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Amor, Mentiras e um Cão Fatal

Amor, Mentiras e um Cão Fatal

Autor:: San Cailing
Gênero: Romance
Meu mundo desabou com um telefonema desesperado: minha mãe tinha sido atacada por um cachorro. Corri para a emergência, apenas para encontrá-la gravemente ferida, e meu noivo, Caio, indiferente e irritado. Ele chegou em seu terno caro, mal olhando para minha mãe ensanguentada antes de reclamar de sua reunião interrompida. "Pra que todo esse drama? Eu estava no meio de uma reunião." Então, chocantemente, ele defendeu o cachorro, Caesar, que pertencia à sua amiga de infância, Helena, alegando que ele "só estava brincando" e que minha mãe "provavelmente o assustou". O médico falou em "lacerações graves" e infecção, mas Caio só via um inconveniente. Helena, a dona do cachorro, apareceu, fingindo preocupação enquanto me lançava um sorriso triunfante. Caio passou um braço ao redor dela, declarando: "Não é sua culpa, Lena. Foi um acidente." Ele então anunciou que ainda iria em sua "viagem de negócios de bilhões de reais" para Zurique, me dizendo para enviar a conta do hospital para sua assistente. Dois dias depois, minha mãe morreu por causa da infecção. Enquanto eu organizava seu funeral, escolhia suas roupas para o enterro e escrevia um elogio que não conseguia ler, Caio estava inacessível. O telefone dele estava desligado. Então, uma notificação do Instagram apareceu: uma foto de Caio e Helena em um iate nas Maldivas, com taças de champanhe na mão, e a legenda: "Vivendo a vida boa nas Maldivas! Viagens espontâneas são as melhores! #abençoados #quemprecisadezurique?". Ele não estava em uma viagem de negócios. Ele estava em férias luxuosas com a mulher cujo cachorro havia matado minha mãe. A traição foi um baque físico. Todas as suas promessas, seu amor, sua preocupação – tudo mentira. Ajoelhada no túmulo da minha mãe, eu finalmente entendi. Meus sacrifícios, meu trabalho duro, meu amor – tudo em vão. Ele me abandonou na minha hora mais sombria por outra mulher. Tinha acabado.

Capítulo 1

Meu mundo desabou com um telefonema desesperado: minha mãe tinha sido atacada por um cachorro. Corri para a emergência, apenas para encontrá-la gravemente ferida, e meu noivo, Caio, indiferente e irritado.

Ele chegou em seu terno caro, mal olhando para minha mãe ensanguentada antes de reclamar de sua reunião interrompida. "Pra que todo esse drama? Eu estava no meio de uma reunião." Então, chocantemente, ele defendeu o cachorro, Caesar, que pertencia à sua amiga de infância, Helena, alegando que ele "só estava brincando" e que minha mãe "provavelmente o assustou".

O médico falou em "lacerações graves" e infecção, mas Caio só via um inconveniente. Helena, a dona do cachorro, apareceu, fingindo preocupação enquanto me lançava um sorriso triunfante. Caio passou um braço ao redor dela, declarando: "Não é sua culpa, Lena. Foi um acidente." Ele então anunciou que ainda iria em sua "viagem de negócios de bilhões de reais" para Zurique, me dizendo para enviar a conta do hospital para sua assistente.

Dois dias depois, minha mãe morreu por causa da infecção. Enquanto eu organizava seu funeral, escolhia suas roupas para o enterro e escrevia um elogio que não conseguia ler, Caio estava inacessível. O telefone dele estava desligado.

Então, uma notificação do Instagram apareceu: uma foto de Caio e Helena em um iate nas Maldivas, com taças de champanhe na mão, e a legenda: "Vivendo a vida boa nas Maldivas! Viagens espontâneas são as melhores! #abençoados #quemprecisadezurique?". Ele não estava em uma viagem de negócios. Ele estava em férias luxuosas com a mulher cujo cachorro havia matado minha mãe.

A traição foi um baque físico. Todas as suas promessas, seu amor, sua preocupação – tudo mentira. Ajoelhada no túmulo da minha mãe, eu finalmente entendi. Meus sacrifícios, meu trabalho duro, meu amor – tudo em vão. Ele me abandonou na minha hora mais sombria por outra mulher. Tinha acabado.

Capítulo 1

A ligação rasgou o silêncio do meu escritório. Era uma vizinha, sua voz frenética e aguda.

"Júlia, é a sua mãe! Você precisa vir rápido! Um cachorro... atacou ela!"

Meu mundo girou. Deixei cair a caneta que estava segurando, o som ecoando no silêncio repentino. Murmurei algo, um agradecimento ou uma confirmação, não me lembro. Apenas peguei minhas chaves e corri.

Eu a encontrei na sala de emergência. O braço dela estava envolto em bandagens brancas e grossas, mas o sangue já começava a vazar, manchando o tecido de um vermelho aterrorizante. Seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados de choque e dor.

"Mãe", sussurrei, minha voz falhando.

Ela tentou sorrir, mas foi uma careta.

"Está tudo bem, Júlia. Eu estou bem."

O médico me disse que o ferimento era profundo. Eles estavam preocupados com uma infecção.

Naquele momento, meu noivo, Caio Almeida Prado, chegou. Ele entrou, seu terno caro e impecável, o cabelo perfeitamente no lugar. Ele olhou para minha mãe, depois para mim, e sua testa franziu levemente.

"Pra que todo esse drama? Eu estava no meio de uma reunião."

O tom dele era leve, quase entediado. Aquilo me irritou profundamente.

"Um cachorro a atacou, Caio. Era o cachorro da Helena."

Helena Vasconcelos. Sua amiga de infância. A mulher que me olhava como se eu fosse algo que ela tinha raspado da sola do sapato.

A expressão de Caio suavizou, mas não com preocupação pela minha mãe. Foi alívio.

"Ah, o Caesar? Ele só é brincalhão. Sua mãe provavelmente o assustou."

Eu o encarei, incapaz de acreditar no que estava ouvindo. Brincalhão? O médico tinha usado as palavras "lacerações graves".

"Ele é um bom cachorro", continuou Caio, dando um tapinha no meu ombro. "A Helena nunca o deixaria machucar ninguém de propósito. De qualquer forma, sua mãe não deveria estar tentando acariciar um cachorro estranho."

Uma fúria fria e cortante me atravessou. Olhei do rosto pálido da minha mãe para o rosto indiferente de Caio.

"Ela não estava tentando acariciá-lo. Ele simplesmente avançou."

Helena escolheu aquele momento para aparecer, seus olhos arregalados com falsa preocupação. Ela correu para o lado de Caio, me ignorando completamente.

"Caio, ela está bem? Eu me sinto péssima. O Caesar nunca fez nada assim antes. Ele geralmente é um doce."

Ela me lançou um sorrisinho rápido e triunfante quando Caio não estava olhando. O olhar dizia: *Viu? Ele sempre vai me escolher.*

Caio passou um braço ao redor dela.

"Não é sua culpa, Lena. Foi um acidente."

Ele então se virou para mim, sua voz puramente profissional.

"Olha, eu tenho aquela viagem de negócios importante para Zurique amanhã. Não posso cancelar. Certifique-se de que o hospital dê a ela o melhor tratamento. Envie a conta para minha assistente."

Senti uma calma estranha tomar conta de mim. Era o tipo de silêncio que precede a tempestade.

"Você ainda vai?", perguntei, minha voz neutra.

"Claro. É um negócio de bilhões de reais, Júlia. Você sabe o quão importante isso é."

Ele não viu o olhar em meus olhos. Ele não viu as pequenas rachaduras em meu coração começando a se abrir.

"Tudo bem, Caio", eu disse suavemente. "Você deveria ir."

Ele sorriu, aliviado por eu não estar fazendo uma cena.

"Essa é a minha garota. Eu sabia que você entenderia."

Ele deu outro tapinha paternalista no meu ombro.

"Eu te ligo quando pousar."

Eu o observei e a Helena se afastarem, o braço dele ainda em volta dos ombros dela enquanto ela enxugava os olhos secos. Eu não disse o que estava pensando. Eu não disse: *Nem se incomode.*

Dois dias depois, o estado da minha mãe piorou. A infecção havia se espalhado. A febre dela disparou. Os médicos estavam fazendo tudo o que podiam, mas ela estava escapando.

Ela morreu naquela noite.

O mundo ficou em silêncio. O som dos bipes das máquinas parou. O único som era o da minha própria respiração ofegante.

Tentei ligar para o Caio. Na primeira vez, foi direto para a caixa postal. Tentei de novo. E de novo. Nenhuma resposta. O telefone dele estava desligado. *Ele deve estar no avião*, eu disse a mim mesma. *Ele vai ligar quando pousar. Ele prometeu.*

Os dias seguintes foram um borrão de atividades entorpecentes. Organizei o funeral. Escolhi um caixão. Escrevi um elogio que não tive coragem de ler. Minha mãe estava tão animada para o casamento. Ela já tinha comprado o vestido, um lindo lavanda que, segundo ela, realçava a cor de seus olhos. Agora, eu estava escolhendo suas roupas para o enterro.

Meus amigos e familiares estavam furiosos.

"Onde ele está, Júlia? Onde está aquele desgraçado do Caio?", meu primo cuspiu, o rosto vermelho de raiva.

Eu continuei inventando desculpas para ele.

"Ele está em uma viagem de negócios. Ele não sabe. Ele ficará arrasado quando descobrir."

Eu estava mentindo para eles. Eu estava mentindo para mim mesma.

O funeral foi pequeno e silencioso, exatamente como minha mãe gostaria. Fiquei ao lado de seu túmulo, o vento frio chicoteando meu cabelo no rosto. Eu me sentia oca, completamente esvaziada.

Depois que todos foram embora, eu fiquei, encarando a terra recém-revolvida. Meu celular vibrou no meu bolso. Era uma notificação do Instagram. Um amigo havia me marcado em uma postagem.

Meus dedos tremeram enquanto eu abria o aplicativo.

A foto era brilhante e ensolarada. Um iate, um oceano azul-turquesa e dois rostos sorridentes. Caio e Helena. Ele estava com o braço em volta dela, e ela ria, segurando uma taça de champanhe. A legenda dizia: "Vivendo a vida boa nas Maldivas! Viagens espontâneas são as melhores! #abençoados #quemprecisadezurique?".

A foto foi postada há cinco horas. Enquanto eu enterrava minha mãe, ele estava em férias luxuosas com a mulher cujo cachorro a havia matado.

Uma onda de náusea me atingiu. Dobrei-me, ofegante, meu estômago se revirando. A traição era algo físico, um veneno se espalhando pelas minhas veias.

Não era uma viagem de negócios. Era tudo uma mentira. Sua preocupação, seu amor, suas promessas – tudo mentira.

Ajoelhei-me no chão frio, meus joelhos afundando na terra. A tela do meu celular estava embaçada com minhas lágrimas. Olhei para o nome da minha mãe na lápide simples.

"Me desculpe, mãe", sussurrei, minha voz rouca. "Me desculpe por ter deixado ele te machucar."

Fiquei ali por muito tempo, o frio se infiltrando em meus ossos. Quando finalmente me levantei, minhas pernas estavam dormentes e rígidas.

Olhei para a foto uma última vez, para o rosto sorridente e despreocupado dele.

"Ele não vale a pena, mãe", eu disse, minha voz clara e firme. "Ele não vale a sua vida. Ele não vale a minha."

Fiz uma promessa a ela então, um voto silencioso. Tinha acabado.

Capítulo 2

Caio e eu nos conhecemos em uma sala de aula lotada na faculdade. Ele era o garoto de ouro, herdeiro do império de tecnologia Almeida Prado, irradiando uma confiança que vinha de uma vida sem obstáculos. Eu era uma bolsista, perpetuamente preocupada com minhas notas e meu emprego de meio período, invisível no mar de rostos privilegiados.

Mas ele me notou. Ele me perseguiu com uma intensidade obstinada que era ao mesmo tempo lisonjeira e avassaladora.

"Status social não significa nada pra mim, Júlia", ele disse uma noite, sob um céu cheio de estrelas. "É você que eu quero. Eu desistiria de tudo por você."

Eu acreditei nele. Me apaixonei por ele, de forma intensa e rápida. O mundo dele era inebriante, um turbilhão de glamour e possibilidades que eu só tinha lido em livros. Mas eu sempre estava ciente dos sussurros, dos olhares de desaprovação de sua família e amigos. Eu era a garota do lado errado da cidade, não boa o suficiente para o herdeiro dos Almeida Prado.

Então, decidi provar que eles estavam errados.

Quando ele me ofereceu um emprego na empresa de sua família, o Grupo Almeida Prado, após a formatura, eu aceitei. Mantivemos nosso relacionamento em segredo no início. Eu queria conquistar meu lugar, mostrar a todos que eu era mais do que apenas a namorada do Caio.

Eu me dediquei de corpo e alma àquela empresa. Eu era a primeira a chegar e a última a sair. Trabalhava nos fins de semana e feriados, sobrevivendo de café e ambição. Uma vez, trabalhei por três dias seguidos em uma proposta de projeto importante, dormindo em um catre no meu escritório, até desmaiar de exaustão logo após a apresentação. Eu não me importava. O projeto foi um sucesso.

Eu acreditava que meu trabalho duro era o preço da entrada no mundo dele. Pensei que se eu pudesse me tornar indispensável, se eu pudesse alcançar o suficiente, ninguém poderia questionar meu valor para estar ao seu lado.

E por um tempo, funcionou. Subi na hierarquia, minhas conquistas eram inegáveis. Caio tinha orgulho de mim. Ele se gabava dos meus sucessos para o pai dele, para os amigos.

O dia em que ele me levou ao topo da Torre Almeida Prado, se ajoelhou e me pediu em casamento publicamente foi o dia mais feliz da minha vida. Ele anunciou nosso noivado para o mundo, silenciando os críticos. Eu finalmente tinha conseguido. Eu tinha conquistado meu lugar.

Então, Helena Vasconcelos voltou para a cidade.

Ela era sua melhor amiga de infância, uma socialite com um sorriso de serpente e um senso de direito tão vasto quanto seu fundo fiduciário. Ela estava morando no exterior, e seu retorno foi como uma sombra caindo sobre nossas vidas.

Lentamente, as coisas começaram a mudar. O tempo que Caio passava comigo começou a diminuir.

"A Helena só está tendo dificuldade para se readaptar", ele dizia quando cancelava nossos jantares para sair com ela. "Ela precisa de mim agora."

Ele a chamava de "Lena". Um apelido fofo e afetuoso. Ele sempre me chamava de Júlia.

Ele começou a passar cada vez mais tempo com ela. Bebidas tarde da noite se tornaram fins de semana inteiros fora. Suas redes sociais, antes cheias de fotos nossas, agora eram uma galeria de suas aventuras com Helena. Esquiando em Aspen, degustação de vinhos em Bento Gonçalves, velejando em Angra dos Reis.

Quando eu tocava no assunto, minha voz tensa com um ciúme que eu odiava, ele suspirava.

"Você está sendo insegura, Júlia. Ela é como uma irmã pra mim. Você sabe disso."

Era sempre a mesma desculpa. *Ela é como uma irmã.*

Ele chegava em casa tarde, cheirando ao perfume dela, e caía na cama sem dizer uma palavra. Eu ficava acordada, olhando para o teto, meu coração um nó apertado de dúvida e ansiedade.

Eu dizia a mim mesma que estava pensando demais. Eu dizia a mim mesma para confiar nele. Ele me amava. Íamos nos casar. Eu tinha investido anos da minha vida, meu suor e minha alma, neste relacionamento, nesta empresa, para provar que eu era digna. Eu não podia deixar tudo ser em vão.

Então, eu reprimi minhas dúvidas. Ignorei o nó no estômago. Escolhi acreditar em suas mentiras porque a verdade era dolorosa demais para enfrentar.

O ataque à minha mãe foi o catalisador. Sua indiferença casual, sua defesa de Helena, sua priorização de uma "viagem de negócios" sobre a crise da minha família – foi o auge de mil pequenas traições.

Mas mesmo assim, uma parte de mim tentou inventar desculpas. Até eu ver aquela foto das Maldivas.

Aquela única foto comemorativa destruiu cada ilusão a que eu havia me apegado. Não havia viagem de negócios. Não havia mal-entendido.

Havia apenas uma mentira. Uma mentira profunda, cruel e abrangente.

Ele não estava apenas priorizando sua amiga. Ele me abandonou na minha hora mais sombria para ir a uma viagem romântica com outra mulher.

A desculpa da irmã era uma mentira patética e transparente na qual eu fui uma tola por acreditar.

E naquele momento, ajoelhada no túmulo da minha mãe, eu finalmente entendi. Meu trabalho duro não me garantiu um lugar ao lado dele. Apenas me tornou uma substituta conveniente e autossuficiente até que alguém que ele considerasse mais adequado aparecesse.

Todos os meus sacrifícios foram em vão. O amor que eu pensei que tínhamos era uma farsa.

A decisão não era mais uma decisão. Era uma certeza. Um fato frio e duro. Eu estava farta.

Capítulo 3

Uma semana depois do funeral, voltei ao Grupo Almeida Prado. Não para trabalhar, mas para arrumar minhas coisas. Entrei no escritório elegante e minimalista que fora meu segundo lar por anos, e parecia um país estrangeiro.

Eu estava terminando de colocar meus últimos pertences em uma caixa quando a porta se abriu. Era Caio, com um ar bronzeado e descansado. Atrás dele, segurando uma coleira, estava Helena. E na ponta da coleira estava Caesar, o enorme Mastim Tibetano que havia matado minha mãe.

Meu sangue gelou.

"Júlia, meu amor, você voltou!", disse Caio, com a voz alegre, como se tivesse acabado de voltar de uma viagem de negócios normal. "Eu estava tão preocupado. Você não estava atendendo o telefone."

Olhei para ele, depois para o cachorro, e de volta para ele. Não disse nada.

"Eu sinto muito, muito mesmo, pela sua mãe", disse Helena, sua voz escorrendo falsa compaixão. Ela deu um puxãozinho na coleira. Caesar ofegava, a língua para fora. Ele era apenas um cachorro, um instrumento da malícia dela. Minha raiva não era por ele. Era por eles.

Caio deu um passo à frente.

"A Helena se sente péssima com o que aconteceu. Viemos aqui para nos desculparmos apropriadamente."

Ele colocou o braço em volta de Helena, que se inclinou nele, olhando para ele com olhos de adoração.

"Ele tem sido tão doce, cuidando do pobre Caesar. A coisa toda foi tão traumática para ele, sabe. Ele mal tem comido."

Meu olhar estava fixo no cachorro. O animal que havia rasgado a carne da minha mãe. E eles o trouxeram aqui. Para o meu escritório.

"Queremos consertar as coisas", disse Caio com seriedade. "Mas só podemos fazer isso se você estiver disposta a nos encontrar no meio do caminho, Júlia."

Um pedido de desculpas com condições. Típico do Caio.

Finalmente encontrei minha voz. Estava firme, desprovida de emoção.

"O cachorro também quer se desculpar?"

A pergunta pairou no ar.

O rosto de Helena se contraiu.

"O que isso quer dizer?"

"Quer dizer", eu disse, voltando toda a minha atenção para ela, "que foi ele quem mordeu. Ou você se esqueceu dessa parte? Talvez ele devesse se ajoelhar nas patas e implorar pelo meu perdão."

O rosto de Helena ficou vermelho e manchado.

"Você está sendo ridícula! Ele é só um animal!"

"Exatamente", eu disse. "E minha mãe era só uma pessoa."

"Júlia, já chega!", Caio retrucou, sua voz afiada. A máscara de arrependimento havia caído. "Você está magoando a Helena."

Ele a puxou para mais perto, acariciando seu cabelo.

"Ela já passou por muita coisa. Ela está aqui, tentando ser a pessoa madura e se desculpar, e você a está atacando."

Uma dor, tão aguda e familiar, atravessou meu peito. Ele a estava defendendo. De novo. Mesmo agora.

Por que eu pensei que seria diferente? Por que, por um segundo, pensei que ele tinha vindo aqui por mim?

Helena começou a fungar, enterrando o rosto no peito de Caio.

"Eu só queria dizer que sentia muito", ela choramingou. "Eu nunca quis que nada disso acontecesse."

"Eu sei, Lena, eu sei", Caio arrulhou, fuzilando-me com o olhar por cima da cabeça dela. "Ela só está de luto. Não está em seu juízo perfeito."

Então ele olhou para mim, o rosto duro.

"Você deve um pedido de desculpas à Helena. Você foi cruel e injusta."

A exigência era tão absurda, tão grotescamente injusta, que quase ri. Pedir desculpas? Para ela? A mulher que sorriu enquanto meu mundo desmoronava?

"Não", eu disse.

A palavra foi baixa, mas teve a força de um tiro.

"O que você disse?"

"Eu disse não."

"Júlia Soares!", ele rugiu, usando meu nome completo pela primeira vez em todo o nosso relacionamento. Soou como uma acusação. "O que deu em você? Você está sendo completamente irracional!"

"Estou?", perguntei, minha voz ainda perturbadoramente calma. "Deixe-me te perguntar uma coisa, Caio. Quando enterraram minha mãe, ela parecia irracional para você?"

Ele recuou, o rosto pálido. Ele não tinha resposta.

Virei-me, peguei minha caixa de pertences e caminhei em direção à porta.

"Onde você vai?", ele exigiu.

Eu não olhei para trás. Ao passar pela mesa de sua secretária, coloquei um envelope branco sobre ela.

"Minha demissão", eu disse à mulher de aparência atônita. "Efetiva imediatamente."

Como vice-presidente sênior, eu não precisava da aprovação dele para sair. Eu tinha essa autoridade. Era uma das poucas coisas que eu tinha que era verdadeiramente minha.

Não fui para casa. Não suportava a ideia de estar naquela casa, um espaço que um dia foi nosso e agora parecia contaminado. Fiz check-in em um hotel no centro.

Meu celular vibrava incessantemente. Uma enxurrada de mensagens de Caio.

*Júlia, onde você está?*

*Não faz isso. Podemos conversar.*

*Me desculpe. Eu fui um idiota. Por favor, volte para casa.*

*Eu te amo.*

Olhei para as mensagens, uma após a outra, e não senti nada além de um vazio profundo e cansado.

Desliguei meu celular.

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