A porta bateu atrás de mim, selando o destino da nossa vida vazia.
Sofia estava ali, ajoelhada no chão frio, os ombros tremendo em soluços silenciosos que rasgavam a alma.
Na mesinha de centro, a carteira, antes cheia de planos e promessas, jazia vazia.
Vinte mil reais. O suor de um ano na fábrica, o futuro da faculdade da nossa filha, a visão do meu pai - tudo escorreu por entre os dedos dela.
"Pedro, me perdoa... Eu fui enganada", a voz dela era um lamento, quase inaudível.
Mas não havia raiva, só a constatação fria da nossa ruína.
Peguei o pouco troco amassado no meu bolso, nosso pão para a semana, e estendi para ela.
"Pega. Volta lá." Eu disse, a voz firme, sem emoção.
Os olhos dela se arregalaram, um pânico novo brotando. "Não! Pedro, nunca mais! Eu juro, nunca mais chego perto de um baralho!"
Eu a forcei a segurar as notas, a olhei nos olhos, e pela primeira vez naquela noite, ela viu o que se passava dentro de mim.
"Você vai voltar. Você vai sentar naquela mesa e vai jogar de novo. Com este dinheiro. E eu vou estar bem atrás de você. Nós vamos pegar de volta cada centavo. Não foi sua culpa, Sofia. Isso foi um golpe. E agora, a gente vai pegar o circo inteiro pra gente."
A porta se fechou atrás de mim, e o som do clique da fechadura pareceu ecoar pela casa vazia, um som final, como um prego no caixão da nossa vida. Eu fiquei ali parado na sala escura, sentindo o cheiro de mofo e desespero no ar. As luzes estavam apagadas, mas eu não precisava delas para ver a devastação.
Sofia estava ajoelhada no meio da sala, o corpo encolhido, os ombros tremendo sem parar. Ela não chorava alto, era um soluço silencioso, que rasgava o silêncio de uma forma muito pior. Ela estava assim desde que eu cheguei do trabalho, há horas. Uma noite inteira de joelhos.
Na mesinha de centro, ao lado dela, estava a carteira vazia. Não apenas vazia de dinheiro do dia a dia, mas vazia de futuro. Vinte mil reais. Um ano inteiro do meu suor, do meu lombo quebrado na fábrica, do meu cheiro de graxa que nunca saía, não importava o quanto eu esfregasse. Vinte mil reais que tinham nomes, que tinham destinos.
O primeiro nome era a faculdade da nossa filha. Ela sonhava em ser enfermeira, e cada real daquela mensalidade era uma promessa que eu fiz a ela.
O segundo nome era a cirurgia do meu pai. O velho estava com a vista cada vez pior, e o médico disse que era operar ou ficar cego. Cada real era um pedaço da luz que eu queria devolver aos olhos dele.
O resto era para as contas, para a comida, para a vida simples que a gente tentava levar. Era o nosso colchão de segurança, o nosso chão.
E agora, não havia mais nada. Só o chão frio onde Sofia estava ajoelhada.
Ela levantou o rosto, os olhos inchados e vermelhos, um mapa de dor e vergonha.
"Pedro, me perdoa."
A voz dela era um fiapo, quebrada.
"Me perdoa, por favor. Eu não queria... eu fui enganada."
Eu caminhei lentamente até a geladeira, peguei uma garrafa de água e bebi um longo gole. O líquido gelado desceu pela minha garganta, mas não apagou o fogo que queimava por dentro. Eu não sentia raiva dela. Era algo mais frio, mais duro. Era a constatação da realidade.
Coloquei a garrafa na pia e me virei para ela. Me agachei na sua frente, peguei a carteira vazia e o pouco de troco que tinha sobrado no meu bolso. Eram umas notas amassadas, talvez duzentos, trezentos reais. O dinheiro do nosso pão para a semana.
Eu estendi a mão e coloquei as notas na frente dela.
Sofia me olhou, a confusão se misturando ao desespero em seu rosto. Ela não entendeu.
"O que é isso, Pedro?"
"Pega."
Minha voz saiu firme, sem emoção.
"Volta lá."
Os olhos dela se arregalaram, um pânico novo surgindo.
"O quê? Não! Pedro, nunca mais! Eu juro, eu nunca mais chego perto de um baralho na minha vida!"
Eu segurei a mão dela e forcei as notas para dentro dos seus dedos.
"Você vai voltar. Você vai sentar naquela mesa e vai jogar de novo. Com este dinheiro."
Ela tentou puxar a mão, o corpo todo tremendo.
"Não, Pedro, por favor, não me peça isso! Eu perdi tudo! Você quer que eu perca o que nos resta?"
Eu a olhei nos olhos, e pela primeira vez naquela noite, eu deixei que ela visse um pouco do que se passava dentro de mim. Não era loucura. Era certeza.
"Você não vai perder. Você vai sentar lá, vai apostar, e eu vou estar bem atrás de você. E nós vamos pegar de volta cada centavo."
O rosto de Sofia se contorceu em puro horror. Ela olhou para o dinheiro na mão dela e depois para mim, como se eu fosse um completo estranho.
"Você enlouqueceu, Pedro? Você quer que eu volte para aquele inferno?"
De repente, ela jogou o dinheiro no chão e, num gesto de desespero absoluto, começou a se esbofetear. Uma, duas, três vezes. O som oco das palmas no seu próprio rosto ecoou na sala silenciosa.
"Eu sou uma idiota! Uma desgraçada! Eu mereço isso!"
Antes que eu pudesse reagir, ela correu para a cozinha. O som da gaveta de talheres se abrindo me gelou o sangue. Eu a segui em duas passadas largas e a vi pegar a faca de cortar carne.
"É essa mão! Essa mão maldita que perdeu nosso dinheiro! Eu vou cortar ela fora!"
Ela levantou a faca, os olhos vidrados, a respiração ofegante. Eu agarrei o pulso dela com força, a lâmina parando a centímetros da sua outra mão espalmada na tábua de cortar. A força dela era surpreendente, a força do desespero.
"Larga isso, Sofia! Larga essa merda agora!" eu gritei, torcendo o braço dela até que a faca caiu no chão com um barulho metálico.
Ela desabou em meus braços, chorando convulsivamente. Eu a segurei firme, sentindo os tremores do seu corpo.
"Calma... respira... acabou."
Eu a levei de volta para a sala e a sentei no sofá. Fui até a cozinha, peguei um copo de água com açúcar e a fiz beber. Aos poucos, os soluços diminuíram.
Eu me sentei ao lado dela, o silêncio pesado de volta.
"Escuta" , eu disse, a voz agora mais suave. "Não foi sua culpa."
Ela balançou a cabeça. "Foi sim. Eu apostei. Eu perdi."
"Não" , eu insisti. "Você não perdeu vinte mil reais num jogo de cartas amigável com a sua 'amiga' Ana Paula. Ninguém ganha ou perde vinte mil reais assim, do nada, numa noite. Isso não é jogo, Sofia. Isso é um golpe. Fizeram uma cama pra você, uma armadilha."
Eu conhecia aquele tipo de jogo. Eu conhecia o cheiro da ganância, a forma como os predadores cercam a presa. Eles a deixaram ganhar um pouco no começo, a fizeram se sentir sortuda, confiante. Depois, quando a aposta era alta o suficiente, eles puxaram o tapete.
Sofia fungou, limpando o nariz com as costas da mão.
"O que a gente vai fazer, Pedro? Eu... eu posso arrumar outro emprego na fábrica, fazer hora extra, a gente dá um jeito... Em alguns anos a gente recupera..."
A ideia era nobre, mas inútil. Anos. Em anos, a faculdade da nossa filha já teria passado. Em anos, a cirurgia do meu pai poderia ser tarde demais.
"Não" , eu disse, cortando a ideia dela. "Não temos anos, Sofia. Nós temos que resolver isso agora."
Ela me olhou, a esperança quase morta em seus olhos.
"Como?"
"Fazendo o que eu te disse. A gente vai voltar lá. Eles armaram um circo pra pegar o nosso dinheiro. Agora, a gente vai voltar e pegar o circo inteiro pra gente."