Para manter meu namorado, Alex, na faculdade de direito, implorei ao meu pai que pagasse a mensalidade dele. Mas no dia em que me mudei para a cidade para ficar com ele, o encontrei me traindo com minha melhor amiga, Ísis.
A traição não parou por aí. Meu pai, um respeitado líder sindical, foi acusado injustamente de desviar fundos - o mesmo dinheiro que ele pegou emprestado para Alex - e morreu em desgraça. Minha mãe teve um colapso nervoso por causa da dor.
Enquanto cuidava da minha mãe, negligenciei minha própria saúde, apenas para ser diagnosticada com câncer terminal.
Voltando para minha cidade natal para morrer, encontrei Alex e Ísis novamente. Ísis, agora grávida do filho de Alex, zombou de mim.
"Seu pai me implorou para deixar o Alex em paz", disse ela, com um sorriso cruel no rosto. "Então eu o denunciei. Ele morreu por sua causa, Clarice. Foi você quem o matou."
Capítulo 1
O vento cortante castigava minha pele nua, uma recepção adequada à cidade que jurei nunca mais ver, especialmente não assim - morrendo.
O outono em Volta Redonda sempre pareceu uma provocação breve e cruel. Algumas semanas de vermelhos e dourados vibrantes, e então o cinza brutal descia, agarrando-se a tudo.
Não era apenas o vento, era o frio úmido que se infiltrava nos meus ossos, um frio que espelhava o que se espalhava dentro de mim. Cada respiração parecia inalar cacos de gelo.
Meus passos eram lentos, pesados, cada um uma luta contra a corrente invisível que me puxava de volta a um passado do qual tentei fugir. A tinta descascada do corrimão da varanda, a veneziana torta na janela do segundo andar - tudo estava exatamente como eu me lembrava. Esta casa, meu lar de infância, resistia ao tempo, um monumento silencioso ao que um dia foi.
Ela continuava sem ser vendida, não por qualquer esforço meu, mas porque Alex, de alguma forma, conseguiu mantê-la. Uma amarra estranha e distorcida que ele se recusava a cortar.
Minha mão instintivamente alcançou o tijolo solto perto da porta da frente, o lugar onde meu pai sempre escondia a chave reserva. Um hábito de uma vida inteira atrás.
Meus dedos encontraram argamassa fria e vazia. A chave não estava lá.
Um choque agudo e inesperado me atravessou, como uma queda súbita em um elevador. Era uma coisa estúpida, pequena, mas enviou um tremor através da muralha cuidadosamente construída ao redor do meu coração.
Então, uma presença atrás de mim. Eu não precisei me virar. O cheiro familiar, uma mistura de perfume caro e algo unicamente dele, já estava me sufocando.
Seu braço envolveu minha cintura, me puxando para perto. Perto demais. Minhas costas pressionaram contra seu peito, cada centímetro do meu corpo gritando em protesto.
Eu enrijeci, uma ordem silenciosa para que ele me soltasse. Quando ele não o fez, eu me virei, forçando-me a encará-lo. Seus olhos, o mesmo azul penetrante em que um dia me afoguei, estavam a centímetros dos meus.
"Clarice", ele sussurrou, sua voz um murmúrio grave. "Você parece... pálida. Você está bem?"
A preocupação em seu tom soava como uma língua estrangeira, uma zombaria cruel do que um dia fomos. Puxei minha mão de seu aperto, dando um passo para trás, colocando a maior distância possível entre nós sem correr.
Ele apenas ficou ali, me observando, seu olhar intenso, inabalável. Era o mesmo olhar que ele costumava me dar quando tentava decifrar meu próximo movimento, um olhar calculista de advogado.
Ele enfiou a mão no bolso do paletó, tirando lentamente algo pequeno e metálico.
Era o broche do sindicato do meu pai, aquele que ele usava todos os dias, um símbolo de seu orgulho e do trabalho de sua vida. A águia de latão gasta, a pequena faixa de esmalte desbotado.
"Você sempre esquecia isso", disse ele, a voz mais suave agora, quase nostálgica. Ele tentou pressioná-lo na minha palma.
Eu balancei a cabeça, meus lábios pressionados em uma linha fina.
"Não."
Minha voz era um sussurro rouco.
Sua mão vacilou.
"Você costumava usar, lembra? Para dar sorte, antes das provas, das reuniões importantes..."
Seu olhar caiu para o broche em sua mão, demorando-se na águia. Um lampejo de algo indecifrável cruzou seu rosto, rapidamente mascarado. Ele guardou o broche de volta no bolso.
"Você esqueceu suas chaves também?", ele perguntou, tentando soar casual, mas as bordas de sua voz estavam ásperas.
Eu assenti, sem confiar em mim mesma para falar.
"Eu posso te levar na loja", ele ofereceu, já se virando em direção ao seu carro, o andar familiar e confiante em seus passos. Ele sempre assumia o controle, sempre tinha um plano.
Uma risada silenciosa borbulhou na minha garganta. Me levar na loja? Como nos velhos tempos, quando éramos apenas crianças, cheios de sonhos tolos. Aquele Alex estava morto há muito tempo. Este homem era um estranho, envolto no fantasma de um amante.
Não somos nada além de estranhos agora.
Uma caminhonete surrada roncou pela rua, seus faróis cortando a penumbra crescente. Eu vi minha chance, um vislumbre de independência.
"Com licença!", chamei, minha voz rouca. "Poderia me dar uma carona até a farmácia, por favor?"
O motorista, um homem robusto com um rosto gentil, diminuiu a velocidade, sua janela descendo com um gemido. Ele me olhou de soslaio.
"Claro, moça. Sobe aí."
Olhei para trás, para Alex, que ainda estava parado ao lado de seu carro, uma figura silenciosa e imponente na luz fraca. Subi na caminhonete sem outra palavra.
Enquanto nos afastávamos, o motorista deu uma olhada no retrovisor, depois para mim.
"Ele é seu marido?", perguntou ele, um sorriso amigável se espalhando por seu rosto.
Minha garganta se apertou, uma pressão familiar crescendo atrás das minhas costelas. Aconcheguei-me mais no meu casaco, desejando que o tecido pudesse de alguma forma me proteger do mundo, dele.
"Não", consegui dizer, minha voz mal passando de um sussurro. "Meu ex-marido."
As sobrancelhas do motorista se ergueram.
"Ah. Bem, ele com certeza estava te secando com os olhos. Estava te esperando, eu acho."
Ele riu, um som caloroso e inocente que irritou meus nervos em frangalhos.
"Você devia ter dado um susto nele, fazê-lo suar um pouco. É bom pra eles."
Uma risada sem humor escapou de mim.
"Estamos divorciados há oito anos."
O sorriso do motorista desapareceu.
"Ah. Minhas desculpas, moça. Eu só presumi..."
"Ele mora a algumas quadras daqui", expliquei, meu olhar fixo na figura de Alex que se afastava no retrovisor. Ele estava ficando menor, desaparecendo na escuridão. "Ele não estava me esperando." Não de verdade. Não mais.
O motorista pigarreou, uma tosse sem graça.
"Certo. Então, você morava por aqui, né?" Ele tentou mudar de assunto, sua voz cuidadosamente neutra.
"Sim. Esta era a minha casa." Observei Alex desaparecer completamente, um adeus final e doloroso a uma sombra. Meus dedos esfregaram o tecido gasto da minha manga, um sorriso amargo torcendo meus lábios.
"É só que é estranho, então", continuou o motorista, "você voltar agora, depois de todo esse tempo."
"Não é nada estranho", eu disse, minha voz vazia. "Minha mãe faleceu no mês passado. Eu estava cuidando dela."
O rosto do motorista se entristeceu.
"Ah, sinto muito pela sua perda."
"E então", acrescentei, as palavras saindo de mim, quase desapegadas, "meus próprios tratamentos demoraram mais do que o esperado."
Ele apenas assentiu, a boca fechada, os olhos cheios de pena. Eu odiava pena.
"Está tudo bem", eu disse, um leve sorriso tocando meus lábios. "Todos nós temos que ir um dia, certo? Não adianta ficar triste com isso."
Ele não respondeu, apenas apertou o volante com mais força.
"Quando recebi meu diagnóstico", continuei, olhando para os postes de luz que passavam, "todos de repente começaram a se importar. Como se importasse. Como se já não tivessem me esquecido."
"Mas eu parei de me importar há muito tempo", eu disse, as palavras pesadas com uma verdade que eu vivi por anos. "No dia em que assinei aqueles papéis do divórcio, parei de me importar com qualquer coisa além de colocar um pé na frente do outro."
O motorista permaneceu em silêncio, o olhar fixo na estrada, ocasionalmente me lançando um olhar. Ele ouviu, realmente ouviu, e pela primeira vez no que pareceu uma eternidade, senti uma estranha sensação de leveza, como se desabafar fosse um alívio físico.
Ele parou em frente à farmácia bem iluminada, o brilho fluorescente e forte um contraste gritante com a escuridão que se aproximava. Quando alcancei a maçaneta da porta, ele chamou meu nome, sua voz hesitante.
"Clarice", ele começou, a testa franzida em uma expressão conflitante. "Não quero ser intrometido, mas... você disse que se divorciou por causa do Alex. E ele parecia... angustiado. Sempre cuidando de você, parecia." Ele fez uma pausa, mordendo o lábio. "Talvez você não devesse ficar sozinha agora."
Empurrei a porta pesada, o cheiro estéril de antissépticos e remédios saindo.
"Ele nem sempre foi assim", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "Ele costumava cuidar de mim, sim. Mas aquele era um Alex diferente, de uma vida diferente."
Saí da caminhonete, virando-me para encará-lo.
"A verdadeira razão pela qual nos divorciamos? Ele me traiu." As palavras foram diretas, sem cerimônia, desprovidas da dor que um dia continham. "Com a minha melhor amiga."
Ele se encolheu, como se eu o tivesse golpeado.
"Nós crescemos juntos, Alex e eu", continuei, uma dor fantasma agitando meu peito. "Desde que éramos crianças, correndo soltos por essas ruas, nesta cidade. Ela não mudou muito, mas as pessoas... elas certamente mudaram."
Minha mente divagou, para uma tarde ensolarada, o cheiro de madressilva espesso no ar. Estávamos no ensino médio, e eu tinha esquecido a chave de casa, de novo. Papai estava no trabalho, mamãe estava com a Dona Helena. Alex tinha me acompanhado da escola para casa naquele dia, como sempre fazia.
"Não se preocupe, Clarice", ele dissera, sua mão apertando suavemente meu ombro. "Nós vamos dar um jeito."
Ele se sentou comigo no balanço da varanda, contando histórias engraçadas da aula, me fazendo rir até o sol começar a mergulhar no horizonte. As horas voaram, e a longa espera por meus pais se tornou insignificante, encurtada por sua presença.
Éramos inseparáveis, um universo de duas pessoas. Nossas memórias de infância estavam entrelaçadas, uma tapeçaria tecida com risadas compartilhadas e segredos sussurrados. Navegamos pela adolescência lado a lado, nossos sonhos e medos espelhando os um do outro. Naquele dia fatídico após a formatura do ensino médio, sob o velho carvalho perto do rio, ele me beijou. Não foi um beijo hesitante e tímido, mas uma promessa, uma declaração.
"Eu te amo, Clarice", ele sussurrou contra meus lábios, sua voz embargada de emoção. "Sempre."
Éramos tudo um para o outro. Nossa juventude, nossas esperanças, todo o nosso futuro parecia ligado. Não havia 'Clarice' sem 'Alex', e não havia 'Alex' sem 'Clarice'.
Então veio a notícia que ameaçou nos separar. A família de Alex, já com dificuldades, não podia pagar para mandá-lo para a faculdade, muito menos para a faculdade de direito, que era seu sonho. Ele ia desistir, arrumar um emprego na fábrica, como seu pai. Lembro-me dele me contando, sua voz vazia, enquanto se sentava atrás de mim, escovando suavemente meu cabelo. Era um ritual que tínhamos. Ele adorava escovar meu cabelo.
"É assim que as coisas são", ele dissera, seus dedos ainda no meu cabelo, mas seu toque parecia distante, resignado. "Eu tenho que ajudar minha família."
Meu coração se partiu. Eu não conseguia imaginar um futuro sem ele ao meu lado. Naquela noite, pela primeira vez, pedi ao meu pai algo realmente grande, algo que parecia monumental.
"Pai", comecei, minha voz tremendo, "eu preciso do Alex. Eu quero ficar com ele, para sempre."
Ele tomou um longo gole de seu chá, seu olhar pensativo enquanto me olhava por cima da borda da caneca. Ele a pousou com um clique suave, depois apenas me observou, seus olhos procurando os meus.
"Você tem certeza absoluta, Clarice?", ele perguntou, sua voz baixa e séria. "Você tem certeza mesmo que não pode viver sem ele?"
Eu assenti, com toda a certeza desesperada de uma jovem loucamente apaixonada. Minha cabeça balançou vigorosamente, um apelo silencioso. Sim, pai. Sim, eu tenho.