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Acordo de amor com um Chevalier

Acordo de amor com um Chevalier

Autor:: Roseanautora
Gênero: Romance
Desde criança, Andrew Chevalier sempre foi o amor de Alexia D'auvergne Bretonne. Conforme cresceram, eles não se viram mais. Ainda assim ela sonhava com o piloto de corrida que arrebatou seu coração e casou-se com ela lhe dando um anel de mentira aos dez anos de idade. Mas a vida (e o parentesco que tinham), os colocou novamente frente a frente. E fingir que não era absolutamente encantada por aquele príncipe sem coroa era simplesmente impossível. Um relacionamento rápido, mas intenso; um baile de máscaras em Noriah Sul que marcou sua vida e uma tragédia que os separou drasticamente. O destino quis que seguissem caminhos diferentes. Ela não se arrependeu de sua escolha... Mas sabia que jamais sentiria por outro homem o que sentiu por ele. Quando achou que conseguiria enfim esquecer seu amor de infância e seguir em frente, ela foi vítima de uma vingança que a destruiu completamente. Mas lá estava ele: Andrew Chevalier, lhe oferecendo um acordo que poderia ser sua redenção. Poderiam eles resgatar o passado depois de tudo que sofreram separados? Quem conseguiria segurar um Chevalier com ódio e um desejo de vingança maior que qualquer coisa? Alexia seria capaz de colar cada pedaço do seu coração e ser feliz novamente? Chavelier's e D'Auvergne Bretonne unidos com um único objetivo em comum... A felicidade de seus filhos.

Capítulo 1 Prólogo

Pelo menos uma vez por ano visitávamos os Chevalier no castelo onde eles moravam e um dia reinaram, quando ainda existia monarquia em Noriah Sul.

Eu gostava de brincar com Andrew, Laura e Heitor. Minha irmã, Pauline, embora mais velha, assim como Andrew, também se divertida conosco. Eu achava que devia ser divertido morar num lugar com tantas pessoas para brincar, como eles tinham. Afinal, todos moravam juntos ali. Minha irmã mais nova não nos acompanhava nestes momentos, pois ainda era bebê. Havia começado a caminhar há pouco mais de alguns meses.

Meus pais tiveram três meninas: Pauline, a mais velha; eu, a do meio e Aimê, a caçula. Éramos a prole D'Auvergne Bretonne. Sim, meus pais não tiveram nenhum menino. E por incrível que pareça, meu pai era imensamente feliz com suas quatro mulheres e um reino inteiro para gerenciar.

Estávamos brincando de pega-pega num dos jardins, que tinha um enorme campo gramado verdejante ao lado. Diziam que o príncipe Magnus usava o espaço para correr duas vezes por dia. O espaço para fugir durante a brincadeira era limitado.

Andrew era magrelo e acho que por isso corria mais que todo mundo. No entanto, depois de um tempo ele aparentava cansaço enquanto eu o provocava a vir me pegar.

- É injusto pegar ela, Andrew. É uma fedelha. – gritou Henry.

Andrew olhou-me e correu atrás de mim, não dando atenção ao primo. Na fuga acabei caindo e ele também, só que por cima de mim.

- Machuquei você? – perguntou preocupado, levantando rapidamente.

- Não... Mas não quero mais brincar de correr. – falei aceitando a mão dele para levantar, limpando o suor da minha testa enquanto todos pararam com a brincadeira.

- Vamos brincar de casamento? – sugeriu Laura.

- Como se brinca de casamento? – perguntou Pauline curiosa.

- Casando. – ela respondeu simplesmente.

- De verdade? Para sempre? – perguntei confusa.

Todos começaram a rir.

- Ei, eu só fiz uma pergunta. – defendi-me.

- Você está fora da brincadeira. – disse Laura altivamente.

- Por quê? – perguntei furiosa.

- Porque você ainda é muito nova para casar. – ela disse saindo enquanto todos a seguiam em direção ao castelo.

Laura era sempre a líder nas brincadeiras. Lembro que ela sempre brigava comigo e tentava me excluir. Minha mãe dizia para relevar, pois éramos todos parentes no fim. Mas ela não era minha parente de verdade. Era prima emprestada, já que era filha de Dom e Eva, que não tinham nenhum laço de sangue com minha família... Os laços vinham com os Chevalier. Então eu só tinha laços sanguíneos com Andrew. Porque Henry era o filho adotado de tio Dereck e tio Kim. Ou será que Henry não era adotado? Mas se Dereck era casado com Kim... E os dois eram homens, eles teoricamente não podiam ter um bebê. Eu perguntaria para minha sobre isso.

Fiquei parada enquanto Andrew passou por mim, mancando:

- Vamos lá, fedelha, pode brincar sim.

- Sério? – perguntei feliz seguindo ao lado dele. – Por que você está mancando?

- Acho que machuquei meu pé quando caí.

- Está doendo?

- Não...

Eu vi uma flor amarela no caminho e arranquei, dando na mão dele:

- Para melhorar sua dor. – expliquei. - E agora você já tem uma flor para casar.

- Eu não vou brincar de casamento. – ele disse. – Não tenho mais idade para isso.

- Então por que disse que eu posso brincar se nem você vai? – questionei.

- Porque você tem idade para brincar disso.

- Laura disse que eu sou muito nova.

- E você acha que é?

- Para brincar ou casar?

Ele riu:

- Esquece, fedelha.

- Você é velho para brincar de casar?

- Sim... Eu já tenho idade para casar de verdade.

- Então por que brincar de casar, não é mesmo? – perguntei enquanto entrávamos finalmente no castelo.

- Exato.

- Você já beijou uma garota? – perguntei curiosa enquanto subíamos as escadas, mais atrás dos outros.

- Você é muito ousada, fedelha.

- Responde, Andrew. – bati no braço dele, sorrindo ansiosamente pela resposta.

- Claro que sim. E você, já beijou?

- Claro que não. Eu só tenho dez anos.

Ele olhou a flor e guardou no bolso.

- Você vai perder a flor que lhe dei. – falei brava.

- Não vou. Guardei no bolso justo para não perder.

- Espero que não dê para uma das suas garotas.

- Por que acha que eu faria isso?

- Não sei...

- Eu daria um buquê de flores a uma garota, não uma flor que ganhei de você.

Subimos as escadarias e fomos conduzidos por Laura até uma sala no terceiro andar. Era onde ficavam as joias reais e as coroas. Fiquei maravilhada olhando tudo. Passei minhas mãos nos metais brilhantes e frios, completamente encantada.

- Acha bonitas? – perguntou Andrew me seguindo.

- Sim...

- Não há sala de coroas em Alpemburg?

- Claro que há... Mas são diferentes destas... Além do mais, já conhecemos tudo que tem lá.

- Você usará uma coroa, sendo que não será a rainha? – ele perguntou.

- Acho que não. – dei de ombros. – Não me importo também.

- Pauline será a rainha? – ele perguntou, olhando para minha irmã.

- Sim... Ela já faz tudo pensando nisso.

- Ei, você não vem, Andrew? – perguntou Laura mais adiante, com os demais num espaço vazio.

- Olha a minha cara de quem vai brincar de casamento. – ele disse sentando numa cadeira, enquanto observava tudo.

- Vamos, deixa de ser bobo... A gente sempre brincou disto. – disse Henry.

Laura pegou um véu e o prendeu numa linda tiara, colocando sobre sua cabeça:

- Vem, Andrew, seja meu marido. Vamos andar pelo altar...

Fiquei olhando Henry colocar um tule vermelho numa coroa de rubis e colocar na cabeça de Pauline. Ela pareceu gostar, pois os dois riam o tempo todo.

- Você pode ser o padre, fedelha. – disse Laura.

Sentei no chão, perto de Andrew e fiquei fazendo beiço. Laura definitivamente fazia questão de me tirar das brincadeiras. Tudo bem que eu era mais nova que eles, mas minha mãe sempre dizia que eu não precisava ficar de fora das brincadeiras.

Observei atentamente Pauline andar pelo corredor no meio das coroas, com seu véu vermelho e sua coroa de rubis. Ela estava bonita.

- Não tem padre. Vamos fingir que isto é um padre. – disse Laura colocando uma coroa enorme sobre uma pequena mesa de vidro.

- Ei, tome cuidado... Esta coroa foi de meu pai. – disse Andrew.

- Magnus não vai se importar. – ela falou, ignorando por completo o apelo de Andrew.

Qual não foi minha surpresa quando Pauline e Henry "casaram" e depois do sim se beijaram na boca. Passei as mãos sobre meus olhos várias vezes para ter certeza de que eu não estava vendo coisas. Minha mãe e meu pai iriam matá-la se soubessem que ela beijou Henry. Acho que mais meu pai do que minha mãe. Ele era mais conservador. Minha mãe era absolutamente liberal... Até demais algumas vezes.

Laura riu:

- Gostei ainda mais. Venha Andrew, agora somos nós dois.

- Eu não vou brincar disto. – ele disse firmemente.

- É só uma brincadeira, não seja bobo. – disse Henry. – Não é um casamento de verdade.

- Mas este beijo não foi de brincadeira. – Andrew alegou.

- Deixo você me beijar de verdade. – disse Laura seriamente.

- Eu não quero brincar disto. Nem beijar você.

- Eu quero. Deixa-me brincar. Aceito ser o padre. – implorei para não ficar de fora.

- Ok, você é o padre. – Laura aceitou, revirando os olhos em sinal de pouca satisfação.

Andrew levantou e disse:

- Ok, eu brinco. Mas Aléxia será a minha noiva.

Todos olharam para ele, inclusive eu.

- A fedelha? Você só pode estar brincando. – disse Laura.

- Deixa-a brincar, Laura. Afinal, isso não é um casamento de verdade. – disse Pauline. – Se ela for reclamar para minha mãe, não haverá mais brincadeira. Você conhece Satini D'Auvergne Bretonne.

- E Andrew pode escolher casar com quem ele quiser. Então você será o padre. – disse Henry para Laura.

- Não mesmo. Não vou casar Andrew e Aléxia. Ela é muito nova para ele. – contestou Laura furiosa.

- Ele me escolheu. – falei pegando a coroa e o véu da cabeça dela e colocando na minha, sem me importar.

- Você roubou meu véu. – ela bradou sentindo a cabeça sem nada.

- De quem foi esta coroa? – perguntei a Andrew.

- De minha mãe... Em seus breves minutos como rainha. – ele riu.

Andrew era meio sisudo e raramente ria. Mas ao dizer aquilo, o sorriso dele se abriu de uma forma bonita...

- Fico feliz de ter escolhido a coroa de Katrina. A mais temida rebelde de Noriah Sul. – falei.

- E agora você será o padre, Laura. – disse Henry. – Ou não vai mais brincar.

Ela se deu por vencida e parou na nossa frente.

Andrew me esperou no altar enquanto andei pelo corredor entre as coroas, vagarosamente. Senti meu coração bater descompassadamente quando cheguei perto dele. Até parecia um casamento de verdade. Será que eu sentiria aquilo quando fosse adulta e casasse com ele?

Ele pegou minha mão enquanto Laura falou rapidamente e com cara de brava:

- Aceita casar com ela Aléxia D'Auvergne Bretonne? – ela perguntou para Andrew.

- Aceito. – ele disse me olhando.

- Aceita casar com Andrew Chevalier? – ela me perguntou.

- Aceito.

- Será que podemos casar sendo todos primos? – perguntou Henry confuso.

- Somos primos distantes, então eu creio que sim. – disse Andrew, estreitando os olhos, pensativo.

- Ei, isso não é um casamento de verdade, esqueceram? – bradou Pauline.

- Você precisa me dar um anel, Andrew. – eu lembrei.

- Mas de onde eu vou tirar um anel de casamento? Não posso escolher dentre estas joias um anel e lhe dar... Meus pais não permitiriam.

- Fedelha, isso é só uma brincadeira. Parece-me que você está levando a sério. – disse Laura. – Eu não quero mais brincar disto. Dê-me o beijo Andrew e a brincadeira acaba aqui.

- Quer dizer que você só quis brincar disto para beijar Andrew? – perguntou Henry rindo.

- Claro que sim. – ela confessou.

- Você já beijou ela antes? – perguntei para ele, curiosa e ao mesmo tempo sentindo ciúme.

Ele não respondeu.

- Por que não diz pra ela que já me beijou, Andrew? E que foi de verdade... De língua, fedelha.

- Laura, ela não entende sobre isso. Pare, por favor, isso é só uma brincadeira. – falou Pauline brava, retirando a coroa e o véu da cabeça.

- Sua irmã parece que está levando a sério, Pauline. Quem se importa com o anel?

Andrew tirou da calça um chaveiro. Retirou cuidadosamente a argola, colocando a chave do bolso e disse sorrindo:

- Achei o anel.

Antes que eu dissesse qualquer coisa ele pegou meu dedo anelar o colocou a argola dupla prateada. Olhei para aquilo orgulhosa e disse:

- Somos casados agora?

- Acho que sim. – ele disse. – Pelo menos de brincadeira.

- E o beijo? – perguntou Henry. – Acho que Andrew quer beijar Aléxia, ou não teria escolhido ela para noiva.

- Fala por você? – perguntou Andrew.

- Claro que sim. Eu desde o início escolhi Pauline porque queria beijá-la.

Pauline sorriu para ele. Aquela brincadeira parecia séria demais. E eu estava gostando. Casar com Andrew Chevalier seria perfeito.

- Quer um beijo? – ele perguntou.

Antes que eu respondesse, Pauline advertiu:

- Você não pode fazer isso... Ela é uma criança. Se você beijar ela vou contar para seus pais.

- E eu conto que você beijou Henry. – adverti, furiosa.

Todos me olharam. Fechei meus olhos e senti a respiração dele próxima de mim... Meu coração parecia que iria saltar pela minha boca. Andrew encostou os lábios nos meus e a porta se abriu e minha mãe e Katrina apareceram.

Lógico que elas ficaram furiosas. E não foi com o beijo entre Pauline e Henry que eu contei, mas entre o meu e de Andrew. E na verdade nem foi um beijo... Ele só encostou os lábios nos meus.

Claro que eu fiquei de castigo. Acho que durante um mês meu pai e minha mãe não me deixaram assistir televisão nem comer sorvete depois do jantar. Ouvi meus pais falando que Andrew talvez tivesse que ir para uma escola longe de Noriah Sul depois do que houve. Não só pelo beijo, mas Magnus e Katrina alegaram que ele precisava ter mais responsabilidade e amadurecer, que já estava na idade.

Eu deitei na cama e olhei para o meu anel de casamento. Certo que jamais tiraria ele do meu dedo. Pauline entrou no quarto e me olhou.

- Você não acha que casou de verdade com Andrew Chevalier, não é mesmo?

- Ele quis casar comigo. – dei de ombros. – Ele poderia ter escolhido qualquer uma, mas escolheu a mim.

- Era só uma brincadeira, Aléxia.

- E ele poderia ter escolhido você ou Laura, mas escolheu a mim.

- Você é muito pretensiosa, Aléxia.

- Eu acho Andrew lindo. – fechei meus olhos, lembrando dele.

Ela riu:

- Você ainda é uma criança... Nossa garotinha. Esquece isso que aconteceu... Já faz tempo.

- Você gosta de Henry? – perguntei a ela.

- Como amigo.

- Mas você o beijou.

- Foi só um beijo.

- Você gosta de alguém, Pauline?

- Eu gosto...

- E quem é?

- Alguém com quem papai e mamãe jamais me deixariam ficar. – ela disse olhando para o nada.

- Andrew?

- Claro que não, sua boba.

- Quando eu crescer e tiver idade, eu vou casar com Andrew.

Ela gargalhou:

- Você só pode estar louca.

- Estou falando sério. Vou casar com Andrew Chevalier. – garanti

Capítulo 2 Alexia D'Auvergne Bretonne

Eu e minhas irmãs estávamos discutindo por lugares à mesa quando nossa mãe chegou. Mesmo sem saber da briga, mas já certa do que estava acontecendo, ela disse calmamente:

- Cada uma em seu lugar habitual.

Nos entreolhamos e sentamos nos lugares de sempre, sem contestar. Claro que sabíamos que tínhamos lugares demarcados à mesa, mas Aimê, nossa irmã caçula, tentava infringir as regras sempre que minha mãe ou meu pai não estavam próximos. Depois ela olhava para eles com semblante de inocente e a culpa sobrava para mim ou Pauline, pois éramos adultas e implicávamos com a "pequena". Eu sorri olhando para Aimê, que não estava satisfeita com o lugar habitual, ao lado de mamãe e de frente para mim.

Mesmo meu pai não estando presente para o café da manhã, o lugar dele ficava vago.

Eis que Aimê questiona:

- Se papai não está em casa, por que não posso sentar no lugar dele?

- Porque não. – minha mãe disse enquanto o café dela era servido por nossa serviçal de confiança, que ria em silêncio com a atitude da pequena princesa.

- Se eu sentar no lugar dele, não vou me tornar o rei... Vou continuar sendo Aimê D'Auvergne Bretonne. – ela contestou.

- E se ficar em seu devido lugar, também continuará sendo. Então não precisa trocar. – mamãe finalizou o assunto. - Como dormiram, meninas? – referiu-se à mim e Pauline.

- Bem. – respondeu Pauline.

- Bem... – falei olhando para a infinidade de alimentos que tinha à mesa, sem muito apetite. – Onde papai foi tão cedo?

- Ele está organizando algumas coisas para a corrida de amanhã. – ela disse tranquilamente. – A propósito, Andrew e Henry Chevalier estarão presentes... Não como expectadores, mas como pilotos também.

Senti meu coração disparar imediatamente dentro do meu peito. Como assim Andrew Chevalier vai correr? Mãe: "é Andrew Chevalier"! Como você pode dizer isso assim, como se não fosse o maior acontecimento dos últimos anos? Talvez o maior da minha vida inteira! Fiquei olhando para ela sem conseguir dizer uma palavra... Porque eu era assim: muito mais pensava do que falava.

Pauline bateu a perna na minha propositalmente e eu não olhei para ela. Sabia exatamente o que ela pensava: "você vai encontrar Andrew".

- Por... Quê? – perguntei, quase sem voz.

- Bem, meninas, Dereck e Kim vão dar uma festa no castelo de Noriah. Aniversário de casamento... – ela suspirou, enquanto adoçava seu leite e provava. – Se há quem sabe dar boas festas, acreditem, são estes dois. Mandaram os fofos dos príncipes sem coroa trazerem o convite pessoalmente. Dereck não quis que fossem enviados por e-mail ou algo do tipo... Achou muito formal. Afinal, somos família, segundo eles.

- Somos? – perguntou Pauline ironicamente.

- Sim, somos. – minha mãe olhou seriamente para ela.

- Então como Alexia vai casar com Andrew se eles são da mesma família? – questionou Aimê.

Minha mãe me encarou e eu senti que corei instantaneamente:

- Como ela pode dizer isto, mamãe? – contestei. – Aimê, você não pode se meter desta forma na minha vida. Você ainda é uma criança. Você vai deixar, mãe?

Satini olhou para Aimê e perguntou:

- De onde você tirou isso, filha?

- Eu já ouvi Aléxia dizendo para Pauline que vai casar com Andrew Chevalier.

Ah, eu iria matá-la quando ela levantasse da mesa e fosse para o seu quarto. Primeiro pegaria os cabelos dela e levaria até o chão... Depois a arrastaria pelo corredor enorme dos quartos e...

- Alexia, cuide o que fala perto da sua irmã... – Satini olhou para Aimê. – Não quero que você fale sobre isso novamente, Aimê. Lembre-se que Alexia é namorada de Gael... E ele ficaria bem chateado se ouvisse isso. Acho que você pode ter ouvido errado.

- Meu ouvido é muito bom, mãe. – contestou a princesa caçula.

- E sua língua também. – observou Pauline rindo.

- Meninas, comportem-se na presença dos Chevalier. Ficarão hospedados no castelo por alguns dias...

Senhor, posso desmaiar agora? Senti o sangue deixar meu corpo e outra "pernada" de Pauline.

- Por que não se hospedam num hotel? – questionou a mais velha.

- Porque se hospedarem num hotel se temos um castelo com vários quartos disponíveis? – Satini falou. – Não custa retribuir a hospitalidade que eles sempre nos ofereceram. E afinal, como diz seu pai: somos família.

- Você acha que temos realmente vínculos com os Chevalier... Parentesco, no caso... Nós, as filhas de Estevan, com os filhos de Dereck e Magnus? – perguntei curiosa.

Minha mãe me olhou por um tempo, cautelosa antes de responder:

- Na minha opinião, não... Mas seu pai acha o contrário. Os Chevalier é tudo que sobrou da família dele depois que seus avós de foram.

Eu acompanhava a vida de Andrew Chevalier na internet. Na verdade, eu stalkeava ele...

- Eu vou pedir para Andrew e Henry tirarem uma foto comigo para postar nas minhas redes sociais. – disse Aimê ansiosa.

Sim, Aimê D'Auvergne Bretonne, a princesa caçula de Alpemburg, aos dez anos, era uma digital influencer. Tinha mais seguidores do que minha irmã, que era a futura rainha. Eu nem a comparava comigo, porque eu tinha meia dúzia de seguidores aqui e uma dúzia acolá. Mais seguia do que era seguida.

- Aposto que eles vão tirar uma foto com você, querida. – garantiu minha mãe.

Pauline, minha irmã mais velha, futura rainha de Alpemburg, era discreta. Estudou enquanto criança em nosso pequeno reino e o Ensino Médio em outro país. A Faculdade foi mais longe ainda: nos Estados Unidos. Nossos pais faziam questão manter a nossa privacidade, tentando nos manter longe dos holofotes sempre que podiam. Mas não conseguiram fazer o mesmo com Aimê, que nasceu feliz pela posição de princesa que ocupava e adorava a fama. Ela postava na internet sua vida diária, tinha muitas amigas e deixava o castelo mais feliz com elas nos finais de semana. Aimê era vida, alegria e felicidade. Era com um sol que iluminava nossos dias, com sua inteligência e sagacidade natural. Porque ela era assim... A nossa irmãzinha pura emoção e que enchia nossos corações de amor.

Eu e Pauline sempre fomos muito amigas e conversávamos sobre tudo, mesmo com nossa diferença de idade: eu tinha dezoito e ela vinte e quatro. Só nos afastamos um pouco quando ela foi cursar a faculdade em outro país. Mas este afastamento foi só físico, pois ainda assim nos falávamos diariamente por chamada de vídeo ou voz. Além disso, sempre que podia, ela voltava para casa, principalmente nos finais de semana prolongados de feriados.

Pauline tinha uma agenda diária cheia, afinal, ela seria a futura rainha de Alpemburg. E não estava sendo muito fácil nem para ela, muito menos para meus pais, pois havia certa resistência da corte em aceitar uma rainha no lugar do rei, já que Alpemburg nunca foi governada antes por uma mulher. E nem o fato de meu pai ser um ótimo monarca, bem como meu avô, fazia uma minoria, mas barulhenta minoria, mudar de opinião.

Minha mãe sabia muito sobre os sentimentos que se apossavam de minha irmã com essa possível rejeição, afinal, ela passou pela mesma situação em Avalon, quando o rei, que achava ser seu próprio pai, a achava incapaz de ser a rainha pelo fato de ser mulher.

Até então, todos os D'Auvergne Bretonne tiveram pelo menos um filho homem à frente do reino. Meu avô, por exemplo, teve dois. Como o meu tio, irmão mais velho dele, morreu, meu pai assumiu o trono. No entanto Estevan D'Auvergne Bretonne teve três filhas mulheres. E se recusou a ter outro filho, com a possível possibilidade de ser homem, conforme sugerido por alguns membros de confiança dele na corte. Porque ele sabia que por direito, minha irmã herdaria o trono. E nada nem ninguém poderia mudar isso. E ele a ensinava a ser uma perfeita rainha, como ele era enquanto rei. E sempre lhe dizia que não a aceitavam porque não a conheciam. Que assim que soubessem o quão grandiosa e competente ela era, mudariam de ideia.

E tinha eu... A filha do meio. A princesa que não seria rainha, como Pauline. E que não tinha tarefas árduas e repetitivas, como aulas de dicção e oratória, postura e etiqueta, como fazer discursos belos para convidados e imprensa. E eu também em nada me parecia com Aimê, nosso raio de sol, que sabia o que queria aos dez anos e tinha até mais dom para rainha do que a própria Pauline. Eu era só uma garota que estava terminando o Ensino Médio, tímida e um pouco insegura. Tive somente uma amiga de escola, que acabou se mudando no início deste ano. Diferente de Pauline, eu concluí minha educação escolar em Alpemburg, numa escola pequena, mas tradicional. Como quase todos sabiam quem eu era, se afastavam de mim imediatamente.

Eu não queria ser uma adolescente implorando por amizade ou aceitação. Até porque eu tinha minha melhor amiga dentro da minha própria casa, que era minha irmã. Então eu me limitava a focar na aprendizagem e nada além disso. Ah, eu tinha um namorado. Eu e Gael estávamos juntos há mais de um ano. Conhecemo-nos através de nossos pais, que eram amigos pessoais. A família dele era bem influente em Alpemburg e o pai dele almejava fazer parte da corte.

Eu e meu pai, Estevan, tínhamos um vínculo muito forte. Sempre fui a mais apegada a ele. E talvez por este motivo a única a herdar a habilidade de ser pilota de corridas... E amar carros e velocidade.

Gael também gostava, mas ele não era tão bom quanto eu. Aliás, nos conhecemos nas pistas. Eu sempre ganhava dele numa disputa. E isso o deixava furioso. Eu só não era melhor que meu pai... Porque ninguém o vencia. Estevan D'Auvergne Bretonne era um dos melhores pilotos de corrida que eu conhecia... E de Alpemburg o número um. E isso me orgulhava muito.

Claro que eu me também tinha intimidade com minha mãe, embora fôssemos completamente diferentes. Eu era tranquila e contida e ela completamente ansiosa e agitada. Sem contar que ela dava os piores conselhos da vida sobre garotos. Ainda assim ela sempre me consolava... Sobre tudo. As mãos dela eram macias e quentes e o colo dela o melhor do mundo inteiro. E ela sempre tinha palavras carinhosas na ponta da língua... Assim como palavrões. Aliás, eu odiava palavrões. Pauline não podia falar palavrões. E Aimê era muito nova para ouvir palavrões. Então meu pai ficava o tempo inteiro tentando conter minha mãe.

Ainda sobre os dois: dormiam bem longe de nós, no último quarto do corredor. Conforme fomos crescendo entendemos o motivo: sexo. Minha mãe, além de viciada nisso, não conseguia ser discreta. Então meu pai trocou todo mundo de quarto, bem longe uns dos outros. Eu, sinceramente, achava aquilo nojento. Não que sexo fosse nojento... Mas imaginar meus pais fazendo era. E não, eu não havia feito sexo ainda. E só faria quando me sentisse segura. Pauline teve a primeira vez com um garoto que ela era apaixonada desde criança. E sofreu muito depois. Eu acredito que não havia sentimento por parte dele, só dela. Isso me traumatizou um pouco. Sim, a futura rainha de Alpemburg, Pauline D'Auvergne Bretonne, foi rejeitada e ludibriada por um garoto que só queria ser o primeiro dela. Vez ou outra eles ainda se encontravam secretamente. Mesmo tendo certeza de que ele não queria nada sério com ela, Pauline não se importava. E mesmo que eles quisessem ter um relacionamento, isso era impossível, pois ele era neto de Léia, ex babá de minha mãe. Assim que eles começaram a trocar olhares, quando Léia ainda ficava no castelo, meu pai e minha mãe decidiram que era melhor ela ganhar uma casa própria... Coincidentemente o mais longe possível do castelo, quase na divisa de Alpemburg com outro país. Tudo isso para afastar Pauline e Alef. Em partes, a solução encontrada por eles resolveu, pois minha irmã passou a se encontrar cada vez menos com seu amor proibido. Mas o coração dela, infelizmente, ainda pertencia a ele. Nós não sabíamos o que havia entre nossos pais e os de Alef. Não acho que isso fosse um segredo, mas um assunto que não lhes trazia boas lembranças, especialmente para minha mãe. Então eles preferiam não tocar nisso.

- Então, meninas, amanhã pela manhã iremos todas assistir à corrida de seu pai e seus primos. Depois receberemos os Chevalier na nossa casa. E vocês serão boas anfitriãs. E Aimê... Comporte-se.

- Mãe, ninguém vai acreditar que Andrew Chevalier esteve na minha casa. Preciso transmitir ao vivo. – alegou Aimê.

- Não mesmo. E se insistir, vou ter que conversar com seu pai a respeito. Os Chevalier merecem privacidade. Se quiserem fazer disto um momento a ser compartilhado com o mundo, eles que o façam.

- Ok. – ela assentiu tristemente.

Pensar em rever Andrew Chevalier depois de oito anos me deixava completamente ansiosa e quase sem fôlego. Da última vez que nos vimos, "casamos" e ele me deu um beijo. Pauline acha que aquilo não foi um beijo, mas para mim o primeiro beijo foi com Andrew Chevalier, quando eu tinha dez anos de idade. Se eu fechasse os olhos, ainda sentia os lábios dele nos meus, mesmo depois de tanto tempo. Desde que eu tenho lembranças na vida, eu gostei dele... O menino loiro, magrelo, com olhos estreitos e que quase nunca sorria. E que sempre me tratou muito gentilmente. Revê-lo seria a única esperança de tirá-lo para sempre dos meus pensamentos, na tentativa de que ele fosse um idiota, em nada parecido com o menino doce que eu conheci. Porque ele povoava meus sonhos depois que eu passei a stalkeá-lo na internet.

Andrew Chevalier era conhecido em quase todo o mundo, creio eu. A fama o precedia por seu sobrenome e pela beleza se seu pai, Magnus, e seu tio, Dereck, e os feitos deles em Noriah Sul, onde decretaram república depois de terem matado a própria mãe. Há boatos de que foi Katrina, mulher de Magnus, que deu os tiros na rainha Anne Marie. Mas aquilo nunca foi esclarecido para ninguém. Era um assunto guardado a sete chaves pelos Chevalier.

- Onde está vovô? – perguntei.

- Ele foi com seu pai. Estão trabalhando num motor novo.

Sean, meu avô, aprendeu a mexer nos carros de corrida de meu pai. Então ele era o responsável por toda parte mecânica dos nossos carros de competição e nos acompanhava sempre. Eu participava de algumas, mas meu pai nunca me deixou revelar minha identidade. Então eu nunca tirava o capacete. Eu era um fantasma que ganhava corridas vez ou outra... Com um nome qualquer. O mundo automobilístico não era muito receptivo com as mulheres. Por isso meu pai me protegia o máximo que conseguia. Para que eu não sofresse nenhum tipo de represália, muito menos ficasse jogando com nosso sobrenome.

Logo que terminamos o café, eu subi rapidamente para o quarto de Pauline. Assim que entrei, me joguei na cama dela e disse, contendo o grito:

- Eu vou ver Andrew!

- Sim... E você tem um namorado.

- Ei, eu só disse que vou vê-lo... Nada mais.

- Você ainda não pensa que são casados, não é mesmo?

Eu ri:

- Claro que não.

- Que bom. Ok, eu concordo... Andrew é lindo, gostoso e o mundo inteiro deseja ele. Mas é só um homem, nada mais.

- Pauline, você pode ser feliz com alguém além de Alef, sabia?

- Eu não gosto dele. – ela mentiu descaradamente.

Eu ri:

- Você não pode mentir para mim. Porque eu conheço você.

- Eu juro que o que eu mais tento é tirá-lo da minha mente e do meu coração. – ela confessou.

- Você vai continuar escondendo isso dos nossos pais?

- Sim... Ainda mais agora que o vejo raramente.

- Mais um motivo para tirá-lo de vez da sua vida.

- Então vamos parar de falar nisso. É um bom começo...

- Não está ansiosa para ver Henry?

Ela riu:

- Meu também marido?

- Essa brincadeira de criança me persegue até hoje. Acredita que eu sonho com meu casamento com Andrew? E às vezes, nos meus sonhos, já somos adultos... E eu estou vestida de noiva... E ele me beija. – suspirei e fechei meus olhos, imaginando o rosto dele ainda adolescente na minha mente.

- E se você olhar para Andrew e descobrir que gosta dele, Alexia?

- Isso não vai acontecer... Eu só o acho... – procurei as palavras para descrever o que eu pensava dele e não me comprometessem tanto. - Bonito... Na verdade, lindo. Olha para mim, Pauline. Não sou o tipo de garota dele.

- Por que não? Você é linda... Uma princesa.

Eu ri:

- Princesa do meio... Que importância tem a princesa do meio?

- A mesma que um príncipe sem coroa. – ela riu. – Mas não precisamos discutir isso. Afinal, você namora Gael e nosso pai jamais deixaria você se envolver com Andrew. Nem sei como ele deixou eles se hospedarem aqui. Lembro que depois do que houve aquela vez ele ficou furioso por um bom tempo.

- Acha que por isso nunca mais voltamos à Noriah? Por causa do meu beijo com Andrew?

- Aquilo não foi um beijo.

- Foi sim.

- Você já beijou. Então sabe que não foi...

- Meu primeiro beijo foi com Andrew Chevalier. – suspirei novamente.

- Sim, aos dez anos. – ela ironizou. – Isso é Pedofilia. Afinal, ele tinha dezesseis.

Deitei na cama e coloquei minha cabeça sobre as mãos, olhando para o teto:

- Bem, eu tenho curiosidade de falar com ele cara a cara depois de tantos anos. Nem nos despedimos da última vez. E nosso pai quase bateu nele... Então de certa forma me senti culpada.

- Não se sinta... Ele sabia muito bem o que estava fazendo.

- E você acha que eu não?

- Então você é muito safada, Alexia.

- Quem trocou primeiro o beijo de verdade foi você e Henry.

Pauline suspirou e deitou ao meu lado. Viramo-nos uma para a outra e nossos olhos se encontraram. Ela disse:

- Eu já gostava de Alef naquela época. Mas o beijo de Henry foi bom.

- Vai beijar ele novamente? – perguntei. – Afina, você não tem namorado.

- Que parte de: "nossos pais não querem que a gente se envolva com eles" você não entendeu.

- Eu não vou me envolver com ele. – garanti. – Eu gosto de Gael.

- Já sonhou com você e Gael casando?

- Não. – confessei. – Nos meus sonhos eu só caso com Andrew.

- Você segue ele nas redes sociais? Já mandou uma solicitação de amizade? Já mostrou que você existe?

- Não. – confessei. – Quer dizer, eu stalkeio a vida dele, mas nunca tive coragem de mandar uma solicitação.

- Você é medrosa, Alexia. Que mal haveria nisso?

- Ele poderia não aceitar...

- Ele poderia talvez não ver, isso sim... Mas é claro que ele aceitaria. Será que é Andrew mesmo que mexe nas redes sociais ou tem alguém que faz isso por ele?

- Será que ele é tão importante a ponto de ter alguém que organiza a vida social dele? – me questionei em voz alta.

- Eu mal tenho tempo de mexer nas minhas. Vai ver ele também não tem.

- Eu tenho tempo... E não mexo muito.

- Mas tem tempo de cuidar da vida dele. – ela riu. – Aliás, acho que você só faz isso.

- Só um pouquinho. – confessei.

- É muita coincidência vocês dois gostarem de pilotar carros de corrida. Talvez um sinal do destino. – Pauline observou.

Capítulo 3 Família D'Auvergne Bretonne

- Eu não quero que ele saiba que eu piloto, Pauline.

- Por quê?

- Porque nosso pai não quer que eu conte para ninguém.

- Eu ainda acho que você deveria assumir ao mundo que ama pilotar e que é melhor que muitos homens.

- Talvez este dia chegue em breve. Mas por hora, não. Eu jamais faria isso sem falar com papai antes.

- Não entendo porque nosso pai sempre a incentivou e é tão orgulhoso de você ser uma ótima pilota e ao mesmo tempo a obriga a fazer disto um segredo.

- Você sabe como ele se sente com relação às filhas...

- Alpemburg é uma droga... O reino decidiu ser machistas justo agora, na minha vez de assumir.

- Claro que isso só aconteceu agora porque você será a primeira rainha. E eu tenho orgulho de você, Pauline.

Ela me abraçou e eu retribuí. Éramos assim, carinhosas uma com a outra, desde sempre.

Um forte flash, seguido do som de foto, fez com que levantássemos da cama rapidamente, com os cabelos desarrumados. E lá estava Aimê, batendo outra foto:

- Isso vai para a minha primeira postagem do dia. Estou pensando na redtag: "Estas princesas descabeladas são o futuro de Alpemburg?"

Ela sorriu debochadamente e eu gritei:

- Eu vou matar você.

Sai correndo enquanto ela já estava fora do quarto, correndo com suas pernas ágeis de criança. A persegui pelo extenso corredor dos quartos e Aimê parou próxima da escadaria, rindo sarcasticamente:

- Você só promete... Mas nunca consegue me pegar.

- Ah, sua monstrinha virtual.

Ela desceu rapidamente a escada, pulando dois degraus por vez. E sumiu pela porta principal, sem deixar vestígios.

Fiquei parada ao pé do último degrau da escadaria, ofegante, colocando minhas mãos no coração, que batia mais forte que o normal.

- Acho que você deveria começar a treinar corridas com as pernas e não só com carros. – observou minha mãe, junto de meu avô.

- Mãe, ela tirou fotos sem permissão. E disse que vai postar...

- Não vai postar porra nenhuma. – disse Satini.

Meu avô olhou para ela repreensivamente.

- Claro que vai. – contestei.

- Se ela fosse postar tudo que fotografa, ela não viveria fora do celular. – disse Satini subindo as escadas.

- Mas ela mal vive fora do celular. – aleguei.

Meu avô veio até mim e abraçou-me com força, erguendo meu corpo para que eu descesse da escada:

- Vai correr amanhã?

- Não.

- Por qual motivo?

- É uma corrida importante. Papai não falou nada sobre eu participar... Além disso... – me calei quando pensei em mencionar o que estava na minha mente.

- Fale, querida.

- Bem... Os Chevalier vão correr, não é mesmo?

- Se fosse para apostar, eu apostaria em você e não em Andrew.

Eu ri:

- Não brinque, vovô. Andrew é bom nisso.

- E você não é boa... É ótima.

- Eu não gostaria de ganhar de Estevan D'Auvergne Bretonne. – brinquei.

- Acho que em breve você superará seu professor... Que é seu próprio pai. – ele sorriu lindamente.

Eu era simplesmente apaixonada por meu avô. Ele era absolutamente incrível. Eu nunca o vi falar uma palavra ofensiva ou que denegrisse de qualquer forma a imagem de alguém. Ele era o tipo de pessoa que só tinha pensamentos bons e altruístas. Só existia uma pessoa que ele literalmente não gostava: o pai de Alef.

Como já mencionei, eu não sabia o que havia acontecido no passado entre ele, minha mãe, meu pai e meu avô. O certo é que ninguém tinha intenção de nos contar. Léia havia deixado o castelo visivelmente descontente, mas não contestou a decisão de meu pai.

O fato é que mesmo Alef e Léia tendo sido afastados, isso não o impediu de continuar vendo Pauline às escondidas. Mas só eu sabia sobre isso. Era um segredo entre nós duas. E embora eu não concordasse com o relacionamento tóxico que eles tinham, nunca trairia a confiança de minha irmã.

- Estressada com a pequena Aimê? – ele perguntou colocando o braço sobre meus ombros.

- Muito... Ela tem o dom de me irritar... Então fica aquela sensação de "eu amo uma monstrinha". – sorri.

- Que tal um sorvete? Só nós dois? – ele convidou.

- Jura? Durante a manhã? – o abracei. – Claro que aceito.

Quando eu saía com meu avô, íamos sempre no carro dele. Era um dos momentos em que eu me sentia livre. E acostumado com a realeza desde sempre, ele tinha os melhores e mais divertidos disfarces no carro para que passássemos despercebidos em qualquer lugar.

Descemos os degraus até a garagem e em poucos minutos eu já estava sentada na frente, no banco do carona, procurando algo dentro do porta-luvas que me deixasse irreconhecível.

Ele ligou o carro e partimos enquanto eu escolhia um óculos grande, escuro e um boné com o símbolo da bandeira de Alpemburg, onde coloquei meus cabelos compridos e ruivos para dentro.

- O que achou? – perguntei fazendo caras e bocas, divertidamente.

Ele abriu um sorriso largo:

- Parece uma certa pilota de corridas que conheço que sempre disfarça sua verdadeira identidade.

- Ela seria ruiva? – brinquei.

- Ruiva, mistura do pai e da mãe... Mas com os olhos da avó mais linda do mundo inteiro.

- Vovó Pauline... – falei orgulhosa.

- Seus olhos são exatamente como os dela... Verde água, limpos e cristalinos. Foi a única coisa que sua mãe não herdou dela.

- Esta foi a minha herança. – sorri colocando a mão sobre a dele.

Eu sabia o quanto meu avô gostava de falar sobre Pauline, seu único e verdadeiro amor da vida inteira. Ele nunca se envolveu com ninguém depois que ela morreu. E isso já fazia mais de quarenta anos.

- Eu gostava de levar sua mãe para tomar sorvete. – ele disse estacionando em frente à sorveteria.

- Que bom que hoje tomar sorvete não é um sonho, como minha mãe tinha. Deve ter sido horrível viver por dezesseis anos trancada dentro de um castelo, tipo Rapunzel.

- Satini sempre foi forte. E depois que viemos a Alpemburg, vínhamos tomar sorvete todos os dias aqui.

- Agora sobrou sua neta para você pagar o sorvete.

Descemos do carro e Sean foi pegar o sorvete enquanto eu procurei uma mesa vaga na calçada para sentarmos. Ele trouxe-me sorvete de chocolate, como sempre. Minha mãe ainda vinha com ele tomar sorvete, mas com as filhas e as tarefas diárias enquanto rainha, o tempo dela começou a ficar curto. Mas ele tinha eu: a princesa que não era futura rainha, tampouco a famosa digital influencer do castelo. Alexia d'Auvergne Bretonne era só uma garota comum, em busca de si mesma. Romântica, tímida, cheia de pensamentos e ideias, tentando decidir o que fazer do seu futuro.

Pauline não teve muitas escolhas na vida. Seu futuro já estava traçado antes mesmo de ela nascer: ser rainha de Alpemburg. E para isso ela tinha meu pai e minha mãe ao lado dela. Eu me achava com sorte por poder fazer algumas escolhas, que meus pais não influenciavam tanto por eu não ser a filha mais velha. Eu só precisava decidir o que fazer. E só não podia ser pilotar carros, que era a coisa que eu mais amava na vida.

- Vovô... Sabe quanto tempo os Chevalier vão ficar? – perguntei fingindo despretensão.

- Não sei.

- Será que já chegaram em Alpemburg?

- Sim. Estevan me comentou algo sobre eles estarem perto do local onde será a corrida amanhã. Depois irão para o castelo de Alpemburg.

Ele deixou os óculos escuros descansarem bem na ponta do seu nariz, me encarando seriamente:

- Você acha que eu não sei que você gosta de Andrew?

Senti meu coração bater fortemente e fiquei sem jeito.

- Se você corar assim quando olhar para ele, não precisará falar absolutamente nada sobre seus sentimentos... Ele saberá.

- Eu... Não gosto dele. Eu mal o conheço. – menti. – Eu gosto de Gael.

Sean riu divertidamente:

- Sim, você mal conhece Andrew... E o engraçado é que exatamente ele e Henry virão entregar os convites pessoalmente, quando Dereck poderia ter feito isso virtualmente ou ele mesmo ter vindo com Kim para Alpemburg.

- O que você está tentando dizer, vovô?

- Que acho que Andrew também tem interesse em saber o que o tempo fez com você, minha ruiva favorita.

Aquelas palavras mexeram comigo e fizeram meu estômago borbulhar.

- Papai não gosta de Andrew... Não sei como vai ser isso. – falei preocupada.

- Não é que Estevan não goste de Andrew. Ele só não gostou do que houve naquela vez. E entenda, pode ter sido uma brincadeira inocente e um beijo sem segundas intenções... Para você. Porque Andrew Chevalier tinha dezesseis anos.

- Eu estava lá... Não foi com nada com más intenções, acredite.

- Da sua parte, claro que não, Ale.

- Eu juro que da dele também não...

- Enfim, já passou. E não, seu pai não tem nada contra ele. Duvido que Estevan retomará este assunto.

- Torço para que não... Eu me sentiria péssima... Por Andrew.

- Seu pai é um rei... E além de ser parente do pai de Andrew, ele deve muito aos Chevalier.

- Eu discordo da parte "parentes".

- Magnus e Estevan são primos. E você sabe disso.

- Teoricamente meu pai é primo de segundo grau de Andrew.

- Exato.

- E eu já nem estou mais nesta linha de parentesco.

Ele riu:

- Podemos dizer que não. Mas você já conversou com sua mãe sobre isso?

- Sim... Hoje mesmo no café da manhã.

- E o que ela disse?

- Que meu pai faz questão de tratar como parentesco... Mas que ela não se importa muito com isso.

Ele gargalhou:

- Se ela dissesse o contrário, eu teria uma conversa bem séria com ela.

- Por que exatamente? – perguntei curiosa.

- Deixa para lá... Melhor tomarmos nosso sorvete e falarmos sobre... Gael e seu futuro casamento com ele?

Eu fiz uma careta:

- Não quero casar tão cedo.

Ele riu:

- Entendo...

Quantos segredos eram escondidos de nós? Agora surgia a questão de minha mãe e parentescos... O que Satini Beaumont teria feito no passado relacionado a isso?

Almoçamos todos juntos e à tarde meu pai voltou para casa, a fim de trabalhar com meu avô no motor novo do carro que ele iria usar. Ele havia construído uma pista de corrida próxima ao castelo, onde ele treinava e também me ensinava.

Eu dirigi pela primeira vez com quatorze anos, escondida dele. Com quinze ele acabou me deixando guiar, ficando ao meu lado. Com dezesseis eu já corria melhor que muitos pilotos amadores que tinham um bom tempo de estreia nacional. E hoje, com dezoito, era quase melhor que meu pai. Certamente antes dos vinte anos eu o venceria facilmente numa corrida. O meu segredo: eu não tinha pressa na saída... Nem no meio. E alcançava todos no final. Porque meu objetivo principal sempre foi me divertir e sentir a adrenalina... Perto do fim, meu sangue ficava tão quente que parecia ferver dentro de mim. E tudo que eu queria era mostrar a todos que eu era a melhor em alguma coisa na minha vida. Então eu dava tudo de mim e vencia. Menos meu pai, que sempre estava lá na frente de todos.

Passei a tarde com eles, entendendo melhor sobre o novo motor que meu avô havia criado. Mas não tocamos no assunto "Chevalier". Até porque meu pai não tinha medo que ninguém tirasse o primeiro lugar, que sempre foi dele em Alpemburg.

Fui dormir mais cedo naquela noite. Porque eu queria que passasse logo o tempo e amanhecesse para eu finalmente ver Andrew Chevalier depois de oito anos.

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