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Aliança com o Mafioso

Aliança com o Mafioso

Autor:: J.C. Rodrigues Alves
Gênero: Romance
No meio de uma tragédia familiar, uma mulher se vê mergulhada em um mundo de dor, sangue e vingança. Após presenciar a morte de seus pais nas mãos de um inimigo implacável, ela é forçada a tomar medidas extremas para proteger a única pessoa que resta em sua vida: sua irmã. Movida pela raiva e pela sede de justiça, ela se depara com a oportunidade de unir forças com o próprio filho de seu inimigo, Alexei Corleone. O ódio entre as famílias é profundo, mas a perspectiva de se vingar e ao mesmo tempo garantir a segurança da irmã a leva a considerar uma aliança improvável: um casamento.

Capítulo 1 Prólogo

meses antes

Estava imersa em um mar de sangue. Literalmente.

Sinto meu corpo pesado, como se estivesse afundando nesse oceano vermelho e viscoso. O cheiro metálico e sufocante do sangue preenche o ar ao meu redor, como uma névoa sinistra que penetra em minhas narinas.

Meus pensamentos oscilam entre o medo e a confusão. A visão desse mar de sangue é avassaladora, um lembrete constante da carnificina que ocorreu. Onde antes havia vida, agora há apenas um líquido vermelho, uma prova cruel da fragilidade da existência.

Cada gota de sangue que me toca parece um lembrete dos horrores presenciados. Olhando para as mãos trêmulas e manchadas, sinto uma mistura de repulsa e fascínio. Como isso pode ser real? Como posso estar imerso nesse pesadelo de violência e destruição?

Meu corpo está dormente, as feridas e contusões são uma constante lembrança da batalha que enfrentei.

Cada movimento é uma tarefa hercúlea, como se o próprio mar de sangue tentasse me puxar para baixo, me

aprisionar nesse cenário macabro.

No meio dessa imensidão vermelha, me sinto pequena e impotente. As oscilações em meus pensamentos refletem minha luta interna entre o desespero e a determinação. A imagem do sangue ao meu redor é um lembrete de que a vida sempre estará manchada de sangue, já que não tinha como fugir dele.

A cena à minha frente continuava surreal e macabra. Estava literalmente em uma cena de guerra, corpos caídos e destroços espalhados ao meu redor. As paredes estão cravejadas de buracos de tiros, testemunhas silenciosas da violência que aconteceu neste lugar. Com minhas costas apoiadas na parede, eu observo tudo, lutando contra o lado racional que me diz para soltar a arma que ainda seguro firmemente em minhas mãos

trêmulas.

A dor lateja em meu corpo, ecoando a agonia que se espalha por cada centímetro de minha pele. Sinto um líquido úmido e quente escorrendo pela minha barriga, revelando uma ferida que eu ainda não tive coragem de enfrentar. Minha visão está turva, como se uma névoa densa tivesse envolvido meu olhar, dificultando a clareza do que está ao meu redor.

Meu corpo trêmulo está exausto, mas minha mente está em alerta máximo. Cada parte de mim grita para fugir, para escapar daquele pesadelo vivo. Mas mesmo em meio ao desespero, busco forças para me manter firme, para encarar aquele monstro de frente.

Os sons de sirenes ecoam ao longe, um eco do mundo exterior que parece tão distante da minha realidade distorcida. Em meio ao caos, luto para manter minha mente focada, buscando qualquer oportunidade de sobreviver. Cada pensamento é uma oração silenciosa, implorando por um raio de esperança em um mundo mergulhado na escuridão.

Apesar da dor lancinante em meu corpo e do terror que me consome, encontro uma determinação feroz dentro de mim. Não vou me render ao desespero. Mesmo que pareça impossível, mesmo que a morte pareça inevitável, vou lutar até o último suspiro.

Minha respiração está entre cortada, enquanto olhava para os estilhaços espalhados ao meu redor. Eles brilhavam como estrelas negras, pedaços do que antes eram objetos familiares. Minhas mãos tremiam, completamente impregnadas de sangue, e eu recuava instintivamente, deixando uma trilha vermelha no chão.

Enquanto encaro aquele homem, um arrepio percorre minha espinha, e o fogo da minha vontade de sobreviver queima mais forte do que nunca. Pois, mesmo diante do próprio inferno, eu sou capaz de encontrar uma centelha de coragem e resistência. E, por mais sombrio que seja o meu destino, já havia permitido que esse homem se tornasse meu algoz.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com a sujeira e a poeira que agora cobria meu corpo. Meus olhos vermelhos, inchados de tristeza e horror, se fixavam em um ponto distante, tentando assimilar a magnitude do que tinha acontecido.

Os sons ao meu redor eram distorcidos, uma cacofonia de gritos abafados e sirenes distantes. A dor pulsante em meu peito parecia ecoar por todo o meu corpo, me lembrando constantemente do perigo que ainda pairava sobre mim.

No meio do caos, eu me sentia pequena e vulnerável. Mas, apesar do medo que me consumia, uma determinação silenciosa começava a se formar dentro de mim. Eu sabia que precisava me levantar, seguir em frente e encontrar forças para superar essa terrível experiência.

Sentada no chão, cercada por um cenário caótico de estilhaços e sangue, recuo lentamente, meus olhos fixos no homem que surge à minha frente. A dor latejante percorre meu corpo, mas o medo que permeia minha mente é ainda mais penetrante. Lágrimas deslizam pelo meu rosto sujo, se mesclando com a poeira e a sujeira que se acumulam nas minhas bochechas.

Ele é a personificação do perigo, uma figura ameaçadora com ferimentos de balas marcando seu corpo. Seu olhar intenso penetra minha alma, transmitindo uma sensação de malícia inabalável. Sinto meu coração bater descompassado, enquanto minha respiração se torna superficial e irregular.

Acredito que vejo o próprio diabo caminhando no inferno quando olho para aqueles olhos frios e implacáveis. Cada cicatriz e cada marca em seu rosto são testemunhas silenciosas de sua crueldade e violência.

Enquanto eu recuava, ele continuava se aproximando, cada passo dele diminuindo o espaço entre nós. Seus olhos brilhavam com uma intensidade que me fazia estremecer. Eu sentia meu coração acelerar e uma onda de pânico percorrer meu corpo. Quanto mais eu tentava me distanciar, mais ele persistia em se aproximar.

A atmosfera ao nosso redor estava carregada de tensão. Cada movimento que eu fazia para escapar parecia apenas incentivar sua determinação em me alcançar. Eu podia sentir seu olhar fixo em mim, penetrante como uma presa sendo observada por seu predador.

De repente, enquanto tentava desesperadamente fugir, minhas costas esbarraram em algo sólido em minhas costas. O impacto me paralisou por um momento, meu corpo se tornou tenso e imóvel. A sensação de estar encurralada se intensificou, e sensação de impotência tomou conta de mim de uma vez.

Percebi que aquele obstáculo em minhas costas era um corpo, alguém que também parecia ter sido capturado pelo mesmo medo que me assolava. O choque momentâneo de ter esbarrado em alguém não foi suficiente para me fazer recuperar o controle. Meu coração batia forte no peito, e minha mente parecia embaçada pela ansiedade.

Enquanto eu permanecia ali, imóvel, ele aproveitou a oportunidade para se aproximar de vez. Seu rosto agora estava a centímetros do meu, e eu podia sentir sua respiração quente contra a minha pele. A sensação era claustrofóbica, como se o ar estivesse sendo sugado de meus pulmões.

A falta de espaço entre nós me sufocava, e qualquer chance de escapar parecia ter desaparecido completamente. Seus olhos me prendiam, prendiam minha alma, enquanto sua presença dominava todo o meu ser. Eu estava encurralada, sem saída.

Naquele momento, percebi que a batalha para escapar era inútil. Aceitei meu destino, encarando ele diretamente nos olhos. A paralisia que me dominava parecia se transformar em uma estranha calma. Uma voz interior sussurrava que eu deveria encontrar forças dentro de mim para lidar com o que estava por vir.

E então, sem dizer uma palavra, ele tomou a decisão final. Os lábios dele encontraram os meus, e o mundo ao nosso redor desapareceu. A tensão cedeu lugar a uma mistura de medo e desejo, enquanto nos entregávamos a um destino compartilhado, nossos corpos agora unidos pelo inevitável.

Eu tinha o diabo como aliado e tudo o que aconteceria dali para a frente, seria exclusivamente minha culpa.

Capítulo 2 1. Giorgina

Me encontrava paralisada de terror quando um respingo de sangue quente atingiu meu rosto. O vermelho intenso se espalhou pelas minhas bochechas e testa, uma visão horrível que me deixou nauseada. O cheiro metálico invadiu minhas narinas, trazendo um gosto amargo de pânico à minha boca.

Nesse momento, um estrondo ensurdecedor estourou no ar, ecoando em meus ouvidos e fazendo meu coração disparar. Era o som de um tiro, tão alto e abrupto que reverberou por todo o meu ser. Minhas pernas fraquejaram e eu me agarrei ao primeiro objeto próximo para não cair. Cada célula do meu corpo estava alerta, aguardando o próximo desdobramento assustador.

E então, acima do barulho retumbante, um grito feminino agudo rasgou o ar. Era um som cheio de desespero, medo e angústia. O grito ecoou por todo o ambiente, reverberando em minha mente como uma faca afiada. A voz parecia conter toda a aflição e vulnerabilidade de uma mulher que estava em perigo iminente, uma clamando por ajuda em meio ao caos.

Em meio àquela situação caótica, minha mente e meu corpo entraram em um estado de luta ou fuga. Meus instintos de sobrevivência gritaram para correr, encontrar abrigo e escapar daquela cena aterrorizante. Cada detalhe ficou gravado em minha mente, uma memória que jamais esquecerei, uma lembrança assombrosa dos respingos de sangue no meu rosto, do ressoar alto do tiro e do grito estridente da minha irmã caçula.

Eu me vi presa em um turbilhão de emoções quando o mundo ao meu redor parecia desacelerar. Cada segundo se arrastava como se estivesse sendo puxado por uma força invisível, prolongando a agonia que eu testemunhava diante dos meus olhos.

Minha visão embaçada se fixou na figura da minha irmã, que se lançou sobre os corpos imóveis dos nossos pais. Seu pranto era ensurdecedor, como um lamento profundo que cortava o ar. No entanto, mesmo estando tão próxima, suas lágrimas e gritos pareciam distantes, como se estivéssemos separadas por uma imensidão intransponível.

Eu queria correr até ela, abraçar ela e oferecer algum conforto, mas me sentia congelada, incapaz de mover um músculo sequer. Uma mistura de choque, horror e tristeza me envolvia, pesando em cada fibra do meu ser. Era uma dor que me esmagava, me deixando impotente diante da brutal realidade que se desdobrava diante de mim.

Enquanto minha irmã soluçava e clamava por uma realidade diferente, eu me sentia como uma espectadora desamparada em meio a um pesadelo. A distância emocional que sentia entre nós parecia insuperável, como se estivéssemos presas em dimensões separadas da dor e do sofrimento.

Meu coração se partia ao ver a aflição da minha irmã, mas me sentia impotente para alcançar ela. A sensação de impotência me consumia, enquanto eu observava sua angústia de forma surreal, como se o tempo estivesse esticado, prolongando cada momento de desespero.

Foi nesse momento que a percepção de que tudo estava mudando de maneira irreversível se enraizou em mim.

Um lento e doloroso despertar da realidade começou a se infiltrar em minha mente enquanto eu encarava a cena diante de mim. O desespero angustiante da minha irmã agora adquiria um significado sombrio e terrível. A ficha começava a cair, e a verdade cruel se revelava diante dos meus olhos.

Meus pais, aqueles que sempre estiveram presentes em nossas vidas, agora jaziam sem vida. A realidade se infiltrava em cada fibra do meu ser, um golpe devastador que me roubava o ar dos pulmões. Eles não acordariam, nunca mais. A dor insuportável do luto tomava conta de mim, como se meu coração tivesse sido partido em milhões de pedaços.

Os olhos marejados da minha irmã refletiam a mesma dor e desespero que eu sentia. Agora, entendia que ela não estava apenas chorando por um momento de angústia passageiro, mas sim pela perda irreparável que tínhamos sofrido. A ficha caía com todo o peso do mundo, e a tristeza inundava cada parte do meu ser.

As lágrimas ardentes inundaram meus olhos, embaçando minha visão à medida que deslizavam pelo meu rosto. Uma dor lancinante tomava conta do meu peito, uma dor que parecia quase insuportável. Cada batida do meu coração ecoava com uma angústia profunda, enquanto eu lutava para encontrar forças para lidar com a devastação que me cercava.

Em meio a essa tormenta emocional, meu olhar encontrou os homens armados à minha frente. Eles eram a representação física da violência e do perigo que havia invadido minha vida. Meu coração se encheu de uma mistura explosiva de raiva, medo e determinação.

Um grito rouco, cheio de fúria e desespero, emergiu de minha garganta, ecoando no ar tenso ao nosso redor. Era um grito primal, uma expressão de todas as emoções intensas que fervilhavam dentro de mim. Era um grito que desafiava o destino cruel que havia se abatido sobre nós e afirmava minha resiliência diante daquela situação.

Olhei diretamente nos olhos dos homens armados, encarando a ameaça que representavam. Embora o medo ainda corresse por minhas veias, uma chama de coragem se acendeu dentro de mim. Eu me recusei a ser reduzida ao silêncio, ao desamparo. Havia uma força indomável em meu íntimo, uma vontade de lutar, de proteger o que restava de minha família e de mim mesma.

Minha impulsividade e raiva levaram-me a agir antes mesmo de considerar as consequências. Sem pensar claramente, avancei em direção a um dos homens, cujo cabelo branco se destacava entre os outros. Meu desejo desesperado de proteção e defesa obscureceu temporariamente minha razão.

No entanto, antes que pudesse chegar até ele, recebi um tapa violento no rosto, que me fez cair desamparada e bater a cabeça no chão. A dor aguda se espalhou pelo meu crânio, acompanhada de uma tontura atordoante. Por um momento, tudo ficou embaçado e confuso, minha visão girando em espirais enquanto eu tentava recuperar a consciência.

A agressão física, além de tudo o que já havia suportado emocionalmente, fez com que meu corpo trepidasse com um misto de dor e choque. Me sentia aturdida e vulnerável, enquanto minha mente lutava para se reorientar diante da súbita violência que me atingira.

- Giorgia!! – Luce grita.

Ouvir o grito angustiado da minha irmã ecoando pelo ar novamente fez com que meu coração se apertasse ainda mais. Era como se a dor dela ecoasse dentro de mim, reforçando minha determinação em proteger ela custe o que custasse.

Entretanto, minha realidade foi momentaneamente abalada novamente ao ver que ela estava sendo segurada por alguém. A sensação de impotência voltou a me envolver, enquanto eu lutava para me recuperar do golpe que havia sofrido e reunir forças para agir.

Mesmo que minha mente estivesse nublada pela dor e pela confusão, a visão da minha irmã lutando para chegar até mim foi como uma injeção de coragem em minhas veias. A preocupação e o amor que sentia por ela se tornaram um combustível poderoso, me impulsionando a buscar uma solução para nos libertar dessa situação terrível.

- O que é para fazer com elas? – Um dos homens armados pergunta, segurando com firmeza minha irmã em um mata leão, que pouco a pouco dificultasse que respirava. Ele a olhava de um jeito ameaçador, como se fosse matar ela com um simples movimento – É para matar? – Ele aperta um pouco mais o braço ao redor do pescoço dela.

- ...Não – Rosno, me esforçando para levantar, apesar da sensação de queimação em um dos lados do meu rosto.

O homem de cabeça branca dá um meio sorriso, pouco antes de balançar ligeiramente a cabeça de um lado para o outro.

- Por enquanto não. Tenho outros planos para elas.

- Solta ela! – digo com a voz trêmula, com a minha visão novamente embaçado por causa das lágrimas. Não queria se quer imaginar o que ele poderia estar planejando para nós dois, principalmente agora que não tinha quem nos defender e consequentemente os aliados que meu pai dizia ter, não se importariam nem um pouco com a situação.

Meu ímpeto de avançar em direção ao homem de cabelos brancos dominava meu raciocínio, empurrando-me a tentar mais uma vez. No entanto, antes que pudesse tomar qualquer ação, a dor aguda de uma coronhada atingiu minha cabeça, fazendo-me cair novamente ao chão, desta vez à beira da inconsciência.

A escuridão começou a se infiltrar em minha visão, como uma sombra avançando lentamente. Me sentia tonta e fraca, lutando para manter os olhos abertos e a consciência presente. Cada respiração se tornava mais difícil, e a dor latejante em minha cabeça era quase insuportável.

Meu corpo tremia, tanto pela dor física quanto pela angústia emocional. As vozes dos homens ao meu redor tornavam-se distantes e confusas, como se estivessem em um mundo à parte. A percepção do perigo iminente e da ameaça que enfrentávamos ainda estava presente, mas minha capacidade de reagir e resistir estava rapidamente desaparecendo.

Um sentimento de desespero se misturava com a escuridão que invadia minha visão. Eu sabia que precisava lutar para me manter consciente, para encontrar uma maneira de sobreviver e proteger minha irmã. No entanto, a fraqueza física e a dor debilitante me envolviam, ameaçando me arrastar para o abismo do inconsciente.

Enquanto a visão escurecia aos poucos, fiz um último esforço para me agarrar à lucidez e à esperança. Busquei a força interior que ainda restava dentro de mim, o amor pela minha irmã e a determinação de resistir. Prometi a mim mesma que, se conseguisse sobreviver a essa provação, jamais me renderia ao desespero. E então, com a escuridão cada vez mais presente, me entreguei ao desconhecido, lutando para permanecer consciente e com a esperança de que a luz encontraria seu caminho de volta para mim.

A escuridão se aprofundava ao meu redor, a sensação de estar presa em um pesadelo crescia cada vez mais. Meu coração ainda se agarrava à esperança de que, ao acordar na manhã seguinte, tudo voltaria ao normal. Acreditava que meus pais estariam vivos e que encontraria minha irmã tranquilamente dormindo no quarto ao lado.

Desejava intensamente que a realidade cruel que eu estava vivendo fosse apenas um sonho horrível, uma criação da minha mente assustada. Fechei os olhos com força, buscando um alívio momentâneo, imaginando que, aos abrir novamente, acordaria em um lugar seguro, onde a violência e o sofrimento não existissem.

No entanto, mesmo nesse instante de esperança ilusória, uma parte de mim sabia que a verdade era dolorosa demais para ser ignorada. A angústia e a tristeza que permeavam cada célula do meu ser eram indícios de que aquilo não era apenas um pesadelo passageiro.

A realidade implacável e cruel começava a se infiltrar em minha consciência, quebrando a ilusão frágil que eu havia construído. O destino terrível que havia se abatido sobre minha família não poderia ser negado. A sensação de desolação e vazio se instalava cada vez mais fundo em meu coração.

Enquanto a escuridão me envolvia, uma lágrima solitária escorreu por meu rosto, um símbolo silencioso de tristeza e aceitação. Percebi, com um pesar profundo, que o mundo ao acordar não seria mais o mesmo. A vida que conhecia havia sido despedaçada e não poderia ser recuperada.

E assim, naquela escuridão quase total, abracei a triste realidade de que não haveria um despertar para um amanhã normal. Uma dor profunda tomou conta de mim, e a jornada de aceitação da perda irreparável começou a se desenrolar.

Capítulo 3 2. Alexei

Ainda sonolento, sinto o toque firme em meu ombro, acompanhado pela voz grave do soldado de meu pai. Ele me acorda nas primeiras horas da manhã, rompendo o véu do sono com urgência. Meus olhos se abrem lentamente, enquanto minha mente luta para se livrar do torpor noturno.

- Seu pai quer ver você agora - Aos poucos, percebo a gravidade em sua expressão e a seriedade em suas palavras. Ele me informa que meu pai está me aguardando e que é necessário que eu vá imediatamente encontrar ele.. Um arrepio percorre minha espinha, se misturando à surpresa e ao nervosismo que emergem de meu subconsciente. O que poderia ter acontecido para meu pai precisar de mim com tanta urgência?

Deixando a sonolência para trás, salto da cama e começo a me vestir rapidamente. Enquanto coloco minhas roupas, minha mente se enche de questionamentos e especulações. Será que há algum problema? Será que meu pai está em perigo? Uma mistura de preocupação e determinação começa a crescer dentro de mim.

Agora vestido e pronto para partir, encontro o soldado do lado de fora do meu quarto, impaciente. Seu olhar sério me lembra da importância de minha presença imediata. Sigo ele rapidamente, com o coração acelerado, tentando antecipar o que me aguarda.

Enquanto caminhamos pelos corredores, a casa ainda está mergulhado em silêncio. Apenas o som abafado de nossos passos ecoa pelas paredes de pedra. Minha mente se perde em pensamentos, tentando entender a urgência desse encontro com meu pai. Será uma reunião estratégica? Uma situação de guerra? Ou algo pessoal, relacionado à nossa família?

Finalmente, chegamos à sala onde meu pai está me aguardando. Ele está de pé, imponente e orgulhoso como sempre, mas vejo uma sombra de preocupação em seus olhos. Seus traços enrugados contam histórias de batalhas passadas, mas também revelam o amor e a proteção que ele tem por sua família.

Ao entrar na sala, meu pai se vira para mim e seu semblante se suaviza levemente. Ele me chama pelo nome e, nesse momento, sinto uma mistura de alívio e apreensão. Ele me pede para me sentar, e seu tom grave e firme ecoa pela sala.

- Aí está você.

- O que aconteceu de tão importante para me tirar da cama uma hora dessa? – pergunto com o cenho me aproximando, diminuindo os passos ao ver uma mulher desmaiada aos pés do meu pai.

Olho com preocupação para a mulher de cabelos loiros escuros que está desmaiada à minha frente. Seu rosto está oculto pelos fios de cabelo que caem sobre ele, tornando difícil identificar de imediato. No entanto, não posso ignorar a situação em que ela se encontra.

Meus olhos percorrem seu corpo e noto que suas mãos e pés estão amarrados com firmeza. É evidente que quem a capturou queria garantir que ela não pudesse escapar facilmente. A visão das cordas apertadas em torno de seus pulsos e tornozelos faz com que eu sinta uma pontada de raiva diante de tamanha covardia.

Rapidamente me ajoelho ao lado dela, estudando cada detalhe de sua aparência. Observo sua respiração calma e regular, indicando que ainda está inconsciente. É um alívio constatar que ela está apenas adormecida e não ferida.

Com cuidado, examino as amarras que a mantêm presa. A corda é grossa e bem amarrada, evidenciando a intenção de manter ela cativa. Suspiro, percebendo que será necessário algum esforço para libertar ela. Uma mistura de determinação e preocupação toma conta de mim enquanto pondero sobre a melhor maneira de proceder.

Decido começar desfazendo as amarras em seus pulsos, trabalhando meticulosamente para soltar os nós apertados. A cada movimento cuidadoso, evito causar qualquer desconforto adicional. Enquanto desfaço os laços, minha mente busca respostas sobre quem ela é e como chegou a essa situação, mas as respostas ainda estão ocultas.

Com as mãos finalmente livres, continuo a desamarrar suas pernas com a mesma atenção e delicadeza. Levo algum tempo para garantir que as cordas estejam soltas o suficiente para permitir sua liberdade quando ela despertar.

Assim que termino de desamarrar ela, me afasto ligeiramente para observar sua reação quando acordar. Fico atento aos primeiros sinais de consciência, esperando que ela desperte gradualmente e se sinta segura em minha presença.

Enquanto ela retorna à consciência, minha prioridade é garantir que ela se sinta protegida e acolhida. Estendo minha mão gentilmente, oferecendo apoio e auxílio. Meu objetivo é mostrar que estou ali para ajudá-la e que pode confiar em mim.

A medida que seus olhos se abrem e seu olhar se encontra com o meu, sinto algo mudar dentro de mim, só não sabia o que exatamente, ao sustentar aquele olhar confuso e amedrontado.

- Gostou do presente?

- O quê? – digo baixo, erguendo a cabeça encontro o olhar do meu pai fixo em mim, percebendo que o sorriso em seu rosto se ampliou.

- Ela é meu presente para você.

Fico momentaneamente atordoado com as palavras do meu pai: "ela é meu presente para você". As nuances e implicações dessa declaração se desdobram em minha mente, me deixando perplexo e confuso. É difícil processar a ideia de alguém ser oferecido como um presente pessoal.

Enquanto tento compreender o significado por trás dessas palavras, meu olhar busca a mulher que está diante de mim, que havia voltado a desmaiar. Uma mistura de emoções contraditórias preenche meu peito, oscilando entre a perplexidade, a incerteza e até mesmo a indignação.

Agora que considero a possibilidade de ser presenteado com uma pessoa, minha mente começa a formular várias perguntas. Quem é essa mulher? Por que meu pai a trouxe até mim? Qual é o propósito por trás desse gesto? Essas questões se multiplicam, mas não encontro respostas imediatas.

Olho novamente para o rosto adormecido da mulher, tentando decifrar alguma pista em sua expressão. No entanto, suas feições permanecem imóveis, revelando pouco sobre sua identidade ou intenções. Me sinto dividido entre a curiosidade e a desconfiança, sem saber se devo aceitar esse "presente" ou questionar as motivações obscuras por trás dele.

Meu olhar se volta para meu pai, cuja expressão aguarda uma reação minha. Sua expectativa intensifica a pressão que sinto no momento, exigindo uma resposta de mim. Respiro fundo, buscando equilíbrio em meio ao turbilhão de emoções e pensamentos conflitantes.

- Como assim? Do que esta falando? – questiono.

- Ela é sua para fazer o que quiser.

- E... de onde ela veio? – pergunto baixo.

Ouço ele se aproximar de mim.

- Não se preocupe, Alexei. Não é nenhuma prostituta. Não acho que ela seja pura, mas acredito que poucos homens a tocaram – Levanto, olhando dentro dos olhos dele, travando meu maxilar.

- Quem é ela? – digo pausadamente.

- Isso realmente importa?

- Importa.

- Pois bem – Ele suspira – Giorgina Caccini.

Ao reconhecer a mulher diante de mim como Giorgina Caccini, meu coração dispara com um misto de surpresa, fascínio e apreensão. A reputação de sua família como inimiga de longa data da minha é bem conhecida, passando de geração em geração. Ouvir seu nome ecoar entre as histórias e rumores ao longo dos anos me fez criar uma imagem dela em minha mente.

Giorgina Caccini personifica a conexão direta com uma linhagem que, de alguma forma, influenciou e moldou minha própria vida. Ainda assim, a realidade de ter ela diante de mim é algo completamente novo e desafiador.

Os meus olhos se voltam para ela, e sinto um turbilhão de emoções. A hostilidade herdada entre nossas famílias ressoa em minha mente, mas também há uma curiosidade inegável. Como uma pessoa pode carregar tanta história e significado? Como a história de sua família se conecta com a minha?

- Se ela está aqui... – começo – cadê o restante da família dela?

- Finalmente mortos – diz ele orgulhoso – Precisamos de um séculos para conseguir exterminar de vez os Caccini da face da Terra.

Uma onda de choque percorre todo o meu ser ao ouvir as palavras que confirmam a morte de toda a família de Giorgina. O impacto dessa revelação é avassalador, desafiando todas as expectativas e pressupostos que eu tinha até aquele momento.

O silêncio preenche o espaço entre nós, enquanto minha mente processa a enormidade dessa informação. A rivalidade ancestral que permeou nossas vidas, alimentada por gerações, agora se desvanece na escuridão da história. A realidade desse fato me faz refletir sobre a futilidade de tantos anos de confronto e desavenças. Mas agora estava acabado e não havia nada que eu pudesse fazer.

- O que vai fazer com ela?

- Ela é sua, Alexei. Faça o que quiser – Ele coloca uma mão em meu ombro – Espero que saiba aproveitar, nossos ancestrais ansiaram muito por isso.

Enquanto fixo meus olhos em Giorgina, um turbilhão de pensamentos e emoções se entrelaça em meu interior. A percepção de que não machucar ela seria uma traição aos princípios que me foram transmitidos pelos meus ancestrais começa a tomar forma dentro de mim. É uma sensação poderosa e conflitante, pois até então eu havia sido alimentado pela raiva e pelo rancor que envolviam a rivalidade entre nossas famílias.

A verdade é que eu não conhecia Giorgina pessoalmente e não tinha motivos para nutrir a mesma raiva que havia sido passada de geração em geração. Era uma emoção herdada, um legado de animosidade que nunca questionei até agora. Perceber que ela era apenas uma vítima desse ciclo interminável de ódio e sofrimento faz com que meu coração se encha de compaixão e empatia. Entretanto, não era isso que meu pai esperava de mim.

- Obrigado pelo presente – murmuro, sem olhar para ele, mesmo assim percebo que continua a sorrir.

Ao deixar o cômodo, sinto-me inundado por uma mistura de incerteza e determinação. A presença de Giorgina desperta em mim uma série de questionamentos sobre o que farei a seguir. Embora eu tenha abandonado a ideia de machucar ela ainda não tenho um plano definido sobre como lidar com essa situação inesperada.

Caminho pelos corredores, deixando minha mente divagar enquanto tento encontrar clareza em meio à confusão. A responsabilidade de decidir o destino de Giorgina pesa sobre meus ombros, e me sinto compelido a encontrar uma solução que seja justa, respeitosa e que leve em consideração os interesses e a segurança de ambos. E que ainda por cima, agrade o meu pai e que não obrigue ele a fazer " o que eu deveria fazer", já que não estava nem um pouco disposto em fazer o último membro vivo da família Caccini sofrer e desejar com todas suas forças uma morte rápida e indolor.

Eu não mataria Giorgina Caccini e acreditaria que nada me faria mudar de ideia, se não ela mesma.

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