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Aliança Quebrada, Segredos Bilionários: Veja-me Brilhar

Aliança Quebrada, Segredos Bilionários: Veja-me Brilhar

Autor:: Gay Parodi
Gênero: Romance
Meu marido, o magnata da tecnologia Quion Naider, sempre me tratou como uma "governanta glorificada". Para ele, eu era apenas um acessório decorativo, incapaz de entender o mundo complexo dos seus negócios, servindo apenas para organizar jantares e aquecer sua cama. Mas no dia em que perdi nosso bebê devido ao estresse extremo e ele escolheu ir a uma festa com a amante em vez de me consolar, a fachada de esposa perfeita desmoronou. Quando entreguei os papéis do divórcio, ele riu na minha cara. "Se você sair por essa porta, perde tudo", ele ameaçou, bloqueando meus cartões de crédito antes mesmo de eu chegar à calçada. Ele disse aos amigos no clube privado que eu voltaria rastejando em três dias, faminta e desesperada, pois não tinha habilidades para sobreviver sozinha em Nova York. Pobre Quion. Ele estava tão cego pela arrogância que esqueceu um detalhe crucial: o algoritmo bilionário que sustenta a empresa dele não foi criado por sua equipe de P&D. Fui eu quem o escreveu na mesa da cozinha enquanto ele dormia. Ele achava que estava punindo uma esposa dependente, mas estava declarando guerra à "Solaris", a hacker mais perigosa do mundo. Não voltei rastejando. Fui a uma loja de ferragens, cortei a aliança de três milhões de dólares do meu dedo com um alicate industrial e a vendi por trocados apenas para provar um ponto. No dia seguinte, cortei meu cabelo, vesti um terno barato e me apresentei para trabalhar na empresa do maior inimigo dele - o próprio irmão. Quion acha que perdeu uma esposa inútil, mas ele está prestes a ver seu império ser desmontado, linha de código por linha de código, pela mulher que ele subestimou.

Capítulo 1 1

Elódia sentou-se na beirada da maca de exame. Seus dedos estavam brancos de tanta força com que segurava a alça da bolsa, o couro marcando a palma da mão.

O médico não olhou para ela. Ele rolava os dados em seu iPad, o rosto iluminado pela luz azul artificial.

- O revestimento uterino está severamente danificado, Sra. Naider - disse ele. Sua voz era plana, profissional, desprovida de qualquer calor humano. - Como discutimos anteriormente, os níveis de estresse são provavelmente um fator contribuinte para a rejeição.

Elódia abriu a boca, mas sua garganta parecia cheia de algodão seco. Ela queria perguntar por quê. Queria perguntar se havia algo que ela poderia ter feito diferente nas últimas quarenta e oito horas.

Mas o médico já estava se levantando. Ele tocou na tela do dispositivo e o colocou no balcão.

- Tire algumas semanas para descansar. Minha enfermeira a acompanhará até a saída.

Ele não esperou por uma resposta. Saiu pela porta, já se preparando mentalmente para o próximo paciente VIP na sala ao lado, deixando Elódia sozinha com o zumbido do ar-condicionado e o vazio oco em seu abdômen.

Ela caminhou até a calçada onde o Maybach preto a esperava. O motorista, um homem que trabalhava para a família Naider há dez anos, não olhou pelo retrovisor quando ela deslizou para o banco de trás. Ele simplesmente apertou um botão, e a divisória de privacidade subiu com um chiado suave, selando-a em uma caixa de vidro à prova de som.

Estava quieto. Quieto demais.

Elódia tirou o celular da bolsa. Encarou a tela. Quion.

Ela hesitou, o polegar pairando sobre o botão de chamar. Precisava ouvir uma voz. Mesmo que fosse impaciente. Mesmo que fosse fria. Só precisava dizer a alguém que não havia bebê, que nunca haveria um bebê.

Ela apertou para ligar.

Tocou uma vez.

Clique.

A tela ficou preta, depois acendeu imediatamente com uma mensagem de texto automática.

Em reunião.

Elódia deixou o telefone cair no colo. Encarou a janela escurecida enquanto a cidade passava borrada, o cinza dos arranha-céus combinando com a dormência que se espalhava pelo seu peito.

Quando chegou à mansão Naider, a casa pairava sobre a entrada como um mausoléu. Era uma estrutura maciça de pedra e vidro, projetada para impressionar, não para confortar.

Ela entrou. O saguão estava gelado. O ar-condicionado estava sempre ajustado para dezenove graus porque Quion preferia assim.

Dona Lia, a governanta chefe, passou apressada pelo corredor carregando uma pilha de lençóis.

Ela parou quando viu Elódia, mas não perguntou sobre a consulta. Não perguntou por que Elódia parecia um fantasma.

- Sra. Naider - disse Dona Lia, com o tom cortante. - A senhora não aprovou o menu do jantar para amanhã. O chef está esperando.

- Desculpe - sussurrou Elódia.

Dona Lia suspirou, um som curto e agudo de aborrecimento, e continuou pelo corredor.

Elódia entrou na sala de estar principal. Sentou-se na beirada do sofá, os joelhos pressionados um contra o outro. Na mesa de centro de mármore, o iPad reserva de Quion estava ao lado de um porta-copos de cristal.

Ele acendeu.

A vibração contra a mesa de pedra fez um som baixo de zumbido.

Elódia olhou. Uma notificação se estendeu pela tela de bloqueio.

iMessage de Kátia Bartô.

Elódia sentiu um solavanco físico no estômago, mais forte do que as cólicas que vinha combatendo a manhã toda.

Ela estendeu a mão. Tremia. Deslizou a tela. A senha era 150888. O aniversário de Quion. 15 de agosto.

Desbloqueou.

A mensagem abriu. Não era apenas texto. Era um anexo em PDF intitulado Bem-vinda ao Lar, Minha Musa - Planejamento de Gala.

Elódia tocou nele. O documento carregou. Era um itinerário detalhado para uma festa esta noite. Uma celebração pelo retorno de Kátia Bartô a Nova York. O local era um clube privado em Tribeca.

A data era hoje.

Hoje era o terceiro aniversário de casamento dela.

Ela rolou para cima.

Quion: Finalmente saindo do escritório. Deus, mal posso esperar para fugir dessa atmosfera sombria em casa. É sufocante. Te vejo em vinte minutos.

Kátia: Não se atrase. Estou usando aquele vestido que você comprou.

Elódia deixou o iPad cair no tapete.

Levantou-se e correu para o lavabo do primeiro andar. Agarrou as bordas da pia de mármore fria e teve ânsia de vômito até seus olhos lacrimejarem e suas costelas doerem. Nada saiu. Ela não comia há dois dias.

Olhou para o espelho. A mulher que a encarava de volta era uma estranha. A pele estava pálida, os olhos fundos. Parecia uma decoração que tinha sido esquecida na chuva.

Por três anos, ela tinha ficado quieta. Tinha sido o acessório perfeito. Tinha diminuído sua luz para que Quion pudesse brilhar mais forte.

E ele chamava isso de sufocante.

Ela enfiou a mão na bolsa e tirou a pequena e amassada foto do ultrassom que vinha guardando, aquela de antes do coração parar. Tinha planejado mostrar a ele esta noite, para tentar encontrar algum luto compartilhado, algum conforto mútuo.

Olhou para a imagem granulada uma última vez.

Então a esmagou no punho e a jogou na lixeira de pedal ao lado do vaso sanitário.

Saiu do banheiro. Seus saltos estalavam contra o chão de mármore. O som era diferente agora. Era mais alto. Determinado.

Subiu as escadas para o quarto principal. Não acendeu as luzes. Foi direto para o closet, afastou uma fileira de casacos de inverno e revelou o cofre na parede.

Girou o segredo.

Dentro, sob uma pilha de títulos, havia uma pasta azul. Ela a havia preparado seis meses atrás, numa noite em que Quion lhe disse que ela o estava envergonhando por respirar muito alto em um jantar beneficente.

Tirou os papéis do divórcio.

Caminhou até a pequena penteadeira, destampou uma caneta-tinteiro e olhou para a linha de assinatura.

Não houve hesitação. Nem tremor. Pressionou a pena no papel e assinou Elódia Dicson. A caneta arranhou o papel, rasgando-o levemente no traço final.

Tampou a caneta.

Olhou para sua mão esquerda. O diamante no dedo anelar era enorme, um símbolo de propriedade em vez de afeto. Seus dedos estavam inchados devido ao procedimento médico e ao estresse. Puxou o anel. Não se moveu. Estava preso, marcando sua carne.

Puxou de novo, com mais força, até a pele ficar vermelha.

Não saía.

Ela soltou uma risada curta e amarga e deixou a mão cair.

Virou-se para o closet. Fileiras de vestidos de grife, coordenados por cor e estação, pendurados em sacos plásticos. Ignorou todos.

Alcançou a prateleira superior e puxou uma bolsa de lona surrada. Era a bolsa que usara na faculdade.

Embalou três camisetas. Dois pares de jeans. Roupas íntimas.

Então, alcançou o fundo da gaveta inferior da penteadeira e tirou um laptop velho e grosso. Estava arranhado, pesado e parecia lixo eletrônico comparado aos dispositivos elegantes que Quion insistia em usar.

Colocou o laptop na bolsa.

Fechou o zíper.

Elódia desceu as escadas e sentou-se no sofá da sala de estar. Não acendeu as luzes. Ficou sentada no escuro, as mãos cruzadas no colo, a bolsa de lona aos seus pés.

Ela esperou.

Horas se passaram. A casa se acomodou ao redor dela, rangendo com o vento.

Às 3:00 da manhã, faróis varreram as janelas da frente, cortando a escuridão como holofotes. O rugido do motor de um carro esportivo estilhaçou o silêncio.

Ouviu a pesada porta da frente destrancar. As trancas clicaram.

Quion entrou. Cheirava a ar frio e uísque caro. Alcançou o interruptor e inundou a sala com um brilho cegante.

Ele parou quando a viu.

Franziu a testa, olhando para ela sentada rígida no sofá no meio da noite.

- O que você está fazendo sentada no escuro? - perguntou ele, a voz carregada de aborrecimento. - Parece um fantasma.

Capítulo 2 2

O cheiro a atingiu antes que ele terminasse de falar.

Era gardênia. Pesado, enjoativo, doce. Era o perfume que Kátia Bartô usava desde os dezenove anos. Grudava no casaco de lã de Quion, irradiando dele em ondas, preenchendo o espaço entre eles.

Elódia levantou-se. Seus olhos travaram no colarinho dele.

Lá, nítido contra a goma branca e impecável da camisa, havia uma mancha vermelha. Não era uma transferência sutil. Era uma marca deliberada.

Quion viu que ela olhava. Não recuou. Esfregou a têmpora com dois dedos, o rosto se contorcendo em uma careta de exaustão.

- Não me olhe assim, Elódia - disse ele, passando por ela em direção ao bar. - Foi apenas um jantar de negócios. Os investidores eram grudentos.

- Negócios - repetiu Elódia. Sua voz estava rouca.

- Sim. Negócios. - Quion serviu-se de uma água. - Algo que você não entenderia.

Elódia não se moveu para pegar o casaco dele. Não perguntou se ele estava com fome. Abaixou-se até a mesa de centro e pegou a pasta azul.

Deslizou-a pela superfície de mármore. Fez um som seco e áspero.

Quion olhou por cima da borda do copo. - O que é isso? Dona Lia pediu demissão? Ou é um novo cardápio para a semana?

- São os papéis do divórcio - disse Elódia. - Eu já assinei.

Quion congelou. O copo parou na metade do caminho até a boca. Ele piscou, processando as palavras, e então uma risada curta e incrédula escapou de seus lábios.

- Papéis do divórcio? - Ele colocou o copo na mesa, com um pouco de força demais. A água transbordou. - Elódia, sério? Essa é a nova estratégia? Ameaçar ir embora para me fazer prestar atenção em você?

- Não estou ameaçando - disse ela. - Estou indo embora.

- Porque cheguei tarde em casa? - Quion balançou a cabeça, olhando para ela com pena. - Você está sendo histérica. Tome um Xanax e vá dormir.

- Espero que você e Kátia sejam felizes - disse Elódia. - Não precisam mais planejar festas de gala secretas. Pode levá-la em público.

O rosto de Quion escureceu instantaneamente. A diversão desapareceu, substituída por uma raiva fria e afiada.

- Você andou me espionando? - acusou ele, aproximando-se. Ele se agigantava sobre ela, usando sua altura como arma.

- Não precisei espionar. Você deixou seu iPad na mesa. Ele sincronizou.

- Não tenho tempo para esse ciúme - retrucou Quion. - Tenho uma empresa para administrar. Tenho problemas reais.

- Não mais - disse Elódia. Ela se abaixou e pegou a bolsa de lona.

Quion a observou levantar a bolsa barata. Seus olhos se estreitaram.

- Se você sair por aquela porta - disse ele, a voz caindo para um registro baixo e perigoso -, eu vou cortar tudo. O fundo fiduciário. Os cartões de crédito. O motorista. Tudo para no segundo em que você cruzar aquela soleira.

Elódia jogou a bolsa no ombro. - Faça isso.

- Você não vai durar uma semana nesta cidade - zombou Quion. - Você não tem habilidades. Não tem emprego. Você não tem nada sem o sobrenome Naider.

- Vou arriscar.

Ela caminhou ao redor dele.

Quion entrou na frente dela, bloqueando o caminho para o saguão. - Leia o acordo pré-nupcial, Elódia. Se você sair, não leva nada. Nem um centavo. Vou garantir que você passe fome.

Elódia olhou para cima, para ele. Pela primeira vez em três anos, não viu um deus. Viu um homem com uma mancha no colarinho e medo nos olhos.

- Não preciso do seu dinheiro, Quion - disse ela suavemente. - Guarde-o. Kátia tem um gosto caro para bolsas.

Ela desviou dele. Ele não a agarrou. Estava chocado demais.

Elódia abriu a pesada porta de mogno. O ar frio da noite invadiu, mordendo seu rosto exposto.

- Não venha rastejando de volta quando perceber que não consegue pagar uma passagem de metrô! - gritou Quion atrás dela.

Elódia não se virou. Puxou a porta, fechando-a atrás de si.

Boom.

O som ecoou pela casa enorme.

Lá dentro, Quion ficou sozinho no saguão. Seu coração martelava contra as costelas, um ritmo frenético que ele não conseguia explicar. Era apenas uma birra. Ela estaria de volta no café da manhã.

Lá fora, Elódia caminhava.

A entrada da garagem tinha quatrocentos metros de comprimento. O vento cortava através de sua jaqueta fina, mas ela não parou. Caminhou até chegar à estrada pública.

Pegou o celular e abriu o aplicativo do Uber. Não ligou para o serviço privado. Pediu um Toyota Camry.

Dez minutos depois, estava sentada no banco de trás de um carro que cheirava a purificador de ar de pinho e cigarros velhos.

- Para onde? - perguntou o motorista. Era um homem mais velho com sotaque carregado.

- Centro - disse Elódia. - Edifício Sterling.

O celular vibrou na mão dela. Uma notificação do banco.

ALERTA: Cartão Suplementar final 4098 foi suspenso pelo Titular da Conta Principal.

Ele não tinha esperado nem cinco minutos.

Elódia não entrou em pânico. Não chorou. Colocou o polegar no aplicativo do banco e trocou de perfil.

A tela atualizou. A interface mudou da conta conjunta do Chase para um painel seguro e criptografado.

Conta: Cooperativa de Crédito Suíça / Titular: Solaris

Saldo: 1.540.000.000 CHF

O número se estendia pela tela, uma soma de dez dígitos acumulada de investimentos iniciais em Bitcoin e taxas de licenciamento silenciosas de seus algoritmos. Era o suficiente para comprar a propriedade dos Naider dez vezes.

Ela fechou o aplicativo.

Abriu seus contatos. Rolou até "Marido".

Tocou em Editar. Apagou a palavra "Marido" e digitou Quion Naider.

Então tocou em Bloquear Chamador.

De volta à mansão, Quion chutou a lata de lixo na sala de estar. Ela bateu contra a parede, espalhando seu conteúdo.

Uma bola amassada de papel brilhante rolou pelo tapete. Era a foto do ultrassom.

Quion olhou para ela, presumiu que fosse um recibo ou um lenço de papel, e passou por cima.

Pegou o telefone e ligou para Arlindo Breu.

- Cancele os cartões dela - latiu Quion ao telefone. - E diga à segurança no portão que, se ela tentar voltar esta noite, não deve ser admitida. Deixe-a dormir na rua.

No banco de trás do Uber, Elódia observava o sol começar a sangrar no horizonte, pintando o horizonte de Manhattan em tons de roxo machucado e ouro.

Ela respirou fundo. Doía, mas o ar era dela.

Capítulo 3 3

O grave da música na Soho House vibrava através do assoalho, mas no terraço privativo da cobertura, o ar estava pesado com fumaça de charuto e arrogância.

Quion estava sentado em uma poltrona de couro, um copo de uísque na mão. Mal era meio-dia, mas ele não tinha dormido.

Dilã Branco deslizou para a cadeira oposta a ele. Parecia fresco, alinhado, vestindo um terno de linho que custava mais do que o carro da maioria das pessoas. Ele girou sua bebida, observando a aparência desgrenhada de Quion.

- O boato na rua é que o passarinho voou da gaiola - disse Dilã. Seu tom era leve, provocador. - Elódia realmente foi embora?

Quion fez uma careta. - Ela está fazendo birra. Está tentando me envergonhar na frente de Kátia.

- Ela fez as malas?

- Uma bolsa de ginástica - zombou Quion. - Pegou algumas camisetas. Nem levou as joias. É assim que sei que ela está blefando. Deve estar em algum motel no Queens agora, chorando e esperando eu ligar.

Quion bateu as chaves do carro na mesa.

- Aposto dez mil com você - disse Quion, a voz alta o suficiente para a mesa ao lado ouvir. - Três dias. Ela estará de volta em três dias, implorando para eu pagar a fatura do cartão de crédito dela.

Dilã ergueu uma sobrancelha. Olhou para Quion, realmente olhou para ele. - E se ela não voltar?

- Ela vai - disse Quion. - Ela não consegue sobreviver sem mim. A mulher não sabe nem colocar gasolina no próprio carro.

O grupo de jovens herdeiros na mesa ao lado riu. - Elódia? - disse um deles. - A arranjadora de flores? É, ela já era.

Dilã não riu. Tomou um gole de sua bebida. - Não sei, Quion. Ela parecia... diferente ultimamente.

Quion acenou com a mão, dispensando o assunto.

---

A oito quilômetros dali, as portas do elevador se abriram diretamente na cobertura do Edifício Sterling.

O apartamento era uma fortaleza de vidro e concreto. Era minimalista, frio e incrivelmente caro. Tinha pertencido ao tio de Elódia - ou melhor, ao homem que posou como tio dela para esconder sua identidade do mundo durante seus anos no MIT. Ele o deixara para ela em um fundo que os advogados dos Naider não podiam tocar.

Elódia entrou.

- Bem-vinda ao lar, Solaris - disse uma voz feminina sintetizada vinda das paredes. As luzes se ajustaram automaticamente para um tom âmbar suave e quente.

Elódia jogou a bolsa de lona em um sofá de couro italiano branco que custava quarenta mil dólares. Não o tratou como uma peça de museu. Desabou sobre ele, enterrando o rosto nas almofadas.

O celular vibrou.

Ela o pegou. Um número desconhecido.

Um arquivo de vídeo.

Apertou o play.

A tela mostrou Quion na Soho House, capturado de um ângulo discreto. O áudio era claro.

"Ela é apenas uma parasita. Vai voltar quando sentir fome."

Elódia observou o rosto de Quion. O escárnio. A certeza absoluta de que ela não era nada.

Não sabia quem tinha enviado. Era Dilã, sentado em frente a Quion, telefone escondido sob a mesa, colocando lenha na fogueira.

Elódia não chorou. Não jogou o telefone.

Pressionou Excluir.

Sentou-se e abriu o laptop velho e grosso.

A tela ganhou vida. Linhas de código verde cascateavam pelo terminal preto. Seus dedos voavam pelo teclado. Não era a digitação hesitante de uma assistente administrativa. Era o borrão de uma virtuose.

Digitou um comando: CONECTAR PORTA REMOTA: ESTOQUE_GLOBAL_EXT.

Um prompt apareceu: ACESSO CONCEDIDO.

Abriu um aplicativo de mensagens seguro.

Para: CIoste

Mensagem: Estou fora. Preciso de acesso ao laboratório.

A resposta veio três segundos depois.

De: CIoste

Mensagem: Finalmente. O laboratório é seu. O código da porta ainda são os primeiros 6 dígitos de Pi.

Elódia fechou o laptop. Levantou-se e foi para o banheiro principal.

O espelho ia do chão ao teto. Olhou para o cabelo. Era longo, enrolado nas ondas suaves que Quion gostava. Ele dizia que a fazia parecer "feminina".

Abriu a gaveta e encontrou uma tesoura de cabeleireiro.

Agarrou um punhado de cabelo.

Snip.

A mecha grossa caiu na pia.

Ela não parou. Cortou com movimentos irregulares e raivosos. Pedaços de cabelo castanho caíam como folhas mortas. Quando terminou, o cabelo parava logo acima dos ombros. Estava desigual, repicado e afiado.

Ela parecia feroz.

De volta à Soho House, Quion ria, o braço em volta da cintura de Kátia. Kátia olhava para ele com olhos arregalados e adoradores.

- Ela está bem? - perguntou Kátia, a voz pingando falsa preocupação. - Devo ligar para ela? Me sinto terrível.

- Não se atreva - disse Quion. - Deixe-a sofrer. É a única maneira de ela aprender.

No canto, Dilã checou o telefone. A mensagem estava marcada como Lida. Sem resposta.

Normalmente, Elódia estaria explodindo o telefone de Quion agora. Ou ligando para Dilã para perguntar se Quion estava bem.

Silêncio.

Dilã franziu a testa. Tomou um gole de sua bebida. - Interessante - murmurou.

Na cobertura, Elódia deitou na cama. Não tomou pílula para dormir. Pela primeira vez em três anos, o silêncio não era solitário. Era pacífico.

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