A música alta da festa abafava, mas não calava as vozes ao meu redor.
"Pedro, e aí? Você ainda gosta da Beatriz?" , uma amiga dela perguntou, o sorriso familiar me encurralando.
Meus olhos voaram para Beatriz do outro lado da sala, sua presença uma força física.
Forcei um sorriso, um que não chegava aos olhos: "Não gosto mais. Na verdade, estou prestes a me casar."
Um estrondo de vidro quebrado cortou o silêncio.
Era Beatriz, parada, os ombros tremendo, os olhos vermelhos fixos nos meus.
Meu coração falhou. Seis anos. Eu poderia ter me casado com ela.
Mas eu estraguei tudo. Todas as "perdas" dela, seus sofrimentos, foram planejados por mim.
Fiz isso porque eu "despertei" e descobri: este mundo não era real, era a história de um romance trágico.
Beatriz, a protagonista feminina de um final infeliz. João, o irmão dela, o protagonista masculino. E eu, Pedro, o vilão.
Eu era o vizinho obcecado por amor, cuja função era criar obstáculos e morrer miseravelmente.
Eu sempre a amei, desde criança sonhava em casar com ela.
Até o Dia dos Namorados da faculdade. Vi Beatriz e João no campus, ela rindo, tirando uma folha do cabelo dele, comprando chocolates em formato de coração para... ele.
Meu mundo em mil pedaços. O ciúme, feio e escuro, enraizou-se. A inocência morreu, substituída por uma obsessão sombria.
Eu não conseguia aceitar que outro pudesse tê-la. Era ela, ou nada.
Foi na festa de formatura dela que planejei: a drogando, levando-a para casa, para que João nos pegasse e ela fosse forçada a casar comigo.
Eu a teria para sempre.
Mas, quando ela me empurrou na cama, uma dor de cabeça explodiu. Luzes brancas piscaram.
Vi meu futuro: casamento infeliz, ódio, raiva, uma briga, eu caindo da escada.
Paralisado. Abandonado. Morrendo sozinho.
Vi João. Ele nunca se casou, consumido pela culpa.
Vi Beatriz. Definhar de culpa e ódio.
Vi meu corpo, doente, na cama. Beatriz me odiando demais para se aproximar.
Minha consciência flutuou. Uma voz me informou: Este mundo era um romance trágico, e meu egoísmo selou nosso destino.
A dor cessou. Voltei. Com Beatriz me olhando.
Lágrimas rolaram. Medo. Arrependimento. Horror.
Eu não podia condená-la. Não podia nos condenar.
"Beatriz, a gente não pode. Não podemos continuar com isso."
Naquele momento, a porta do meu quarto se abriu com um estrondo: João e Clara.
Todos viram: eu e Beatriz, desgrenhados, eu chorando.
"O que você fez com ela, seu desgraçado?" , João rosnou.
"Fui eu" , eu disse.
"Eu. Eu coloquei droga na bebida dela."
Silêncio mortal.
João, fúria e incredulidade. Clara, nojo puro.
"Isso é crime, Pedro. Você sabe disso, não sabe?"
Eu sabia. Eu aceitei a punição.
Mas Beatriz, com a voz fraca, se colocou na minha frente: "Não. Não foi culpa dele. Ele é só uma criança."
A porta se fechou. Fiquei sozinho.
Eu entendi. Para ela, eu era o garotinho que ela protegia.
Aquele amor no campus? Amor de irmãos. Eu só distorci tudo com meu ciúme.
Eu era o vilão e precisava desaparecer.
Naquela noite, arrumei as malas. Deixei um bilhete. Antes do amanhecer, eu estava em um ônibus para São Paulo.
A música alta da festa mal conseguia abafar as vozes ao meu redor.
"Pedro, e aí? Você ainda gosta da Beatriz?"
Uma das amigas dela, com um sorriso que eu conhecia bem, me encurralou perto da mesa de salgadinhos. As outras formaram um círculo, me olhando com uma expectativa que me dava náuseas.
Meus olhos ignoraram todas elas e foram direto para o outro lado da sala.
Beatriz estava lá, de costas para nós. Ela se servia de uma bebida, seu vestido preto simples destacando a curva de suas costas. Mesmo à distância, eu sentia a presença dela como uma força física.
Forcei um sorriso, um que não chegava aos meus olhos.
"Não gosto mais."
As palavras saíram frias, calculadas.
"Na verdade, estou prestes a me casar."
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som agudo e estilhaçado.
CRAAASH.
O barulho de um copo se quebrando no chão fez todos se virarem.
Beatriz estava parada, olhando para os cacos de vidro e a poça de bebida espalhada sobre seus sapatos. Seus ombros tremiam levemente. Quando ela levantou a cabeça, seus olhos encontraram os meus, e eles estavam vermelhos.
Meu coração falhou uma batida. Seis anos. Eu poderia ter me casado com Beatriz há seis anos.
Mas eu estraguei tudo. Todas as "perdas" dela, todos os seus sofrimentos, na verdade, foram planejados por mim.
Fiz isso porque eu "despertei" .
Eu descobri que este mundo não era real. Era a história de um romance trágico.
Beatriz era a protagonista feminina, destinada a um final infeliz.
O irmão dela, João, era o protagonista masculino, o herói da história.
E eu, Pedro, era o vilão. Um vilão patético, obcecado por amor, cuja única função era criar obstáculos para o casal principal e, no fim, ter uma morte miserável.
Éramos vizinhos desde que me entendo por gente. Beatriz era três anos mais velha e sempre cuidou de mim como uma irmã mais velha faria. Ela me defendia de outros garotos, me ajudava com a lição de casa, me dava doces escondido dos meus pais.
Ela participou de toda a minha vida, de cada momento importante.
Para mim, era óbvio que ela me amava. Era uma certeza que cresceu comigo, tão natural quanto respirar. E eu me apaixonei por ela da mesma forma. Não foi uma decisão, foi um fato.
Desde criança, meu maior sonho era me casar com Beatriz.
Eu contava os dias para crescer, para ser homem o suficiente para pedi-la em casamento. Eu imaginava nossa casa, nossos filhos, uma vida inteira juntos.
Tudo desmoronou no Dia dos Namorados do meu terceiro ano de faculdade.
Eu tinha comprado um buquê de rosas e o anel mais caro que meu dinheiro de estágio podia pagar. Estava pronto para me declarar.
Então, eu os vi.
Beatriz e o irmão dela, João, caminhando lado a lado pelo campus. O sol da tarde brilhava nos cabelos deles.
Ela ria de algo que ele disse, e com um gesto de carinho, tirou uma folha que tinha caído no cabelo dele. Depois, eles pararam em uma loja e ela comprou uma caixa de chocolates em formato de coração para ele.
Para ele.
Meu mundo se partiu em mil pedaços. O buquê de rosas caiu da minha mão, as pétalas se espalhando pela calçada como gotas de sangue.
O ciúme, uma semente feia e escura, se enraizou no meu peito naquele instante. A dor era física, uma queimação que subia pela minha garganta.
Como ela podia? A mulher que eu amei por quase vinte anos, a mulher que eu achava que me amava de volta, tinha outro em seu coração. E esse outro era o irmão dela.
A partir daquele dia, algo em mim mudou. A inocência morreu e foi substituída por uma obsessão sombria.
Eu não conseguia aceitar.
A festa de formatura de Beatriz foi o palco do meu desespero.
A semente do ciúme tinha crescido e se tornado uma árvore venenosa dentro de mim. Eu não conseguia mais pensar direito. A imagem dela e de João juntos se repetia na minha mente como um filme de terror.
Eu precisava dela. Precisava que ela fosse minha, não importava como.
Naquela noite, meu plano era simples e monstruoso.
Eu a vi rindo com os amigos, linda em seu vestido de formatura. Meu coração doía tanto que eu mal conseguia respirar.
Com as mãos trêmulas, peguei a bebida dela quando ela não estava olhando. Dissolvi o pó que tinha comprado de um cara suspeito no campus. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca.
Eu a observei beber.
Levei-a para minha casa, que ficava perto do local da festa. Ela já estava desorientada, rindo de coisas sem sentido.
"Pedro, você é tão engraçado" , ela dizia, tropeçando nos próprios pés.
Dentro de casa, ela se tornou incontrolável. A droga a deixou febril e sem inibições. Ela me agarrou pela camisa, me puxando em direção ao meu quarto.
"Estou com tanto calor, Pedro."
Seus olhos estavam turvos, cheios de um desejo que não era dela.
Eu estava excitado e aterrorizado. Uma parte de mim, a parte vilanesca, vibrava. Era isso. Eu a queria, queria possuí-la. Meu plano era que o irmão dela, João, nos pegasse em flagrante. Ele ficaria furioso, a família dela ficaria escandalizada, e ela seria forçada a se casar comigo para salvar sua honra.
Eu a teria para sempre.
Mas no momento em que ela me empurrou na cama, no exato instante em que meu plano doentio estava prestes a se concretizar, aconteceu.
Minha cabeça explodiu em dor.
Luzes brancas piscaram diante dos meus olhos e cenas de um futuro que não era meu invadiram minha mente.
Eu vi tudo.
Vi Beatriz, pensando que o que aconteceu entre nós foi um acidente causado pela bebida, concordando em se casar comigo por culpa.
Vi o casamento infeliz. Vi ela descobrindo a verdade sobre a bebida drogada alguns anos depois. O amor em seus olhos se transformando em ódio puro.
Nossa vida se tornou um inferno de brigas e acusações.
Vi uma briga terrível. Ela gritava, me chamando de monstro. Eu a segurei pelo braço. Em um acesso de fúria e medo, ela me empurrou.
Eu caí da escada.
Vi o mundo de lado, a dor excruciante na minha coluna, e depois, a escuridão.
Acordei em uma cama de hospital, paralisado do pescoço para baixo.
Vi João, o "herói", nunca se casando. Ele se sentia culpado pela infelicidade da irmã e passava a vida tentando cuidar dela e de mim. Anos depois, ele morreu em um acidente de avião durante uma viagem que fez para tentar esquecer tudo.
Vi Beatriz, consumida pela culpa e pelo ódio, definhando.
E me vi, doente, sozinho em uma cama, sem ninguém para me cuidar. Beatriz me odiava demais para se aproximar. Morri de uma infecção, abandonado e esquecido.
Após a minha morte, minha consciência flutuou em um vazio. Foi quando eu soube. Uma voz ou uma força me informou da verdade.
Este mundo era um romance. Um romance trágico. E por causa do meu ciúme, do meu ato egoísta, todos nós tivemos um final infeliz. O herói morreu, a heroína viveu uma vida de miséria e o vilão... bem, o vilão teve o que merecia.
A dor de cabeça cessou. Eu estava de volta à realidade, de volta ao meu quarto, com Beatriz me olhando com aqueles olhos turvos.
As cenas do futuro queimavam na minha mente. A dor, a paralisia, a morte solitária.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eram lágrimas de medo, de arrependimento, de um horror tão profundo que eu não conseguia colocar em palavras.
Eu a olhei, a mulher que eu amava mais que a minha própria vida, e sabia que eu não podia fazer aquilo com ela. Eu não podia condená-la a esse futuro.
Eu não podia nos condenar a esse futuro.