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Aluga-me para o Natal

Aluga-me para o Natal

Autor:: KayCe
Gênero: Romance
Uma jovem escritora falida aceita se passar por namorada de um estranho milionário por 10 dias. A proposta? Fingir um relacionamento durante o Natal para ele impressionar a avó. Simples, certo? Mas fingir estar apaixonada começa a parecer real demais - até mesmo para uma escritora de romances.

Capítulo 1 Capitulo 01

Clara Vasconcelos:

Se alguém tivesse me dito que minha carreira de escritora me levaria à beira do despejo, eu teria acreditado. Não porque sou pessimista - longe disso. Mas porque, depois de seis anos tentando viver de palavras, aprendi que finais felizes são para a ficção. E olhe lá.

A carta da editora repousava sobre a mesa, com a elegância cruel de quem sabe que está destruindo sonhos. Mais uma rejeição. A terceira só naquele mês. Eles adoraram minha escrita, disseram. Mas o mercado está difícil. O catálogo já está cheio. Boa sorte no futuro.

Boa sorte. Engraçado. Eu precisava de dinheiro, não de sorte.

Suspirei, afastei a caneca de café frio e olhei para a tela do notebook. O cursor piscava como se zombasse de mim.

Meu celular vibrou com a notificação de cobrança do aluguel. Atrasado. De novo.

- É isso, Clara - murmurei para mim mesma. - Hora de aceitar que ser escritora no Brasil, em dezembro, é como tentar vender sorvete no Ártico.

Respirei fundo, tentando fazer meu cérebro funcionar e pensar na melhor solução possível para sair desse perrengue. Mas, antes que eu pudesse raciocinar, a "solução" bateu à porta. Ou não.

Minha melhor amiga, Júlia, apareceu com sua clássica entrada sem bater.

- Você viu isso? - perguntou, agitando o celular. - Eu juro que é coisa de filme.

- O quê? Outro reality de famosos na fazenda? - perguntei. Não precisamos de introduções; apenas falamos. Nossas conversas nunca têm começo nem fim.

- Não! Um anúncio. No grupo de freelancers. Ouve essa: "Procura-se namorada falsa para o Natal. Dez dias. Boa remuneração. Discrição exigida."

Pisquei, sem acreditar na bobagem que estava ouvindo.

- Isso é sério?

- Tão sério quanto minha dívida no cartão. Olha só.

Peguei o celular das mãos dela e li o post. Era curto. Direto. E completamente insano.

"Homem jovem, solteiro, empresário, precisa de acompanhante para festas natalinas em residência familiar. Contrato de dez dias. Acomodação, alimentação e pagamento inclusos. Requisitos: boa apresentação, criatividade e saber mentir com charme."

- Isso é uma armadilha - disse, devolvendo o celular.

- Ou é o seu 13º. E o meu, se você me der comissão por ter encontrado.

- Não vou me vender para um estranho, Júlia.

- Mas vai se endividar por um ideal que não te rende lucro nenhum?

Bastou uma batida forte do meu coração para entender o que ela queria dizer. Eu era uma escritora fracassada, quase passando fome, e me recusava a fazer um trabalho simples que envolvia... mentir.

Vinte minutos depois, eu já estava de volta ao meu notebook, digitando com dedos hesitantes a resposta ao e-mail de contato.

"Olá. Meu nome é Clara Vasconcelos. Tenho experiência com improvisação (sou escritora), sei mentir com charme (já fui garçonete) e estou disponível para o Natal. Quando podemos conversar?"

Enviei.

E desejei, pela primeira vez em semanas, que minha vida virasse uma comédia romântica ruim. Porque, sinceramente? As alternativas não eram nada engraçadas.

Tentei esquecer a todo custo o e-mail encaminhado, mas, conforme os dias se passaram, me peguei olhando mais e mais para o celular, aguardando alguma resposta - nem que fosse um e-mail de recusa. Ser rejeitada já era quase um conforto familiar.

Mas nada. Nem um "agradecemos seu interesse", nem um "sentimos muito". Apenas o silêncio absoluto, cortado ocasionalmente pelas notificações de promoções de livrarias que eu não podia pagar.

No terceiro dia, comecei a achar que tinha mandado o e-mail para o endereço errado. No quarto, desejei não ter mandado nada. No quinto, convenci a mim mesma de que era melhor assim. Se alguém realmente queria uma "namorada falsa", aquilo só podia acabar em tráfico de órgãos ou em documentário policial no Discovery ID.

Foi então que, no sexto dia, enquanto eu tentava esquentar um resto de arroz no micro-ondas (spoiler: queimou), meu celular vibrou. E não era propaganda. Era ele.

"Boa tarde, Clara. Agradecemos seu contato. Seu perfil nos interessou. Podemos marcar uma videoconferência amanhã, às 14h? Assunto: proposta de contratação."

Engoli seco.

Videoconferência. Ou seja, rosto a rosto - ainda que virtualmente - com um completo desconhecido que estava contratando uma mulher para fingir ser sua namorada no Natal.

Toquei na tela algumas vezes, revisei o e-mail, reli cada palavra, como se alguma parte do texto fosse mudar e me dizer: "Brincadeira! Era pegadinha!"

Mas não. Era real. E eu tinha pouco menos de 24 horas para decidir se compareceria à chamada... ou se ignoraria e seguiria rumo ao despejo com dignidade e arroz queimado.

- Ele respondeu? - gritou Júlia do outro cômodo, como se tivesse um radar para essas coisas.

- Respondeu.

- E aí?

- Quer marcar uma chamada amanhã.

- Amanhã?! Meu Deus. Você precisa de roupa. Precisa de maquiagem. Precisa parecer humana, Clara!

- Obrigada pela parte que me toca.

Júlia surgiu na porta da cozinha com uma expressão de empolgação que só ela conseguia manter às sete da noite de uma terça-feira.

- Amiga, foca. Isso pode ser o começo de tudo. Tipo aquele filme da loira que casa com o chefe.

- Qual deles?

- Todos.

Sorri, sem forças para discutir.

Na manhã seguinte, acordei duas horas mais cedo, tomei banho, sequei o cabelo, até passei corretivo (coisa que não fazia desde o meu último evento literário, há três anos). Vesti minha blusa menos amarrotada, preparei o fundo da chamada com alguns livros estrategicamente posicionados e respirei fundo antes de clicar no link da reunião.

E lá estava ele.

Daniel Cortez.

Cabelos escuros, camisa social sem gravata, um leve sotaque paulista e olhos intensos demais para uma chamada de negócios. A câmera dele estava estável, o fundo perfeitamente neutro. Ele parecia o tipo de homem que fazia reuniões com investidores às nove, salvava filhotes às onze e almoçava em bistrôs franceses ao meio-dia.

Eu, por outro lado, parecia alguém que quase queimou a sobrancelha tentando acender o fogão na noite anterior.

- Clara Vasconcelos? - ele disse, com a voz baixa e clara.

- Presente - respondi, como se fosse uma chamada escolar.

- Obrigado por aceitar a chamada. Espero não estar tomando seu tempo.

- Imagina. Minha agenda está cheia de rejeições editoriais e boletos vencidos.

Não sei por que disse aquilo. Simplesmente saiu.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas genuíno.

- Gosto de sinceridade. Vai nos poupar tempo.

- Vai nos poupar de quê, exatamente?

- Testes. Entrevistas. Desconfortos.

- Uau. Isso é a coisa mais estranha que já fiz. E olha que eu já participei de uma coletiva de imprensa com autores autopublicados brigando por direito de foto com influenciadores.

Ele riu. De verdade.

E, por algum motivo que não entendi na hora, aquilo me deixou... tranquila. Sorri. Até porque, se ele continuasse rindo das bobagens que eu dizia sem pensar, nossa convivência seria puro entretenimento para ele.

Capítulo 2 Capitulo 2

Daniel Cortez:

A primeira vez que vi Clara Vasconcelos pela câmera do computador, algo em mim relaxou.

Ela parecia real.

Não no sentido de "naturalmente bonita", embora fosse - com os cabelos soltos, uma blusa que visivelmente havia sido desamassada às pressas e um fundo com livros milimetricamente posicionados. Mas real no jeito que os olhos dela piscavam rápido demais, ou no modo como sorriu quando errou o botão da câmera logo de início. Era como se dissesse: "Estou fingindo segurança, me dá só um minuto".

E eu entendi. Porque eu também estava fingindo.

- Clara Vasconcelos? - perguntei, mesmo já tendo certeza.

- Presente - ela respondeu, como se estivesse numa chamada de escola. Sorri antes que pudesse evitar.

A conversa seguiu mais leve do que eu esperava. Ela era espirituosa, afiada, cheia de ironia. E mesmo enquanto confessava, sem nenhum filtro, que sua agenda estava "cheia de rejeições editoriais e boletos vencidos", eu só conseguia pensar que talvez isso funcionasse. Que talvez fosse ela.

Eu não precisava de uma modelo. Eu precisava de alguém que soubesse improvisar. Alguém que conseguisse transformar dez dias de mentira em algo que minha avó não questionasse.

Depois de vinte minutos de conversa, onde ela mais me fez rir do que qualquer outra pessoa tinha feito nos últimos seis meses, eu soube.

- Clara - disse, encostando os cotovelos na mesa. - Antes de prosseguirmos, preciso ser honesto com você.

Ela assentiu, ainda curiosa.

- Essa proposta... não é um capricho. Minha avó me criou como um filho. E, nos últimos anos, ela vem dizendo que quer me ver feliz, acompanhado, estável. Ela está com a saúde mais frágil e, francamente, a única coisa que quero neste Natal é dar a ela essa ilusão.

- E por que não uma namorada de verdade? - ela perguntou, não com julgamento, mas com aquele humor dela, meio ácido, meio curioso.

- Porque namorar exige tempo. Investimento. Vulnerabilidade. E eu só tenho dez dias e uma reputação para preservar. Não posso correr riscos com alguém real que queira... mais.

Ela não respondeu de imediato. Mas seu olhar suavizou, como se, pela primeira vez, ela realmente me visse. Não como o empresário que postou um anúncio maluco, mas como alguém tentando proteger o que restava da sua família.

- E você quer que eu seja a mentira convincente. - disse por fim.

- Exatamente.

Houve uma pausa. Longa o suficiente para eu achar que ela recusaria.

- Posso ser honesta agora?

Assenti.

- Eu estou com o aluguel atrasado. Tô prestes a ser despejada. Tenho uma carreira que não decolou, três rejeições editoriais no último mês e metade de um panetone vencido como ceia garantida. Então, se você realmente precisa de alguém para fingir estar apaixonada por você... bom, eu sou boa em fingir coisas. Sou escritora, afinal.

Dei um leve sorriso, surpreso com a vulnerabilidade dela. Era rara, crua e, ao mesmo tempo, estranhamente encantadora.

- Isso significa que aceita?

- Isso significa que eu aceito... desde que tenha direito a chocolate quente e um quarto com aquecimento. E talvez uma árvore de Natal decente.

Ri, sem conseguir evitar. - Fechado.

Ela também sorriu, mas havia um resquício de hesitação ali. Uma pontinha de medo. E, por alguma razão que ainda não entendo, me senti responsável por tirá-la daquilo.

- Amanhã à tarde, vou te buscar. Vamos fazer um banho de loja. Nada exagerado - acrescentei ao ver seus olhos arregalarem. - Só o suficiente para você não parecer que está fugindo da ceia do mendigo.

- Uau. Você é sempre assim tão gentil com suas falsas namoradas?

- Só com as que me salvam do pânico familiar natalino.

**

No dia seguinte, cheguei ao endereço dela. Era um prédio antigo, claramente mal cuidado, em uma rua onde ninguém deixava o carro com o vidro aberto. Quando ela surgiu no saguão com uma mochila e um sorriso tímido, percebi o quanto estava improvisando ali - sem roteiro, sem garantia de final feliz. Só coragem.

Levamos menos de uma hora na loja. Ela detestava provar roupas, odiava gastar dinheiro - mesmo o meu - e insistiu que não precisava de salto, só de uma bota confortável.

- Se eu tropeçar na frente da sua avó, o plano morre na hora - explicou, tirando a quarta saia de tricô do corpo com um suspiro dramático.

No fim, saiu com dois vestidos elegantes, um sobretudo vermelho e um cachecol de lã que, segundo ela, a fazia parecer uma escritora francesa falida. E, por algum motivo, eu concordei.

No carro, enquanto voltávamos, ela quebrou o silêncio:

- Obrigada. De verdade. Eu sei que, pra você, isso é só um arranjo estratégico. Mas, pra mim, é mais do que isso. É um respiro.

- Ninguém sobrevive sem um respiro, Clara. Você me dá um, eu te dou outro.

Ela olhou para mim como se estivesse vendo algo que ainda não conseguia nomear. E sorriu.

Por algum motivo, aquele sorriso me pareceu mais perigoso do que qualquer verdade que ela poderia esconder.

Capítulo 3 Capitulo 3

Clara

Se alguém me dissesse que eu estaria entrando em uma loja de luxo com um cartão de crédito que não era meu e um homem bonito demais para ser real ao meu lado... eu teria rido. Ou chorado. Ou os dois. Mas lá estava eu, com os cabelos recém-hidratados, sapatos que custavam mais que meu notebook e um vestido vermelho pendurado no braço, enquanto uma vendedora me tratava como se eu fosse a nova influencer do momento.

- Esse ficou perfeito em você - disse ela, apertando levemente os ombros do blazer que eu experimentava. - E combina com o tom da sua pele.

Sorri de volta, sem saber se agradecia ou perguntava quanto custava. Mas Daniel chegou antes que eu precisasse decidir.

- Está pronta? - perguntou, encostado na porta do provador como se não fosse o responsável por pagar por tudo aquilo.

- Ainda me sinto como se estivesse em um daqueles filmes da Sessão da Tarde - murmurei, ajeitando a blusa.

- Pelo menos é uma comédia romântica e não um suspense policial - ele respondeu, com aquele sorriso contido que fazia meu estômago dar voltas involuntárias.

De todos os jeitos com que imaginei salvar minha carreira - um best-seller, uma adaptação da Netflix, uma indicação ao Jabuti -, fingir ser namorada de um milionário durante o Natal definitivamente não estava na lista.

Saímos da loja carregados de sacolas, e Daniel me levou para um café charmoso, daqueles em que os pães parecem obras de arte e a água vem com gás por padrão. Sentamos em uma mesa discreta no canto. Ele pediu um expresso; eu aceitei um chocolate quente porque, sinceramente, precisava de um pouco de doçura na vida.

- Você está mais tranquila hoje - ele comentou, apoiando os braços na mesa. - Imagino que ontem tenha sido um pouco... incomum.

- Só um pouco. Afinal, não é todo dia que recebo uma proposta de "namoro de mentira com contrato e salário incluso".

Ele sorriu.

- Justo. Mas fico feliz que tenha aceitado. Acredite, você é exatamente o tipo de pessoa que eu precisava.

- Charmosa, apresentável e sabe mentir com charme?

- Inteligente, espontânea e... real. - Ele disse isso com uma sinceridade desconcertante.

Eu corei. Ótimo. Como se já não estivesse suficientemente deslocada, agora estava corando como uma adolescente.

- Posso te perguntar uma coisa? - arrisquei, brincando com a colher.

- Claro.

- Por quê? Por que você precisa disso? Você parece... sei lá, do tipo que poderia levar qualquer mulher para casa no Natal e a família não acharia estranho.

Daniel respirou fundo, como quem decide que está na hora de tirar a armadura.

- Minha avó está doente. Nada grave, só... ela sempre foi o centro da família, sabe? E esse ano ela pediu uma coisa específica: quer ver todo mundo reunido e feliz. E eu... - ele hesitou. - Eu terminei um noivado há poucos meses. Todos esperavam que eu levasse a ex para o Natal. Então, em vez de explicar tudo, preferi encontrar uma alternativa. Temporária. Razoável.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Ele parecia constrangido de contar aquilo, como se estivesse pedindo desculpas.

- Bom, você contratou uma ótima atriz - respondi, tentando aliviar o clima. - Vou fingir que te amo como uma personagem de romance barato. Vai ser convincente.

- E quanto ao seu motivo? - ele perguntou de volta, olhando diretamente nos meus olhos. - Por que aceitou?

Engoli seco. Eu ja havia resumido antes, mas sempre é bom reafirmar. Se eu ia fingir amar esse homem na frente da avó dele, pelo menos ele podia conhecer meu motivo real.

- Porque estou a dois passos de ser despejada - disse, simples. - Minha carreira como escritora está estagnada, as contas acumulam, e esse dinheiro significa mais do que conforto. Significa continuar tentando. Escrever, comer, pagar o aluguel. Eu não podia dizer não.

Daniel assentiu, sem julgamento, apenas compreensão.

- Então temos um acordo, Clara. Você me ajuda a passar ileso pelo Natal. Eu te ajudo a manter a esperança viva.

- Parece justo. Só... tem uma condição.

Ele arqueou a sobrancelha.

- Nada de beijo na boca se não estiver no contrato.

Ele riu.

- Pode deixar. Beijos sob demanda, com cláusula específica.

Sorrimos os dois. Pela primeira vez, aquilo tudo não parecia tão absurdo. Parecia... um acordo entre duas pessoas desesperadas por um pouco de paz. Ou, quem sabe, uma desculpa para acreditar - ainda que por dez dias - que finais felizes talvez não sejam só coisa de ficção.

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