Ponto de vista de Scarlett:
Saí do banheiro usando apenas uma camisola de renda fina com as costas abertas. Estava mostrando bastante da minha pele e essa roupa era tão curta que mal cobria minhas nádegas.
De pé em frente à janela, Charles Moore deu meia volta. Ele vestia um roupão preto listrado com um cinto amarrado confortavelmente ao redor da cintura. A parte de cima estava levemente aberta, revelando seu peito forte e esguio.
Os olhos dele caíram sobre mim, rapidamente se iluminando. Nessa hora, tive certeza de que havia sido bem sucedida em despertar o interesse dele.
Fazia três anos que estávamos casados, mas nunca consumamos de fato nossa relação.
Eu sabia que ele era apaixonado por outra pessoa, por isso viajei para a França logo após nosso casamento.
Alguns dias atrás, a avó de Charles me ligou para dizer que estava na hora da família Moore ter um novo integrante.
Eu sabia o que ela queria dizer. Para ser sincera, a ideia de ter um filho com Charles não era tão ruim assim. Fiquei até feliz em ouvi-la, na verdade.
Era o motivo que eu estava esperando para finalmente voltar para Charles.
Senti falta dele nesses três anos longe.
Colocando minhas mãos nas costas, caminhei lentamente na direção do homem. Deixei que ele me observasse atentamente à distância.
A surpresa nos olhos dele era inegável.
"Venha aqui", Charles me chamou com sua voz rouca.
Mordi meu lábio inferior enquanto me aproximava, então passei meus braços ao redor do pescoço dele.
Charles deslizou as mãos pelas minhas costas e segurou minha cintura, sussurrando ao lado da minha cabeça: "Você está me seduzindo?"
A respiração quente dele invadiu meu ouvido, fazendo minha cabeça formigar e lançando arrepios por toda a minha pele.
"Está funcionando?"
Charles me olhou e de repente abriu um sorriso. "Foi isso que você aprendeu na França nesse meio tempo?"
"Você gosta?" Devolvi o olhar para ele com expectativa e meu coração se acelerou.
"Scarlett, você é linda", ele falou quase em um sussurro.
O elogio dele me pegou de surpresa. Isso significava que ele também pensou em mim enquanto eu estava fora?
"Charles, vamos..."
"Mas quero o divórcio."
Nós falamos ao mesmo tempo.
Minha mente imediatamente ficou em branco e engoli minhas palavras antes que saíssem.
O que havia ficado na ponta da minha língua era: 'Charles, vamos fazer um bebê...'
Nunca imaginei que na verdade ele me pediria o divórcio.
Charles me soltou e deu dois passos para trás, se distanciado de propósito. "A saúde de Rita piorou consideravelmente. Não acredito que aguente muito mais tempo. Quero me casar com ela antes que seja tarde."
Então, os rumores sobre a relação entre eles eram verdadeiros.
Apenas me iludi ao pensar que a mídia estava inventando boatos.
"Concluído o nosso divórcio, darei mais cem milhões de dólares para você como compensação pelo nosso contrato." A voz dele soou leve, mas firme. Aparentemente, já estava decidido e não havia mais espaço para negociar.
Lágrimas quentes e amargas começaram a escorrer pelo meu rosto. Baixei minha cabeça rapidamente para escondê-las. Não queria que ele me visse nesse momento de vulnerabilidade.
"Qual o problema?"
Limpei meu rosto às pressas e respondi: "Não é nada. Só fiquei feliz por mim mesma."
Charles me questionou, desconfiado: "Como assim?"
"Finalmente tenho um bom motivo para deixá-lo. Como não vou ficar feliz?", falei brincando. Preocupada que talvez ele não acreditasse em mim, abri um enorme sorriso entre minhas lágrimas.
O rosto de Charles adquiriu um aspecto sombrio e ele riu sem alegria alguma, dizendo: "Uau. Não imaginei que você fosse ficar de boa com isso."
Sorri ainda mais. "Acho que é uma boa decisão."
Uma rajada de vento frio soprou através da janela, levantando de leve a bainha da minha camisola.
Só então me dei conta que eu ainda estava com aquela roupa de dormir vergonhosamente reveladora.
A ironia disso deixou um gosto de cinzas na minha boca.
Peguei um roupão de banho, o vesti e amarrei o cinto na minha cintura. Fechei a parte de cima, cruzando meus braços em frente ao peito na esperança de que isso aquecesse um pouco meu coração machucado pela frieza cortante das palavras de Charles.
"Se nos divorciarmos, você pode se casar com Rita e eu posso ir atrás do meu amado. Dois coelhos com uma cajadada."
Charles franziu a testa, perguntando: "Quando foi que você se apaixonou por outra pessoa?"
Engoli a nova onda de dor que surgiu no meu peito, respirei e controlei meu tom para soar mais relaxada: "Há muitos anos atrás."
Minha mente gritava para que eu dissesse a Charles que ele era meu único e grande amor.
"Me conte o nome dele."
Achei um pouco estranho esse interesse dele no meu namorado misterioso, sendo que ele havia recém me dito que queria se divorciar de mim. Por um momento, fiquei em pânico sem saber o que dizer e minha cabeça simplesmente não conseguiu inventar nome algum.
Felizmente, seu telefone tocou, me salvando dessa inquisição.
"Rita, o que aconteceu?" Charles atendeu ao celular, entrando no closet.
Quando saiu novamente, já havia posto calças e uma camiseta. Ele pegou a jaqueta e a colocou, se ajeitando em frente ao espelho.
"Tenho que ir. Rita precisa de mim. Podemos conversar quando eu voltar."
Depois de falar isso, ele foi embora sem olhar para trás.
Aparentemente, quando se tratava de Rita, ele estava de prontidão a qualquer momento do dia ou da noite.
Passado algum tempo, meu celular tocou. Olhei para a tela e vi que era um número desconhecido chamando.
"Alô, Charles está com você agora?" Embora a voz fosse doce do outro lado da linha, ela me deixou desconfortável. Conseguia imaginar até o sorriso de complacência na cara da interlocutora.
Apesar de terem se passado anos desde a última vez em que falamos, eu ainda conseguia reconhecer a voz de Rita.
Comprimi meus lábios um contra o outro e não respondi nada.
"Onde está Charles? Ele me prometeu que viria passar a noite comigo", Rita insistiu apesar do meu silêncio. O tom dela era gentil, mas soava rude nos meus ouvidos. Era como se estivesse perfurando meu coração com centenas de agulhas.
"Você não acabou de ligar para ele?" Rebati, deixando transparecer meu incômodo.
"Ah é verdade, tinha me esquecido."
Rita caiu na gargalhada, a qual, na minha opinião, soava como um par de unhas arranhando o quadro-negro. "Me desculpe por ter pedido para o seu marido vir me ver a essa hora da noite."
"Sim, tudo bem. Você precisa de mais alguma coisa?"
"Bem, só queria conversar um pouco com você e ver se Charles já mencionou o divórcio."
De repente, escutei a voz do homem ao fundo. "Rita, cheguei. Você está bem?"
Era a primeira vez que eu escutava Charles ser tão gentil. Ouvi-lo falar assim com Rita fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas.
Sem dizer mais nada, Rita desligou na minha cara.
Me revirei na cama a noite toda.
Rita obviamente havia me ligado só para me provocar, mas, mais do que a atitude desprezível e vil dela, foi a indiferença de Charles que me tirou o sono.
Ele nem sequer me ligou para dar satisfações durante toda a noite.
Mas eu entendia. Ele estava com Rita agora. Eu não devia esperar que ele prestasse atenção em mim.
Incapaz de conciliar o sono, remoí a dor amarga que assolava meu coração. Logo o dia raiou, afugentando a escuridão.
Escutei uma batida na minha porta.
Abri e me deparei com Charles ali fora. Ele não voltou para casa na noite anterior.
"Vamos encontrar Rita hoje", declarou com firmeza.
Havia círculos escuros embaixo dos olhos dele. Será que ele passou a noite toda fazendo amor com sua preciosa Rita?
"O que você precisa de mim?", perguntei categoricamente.
"Quero que você a deixe com a consciência tranquila. Diga que você está apaixonada por outra pessoa e que ela não precisa se preocupar", ele respondeu, se aproximando de mim enquanto me olhava com atenção.
"Está bem."
Charles fez uma cara surpresa. Aparentemente, ele não esperava que eu fosse concordar tão prontamente.
"Muito bem. Vá se lavar e botar uma roupa. Vou esperá-la lá embaixo." Então Charles me deixou.
Pouco depois, meu celular tocou. Era minha melhor amiga, Tiana.
"Oi, Tiana."
"Vadia, bem-vinda de volta!"
"Obrigada."
"Então, você veio para ficar ou vai fugir de novo na primeira chance que tiver?"
"Por enquanto, vou ficar."
"Ótimo. Quero que você trabalhe na nossa emissora de TV. Você é um profissional de mídia, a sua voz é agradável de ouvir e todos gostam da sua figura. Esse trabalho foi feito para você."
"Está bem, vou pensar."
"Você falou com Charles?", Tiana indagou timidamente, sua voz adotando um tom mais baixo.
"Sim, falei."
"Ele te falou da vagabunda que pegou para ficar no seu lugar?"
"Sim, falou."
"Que asco! Esse idiota realmente não tem vergonha! Ele te contou isso assim na cara de pau? Como se não fosse nada?"
"Sim. Também me pediu para encontrá-la hoje."
"O quê? Você vai se encontrar com aquela víbora fura-olho? Aposto que ela está insistindo para Charles se divorciar de você e se casar com ela. Sinceramente, não sei por que essa mulher insiste tanto nisso. A família Moore a rechaçou como opção para Charles há três anos atrás. Por que ela acha que eles mudariam de ideia agora?", Tiana rugiu do outro lado da linha.
"Já está tudo acertado, Tiana", falei, forçando um sorriso.
"Do que você está falando? Você ainda o ama, certo?"
Não respondi. Claro que ainda amava Charles. Fazia anos que o amava.
"Scarlett?" A preocupação na voz dela me trouxe de volta à realidade.
"Tenho que ir. Nos falamos mais tarde, está bem?"
Ponto de vista de Scarlett:
No caminho até o restaurante, fiquei em silêncio e Charles também não fez questão de falar nada. Estávamos casados há três anos, mas agíamos como estranhos um com o outro.
E agora eu estava acompanhando meu marido para encontrar sua noiva.
O motorista parou em frente ao Rainbow Dream, um restaurante com três estrelas Michelin. Era o lugar mais luxuoso para se comer na cidade.
"Senhor Charles, a senhorita Rita o aguarda no segundo andar", o porteiro cumprimentou Charles. Aparentemente, meu marido era um cliente regular ali.
Segui Charles até o elevador.
"Tente parecer feliz ao ver Rita, está bem? Não faça cara feia", Charles pediu com frieza.
"Está bem", respondi, forçando um sorriso no rosto.
Logo entramos em uma sala privativa.
"Scarlett, há quanto tempo."
Fixei meu olhar em Rita, tentando desesperadamente parecer neutra diante da situação. Ela ainda parecia jovem e atraente. O rosto e a pele dela eram suaves como porcelana. Aquela mulher provavelmente gastou fortunas para manter uma boa aparência e cuidar do seu corpo.
Uma vez Charles comentou comigo que ela estava morrendo, mas não me convenci disso até porque ela parecia melhor do que eu.
"Sim. Há quanto tempo", comentei de volta, dando um sorriso apático.
"Você já superou a mudança de fuso horário? Como foi sua noite de sono?" O sorriso no rosto dela parecia sincero, como se não tivesse me ligado na noite passada para me provocar.
"Dormi bem, obrigada por perguntar", respondi.
O prato principal do restaurante hoje era bife. Charles estava cortando o de Rita para ela.
Nunca o tinha visto ser tão atencioso com outra pessoa.
"Charles me contou ontem à noite que você está saindo com alguém."
"Sim, é um pintor", imediatamente inventei uma história.
Assim que respondi, percebi que as mãos de Charles tremeram levemente.
"Você tem alguma foto dele?"
A curiosidade de Rita me pegou desprevenida. Olhei para Charles, mas ele não se virou para mim.
"Bem, não. Ainda não estamos oficialmente juntos. Não acho certo ter fotos dele no meu celular se não estamos namorando", expliquei, baixando a cabeça e focando novamente em cortar meu bife.
"Mas nem no Facebook dele tem fotos?", Rita insistiu.
"Imagino que sim. Vou procurar, só um minuto." Enquanto falava, puxei meu celular e pensei em qual dos meus colegas de classe escolheria para ser meu falso pretendente.
Pierre foi o primeiro que veio à minha cabeça. Era um dos meus melhores amigos.
Abri o Facebook dele e encontrei uma foto sua em frente à Torre Eiffel. O cabelo de Pierre era comprido e seu rosto jovial e bonito. Parecia mesmo um artista e era bem diferente de Charles.
Entreguei meu celular para Rita.
"Parece um garoto romântico de Paris. Fico muito feliz por você. Charles, parece que você é bem diferente do tipo de homem que Scarlett gosta." Depois de falar isso, Rita mostrou a foto de Pierre para ele.
Charles apenas olhou a tela de relance e grunhiu: "São um par perfeito."
"Ele está vindo para os Estados Unidos?" Rita indagou, entregando meu celular de volta.
"Ele ainda está na Europa, fazendo uma exposição em Lyon. A ideia dele é desenvolver sua carreira artística aqui nos Estados Unidos, portanto é bem possível que ele venha morar desse lado do mundo", falei, inventando mais mentiras.
"Você o ama?", Rita instigou.
Fiquei abalada com sua pergunta por um momento.
Depois de me recompor, falei: "É claro que sim." Procurei ao máximo manter a calma para não me entregar.
"Que maravilha. Parece que não precisamos nos preocupar com Scarlett, Charles. Vamos brindar pela felicidade de Scarlett e do seu parceiro especial", Rita declarou, levantando sua taça.
Charles também ergueu seu copo, mas sem demonstrar qualquer emoção.
"Scarlett, desejo a você e ao seu homem uma vida maravilhosa", Rita afirmou com um sorriso e o rosto transbordando felicidade. Mesmo sem conseguir ver nenhuma falha naquela fachada perfeita, eu sabia que por baixo daquele rosto angelical se escondia um monstro pavoroso.
"Obrigada. Desejo a você e a Charles uma vida maravilhosa também."
Todos nós brindamos e bebemos.
Quando pousei meu copo de volta na mesa, minha mão tremeu. Meu estômago se contorceu, enojado. Engoli de volta o vômito que queria sair pela minha garganta e torci para o almoço terminar logo. Não queria passar nem mais um minuto na mesma sala com aquela mulher presunçosa.
"Com licença. Preciso ir ao banheiro", murmurei, me levantando e saindo dali. Na verdade, não precisava usar o banheiro. Só queria respirar um pouco de ar fresco.
Quando voltei, Charles já estava ajudando Rita a vestir seu casaco de veludo.
"Rita não está se sentindo muito bem. Vou levá-la para casa. Volto para pegar você..."
"Não, não precisa. Está tudo bem, consigo voltar para casa sozinha."
Observei enquanto Charles a levava para fora do restaurante com o braço ao redor dos seus ombros. De repente, todos os músculos que haviam se tensionado no meu corpo relaxaram.
PONTO DE VISTA DE CHARLES
Depois de mandar Rita para casa, voltei para o escritório para tratar de alguns assuntos de negócios.
À noite, recebi uma mensagem de Spencer.
Ele escreveu: 'Charles, você gostaria de se juntar a nós? Está todo mundo aqui.'
A minha resposta foi: 'Sim. Em breve estarei aí.'
Digitei a resposta, enquanto saía do escritório.
Spencer é o dono do Mint Bar. O seu bar é um dos mais populares da cidade e, naquela noite, estava particularmente lotado. Logo assim que entrei, vi Spencer e David. Nós somos amigos desde que éramos crianças.
"Você viu Scarlett?" Spencer perguntou, assim que apareci na frente dele.
"Sim", respondi, e em seguida, pedi ao barman que me servisse um copo de uísque.
"Você está realmente se divorciando dela?" Spencer se aproximou mais e seguiu fazendo suas perguntas.
"Sim", impaciente, respondi, para depois acender um cigarro.
"Como você pode fazer isso, cara? Scarlett é, tipo, nossa garota. Nós crescemos com ela. Você e Rita estão sendo cruéis com ela."
Soltei uma baforada de fumaça no ar, enquanto o barman colocava a bebida na minha frente. Achei melhor não responder Spencer, e apenas bebi meu uísque. Porém, o que ele tinha dito era verdade.
Para ser honesto, fiquei nervoso quando falei com Scarlett na noite anterior sobre o divórcio. Ao contrário dela, que ficou sentada o tempo todo, parecendo calma e serena. Enquanto eu não conseguia decidir se o comportamento dela estava me incomodando ou me impressionando. Tinham se passado três anos da última vez que tínhamos nos encontrado. Ela não era mais a doce garotinha que deixava transparecer seus sentimentos. Na verdade, ela tinha crescido muito.
Vê-la novamente, com aquele comportamento despojado, confesso que me deixou chateado.
"Ela concordou?" David perguntou curioso.
"Sim, ela concordou."
Naquele momento, estava lamentando a decisão de ter ido encontrar os amigos. O único que eu queria era tomar uma bebida com eles, e lá estavam eles, com todas suas perguntas, me fazendo o verdadeiro interrogatório.
"Então você realmente vai se casar com Rita?"
"Sim."
"Você está falando sério? Você realmente vai sacrificar sua felicidade porque ela salvou você?" David parecia bastante incomodado com minha resposta, acidentalmente, derramou o vinho que estava bebendo na minha roupa.
"Porra!" Xinguei com raiva, quando vi o vinho escorrendo na minha roupa.
"Oh, meu! Sinto muito, cara", David pediu desculpas na mesma hora.
Como não queria ficar sentado ali com a roupa toda suja, pedi licença e fui para casa trocar de roupa. Saí do bar e fiz sinal para um táxi. Quando saí do bar, tinha planejado ir para casa, mas assim que entrei no carro, parei para pensar e mudei de ideia.
Então, pedi ao motorista que me levasse até a rua Garden.
Quando cheguei, a casa estava bem iluminada, e do lado de fora pude ouvir gargalhadas vindo das janelas abertas. Um Mercedes que eu conhecia estava estacionado na garagem.
Parecia que tínhamos visita, minha mãe e minha avó.
Caminhei rapidamente na direção da porta, mas antes que pudesse digitar a senha, alguém já tinha aberto a porta por dentro.
"Onde você estava? Por que você não atendeu minhas ligações?" Minha mãe logo se aproximou e começou a me repreender.
"Eu estava em uma reunião de trabalho, mãe."
"E por que você está fedendo a álcool? Você andou bebendo? Oh meu Deus, você está todo sujo! Vá se trocar." Ela torceu o nariz e me fez entrar.
Assim que entrei em casa, vi a vovó e Scarlett sentadas na sala, conversando e rindo. Haviam algumas frutas e uma torta de maçã na mesa de centro.
"Olá vovó!" Quando fui cumprimentá-la, tentei pegar uma fatia de torta de maçã, mas minha avó deu um tapa na minha mão.
"Tire suas mãos de cima da torta. Ela não é para você. É para Scarlett."
"Charles, o que aconteceu com você? Venha, vou pegar algumas roupas limpas." Scarlett se levantou e caminhou na minha direção.
"Vocês estão casados há muito tempo. Por que você ainda chama Charles pelo primeiro nome?" Vovó perguntou para Scarlett, e então olhou para mim com um olhar desconfiado.
"Há algo de errado com a maneira a qual me dirijo a ele?" Scarlett parou de repente, e perguntou.
"Casais jovens como vocês não chamam seus respectivos cônjuges de 'querido' ou 'bebê' ou algo desse tipo?"
Scarlett congelou com a pergunta, parecia estar pensando no que responder. Então, ela limpou a garganta. "Venha, querido! Vou ajudá-lo a pegar uma roupa limpa."
Dito isso, ela me ajudou a tirar o paletó e abriu um sorriso sincero para mim.
"É mais parecido com isso", vovó disse sorrindo e parecendo satisfeita.
Vovó amava muito Scarlett. Nos últimos anos, enquanto Scarlett estava no exterior, vovó sempre me perguntava por ela. Eu dava respostas superficiais para ela.
Não demorou muito, vovó começou um novo assunto.
"Charles, marquei uma consulta com o médico para você esta semana. Você não pode beber bebidas alcoólicas até o dia da consulta. Quero que você faça alguns exames."
Suas palavras me deixaram atordoado.
"Mas recentemente fiz alguns exames, vovó. Estou muito saudável."
"Eu não quero que você faça outro exame físico. Dessa vez será um check-up mais especializado. Já faz vários anos que vocês estão casados. Onde estão meus bisnetos? Definitivamente não acho que é a culpa de Scarlett. O problema é seu."
Scarlett apertou os lábios e olhou para mim. Fomos pegos de surpresa. E parecia que ela estava tentando não cair na gargalhada.
Antes que pudesse me defender, meu celular tocou e soltei um suspiro de alívio. Scarlett, que estava segurando meu paletó, pegou o celular do bolso e viu na tela o nome de quem estava ligando. Eu podia afirmar que era Rita, pela forma como o rosto dela mudou de repente.
"É aquela mulher? Oh, para chorar em voz alta!", minha mãe exclamou.
Peguei o celular da mão de Scarlett e rejeitei a ligação.
"É Rita? Você é um homem casado agora, Charles. Por que você ainda está envolvido com essa mulher? Você tem que ser leal a Scarlett. E o que eram aquelas fotos de Rita experimentando vestidos de noiva que vi no noticiário? O que está acontecendo?" Vovó começou a fazer perguntas.
"Não é o que você está pensando, vovó."
"Então, por que você rejeitou a ligação dela? Vocês precisam falar sobre alguma coisa que nós não podemos escutar?"
Fiquei sem saber o que responder. Era simples mentir para as outras pessoas, mas não para minha avó. Era como se ela conseguisse ver além dos meus olhos.
Vovó ficou com tanta raiva, que estava tremendo. Scarlett rapidamente deu um copo de água para ela.
"Charles ficará mais do que feliz em responder sua pergunta, vovó, mas deixe que antes eu o leve para trocar de roupa", Scarlett disse, me empurrando para o quarto no andar de cima.
"Tenho algumas camisas brancas no terceiro armário."
Enquanto Scarlett foi pegar uma camisa limpa para mim, tirei a que David tinha manchado com vinho. Estava arruinada. Droga! Da próxima vez que encontrasse David, não o pouparia.
Então, senti alguém atrás de mim. Eu me virei, Scarlett estava parada, me encarando com uma das minhas camisas na mão. Ela baixou a cabeça, tentando esconder o rosto vermelho.
"Há quanto tempo você está parada aí?"
Ela ignorou minha pergunta. Em seguida, fechou os olhos rapidamente. Então, me levantei e me aproximei dela.
Naquele momento, pude ver mais da nova Scarlett. Ela não era mais a garotinha que costumava ser. Seus últimos três anos na França a transformaram de um simples botão em uma delicada rosa.
Seus longos cílios tremiam. Seus lábios estavam pressionados formando uma linha fina, como se ela estivesse segurando algo. A cada minuto que passava, seu rosto ficava ainda mais vermelho.
Peguei a camisa da mão dela e rapidamente a vesti.
Já vestido com uma camisa limpa, voltamos para a sala de estar juntos.
"Eu não tenho muitos anos, Charles. Por que você não pode viver uma vida pacífica com Scarlett? Por que você está sempre encontrando uma maneira de me irritar, hein?" Vovó continuava me repreendendo.
"Vovó, da próxima vez que você quiser vir aqui, você pode me ligar e eu vou buscá-la, está bem?" Como não sabia o que responder, então decidi mudar de assunto.
"Não, obrigada! Você está sempre muito ocupado. Não quero incomodar você. Eu só quero ver se você está tratando sua esposa como se deve."
"Vovó, eu estou bem", Scarlett entrou na conversa.
"Muito bem, então. A propósito, não se esqueça da festa de sessenta anos do Grupo Moore amanhã. Charles, espero que você compre para Scarlett um lindo vestido de noite para a festa de amanhã. Quero que todos vejam como você é um homem de sorte de ter uma esposa como ela. Não me deixe infeliz de novo, você está me ouvindo, jovem?"
"Claro, vovó."
Depois de conversar com minha avó e minha mãe por um longo tempo, finalmente consegui convencê-las de encerrar a noite, e nos despedimos.
Dadas as circunstâncias, não tinha como mencionar o divórcio para elas sem desencadear o início do fim do mundo.