Bianca Santista
Hoje foi um dia cheio, trabalhei até, tive que encarar uma cliente chata e mimada na loja, céus, só suportei isso porque preciso muito do dinheiro, e ainda não conseguir outro trabalho, mas sinceramente, hoje foi tenso.
Cheguei e me joguei no tapete aos pés do meu sofá-cama, e ali sigo já tem quase meia hora.
Meu telefone está tocando há algum tempo, no ônibus já havia sentido ele vibrando, não olhei nenhuma mensagem, mas eu já sabia, era a Juliana, ela havia me enviado mensagem mais cedo chamando para sair, vi no meu horário de almoço, respondi para ela que iria ver, mas sempre falo isso, e nunca vou.
Prefiro mil vezes chegar em casa, tomar um banho e descansar, eu costumo estar tão exausta, e também não posso me dar ao luxo de ficar gastando, luxo não né, na verdade não me sobra para esses eventos, vamos dizer assim, e sair com ela, não teria como não gastar, ela sempre fala, 'ah Bianca, deixa de ser boba, vamos, tu bebe só um drink e voltamos', mas fala sério, até eu chegar lá para beber só esse drink, que por sinal não é barato, eu vou gastar, seja com ônibus, seja com Uber, seja com táxi, ou rachando gasolina com alguém, para retornar a mesma coisa, e convenhamos chegando lá vou comer alguma coisa, que também não sairá barato, então melhor ficar em casa, que daria para eu pedir um hambúrguer, comer no conforto de minha casa, e depois descansar tranquilamente.
Não vou mentir, às vezes tenho sim vontades de ir, ela conta as aventuras e como se divertiu, e fico feliz por ela, e até me bate uma vontade de ir sabe, mas, minha realidade não me permite, essas estripulias.
Vim para a cidade em busca de melhores oportunidades, consegui uma bolsa de estudos, mas preciso trabalhar para pagar a quitinete que moro, água, luz, e ainda poder enviar um dinheiro pra ajudar minha família no interior, porque antes de vim para cá, eu trabalhava no campo lá e ajudava meus pais.
Tenho dois irmãos, meu irmão mais velho o João, hoje com 26 anos é casado e pai de 3 filhos, amo meus sobrinhos, e lá o trabalho é duro, mas a recompensa é irrisória, minha irmã mais nova é um tanto rebelde, enquanto eu estava lá ajudava na colheita do milho, do café, fazia isso desde criança na verdade, porque sabia que para sobreviver precisávamos ir a labuta, mas minha irmã mais nova a Bruna, ela é meio revoltada com essa vida que temos, ela culpa nossos pais por serem pobres, tento conversar com ela, mas acaba que sempre brigamos, tento colocar na cabeça dela, que a realidade que nossos pais se criaram foi ainda pior.
Meu pai, é um homem bom, rude pelo contexto de vida dele, não tem muito trejeito, ou sensibilidade pra lidar ou conversar com ninguém, mas não o culpo, sei que isso é em função da criação que ele teve.
Minha mãe, bem, ela é uma santa eu diria, uma mulher super simples e humilde, tem muita paciência com meu pai, mas também trabalha um duro que só, mas ela sempre tentou incentivar cada um de nós a dedicar aos estudos o máximo que pudéssemos, meu irmão estudou mal, mal o ensino fundamental, minha irmã está com 16 anos, mas detesta estudar, empurra literalmente com a barriga, acha que em algum momento a riqueza vai simplesmente cair sobre a cabeça dela só em ficar lamentando e reclamando da vida que leva, isso me irrita bastante.
E eu com meus 22 anos, consegui uma bolsa de estudos para cursar administração em uma faculdade privada, fui relutante em vir, porque não queria deixar meus pais lá, mas vi, que para tentar sair desse ciclo, ou quebrar ele, eu precisava colocar minha cara no mundo e tentar, mas sinceramente, a coisa não é tão fácil assim.
Minha expectativa era trabalhar e estudar, mas passo momentos de desespero aqui, minha rotina é basicamente, trabalho o dia todo, a noite vou para a faculdade, chego tarde em casa, devido ao horário que finaliza aula, onde o ônibus me deixa até eu chegar em casa ainda tenho que andar um pouco, e como trabalho no sábado, e já venho trabalhando aos domingos também há algum tempo, para poder garantir um extra, e poder conseguir cobrir tudo, e mandar alguma coisa para minha família, porque mesmo que saí lá do interior e vim para cá, preciso dar um jeito de ajudar eles.
O celular insiste em tocar, decido atender ela, a Juliana é minha melhor amiga, na verdade foi a única amizade que fiz aqui, nos conhecemos na faculdade, ela vive me chamando pra sair, mas eu nunca vou, às vezes ela fica chateada, mas depois ela volta a falar comigo, no fundo ela sabe que minha rotina é exaustiva, mas ela sempre ressalta que eu preciso espairecer pra não surtar.
"Oi."
"Poxa Bianca, estou te ligando há horas, te enviei mensagem e tudo e nada de você responder ou atender, vou passar na sua casa, hoje iremos sair, não vai me inventar desculpas, é seu aniversário, não é todo dia que se completa 24 anos."
"Nossa eu até havia me esquecido que hoje é meu aniversário, olhe só e deu bem no sábado, que conveniente para eu descansar..."
"Nem pensar, estou te ligando pra te avisar que daqui a pouco passo por aí, hoje você vai sair, iremos comemorar seu aniversário sim, não adianta dizer que não irá."
"Ah não Juliana, não precisa vir aqui, se eu decidir ir, eu apareço por lá, só me enviar o endereço."
Já conheço essa tática, e hoje não vai rolar, estou falando sério, sou mais nova que você, mas hoje você terá que me obedecer, me aguarde aí, e já pode tomando seu banho, que já vou chegando aí pra te ajudar a terminar de se arrumar."
Ela terminou de falar e desligou a chamada, oh céus, não acredito que ela esteja vindo para cá, eu nem me lembrava que hoje era meu aniversário, mas eu nem tenho essa cultura de celebrar aniversário, já a Juliana não, mas não pensei que ela iria insistir nisso comigo, ano passado a enrolei, esse ano será que não vou conseguir?
E agora, será que eu vou, se bem que tive um dia difícil, talvez eu pudesse me dar esse luxo de sair hoje, beber um drink, nossa, beber um drink, e espairecer a mente, dissipar as raivas que passei durante o dia, só quem lida com público sabe o quão desgastante é, principalmente com clientes, aborrecidas, misericórdia.
Bem, talvez eu deva mesmo ir... mas se bem que nem roupa pra isso tenho, vou tomar um banho e pensar se devo ou não ir, mas acho que melhor é ficar no meu recanto...veremos então...
Tomei meu banho, lavei meu cabelo, me sentia mais leve, vesti uma de minhas roupas largadas, e por incrível que pareça, não demorou muito a Juliana chegou lá em casa mesmo, oh céus o que farei?!
"Mas você já estava mesmo vindo pra cá hein, se eu não tivesse atendido sua ligação o que você iria arrumar?"
"Eu ia vim do mesmo jeito, queria que você atendesse ou respondesse para você ir adiantando, mas se não tivesse feito, eu simplesmente iria brotar aqui e fazer você se arrumar, agora vamos secar esse cabelo, passar uma maquiagem e se trocar..."
Como ela já estava ali, decido total em ir, ela se deu o trabalho de sair lá da casa dela, vir até aqui, o que está totalmente fora de rota para ela, só para eu poder sair, e celebrar o meu aniversário, então o mínimo que posso fazer é ir.
"Bem, me trocar! Ai Jú eu não tenho essas roupas descoladas para ir em eventos onde você costuma ir não, eu colocar uma calça jeans ali, a que tiver menos surrada e..."
"Nem pensar, de maneira alguma, não sei como a pessoa trabalha em um shopping e me usa essas roupas estranhas..."
"Respeita minhas roupas dona Juliana, e não tem nada de errado com minhas roupas, elas estão me servindo, estão limpas, é o que importa."
"A questão não é essa Bianca, essas calças sua parecem ter pelo menos sua idade, toda bufada na bunda, isso se tu não colocar uma blusa toda largada né dona Bianca, porque você é mestre em fazer isso, quem vê você pensa que tu nem corpo tem, mas hoje vai ser diferente, e vamos colocar esse corpo lindo pra jogo."
Suspiro desesperada já, e nem comecei ainda.
"Você bem sabe que não gosto disso."
"Mas hoje vai gostar, vamos acelerar para curtirmos a noite ao máximo. Amanhã você não vai mesmo trabalhar não é?"
"Não, infelizmente, a gerente disse que não iria me encaixar na escala de amanhã, porque eu já estou direto há algum tempo, então para eu descansar."
"Ótimo então, assim você curte a noite tranquila!"
"Não pretendo virar a noite tá bonita, nem vem, chegar determinada hora, eu venho embora."
"Unhum, combinado, agora vamos!"
Ela ajudou secar e escovar meu cabelo, ele é grande chega até minha bunda, mas vivo com ele preso, mas hoje vamos deixar ele solto.
"Uau, não sei porque você não deixa esse cabelo lindo solto, olha só esses reflexos loiros nele são simplesmente maravilhosos, quem vê assim pensa que tu faz isso em um salão caro."
Meu cabelo tem um tom de castanho claro, e uns reflexos dourados, acredito que seja mais em função do sol, porque nunca usei nada de tintura, ou coisa assim nele.
"Pois é, e ele nem sabe o que é tinta ou algo do gênero."
Ela fez uma maquiagem em mim, já avisei logo que não queria nada muito chamativo.
"Pode ficar tranquila, vou fazer algo só pra realçar a beleza natural que você já tem."
Quando ela finalizou que me olhei no espelho, realmente eu estava bonita, ela conseguiu camuflar minha cara de cansaço total, mas ainda assim eu conseguia me ver através da maquiagem, me senti, bem, vendo aquela mulher no espelho.
Impressionante como uma simples maquiagem é capaz de elevar nossa autoestima, e nos deixar de certo modo melhor com nós mesmas.
"Nossa, você arrasa mesmo viu, conseguiu fazer milagre em mim."
"Para de show que você já é linda, o que fiz foi só realçar essa beleza, ah e a propósito veste isso aqui."
Ela tirou um vestido da sacola e me entregou.
"Como assim, você trouxe vestido seu para mim, mas temos tamanhos..."
"Não, não, esse é um presente para você, nossos tamanhos são diferentes, minha roupa certamente não caberia em ti, mas esse daí, comprei especialmente para você, é meu presente de aniversário Bi, você merece muito mais."
Ela conseguiu me abalar, ninguém nunca me dá nada, eu nunca recebo nada, ainda mais de presente de aniversário, e agora ela está ali me ajudando a me arrumar, e me deu um vestido de presente.
"Ah, vai fazer eu chorar agora, obriga Ju."
"Nem ouse chorar, não vá estragar meu trabalho, vamos, experimente o vestido."
Ela me deu um vestido de veludo preto, o vestido ficou perfeito em meu corpo, ajustou certinho, era um vestido de alça, e tinha uma fenda na perna direita, o que dava um charme e fazia com que minha perna se destacasse nele, era algo que eu jamais havia experimentado na minha vida, mas quando olhei no espelho me senti, uma, mulher, uma mulher sexy, uma mulher ousada, nunca tinha me sentido assim.
"Uau, que vestido lindo Ju, muito obrigada."
"Ah Bi, não precisa agradecer, já te falei, você merece muito mais, eu queria te proporcionar uma memória boa em seu aniversário...ah calce essa sandália aqui, e agora vamos indo porque precisamos aproveitar a noite."
"Oh onde tu arrumou essa sandália..."
"É sua também, mais um presente de aniversário, esse é de minha mãe, feliz aniversário Bi, agora agiliza e vamos!"
Juliana estava no carro do pai dela, fomos para um restaurante que estava bem movimentado quando chegamos, e o lugar parecia ser chique demais para o meu gosto, ao entrar parecia que a maioria dos olhares estavam indo em nossa direção, não sou acostumada a usar salto, estava tentando me fazer e me manter plena, mas estava me sentindo nervosa e desengonçada.
Falei entredentes para ela:
"Estou me sentindo super desengonçada andando com esse salto, parece que vou estabacar no chão a qualquer momento."
"Para com isso, você está linda, está andando perfeitamente, não coloca isso na cabeça, só vamos seguir andando, as pessoas estão olhando porque você está deslumbrante minha amiga."
O garçom falou que tivemos sorte, porque naquele instante havia saído um casal que estavam em uma determinada mesa lá, e ele nos colocou nela.
"A dama de preto e a dama de branco, aproveitem a noite, vou deixar o cardápio com vocês, só ressaltando que após às 23 horas o restaurante fecha, e passamos a funcionar como boate, as bebidas só serão entregues se for feito pedido de combos, ou bebidas especiais, esses elencados no cardápio, para os demais deve ser feito o pedido e a retirada direto lá no bar, qualquer coisa é só me chamar, sou o Lucas."
Não havia nem me dado conta, mas é verdade estávamos como a dama de preto e a dama de branco, a Juliana estava com um vestido branco, ela estava linda, aliás ela é linda, com o cabelo preto solto, um liso escorrido na altura do ombro, ela era a personificação da mulher elegante.
"Bi, você tem que ver, isso aqui quando fecha o restaurante para abrir espaço para o modo boate, fica simplesmente sensacional, acho que você vai amar."
"Assim eu espe....não acredito Juliana, tu viu os preços das coisas."
Quase caí para trás, um drink mais barato dava para eu comer lanche a semana inteira, oh céus, calculei mentalmente o que poderia fazer, beber ou comer ali, mas estava tenso, no final, as contas não iriam fechar.
"Para com isso Bianca, hoje é seu aniversário, se dê de presente esses momentos, não fica pensando nisso não, para de bilolar por isso ou aquilo, você nunca sai, trabalha um duro que só, mas não investe nada em você, o que faz é para pagar conta e enviar para sua família, amiga eu até te entendo, mas você precisa se priorizar também."
"Ah Ju, você sabe que minha realidade não convém isso, e não reclamo, já estou acostumada, mas me esforço ao máximo para viver melhor, lá na frente, mas hoje vou tentar ficar mais leve, só que com esses preços é realmente complicado não pensar."
Analisei até, o cardápio, pra ver o que de mais barato poderia pedir, e caramba eu estava com fome também, mas comer ali, seria um arrombo.
"Pronto, já decidiu, podemos pedir?"
"Vou pedir só um Chopp." Não sei quanto tempo iremos passar ali, se eu pedir esses drink's de valores exorbitantes, e beber no máximo uns dois ou três, meu orçamento já vai ficar descontrolado, então é melhor ir de Chopp, que rende mais e é mais barato.
"Ah não Bianca, deixa que eu peço algo aqui então."
"Não Ju, pra mim vai ser só um Chopp mesmo, pra ti pega o que achar melhor."
"Está bem!"
Fizemos sinal para o Lucas, e ele prontamente veio nos atender.
"Pois não damas de preto e branco!"
Ele era uma gracinha, e estava claramente flertando com a Ju, ela fez os pedidos apontando para ele lá no cardápio, e ele anotou.
Apesar de cheios, o atendimento deles era bem rápido, não demorou muito ele chegou com dois drinks e uma porção, hum mas trouxe o pedido errado, pensei, por isso a rapidez, pois seria um chopp e um drink, e não pedimos porção, pelo menos eu não pedi.
"Você trouxe o pedido errado, Lucas.'
"Errado, sério, mas o que pediram não foi..."
"Sim está certo, ela que está confundindo Lucas, pode deixar aqui."
"Mas eu não pedi drink Juliana, pedi Chopp, e como ou onde ele anotou nossos pedidos, cadê a comanda?"
"Aqui e pelo número da pulseira que recebemos amiga, tá vendo aqui, ele viu o número da minha e colocou nela, quando formos sair, pagamos de acordo o registrado aqui."
"Entendi, Juliana, eu te falei que o meu seria um Chopp!" falo em tom de advertência.
"Desencana dona Bianca, vai, vamos brindar, hoje é seu dia, vamos celebrar, esquece contas por uns momentos, e viva a vibe do ambiente e do dia."
A Ju tem uma forma tão leve de viver a vida, acho isso admirável, talvez seja por ela ser mais nova, com seus 21 anos, por não ter mil e uma preocupações com contas, mora no conforto de um apartamento grande, com seus pais, apesar de terem uma relação meio conturbada na família, ela está sempre de bem com a vida, ela fala que pelo menos eles arcam com as despesas dela, financeiramente são bem estruturados, ela costuma dizer que isso camufla a guerra que eles vivem, o pai e a mãe dela, por isso ela vive saindo pra espairecer, e sempre diz que eu preciso fazer o mesmo.
Às vezes ela me deixa pirada, mas ela foi o melhor acontecimento em minha vida desde que cheguei aqui, foi a pessoa que me acolheu, a desengonçada da roça, com um sotaque do interior, eu percebia, as outras meninas fazendo piada do meu jeito de vestir, de falar, a Ju não, ela com aquele ar moleca dela, foi se apresentando, falou para eu não dar importância para aquelas mimadas imbecis, haha, e nisso viramos uma dupla, inseparável na faculdade, ela que me ajudou a montar o currículo, a conseguir o trabalho, a quitinete para morar, porque os parentes que eu tinha vindo para ficar na casa deles na verdade se puseram bem hostis, então só fiquei lá até conseguir arrumar um trabalho e ter condições de alugar um local para ficar, e foi a melhor coisa que fiz, ter saído de lá, não quero soar ingrata, mas a forma como minhas primas me tratavam, minha tia, viviam jogando indiretas para mim, e só faltavam cuspir no meu prato.
Aprendi muito nesse período que vim para cá, nem todos possuem um coração bom, e disposto em ajudar, e que família, família mesmo, nem sempre vão ser os de sangue. A mãe da Jú, me deu mais acolhimento que minha própria tia, minhas primas, elas me tratavam de forma tão grosseira, ficavam falando nas minhas costas, mas hoje vejo que com o intuito de eu ouvir mesmo, que eu era uma burra da roça, que não sabiam o que eu estava pensando em vim pra cidade querer procurar estudar, que eu iria aguentar muito ali uns 6 meses, estourando um ano, que meu fim seria voltar a trabalhar feito mula igual meus pais e meu irmão, aquilo me doeu bastante.
Não contei para meus pais o motivo de sair de lá, só falei que encontrei um local que seria mais próximo do trabalho e da faculdade, e assim, me mantive longe deles, e venho sobrevivendo nesses dois anos depois, superando à expectativa deles.