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Amor Sacrificado, Coração Partido

Amor Sacrificado, Coração Partido

Autor:: Flory Corkery
Gênero: Romance
Eu me lembro do dia em que a encontrei. Mari estava encolhida em um beco, com os olhos cheios de pavor, tremendo. Salvei-a de um sequestro e, a partir daquele momento, a vida dela se tornou a minha. Por nove anos, eu me matei de trabalhar. Vendedor, garçom, entregador. Tudo para que ela pudesse ter a vida que eu nunca tive. Tudo para pagar a faculdade de administração que ela tanto sonhava. Finalmente, aos vinte e quatro, o apartamento que compramos estava pronto. Preparei o jantar, o prato favorito dela, esperando para celebrar nosso novo começo. Ela chegou tarde. Não sorriu. Seus olhos evitaram os meus. "João, preciso conversar com você." A voz dela era fria, distante. "Eu quero terminar." O mundo ao meu redor parou. "Terminar? Como assim? Nós acabamos de nos mudar. Eu preparei o jantar..." Minha voz falhou. "João, seja realista. Nós não somos mais compatíveis." "Diferentes como? Eu fiz tudo isso por nós!" "Não. Você fez isso por mim. E eu sou grata. Foi... conveniente." Conveniente. A palavra me atingiu como um soco no estômago. Nove anos de sacrifício, reduzidos a uma conveniência. "Você ainda é um vendedor. Eu preciso de alguém que possa me acompanhar, que entenda as minhas ambições." Cada palavra era uma pá de terra jogada sobre o caixão do nosso amor. Olhei para as minhas mãos, para os calos, para o rosto dela e vi uma estranha. Uma mulher fria e calculista. "Tudo bem." Foi a única coisa que consegui dizer. Ela se levantou. "Vamos pelo menos jantar uma última vez", eu disse. Ela concordou. "Mas preciso ser rápida. Tenho um compromisso." Comemos em silêncio. A comida, que eu preparei com tanto cuidado, agora parecia cinza e sem gosto. "Como vamos fazer com as coisas? Eu não quero nada. Já aluguei um lugar novo. Um lugar melhor." Ela disse "melhor" com uma ênfase que me fez sentir pequeno. "Eu te dei o meu melhor, Mariana." "Eu sei, João. Mas o seu melhor não é mais o suficiente para mim. A vida é sobre buscar melhores oportunidades, não é?" Ela pegou o porta-retrato da nossa foto, virou-o, tirou a fotografia e a empurrou para mim. "Você pode jogar isso fora." O símbolo da nossa história, descartado como lixo. "Nós dois sabíamos que isso ia acontecer um dia. Pense nisso como uma formatura." O toque dela queimava. Sua tentativa de consolo era um insulto. O calor subiu pelo meu rosto, mas não era de vergonha. Era raiva. Uma raiva gelada e silenciosa. "Tudo bem, Mariana. Você pode ir." Ela pegou algumas roupas, e enquanto remexia nas gavetas, algo caiu com um baque metálico. Um par de abotoaduras de prata. "O que é isso?" Mariana se virou, os olhos arregalados de pânico. A mentira era tão óbvia. "Ah, isso? É... é um presente da empresa." "A empresa te deu abotoaduras masculinas?" "Sim. É unissex. Sei lá. Foi só um brinde corporativo, não significa nada." Mentirosa. Naquele momento, um milhão de pequenas coisas começaram a fazer sentido. As noites em que ela chegava tarde do "trabalho". As chamadas misteriosas. A dor da traição era diferente da dor do abandono. Era mais suja. "Você pode ficar com o carro", ela disse, mudando de assunto. "A empresa me ofereceu um carro." Ela estava tentando me comprar. "Eu não quero o carro, Mariana." Ela se virou lentamente. "Então o que você quer?" "Eu quero saber de quem são as abotoaduras." O silêncio que se seguiu foi a confissão. A máscara de controle rachou. "Você está me acusando de quê?", ela sibilou. "Depois de tudo, você acha que pode me acusar?" "Eu fiz uma pergunta. De quem são as abotoaduras, Mariana?" "Ok. São do Gabriel. Gabriel Souza. Meu colega de trabalho. Ele é um homem de verdade, João. Um homem com futuro, com ambição. Nós estamos juntos há alguns meses." Alguns meses. Enquanto eu fazia horas extras, ela estava com ele. Uma dor aguda atravessou minhas costas. O mesmo lugar que doía quando eu carregava caixas pesadas para pagar a matrícula dela. "Não se preocupe comigo", eu disse, esforçando-me para endireitar. "Aparentemente, você nunca se preocupou." "Isso não é justo! Eu sempre..." "Sempre o quê? Você sequer sabe por que minhas costas doem, Mariana? Você alguma vez perguntou qual dos meus três empregos me deixava mais exausto? Você sabe que eu vendi o relógio que ganhei do orfanato para comprar aquele seu livro caro de finanças?" Ela ficou em silêncio, o rosto em branco. Eu ri, um som que rasgou minha garganta. "O provedor não importava, só a provisão." "Eu preciso ir. O Gabriel está me esperando lá embaixo." "Ah, claro. Não vamos deixar o Gabriel esperando. Ele deve estar ansioso para te levar para a sua 'vida melhor'." Ela pegou a mala e se dirigiu para a porta. "Aliás, Mariana", eu chamei. "Você esqueceu suas vitaminas na prateleira do banheiro." "Minhas vitaminas? Eu não tomo vitaminas." "Exato. As vitaminas que o médico receitou para a minha dor nas costas. As que você deveria ter me lembrado de tomar todas as manhãs. Mas você sempre esquecia, não é?" Ela não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu, fechando-a com um clique suave que soou como o fim de um mundo. Minha dor, negligenciada como meu amor, ecoava no apartamento vazio.

Introdução

Eu me lembro do dia em que a encontrei. Mari estava encolhida em um beco, com os olhos cheios de pavor, tremendo. Salvei-a de um sequestro e, a partir daquele momento, a vida dela se tornou a minha.

Por nove anos, eu me matei de trabalhar. Vendedor, garçom, entregador. Tudo para que ela pudesse ter a vida que eu nunca tive. Tudo para pagar a faculdade de administração que ela tanto sonhava.

Finalmente, aos vinte e quatro, o apartamento que compramos estava pronto. Preparei o jantar, o prato favorito dela, esperando para celebrar nosso novo começo.

Ela chegou tarde. Não sorriu. Seus olhos evitaram os meus.

"João, preciso conversar com você."

A voz dela era fria, distante.

"Eu quero terminar."

O mundo ao meu redor parou.

"Terminar? Como assim? Nós acabamos de nos mudar. Eu preparei o jantar..."

Minha voz falhou.

"João, seja realista. Nós não somos mais compatíveis."

"Diferentes como? Eu fiz tudo isso por nós!"

"Não. Você fez isso por mim. E eu sou grata. Foi... conveniente."

Conveniente. A palavra me atingiu como um soco no estômago.

Nove anos de sacrifício, reduzidos a uma conveniência.

"Você ainda é um vendedor. Eu preciso de alguém que possa me acompanhar, que entenda as minhas ambições."

Cada palavra era uma pá de terra jogada sobre o caixão do nosso amor. Olhei para as minhas mãos, para os calos, para o rosto dela e vi uma estranha. Uma mulher fria e calculista.

"Tudo bem."

Foi a única coisa que consegui dizer.

Ela se levantou.

"Vamos pelo menos jantar uma última vez", eu disse.

Ela concordou. "Mas preciso ser rápida. Tenho um compromisso."

Comemos em silêncio. A comida, que eu preparei com tanto cuidado, agora parecia cinza e sem gosto.

"Como vamos fazer com as coisas? Eu não quero nada. Já aluguei um lugar novo. Um lugar melhor."

Ela disse "melhor" com uma ênfase que me fez sentir pequeno.

"Eu te dei o meu melhor, Mariana."

"Eu sei, João. Mas o seu melhor não é mais o suficiente para mim. A vida é sobre buscar melhores oportunidades, não é?"

Ela pegou o porta-retrato da nossa foto, virou-o, tirou a fotografia e a empurrou para mim.

"Você pode jogar isso fora."

O símbolo da nossa história, descartado como lixo.

"Nós dois sabíamos que isso ia acontecer um dia. Pense nisso como uma formatura."

O toque dela queimava. Sua tentativa de consolo era um insulto.

O calor subiu pelo meu rosto, mas não era de vergonha. Era raiva. Uma raiva gelada e silenciosa.

"Tudo bem, Mariana. Você pode ir."

Ela pegou algumas roupas, e enquanto remexia nas gavetas, algo caiu com um baque metálico. Um par de abotoaduras de prata.

"O que é isso?"

Mariana se virou, os olhos arregalados de pânico. A mentira era tão óbvia.

"Ah, isso? É... é um presente da empresa."

"A empresa te deu abotoaduras masculinas?"

"Sim. É unissex. Sei lá. Foi só um brinde corporativo, não significa nada."

Mentirosa. Naquele momento, um milhão de pequenas coisas começaram a fazer sentido. As noites em que ela chegava tarde do "trabalho". As chamadas misteriosas.

A dor da traição era diferente da dor do abandono. Era mais suja.

"Você pode ficar com o carro", ela disse, mudando de assunto. "A empresa me ofereceu um carro."

Ela estava tentando me comprar.

"Eu não quero o carro, Mariana."

Ela se virou lentamente. "Então o que você quer?"

"Eu quero saber de quem são as abotoaduras."

O silêncio que se seguiu foi a confissão. A máscara de controle rachou.

"Você está me acusando de quê?", ela sibilou. "Depois de tudo, você acha que pode me acusar?"

"Eu fiz uma pergunta. De quem são as abotoaduras, Mariana?"

"Ok. São do Gabriel. Gabriel Souza. Meu colega de trabalho. Ele é um homem de verdade, João. Um homem com futuro, com ambição. Nós estamos juntos há alguns meses."

Alguns meses.

Enquanto eu fazia horas extras, ela estava com ele.

Uma dor aguda atravessou minhas costas. O mesmo lugar que doía quando eu carregava caixas pesadas para pagar a matrícula dela.

"Não se preocupe comigo", eu disse, esforçando-me para endireitar. "Aparentemente, você nunca se preocupou."

"Isso não é justo! Eu sempre..."

"Sempre o quê? Você sequer sabe por que minhas costas doem, Mariana? Você alguma vez perguntou qual dos meus três empregos me deixava mais exausto? Você sabe que eu vendi o relógio que ganhei do orfanato para comprar aquele seu livro caro de finanças?"

Ela ficou em silêncio, o rosto em branco.

Eu ri, um som que rasgou minha garganta.

"O provedor não importava, só a provisão."

"Eu preciso ir. O Gabriel está me esperando lá embaixo."

"Ah, claro. Não vamos deixar o Gabriel esperando. Ele deve estar ansioso para te levar para a sua 'vida melhor'."

Ela pegou a mala e se dirigiu para a porta.

"Aliás, Mariana", eu chamei. "Você esqueceu suas vitaminas na prateleira do banheiro."

"Minhas vitaminas? Eu não tomo vitaminas."

"Exato. As vitaminas que o médico receitou para a minha dor nas costas. As que você deveria ter me lembrado de tomar todas as manhãs. Mas você sempre esquecia, não é?"

Ela não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu, fechando-a com um clique suave que soou como o fim de um mundo. Minha dor, negligenciada como meu amor, ecoava no apartamento vazio.

Capítulo 1

Eu me lembro do dia em que a encontrei. Mariana estava encolhida em um beco, com os olhos cheios de pavor, tremendo. Eu tinha quinze anos, recém-saído do orfanato, com nada além da roupa do corpo e uma vontade de sobreviver. Naquele dia, salvei-a de um sequestro, e a partir daquele momento, a vida dela se tornou a minha.

Por cinco anos, trabalhei em três empregos diferentes. Vendedor, garçom, entregador. Meu corpo doía constantemente, minhas mãos eram um mapa de calos e cicatrizes. Tudo para que ela pudesse ter a vida que eu nunca tive. Tudo para pagar a faculdade de administração que ela tanto sonhava.

Hoje, aos vinte e quatro anos, o apartamento que compramos estava finalmente pronto. As paredes cheiravam a tinta fresca, os móveis que escolhemos juntos brilhavam sob a luz. Eu tinha preparado o jantar, o prato favorito dela. Estava esperando por ela para comemorar nosso novo começo.

Ela chegou tarde. Não sorriu como eu esperava. Seus olhos evitaram os meus.

Ela colocou a bolsa na cadeira com um cuidado que não era dela.

"João, preciso conversar com você."

Sua voz era fria, distante. Senti um calafrio percorrer minha espinha.

"O que foi, Mariana? Aconteceu alguma coisa no trabalho?"

Ela respirou fundo, finalmente me encarando.

"Eu quero terminar."

As palavras saíram dela como se estivesse lendo um relatório de negócios. Simples, diretas, sem emoção. O mundo ao meu redor parou. O cheiro da comida, o barulho da rua, tudo desapareceu. Só existia o rosto dela e aquelas palavras ecoando na minha cabeça.

"Terminar? Como assim, terminar? Nós acabamos de nos mudar. Eu preparei o jantar..."

Minha voz falhou. Eu não conseguia entender.

"João, seja realista."

Ela disse, com um tom de impaciência.

"Nós não somos mais compatíveis. Nossos caminhos são diferentes agora."

"Diferentes como? Eu fiz tudo isso por nós. Pelo nosso futuro."

Eu apontei para o apartamento, para a mesa posta. Meu coração batia tão forte que doía no peito.

"Não," ela corrigiu, balançando a cabeça lentamente. "Você fez isso por mim. E eu sou grata. Foi... conveniente."

Conveniente.

A palavra me atingiu com a força de um soco no estômago. Nove anos. Nove anos de sacrifício, de amor, de dedicação. Reduzidos a uma conveniência.

"Conveniente?"

Eu mal consegui sussurrar a palavra.

Ela desviou o olhar, parecendo levemente desconfortável pela primeira vez.

"Olha, João. Eu me formei. Tenho um ótimo emprego em uma grande empresa. Tenho novas oportunidades, um novo círculo de pessoas. Você... você ainda é um vendedor. Nós vivemos em mundos diferentes. Eu preciso de alguém que possa me acompanhar, que entenda as minhas ambições."

Cada palavra era uma pá de terra jogada sobre o caixão do que eu achava que era nosso amor. Eu olhei para minhas mãos, para os calos que contavam a história do meu esforço por ela. Olhei para o rosto dela, o mesmo rosto que eu beijei todas as noites, e vi uma estranha. Uma mulher fria e calculista que eu não reconhecia.

Eu não conseguia falar. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. Eu me senti um idiota. Um completo idiota que construiu um castelo de areia e se surpreendeu quando a maré subiu.

Toda a minha vida, eu tinha sido definido por ela. O garoto que salvou Mariana. O homem que trabalhava por Mariana. O namorado de Mariana. Sem ela, quem eu era?

O silêncio no apartamento era ensurdecedor. Ela esperava uma resposta, uma briga, talvez lágrimas. Mas eu não tinha nada. A dor era tão avassaladora que me deixou vazio.

"Tudo bem."

Foi a única coisa que consegui dizer. Minha voz soou oca, como se viesse de outra pessoa.

"Tudo bem, Mariana. Se é isso que você quer."

Eu me levantei, sentindo minhas pernas fracas. Fui até a janela e olhei para a cidade lá fora, para as luzes que pareciam zombar de mim. Eu a estava libertando. Mas, no processo, sentia que estava me destruindo.

Atrás de mim, ouvi o som suave do zíper da bolsa dela se abrindo e fechando. Ela estava indo embora. Simples assim. O sonho tinha acabado.

Capítulo 2

"Vamos pelo menos jantar uma última vez" , eu disse, mais por um reflexo do que por desejo.

A comida na mesa, que eu preparei com tanto cuidado, agora parecia cinza e sem gosto.

Mariana hesitou por um momento, depois concordou com um aceno de cabeça.

"Certo. Mas preciso ser rápida. Tenho um compromisso."

Comemos em silêncio. O único som era o dos talheres batendo nos pratos. Cada garfada era difícil de engolir. Eu olhava para ela, tentando encontrar qualquer vestígio da garota que eu amava, mas só via uma máscara de polidez e pressa.

Ela terminou de comer rapidamente, limpando a boca com o guardanapo de papel.

"Então, como vamos fazer com as coisas? Eu não quero nada. Pode ficar com tudo. Eu já aluguei um lugar novo."

Sua eficiência era brutal. Ela estava tratando o fim do nosso relacionamento de nove anos como uma transação comercial, um contrato a ser rescindido.

"Um lugar novo?" eu perguntei, a voz baixa.

"Sim. Mais perto do meu trabalho. Um lugar melhor."

Ela disse "melhor" com uma ênfase que me fez sentir pequeno. Ela não estava apenas me deixando, estava me rebaixando, deixando claro que eu e tudo o que eu podia oferecer éramos insuficientes.

"Eu te dei o meu melhor, Mariana."

"Eu sei, João. E eu agradeço. Mas o seu melhor não é mais o suficiente para mim. Preciso de mais. A vida é sobre buscar melhores oportunidades, não é?"

Ela se levantou e foi até a estante onde guardávamos nossas memórias. Havia uma foto nossa, do dia em que a pedi em namoro. Eu, um garoto de dezesseis anos, magro e desajeitado, entregando a ela uma flor que colhi num jardim público. Ela, sorrindo, com os olhos brilhando.

Ela pegou o porta-retrato. Por um segundo, pensei que ela o levaria. Uma pequena parte de mim, estúpida e esperançosa, se agarrou a essa ideia.

Mas ela apenas o virou, abriu a parte de trás, tirou a fotografia e a colocou com a face para baixo sobre a mesa.

"Você pode jogar isso fora."

Ela empurrou o porta-retrato vazio na minha direção. O gesto foi tão cruel, tão definitivo, que senti o ar faltar nos meus pulmões. O símbolo da nossa história, descartado como lixo.

Ela deve ter visto a dor no meu rosto, porque sua expressão suavizou por um instante. Ela se aproximou, colocando a mão no meu ombro.

"João, não torne isso mais difícil do que precisa ser. Nós dois sabíamos que isso ia acontecer um dia. Tivemos bons momentos, mas acabou. Pense nisso como uma formatura."

Seu toque queimava. Sua tentativa de consolo era um insulto. Ela tentou forçar um sorriso triste, uma performance para aliviar sua própria culpa.

Eu me afastei do toque dela.

De repente, a dor avassaladora deu lugar a uma clareza fria. Eu a vi pelo que ela era. Não a vítima que eu salvei, não a parceira que eu amava, mas uma oportunista que me usou como um degrau e agora o chutava para trás sem olhar para baixo.

O calor subiu pelo meu rosto, mas não era de vergonha. Era raiva. Uma raiva gelada e silenciosa.

"Tudo bem, Mariana" , eu disse, e minha voz estava diferente. Firme. "Você pode ir."

Ela pareceu surpresa com a minha mudança de atitude. Talvez esperasse que eu implorasse, que eu chorasse. Mas a parte de mim que era capaz disso havia morrido nos últimos dez minutos.

"Eu... eu vou pegar minhas coisas amanhã" , ela gaguejou, um pouco desnorteada.

"Não precisa. Leve tudo o que quiser. Agora."

Eu me sentei à mesa novamente, olhando para a fotografia virada para baixo. Eu não queria mais olhá-la. Eu não queria mais nada que me lembrasse dela. A partir daquele momento, ela era apenas uma estranha que um dia dividiu um apartamento comigo.

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