Você já se apaixonou? Sabe aquele tipo de amor que parece transcender tudo? Que não importa quantos altos e baixos aconteça, basta você avistar ele que tudo parece valer a pena?
Eu já! Minha grande paixão é cozinhar. Aprendi desde cedo a fazer o básico observando minha vó, dona Nice, ela me deixava lá no cantinho da cozinha onde eu não poderia atrapalhar e às vezes me deixava mexer uma coisa ou outra. O tempo foi passando, eu fui crescendo e cada vez mais ela ia me delegando tarefas, até que qualquer almoço, comemoração em família estávamos nós duas na cozinha trabalhando juntas.
Mas meu pai nunca aceitou que cozinhar fosse uma profissão boa.
- Faça uma carreira ele! - sempre dizia.
E foi por esse motivo que me formei em contabilidade, com o peito apertado querendo estar em uma cozinha me dediquei aos livros e os estudos que o deixariam orgulhoso.
Conquistei meu espaço, uma trabalho bom onde poderia crescer, mas nada me tirava o gostinho de aos finais de semana correr pra casa deles e cozinhar com minha vó.
Um ótimo hobbie era o que ele pensava, mal sabia que era tudo o que me fazia feliz.
Então em um belo dia vovó se foi, uma morte tranquila, sempre acreditei que ela sabia que estava chegando sua hora. Sabe por que penso isso? Uma semana antes, no meu aniversário e assim que cheguei em casa pronta pra curtir a cozinha com ela eu tive uma surpresa.
Vovó me entregou uma caixa de presente e assim que abri estava lá seu velho caderno de receitas e seu avental preferido. Meus olhos encheram de lágrimas sem eu entender o motivo para ela me dar aquilo.
- É seu presente de aniversário, de agora em diante eles e essa cozinha são seus!
Ela tinha feito meu dia, na verdade minha vida, com aquelas palavras, mesmo que uma semana depois eu tivesse que estar me despedindo dela.
O tempo passou e eu usava as receitas dela apenas em ocasiões especiais, o avental permanecia pendurado no meu quarto como um lembrete dela. Mas a angústia no peito era de mais, eu precisava dar um jeito naquilo, me resolver com essa parte da minha vida. Foi aí que me inscrevi no curso e fui fazer o que eu amava pela primeira vez na vida.
Intercalando os estudos com o trabalho disse para mim mesma que era só pra conseguir um diploma para pendurar na parede, sabendo que isso a deixaria orgulhosa, mas eu não consegui parar por aí.
Comecei a procurar um emprego na área e consegui, meu pai surtou e tivemos a nossa pior briga em todos os anos. Ficamos meses sem se falar e eu me mantive firme em minha decisão de largar a contabilidade para viver da culinária, pegava um cliente aqui e outro ali para compensar as contas no final do mês, mas estava transbordando de felicidade.
Meses depois ele apareceu com um pedido de desculpas e um convite para dar uma volta no centro da cidade, enquanto andávamos meu pai parou em frente a um prédio antigo, com dois andares, parecia ter sido uma loja no passado e agora estava desocupada. Nós entramos demos uma olhada no lugar e no final ele me perguntou o que eu achava do lugar, porque era meu e não tinha volta.
Ele tinha me dado o que eu tanto queria, minha própria cozinha.
Então depois de muita reforma, entre trancos e barrancos, meses de dificuldades e apenas alguns dias de glória o Cantina da Nice existia há dois anos, um restaurante calmo, aconchegante e bem apessoado, em um bairro bem movimentado no centro da cidade.
Meu xodó era rodeado de prédios e escritórios, meus clientes na maioria das vezes passavam na correria do horário de almoço e eu fazia o possível para trazer um pouco de luz para o dia deles, afinal já estive desse outro lado.
E é esse amor que estava me mantendo, ás duas da manhã de um sábado, na cozinha testando uma massa nova. O restaurante não abria aos domingos e eu aproveitava para testar novas receitas para o cardápio até tarde, geralmente estaria em casa, mas a cozinha do restaurante era bem mais espaçosa para toda aquela bagunça que eu estava fazendo.
Me virei pegando um pedaço do brownie jogado na bancada escorrendo chocolate por entre os dedos quando mordi e voltei a bater a massa no mesmo ritmo que balançava os quadris com a música na rádio.
O som me distraiu por um momento, mas assim que a batida em meus fones encerrou, dando fim a música, eu escutei um barulho estranho na porta dos fundos.
Tentei apurar os ouvidos arrancando os fones e os cochichos se tornaram mais nítidos. A conversa, que parecia acontecer entre três homens mostrava que eu estava muito ferrada por estar aqui a essa hora da noite e sozinha, justo no dia em que decidiam invadir meu restaurante para roubar!
Meu medo durou um segundo até que a realidade do que estavam fazendo aqui me atingiu. Eles iam roubar meu restaurante!
Filhos de uma vaca! Me perdoe a mãe deles, mas eles iam aprender hoje que não se brinca com Maria Nascimento!
Peguei o rolo da massa e testei o peso em minha mão, não ia fazer estrago suficiente. Então troquei para uma faca enorme que estava na pia, eu não queria matar alguém a última coisa que precisava era de alguns anos na cadeia. Decidi por fim pegar uma frigideira grande, pesada o suficiente para desacordar alguém sem matar o infeliz. Perfeito!
Me posicionei ao lado do corredor que daria na cozinha e esperei que quem quer que fosse saísse da área de funcionários e viesse me enfrentar.
Assim que o ladrão colocou o pé na minha cozinha eu bati com toda a força a frigideira na sua nuca o fazendo despencar no chão como jacá podre.
- Isso é pra você aprender que com Maria não se mexe! - falei me sentindo vitoriosa por ter conseguido acabar com isso sem grandes estragos.
- Acho melhor você pensar de novo moça. - a voz rouca atrás de mim me mostrou que eu tinha me esquecido de algo.
Puta que pariu Maria, como foi se esquecer do outro. Na verdade outros. Os dois homens me encaravam com caras nada boas.
- Solta a panela ai dona. - o outro avisou apontando um pequeno revólver em minha direção.
Aquilo não estava nos meus planos, não estava mesmo. Talvez eu devesse ter ficado com a faca?
- Tá tudo bem, eu solto, solto agora. Só abaixa esse negócio ai, por favor! - murmurei apreensiva.
Pior do que passar uns dias na cadeia era passar o resto da vida morta. Entenderam alguma coisa? Nem eu.
Soltei a frigideira imediatamente no chão e, cá entre nós, se eu tivesse calculado não teria saído tão perfeito. O objeto acertou em cheio o pé do homem com a arma o fazendo gritar e apertar o gatilho em reflexo, antes de se abaixar para segurar o pé.
O problema maior veio depois, seu amigo nem um pouco feliz e totalmente burro me deu um belo soco. Minha cabeça virou para o lado oposto e eu perdi o equilíbrio. Resultado? Eu pisoteei a mão do cara machucado antes de despencar de bunda no chão.
- A moça não sabe cooperar não. - o único que permanecia intacto gritou. - Amarra ela ai!
A ameba em forma de homem se aproximou me empurrando contra a parede e eu me encolhi, dessa vez o medo se espalhando por minhas veias. Nenhum resquício da coragem diante da arma apontada para minha cabeça.
Senhor onde que eu fui me meter? Prometo que se me livrar dessa eu vou ser uma pessoa mais ajuizada. Dou um jeito de pagar essa promessa, juro que dessa vez eu falo sério! Implorei em pensamento com os olhos fechados com muita força, como se isso fosse intensificar minha oração eu torcia que algum santo, anjo, duende, qualquer coisa ouvisse minhas preces a e me tirasse dessa com vida.
Foi aí que eu senti o homem que me amarrava se afastando de mim e abri um olho só apreensiva com o que poderia ser agora, mas o que vi foi ele caindo contra meu armário de panelas. Algumas delas despencaram caindo no chão, assustando qualquer um pelo barulho ensurdecedor, mas me chamando a atenção para o meu salvador.
Algumas pessoas podem dizer que quando conheceram o cara da sua vida ouviram sinos tocar, eu ouvi panelas bater. Talvez fosse um sinal de vovó Nice.
O homem, alto e aparentemente forte de mais, se abaixou no chão puxando pelo colarinho o ladrão que carregava a arma, e que já se atrapalhava para levantar do chão, com mais um soco ele o largou inconsciente ali mesmo.
Na próxima ele aprende a ficar na frente e levar a panelada pra não sofrer tanto!
Então quando meu salvador se virou eu vi que já o conhecia. Não havia sido enviado por vovó coisa nenhuma, tinha vindo era do outro lado da rua, do bar de motoqueiros.
O cabelo grande e loiro, caindo nos ombros de forma sempre desordenada, a barba cheia e chamativa, eram a marca registrada do dono do estabelecimento em frente ao meu. Isso sem contar os braços e pescoço repletos de tatuagens, e se eu ousar imaginar sei que todo o corpo dele, até a bunda branca estão cobertos de desenhos também. E não me deixem esquecer o colete de couro apertado sobre o corpo, com o que parecia ser uma logo ou Patch como chamam.
Já tínhamos nos visto várias vezes, mas nunca falamos nada além de bom dia, isso quando acontecia o milagre de nos vermos, já que nossos horários não eram em nada parecidos.
- Você está bem? - a voz forte me atingiu do outro lado da cozinha me fazendo voltar para terra de foguete.
Como podia uma pessoa ter uma voz tão grave assim? Não parecia ser possível, o timbre do homem retumbou dentro de mim. Isso... isso... estava prestes a pedir que ele falasse de novo só para testar se aconteceria de novo, mas o olhar que ele me deu foi como se eu estivesse morrendo agachada no chão.
- Eu estou... Quer dizer acho que estou. - resmunguei tentando focar na pergunta dele. - Pensei que podia lidar com eles, mas não esperava três deles.
- Não sei se você é maluca ou corajosa de mais. - o ouvi resmungar se abaixando e passando um cinto em volta das mãos dos homens os mantendo algemados. Não me passou despercebido o insulto, mas eu estava concentrada de mais em sua desenvoltura em imobilizar os homens com o cinto para retrucar. - Aqui, liga pra polícia.
Antes mesmo que eu pudesse responder ele jogou um celular na minha direção, eu o encarei confusa ainda sentada no chão, sei que parecia uma criança perdida, mas não confiaria nas minhas próprias pernas, depois de hoje não deveria confiar no meu julgamento também.
Deslizei o dedo sobre tela que se desbloqueou sem precisar de mais. Confusa ergui meus olhos para ele, que seguia concentrado amarrando os homens. Que tipo de homem não usa senha Brasil?
Sacudi a cabeça e foquei em falar com a atendente.
- Já estão a caminho. - murmurei quando o homem tatuado se aproximou me puxando pelos braços.
- Te acertaram feio. - a voz parecia ainda mais grossa assim de perto, mas seus dedos tocaram meu rosto com delicadeza, o virando de um lado para o outro analisando o machucado do soco.
Ele me manteve apoiada contra seu corpo e tão perto do jeito que estávamos eu era capaz de reparar melhor em todas as tatuagens e nos pelos espalhados pelo rosto. Era uma confusão de cabelos grandes, sobrancelhas grossas e a barba grotesca.
Não que ele não fosse bonito, ele era e dava para ver de longe, mas o meu tipo de homem era algo bem mais delicado do que aquele homem das cavernas a minha frente.
A comoção do outro lado da rua foi grande, quando a polícia chegou, conseguimos atrair a atenção do bar inteiro.
- Vem, vamos lá dentro tomar alguma coisa pra você se acalmar. - meu salvador tatuado falou e só então eu me dei conta que ainda estava sobre seus cuidados.
A polícia já havia colhido nossos depoimentos e levado os homens, as câmeras do restaurante ajudariam com tudo, não ia ser nada difícil provar o que aconteceu aqui, mesmo que eu tenha certeza que todos que verem aquelas imagens iriam ter um grande show de stand up.
Peguei minhas coisas dentro do restaurante, pronta para partir pra casa, mas aceitei seu convite, talvez um pouco de álcool me fizesse bem depois de toda essa loucura.
Assim que adentramos o bar a gritaria e calor humano nos atingiu. Havias pessoas levantando suas bebidas em nossa direção e outras dando tapinhas nas nossas costas e rindo alto.
- Garota você é corajosa viu. Bate aqui! - disse uma mulher erguendo a mão, onde eu bati sem nem mesmo a conhecer.
- Eu sempre digo, nunca mexa com as baixinhas! - um homem passou ao meu lado me jogando uma piscadela com um sorriso enorme.
- Ei, eu não sou tão baixinha. - reclamei, mas ele já tinha se afastado.
Sim eu era baixinha, um e cinquenta e seis em uma terra de mulheres de um e setenta.
- Tá bom pessoal, tá bom, vamos deixá-la respirar. - ele me colocou em uma banqueta no bar e a banda voltou a tocar algum rock dos anos oitenta que eu não conseguia me lembrar de quem cantava, mas lembrava a letra.
Murmurei algumas estrofes enquanto a mulher que tinha me dado um hi-five colocava uma cerveja gelada na minha frente. Dei o primeiro gole deixando que o líquido frio e com goste forte de malte se espalhasse em minha boca.
Fechei meus olhos como se estivesse saboreando um prato feito na hora e não uma cerveja que estava ali já há semanas. Não podia evitar. Era sempre uma viagem quando comia ou bebia algo.
Quando abri meus olhos voltando a realidade me virei reparando no lugar, nunca havia entrado ali, apesar de trabalhar há dois anos de frente a ele não era algo que me chamasse a atenção, na verdade não era meu tipo de bar. Especialmente quando eu avistava a entrada cheia de motocicletas uma mais imponente que a outra, vários homens barbudos, tatuados, com piercings e mulheres belamente vestidas de couro e com maquiagens impecáveis.
Acorda, eu nunca subi em uma moto na minha vida inteira, todo meu guarda-roupa era repleto de vestidos coloridos e rodados, nada de couro.
Então não, nunca tinha entrado no bar Devil Heads, mas o ambiente me ganhou já de cara. No fundo do bar havia uma parede imensa feita de madeira rústica, a mesma que compunha o balcão, e estava cheia de todos os tipos de bebidas que podia imaginar, até ai tudo bem, você pode falar isso tem na maioria dos bares Maria.
Então a iluminação baixa, deixando o ambiente bem com ar de bares gringos, aqueles que você vê em filmes americanos, bem diferente da maioria dos bares que tentavam ser intimistas e acabavam parecendo com uma casa noturna.
Se isso não te ganhou te falo mais, as mesinhas espalhadas pelo salão eram na verdade barris, isso como antigos barris de cerveja, dando um toque totalmente único. Sem contar as paredes cobertas de pôsteres de bandas, fotos com cantores de rock, algumas de grupos de motoqueiros e vários, uma quantidade imensa, de adesivos antigos de bandas, motos, rock.
Se você disser que ainda sim não te pegou problema seu! Eu estava adorando cada minuto.
- Vem, vamos dançar. - Débora, a mulher simpática e garçonete do lugar, me chamou já me arrastando para a pista de dança.
Tocava um rock alto, quando ela segurou na minha mão e nós nos sacudimos como loucas.
Fazia tempo que eu não tinha esse tipo de diversão, tempo até de mais que não me permitia curtir tanto. Quem diria que para isso eu teria que quase ser assaltada e tomar algumas cervejas em um bar um tanto duvidoso?
- Ei, quer colocar um gelo nisso ai? - o herói tatuado, si eu havia apelidado o homem assim, me perguntou sem dificuldade alguma de se fazer ouvido sobre o som alto.
Eu tinha acabado de me sentar no banquinho, sentia meu corpo suado e parecia que estava eletrizada até de mais, já que tinha me esquecido completamente do que ele poderia estar falando.
Estava tão distraída com as músicas, danças e conversas de Débora que não me lembrava mais do que tinha me levado ali. Ok, podia culpar um pouquinho o álcool também.
Rapidamente ele me fez olhar no celular e ver, a maçã do meu rosto tinha adquirido um tom feio de azul ou algo assim, e parecia estar inchada.
Me ergui do banquinho aceitando sua mão estendida e deixei que ele me conduzisse até os fundos do bar. Abrindo uma porta a direita, no corredor estreito, ele me mostrou um escritório nenhum pouco organizado, se você ignorasse a bagunça de papéis em cima da mesa talvez pudesse trabalhar ali.
Ele se virou indo em direção ao mini bar e eu me concentrei inspecionando o lugar, a mesa de madeira estava quase tão cheia que mal se via o tampo dela, havia uma cadeira preta de couro desgastado atrás. Um sofá pequeno do outro lado da sala e uma estante, que mais pareciam um deposito de papéis.
Céus, ele deveria ter um bom contador para deixar aquela papelada jogada assim, foi inevitável não pensar quando me debrucei vendo melhor os documentos que estavam largados ali.
Tive que me segurar para não começar a arrumar aquilo, até cheguei a passar a mão sobre eles, mas o homem voltou rápido com um punhado de gelo envolto em uma toalha felpuda.
Sem que me deixasse dizer nada ele mesmo colocou a compressa contra meu rosto, segurando-me imóvel no lugar.
Novamente estava tão perto, como se não entendesse o que significava espaço pessoal, e as mãos me tocando com um cuidado que não parecia combinar com toda a aparência dele.
Tentei ignorá-lo depois de encarar suas íris azuis, se olhasse por muito tempo pareciam serem capazes de drenar você para dentro delas.
Acho que bebi de mais! Já não estava pensando direito, íris que drenam pessoas, está pirando de vez Maria. Sacudi a cabeça, tentando desanuviar a mente e mudei o foco para a barba loira e os cabelos revoltos da mesma cor, pareciam se emaranhar se unindo, até que não pareciam tão horríveis agora.
O braço que segurava a compressa me permitia analisar de perto os desenhos tão variados que pareciam enigmas e se perdiam até seus dedos. Ainda tinham os anéis, vários deles que os cobriam.
Ele era uma coisa grande e cheia de informação ambulante, andando por aí e salvando mulheres. O pensamento quase me fez rir, então decidi puxar assunto para me distrair.
- Qual o seu nome? - perguntei ainda encarando os dedos.
Porque a mão dele era tão grande céus? Tinha realmente necessidade?
- Miguel Ferreira. - sua voz mais uma vez parecia grave de mais em contraste com o silêncio me causando arrepios.
- Como o anjo. - murmurei encarando seu rosto. Com certeza ele tinha cara de anjo, mas do pescoço para baixo era totalmente a demonstração do contrário.
- Sim. - ele sorriu. - Minha mãe diz que eu parecia um anjo, isso até eu chegar a adolescência, ai tudo mudou. E você?
- Maria, Maria Nascimento.
- Como a virgem. - constatou fazendo como eu, mas seu comentário de repente me fez engolir em seco, meus pensamentos voando para outros lugares. - Estamos em perfeita harmonia aqui, a virgem e o anjo. - a voz grave e a conversa sobre virgindade me causou um arrepio na espinha, levando meus pensamentos cada vez mais para o lado impuro da coisa.
- Só não me diga que vou conceber um filho. - falei antes de pensar e sua gargalhada me atingiu, era lindo ver um homem daquele tamanho e com uma cara tão séria se acabando de rir. - Isso, ri mesmo, vamos acabar os dois no inferno por isso!
Mas não deu outra, eu já estava dando risada junto com ele. O diabo estava me adorando essa noite, só podia.
- Você é engraçada. Essa sua versão combina mais com as roupas que vejo você usar. - Miguel pontuou afastando o pano e voltando a conferir meu rosto com delicadeza que não condizia com o homem que aparentava ser.
- Como assim? Que versão de mim você conhecia? - perguntei confusa.
Nunca havíamos nos falado, como ele podia me conhecer? Eu tenho certeza que mesmo que estivesse em uma rave muito louca eu lembraria de um homem assim.
- Sua cara de brava e sempre tão séria quando anda na rua. Está sempre com a cara amarrada como se tentasse desvendar um mistério novo a cada dia ou prestes a matar alguém.
Foi a minha vez de gargalhar. Claro, as pessoas sempre me viam na rua e pensavam nossa que mulher louca, que pessoa mais séria e chata, mas na verdade eu provavelmente estaria pensando em alguma coisa muito idiota no momento como: a palavra sozinho no plural perde o sentido, porque se vocês estão sozinhos você não está mais só, entenderam?
- É minha cara espanta babaca. - ele fez uma cara de quem não tinha entendido, mas que já achava graça. Ótimo virei stand up agora. - Quase toda mulher anda com uma cara fechada na rua e pra evitar ouvir babaquice.
- E funciona?
- Às vezes sim, às vezes temos que enterrar alguns no quintal, nada como um dia após o outro. - seu sorriso amplo ficou congelado por uma fração de segundos. Os dentes irritantemente brancos e alinhados, mas assim que nossos olhos se cravaram ele morreu gradualmente.
A atmosfera tinha mudado em segundos, o que estava acontecendo comigo? Eu estava atraída por ele ou era o álcool? Tinha acabado de dizer que ele não fazia meu tipo, o que estava rolando aqui Brasil?
Eu geralmente precisava conversar durante dias, até semanas antes de começar a sentir uma atração assim por alguém e aqui estava esse conhecido-desconhecido me olhando há menos de cinco minutos e eu sentia meu estômago se encher de borboletas.
- Então Maria...
- Eu preciso ir, pra casa, agora. - falei sem nem respirar já me afastando dele. - Só vou chamar um carro aqui.
Pesquei meu celular no bolso da calça em busca de um carro. O aplicativo rodou, rodou, recarregou e ninguém aceitava a corrida. Todos provavelmente estavam esperando que a rua ainda estivesse cheia de policiais. Merda!
- Não vão aceitar tão cedo. - sua voz soou as minhas costas e só então me dei conta que ele viu o celular sobre meu ombro. - Vamos, eu te levo.
Miguel estava sendo um doce, prestativo, engraçado, salvador. Eu precisava que ele fosse um chato de galochas, um ogro grosso como sua aparência mostrava. Porque não podia ser babaca?
- Eu nunca andei de moto. - sussurrei de repente parecendo tímida.
Talvez isso o fizesse desistir, afinal quem no Brasil nunca andou de moto gente? Se você disse eu bate aqui e vamos para o clubinho.
- Não acredito. - eu acenei confirmando diante de sua incredulidade. - Mais um motivo para te levar, você tem que descobrir o que está perdendo.
Porque a simples frase do homem fez eu me sentir fraca? Céus Maria suma já daí!
Imaginei que fossemos atravessar o bar, mas ele me levou pelos fundos onde apenas sua moto estava parada. Não fazia ideia que modelo era aquele ou quão foda ela era, mas era imponente.
Ele me ajudou a colocar o capacete e me explicou o que fazer. Era fácil, passar a perna paro o outro lado e segurar firme nele.
Posicionei meus pés na marcação que me indicou e segurei em sua cintura. Sua proposta de "pode agarrar forte", me pareceu uma invenção sua só para que eu me esfregasse nele, mas assim que a moto ganhou vida e ele nos colocou para fora do estacionamento eu me movi para frente agarrando seu abdômen como se minha vida dependesse disso, porque na verdade dependia.
Durante o caminho eu quase consegui relaxar, vento batendo forte contra meu rosto, me arrepiando por inteiro enquanto ele acelerava apenas pra me deixar ainda mais angustiada.
Mas não podia negar que a adrenalina era uma delícia, especialmente quando ele fazia uma curva baixa e por alguns segundos eu sentia como se fossemos cair.
Mas assim que parou em frente a minha casa eu senti a falta repentina das costas largas e o calor emanando do seu corpo. Desci da moto me segurando nos seus ombros, deixei que ele retirasse o meu capacete. Seus dedos grossos tocando com cuidado a fivela em meu queixo antes de puxá-lo da minha cabeça.
Com ele ainda na moto ficávamos quase da mesma altura, me possibilitando chegar mais perto.
A luz do poste iluminava apenas seus pelos dourados da barba, atraindo toda a atenção para sua boca, fui capaz de ver o momento que sua língua deslizou para fora, passeando pelo lábio superior. Me hipnotizando com aquele gesto.
Antes que pensasse mais lancei meu corpo para frente, as mãos agarrando seu rosto com rispidez e meus lábios atacando os seus.
Ele quase perdeu o equilíbrio, mas rapidamente me segurou pela cintura. Suas mãos me apertando, desenhando por minhas costas, subindo em direção a minha nuca. Me deixando tonta, não sei se pelo prazer de sentir sua exploração ou os lábios quentes contra os meus.
A barba grossa arranhou meu rosto quando o beijei mais duro, sentindo sua língua invadir minha boca a procura da minha.
Gemi contra os seus lábios, estava entregue as mãos grandes e aos lábios experientes. E tudo que conseguia pensar era que queria mais, precisava de mais.
Mas assim que ele fez um movimento para se levantar voltei a mim, estava enlouquecendo!
Eu não fazia isso, não saia por ai beijando desconhecidos, ainda mais um que não fazia meu tipo. Me afastei dele e corri para longe, sem lhe dar uma segunda olhada ou falar algo. Simplesmente corri como uma criança entrando em casa com rapidez.
Me encostei contra a porta depois de bate-la com força, meu coração estava impetuoso e eu sabia que não era resultado da corridinha da calçada até a porta e sim pelo beijo. Que beijo meu Deus. Toquei meus lábios sentindo a sensação dos seus lábios sobre os meus.
Inferno Maria pare de pensar nisso!
O que tinha acabado de acontecer ali? Eu estava sentado na minha moto de frente a pequena casa amarela chamativa, atordoado sem saber o que tinha acabado de acontecer.
A mulher tinha acabado de me beijar e correu como o diabo fugindo da cruz sem mais nem menos.
Eu não tinha feito nada além de retribuir o ataque sedutor dela.
Havia pensado em beijá-la quando estávamos no escritório, ela gargalhando descontraída, eu segurando seu rosto delicado, e foi só olhar aqueles olhos castanhos e penetrantes para querer atacar seus lábios.
Ela tinha um gosto, agora eu sabia, de chocolate e whisky, é o sabor que tinha deixado em minha boca.
Encarei a casa por mais um tempo, às luzes ainda apagadas, nem sinal dela. Então coloquei minha Harley em movimento, atravessando as ruas de volta ao bar ainda sem entender o surto dela.
Maria Nascimento, uma mistura de menina e mulher como nunca tinha visto antes.
O seu tamanho não atrapalhou que ela derrubasse um dos assaltantes com uma frigideira como me disse, quando cheguei encontrei um sujeito no chão e dois outros concentrados nela encolhida no canto, por um minuto achei que estivesse machucada ao ver seus olhos fechados com tamanha força.
Aproveitei a distração para desarmar o babaca que fazia mira contra ela, depois de bater seu braço contra o balcão, o fazendo soltar a arma com a dor, lhe acertei um bom cruzado, foi tudo tão rápido que ele não teve tempo nem de se defender e já estava caído no chão.
Seu amigo me encarou e antes que fizesse algum movimento contra a garota o arranquei de lá atirando seu corpo magricelo em cima de um monte de panelas.
Assim que consegui chegar perto dela enxerguei seu rosto machucado e meu sangue ferveu.
Porque não pegavam alguém do tamanho deles para agredir? Ah sim, porque acabariam onde estavam, no chão!
Ela tinha tido uma tremenda sorte que eu estivesse chegando ao bar naquele minuto, tinha acabado de deixar Will na casa da minha mãe, para poder passar o resto da noite trabalhando no bar, noites de sábado eram agitadas.
Então o barulho inconfundível de tiro veio da Cantina, não pensei duas vezes e corri pra lá.
Sei o quanto imbecil foi minha atitude em correr para o meio do tiroteio sem ter uma arma ou ligar para a polícia antes, mas só pensei na baixinha de roupas coloridas e cara enfezada que com certeza estava lá dentro.
- E então salvador. - Mario falou se aproximando enquanto eu estacionava. - Ganhou a garota?
Olhei de relance para ele, havia uma mulher abraçada ao seu corpo de costas para onde eu estava, a luz baixa ajudou para que eu não conseguisse reconhecê-la.
- Sua mulher sabe que você está aqui e com outra? - minha fala fez imediatamente a mulher se afastar empurrando o homem para longe de seu corpo.
Assisti ela marchar rebolando, a bunda apertada e bem desenhada na calça de vinil preta, voltando para dentro do bar.
- Qual é cara porque estragou minha diversão? - o homem choramingou se aproximando e arrumando as calças descaradamente. - Só porque sua donzela te deixou na mão não quer dizer que deva acabar com os amigos.
Eu dei risada de sua fala, sabendo que qualquer dia desses a sua mulher iria descobrir e ia largar aquela cara feia por outro homem bem mais bonito e descente. Elena tinha potencial, era linda e inteligente, uma pena que tivesse se apaixonado por um babaca.
- Qualquer dia desses, você vai acabar sem mulher e sem as bolas. - puxei a porta pesada dos fundos para entrar já ouvindo a cacofonia grande lá dentro me atingir. - Porque não vai pra casa e faz ao menos uma mulher feliz essa noite, a sua esposa!
Não sabia qual era o problema com esses malditos idiotas. Buceta é bom? É ótimo! Mas ter uma pessoa ao seu lado e trocar por outras dez não era nada bom, prova disso é que depois de pegar outra na rua eles sempre voltavam para suas mulheres.
Eu já tinha sido casado e nunca nessa vida ousei trair Luna, se eu não podia respeitar a mulher com quem estava e lhe dar o mínimo que era fidelidade, não merecia estar com ela. Meu pensamento, me julguem.
Mas há um bom tempo tinha minha vida de solteiro, quatro anos para ser mais exato. Se dissesse que passava minhas noites em celibato estaria mentindo, eu era um homem fiel quando tinha uma mulher, agora eu não me importava se existisse uma fila delas prontas para sentar gostoso. Era só questão de dividir!
Meus dias eram consumidos por Will, cuidar de um menino de quatro anos não era trabalho fácil, na verdade nunca foi em nenhuma idade. As noites era o bar que me ocupava, não tinha muitos funcionários, não podia me dar esse luxo.
Então eu estava sempre por aqui para ajudar Débora e Lisa, especialmente em dias cheios como hoje. Dar uma escapada apenas em dias de semana, como segundas e terças. Domingos eram sagrados, reservado para família, e quando digo família me refiro a Will, minha mãe e um bando de homens barbudos e mulheres fortes e malucas, todos uniformizados com os coletes do moto clube.
- Não acredito que você terminou tão rápido dessa vez. - Lisa me provocou quando me viu chegar no balcão para ajudar. - Ela é gata, mas isso é novidade Miguel.
- Haha, muito engraçado. Porque todos acham que a levei em casa para transar?
- Porque você não perdoa ninguém! - Débora apareceu com a bandeja cheia de copos vazios e rapidamente começamos a encher com as novas bebidas. Aquilo era um exagero, eu não era tão devasso assim! - Essa sexta foi o que? As gêmeas saindo do seu escritório com as roupas amarrotadas depois de passarem a noite com você.
Ok, talvez eu fosse devasso assim, em minha defesa eu era um homem solteiro e com uma libido enorme!
- Sem falar que você salvou a garota cara, um beijinho em agradecimento seria pouco. - Lisa pontuou.
- Eu não ajudei por isso. Céus, queriam que eu assinasse um contrato antes? "Se eu te salvar você me da sua boceta em agradecimento"? Vocês são malucas! - murmurei me afastando para atender um cliente que se debruçava no balcão.
- Só estou dizendo que se um homem com sua aparência me salvasse como fez eu sentaria nele a noite toda. - para a ruiva não passou despercebido os olhares de alguns clientes que estavam por perto.
Gargalhei com sua fala, não era mentira que ela faria isso, na verdade não precisava nem salvá-la, Lisa adorava um homem grande e barbudo.
- Eu a deixei em casa, ela me agradeceu e fim da história. - menti. Ela não tinha me agradecido em nenhum momento.
- Vem cá, fala a verdade nem um beijinho de boa noite? - Débora perguntou chegando mais perto como se partilhássemos um segredo.
Senti meus lábios me traírem se abrindo em um sorriso ao lembrar de seu ataque.
- Eu sabia! - Lisa gritou batendo na madeira como se tivesse acabado de falar truco.
Decidi ignorar as duas malucas e tratei de correr no atendimento, a banda tocava a todo vapor e as pessoas não pareciam a fim de ir embora tão cedo.
Trabalhei duro madrugada a dentro, não tendo tempo pra respirar ou voltar ao assunto com as meninas, mas isso não impediu que minha mente girasse em torno do rosto delicado de pele negra, os cachos castanhos e os olhos incisivos.
Mas foi só quando entrei em casa, finalmente em meu refúgio, já às seis horas da manhã que me permiti pensar em seus lábios, o gosto deles na minha boca. Chocolate e whisky, não tinha como esquecer!
Agora toda vez que a visse passar pela rua iria pensar no sabor mais estranho e delicioso que poderia sentir vindo de seus lábios.
Foi com esse pensamento que eu peguei em um sono profundo.
- Papai, papai. - ouvi aquela voz que me trazia alegria na mesma proporção que me deixava louco. - A vovó disse que tá na hora.
Enquanto falava Will não parava de pular em minhas costas, ele sempre me acordava desse jeito? Sim. Algum dia tinha se cansado? Não.
- Hora de que? - resmunguei ainda com o rosto apertado contra o travesseiro.
- Hora de você papa.
- Que horas são? - Will estava aprendendo a ver as horas no relógio de ponteiro e eu adorava incentivá-lo mais ainda.
- O ponteiro grande tá... - pensou por um tempo parando de pular para sussurrar os números que apontavam até ter certeza - Doze! - comemorou me arrancando um sorriso amassado.
- E o pequeno? - meu filho pensou e pensou, quieto por um bom tempo, então pulou em minhas costas uma última vez antes de correr gritando:
- O papai comeu!
Joguei o lençol para o lado e fui atrás do monstrinho que corria pela casa, sacudindo a cabeleireira loira e gargalhando. Assim que o peguei jogando seu corpo no ar seu grito um misto de surpresa e felicidade me fez gargalhar.
- E agora vou devorar você! - rosnei tentando soar como um animal e mordi sua barriga.
Will ria e se contorcia em meu colo com as cócegas que causava. A gargalhada mais gostosa que eu já tinha ouvido, antes disso todas eram apenas boas gargalhadas no máximo, mas a primeira vez que ele sorriu pra mim foi como se o mundo inteiro virasse do avesso. Era tudo sobre ele desde então.
- Que tal se as duas ferinhas esfomeadas vierem logo para a mesa? - dona Magda chamou saindo da cozinha e indo direto para o jardim nos fundos da casa. - Estão todos esperando.
Minha mãe tinha sido minha parceria a vida toda, mas quando me vi viúvo e com um filho no colo ela foi meu alicerce, meu apoio. Era a mulher de nossas vidas!
Quando saímos para o jardim, seguindo a matriarca, encontramos a galera toda reunida. Todo pessoal do moto clube que meu pai praticamente fundou estava ali.
- E ai cara, pensei que não ia acordar! - Jonathan, carinhosamente apelidado de Brutos e atual presidente do clube falou.
- Tem ideia que horas fui dormir? - murmurei dando um tapinha em seu ombro, disfarçando apenas para chegar mais perto e lhe dar uma chave de braço e arrancá-lo de seu lugar a mesa.
A maioria de nós ali tínhamos crescido juntos, não era atoa que agíamos como um bando de irmãos malucos em volta da mesa, enquanto minha mãe e mais umas old lady nos encaravam enquanto rolávamos no chão.
- Já chega! Tá já deu! - Brutos gritou batendo em meu braço, mas foi só eu soltá-lo para que ele se jogasse novamente no chão em cima de mim. - Fala a verdade você estava era sonhando com alguma gostosa. - o desgraçado provocou enquanto se esfregava em mim me apertando no chão.
- Não sabia que estava rolando uma convenção de meninas! - Denis, o vice presidente do clube, se juntou a ele me esmagando no chão.
Os dois homens eram enormes, sem mais, Denis tinha por volta de um metro e oitenta e Brutos com seus quase dois metros, isso sem falar nos músculos que cultivavam com muito afinco.
- Chega os três, a comida está esfriando! - mamãe gritou e rapidamente a bagunça de cabelos e músculos se desfez.
Nos sentamos todos a mesa, as crianças ficavam na mesa menor ao lado e os quase adultos juntos.
Cada um com sua mulher, menos eu e Brutos, éramos os únicos solteiros do grupo. Brutos por não querer compromisso com nenhuma mulher, eu por estar muito ocupado sendo viúvo e criando um filho.
- Jonathan, pode dar graças meu filho. - mamãe ordenou gentilmente.
Ela era a única que tinha direito de chamar o traste assim, afinal ela tinha o visto nascer e crescer, limpou a bunda dele mais vezes do que qualquer mulher vai chegar perto de lá.
Ele não discutiu, apenas baixou a cabeça e deu graças pela família, pelos amigos, pela comida e bebida. Amém! Aqui nessa mesa não importava se acreditávamos em algum deus ou não, sempre tínhamos que ser gratos pelo que temos.
"Agradeça como uma demonstração de amor a todos a sua volta", foi o que a mãe de Brutos nos disse quando estávamos no auge da rebeldia e não entendíamos como fazendo tudo o que nossos pais faziam, chegava nesse momento e eles fechavam os olhos e agradeciam. Nunca mais discutimos.
- Ei tigre. - Denis me chamou pelo meu velho apelido, que apenas eles insistiam em continuar usando. - Ouvi que você ajudou a prender assaltantes ontem. - falou chamando a atenção de todos.
- Não foi tudo isso. - murmurei já vendo o olhar de minha mãe do outro lado da mesa me encarando com uma cara preocupada.
- Ouvi que estavam até armados cara, acho que foi algo sim. Desembucha!
- Desde quando você sai por ai bancando o herói? - Ana questionou terminando de fazer o prato do filho dela com Denis.
O garotinho tinha dois anos a mais que Will e eram amigos inseparáveis.
- O que queriam? Que eu deixasse a mulher ser assaltada e possivelmente morta? - resmunguei me servindo.
- Eu sabia que tinha mulher na parada! - Brutos gritou. - Vai quem é a maluca da vez?
Dei risada de sua pergunta, pois maluca era a palavra que podia definir ela. Enfrentando ladrões com uma panela, me beijando e correndo em seguida, ela só podia ser maluca!
- Isso define bem ela. É a dona do restaurante do outro lado da rua, três homens invadiram e tiveram a má sorte de encontrar com ela.
A imagem do homem desacordado invadiu minha mente, mas antes que eu conseguisse conter meus pensamentos voaram para ela dançando no bar horas depois, como se nada tivesse acontecendo. O vestido floral esvoaçando enquanto ela rodopiava com Débora ao som de AC/DC. Os cabelos cacheados sacudindo junto dos seus passos e as bochechas levemente vermelhas, não sei se pela bebida ou o calor.
Maria destoava totalmente do lugar e das pessoas a sua volta, mas era como se algo atraísse meus olhos para ela ali, tão livre e entregue, cantarolando algumas frases da música sem notar o rosto machucado.
Wind of Change tocou no fundo da minha mente, ignorando todo o barulho e a música a nossa volta, enquanto eu só tinha olhos para ela, que parecia exatamente isso: um vento de mudança.
- E o que aconteceu? - Brutos insistiu me trazendo de volta ao presente.
- Quando ouvi um tiro corri pra lá, ela já tinha derrubado um deles com uma panela. Mas havia mais dois, então desarmei um deles e os coloquei pra dormir.
Alguns assoviaram, ou ergueram as long necks em comemoração gargalhando.
- Ganhou a garota? - Laura lançou a pergunta que todos queriam fazer ainda com um sorriso estampado no rosto.
Ela era irmã de Brutos e apesar de todos os esforços dele para afastá-la dessa vida do clube, a mulher sempre voltava.
- Porque todo mundo continua me perguntando isso? Não, ela agradeceu e tomou umas no bar, antes de eu deixá-la em casa e dar a noite por encerrada!
Vários murmúrios de descrença me rondaram, ninguém acreditava na minha ação despretensiosa e inocente. Eu devia estar mesmo me comportando como um puto e essa era a comprovação. Mas resolvi ignorar apenas encarando minha família maluca e disfuncional enquanto almoçávamos.
Muitos anos atrás James Smith veio fugido dos Estados Unidos, sendo obrigado a deixar para trás seu antigo clube enquanto era caçado pela polícia de quase todos os estados de lá.
Assim que chegou aqui ele não perdeu tempo e começou a rondar por São Paulo em busca de pessoas para participar do novo clube de motoqueiros. Oferecendo dinheiro diante de uma crise financeira que o povo passava aqui não foi difícil para atrair meu pai, Pedro e Benício, o pai de Brutos.
Logo eles entenderam que a forma de ganhar dinheiro dele não era tão legal, mas eles não se importaram. Não demorou e os três tinham montado aqui a primeira sede brasileira dos Devil's Head MC.
Todos nós seguimos os caminhos dos nossos pais, era bom se sentir poderoso, correndo perigo. A adrenalina correndo por suas veias pode ser bem sedutora e viciante.
Mas então quando Luna morreu durante o parto eu soube que não poderia continuar seguindo nessa vida. Will foi colocado em meus braços e uma adrenalina totalmente diferente correu em minhas veias, eu já tinha visto pessoas morrerem na minha frente, membros do clube e mesmo que soubesse que ele ainda teria minha mãe e que ninguém do clube viraria as costas pra ele, não quis pagar pra ver meu filho ficando órfão.
Foi por ele que me reuni no com o clube e comuniquei minha decisão, todos respeitaram e entenderam, depois de uma votação unânime Denis assumiu meu lugar como vice-presidente e tudo seguiu como está até hoje, quatro anos depois.
A tarde passou tranquila enquanto comia e bebia, conversando e assistindo as crianças brincando no quintal. Mas conforme a noite avançou me peguei pensando novamente naqueles olhos cor de mel, os cabelos cacheados, a pele negra e os lábios com gosto único.
Pela primeira vez em anos me senti torcendo para ver uma mulher no dia seguinte.