo com o Inimigo

Autor:: schaanafockink
Gênero: Romance
Anos atrás, Luna foi humilhada diante de toda a universidade pelo homem que mais odiava - Caio Ventura: arrogante, cruel e intocável. Desde então, ela prometeu nunca mais deixar que alguém a diminuísse. Agora, adulta e em busca de recomeço, Luna aceita às pressas um emprego como cuidadora de um paciente misterioso e milionário. O destino ri da sua promessa: o homem na cadeira de rodas é ninguém menos que Caio Ventura. Mais frio, mais amargo - e completamente dependente dela. Obrigados a conviver sob o mesmo teto por força de um contrato, Luna e Caio se enfrentam todos os dias como se estivessem em guerra. Mas a linha entre ódio e desejo é perigosa e, às vezes, quase imperceptível. Entre provocações, tensão crescente e segredos enterrados, a antiga mágoa dá lugar a algo mais profundo... e muito mais arriscado. Só que Caio esconde muito mais do que sua condição física - e Luna pode descobrir tarde demais que, para se libertar do passado, precisará encarar a verdade sobre o homem que jurou destruir... e acabou desejando.

Capítulo 1 Contrato com o Passado

Prólogo – Capítulo 0

[Flashback – Seis anos atrás]

- Luna! Está todo mundo olhando! - sussurrou a amiga, tentando cobri-la com o casaco.

Mas já era tarde demais. As risadas ecoavam pelas paredes da faculdade como navalhas. Gritavam seu nome, zombavam da sua roupa, da sua ingenuidade... e da carta de amor que ela tinha deixado no armário dele.

Caio Ventura estava no centro da roda, alto, impecável, com aquele sorriso cruel estampado no rosto. Segurava a carta nas mãos como se fosse um troféu ridículo.

- Você realmente achou que eu ia me interessar por você? - ele perguntou, a voz carregada de desprezo. - Isso aqui é patético.

O coração de Luna se partiu ali, diante de todos. Não pela rejeição. Mas pela forma.

Pelo prazer que ele sentia em humilhá-la.

Pelos risos dos colegas.

Pela vergonha que colou nela como uma cicatriz.

Naquela noite, jurou nunca mais olhar na cara de Caio Ventura.

Nem em um milhão de anos imaginaria que, seis anos depois, ele estaria sentado diante dela. Em uma cadeira de rodas. E precisando dos seus cuidados.

O destino tem um senso de humor perverso.

E Luna ainda não sabia que aquele reencontro mudaria tudo.

---

Capítulo 1

A folha tremia entre os dedos de Luna, mas não era pelo peso do papel - e sim pelo peso das escolhas. O letreiro da Agência Vitae de Cuidadores Profissionais ainda brilhava no reflexo da janela enquanto ela ajeitava a pasta no colo e tentava respirar fundo.

Depois de meses de entrevistas, recusas e trabalhos temporários, aquela proposta parecia um milagre. Ou uma armadilha bem disfarçada.

- Você tem um ótimo histórico - dissera a supervisora, uma mulher seca de blazer azul-marinho, que não sorria com os olhos. - Mas esta vaga exige discrição absoluta.

- E o que exatamente significa "paciente de alta complexidade"? - Luna perguntou, tentando parecer segura.

- Ele é... reservado. Rígido. Mora sozinho numa propriedade isolada. Não recebe visitas. E não aceita cuidadores há meses. Mas hoje, por algum motivo, ele pediu para ver currículos.

- E... ele escolheu o meu?

- Na verdade, ele viu seu nome e pediu para que fosse você. Pessoalmente.

Luna franziu a testa.

Ela não conhecia ninguém influente. Não fora enfermeira de nenhuma celebridade. E não tinha parente rico.

Algo ali não fazia sentido.

- Quem é ele? - perguntou.

A mulher apenas entregou um cartão. Um endereço era num condomínio de bairro nobre de Vinhedo, sem nome, sem pista alguma.

- Vá. Hoje. Ele te espera às 17h. Se aceitar, o contrato é imediato.

O portão da mansão se abriu lentamente quando ela chegou. A propriedade era grande, mas não ostentosa - cercada de jardins bem cuidados, fontes silenciosas, esculturas discretas. Mas o que chamava a atenção era o silêncio.

Não havia música. Nem vozes. Nem risos.

Tudo ali parecia estagnado no tempo.

O mordomo surgiu na porta com movimentos precisos, medidos.

- Boa tarde. A senhorita Luna, correto?

- Sim.

- O senhor Ventura a espera na sala oeste.

O coração de Luna parou por um segundo.

Ventura?

Não podia ser.

Era um sobrenome comum. Não podia ser ele.

Ela seguiu o homem pelos corredores amplos. Os quadros nas paredes mostravam paisagens nebulosas e rostos que pareciam julgá-la. O ar era gelado, e o silêncio só fazia o som dos seus passos ecoar mais forte.

Quando entrou na sala, a luz atravessava as janelas altas e dourava o ambiente com um tom quase sacro. E ali estava ele - de costas, na cadeira de rodas, diante de uma lareira apagada.

O som da porta se fechando fez o homem girar lentamente a cadeira de rodas.

O tempo parou.

Luna sentiu o estômago afundar.

Os cabelos mais curtos, o maxilar mais marcado, os olhos ainda mais frios. Mas era ele.

Caio Ventura.

- Olha só... - ele disse, com aquele meio sorriso que sempre soou como veneno. - Quanto tempo, Luna.

Ela não respondeu. Só ficou ali, em pé, com as mãos trêmulas e a mente tentando aceitar que o destino tinha mesmo um senso de humor macabro.

- Você não vai dizer nada? Achei que estaria mais... surpresa.

- Estou. Só... tentando entender o que você quer de mim.

- Cuidados. - Ele apontou para as pernas. - Como pode ver, não estou mais no meu auge.

Luna se aproximou um passo.

- Por que eu? Depois de tudo? Você tem dezenas de profissionais à disposição.

- E nenhum deles me interessa. Gosto de desafios.

Ela cerrou os punhos.

- Eu não sou um brinquedo.

- Não. Você é uma enfermeira que precisa de dinheiro. E eu sou um inválido solitário que precisa de cuidados. Somos perfeitos um para o outro.

O sarcasmo dele doía mais que os anos que os separavam.

Ela olhou para a cadeira, depois para os olhos dele. E, pela primeira vez, notou algo além da arrogância: havia raiva. Havia mágoa. E talvez, muito talvez... havia dor.

- Eu jurei nunca mais olhar na sua cara, Caio.

- E eu jurei nunca mais precisar de ninguém. - Ele se inclinou para frente. - Mas cá estamos. Que tal quebrarmos nossos votos juntos?

Ela queria ir embora. Mas não foi.

Porque por trás de toda aquela tensão havia algo que ela precisava mais do que orgulho: respostas.

- Qual é a condição?

- Um mês. Vinte e quatro horas por dia. Você mora aqui. Recebe dobrado. Mas... não pergunta. Não invade. Não sente pena.

Luna respirou fundo.

Se aceitasse, não seria apenas um emprego.

Seria uma guerra.

E ela estava pronta para lutar.

- Traga o contrato - disse, finalmente. - Eu fico.

Caio sorriu.

E pela primeira vez, em muito tempo, ela teve medo do futuro.

Mas não recuou.

Capítulo 2 Invasão Silenciosa

A primeira noite na mansão começou antes mesmo do pôr do sol.

Luna caminhava pelos corredores com passos lentos, analisando cada detalhe do lugar que agora seria sua casa - ainda que temporária, ainda que forçada.

O quarto que lhe foi designado era espaçoso demais, frio demais. Lençóis brancos impecáveis, cortinas pesadas de linho cinza, uma escrivaninha de madeira escura que parecia ter saído de um filme antigo. E silêncio. Muito silêncio.

Ela deixou a mochila sobre a poltrona e abriu a pasta com o contrato. Cada cláusula assinada parecia mais absurda agora, diante da realidade. O nome "Caio Ventura" impresso no rodapé parecia zombar dela, como se o destino repetisse: você aceitou.

Sentou-se na beira da cama e cobriu o rosto com as mãos. O que estava fazendo ali?

O jantar foi servido às 19h em ponto. Um empregado - sempre mudo - a guiou até a sala de refeições. A mesa era longa demais para duas pessoas, mas ainda assim, Caio já estava lá, sentado à cabeceira, como um rei moderno em exílio.

Ele a observava como quem analisa um animal selvagem.

- Dormiu bem? - perguntou, mesmo sabendo que ela ainda não havia dormido.

- Acabei de chegar. - Luna manteve o tom neutro.

- Ah, claro. É que o tempo aqui passa diferente. Lento.

- Ou talvez seja só você que ficou preso nele.

Um sorriso dançou no canto dos lábios dele.

- Sempre afiada. Isso é bom. Vai precisar.

Durante o jantar, o silêncio voltou. Mas era diferente. Não vazio - carregado. Tenso. Um campo de guerra entre olhares.

Luna percebeu que ele comia devagar, com movimentos limitados. As mãos ainda firmes, mas as pernas imóveis, escondidas sob a mesa. A imagem de Caio Ventura, o garoto arrogante que dominava os corredores do colégio, agora ali, quebrado, incomodava mais do que ela queria admitir.

- Como aconteceu? - ela soltou sem pensar.

Caio ergueu os olhos devagar.

- Que parte do "sem perguntas" você não entendeu?

- A parte em que eu tenho que fingir que não estou cuidando de alguém que quase destruiu minha vida.

Ele largou o talher sobre o prato.

- Eu quase destruí? Você não era nenhuma santa, Luna. Você também teve culpa.

- Eu tinha dezessete anos! - Ela se levantou, as palavras saindo mais alto do que deveria. - Você me expôs, me humilhou... e ainda quer que eu me cale?

- Senta. - A voz dele baixou, firme. - Agora.

Ela hesitou. Mas sentou. E o silêncio voltou, dessa vez mais espesso.

- Não estou aqui para brigar - ele disse depois de um tempo. - Estou aqui porque preciso. E você está aqui porque aceitou. Podemos tornar isso mais fácil... ou mais difícil. A escolha é sua.

Luna respirou fundo.

Ela não era mais aquela garota. E ele não era mais o mesmo também. A guerra agora era outra.

Naquela noite, antes de dormir, Luna abriu o notebook e começou um diário. Não para escrever memórias românticas - mas para manter a sanidade.

Dia 1

Cheguei na mansão Ventura.

O passado me recebeu na porta. Arrogante como sempre, mas... diferente.

Ele está quebrado. E eu não sei se isso me assusta ou me atrai.

Preciso lembrar a mim mesma:

isso é um trabalho. Ele é o inimigo. Não confie. Nunca.

Do outro lado da casa, Caio também não dormia.

Sentado em silêncio diante da lareira apagada, ele olhava fixamente para uma foto antiga sobre a laje: um grupo de adolescentes em uniforme, sorrindo na frente do colégio. E bem no centro, ela. Luna.

Ele passou o dedo sobre o vidro.

- Bem-vinda de volta, garota do inferno. Vai ser interessante te ver cair... ou me salvar.

Capítulo 3 As Regras do Jogo

O segundo dia começou cedo, com a luz invadindo o quarto por entre as frestas da cortina pesada. Luna acordou assustada, com a estranha sensação de estar num lugar onde não pertencia. O som abafado de passos no corredor a lembrou: era real.

Vestiu uma roupa simples, prendeu o cabelo e desceu as escadas, pronta para enfrentar o "paciente". O contrato dizia que ela deveria cuidar da fisioterapia básica, administrar os remédios, monitorar os sinais. Mas não dizia como lidar com o sarcasmo crônico e o veneno que Caio Ventura carregava no olhar.

Na sala de estar, o encontrou na mesma posição da noite anterior: em frente à lareira, cadeira de rodas ao lado do sofá, olhos perdidos na chama imaginária de uma lareira apagada.

- Bom dia - ela disse, com esforço.

- Depende do ponto de vista.

- O meu é de quem vai passar o dia tentando não jogar uma almofada na sua cara.

- Que doce.

Ela caminhou até ele, abrindo uma maleta com os equipamentos.

- Vamos começar com os exercícios. Fisioterapia leve. Braços e ombros primeiro. Depois, pernas.

- Não estou a fim.

- Que pena. Não é opcional.

Caio girou o rosto lentamente em direção a ela, como se a desafiasse.

- Você não manda em mim.

- Não, mas seu contrato com a clínica me dá autonomia para te tratar. Ou prefere que eu chame a enfermeira chefe?

Ele praguejou em voz baixa, mas estendeu os braços.

- Faça o que quiser.

- Que bom que concordamos.

Durante os primeiros movimentos, Luna manteve o foco no trabalho. Alongamentos, estímulos circulatórios, flexão. A musculatura de Caio ainda estava forte, apesar da paralisia parcial. Ele mantinha a postura rígida, como se estivesse em constante disputa com o próprio corpo.

Mas foi quando ela se abaixou para iniciar os estímulos nas pernas que a tensão se instalou.

- Não. Isso não.

- Caio, você precisa. É parte do tratamento.

- Eu disse que não.

Ela ergueu os olhos para ele. O olhar estava escuro, tempestuoso. Mas havia algo mais por trás daquela resistência: medo. Vergonha.

- Você tem duas opções - disse, com calma. - Pode lutar contra mim e piorar seu estado... ou confiar. Só um pouco.

- Você acha que eu vou me humilhar na sua frente?

- Não acho nada. Só estou tentando te ajudar.

Houve um silêncio pesado. Então ele desviou o olhar e murmurou:

- Fecha a porta.

Ela obedeceu. Quando voltou, Caio já havia retirado o cobertor que cobria as pernas. Os músculos inferiores estavam mais magros do que deveriam, denunciando o tempo de inatividade. Luna respirou fundo e ajoelhou-se à frente dele, com a delicadeza de quem lida com cacos de vidro.

O toque foi leve. Preciso. Profissional.

Mas cada segundo parecia um teste.

- Você ainda sente isso? - ela perguntou, pressionando a lateral da coxa.

- Um pouco. Como se o corpo fosse de outra pessoa.

Ela assentiu.

- Vamos estimular as terminações nervosas. Pode doer.

- Dor eu aguento. O que não aguento é a pena.

- Ótimo. Porque eu não tenho pena de você. - Ela ergueu os olhos, firme. - Tenho um passado entalado na garganta e um trabalho a cumprir. Vamos manter assim?

Por um segundo, ele quase sorriu.

No fim da sessão, Caio parecia exausto, mas menos defensivo. Luna se levantou, recolheu os materiais e se preparava para sair, quando ele disse:

- Você odeia estar aqui, né?

- Menos do que odeio lembrar o motivo de estar aqui.

- Você ainda guarda mágoa?

- Não. - Ela olhou sobre o ombro. - Mágoa seria se eu ainda me importasse com você. E eu não me importo.

Mentira.

Ela saiu antes que ele pudesse responder. E só no quarto, sozinha, ela percebeu que as mãos tremiam.

Caio ficou em silêncio por um longo tempo depois que ela saiu.

Luna agora era uma mulher. Forte. Segura. Mas o jeito como ela evitava olhar diretamente para ele... entregava que havia rachaduras ali também.

E talvez, só talvez, ele ainda soubesse onde apertar para fazê-las sangrar.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022