Título: Além do Desprezo
Autora: Amahre
Nem todo conflito vira amor. Às vezes, ele só deixa cicatrizes.
Em meio ao caos, o amor é apenas uma ilusão. Mas a dor... essa é real.
Dedicatória
Para os que amaram e foram destruídos por isso.
E para aqueles que carregam o coração em pedaços, mas continuam sorrindo.
Porque sobreviver também é uma forma de coragem.
Agradecimentos
Escrever essa história foi como sangrar em silêncio.
Agradeço à minha mãe, que mesmo sem entender tudo que se passava na minha cabeça, sempre acreditou em mim. Seu amor silencioso me deu forças quando eu mesma duvidei.
À minha professora de português, que plantou em mim a semente das palavras e me ensinou que escrever não é só técnica - é sentir, viver e transformar.
E a mim mesma, por não ter desistido.
Obrigada.
Direitos Autorais
© 2025 por Amah_re
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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e incidentes são produtos da imaginação da autora ou utilizados ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, ou eventos reais é mera coincidência.
Editora: Independente.
A chuva caía incessante nas ruas de Berlim, lavando os paralelepípedos com um ritmo constante e melancólico. A cidade, coberta por uma neblina espessa, parecia uma pintura borrada, onde as luzes dos carros e postes refletiam no asfalto molhado. Maya Almeida, envolta em um casaco escuro, caminhava com passos firmes, ignorando o frio que penetrava sua pele. Seu destino era o escritório de advocacia mais renomado da cidade: Thorne & Associados.
Ela odiava aquele lugar, mas o trabalho precisava ser feito. A fusão entre sua empresa e a de Gabriel Thorne era inevitável. Não era questão de escolha, e sim de sobrevivência no mercado. Ainda assim, a ideia de ter que encarar aquele homem novamente a deixava inquieta.
Gabriel Thorne... O simples pensamento de seu nome fazia seu estômago revirar. Ele era arrogante, frio e meticuloso. Já haviam se enfrentado inúmeras vezes em reuniões, cada uma mais tensa que a outra. O jeito condescendente com que ele a olhava, como se sempre estivesse um passo à frente, a fazia querer enganá-lo. Como alguém podia ser tão insuportável e, ao mesmo tempo, tão magnético?, pensava ela, enquanto apertava o passo para evitar se molhar ainda mais.
O prédio moderno onde a empresa dele estava localizada tinha janelas amplas que refletiam a escuridão do céu. Maya parou em frente à entrada, respirou fundo e entrou. Não era hora de hesitar. O som de seus sapatos ecoava no mármore do hall enquanto ela caminhava em direção ao elevador, tentando se preparar mentalmente para o encontro que teria.
Ao sair do escritório, foi recebida pela recepcionista, que indicou a sala de reuniões. Maya entrou, sentindo o peso da tensão no ar. Gabriel já estava lá, sentado à cabeceira da longa mesa de vidro, com uma expressão que beirava a indiferença. Ele vestia um terno impecável, e seu cabelo estava perfeitamente penteado, como sempre. Seus olhos azuis rapidamente encontraram os de Maya, e ela viu aquele brilho calculista que tanto a irritava.
- Srta. Almeida - ele disse, a voz grave e suave como seda, mas com um tom que sempre parecia esconder algo mais. - Que bom que conseguiu chegar com a tempestade lá fora.
Maya se esforçou para manter o rosto neutro, apesar da irritação crescente.
- Sr. Thorne, não vamos perder tempo, certo? Tenho outras reuniões hoje. - Ela se sentou à mesa, mantendo a distância entre eles.
Gabriel inclinou-se levemente para frente, seus olhos nunca deixando os dela.
- Claro, não vamos perder tempo. Afinal, quanto mais rápido resolvermos isso, mais rápido podemos seguir com nossas prioridades.
A insinuação implícita fez o sangue de Maya ferver. Ela sabia que ele adorava essas pequenas provocações, mas não lhe daria o prazer de uma reação. Mantém a calma, Maya, disse a si mesma. Eles trocaram olhares por um instante, e o silêncio entre eles tornou-se palpável, pesado, como se ambos esperassem pelo movimento do outro.
O encontro seguiu conforme esperado - formal, com frases curtas e diretas. No entanto, o ambiente entre eles parecia carregado de algo mais, algo que ia além da rivalidade profissional. As trocas de palavras afiadas eram apenas a superfície de um conflito muito mais profundo.
Após mais de uma hora, a reunião finalmente terminou, e Maya levantou-se, pronta para sair o mais rápido possível daquele espaço. Mas, ao virar-se para a porta, a voz de Gabriel a deteve.
- Almeida, você realmente acha que tudo se resume ao que está no papel? - Sua voz tinha uma qualidade mais sombria agora.
Maya virou-se lentamente, enfrentando-o com olhos desafiadores.
- E o que mais haveria além disso, Thorne?
Gabriel se levantou, caminhando até a janela e olhando para a cidade que se estendia abaixo.
- Eu apenas espero que você esteja preparada para o que está por vir. Nem tudo é tão simples quanto parece.
Maya o observou por um momento, sem saber se aquilo era uma ameaça ou algum tipo de aviso. Mas, conhecendo Gabriel talvez fossem os dois. Sem dizer mais nada, ela saiu, sentindo o coração bater mais rápido do que gostaria. Havia algo estranho naquele encontro, algo que a incomodava de um jeito que ela não sabia explicar.
Quando as portas do elevador se fecharam atrás dela, Maya sabia que aquele era apenas o começo de uma batalha que iria muito além dos documentos que eles assinaram. E talvez, só talvez, Gabriel Thorne fosse mais perigoso do que ela estava preparada para enfrentar.
A noite em Berlim caía lenta e sombria. O céu permanecia cinza, como se resistisse à escuridão total, enquanto a chuva persistente criava um tapete brilhante nas ruas iluminadas por farois e postes distantes. Maya observava a cidade pela janela do táxi, tentando ignorar o desconforto crescente em seu estômago. Estava a caminho do jantar que Gabriel sugeria - um jantar que definiria o destino da fusão e, consequentemente, de sua carreira.
Seu reflexo no vidro devolve um olhar tenso: olhos castanhos bem abertos, mas cansados. Você está no controle, disse a si mesma, respirando fundo. Já havia enfrentado situações piores - e pessoas piores. Gabriel Thorne era apenas mais uma pedra no caminho, um obstáculo temporário que, eventualmente, superaria. Pelo menos, era o que tentava acreditar.
Quando o táxi parou em frente ao restaurante - um estabelecimento elegante, porém discreto - Maya pagou a corrida e saiu rapidamente, tentando evitar que a chuva molhasse ainda mais o vestido escolhido. Um vestido preto simples, mas que lhe conferia postura, força e confiança. Queria estar impecável naquela noite. Gabriel não podia ver fraqueza, não naquele momento crucial.
Ao entrar, foi recebida por um maître que a conduziu diretamente à mesa reservada. O ambiente do restaurante era acolhedor, com luzes suaves e música instrumental ao fundo, criando uma atmosfera sofisticada e calma. Uma boa escolha, admitiu, mesmo contra a vontade de reconhecer que ele sabia impressionar quando queria.
Gabriel já a esperava, sentado com um copo de vinho à frente. Usava uma camisa social branca e calça jeans azul-escura. Nos pés, sapatos sociais pretos. Ao vê-la, levantou-se e fez um leve aceno de cabeça - um cumprimento cordial, mas distante, típico dele.
- Maya, que bom que pôde vir - disse, a voz tranquila, como se estivessem ali para um encontro casual. Mas ela sabia que tudo ali era estratégico.
- Não me restava muita escolha, não é? - respondeu, sentando-se à mesa com uma sobrancelha levemente arqueada.
Gabriel sorriu de canto - algo que a irritou mais do que gostaria de admitir.
- Sempre há escolhas, Almeida. Mas fico feliz que tenha escolhido a mais sensata dessa vez.
Ela manteve o olhar firme, sem ceder à provocação. Gabriel Thorne gostava de jogar, e ela sabia que qualquer demonstração de desconforto seria uma vitória para ele. Estava ali para uma batalha silenciosa - e não deixaria que ele a desestabilizasse tão facilmente.
- Onde está Weber? - perguntou, desviando o olhar para o cardápio à sua frente, mais interessada em saber quando aquilo terminaria.
- Ele se atrasou - respondeu Gabriel, tomando um gole do vinho, parecendo completamente à vontade. - Mas já está a caminho.
Maya suspirou internamente. Claro que Weber se atrasaria. Era o tipo de homem que gostava de deixar todos em suspense, como se sua presença fosse a peça final de um quebra-cabeça. Enquanto esperavam, o silêncio entre ela e Gabriel crescia - mas não era uma quietude confortável. Era uma mudez densa, cheia de palavras não ditas, tensões veladas e uma rivalidade que ambos se recusaram a resolver.
A garçonete apareceu, interrompendo o momento.
- Algo para beber, senhorita? - perguntou com um sorriso educado.
Maya hesitou por um instante, mas decidiu que precisaria de algo para lidar com a situação.
- Um vinho tinto, por favor - disse firme, apesar da ansiedade interna.
Gabriel a observou enquanto a garçonete se afastava. Quando voltou a olhar para Maya, trazia uma expressão que ela não conseguiu decifrar de imediato. Havia algo de diferente nele naquela noite - algo mais calmo, menos agressivo - o que a deixava ainda mais desconfiada.
- Você está particularmente quieta hoje - comentou, recostando-se na cadeira.
- E você está particularmente mais agradável do que o normal - rebateu, mantendo o tom sarcástico.
Ele riu, um som baixo e controlado, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.
- Quem sabe eu esteja me esforçando para melhorar nossa "relação de trabalho", como você mesma mencionou mais cedo.
Maya franziu o cenho, o olhar afiado fixo nele.
- Se vamos falar de relação de trabalho, Thorne, então sejamos francos. Isso aqui - ela gesticulou entre os dois - não passa de um esforço para garantir que Weber não cancele seu apoio à unificação. Não pense que, por um segundo, estou aqui para melhorar qualquer coisa entre nós.
Gabriel ficou em silêncio por um momento, os olhos azuis fixos nos dela, como se estivesse medindo suas palavras. Quando finalmente falou, seu tom era mais sério do que antes.
- Você acha que eu me importo tanto com o que você pensa de mim?
Maya foi pega de surpresa pela pergunta, mas rapidamente recuperou a compostura.
- Acho que você se importa o suficiente para tentar me manipular sempre que tem oportunidade - respondeu seca. - E, para ser honesta, não dou a mínima.
O silêncio que se seguiu foi ainda mais tenso do que o anterior. Maya se arrependeu um pouco de ter sido tão direta, mas também sabia que não podia continuar fingindo que tudo estava normal. Gabriel era perigoso, e qualquer passo em falso poderia colocar todo o seu trabalho em risco.
A garçonete voltou com sua bebida, aliviando momentaneamente a tensão. Maya tomou um gole do vinho, apreciando o calor que se espalhava em seu peito enquanto tentava se acalmar. Gabriel, por sua vez, parecia relaxado, como se a discussão anterior não tivesse acontecido.
- Vai continuar assim? - ele perguntou, rompendo o silêncio.
- Assim como? - Maya respondeu, sem esconder a irritação.
- Se defendendo de mim, como se eu fosse seu pior inimigo.
Ela colocou o copo de vinho sobre a mesa com um leve estrondo, olhando diretamente para ele.
- E não é?
Gabriel a encara, um sorriso provocador voltando ao rosto.
- Digamos que sou apenas alguém que gosta de desafios.
Maya estava prestes a responder quando um movimento na entrada do restaurante chamou sua atenção. Jonas Weber finalmente havia chegado, trazendo um guarda-chuva e um olhar de cansaço.
- Desculpem o atraso - disse, aproximando-se da mesa e apertando a mão de Gabriel antes de fazer o mesmo com Maya.
Weber estava vestido com um terno cinza-escuro bem ajustado, que realçava sua figura esguia. Usava uma camisa branca impecável e uma gravata preta que lhe conferia um ar de sofisticação. Os sapatos de couro brilhavam, indicando atenção aos detalhes. Seu estilo era clássico, mas refletia autoridade e profissionalismo.
Maya sorriu, escondendo a irritação da troca anterior com Gabriel.
- Sem problemas, Weber. Estávamos apenas discutindo algumas ideias enquanto esperávamos.
Weber sorriu levemente, acomodando-se na cadeira.
- Ótimo, porque tenho algumas preocupações que gostaria de discutir com vocês dois.
A noite, finalmente, começou.