Abraçada com força a minha boneca de porcelana eu só conseguia pensar em quão rápido eu queria chegar à casa de minha tia, ao meu lado mamãe dirigia atenta ao trânsito, enquanto eu alisava o vestido da boneca e brincava com seus cabelos longos e loiros.
- São iguais aos seus. – Disse minha mãe sorrindo falando dos cabelos da boneca.
Sorri de volta para ela e comecei a cantarolar, minha mãe parou o carro no sinal e ficamos aguardando a ordem para seguir, tudo aconteceu muito rápido depois disso, lembro de ouvir um barulho alto e sentir um impacto forte, meu corpo foi arremessado contra o vidro e eu simplesmente apaguei depois disso, quando percebi eu já estava deitada no chão do asfalto frio e molhado pela chuva. Tentei me mexer, mas não consegui, meu corpo parecia estar despedaçado, eram tantas dores ao mesmo tempo que eu não sabia dizer onde doía mais, desesperada pela inércia comecei a chorar, nesse instante ouvi dois policiais conversando ao meu lado.
- Tirem a menina daqui! Rápido! Talvez ainda haja uma chance para ela...
"Uma chance para mim"? Perguntei-me sem resposta, temendo pela resposta óbvia, minha mãe não tinha conseguido escapar vi o sangue que escorria pela rua fria, misturado às gotas de chuva que ficavam cada vez mais fortes, Deus por que isso estava acontecendo? Berrei, indignada e incompreendida por que Ele permitiria isso acontecer logo com um pessoa tão boa, meu corpo foi colocado em uma maca desajeitado e assim que me ergueram eu vi minha boneca ficar para trás, seu rosto de porcelana totalmente destruído assim como cada pedaço de meu coração.
Eu tinha apenas oito anos de idade, o que eu tinha feito para merecer isso? Quem eu tinha enfurecido? Se eu pudesse ao menos ter uma segunda chance, eu teria comido todo o brócolis do meu prato sem reclamar com ela, eu teria feito meu dever escolar antes de sair para brincar, eu nunca teria a respondido mal e certamente diria a ela que eu a amava todos os dias, se eu tivesse uma segunda chance, eu nunca me esqueceria de rezar as noites e agradecer por ela existir, fechei os olhos deixando as lágrimas escorrerem e molharem meu cabelo, fechei os olhos com força e desejei de toda vontade que aquilo fosse apenas um pesadelo.
Como se minhas preces pudessem ser ouvidas eu vi o ambiente mudar, eu agora já não estava mais na esquina vazia onde o acidente tinha acontecido, e eu também não era mais a menina de oito anos que perdera a mãe, eu era Alicia e estava com dezesseis anos, olhei em volta e me vi em uma floresta sombria, a neblina fugia por entre as árvores e ao longe eu podia ouvir o barulho de água vindo de uma imensa cachoeira, caminhei lentamente ainda sem saber como eu tinha vindo parar ali e pisei sem querer em um galho seco, neste instante ouvi um estralo atrás de mim e percebi a imagem de um lobo negro e feroz que me mostrava os dentes raivosos, corri para uma ponte ali perto, e continuava sendo seguida insistentemente por ele e escorreguei no limo, encarei o animal furioso vendo minha morte eminente, o animal se preparou para saltar e eu berrei fechando os olhos assustada.
- Alicia! Alicia! Acorde menina!
Abri os olhos assustada percebendo que eu não estava mais sozinha e tão pouco dentro das imagens do acidente ou da floresta, eu estava onde sempre estive no orfanato, lugar para onde eu tinha sido encaminhada depois da morte de minha mãe.
- Madre Thereza?
- Querida, você gritava apavorada! Corri para ver o que estava acontecendo, foi aquele pesadelo novamente?
- Sim, foi aquele pesadelo horrível. - Suspirei.
- Já é a terceira vez essa semana, o que está acontecendo com você pequena?
- Acho que ando muito preocupada com a mudança, deve ser isso.
Ela acariciou meu rosto.
- Pobre criança, vamos, levante e vá tomar um banho para se livrar desse suor, molhou toda a cama, enquanto isso vou trocar seus lençóis.
- Obrigada Madre.
Forcei um meio sorriso me levantando da cama.
Após a morte de minha mãe quando eu tinha oito anos, eu tinha sido enviada para um orfanato de freiras, onde recebi toda a educação que poderia receber, porém agora que se aproximava do meu aniversário de dezesseis anos, a notícia de um parente distante tinha mexido demais comigo, minha tia, que nunca quis se responsabilizar pela minha criação, finalmente tinha decidido pegar minha guarda e me levar para morar com ela em Toronto no Canadá, de início eu pensei em negar e seguir com meus planos de entrar para a carreira religiosa, tinha decidido ainda com doze anos que queria ser uma freira, porém, Madre Thereza não tinha gostado muito da ideia, ela disse:
"- Alicia querida, você tomou essa decisão ainda muito jovem, pois não tinha outras perspectivas, mas agora, agora você as têm . Você pode ter uma vida normal de adolescente e essa chance está sendo oferecida a você e eu acredito que deveria aproveitá-la".
"- Mas e você, Madre? Eu nunca mais a verei se eu partir"!
"- Eu estarei sempre aqui minha querida, poderá vir me visitar sempre que quiser, mas pare e pense um pouco antes de se decidir. , Por que não faz um teste? Fique um ano com sua tia em Toronto, se depois desse um ano a sua vontade por seguir a carreira religiosa ainda for real, então explique a ela e volte, se não... Então seja feliz, com o que decidir ser"!
Aquela tinha sido uma conversa estranha, em meu íntimo pensei que a Madre Thereza talvez quisesse ter tido outra perspectiva, como ela chamou, e não teve, porém depois abanei os pensamentos para longe e decidi aceitar o seu conselho, e no mesmo dia informei minha tia de que iria para Toronto.
E foi quando os pesadelos, literalmente, começaram.
Caminhei pensativa pelo corredor do orfanato com minha toalha pendurada no braço, será que esses sonhos ruins eram algum tipo de aviso? Será que alguém estava querendo dizer que eu não deveria ir? Meu voo era para o final de semana e agora eu me sentia tão insegura, porém a essa altura minha tia já devia estar com tudo preparado, o que eu diria a ela? Que eu não estava indo por que tinha tido uns pesadelos que me deixaram "grilada"?
Suspirei, tirei as roupas e entrei embaixo da água do chuveiro quente, deixando o calor amortecer meu corpo, novamente o rosto do lobo se formou involuntariamente em meus pensamentos com seus olhos vermelhos alaranjados queimando de ódio para mim, abri os olhos rapidamente e percebi que eu estava no escuro, as luzes tinham se apagado sozinhas, estremeci desliguei o chuveiro e caminhei até o interruptor acionando a chave, mas nada aconteceu, só então percebi que a lâmpada tinha estourado e que os cacos de vidro estavam no chão, me abaixei e recolhi alguns pensativa, como eu não tinha escutado o estouro? Precisava informar a Madre, isso podia ser um curto circuito, me sequei e voltei para o meu quarto não queria mais coisas estranhas acontecendo, eu estava com a mente muito fantasiosa nos últimos dias.
Não dormi bem o resto da noite e nem nas próximas, ainda assim preparei as malas e caminhei para fora do orfanato decidida a mudar de vida no sábado de manhã, eu iria para a casa de minha tia, estava decidido!
Suspirei pondo as malas no táxi e abracei a Madre.
- Eu posso voltar, não é?
- Sempre que quiser, esse lugar sempre estará de portas abertas para você querida!
Deixei umas lágrimas escorrerem ao olhar para o lugar que tinha sido minha casa por tantos anos e então sequei os olhos, e fui em direção à Madre para abraçá-la com força.
- Nunca me esquecerei de você.
- E nem eu de você, meu anjo.
Entrei no táxi e fiquei observando enquanto o orfanato ficava para trás, me espichei no banco para guardar aquela imagem comigo ainda mais, porém logo ele sumiu entre os prédios, então voltei a chorar baixinho, limpei o rosto em seguida pois não queria que o taxista me visse naquele estado e perguntasse se eu queria voltar, porque certamente se ele o fizesse minha resposta seria positiva.
Assim que o avião decolou eu deixei para trás todo o peso que vinha me acompanhando, eu queria acreditar que seria feliz com minha tia e eu faria o possível para que isso acontecesse.
As paisagens mudaram também, a paisagem cinza dos prédios de Nova York deram espaço para os pinheiros cobertos pela neve do Canadá e o clima começou a ficar muito gelado, assim que eu desci andei em linha reta buscando por algum rosto conhecido na multidão que fosse semelhante ao meu, porém não vi ninguém, minhas pernas tremeram, eu era muito pequena quando tinha visto minha tia pela última vez, como eu a encontraria?
Mal minha mente conseguiu processar esse pensamento e eu vi uma mulher pulando em meio a multidão com uma plaquinha gigante e de um verde fosforescente, nela podia se ler claramente "ALICIA", eu sorri, estava a salvo, porém agora muito envergonhada, pois todos tinham acabado de descobrir que a Alicia era eu.
Muito enganada percebi que minha tia não era nada parecida comigo, tinha os cabelos castanho escuros quase pretos e olhos grandes e verdes, ela me lembrava um pouco de minha mãe, porém muito pouco mesmo já que seu rosto era arredondado e o da minha mãe era bastante fino, ela me abraçou desajeitada.
- Você está enorme! Já é uma moça!
- Bom, estou com quase dezesseis anos!
- Dezesseis? Tudo isso? Como foi que o tempo passou tão rápido?
Ela parecia decepcionada, será que esperava por uma criança?
- Pois é...
Ela voltou a me abraçar.
- Oh, não faça essa cara Alicia, não vou desistir da sua guarda, porém tenho que confessar que não me lembrava que os anos tinham passado de forma tão cruel, estou me sentindo muito mais velha agora e me perguntando se saberei lidar com a euforia adolescente, espero que não se importe de dormir em um quarto cheio de ursinhos de pelúcia. – Ela disse sorrindo. – Me empolguei um pouco nas compras e acho que te imaginava menor.
- Sem problemas, eu amo bichinhos de pelúcia.
Eu disse, depois pensando que nunca tinha tido nenhum após a morte de minha mãe, antes dela morrer meu quarto era como o quarto de uma princesa da Disney, mas após sua morte, minha vida foi preenchida pelas paredes cinzas do orfanato.
Nossa viagem até a casa de minha tia foi um completo silêncio, não tínhamos assunto, depois da morte de mamãe ela nunca me procurou e eu nada podia fazer para encontrá-la, por vezes até me esquecia que eu tinha uma família, percebi que ela começou a ficar nervosa à medida que dirigia a tensão rondava o ambiente interno do carro prestes a explodir.
- Algum problema, tia?
Perguntei percebendo que seus dedos não paravam de bater contra o volante.
- Então... Eu não comentei antes porque fiquei com medo que desistisse de se mudar, mas há algo que precisa saber sobre minha casa e eu espero que possa compreender da melhor forma possível.
Eu ergui a sobrancelha em silêncio.
- Que seria?
Ela parou o carro e olhou para mim, seus olhos verdes estavam angustiados de preocupação, aquilo me deixou alerta.
- Eu meio que moro no meu trabalho.
- É empregada doméstica? – Pensei, pensando que morar nesse sentido era viver na mesma casa que os patrões.
Ela sorriu.
- Não, não nada disso... – Sorriu parecendo mais aliviada. – Sou contadora de uma reserva ambiental, meu patrão o Billy, é um homem muito ocupado e eu o ajudo com a contabilidade, porém para facilitar as coisas acabei comprando e construindo uma casa em um terreno lateral a sede da reserva.
- E qual o problema então?
Ela mordiscou o lábio.
- Bom... A casa meio que... Que fica na reserva.
- Você já disse isso.
- Eu sei, o que eu quero dizer é que a casa fica no meio da reserva Alicia, é uma casa isolada de tudo, em meio à floresta.
Eu devo ter piscado várias vezes, ficando bastante surpresa com aquela informação, as roupas de minha tia não condizem com as roupas de alguém que gostava de se isolar do mundo ou se esconder em uma mata, porém eu estava diante da própria "Jane" do Tarzan.
- Uau...
- Espero que não haja problema para você, caso não goste, eu posso falar com o Billy e você fica na casa dele até eu encontrar um lugar melhor e...
Viver no meio de uma floresta, podendo ouvir o canto dos pássaros e sentir o cheiro verde das árvores? Aquilo era incrível! Explodi empolgada demais!
- Não! Isso é fantástico! Meu Deus! Vou adorar conhecer sua casa!
- Tem certeza? Ela não é muito jovem, nem tecnológica, ou...
- Tia, eu vou amar viver com você na sua casa, sério mesmo, não se preocupe com isso.
Minha tia soltou um sorriso animado.
- Estou aliviada com essa resposta, quando vi que era uma adolescente fiquei nervosa, achei que odiaria viver longe da cidade, Toronto é muito agitado, porém na reserva não costuma ter muitas festas.
- Eu nunca fui a uma festa tia, acredite, eu me sentiria um peixe fora d'água, até porque não sou muito sociável.
- Nem pensar! Não quero que se prive de nada por causa de onde iremos viver, se for necessário fazer alguns quilômetros para te levar em uma balada e te esperar do lado de fora eu farei! Mas você terá uma vida normal de adolescente!
- Tia, não precisa, é sério...
Eu sorri sem graça.
- Não se isole Alicia, você irá para a melhor escola de Toronto, fará muitos amigos e isso irá movimentar tudo, quero que se abra para o mundo e não se esconda dele, já ficou muito tempo isolada dentro daquele orfanato, agora me diga, já pensou no que irá estudar? O que pretende fazer?
- Como assim?
- Vestibular Alicia! Ves-ti-bu-lar! – Ela falou pausadamente e visivelmente animada com isso, eu murchei, não tinha pensado nisso e nem pretendia pensar, fazer faculdade não estava nos meus planos.
- Não sei... Hã... Filosofia, teologia talvez, é...
- Isso não são cursos voltados à formação religiosa?
- É, na verdade, eu pensei que eu poderia seguir nesse caminho e me tornar...
- Freira? – Ela berrou parecendo assustada.
- É uma ideia.
Ela tentou não surtar, porém seus olhos e expressões diziam o contrário.
- Alicia, escute... Eu sei que você foi criada em um orfanato religioso e que até então todas suas opções circularam por esse caminho, porém não me entenda mal, mas eu queria que se desse a oportunidade de ver mais além.
Minha tia falava como a Madre Thereza.
- Tudo bem. – Sorri. - Vou pensar em algo e te falo.
- Ótimo!
Ela sorriu bem mais animada que até levantou o volume do som do carro e acelerou, agora depois de dizer tudo que tinha vontade ela estava mais leve e agitada, como se tivesse tirado um peso das costas. Tranquila que até cantou pelo caminho e me obrigou a cantar, é claro, descobri que minha tia apesar da idade, parecia ser muito mais nova que eu, ela era uma bela adolescente de quarenta e tantos anos e eu uma velha de quinze para dezesseis anos.
Minha tia não mentiu, depois de passarmos pelos portões principais da sede da reserva, andamos ainda por mais um ou dois quilômetros a dentro de um caminho rodeado de árvores, abri a janela do carro e inspirei o cheiro de ar puro que vinha de fora, o verde das árvores pareciam me seguir por uma longa estrada, chegamos por fim há um portão de madeira muito bonito, minha tia desceu do carro e o abriu, depois voltou para o carro e seguiu para dentro, só então eu percebi a beleza da casa a minha frente, era uma casa em formato hexagonal toda feita de troncos de árvore envernizados na parte de baix
o e na parte de cima toda fechada de vidros de tom fumê, parecia uma casa de filme, era encantadora.
- É perfeita!
- Você gostou?
Assenti com a cabeça.
- É muito linda.
Ela sorriu enquanto caminhávamos em direção à porta, assim que eu entrei me apaixonei pela lareira de tijolos a vista, já podia me imaginar tomando chá com um belo livro em um dia de chuva, aquilo parecia perfeito!
Sem pensar muito abracei minha tia com força.
Ela pareceu ficar surpresa.
- O que foi Alicia?
- Muito obrigada tia, obrigada por me convidar para morar com você! Estou muito feliz!
Minha tia correspondeu o abraço um pouco desajeitada e só então eu percebi que ela estava emocionada com minha atitude, Helena não parecia ser o tipo de pessoa aberta a demonstrações de afeto, porém tinha um coração de manteiga.
- O seu quarto é no andar de cima.
Falou com a voz embargada, eu sorri fingindo não perceber e me adiantei pelas escadas a cima dando um tempo para ela se recompor atrás de mim.
Ela indicou uma porta no final do corredor e eu girei a maçaneta, o quarto era um sonho, a cama cheia de babados em tom rosa e coberta de ursos de pelúcia indicavam de fato ela esperava por uma criança, sorri sem graça.
- Se quiser podemos trocar a roupa de cama.
- Eu adorei, está perfeito assim.
Duas janelas grandes de vidro davam para uma varanda lateral que ficava de frente para a floresta, aquela era a melhor paisagem de todas para acordar pela manhã, pensei, caminhei até ela afastando a cortina e abrindo a porta devagar, sorri sentindo o vento gelado endurecer levemente o meu rosto, mas logo fui despertada por um barulho, abri os olhos assustada e notei um corvo negro sentado no beiral da varanda me olhando intrigado com seus olhos alaranjados, me assustei soltando um grito e dando um passo para trás.
- Sai pra lá bicho!
Berrou minha tia assustando o animal dali, porém ele voou para o galho da árvore ali perto e ainda olhando para mim gritou batendo as asas, como se dissesse "vá embora, aqui não é seu lugar"!
- Mas o que esse animal quer afinal?
- Tudo bem tia, ele só deve estar dando boas- vindas.
Eu disse sem acreditar em nenhuma palavra, dei as costas a ele e voltei para o quarto fechando a janela e as cortinas, não queria olhar para aquele animal, não o queria perto de mim, seus olhos de um tom amarelo alaranjado me lembravam muito os do lobo que eu tinha visto nos meus sonhos, fechei os olhos e respirei fundo, precisava esquecer aquilo, eu estava em uma casa nova, tudo isso iria passar, nada de sonhos ruins na casa de minha tia.
Minha tia me deu as costas e andou até um armário, dele retirou uma caixa branca com um laço cor de rosa.
- Para você.
- Um presente? Mas por quê? Nem é meu aniversário ainda...
- Eu sei, é daqui uns dois meses, porém eu tomei a liberdade de mandar consertar isso para poder presenteá-la quando a visse novamente.
- Consertar? – Fiquei curiosa em saber o que tinha ali dentro então abri o laço e destampei a caixa, rapidamente meus olho se encheram de lágrimas, ali naquela pequena caixa, estava um pedaço do meu passado, um pedaço que eu tinha esquecido há muito tempo, minha velha boneca de porcelana agora com o rosto totalmente restaurado, tão linda como um dia ela tinha sido.
Sorri.
- Obrigada tia!
Ela me abraçou de volta e eu pus a boneca perto da cama, nessa hora a campainha tocou e minha tia foi atender.
- Fique à vontade para organizar suas coisas Alicia, vou descer para ver quem é.
Minha tia se retirou e logo ouvi grandes gargalhadas vindas do andar de baixo, pus minha mala em cima da cama e tentei me concentrar na organização das minhas coisas, porém logo aquela risada me atraiu para fora do quarto, caminhei sem graça pelo corredor e parei no alto da escada, a tempo de ver minha tia dar um selinho em um homem de barba espessa.
- Tia?
Ela ficou sem graça e deu um pulo para trás, o homem sorriu para mim.
- Essa deve ser a bela Alicia!
Voltei a olhar para minha tia.
- Alicia, esse é Billy.
Meus olhos correram pelo homem que ali estava parado e sorria.
- O seu patrão?
Minha tia mordiscou o lábio e Billy escondeu o sorriso.
- Não acredito que não contou a ela, Helena!
- Desculpe, não tive tempo, não o esperava aqui tão cedo.
Eu desci as escadas e caminhei até ele lhe estendendo a mão.
- Sou Alicia, é um prazer conhecê-lo.
Eu realmente não me importava que minha tia tivesse um caso secreto com o patrão dela, contando que ele a fizesse muito feliz.
Ele me cumprimentou agora sem graça e coçou o cabelo.
- Bom, foi um prazer conhecê-la senhorita, porém eu já vou indo.
Fiquei com pena dele, ele estava totalmente desconfortável com aquilo, não quis ter atrapalhado, porém agora o que eu poderia fazer?
Assim que ele saiu e minha tia fechou a porta ela me olhou sem graça como uma menina que tinha acabado de cometer uma travessura.
- Desculpe Alicia, eu não falei porque...
- Por que achou que eu a julgaria por estar apaixonada pelo seu patrão?
Ela mordiscou o lábio.
- Não se preocupe, tia, eu gostei dele, Billy parece um cara legal.
Ela explodiu em um sorriso, empolgada.
- Sim, ele é, ele é incrível, você vai ver quando conhecê-lo melhor, e acredito que vai adorar a filha dele.
- Filha?
- É, Billy é viúvo, perdeu a esposa muito jovem, criou a pequena Sophia totalmente sozinho, ela é uma boa menina. – Ela disse se dirigindo a cozinha, eu a segui. – Irão estudar no mesmo colégio.
Eu abri e fechei a boca sem comentar uma palavra sequer, minha tia encheu uma xícara de chá para si e depois me olhou.
- Você toma chá?
- Sim, adoro!
- Ótimo!
Ela encheu uma segunda xícara, ficamos ali sentadas conversando, ela quis coletar a maior quantidade possível de informação sobre mim, certamente para fofocar com Billy depois, mas eu não me importava em responder, apesar de estar me sentindo em uma entrevista de emprego longa demais.
Assim que deitei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos à imagem do corvo voltou a minha mente e eu voltei a abri-los rapidamente, meu corpo estava cansado e minha mente também, tinha sido um dia cheio e exaustivo, eu só queria dormir, mas parece que o medo de ter sonhos ruins ainda era maior que o sono, permaneci acordada por mais algumas horas até que finalmente adormeci, para a minha sorte aquela foi uma das melhores noites da minha vida, uma noite sem sonhos