Meu nome é Sofia e, desde pequena, aprendi que a sobrevivência era meu único objetivo.
Eu flutuava pela vida como uma sombra, evitando ser notada, porque problemas, para mim, eram doenças contagiosas.
Meu pai, um chefão do crime quase invisível, garantia que o dinheiro nunca faltasse, uma proteção perigosa e distante.
Até que um dia, Jonas e seus capangas invadiram minha casa, certos de que eu era uma presa fácil, com sorrisos maliciosos e a pergunta: "E aí, princesinha? Sozinha em casa?".
Mas eu não estava.
Eu sabia que violência bruta era para estúpidos; eu era estrategista.
Usei minhas ferramentas, e Jonas e seus amigos desapareceram na noite, sem rastros.
Limpo, eficiente, seguro.
Mas a falsa tranquilidade desmoronou numa terça-feira chuvosa, quando homens mascarados invadiram minha casa, e desta vez o alvo era eu.
Escutei-os se aproximando, suas vozes abafadas, enquanto me escondia, apavorada, no sótão, com meu coração batendo forte.
Não era para me matar, percebi depois, mas um teatro orquestrado para me lançar nos braços do rival do meu pai, Marco.
Fui um peão, manipulada para um jogo muito maior.
A raiva borbulhou em mim, não era mais sobre sobreviver, era sobre vingança.
E eu, Sofia, a filha que ele tentou usar, faria a música dele dançar no meu ritmo.
Meu nome é Sofia, e meu único objetivo sempre foi sobreviver.
Outras garotas da minha idade, na periferia onde cresci, sonhavam com um bom casamento, um emprego estável ou em sair daqui.
Eu não.
Eu sonhava em não ser notada, em passar pela vida como uma sombra.
Para mim, problemas eram como doenças contagiosas, eu via os outros se infectando e aprendi a manter distância.
Não por medo, mas por princípio.
A violência na minha rua era comum, brigas por dívidas, disputas por território, coisas que eu via pela janela.
Eu nunca me envolvia.
Meu pai, um homem que eu mal conhecia, garantia que o dinheiro nunca faltasse, a geladeira estivesse sempre cheia e as contas pagas.
Ele me dava proteção à distância, um anjo da guarda invisível e perigoso.
Isso bastava.
Um dia, um dos valentões do bairro, um cara chamado Jonas que se achava dono da área, decidiu que o silêncio da minha casa era um convite.
Ele e mais dois apareceram na minha porta, com sorrisos maliciosos e a certeza de que eu era uma presa fácil.
"E aí, princesinha? Sozinha em casa?", Jonas disse, tentando forçar a porta.
Eu não me movi.
Meu coração não acelerou.
Eu apenas o encarei, com a calma que a minha vida inteira me ensinou a ter.
"Não estou sozinha", eu disse, com a voz firme.
Ele riu, um som áspero e desagradável.
"Ah, não? E quem está aí com você? Um fantasma?"
Eu mantive o olhar fixo no dele.
"Algo pior."
Ele parou de rir.
A confiança em seu rosto vacilou por um segundo, substituída por uma ponta de dúvida.
Meus olhos não demonstravam medo, apenas um aviso frio.
Ele não sabia quem eu era, mas sentiu que havia algo errado.
"Vamos embora, Jonas. Deixa essa esquisita pra lá", um dos comparsas dele falou, claramente desconfortável.
Jonas hesitou, seu orgulho ferido.
Ele empurrou a porta mais uma vez, mas sem a mesma força.
Eu não recuei um centímetro.
"Saia da minha frente. Agora", eu falei, cada palavra pesando no ar.
Ele me olhou por mais um longo momento, procurando um sinal de fraqueza que não encontrou.
Então, ele cuspiu no chão ao lado do meu pé e se virou, indo embora com seus amigos.
Eu fechei a porta devagar.
Não senti alívio, nem raiva.
Apenas um cansaço familiar.
Eu não liguei para o meu pai.
Não precisava.
Naquela mesma noite, eu peguei meu celular, um aparelho simples que eu usava para emergências.
Eu não disquei o número do meu pai.
Disquei o número de um homem chamado Sílvio, um dos poucos contatos que meu pai insistiu que eu memorizasse. Sílvio era um "resolve-problemas".
A ligação foi curta.
"Sílvio."
"Sofia. Aconteceu alguma coisa?"
"Um problema na minha rua. Um cara chamado Jonas."
Eu não dei detalhes. Não precisei.
"Entendido", ele disse e desligou.
Na manhã seguinte, o bairro estava em silêncio.
Jonas e seus amigos desapareceram.
Ninguém nunca mais os viu.
Ninguém fez perguntas.
Eu nunca sujei minhas mãos.
Essa era a minha regra de ouro.
Força bruta era para os estúpidos, para aqueles que não sabiam usar as ferramentas certas.
Eu não era uma lutadora, eu era uma estrategista.
Desde pequena, eu entendi que o verdadeiro poder não estava em dar um soco, mas em fazer com que outra pessoa o desse por você.
Era mais limpo, mais eficiente e, acima de tudo, mais seguro.
Eu não sabia na época, mas essa filosofia estava prestes a ser testada no limite.
Eu usaria outras pessoas, suas ambições, seus medos e sua lealdade.
Elas seriam minhas armas e meus escudos.
E eu me tornaria a mestra de um jogo muito mais perigoso do que as ruas da periferia.
Um jogo de vida ou morte, onde sobreviver não seria mais o suficiente.
O objetivo seria dominar.
Minha história familiar é um buraco negro.
Fui abandonada pela minha mãe quando era um bebê, uma sombra sem rosto de quem eu não tenho nenhuma memória.
Meu pai, o chefão do crime, me criou. "Criou" é uma palavra forte, ele me sustentou.
Ele me colocou nesta casa pequena e segura na borda de um mundo que ele controlava, e me deixou lá, como uma planta que se rega de vez em quando para não morrer.
Eu o via talvez uma vez por ano.
Ele chegava em um carro preto, sempre com dois seguranças.
Entrava, olhava ao redor para ver se tudo estava em ordem, me olhava como se eu fosse um item em uma lista de tarefas.
"Você está bem, Sofia?", ele perguntava.
"Sim, pai."
"Precisa de alguma coisa?"
"Não, pai."
Ele então deixava um envelope grosso de dinheiro na mesa e ia embora.
Nenhum abraço, nenhum afeto.
Apenas a transação fria que definia nosso relacionamento.
Ele era um fantasma na minha vida, uma presença distante e poderosa que me mantinha viva, mas solitária.
Eu vivia em uma bolha.
Não tinha amigos, não ia a festas, não me metia em confusão.
Eu passava meus dias lendo, estudando, observando o mundo pela internet.
Era uma vida de clausura voluntária, uma estratégia para evitar o perigo que eu sabia que me cercava, mesmo sem vê-lo.
Meu pai era o dono das sombras, e eu era seu segredo mais bem guardado.
A tranquilidade acabou em uma terça-feira chuvosa.
O som da chuva na telha era a única coisa que quebrava o silêncio da casa.
Eu estava na cozinha, preparando um café, quando ouvi o barulho.
Não foi um barulho alto, foi um estalo seco, o som de madeira se partindo.
A porta dos fundos.
Meu corpo congelou por um instante.
Eu nunca recebia visitas. Ninguém sabia que eu morava ali, além do meu pai e de seus homens de confiança.
Lentamente, sem fazer barulho, eu me movi para a sala, pegando a faca mais pesada da gaveta de talheres no caminho.
Meu coração batia forte, mas minha mente estava clara.
Pela fresta da porta da sala, eu vi duas silhuetas masculinas se movendo no corredor.
Eles usavam máscaras e roupas escuras.
Eles não estavam ali para roubar.
Eles se moviam com um propósito, um objetivo.
E esse objetivo era eu.
O pânico tentou me dominar, mas eu o sufoquei.
Anos de solidão e observação me treinaram para isso.
Eu corri para o meu quarto, tranquei a porta e empurrei a cômoda pesada contra ela.
Era uma solução temporária, eu sabia.
Ouvi os passos deles se aproximando, as vozes abafadas.
"Ela está aqui. Verifiquem o quarto."
Eu não tinha para onde correr. A janela do meu quarto tinha grades, uma das muitas medidas de "segurança" do meu pai.
A maçaneta da porta girou, seguida por um baque surdo quando o corpo bateu contra a madeira.
Eles iam arrombar.
Olhei ao redor do quarto, desesperada.
Meu olhar caiu sobre o pequeno alçapão no teto, que levava ao sótão.
Era minha única chance.
Eu subi na cama, usei toda a minha força para empurrar a tampa do alçapão.
Poeira e teias de aranha caíram no meu rosto.
Com um esforço enorme, eu me ergui, passando pelo buraco estreito.
No momento em que meus pés deixaram o chão do quarto, a porta se abriu com um estrondo.
Eu me arrastei para o fundo do sótão escuro e poeirento, prendendo a respiração, tentando fazer meu coração parar de martelar no meu peito.
Eles entraram no quarto.
"Ela não está aqui! Onde ela foi?"
"A janela tem grades. Procurem de novo!"
Eu fiquei imóvel, encolhida atrás de caixas velhas, a faca ainda na minha mão.
A luz da lanterna de um deles varreu o sótão através da abertura, passando a centímetros de onde eu estava escondida.
Foi o minuto mais longo da minha vida.
"Ela sumiu. Vamos embora, antes que alguém apareça."
Ouvi eles saindo do quarto.
O som da porta da frente batendo me fez soltar o ar que eu nem sabia que estava prendendo.
Eu fiquei ali, no escuro, por horas.
Tremendo, não de medo, mas de uma raiva fria que começava a nascer dentro de mim.
Alguém quebrou as regras.
Alguém invadiu meu santuário.
Alguém tentou me matar.
E no mundo do meu pai, só havia uma razão para isso: uma ordem vinda de dentro.
Quando finalmente a noite caiu, eu desci do sótão.
A casa estava revirada.
Eu não podia ficar ali.
Peguei o envelope de dinheiro que meu pai tinha deixado, uma muda de roupa e a faca.
Eu saí pela porta dos fundos quebrada e andei pela noite chuvosa, sem rumo.
Eu não podia ligar para o Sílvio, não podia confiar em ninguém.
Caminhei por horas, até que meus pés doíam e minhas roupas estavam encharcadas.
Eu acabei em frente a um bar de luxo, um lugar que eu só tinha visto em filmes.
Na porta, um segurança enorme me olhou de cima a baixo.
Eu estava um lixo.
Mas antes que ele pudesse me expulsar, um homem saiu do bar.
Ele era mais velho, vestia um terno caro e tinha um ar de autoridade.
Ele me olhou, e algo em seu rosto mudou. Uma mistura de surpresa e curiosidade.
"Você está bem, moça?", ele perguntou.
Eu não respondi. Apenas o encarei, exausta e desconfiada.
Ele tirou o casaco e colocou sobre os meus ombros.
"Venha. Você não pode ficar na chuva."
Eu não sabia quem ele era, mas naquele momento, eu não tinha outra opção.
Eu o segui para dentro, para um mundo de luz e calor.
Um mundo que eu logo descobriria ser tão ou mais perigoso que a escuridão de onde eu vim.
Aquele homem, sem saber, tinha acabado de me dar refúgio.
Ele era Marco, o Chefe, o homem mais poderoso da cidade.
O rival do meu pai.
E eu tinha acabado de cair no centro do seu império.