Por oito anos, Helena viveu para Arthur, dedicando corpo e alma a um homem que via nela apenas uma ferramenta.
Ela o defendeu de todos os perigos, literais e figurados, suportando cicatrizes e humilhações públicas em nome de um amor cego, acreditando que um dia ele finalmente a enxergaria.
Aquele dia chegou com a cerimônia de união, um evento grandioso onde Arthur declarou seus destinos entrelaçados, fazendo-a chorar de alegria.
Mas a felicidade virou horror quando, ao pé do altar, ele sussurrou que tudo era um disfarce para seu caso com a prima, Lívia, transformando-a na "idiota útil".
O desespero tomou conta de Helena quando um lustre desabou, matando acidentalmente Lívia, e Arthur, consumido pela dor, a acusou publicamente do assassinato.
A fúria dele o levou a atacá-la, chutando-a e matando-a com um pedaço de metal, enquanto Lívia chorava, convencido de sua culpa.
Na morte, Helena fez uma promessa gélida: se tivesse uma segunda chance, Arthur pagaria.
E, incrivelmente, ela acordou.
Helena renasceu um ano antes, no exato dia em que Arthur iria pedir Lívia em casamento.
A mulher ingênua morreu, e em seu lugar surgiu uma estrategista fria, pronta para a vingança.
Sem hesitar, ela pegou o telefone e ligou para o maior inimigo de Arthur, Gael.
"Case-se comigo", ela propôs, selando um pacto de destruição contra o homem que a traiu e assassinou.
Por oito anos, eu vivi para Arthur.
Oito anos. Uma vida inteira dedicada a um único homem.
Para ele, eu era uma sombra, uma ferramenta, uma arma. Eu me colocava na frente das balas por ele, tanto as literais quanto as figuradas. Em uma negociação perigosa no exterior, levei um golpe na cabeça que era para ele, e a cicatriz perto da minha sobrancelha era uma lembrança constante. Em outra ocasião, assumi a culpa por um vazamento de informações que quase arruinou sua reputação, passando seis meses sendo investigada e execrada publicamente, tudo para que ele pudesse sair limpo.
Meu corpo e minha alma carregavam as marcas dessa devoção.
Todo o nosso círculo social, todo o mundo dos negócios, sabia da minha paixão cega por Arthur.
"Helena é o cão de guarda de Arthur", eles diziam.
"Ela faria qualquer coisa por ele."
Os comentários eram uma mistura de pena e desprezo, mas eu não me importava. Eu acreditava que meu amor e sacrifício seriam recompensados. Eu acreditava que um dia, ele finalmente me veria.
E aquele dia, eu pensei, tinha finalmente chegado.
A cerimônia de união. Não era um casamento tradicional, mas uma união de almas, como ele havia descrito. Um evento grandioso, no salão mais luxuoso da cidade, com centenas de convidados importantes. Eu estava em um vestido branco deslumbrante, a maquiagem perfeita, o coração batendo descontrolado de felicidade.
Ele segurou minha mão no altar improvisado, seus olhos azuis me encarando com uma intensidade que eu nunca tinha visto.
"Helena", ele disse, sua voz ressoando pelo salão silencioso, "você esteve ao meu lado por oito anos. Hoje, finalmente, unimos nossos destinos."
Lágrimas de alegria escorreram pelo meu rosto. Era real. Tudo tinha valido a pena.
Mas então, quando o celebrante nos declarou unidos e todos aplaudiram, o sorriso de Arthur desapareceu. Ele se inclinou para perto do meu ouvido, seu hálito quente contra a minha pele, e sussurrou palavras que congelaram meu sangue.
"Agora, ninguém mais vai suspeitar de mim e da Lívia. Você fez um bom trabalho, Helena. É o disfarce perfeito."
O mundo ao meu redor desmoronou.
O som dos aplausos se transformou em um zumbido ensurdecedor. Olhei para a multidão e a vi. Lívia. Sua prima. Ela estava no canto, com um vestido azul claro, sorrindo para Arthur, um sorriso cúmplice, vitorioso.
Meu corpo inteiro tremia. Eu entendi tudo em um instante devastador.
A união. A cerimônia. A declaração pública. Tudo não passou de uma farsa elaborada para que ele pudesse manter seu caso secreto com a própria prima, bem debaixo do nariz de todos. Eu não era a noiva, era o escudo. A idiota útil.
A raiva e a humilhação me sufocaram. Eu queria gritar, rasgar o vestido, expor os dois na frente de todos.
Mas antes que eu pudesse reagir, o caos irrompeu.
Um dos enormes lustres de cristal que pendiam sobre a área dos convidados começou a ranger. Houve um estalo agudo, metálico, e então ele despencou. Gritos de pânico ecoaram pelo salão.
As pessoas corriam, se empurravam, tentavam fugir. O lustre caiu exatamente onde Lívia estava parada momentos antes. A poeira e os estilhaços de cristal voaram por toda parte.
Quando a poeira baixou, Lívia estava no chão, imóvel, em uma poça de sangue que se espalhava rapidamente pelo mármore branco.
Seus olhos estavam abertos, vazios.
Morta.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelos soluços aterrorizados de alguns convidados. Eu estava paralisada, o choque da traição agora misturado ao horror da cena.
E então, Arthur soltou minha mão.
Ele correu até Lívia, ignorando todos os outros. Ele a pegou nos braços, o rosto contorcido em uma dor que eu nunca pensei que ele fosse capaz de sentir.
"Lívia! Não! Lívia, fale comigo!"
Ele olhou para cima, seus olhos encontrando os meus. A dor em seu rosto se transformou em um ódio puro e assassino.
"Foi você", ele rosnou, a voz baixa e letal.
Ele se levantou, caminhando lentamente em minha direção. "Você fez isso. Era para ser você, não era? Você sabotou o lustre porque estava com ciúmes!"
"O quê? Arthur, não! Eu nunca..."
Ele não me deixou terminar. Sua mão voou e me atingiu no rosto com uma força brutal. O impacto me jogou no chão, meu vestido branco se sujando com a poeira do desastre. Minha bochecha ardia, mas a dor no meu coração era mil vezes pior.
"Você a matou!", ele gritou, agora para todos ouvirem. "Ela sempre teve medo de você, do seu ciúmes! Você a matou!"
Ele pegou um pedaço de metal retorcido do lustre caído. Seus olhos estavam insanos.
"Se eu não posso tê-la, você também não viverá para se regozijar com isso!"
Ele avançou. O pânico finalmente me atingiu e eu tentei me arrastar para trás, mas era tarde demais. Ele me alcançou e me chutou nas costelas. Uma dor aguda me roubou o fôlego.
Ele me virou de costas, pressionando meu rosto contra o chão frio. Senti o metal frio e pontiagudo contra a minha nuca.
"Por ela", ele sussurrou, a voz quebrada pela dor. "Eu vou me juntar a ela no inferno, mas vou levar você comigo."
A dor foi indescritível. Uma explosão branca atrás dos meus olhos, seguida por uma escuridão que se espalhava. O mundo estava desaparecendo. O som do seu choro desesperado era a última coisa que eu ouvia. Ele estava chorando por ela, enquanto me matava.
Meu sangue começou a se misturar com o dela no chão de mármore.
Que piada. Oito anos de devoção para acabar assim.
Enquanto a vida se esvaía de mim, um único pensamento, claro e poderoso, se formou em minha mente. Uma promessa forjada no fogo da traição e da morte.
Se eu tiver outra chance... Se eu pudesse voltar... Arthur, eu juro por Deus, eu nunca mais amarei você. Eu farei você pagar. Eu farei vocês dois pagarem por tudo.
A escuridão me engoliu por completo.
E então, houve luz.
Eu pisquei, confusa. O ar cheirava a antisséptico e a flores baratas. Senti uma dor surda na parte de trás da minha cabeça, mas não a dor aguda e final que eu esperava. Eu estava deitada em uma cama que não era minha.
Virei a cabeça e vi um calendário na parede.
A data me fez parar de respirar.
Era um ano atrás. O dia da festa de aniversário da empresa, o dia em que o maior rival de Arthur, Gael, fez uma oferta hostil para comprar seu conglomerado. O dia em que eu, como sempre, lutei na linha de frente por Arthur, defendendo-o ferozmente.
Eu estava viva.
Eu tinha voltado.
A promessa que fiz em meu leito de morte ecoou em minha mente, não como um sussurro, mas como um trovão.
Eu farei você pagar.
A adrenalina pulsou em minhas veias. Não havia tempo a perder. Cada segundo era precioso. Eu sabia o que Arthur faria, eu sabia o que Lívia faria. Mas desta vez, eu não seria a peça no tabuleiro deles. Eu seria a jogadora.
Agarrei o celular que estava na mesa de cabeceira. Meus dedos tremiam, mas minha determinação era de aço. Procurei na lista de contatos um número que eu conhecia de cor, um número que, na minha vida passada, eu via apenas como o do inimigo.
Gael.
O telefone tocou uma vez. Duas vezes.
"Alô?", a voz dele era profunda, calma, exatamente como eu me lembrava.
"Gael, é a Helena."
Houve uma pausa do outro lado da linha. Eu podia imaginar sua surpresa. Eu nunca o ligava. Nós só nos falávamos em salas de reunião, trocando farpas e ameaças veladas.
"Helena. A que devo a honra?"
Eu respirei fundo, minha voz firme, sem um pingo da hesitação que me caracterizava no passado.
"Sua oferta para comprar o Grupo A&L. Ela ainda está de pé?"
Outra pausa, mais longa desta vez.
"Estou ouvindo."
"Eu quero que você faça uma nova proposta. Mas desta vez, não será uma aquisição hostil."
"O que você sugere?"
"Uma união", eu disse, a palavra deixando um gosto amargo na minha boca antes de se transformar em poder. "Uma união entre você e eu. Case-se comigo. Juntos, podemos ter tudo."
O silêncio na linha era total. Eu tinha acabado de jogar minha bomba. Na minha vida passada, eu teria morrido de vergonha só de pensar nisso. Agora, era um movimento calculado, frio. A melhor maneira de destruir Arthur era se aliar ao seu maior inimigo.
Finalmente, a voz de Gael soou, e havia um tom nela que eu não consegui decifrar. Não era choque, não era diversão. Era... interesse.
"Você tem certeza, Helena?"
"Absoluta", respondi sem hesitar. "Eu renuncio a Arthur. Eu quero me juntar a você. Eu tenho todas as informações, todas as fraquezas, tudo o que você precisa para desmantelar o império dele por dentro. Tudo o que peço em troca é sua proteção. E sua mão em casamento."
A resposta dele veio mais rápido do que eu esperava, decisiva e clara.
"Esteja no cartório do centro amanhã às nove da manhã. Eu estarei lá."
Ele desligou.
Eu olhei para o telefone na minha mão, meu coração batendo forte, mas desta vez, não era por amor ou medo.
Era pelo começo da minha vingança.
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Eu me levantei da cama do hospital, meu corpo inteiro protestando. A dor na parte de trás da minha cabeça era um lembrete físico e latejante do que tinha acontecido. Na minha vida passada, eu tinha desmaiado de exaustão depois de passar três dias seguidos trabalhando em uma contraproposta para a oferta hostil de Gael. Arthur nem mesmo veio me visitar. Ele apenas me mandou uma mensagem: "Descanse um pouco. Preciso de você de volta ao trabalho amanhã."
Desta vez, a dor parecia diferente. Era um eco do golpe final que ele me deu, a memória fantasma de uma morte violenta.
Respirei fundo, tentando acalmar o tremor nas minhas mãos. Olhei ao redor do quarto estéril. O cheiro, os sons abafados do corredor, tudo era exatamente como eu me lembrava. A realidade da minha segunda chance se assentou sobre mim, pesada e inebriante.
Eu não era mais a Helena que se contentava com migalhas de afeto. A mulher que morreu no chão de mármore frio levou toda a sua ingenuidade e amor cego com ela.
A mulher que renasceu só tinha um propósito.
Vesti as roupas que estavam dobradas em uma cadeira – um terninho cinza, prático e sem graça, o uniforme da "mão direita" de Arthur. Olhei meu reflexo no vidro escuro da janela. O rosto era o mesmo, mas os olhos eram diferentes. Havia uma frieza neles, uma determinação que não existia antes.
Eu saí do hospital sem falar com ninguém e peguei um táxi. O endereço que dei ao motorista não era o meu apartamento, nem o escritório. Era o Grand Hotel Imperial, onde a festa de aniversário da empresa estava acontecendo.
Eu precisava ver com meus próprios olhos. Precisava confirmar que não era apenas um pesadelo.
Quando entrei no salão de festas opulento, a música alta e as conversas animadas me atingiram como uma parede. Tudo estava exatamente como na minha memória. Centenas de pessoas, taças de champanhe, lustres brilhando.
E lá, no centro de tudo, estava ele.
Arthur.
Ele estava radiante em seu terno caro, rindo com um grupo de investidores. E ao seu lado, agarrada ao seu braço, estava Lívia.
Ela usava um vestido vermelho sangue que se destacava na multidão, o decote ousado atraindo todos os olhares. Ela estava sussurrando algo no ouvido dele, e ele se inclinou, o sorriso em seu rosto se tornando mais íntimo, mais genuíno do que qualquer sorriso que ele já me deu.
Naquele momento, a cena que eu vi no futuro – ele chorando desesperadamente sobre o corpo dela – se sobrepôs à imagem na minha frente. O amor dele por ela era real. Devastadoramente real. E ele também tinha renascido.
Eu soube disso no instante em que seus olhos encontraram os meus do outro lado do salão.
O sorriso dele vacilou. Uma sombra de confusão, de choque, passou por seu rosto. Ele se lembrava. Ele se lembrava de tudo. Da traição, do lustre, da morte dela. E da minha.
A música parou de repente. Arthur soltou o braço de Lívia e pegou um microfone do palco.
"Atenção a todos, por favor", ele disse, sua voz amplificada ecoando pelo silêncio repentino.
Todos os rostos se viraram para ele. Eu senti um frio na barriga. Eu sabia o que ele ia fazer. Ele ia repetir o padrão. Humilhar-me publicamente para solidificar seu status e sua escolha.
"Gostaria de aproveitar esta noite especial para fazer um anúncio ainda mais especial."
Ele se virou para Lívia, pegando a mão dela. O rosto dela se iluminou com uma expressão de surpresa ensaiada.
"Lívia, meu amor", ele disse, sua voz cheia de uma emoção teatral. Ele se ajoelhou.
Gritos de surpresa e cochichos se espalharam pela multidão.
"Você é a luz da minha vida. A única mulher que eu já amei. Na minha frente, e na frente de todos que importam, eu pergunto: você quer se casar comigo?"
Ele abriu uma pequena caixa de veludo, revelando um anel de diamante que brilhava furiosamente sob as luzes do salão.
Lívia levou as mãos à boca, lágrimas falsas brotando em seus olhos.
"Sim! Sim, Arthur, é claro que sim!"
Eles se beijaram apaixonadamente enquanto a multidão explodia em aplausos.
No meio da celebração, os olhos de Arthur encontraram os meus novamente. Havia um brilho de triunfo cruel neles. Ele estava me mostrando, sem sombra de dúvida, quem ele escolhia. Ele estava me punindo pela morte dela na vida passada, mesmo que eu fosse inocente.
As pessoas ao meu redor começaram a notar minha presença.
"Olha, é a Helena."
"Coitada. Depois de tudo que ela fez por ele..."
"Ela parece um fantasma. Que humilhação."
Os sussurros eram como facas, mas desta vez, eles não me atingiram. Eles eram apenas ruído de fundo.
Lívia, com o anel brilhando em seu dedo, caminhou em minha direção, com Arthur ao seu lado. Ela tinha um sorriso doce e preocupado no rosto, a personificação da falsa inocência.
"Helena, querida, você está bem? Você parece tão pálida", ela disse, sua voz pingando uma preocupação artificial. "Eu sinto muito. Eu e Arthur, nós não queríamos... aconteceu tão de repente."
Eu olhei para ela, a mulher por quem eu fui morta. A mulher que sorriu enquanto minha vida era destruída.
Arthur colocou um braço protetor ao redor de Lívia, me olhando com um desprezo gelado.
"Não perca seu tempo com ela, meu amor", ele disse para Lívia, mas suas palavras eram para mim. "Helena sabe o lugar dela. Ela sempre soube. Ela é boa em ser a sombra, a trabalhadora. Algumas pessoas simplesmente não nasceram para o amor ou para o casamento."
A crueldade em sua voz era palpável. Ele queria me quebrar. Queria me ver chorar, implorar, desmoronar como eu teria feito na minha vida anterior.
Ele continuou, sua voz baixa o suficiente para que apenas nós três pudéssemos ouvir.
"Você deveria estar feliz por mim, Helena. Por nós. Afinal, foi para isso que você sempre trabalhou, não é? Para a minha felicidade. Agora você pode continuar fazendo o que faz de melhor: trabalhar nos bastidores, enquanto eu vivo minha vida com a mulher que eu amo."
Ele esperava minha reação. Esperava as lágrimas, a dor.
Mas a Helena que ele conhecia estava morta.
Eu dei um passo à frente, meu olhar fixo no dele. O salão ficou em silêncio novamente, todos esperando o drama se desenrolar.
Eu forcei um pequeno sorriso, frio e vazio.
"Parabéns, Arthur. Lívia", eu disse, minha voz calma e clara, cortando a tensão no ar. "Desejo a vocês toda a felicidade que merecem."
Eu me virei para Arthur.
"E quanto ao meu lugar", continuei, "você está certo. Eu sei exatamente qual é. E não é mais ao seu lado."
"A partir deste momento, considere nosso contrato, tanto profissional quanto pessoal, encerrado. Eu me demito."
"E, Arthur", acrescentei, inclinando-me um pouco para a frente, como ele fez comigo na nossa cerimônia de união. "Só para deixar claro, eu nunca mais quero ver seu rosto novamente. Para mim, você não existe mais."
Com isso, virei-me e comecei a caminhar em direção à saída, sem olhar para trás.
Eu podia sentir o choque dele. A confusão. Esta não era a reação que ele esperava.
Esta não era a Helena que ele conhecia.
E ele estava absolutamente certo.
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